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Roberto Acioli de Oliveira

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5 de abr de 2008

Rostos: Fisiognomonia (Epílogo)



A Negação de Alguém Passa por Negar Seu Rosto


O rosto é privilégio do homem. Deus não está para além do homem, está para além do rosto. Assim o antropólogo David Le Breton define a importância do rosto para nós (1). Muitas são as culturas em que Deus não tem corpo, a nossa é apenas mais uma das que o define apenas com palavras. O cara a cara com Deus é impensável. Como pode o rosto ser tão importante nessa sociedade onde seu próprio Deus não tem um? O homem possui o rosto que Deus lhe deu. A tradição bíblica, retomada mais tarde pelo Islamismo, opõe-se à produção de imagens.

O rosto e as mãos estão sempre nus, livres das roupas. Temos apenas um nariz, dois olhos duas sobrancelhas, uma boca, duas orelhas, uma testa e duas bochechas. Mas que diversidade de expressões pode-se modelar com essas ferramentas! Não somos os únicos a habitar nossos traços de expressão, o rosto dos outros está lá também. O rosto é o lugar do Outro, e ele faz parte de nós. “O Eu é um Outro”, problemático, ambíguo. Qual relação tem meus traços de expressão comigo? Talvez, a primeira coisa que podemos ver em nossos rostos (quando finalmente nos olhamos) seja o tempo, e a percepção de nossa vulnerabilidade. (imagem acima, Brazil, o filme. direção Terry gillian, 1985).

Infelizmente, nós do ocidente achamos que envelhecer é perder no jogo, perder o rosto. Diante do espelho nos olhamos como estrangeiros, com o sentimento de haver perdido o essencial. Vivemos na lembrança de um rosto perdido, um rosto de referência. Um rosto que se interioriza, que atiça a nostalgia e martela a evidencia da precariedade da vida. Talvez seja esse rosto que a maquiagem procura embelezar ou que a cirurgia estética tenta restaurar, fixando uma eterna juventude. O rosto exterior (estrangeiro em nós) torna-se nosso rosto interior. Esse é o rosto que perseguimos quando envelhecemos. Chegamos mesmo a considerar que nosso rosto envelhecido não é nosso rosto. Se o rosto é o lugar do sentimento de identidade, a desfiguração é vivida como um desmantelamento de si (2).

O País que Dissimula Unido... 


“O rosto morto torna-se forma, máscara mortuária. Ele 
se mostra em lugar de se deixar ver. Mais precisamente, ele não aparece mais como rosto”

Emmanuel Levinas
Totalité et Infini


O grau zero da expressividade do rosto parece uma meta inatingível. A Fisiognomonia só consegue afirmar-se no ambiente místico, onde a justificativa simbólica para esta ou aquela expressão facial é sempre um elemento intangível e fruto de preconceitos inconfessáveis. Tudo isso por conta de nossa busca por reduzir a ambivalência e a imprevisibilidade que os outros representam para nós e nossas vidas: essa é a meta que domina a fisiognomonia (3).

As muitas tentativas de atingir a “verdade profunda” dos rostos geralmente não redundam em propostas minimamente sérias. Vimos a sugestão de Galton no final do século 19, o rosto de alguém que esteja dormindo ou morto seria o melhor momento para tentar perceber a personalidade que se escondia por trás daquela máscara. A crença nessa “verdade profunda” é tanta que quase nos esquecemos que a expressividade de nosso rosto depende também da presença dos outros no cotidiano, assim como de nossos sonhos.

Na verdade, como nos explica David Le Breton (4), essa impassibilidade do rosto morto é um esforço íntimo altamente ritualístico e consciente, no qual procuramos dissimular nossos sentimentos em função de uma rede simbólica que nos proteja do julgamento dos outros. Sem essa possibilidade, os laços sociais correm o risco de serem rompidos, já que tudo seria dito!

Imaginem alguém que seja culpado de algo e não consegue disfarçar, ou alguém que está sendo assaltado nesse momento e disfarça sua preocupação; o que dizer das estórias que são contadas por homens e mulheres para manter suas mentiras à sombra e para que seus relacionamentos continuem! Pensem em que cara deve fazer um ladrão que no fundo está em pânico, ou um político corrupto tentando dar nó em pingo d’água para se safar de uma situação irregular em que foi descoberto. Se não conseguimos nos conter, a impassibilidade se rompe e nossa atuação no palco da sociedade se torna evidente para aqueles que pretendam nos “descobrir”.

