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Roberto Acioli de Oliveira

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29 de jun de 2008

Os Seios da República: Conexão Seios (Epílogo)



“Meus seios não são muito
grandes
. Por isso, não se trata
de um assunto importante”


Nicole Kidman,
atriz norte-americana,
comenta que adora
fazer topless


Seio + Silicone = ETesão 

Cada cultura gira em torno de seus próprios fetiches em relação ao corpo humano. As mulheres americanas, e todas aquelas dos países cuja cultura é colonizada pelos valores do “grande irmão do norte”, que o digam. Ou talvez nem saibam disso, já que uma das características mais enraizadas dessa cultura ocidental/mercadológica é a alienação. Até que ponto as mudanças de comportamento em relação ao seio são fruto na verdade de interesses comerciais? Até que ponto a mídia, com suas representações daquilo que seja uma mulher desejável, funciona como potencializador desse consumismo desfigurador? Ao final e ao cabo, os padrões de aparência são formados não por costumes sociais, mas por imagens criadas em função de interesses comerciais. É o capitalismo (as)segurando o seio como objeto de lucro! Um estudo sueco envolvendo 39 mulheres que optaram por implantes de silicone mostrou que a maior parte associava seios grandes e aumento da feminilidade. Na América do Norte, lá pela década de ’90, o aumento dos seios era a segunda operação cosmética mais freqüente, perdendo apenas para a lipoaspiração. As mulheres americanas gastam milhões em cirurgias cosméticas visando diminuir a parte inferior do corpo (a bunda) e aumentar a superior (os seios) (1). 

O surto das mulheres americanas em relação ao aumento de mamas começa em 1940. Lá pela década de ’50, ter seios pequenos passou a ser considerado uma espécie de doença, um problema médico. Várias foram as tentativas na busca do elemento ideal para aumentar o seio, e muitos os problemas clínicos posteriores às cirurgias até que em 1970 o silicone fosse utilizado. Apesar dos efeitos colaterais ainda não poderem ser considerados completamente sanados, as mulheres acreditam que os benefícios superam os riscos (2). Phyllis Porter, com 80 anos de idade em 2002, que ficara famosa por pagar 25,000 dólares por um tratamento com botox, é também a mulher de mais idade a aumentar os seios (3). Ao que parece, para os americanos (do norte) a imagem dos seios desnudos tem mais relação com dinheiro/silicone do que com simbolismo de liberdade. O que talvez explique porque este país gasta tanto com operações de aumento de mamas e ao mesmo tempo proíbe sua exposição pública. 

A nova República Francesa era frequentemente representada como uma
mulher “a abrir os seios a todos os cidadãos”. Na gravura da esquerda, A França
Republicana Oferecendo o Seio a todos os Cidadãos, cerca de 1790. Podemos ver uma
plaina de carpinteiro presa no decote, simbolizando a igualdade de acesso a todos. Gravura
da direita, A Natureza como Mãe Igualitária, cerca de 1790. Durante a campanha para
libertar os escravos das Índias Ocidentais, a Nação Francesa era retratada como uma
mãe generosa amamentando tanto uma criança branca quanto uma negra 


Onde Estão as Tetas da Senhora Liberdade? 

Quando o presidente norte-americano George W. Bush criticou a França por não ter aderido à invasão do Iraque, sugeriu que aquele país europeu estaria do lado errado. Também disse que tinham muito que aprender com os americanos e sua história. O que Bush parecia não ter aprendido na escola é que um dos símbolos de seu país (a Estátua da Liberdade, ao lado) foi presente do governo francês em 1865, em homenagem àquela que, ainda uma jovem nação, tinha a reputação de terra da liberdade. Muito antes disso, a ajuda material da França foi crucial para a independência norte-americana. A estátua surgiu de uma conversa entre franceses, que na ocasião viviam sob a opressão de Napoleão III, elogiando a capacidade dos americanos de estabelecer um governo democrático. Desejavam copiar esse modelo em seu próprio país. Dando um pequeno salto para 1987, alguns devem se lembrar da posição em que a atriz pornô Cicciolina se deixou fotografar durante a campanha em que concorreu ao parlamento italiano. Ela posou como a estátua da liberdade. Entretanto, Cicciolina mostrava os seios (imagem do lado esquerdo). Se lembrarmos das representações da república entre os franceses, iremos encontrar mulheres de seios desnudos. A idéia era sugerir que a República é como uma mãe, que acolhe e alimenta seus filhos, sem favorecimentos individuais. Por outro lado, quando os franceses desejaram homenagear a defesa da liberdade que caracterizava os norte-americanos, presentearam-lhes com uma mulher de seios cobertos.

