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Roberto Acioli de Oliveira

Arquivos

3 de out de 2009

Puritanismo e Ficção Científica (final)


Guerra nas Estrelas



Há Muito Tempo Atrás, Numa Galáxia Muito, Muito Distante...


Mary Henderson contou a estória de Guerra nas Estrelas seguindo a trilha de Joseph Campbell, o renomado estudioso de mitologia. Ele vê na série idealizada por George Lucas a transcrição de um tema mítico (a saga do herói diante da luta do Bem contra o Mal) que ocupa um importante espaço em nossa cultura desde suas origens na Grécia Antiga. Campbell se apóia na teoria dos arquétipos de Carl Jung para sugerir que os temas principais dos mitos são sempre os mesmos, o que muda é a forma como se manifestam a partir do inconsciente humano, em cada cultura ou momento histórico (1). (ao lado da esquerda para a direita, Luke Skywalker, princesa Leia e Han solo. O trio ternura da primeira trilogia)

Falando como uma norte-americana, Henderson sugere que desde o primeiro filme Lucas foi ao âmago de uma sociedade americana que estava perdendo a trilha do caminho iluminado. Mais especificamente, ela se refere aos problemas que os Estados Unidos enfrentavam quando o primeiro filme da série surgiu. O filme tinha como subtítulo Uma Nova Esperança. Problemas na economia do país, a derrota na guerra do Vietnã, a Guerra Fria, e o caso Watergate (que terminou levando o presidente Richard Nixon ao Impeachment, que muito tempo depois levou o Fernando Collor também), estavam afastando o americano dos símbolos mais profundos que forjaram sua cultura. Portanto, uma “nova esperança” era tudo que faltava naquele momento do país (2).

Henderson nos conta que, no meio dessa década desiludida (ela se refere aos americanos e não aos povos do resto do mundo que eles oprimiram), as platéias americanas frequentemente interrompiam o filme para aplaudir. Nessa época, o que surgiu foram os filmes da primeira trilogia: Uma Nova Esperança (1977), O Império Contra-Ataca (1980) e O Retorno de Jedi (1983). O livro em que Henderson conta a estória do herói-santo modelo para os americanos aparece como um resumo dessa trilogia, acompanhando uma grande exposição sobre o tema em 1997, que surge como uma rememoração da trama para aguçar o paladar dos aficionados. A segunda trilogia, que surge a partir de 1999 com A Ameaça Fantasma, seguido de O Ataque dos Clones (2002) e A Vingança dos Sith (2005). A segunda trilogia conta a estória dos personagens antes de chegarem à idade que tem na primeira trilogia. Ou seja, o vilão da primeira trilogia, Darth Vader, aparece ainda criança na segunda trilogia. Resumindo, a segunda trilogia é, do ponto de vista da trama, anterior à primeira. O projeto total pretende produzir uma estória com 9 partes. Portanto, e para encerrar, a segunda trilogia corresponde aos episódios 1, 2 e 3, enquanto a primeira trilogia corresponde ao meio da estória, com os episódios 4, 5 e 6.

Na perspectiva de Mary Henderson e Joseph Campbell, não existe espaço para perversões sexuais. Tudo gira em torno de uma clara oposição entre Bem e Mal, um maniqueísmo que naturalmente sugeria que os americanos deveriam erguer a cabeça porque estariam do lado do Bem. Numa época em que os Estados Unidos haviam assassinado uns dois milhões de civis no Vietnã, e davam mesada para uma série de ditaduras pelo mundo (inclusive no Brasil), é difícil de acreditar que poderiam ser uma encarnação da dinastia do santo-herói Luke Skywalker – na verdade, estavam mais para Darth Vader!

A partir do interesse de George Lucas nos trabalhos de Campbell sobre mitologia, o que ele fez foi transferir os grandes temas da mitologia para uma época situada no futuro e no espaço sideral. Campbell cunhou o termo “mitologia criativa” para designar o processo a partir do qual um artista coleta elementos de sua experiência no mundo e os transforma numa metáfora que revela algo dos mistérios da existência humana. Se a experiência do artista for suficientemente profunda, ele poderá alcançar os valores e a força da mitologia tradicional. Foi a partir dessa perspectiva que Joseph Campbell se interessou em saber como Guerra nas Estrelas capturou certos temas mitológicos (3).