Em sociedades totalitárias (em que a delação é a regra) ou cidades provincianas (em que a fofoca é a razão de viver de muitos), onde os laços de confiança entre as pessoas estão corroídos, o ritual provisório da impassibilidade torna-se uma constante. Nestas circunstâncias, a capacidade de dissimular torna-se uma exigência na estratégia de sobrevivência e também uma forma de autismo no coração do social. Certa vez, assistindo um documentário sobre aquele país da Europa oriental, a Hungria, ouvi a afirmação de que é do temperamento desse povo não exteriorizar suas emoções – seja alegria ou tristeza. Já ouvi comentários idênticos a respeito da Suécia – aquele país que fica um pouco mais ao norte, fazendo fronteira com a Noruega. Mircéa Dinescu, poeta deste outro país vizinho da Hungria na Europa oriental, a Romênia, nos fala do cotidiano da vida durante a ditadura de Ceaucescu. Tudo era tenso e as pessoas tinham um ar preocupado e inquieto. Ainda assim, Dinescu disse que os Romenos não são como os nórdicos (que é a região onde fica a Suécia), afirmando que em casa eles riem muito de tudo, mesmo de coisas trágicas. Mas não podemos confundir a expressão da indiferença com o sentimento de indiferença. Como já disse Elias Canetti:



“O costume não toma em todo lugar a mesma posição em relação ao livre jogo da fisionomia. Muitas civilizações limitam imensamente a liberdade do rosto. Mostrar imediatamente seu sofrimento ou sua alegria passa por inconveniente, os deixamos dentro de nós e o rosto se mantém calmo”. (5) (imagem acima, trabalho do escultor Franz Xaver Messerschmidt, 1770-83)

Aqui, no Brasil, não temos mais ditadura. Aqui no Brasil, rimos muitos, falamos alto... Entretanto, temos a pior distribuição de renda do planeta. Não seria essa a nossa verdadeira e única ditadura? Além disso, quando reunimos essa distribuição de renda antidemocrática à ditadura do mercado (que nos impõe a neurose de sempre desejar comprar mais e mais), o que temos são consumidores neuróticos. Como será que ficam nossos rostos, nossos corpos, diante desta realidade opressiva e desnorteante? E nossa alegria proverbial, será que diante desta realidade nosso riso não se torna neurótico e vazio? Será que nesta sociedade tão alegre a dissimulação dos sentimentos é necessária? Temo que sim, cada vez mais! Disfarçamos quando não temos dinheiro, disfarçamos quando temos. Na falta de uma vida interior, o consumidor neurótico não consegue conversar consigo mesmo, então faz da fofoca um modo de vida.


Até que ponto o sorriso dos negros desse país traduz alegria? Esse riso pode ser mais uma fuga, mais um quilombo para onde esses desterrados fogem. Alguma coisa mudou de fato para quem era marcado como gado e tratado como mercadoria? Será que os negros desse país não seriam os reais mestres da impassibilidade? Dissimular, disfarçar sempre, nessa sociedade onde os brancos mentem para si mesmos tentando se convencer que não são escravos eles próprios de um sistema político corrupto que eles são covardes demais para limpar.




Notas:

1. LE BRETON, David. Des Visages. Essai d’Anthropologie. Paris: Éditions M. E. Métailié, 1992. Pp. 15 e 17.
2. Idem, p. 12.
3. Ibidem.
4. Ibidem, pp. 258-263.
5. Elias Canetti, Masse et Puissance (1966) citado em LE BRETON, David. Op. Cit., p. 260. 


4 de abr de 2008

Rostos: Fisiognomonia (V)


Cesare Lombroso


Falar de Cesare Lombroso neste trabalho obedece a uma dupla função. Além de um lugar de destaque nas tentativas de cientificização do discurso sobre a aparência e os movimentos expressivos, suas idéias tiveram muita influência no Brasil entre criminologistas e juristas. Entre seus livros estão O Delinqüente (L’Uomo Delinqüente, 1876) (imagem ao lado), e O Crime, Causas e Remédios (1899). Lombroso morreu em 1909 (1).