Para sermos otimistas, talvez os americanos já fossem contra a exposição pública de seios, e os franceses não pretendessem questionar a representação da liberdade que aqueles pudessem ter. De fato, segundo Marilym Yalom, atualmente as leis americanas são rígidas, as mulheres são proibidas de expor os mamilos e/ou a zona abaixo deles. Por outro lado, lá na América (do norte) seio grande é mania nacional, embora aparentemente esse hábito nada tenha para oferecer além de um simbolismo erótico aliado à mercantilização de acessórios de sustentação – incluindo implantes de silicone. Na verdade, acho que os franceses só estavam seguindo modelos das estátuas gregas da Antiguidade Clássica. (abaixo, à esquerda, a Estátua da Liberdade beija a representação grega da justiça - de olhos vendados. Charge de autoria de Mirko)


Há muito que a idéia de Nação está ligada a imagem de seios nus. Como já foi apontado, na construção da noção de República, a representação escolhida pelos franceses foi uma mulher de seios nus. Bem antes já havia sido produzida uma diferenciação entre o “seio bom” e o “seio mau”. Lady Macbeth, a figura criada por Shakespeare, era uma dessas que tinha “seios maus”. O “seio bom” é aquele que vai prover alimento para seus filhos. “Foi o que aconteceu a quinhentos anos nas pinturas italianas da Virgem amamentando, e há duzentos anos nas imagens de seios desnudos da Liberdade, da Igualdade e da nova República Francesa” (4).


Não é por acaso que aqui no Brasil é muito comum o comentário de que alguém está “mamando nas tetas do governo”. Sim, porque de mãe provedora o Estado brasileiro nunca teve nada, desde sua fundação. Se “aprofundamos” essas associações simbólicas, talvez outros sejam os caminhos que constituíram as nádegas como a preferência nacional do brasileiro: o Estado para os brasileiros é mais um estuprador do que uma mãe com seios cheios de leite. Podemos até desejar que os seios da República do Brasil sejam empinados, mas deveríamos procurar ter certeza de que pelo menos não sejam falsos!

Os Seios Turbinados e Suas Personas (Ingratas)

Neste admirável mundo novo do artificial, somente as mulheres podem dizer se esta corrida para turbinar os seios é um comportamento histérico induzido pelos modelos de beleza impostos pela cultura de massas/americana ou se, ao contrário, é um brado de libertação (imagem ao lado, A Liberdade Guiando o Povo, Delacroix, detalhe). Não se trata aqui de uma cruzada contra os seios grandes. A questão é pensar a real motivação para (que as mulheres brasileiras desejem) inflá-los artificialmente (turbiná-los). Não serei eu que vou decidir por elas quem elas são, ou querem ser, ou acreditam que são. Não serei eu quem dirá que a sociedade de consumo manipula os desejos e interesses das mulheres que não suportam a pressão de ser como realmente gostariam de ser. Resta saber se elas percebem no que estão se tornando. Afinal, como disse Zelig/Woody Allen em outro lugar (5), é mais seguro ser como todos os outros. Não sou eu quem afirmará que tornar-se cópia dos outros é como adotar personas ingratas – duplos de si invertidos, que nos devolvem um mundo de ponta cabeça, justo o oposto daquilo que desejávamos. Não sou eu quem dirá que talvez seja aí a rachadura na prótese de silicone, por onde se infiltram e se reproduzem os modelos manipulatórios, subjacentes à cultura de massas.

Um seio é apenas um seio?

Leia também:

As Deusas de François Truffaut

Notas:

1. YALOM, Marilyn..História do Seio. Tradução Maria Augusta Júdice. Lisboa: Teorema, 1998. Pp. 18, 282 e 292.
2. GILMAN, Sander L. La sorprendente historia de la cirurgía estética In Cirurgia Estética. TASCHEN, Angelika (ed.). Köln: Taschen, 2005. Pp. 101-102.
3. Idem, pp. 97-101.
4. YALOM, Marilyn. Op. cit., p. 14.
5. Me refiro a Zelig (1983), filme dirigido pelo norte-americano Woody Allen.