A Pureza do Herói Puro-Puríssimo e Sua Pura Heroína


Do ponto de vista de Alexandre Hougroun, o mundo do herói-santo não é tão heróico assim. O herói não seria tão puro e nem tão heróico. As poucas mulheres das duas trilogias seguiriam o padrão da ficção científica até então: o mínimo de personagens femininos e ausência de sexualidade descontrolada nas telas. Na opinião de Hougron, no fundo o próprio Lucas não estaria interessado em mulheres e sexualidade, já que ele seria mais um dos aficionados de ficção científica que se recusam a abandonar a infância e adentrar o mundo adulto. A mulher e a sexualidade estão ausentes da maior parte das obras de ficção científica. Henderson até mostra que dentre os arquétipos mais recorrentes estão a luta entre homens e mulheres (4). Entretanto, em seu livro ele diz que só vai seguir a trilha de dois deles em sua analise de Guerra nas Estrelas: a saga do herói e a luta do Bem contra o Mal. Muito conveniente!

Hougron já nos falou do quase incesto entre a princesa Leia e Luke Skywalker, mas, assim que ele descobre seu parentesco, Luke sai do caminho. Então Han Solo, seu amigo e protetor, entra em cena como pretendente hesitante (eles estão quase lá na imagem acima, à esquerda). Henderson refere-se ao caso entre Han e Leia como um “casamento místico”. Tudo que ela consegue fazer é buscar nos trovadores do século XII, e nas estórias sobre o casal Tristão e Isolda, as regras do amor cortês. Nas lendas da Idade Média, as forças vitais que são mantidas prisioneiras pelo dragão são simbolizadas pela mulher. Como o herói empreende uma busca de conhecimento e descoberta, ele deverá conhecê-la. Nas palavras de Campbell, a mulher é o ápice da aventura sensual. Entretanto, pelas regras do amor cortês, o herói terá que merecer sua donzela. No curso de Guerra nas Estrelas, vemos Han Solo desempenhar três típicas tarefas para sua princesa: lutar para ficar a seu lado, salvá-la, e trabalhar sob as ordens de seu pai na rebelião. É assim que Han mostra a Leia seu “coração gentil”, e o amor entre eles florescerá (5). Até temos um beijo! Mas Leia continua a imagem da pureza. Este é o sentido induzido e pretendido por George Lucas.

Entretanto, objeta Hougron, existe um problema para o homem ocidental do século XIX: a identidade da pureza. Essa recusa das pulsões e da sexualidade se traduz por um EU incompleto e incomunicável. São essas as bases de um autismo neurótico: medo do outro, medo da mulher, medo de “tudo”. Isso se reproduz gerando defesas. Os monstros da ficção científica surgem daí. A própria psicanálise encontra sua força aqui: aquilo que é evitado tornando-se uma obsessão (6).

Talvez por essa razão a apresentação de uma heroína por Mary Henderson seja tão acanhada. Henderson fala das mulheres norte-americanas indo trabalhar nas fábricas durante a Segunda Guerra como um grande avanço, mas se esquece de falar das mulheres aviadoras que lutaram e morreram nos campos de batalha – um tema insistentemente evitado até hoje pelos militares de vários países. Como se o desempenho das mulheres (para além da cozinha) fizesse os machos sentirem-se menores em seus “clubes do bolinha” dos jogos de guerra. Depois ela aponta a melhora do status feminino na ficção científica da década de ’60 do século 20 em séries como Perdidos no Espaço e Jornada nas Estrelas.

Henderson lembra do Movimento Feminista da década de ’70 e do aniversário de 50 anos da permissão para o voto feminino nos Estados Unidos. Cita também o direito ao aborto a partir de 1972. Então começa a discorrer sobre o aumento da força de trabalho feminina. Para Henderson, Leia é uma heroína dessa época: atitude, atrevimento, foco na carreira e medo de mergulhar numa relação romântica. Henderson termina dizendo que Leia foi a primeira mulher americana no espaço – isso foi em 1977, enquanto em 1963 os soviéticos já haviam mandado Valentina Tereshkova, uma mulher de verdade, para o espaço sideral fora das telas de cinema(7).

Quando Hougron escreveu sua crítica, ele tinha apenas a primeira trilogia. Afirmou então que a trilogia de Guerra nas Estrelas nos prova como a ficção científica é o lugar de uma sexualidade puritana e muito problemática, com uma relação bem estranha no que diz respeito à identidade, já que perturbada por uma dificuldade de visualização das relações com o Outro (a mulher, o pai, a irmã, a mãe). Existe sexualidade, mas acontece de forma indireta, associada à agressividade. Isso acontece na ficção científica em geral, embora seja um elemento pouco presente em Guerra nas Estrelas. Nesta série de filmes, a agressividade está canalizada em torno do combate com espadas de raios laser (8).