Criminologista e professor universitário italiano torna-se famoso por suas teorias no campo da caracteriologia, como a craniologia e a fisionomia, buscando uma relação entre características físicas e mentais. Procurava-se relacionar, por exemplo, o tamanho da mandíbula e a psicopatologia criminal, a tendência inata de alguns indivíduos para a sociopatia e o crime. O ponto de vista lombrosiano foi tributário direto da frenologia, criada no princípio do século 19 pelo alemão Franz Joseph Gall. Cientificamente, sua teoria foi desacreditada, entretanto produziu um impulso decisivo para a antropologia criminal - o estudo científico da mente criminosa.

Inspirado nos modelos evolucionistas do final do século XIX propunha que alguns criminosos carregam uma evidência física de caráter atávico ou hereditário, remanescente de um comportamento adquirido nos mais primitivos estágios da evolução humana. Anormalidades nas dimensões do crânio e mandíbula, assimetrias no rosto e outras partes do corpo, eram chamadas Stigmata: os criminosos mostrariam em seus rostos assim como em seus corpos aquilo que Lombroso gostava de chamar “estigmata de degenerescência” (2). Suas especulações foram substituídas mais tarde por teorias baseadas em causas ambientais.

Entre 1750 e 1850 os fisionomistas e os frenologistas tentaram provar que existe uma ligação entre a propensão ao comportamento criminoso e uma aparência pouco usual (basicamente rosto, ouvidos e olhos) e a forma do crânio (inchaços ou galos sendo um indicador das áreas dominantes do cérebro). Os fisionomistas estudavam a aparência do rosto e os frenologistas estudavam os galos na cabeça. São as bases da antropologia criminal. Segundo os frenologistas, o “exercício mental” poderia regenerar um criminoso. No século 20, chamou-se Constitucionalismo ao estudo da constituição física do corpo. A busca pelo criminoso constitucionalmente determinado se estendeu até 1950.

O trabalho de Ernest Hooton, um antropólogo de Harvard, populariza o Constitucionalismo nos Estados Unidos a partir da década de 30. Concluiu que os criminosos são inferiores aos cidadãos comuns em todos os aspectos físicos. Seu racismo ficou patente quando afirmou que a testa negróide era um perfeito exemplo de testa criminosa. Na década de 40, William Sheldon chamou atenção para as características físicas dos delinqüentes jovens. Produziu um Índice de Delinqüência baseado em fotografias, que determinariam quais deveriam ser institucionalizados. Sua abordagem às vezes é referida como Teoria Somatotípica. Seus procedimentos foram apoiados por Eleanor Glueck nos anos 50. Suas pesquisas sugeriam que rosto estreito, peito estufado, cintura mais larga e maiores antebraços estão associados com 60% dos delinqüentes e 30% dos não delinqüentes.

Francis Galton (1822-1911), cientista britânico e parente de Charles Darwin, tornou-se famoso por seu trabalho em antropologia e hereditariedade. Tido como o fundador da ciência da eugenia, seus escritos sobre hereditariedade muito influenciaram Lombroso. Segundo Galton, considerando a população como um todo, através de sucessivas gerações, o caráter e o talento reverteriam a uma média, vista por ele como medida de mediocridade física e intelectual. Galton procurou entender os processos hereditários, acreditava que ao conseguir compreender seus mecanismos, poderia aumentar a freqüência de traços desejáveis. (imagem ao lado, Alpholse Bertillon, Tableau Synoptique des Traits Physiognomiques, 1901-16).

As qualidades indesejáveis que Galton pretendia erradicar intrigavam Lombroso. Baseando-se na teoria da seleção natural de Darwin, Lombroso concluiu que em qualquer população, um pequeno número de indivíduos poderia exibir instintos extremamente primitivos. Constituiriam retrocessos evolucionários – estes são os casos de atavismo.