28 de jun de 2008

Fetiches Digitais: Conexão Seios (III)


"Os  homens  se  deitam
eufóricos com Gilda e acordam decepcionados com Rita"


Rita Hayword, atriz norte-americana,
comentando o constrangimento que já
lhe trouxe a constatação pelos homens
de que ela não é Gilda, personagem que
um dia representou nas telas de cinema


Seios Virtuais, Violência e Morte

O mundo digital da realidade virtual também já foi invadido pelo fetiche (norte-)americano. As heroínas dos jogos de computador (também chamados no idioma colonizado brasileiro de games – leia-se “gueimes”) são peitudas e magras. Além disso, são totalmente masculinas (viris e violentas). Tiro pra cá, tiro pra lá. Tudo muito educativo é claro! Mais uma dessas modas que veio “do norte”, seios grandes nunca foi uma preferência nacional brasileira – leia-se culturalmente produzida no “seio” da sociedade brasileira. Do jeito que somos macacos de imitação, vai chegar o dia que mutilaremos a nossa preferência nacional (a bunda) só para que possamos dizer que estamos na moda – lá nos “esteites” o ideal é muito busto e pouca bunda.

Noventa por cento dos jogos de computador são vendidos para pessoas acima dos dezoito anos (1). Com isso quero sugerir que os jogos de computador não são mais feitos somente para crianças. Mas isso significa que os temas se diversificaram? Política, história, ecologia, literatura, poesia, teatro, romance, filosofia, cinema, medicina, direitos civis, mensagens contra a violência em relação à mulher/filhos/negros/pobres, esportes? Bem, não exatamente. Esportes até existem nos jogos de computador, mas o forte gira em torno de violência e morte. Jogos em que mulheres são heroínas invariavelmente não exaltam personalidades humanitárias. Vejamos alguns exemplos nos jogos, Dead or Alive, Druuna (imagem acima, lado esquerdo), Fear Effect, No One Lives Forever, Perfect Dark, Tomb Raider e Urban Chaos. As mulheres são aí representadas como meros objetos sexuais, suas armas seriam talvez símbolos fálicos que matam principalmente homens. Sendo assim, elas são gostosas e peitudas, mas ao mesmo tempo destruidoras de homens. Como os criadores destes jogos são principalmente homens, talvez Freud explique. “E como poderá um homem alguma vez ter esperança de encarnar uma mulher, mesmo sendo ela virtual?” (2)

Quem São as Peitudas Virtuais 


Joan “Perfect” Dark, a personagem de Perfect Dark e Cate Archer, a heroína sexy de No One Lives Forever, não passam de clones de James Bond em corpo de mulher; ou Lara Croft, personagem de Tomb Raider, versão feminina de Indiana Jones (ao lado). Lara Croft é uma arqueóloga, entretanto as únicas qualidades que parecem interessar aos homens/consumidores seriam uma capacidade de agir violentamente e o belo corpo. Hitomi a karateca, Tina a lutadora, Lei Fanf mestre em t’ai chi e Ayana a ninja, estas são as personagens de Dead or Alive. Morto ou vivo, como diz o título, apresenta meninas/mulheres com roupas sensuais participando de um torneio de artes marciais onde nada é ilegal. Ah, temos a opção de escolher as roupas delas! A alma de Druuna é prisioneira de um mundo dominado por um vírus que provoca a busca por sexo e sangue. O jogador deverá libertá-la. O jogo foi baseado em estória em quadrinhos do mesmo nome, apenas foram cortadas ou suavizadas as práticas sexuais violentas e a brutalidade sanguinária. Ainda assim pergunta-se, mulheres gordas e de peito caído não tem direito a estar possuídas por um vírus pornográfico?


Em Fear Effect duas mulheres (uma delas é classificada como euro-asiática) e máquinas de matar atacam o crime organizado, sem a preocupação em seguir as regras. O jogo “joga” também com o fetiche masculino de um homossexualismo feminino insinuado. D’Arcy Stern é uma policial negra armada até os dentes em Urban Chaos. Curiosamente, mesmo que as várias mulheres tenham as mais variadas origens (euro-asiática, afro-americana), isso somente fica um pouco marcado no rosto, pois no restante o corpo parece basicamente o mesmo – e os seios grandes e empinados também. (3)

Um seio é apenas um seio?