O puritanismo de católicos e protestantes estigmatiza obsessivamente o que chama de “natureza degradada do sexo”. Na opinião desses grupos, ao enfatizar os prazeres terrestres, o sexo é visto como um obstáculo entre o homem e Deus. No final da Idade Média, entra em operação uma visão anti-sexual e uma ideologia anti-prazer. Durante a Renascença, rejeita-se a materialidade sensual. Seguem-se restrições nos séculos XVII e XVIII, e na segunda metade do século XIX. No século XX, a Segunda Guerra Mundial traz de volta os valores puritanos de purificação de uma forma sem precedentes, “enfim a máscara caiu”: o racismo e o genocídio (9).

Monstros do Bem


Também é no contexto de uma Grande Guerra, agora envolvendo toda a galáxia, que começa a saga de Guerra nas Estrelas. O épico cinematográfico composto de seis filmes (até agora) é considerado o maior triunfo de bilheteria de todos os tempos. Ao longo dos seus 28 anos de história, e incluindo as franquias de produtos relacionados, Guerra nas Estrelas arrecadou o montante de 20 bilhões de dólares - o que explicaria muita coisa, se levarmos os argumentos de Alexandre Hougron a sério.


Nessa luta do Bem contra o Mal, uma espécie de monstro do Bem se destaca. É Chewbacca (imagem à esquerda), habitante da primeira trilogia. Guerreiro, co-piloto da nave espacial do amigo Han Solo e espécie de seu protetor. Ele é gigante e meio indócil, fala urrando e gemendo, mas parece um cachorro bem grande. Peludo, ele não fica longe da identidade visual de urso ou um inofensivo e subserviente animal doméstico. Algo entre um cão pastor inglês peludo e uma espécie cada vez menos rara de poodle (um lavado!).

Chewbacca, às vezes é chamado por um diminutivo, Chewie, o que denota mais ainda uma relação de proximidade com os humanos, que é típica dos animais domésticos. Portanto, Chewbacca é totalmente diferente dos monstros inimigos, que invariavelmente se assemelham aos insetos ou répteis. Mesmo os monstros que eventualmente ajudam os heróis são relacionados a formas de vida classificadas como inferiores do ponto de vista dos humanos. Esse detalhe marca uma distancia intransponível que geralmente sela o destino dessas criaturas na luta heróica para salvar a galáxia – eles podem eventualmente ter atitudes positivas e até heróicas, contanto que morram.

Temos também Yoda (ao lado), mestre espiritual de Luke Skywalker e Jedi que mostra a Luke os caminhos da Força do universo que ele deve captar. Monstrinho mistura da batráqui e lagarto, Yoda tem toda a esperitualidade que falta à maioria dos seres humanos. Tão importante quanto isso, Nem Yoda nem Chewbacca babam ou possuem tentáculos fálicos. Darth Vader também captou essa força, só que ele é um Jedi "decaido", pois optou pelo lado negro da Força.

George Lucas: Maniqueísta de Hollywood


Mark Rowlands também não se deixa seduzir pelo jeito de bom moço do herói-santo Luke Skywalker, destacando o maniqueísmo da estória de George Lucas (10). Seguindo esta trilha, Lucas adota uma postura em franca oposição à igreja cristã. Historicamente, o maniqueísmo foi uma seita banida pelo cristianismo já nos primeiros tempos. O motivo foi o fato de que para o maniqueísmo existem tanto o Bem quanto o Mal. Já para o cristianismo, o que existe é o Bem. O Mal não passaria de algo que invade o espaço quando o Bem deixa de existir. (imagem ao lado, Mal x Bem. Luke Skywalker tira a máscara do seu vilão/ pai Darth Vader). Essa hipótese cristã foi sistematizada por Platão no século 4 antes de Cristo. Há controvérsias se essa idéia já existia antes de Platão.

O famoso Mito da Caverna, ou Alegoria da Caverna, falava sobre isso. Segundo essa proposição, existe um mundo real e um irreal. O mundo físico é o mundo irreal, enquanto um mundo imaterial é aquele que se considera real “realmente”. Lá, nesse mundo imaterial, estariam as formas das coisas e seres cujo reflexo falho e limitado pode ser visto no mundo físico. Na opinião de Platão a Forma do Bem constitui o ápice da perfeição daquilo que se pode encontrar nesse mundo imaterial, ou mundo das idéias. Nesse universo, o Mal não existe. Portanto, o Mal é considerado irreal, enquanto o Bem é real.