Sua hipótese afirmava que, nas sociedades primitivas, indivíduos com esses traços estariam mais equipados para sobreviver. Forte desejo de matar os teria transformado em ótimos caçadores e parceiros sexuais disputados. Nas sociedades “civilizadas e urbanas” da Europa, esse atavismo provavelmente seria a causa do comportamento criminoso. Entretanto, argumentou Lombroso, tais indivíduos não teriam muitas possibilidades de sobreviver nas sociedades industriais, posto apresentar baixa fertilidade. Ainda assim, Lombroso mostrou que nos campos europeus e nas áreas industriais (onde havia muitas favelas) esses indivíduos com características primitivas estariam apresentando um grau de fertilidade maior. Concluiu então pelo aumento de qualidades sociais indesejáveis nas pessoas destas classes sociais.(Imagem abaixo, tipos criminosos segundo Lombroso).

Desejava demonstrar, por exemplo, que a tatuagem entre criminosos indicava a sobrevivência de instintos primitivos. Sabemos que existem códigos entre os detentos que passam por tatuagens. Remoção das tatuagens, assim como a cirurgia plástica, foram algumas das práticas que encontraram seu caminho nos programas de reabilitação nos Estados Unidos no passado. Lombroso também escreveu sobre uma articulação entre mulher e crime.

Lombroso conclui que o criminoso não é uma vítima de circunstâncias sociais desfavoráveis. Contudo, era um defensor dos bons tratos aos detentos, já que seria imoral não adotar uma atitude humanitária com aqueles biologicamente incapazes de neutralizar o próprio comportamento anti-social. Apostou, assim como Galton, que a prevenção do crime demandava uma ciência da eugenia que permitiria aos governos implementar programas de melhoramento social e moral através da procriação. Temos aqui as bases científicas de uma tendência muito disseminada no princípio do século 20 (inclusive implementadas por políticas públicas em diversos países), e que também está na base da limpeza étnico-estética de Hitler(3).

No mundo anglófono, a teoria da criminalidade atávica conquistou muitos nomes influentes na ciência de seu tempo, contudo tornou-se de fato mais conhecida por artigos como o de J. Holt Schooling, na revista Harmsworth, que em 1898 escreveu Sinais de Perigo da Natureza. Tais artigos colocaram Lombroso no mapa das classes e grupos sociais xenófobos e racistas. Ainda assim, havia um ceticismo em relação a suas idéias. No Congresso Internacional de Antropologia Criminal, em 1889 na França, os especialistas o criticaram. Defendiam a hipótese de que as origens do crime seriam encontradas nas condições sociais e não em tendências inatas. De fato, mesmo que o holocausto de Hitler ainda demorasse mais 40 anos para chegar, já começa um movimento nas nascentes ciências sociais em direção oposta às teorias de cunho biológico.

(As quatro partes anteriores deste artigo encontram-se no arquivo de março de 2008)

Notas:

1. SABBATINI, Renato M. E. Phrenology: the history of brain localization. Salvo quando referenciado, estas observações são retiradas do site onde reproduziu parte de seu texto. http://www.cerebromente.org.br/n01/frenolog/frenologia.htm
2. LIGGETT, John. The Human Face. London: Constable, 1974. P. 244.
3. O documentário de Peter Cohen, Homo Sapiens 1900 (1998), apresenta farto material sobre o tema. Lançado em dvd no Brasil pela Versátil Home Vídeo (2007).

3 de abr de 2008

Rostos: Fisiognomonia (IV)



Charles Darwin



O pai da teoria sobre a evolução das espécies era de opinião que os movimentos expressivos do rosto e do corpo aumentavam bastante o poder da linguagem falada. Seu interesse na problemática fisiognomônica foi tão profundo que escreveu um livro sobre o tema. Trata-se de A Expressão das Emoções no Homem e nos Animais, publicado em 1872. Os títulos dos capítulos já mostram claramente que Darwin não tinha dúvidas quanto à pertinência de tal discussão: Princípios Gerais da Expressão, desânimo, amor, reflexão, ódio, desdém, culpa, orgulho, medo, vergonha. O renomado etologista Konrad Lorenz, no prefácio que escreveu para apresentar o estudo de Darwin, o coloca como o ponto de partida da etologia (1) (imagem ao lado, cão da raça pitbull; abaixo, orangotango). Entretanto, Darwin distingue entre expressão e fisionomia, esclarecendo que seu interesse recai sobre a busca das causas da primeira. Segundo ele, as hipóteses até então aventadas pouco ou nada esclarecem por considerarem homem e animal como criações independentes. Em seus próprios termos...