Notas:

1. CHOQUET, David (ed.).1000 Game Heroes. Köln: Taschen, 2002. P. 517.
2. Idem, p. 505.
3. Ibidem, pp. 506-41. 


24 de jun de 2008

A Guerra dos Seios: Conexão Seios (II)


A Guerra dos Seios nas Histórias em Quadrinhos



Existe um ponto onde se encontram “peitões de silicone”, “peitões de papel” e os “tigres de papel”. Chamo de peitões de papel aos mamilos das heroínas de histórias em quadrinhos que, principalmente a partir das vésperas da Segunda Guerra Mundial, começam a povoar os olhos, corações e mentes dos garotos e garotas (na América do Norte) e os soldados (norte-)americanos nos campos de batalha. Tigres de papel era como os chineses se referiam aos (norte-)americanos. (ao lado esquerdo, a Bat Girl na versão para tv na década de 60 do século 20; do lado direito, sua rival, a Mulher Gato também na da década de 60 na versão para tv)


Entre dezembro de 1941 e janeiro de 1942, poucas semanas antes da América (do Note) entrar oficialmente na Segunda Guerra Mundial, a indústria dos quadrinhos apresenta a Mulher Maravilha aos garotos americanos; e também para as garotas e mulheres, que tiveram que assumir a casa e o trabalho nas fábricas. Ela vivia numa ilha perdida com um monte de amazonas com poderes mágicos e imortais – o que significa que elas não precisavam de homens para se reproduzir. Então um piloto americano cai ali e a rainha manda a própria filha com ele para o mundo exterior para “lutar pela América, a última cidadela da democracia, e dos direitos iguais para mulheres” (1). A própria rainha desenha a roupinha da filha, que vem a ser um biquíni (da época) com as cores e estrelas da bandeira (norte) Americana. Tempos depois, lá pela década de ’70, a heroína ressurge na televisão. Em 1976, “a mulher” aparece tentando reabilitar sua inimiga, uma espiã nazista (2).

A Mulher Maravilha compartilha com Batman e Super-Homem a distinção de manter uma publicação por mais de 50 anos. Ela foi a primeira mulher e objeto da cultura de massas que batia e subjugava os homens além de ser mais honesta que eles. Com o fim da guerra as vendas caíram, pois com a volta dos seus homens e maridos, as mulheres foram forçadas a voltar para a cozinha. Curiosamente (ou não), seu criador foi um psicólogo, um crítico das histórias em quadrinhos e inventor do detector de mentiras, que acabou sendo menos efetivo nos americanos do que o personagem que criou – seu precursor parece ter surtido mais efeito, a Mulher Maravilha (imagem do lado esquerdo, na versão da década de 90 do século 20; ao lado direito, a versão para televisão na década de 60) possuía uma corda mágica que fazia qualquer um dizer a verdade quando estava envolto em seu laço. Além disso, também escrevia livros de auto-ajuda como “A Arte do Casamento”. Depois de ler o artigo do psicólogo contra os quadrinhos, um dos executivos dessas revistas consegue contratá-lo, com o suposto objetivo de tornar as estórias mais benéficas do ponto de vista psicológico. William Moulton Marston, o psicólogo, afirmou “parecia a mim, de um ponto de vista psicológico, que a pior ofensa dos quadrinhos era sua masculinidade aterrorizante. Um herói homem, na melhor das hipóteses, não possui as qualidades de amor maternal e ternura que são tão essenciais para a criança como o sopro da vida”.