No universo de George Lucas, o Mal é bem real. Darth Vader, o vilão, ainda que escondido sob uma capa e um capacete pretos, é bem real. Sua maldade também é real. É curioso, portanto, que não tenha havido protestos da Igreja Católica contra esta postura da estória de Lucas. Inclusive porque essa temática maniqueísta se adequada perfeitamente ao universo dos temas mitológicos. Temas que remetem às crenças pré-cristãs e indígenas, em oposição às quais o cristianismo se firmou desde seu início – elas constituem aquilo que o cristianismo chama de crenças pagãs. A única diferença é que Rowlands não chamaria Luke Skywalker ou Han Solo de santo-herói no singular, mas no plural – já que essas crenças são naturalmente politeístas.

O cristianismo não pensava em realidades não-físicas. Foi a incorporação da hipótese platônica por Santo Agostinho (534-430 depois de Cristo) que mudou a metafísica cristã. O Mundo das Formas (também conhecido como Mundo das Idéias) de Platão passou a ser entendido como o Paraíso. Nossos corpos físicos teriam que ser purgados de todo Mal para chegar lá. Se antes de Santo Agostinho o que existia para o cristianismo era a ressurreição do corpo físico no Dia do Julgamento, agora temos de nos preocupar com a sobrevivência de uma alma não-física.

Rowland, contrariando a maioria absoluta dos comentadores de Guerra nas Estrelas, prefere discorrer sobre Darth Vader ao invés de Luke Skywalker. Partindo da recusa do pensador alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900) em relação às doutrinas cristãs, Rownland mostra que Darth Vader era mais potente que Luke Skywalker, embora não chegasse a ser capaz de se tornar um Super-Homem nietzschiano.

Portanto, nem Luke Skywalker nem Darth Vader chegariam a atingir uma vida produtiva. Luke porque está concentrado numa tentativa suicida de renunciar a seus desejos primitivos, e Darth Vader porque não conseguiu sublimar seus desejos em algo mais grandioso. Parafraseando o que disse Nietzsche a respeito de Napoleão, Darth Vader foi corrompido pelos meios que teve de empregar, e perdeu a nobreza de seu caráter. Entretanto, conclui Rowland, “é difícil ver este conceito [do super-homem de Nietzsche] fazendo incontáveis milhões de dólares para [George] Lucas”.(...)”Ser imperfeito é, claramente, muito mais divertido” (11).

Notas:

1. HENDERSON, Mary. STAR WARS. The Magic of Myth. New York: Bantam Books, 1997. P. 17.
2. Idem, p. 5-6.
3. Ibidem, p. 12. Recentemente foi lançado no Brasil o dvd O Poder do Mito (Log On Editora Multimídia, 2005), contendo entrevistas feitas em Skywalker, o rancho de George Lucas, entre 1985 e 1986. Joseph Campbell fala sobre mitologia e discute suas interpretações de Guerra nas Estrelas.
4. Ibidem, p.18.
5. Ibidem, p. 65.
6. HOUGRON, Alexandre. Science-Fiction et Société. Paris: Puf, 2000. P. 126.
7. HENDERSON, Mary. Op. Cit., 159.
8. HOUGRON, Alexandre. Op. cit., p. 128.
9. Idem, p. 129.
10. ROWLAND, Mark. SCIFI-SCIFILO. A filosofia explicada pelos filmes de ficção científica. Tradução Edmo Suassuna. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2005. Capítulo 8. Se você quiser outro livro que misture história da filosofia e Guerra nas Estrelas, mas que NÃO tenta provar que seus heróis-santos são degenerados (sugerindo assim que Hollywood só deseja o Bem de todos nós), então procure STAR WARS e a Filsofia (2005, Madras Editora Ltda), de Kevin S. Decker e Jason T. Eberl.
11. Idem, p. 203.

2 de out de 2009

Puritanismo e Ficção Científica (II)


O Planeta Proibido



Mobius,
quando você vai
encarar a verdade?
Essa coisa lá fora
é você...”

Comandante Adam para Mobius



O Planeta Proibido
(Forbiden Planet. Direção Fred McLeod Wilcox, 1956) é o primeiro filme de ficção científica onde o inimigo não se parece com um monstro babão e cheio de dentes. Agora o monstro está dentro de nós. Neste épico, o inimigo são nossas mentes e almas. Com a proposta de criar uma ficção científica classe A, a Metro Goldwyn-Mayer inovou com esta produção – ela inovaria novamente doze anos mais tarde com 2001, Uma Odisséia no Espaço, dirigido por Stanley Kubrick. A estória era baseada em A Tempestade, de William Shakespeare. A ilha é agora um planeta proibido, onde um cientista vive isolado, como o mágico Prospero, em companhia de sua filha e seu “Ariel”, um devotado robô (1). (Imagem acima, a criatura que vem do interior de um pai: o Monstro do Id)