“De acordo com essa doutrina, toda e qualquer coisa pode ser igualmente bem explicada; e isso se provou ser tão pernicioso com respeito à Expressão quanto com respeito a qualquer outro ramo da história natural. Nos humanos, algumas expressões, como o arrepiar dos cabelos sob a influência de terror extremo, ou mostrar os dentes quando furioso ao extremo, dificilmente podem ser compreendidas sem a crença de que o homem existiu um dia numa forma mais inferior e animalesca. A partilha de certas expressões por espécies diferentes ainda que próximas, como na contração dos mesmos músculos faciais durante o riso pelo homem e por vários grupos de macacos, torna-se mais inteligível se acreditamos que ambos descendem de um ancestral comum. Aquele que admitir que, no geral, a estrutura e os hábitos de todos os animais evoluíram gradualmente, abordará toda a questão da Expressão a partir de uma perspectiva nova e interessante”. (2)


A partir daí, Darwin sugere alguns meios para escaparmos das opiniões do senso comum. 1) observar crianças, pois além de considerar a pureza da fonte de suas emoções, dado o pouco contato com a complexidade emocional posterior dos humanos, a intensidade com a qual são expressas é considerada muito grande; 2) observar loucos, pois além de expressar suas paixões sem nenhum controle, estas se manifestam também intensamente; 3) observar fotografias de rostos previamente galvanizados; 4) observar pinturas, ainda que Darwin tenha feito ressalvas, pois considerou que a excessiva contração dos músculos faciais pode nos induzir ao erro; 5) Observar diferentes raças humanas, especialmente aquelas que pouco contato tiveram com os europeus, buscando saber se as feições quanto à determinada emoção se repetem da mesma forma, no intuito de estabelecer se tais expressões são inatas. 6) observar animais, porque estaríamos menos propensos às influências da imaginação, já que as expressões não seriam convencionadas (3).

Chegou então a três princípios que segundo ele explicam a origem dos movimentos expressivos (4). No primeiro, uma expressão torna-se habitual quando é repetida com o objetivo de satisfazer um desejo, ainda que não se pretenda agir como indicado pela expressão (como quando alguém indignado assume uma atitude própria para a luta, mesmo que sua intenção não seja realmente atacar). O segundo princípio afirma que a expressão de alguém pode mudar para seu completo oposto quando se verifica que a intenção daquele outro que se aproxima não corresponde ao esperado (como quando um cachorro late e assume postura de ataque em relação a alguém, mudando instantaneamente para uma postura de submissão quando percebe que é seu dono quem se aproxima). No terceiro princípio, a influência de um sistema nervoso agindo independente da vontade na produção de movimentos expressivos (tremores musculares, o suor da pele). Estes três princípios agem em combinação, nunca estão isolados.


Darwin insiste na hipótese de que os movimentos expressivos, tanto em homens quanto em animais, são inatos e hereditários. O que não quer dizer que algumas expressões, apesar de sua origem inata, não requeiram certa prática até serem desempenhadas perfeitamente. Assim, ainda que a vontade e a consciência tenham um papel, não estamos necessariamente conscientes dos músculos que utilizamos para produzi-los.


Encontrar a fronteira entre os elementos instintivos e não instintivos na produção dos movimentos expressivos sempre foi o problema de Darwin. Comenta o argumento de um Sr. Lemoine, para quem se o homem possuísse um conhecimento inato das expressões, escritores e artistas não teriam a dificuldade que ele considera que tem para retratar os sinais característicos de cada estado de espírito. Segundo Darwin, este argumento não se sustenta, posto que nossa enorme capacidade de perceber mudanças na expressão de alguém não é acompanha de igual eficiência quando tentamos analisar a natureza da mudança (5). Encerra seu livro afirmando que, seja qual for a origem dos movimentos expressivos do rosto e do corpo, são eles muito importantes para nosso bem estar.

(A seqüência deste artigo encontra-se no arquivo de abril de 2008)


Notas:

1. DARWIN, Charles. A expressão das emoções no homem e nos animais. Tradução Leon de Souza Lobo Garcia. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.
2. Idem, pp. 21-22.
3. Ibidem, pp. 23-27.
4. Ibidem, conclusão e os primeiros três capítulos.
5. Ibidem, p. 334.

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