Ele pretendia desenvolver uma personagem que fosse “terna, submissa, amante da paz como são as boas mulheres”, uma que tivesse “a força de um Super-Homem além de toda a sedução de uma boa e maravilhosa mulher”. Marston acreditava que o fato dos consumidores de quadrinhos serem predominantemente de homens não seria problema. Como ele disse, “apresente uma mulher sedutora mais forte que eles e ficarão orgulhosos em tornarem-se seus escravos!” (3). Além de misturar feminismo e patriotismo, a Mulher Maravilha tinha o principal: peitões e um decote bem pronunciado. E isso parece mesmo fazer diferença, tanto é que tentaram modernizar o visual da heroína em 1968, mas as vendas despencaram e a coisa não durou mais que 25 números da revista. Outra super-heroína e boazinha que não durou muito foi a Bat Girl que, apesar de peitos empinados, era muito menos interessante que a vilã e também peituda Mulher Gato. Ao contrário daquela do seriado de tv da década de 60, uma nova versão com Michelle Pfeiffer (acima, do lado esquerdo) já não tinha seios fartos. Depois veio a versão com a afro-americana e meio branca Halle Berry (acima, do lado direito), com cabelos curtos, mas peituda novamente. Nos primórdios, a Mulher Gato praticava atos ilícitos apenas por diversão, na versão com Michelle ficou implícito que foi o chauvinismo masculino que a empurrou para uma vida fora da lei. Outro traço de personalidade que não costuma ser questionado em seus desdobramentos psicológicos (ou psicóticos) é o fato de que, como tantos outros super-heróis, estas heroínas têm dupla personalidade, pois se fantasiam de “gente normal” enquanto não estão em ação; o que não acontecem com vilãs como a Mulher Gato, que é ela mesma o tempo todo.

O Seio Empinado e o Soldado (Norte-)Americano


Uma curiosa associação entre seio (o doador do leite da vida) e morte foi inaugurada por nossos irmãos do berço da democracia no Novo Mundo. Durante a Segunda Guerra Mundial, os bombardeiros americanos pintavam mascotes em sua fuselagem para dar sorte. Na verdade, enquanto os nazistas estavam vencendo, só era permitido que se escrevessem frases (já que desenhos poderiam facilitar a visualização dos aviões), que podiam variar desde mensagens afetuosas (dirigidas a mulheres e não ao inimigo) até libelos do politicamente incorreto. Os tais desenhos também variavam em função de temas, de personagens de desenho animado, passando por charges depreciativas ao inimigo e… mulheres sedutoras. E os seios estavam lá, bem visíveis, para que os inimigos pudessem ver, com seus próprios olhos e antes de morrer, a ilibada e elevada moral do combatente (norte-)americano. Como paredes de borracharias voadoras, os aviadores copiavam os desenhos e fotos de pin-ups da época, para tornar as viagens mais agradáveis e garantir aos outros pilotos que ali naquele avião só tinha macho.

Nuas por inteiro ou até a cintura, essas figuras seriam um eco daquelas nas proas dos veleiros de outros tempos. Revistas de mulheres nuas eram mandadas sem despesa ao campo de batalha para “levantar o moral” do soldado americano. Entre 1942 e 1945, foram enviados seis milhões de cópias da revista Esquire, com as pin-ups criadas pelo mítico desenhista (de mulheres-objeto em poses sensuais) Alberto Vargas (4). Vargas girl: pouca roupa, seios empinados, pernas longas. Criada em 1942, a revista Yank não era de graça, custava uns cinco centavos aos soldados. Nessa revista, as mulheres eram mais parecidas com uma vizinha comum, mas também havia as maliciosas de seios grandes quase pulando das blusas que estavam quase caindo dos ombros. Muitas atrizes de Hollywood também eram eleitas como “bonecas de papel” pelos soldados, Jane Russel e Linda Darnell tiveram um grande impulso em suas carreiras seguindo este caminho. Muitos daqueles seios de Hollywood que iam para a guerra eram falsos, preenchidos com espuma no sutiã. Acho que a moda pegou aqui em nossas praias.

E por falar em praia, imaginem a cena, milhões de soldados desembarcam nas praias da Normandia, “arrombando” a Europa dominada pelos nazistas. Em suas mãos armas, em suas mochilas honradez, justiça, alimentos para os famintos, enfim, liberdade. Vamos tentar novamente, em suas mãos armas, em suas mochilas revistas de mulher pelada! Naquele filme famoso, O Resgate do Soldado Ryan (1998) (do famoso bom moço e diretor de cinema Steven Spielberg), faltou esse detalhe. Imagine aquela cena do desembarque, famosa por seu realismo: soldados sendo explodidos e pedaços de corpos por todo lado, a água vermelha de sangue e, espalhadas nesse cenário muitas, muitas revistas de mulher pelada. Será que se os soldados não tivessem as revistas de mulher pelada poderiam perder a guerra? É a moral deles que era levantada com essas revistas? O que talvez os soldados preferissem não lembrar é que suas esposas em casa poderiam também ter dificuldades em manter a abstinência sexual (ou o moral baixo, como os militares americanos preferiam referir-se em relação à “seus homens”). Então, mesmo que estivéssemos do lado do mundo livre (como os americanos gostam de se auto-intitular), tudo ia depender da quantidade de pornografia (leve é verdade) disponível para que eles concordassem em continuar morrendo em nome de um sistema financeiro? Bem, aqui no Brasil já temos a pornografia, só está faltando entender como ela se articula com a moral…