Desta vez são os humanos que chegam de disco voador. Eles se dirigem para um planeta em missão de salvamento, buscando notícias dos cientistas que para lá viajaram lá se vão vinte anos. O filme trabalha também o conflito entre a ciência e os militares. Neste filme, os tripulantes da nave espacial dos humanos são receptivos a forma como a ciência da década de 50 do século passado entendia o mundo. Chegando ao planeta, serão recebidos pelo Dr. Mobius, o cientista. Ele procura de todas as formas fazê-los dar meia volta e sumir dali. O cientista construiu um robô que entra em curto-circuito quando lhe mandam agredir um ser humano – elemento que posteriormente permitira ao comandante do disco voador concluir pela culpa de Mobius em relação ao evento principal do filme.

Dr. Mobius se recusa a abandonar o planeta, ainda que a estória que tem para contar seja terrível. Disse que, um a um, todos os cientistas sucumbiram a uma força incompreensível presente no planeta. Sobram apenas Mobius e sua esposa, que morre tempos depois por causas naturais. Eles tiveram uma filha, que Mobius esconde dos forasteiros. Mas ela aparece curiosa para ver outros seres humanos. Altaira: Branca, loura e jovem. Tudo que uma mente puritana norte-americana poderia querer. E os homens do disco voador também querem. Após uma breve disputa, o comandante fica com o prêmio. O primeiro elemento de discórdia é o fato de que, ao contrário d o pai, a filha deseja voltar para o planeta Terra. Em seguida, o próximo problema do pai é o romance que se estabelece entre sua filha e o comandante Adams. Antes disso, Mobius já havia ficado furioso quando pegou o cientista do disco voador dando aulas de beijo para sua filha. Nessa mesma noite, um monstro invisível faz sua primeira aparição. Mobius mostra sua descoberta de uma civilização super-desenvolvida materialmente que habitou aquele planeta há muito tempo, mas que desapareceu subitamente. Essa raça havia abolido toda doença, injustiça e crime. Queriam também abandonar o mundo material. Mais um componente puritano. Entretanto, esse projeto os aniquilou.

Nessa outra noite o monstro faz sua segunda aparição. A partir de então a nave espacial é cercada de armamento. O monstro faz sua terceira aparição. Enquanto isso, o cientista do disco voador entra no laboratório do povo extinto que Mobius conservara tão meticulosamente e faz uma descoberta. O efeito colateral do abandono do plano físico foi a criação de monstros. Monstr os do Id. O problema é que esse povo extinto, os Krel, esquecera de sua luxúria (desejos ard entes, sensuais) e seu ódio subconsciente. Outro elemento puritano. Mas como pode um monstro do Id estar vivo se os Krel desapareceram há 20 mil séculos atrás? (imagens acima, molde da garra do monstro e, quando Mobius morre, o monstro desaparece)

Quando o robô de Mobius recebe uma ordem para matar o monstro e entra e m curto circuito, o velho pai conclui que o comandante estava certo quando disse: “Mobius, quando você vai encarar a verdade, aque la coisa lá fora é você...” (2) O velho tinha matado a todos, desde os cientistas com os quais chegou ao planeta e que desejavam voltar, até os tripulantes do disco voador que veio fazer o resgate. Tendo atingido o desenvolvimento mental dos Krel, Mobius também foi dominado pelo monstro do Id. Encurralados pela criatura, Mobius, sua filha e o comandante, não tem mais para onde correr. De repente, como se Mobius entrasse em curto circuito, ele morre e, consequentemente o monstro desaparece (3). O Planeta Proibido utiliza uma estratégia de proibição do incesto para atacar o Id (ça) e seus monstros (imagem acima, o casal feliz assiste a destruição do "Planeta Proibido do monstro do pai incestuoso dela"). Nesse planeta vivem um pai velho e sua jovem, bela e loira filha. Aparece um monstro invisível chamado Id que ataca os astronautas que lá chegam. O herói conclui que o monstro é uma projeção do ciúme do pai em relação a sua filha, cortejada por vários astronautas. Então, esse norte-americano civilizado destrói o monstro e leva a mulher para procriar na Terra – pois um “macho civilizado” domina seus instintos e utiliza o sexo apenas para reprodução. É o ideal puritano do homem norte-americano. Nesse caso, matar o monstro significa mostrar ao pai sua perversão – o incesto. Quando o monstro do Id morre, o pai morre também. Uma forma de redenção através da morte; a qual já havia ocorrido desde que o pai se deixou dominar por seu inconsciente pulsional e libidinoso (4). (imagem abaixo, na cena excluída da versão final, após a morte do monstro/pai, a filha/viúva casa-se com o comandante/patrão/macho/branco/reprodutor. )

Na ficção científica, um monstro encarna ao mesmo tempo uma monstruosidade no exterior (o nada, o caos, o mal) e outra no interior (o mal, o pecado, o vício, o sexo) do ser humano. Esses monstros desempenham uma dupla função. De acordo com o cristianismo, eles seriam tanto uma encarnação do diabo-caos-nada quanto aquela parte de caos que o homem carrega dentro de si. Neste contexto, somente a “graça de Deus” e a fé permitirão encontrar uma saída. Este é exatamente o contexto do estereótipo da luta do Bem contra o Mal onde o pensamento puritano encontra campo fértil para suas idéias.



Notas:

1. STEINBRUNNER, Chris; GOLDBLATT, Burt. Cinema of the Fantastic. New York: Galahad Books, 1972. P.270.
2. Idem, p. 279.
3. Ibidem, pp. 269-81.
4. HOUGRON, Alexandre. Science-Fiction et Société. Paris: Puf, 2000. P.
141.

1 de out de 2009

Puritanismo e Ficção Científica (I)


“A ficção científica é um refúgio,
fuga para escapar do mundo dos
adultos
e suas responsabilidades”

Alexandre Hougron
Science-Fiction et Société, p.264


Muitas vezes os filmes desse gênero são relegados ao fundo das prateleiras das locadoras. Ou são considerados filmes para criança, ou sem valor cinematográfico, ou ainda como uma coleção de efeitos especiais rudimentares demais para nós que vivemos na era dos efeitos especiais de computação. Entretanto, o fato de serem considerados filmes “para crianças” por si só deveria significar que deveríamos saber mais sobre esse “divertimento”. Os efeitos especiais rudimentares nos filmes mais antigos podem cansar os mais desatentos (alias, falta de atenção parece ser uma marca de nossa época), porém uma analise mais pormenorizada pode mostrar-nos uma verdadeira história da evolução dos efeitos especiais no cinema.

Entretanto, apesar de todas essas qualidades, aqui iremos nos concentrar apenas no elemento “divertimento”. Será que a ficção científica pode mesmo ser considerada apenas isso? Apesar de ter nascido antes da invenção do cinema, deixaremos a literatura de lado e vamos nos concentrar nele. Seguiremos a trilha de Alexandre Hougron. Em seu livro, Science-Fiction et Société (1), procurou mostrar quais as possíveis relações entre vaginas, monstros gosmentos e comportamento puritano. O que um “divertimento” poderia nos ensinar sobre nossa sexualidade?

Muito identificado com certa ética religiosa, o comportamento puritano vem interferindo e moldando nossa sexualidade há muitos séculos. Mesmo quando acreditamos que somos conscientes de nossa sexualidade não percebemos como nossos atos podem ter sido já previstos e induzidos por mecanismos puritanos. O ponto que talvez chame mais atenção na análise de Hougron é a constatação da incapacidade profunda na sociedade ocidental em incorporar o contraditório, o diferente, o Outro: a mulher. (imagem acima, A Mulher Vespa, direção Roger Corman, 1959; imagem ao lado, Tubarão, Jaws, direção Steven Spielberg, 1975; imagem abaixo, A Ilha do Dr. Moreau, Island Of Lost Souls, direção E.C. Kenton, 1933)

Pudera, desde o nascimento da filosofia, lá se vão 2.500 anos, o discurso hegemônico da Razão procura de todas as formas eliminar ou, pelo menos, neutralizar a pluralidade da vida. A intenção até que podia ser boa: explicar o mundo pelas semelhanças, e n ão pelas diferenças. A heterogeneidade do mundo e da vida deveria ter como fonte um elemento comum básico. A partir daí, tudo que significasse desvio era eliminado como exceção ou erro. Onde a ficção científica entra nisso? O que nossa sexualidade tem a ver com o contraditório? O que a vagina tem a ver com a ficção científica?