“O que viria a ser chamado o seio fetiche americano dos anos da guerra e do pós-guerra correspondia aos mais baixos [ou básicos] desejos psicológicos. Ao nível mais simples, os seios são sinais biológicos de diferença sexual que podem ser realçados de acordo com o momento histórico. A Segunda Grande Guerra foi um desses momentos. Os homens em combate no ultramar viam o peito feminino como uma lembrança dos valores que a guerra destrói: amor, intimidade, alimento. As funções maternal e erótica do seio ganharam um sentido acrescentado para uma geração inteira de soldados durante a guerra e muito depois dela, quando eles regressaram à ‘normalidade’”. (5)

Um seio é apenas um seio?

Notas:

1. DANIEL, Les. DC Comics: sixty years of the world´s favorite comic book heroes. New York: Bullfinch Press. 1995. P. 60.
2. Idem, p. 170.
3. Ibidem, p. 58
4. YALOM, Marilyn. História do Seio. Tradução Maria Augusta Júdice. Lisboa: Teorema, 1998. p. 167.
5. Idem, p. 169.

22 de jun de 2008

Seios na Cabeça: Conexão Seios (I)





“Às vezes,
um seio
é apenas
um seio”


História do Seio, p.192
Marilyn Yalom






A Coisa

Seios grandes são uma preferência nacional norte-americana. Como tudo mais que a cultura deles produz, procuram a todo custo exportar esta preferência para o mundo. Seguindo os cânones da crítica à cultura de massas, supõe-se que o objetivo é uma padronização dos gostos e da própria libido. E parece que está dando certo, pois a moda dos seios grandes, turbinados e empinados, está grassando por nossas praias. Como os seios devem ser/estar empinados, porque seio caído é sinal de degenerescência temporal, convenientemente a cirurgia de implante de silicone cria essa possibilidade copiar os outros. O fato de que “a coisa” fique totalmente artificial não parece incomodar às candidatas, que nem mesmo sabem (ou sequer se interessariam em saber) que este procedimento cirúrgico foi criado originalmente com o objetivo de reconstrução de partes do corpo explodidas nos campos de batalha.

Na programação da tv, os enlatados (norte-)americanos fervilham com seios artificiais. Todavia, algumas exceções, que devem ser consideradas bizarras por muitos (as), existem. No filme Tudo que Você Sempre Quis Saber Sobre Sexo, mas Tinha Medo de Perguntar, o diretor e humorista Woody Allen (1972), armado com um crucifixo, derrota o seio gigante que fugiu do laboratório de um cientista maluco. Outro exemplo é O Seio, novela de Philip Roth, onde o protagonista se transforma em enorme seio e medita tentando compreender o sentido de sua desgraça. “A transformação de um homem adulto num enorme seio é apresentada sob a forma de realização de um desejo parodiando a obsessão de uma geração inteira” (1). Pelos menos parece ser melhor que o destino de Gregor Samsa, personagem que se transforma num inseto, no livro de Franz Kafka que se chama Metamorfose. Mudanças são bem vindas, contanto que continuemos fazendo parte do gênero humano. Mas será que as mulheres siliconadas ainda são elas mesmas? Essa “coisa” muda alguém para melhor? Em que sentido?

“A quem pertence o seio? Pertence ao bebê, cuja vida depende do leite da mãe ou de uma ama de leite? Ao homem ou mulher que o acaricia? Ao artista que representa a forma feminina, ou ao estilista que escolhe seios pequenos ou grandes de acordo com a procura contínua de um novo estilo de mercado? Pertence à indústria têxtil, que produz o ‘soutien para adolescentes’, o ‘soutien de suporte’ para mulheres mais velhas, e o wonderbra para mulheres que pretendam obter decotes mais pronunciados? Pertence aos juízes religiosos e morais que insistem que os seios devem ser castamente cobertos? Pertence à lei, que pode ordenar a prisão de mulheres que façam topless? Pertence ao médico, que decide quantas mamografias, biópsias ou remoções devem ser feitas? Pertence ao cirurgião plástico, que o reestrutura por razões meramente cosméticas? Pertence ao pornógrafo, que compra os direitos de expor alguns seios de mulheres, frequentemente em cenários aviltantes e injuriosos para todas as mulheres? Ou pertence à mulher, para quem os seios constituem uma parte do seu próprio corpo? Essas questões sugerem alguns dos diversos esforços dos homens e das instituições para se apropriarem dos seios femininos ao longo da história”. (2)