Sobre Animais Impuros e Homens Puros

“Essa simbólica da perda de
uma Idade de Ouro
. Temática pagã,
e
, mais especificamente, no judaísmo
e cristianismo
, que a assimilaram.
Aquela do desaparecimento de uma ‘natureza’ humana
edênica que é, na realidade, um estado de pureza e incorrupção (lembremos que Adão
era imortal antes da Queda)”

Science-Fiction et Société, p. 108

O puritanismo elimina o caráter iniciático que sugere que a pureza é fruto de uma busca espiritual. Portanto, a pureza seria uma recompensa. O puritanismo passa a considerar a pureza como fruto do simples fato de alguém se declarar crente. No caso anterior, também se acreditava que somos intrinsecamente puros, porém seria necessária uma busca dessa pureza. No caso do puritanismo, basta sabermos que somos puros. Esta postura está na base de uma visão de superioridade em relação aos que não professam aquela fé ou são ateus. Trata-se de uma construção religiosa que não admite a hipótese de um ser humano contraditório e m sua natureza. Nas religiões orientais e panteístas, não existe essa postura monolítica (integrista). No Ying sempre existe algo de Yang e vice-versa. A tolerância é mais efetiva. Essa tolerância não existe nos grandes monoteísmos (Cristianismo, Judaísmo e Islamismo). Desta forma, o homem definitivamente puro (2) torna-se um fantasma, perseguido mas nunca encontrado, por duas culturas agressivas e imperialistas (os ocidentais, e o mundo muçulmano). (as próximas três imagens abaixo, O Monstro da Lagoa Negra, Creature from the Black Lagoon, direção Jack Arnold, 1954)

Batem-se entre si buscando afirmar um homem que seja absolutamente santo. O motor dessa agressividade engendrada pelos puritanos. O puritanismo também se manifesta pelo puritanismo sexual, muito comum nos filmes de horror. Nesses filmes, só a virgem sobrevive! Assim sendo, o casal que morre esfaqueado porque se afastou para fazer sexo, reencontra sua própria animalidade na figura do monstro assassino. Dito de outro modo, se não somos puros, os monstros que nos atacam são duplos de nós mesmos. O autor considera o puritanismo americano como a forma mais neurótica de puritanismo. Ainda segundo o autor, aquilo que deixa o código puritano bem visível é justamente o que chama de histeria anti-sexual americana. Já na Ficção Científica o puritanismo é mais sutil (3).

Hoje em dia, o puritanismo se metamorfoseou, perdeu as referências religiosas. Entretanto, ele foi além e se naturalizou. O puritanismo não está mais numa substância reconhecível, está em nossa moral, em nossas mentes. O paradoxo é tão grande que um espectador que não se conforme aos códigos morais puritanos, irá assistir normalmente a um filme de horror ou ficção científica. Quer dizer, irá aderir aos discursos reacionários puritanos quase que inconscientemente. Segundo Hougron, todo o cinema ocidental, de ficção científica, e mesmo o de não-ficção, está impregnado por esses valores – onde a virgindade e a inocência serão recompensadas (4).

É a questão do prazer pelo proibido. Como o puritano é um frustrado, gera grande prazer aquilo que é interditado para ele. O frustrado se identifica com o monstro ou o psicopata. O puritanismo proíbe o sexo, mas o sugere e associa à violência e ao sadismo. Desta forma, o sexo é substituído (coitus interruptus) pelo espetáculo do sangue e da morte. Satisfação sexual e violência tornam-se equivalentes. O pênis é substituído pela faca ou revolver, o sangue escorrendo substitui o esperma. Portanto, serial killers mascarados como o personagem de Jason, é criação de uma sociedade produtora de frustração. Essa lógica seria típica do puritanismo sexual, que é um produto americano – por esta razão não tem apelo na Europa, na França em particular (5).

Os filmes de horror são falsamente subversivos. O fato é que são puritanos e conservadores do fantástico. As estruturas mitológicas mudam devagar: existem sempre um super-herói, uma heroína, e eles acabam juntos. Sociedade ocidental: liberada e progressista na superfície, no fundo muito ligada a sua identidade. É aqui que o espectador americano e europeu se equivalem, pois ambos irão achar normal que o herói seja sempre mais puro do que ele ou ela. No filme de horror, é fácil captar o processo puritano. Porém, é mais complicado percebê-lo no nascimento da ficção científica (6). Primeiramente, os monstros das paredes e tetos das igrejas medievais dão lugar às representações da ordem e da beleza na Renascença. – da oposição entre natureza e cultura passamos a um tempo em que tudo que remete aos animais é “diabolizado”.

A Renascença lança a nova ordem da Razão e da Ciência, afastando-se do animal, do imaginário e do fantástico monstruoso. O animal está presente no imaginário ocidental como figura maléfica e monstruosa. Essa latência é que explicaria a criação da ficção científica. É aí que irá se exprimir toda a ”monstruosidade” do indivíduo, seu inconsciente pulsional, cheio de fantasmas e fobias. A ficção científica é uma catarse que mostra uma interioridade soterrada por 20 séculos de cristianismo e depois pelo positivismo. A ficção científica traz de volta o universo simbólico medieval, articulando-o à dobradinha Ciência-Razão: o maravilhoso científico, ou, a ficção científica.