An(seio)líticos: Sonhando com Objetos Esféricos 

Você já sonhou com objetos esféricos, como maças ou pêras? Será mesmo que o seio, assim como o pênis, está em todos os lugares? Nós vivemos num planeta que se situa num ponto do espaço chamado Via Láctea. De acordo com a lenda originada na Grécia (dos bons tempos), a Via Láctea nasce de um jato de leite espirrado dos seios da deusa Hera. A lenda é a seguinte, acreditava-se que os mortais poderiam se tornar imortais se fossem amamentados no seio da rainha das deusas. Quando Zeus desejou que seu filho Hércules (filho dele com a mortal Alomena) se tornasse imortal, colocou-o sobre os seios de Hera enquanto esta dormia. Porém Hércules sugou com muito vigor, o que fez com que Hera acordasse. Ela o retirou com tanta força de seu seio que o leite jorrou para o céu criando a Via Láctea. Se a lenda é verdadeira, vivemos na trilha do leite derramado de um seio divino que é nosso céu.

Poderíamos “tocar alguns pontos altos” na história ocidental onde os seios estavam visíveis. Quando a Nossa Senhora do Leite apareceu no século XIV, quando o seio assumiu um papel dominante no século XVI, e quando o seio político (que no Brasil se conhece como as tetas da República, onde mamam os corruptos) emergiu no século XVIII, na entrada do século XX com a obra de Sigmund Freud.

Do ponto de vista da psicanálise, o seio é fonte das emoções mais profundas do ser. Durante seu primeiro século de existência, a psicanálise estabeleceu o seio e o pênis como seus principais pontos de referência. Mas o seio sempre perdeu projeção em relação ao pênis, apesar de Freud admitir que o seio fosse a primeira “zona erógena” para a criança. Apenas recentemente, freudianos como Melanie Klein questionaram esta hierarquia (3). É possível que Freud fosse prisioneiro de sua própria masculinidade. Se tivesse nascido mulher, talvez falasse de “inveja do seio” em lugar de “inveja do pênis”. (acima, A Origem da Via Lactea, Tintoretto, 1580; ao lado, o mesmo tema, agora por Rubens)

De fato, comenta Marilyn Yalom, ele “nunca avaliou totalmente o significado do seio do ponto de vista da pessoa que começa por mamar no seio de outra mulher e vem posteriormente a amamentar os filhos na idade adulta” (4).

Mas o seio possuiria outro campo simbólico que não estivesse associado ao aleitamento e ao sexo? Na década de 70 algumas feministas criticaram a explicação que a psicanálise propunha para a anorexia nervosa. À hipótese de que a anorexia resultava de uma “fuga da feminilidade”, as feministas argumentaram que não se podia esquecer dos imperativos culturais como a “tirania da magreza” e o machismo de nossa sociedade que privilegia o masculino. O receio de que a gordura nos seios e nas ancas fizesse as mulheres parecerem estúpidas e vulneráveis apontava para a anorexia nervosa como uma forma de rejeição da inferioridade social, econômica e intelectual. Seja como for, e sem querer sugerir que as modas não possuem uma relevância, pelo menos hoje em dia o tratamento psicológico leva mais em consideração os significados culturais em torno das formas femininas (5).

Um seio é apenas um seio?

 Leia também:

As Mulheres de Luis Buñuel
Luis Buñuel, Incurável Indiscreto
A Guerra dos Seios: Conexão Seios (II)
Fetiches Digitais: Conexão Seios (III)
Os Seios da República: Conexão Seios (epílogo)

Notas:

1. YALOM, Marilyn. História do Seio. Tradução Maria Augusta Júdice. Lisboa: Teorema, 1998. P. 191.
2. Idem, p. 14.
3. Ibidem, p. 180.
4. Ibidem, p. 185.
5. Ibidem, pp. 190-1. 

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Quadro de Avisos

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