Eis que surgem o naturalista Charles Darwin e o escritor H.G. Wells. O primeiro reintroduz uma filiação entre homem e animal numa relação que a Igreja havia hierarquizado. Ela havia estabelecido que somente o homem fosse puro e originalmente santo, enquanto os animais seriam profanos. As mulheres seriam criações secundárias a partir do homem. H.G. Wells mantém a ligação entre animal e Mal em seus escritos, condena o puritanismo que denigre o animal e o monstro. Em sua opinião, temos uma parte monstruosa que nega todo o nosso suposto angelismo.

Ao invés de opor monstruosidade e pureza, a ficção científica traça um paralelo entre nós e eles. A psicanálise, seja de Freud ou de Jung, não fez outra coisa (7). Em seus romances, H.G. Wells questiona essa cultura da pureza. Toda a sua obra pode ser lida como uma grande reação ao puritanismo, assim como um questionamento da idéia de perfeição do europeu cristão do final do século XIX. Como em A Ilha do Dr. Moreau (Island of Lost Souls, 1932), onde se faziam experiências biológicas que misturavam homem e animal. O personagem principal volta da ilha e acredita enxergar o animal, a besta, sob o verniz civilizado dos homens da cidade grande. Coloca-se à nu uma contradição em relação à incondicionalidade da pureza do homem, assim como sua impossibilidade prática. Wells também mostra a coincidência entre um ressurgimento do mito da pureza e a construção das primeiras teorias racistas do final do século XIX (8).

A ficção científica será, ao mesmo tempo, fruto do puritanismo e uma reação contra ele. Sempre a partir do impasse: ser um anjo, um super-homem, mas também um ditador, um censor, um tirano. A própria história ocidental seria uma sucessão de fanatismos em relação à pureza. Uma recusa do imaginário que acaba alcançando seu contrário, a ficção científica. Ela representa uma dominação da ligação entre animal e Mal (monstro) ao mostrá-la. A representação do monstro equivale a sua expulsão e a uma espécie de petrificação que o neutraliza fora de nós. A partir do racionalismo cientificista do século XIX, a noção de progresso substitui a idéia cristã de saúde. Entretanto, em ambos os casos, a vontade de “ordem” (divina ou cientifica) subsiste. A ciência afasta do campo de visão da sociedade tanto as aberrações genéticas quanto os deficientes mentais. Numa sociedade do super-rendimento físico e do narcisismo, essa “desordem”, essa monstruosidade deve ser evacuada de nosso universo.

Mas o monstro triunfa na ficção científica (9). A ficção científica denuncia e critica a sociedade da técnica por tentar banir o imaginário, opondo-o a ordem. Este erro a Igreja também já havia cometido. Por outro lado, devemos admitir que a ficção científica como um todo não esta a serviço do imaginário. Existe também uma ficção cientifica reacionária (10). Na opinião de Hougron, a boa ficção científica, nos trás de volta nossa esfera íntima ilimitada: o sonho. (imagem acima, Guerra dos Mundos, War of the Worlds, direção Byron Haskin, 1952; imagens abaixo, O Médico e o Monstro, Dr. Jekill & Mr. Hyde, direção John S. Robertson, 1920; Guerra nas Estrelas, Star Wars, direção George Lucas, 1977)

É no sonho que nosso imaginário pode ser reencontrado. O autor cita o sucesso que os dinossauros fazem atualmente entre as crianças. Não se trata de “animais simpáticos” ou da “imagem dos pais”, o que seduz nos dinossauros é o fato de serem monstros. Assim como os contos de fadas que devem ser ao mesmo tempo horríveis e sedutores para melhor dominar o inconsciente e suas pulsões, a ficção científica seria como uma terapia. Daí a importância dos monstros, seres que encarnam nossa animalidade. Mas não devemos esquecer de rejeitar uma ficção científica ruim, que apenas reproduz estereótipos e preconceitos. Sob formas degradadas, que privilegiam a violência e agressividade, a ficção científica tem tudo para constituir um novo “ópio do povo”. A ficção científica pode nos levar a refletir sobre nosso destino social, servindo também como utensílio de contestação. Uma estratégia de fuga reestruturante em relação à coletividade.

Exagerando um pouco, Hougron chega a afirmar que, pelo fato de não haver ficção científica em países com regimes totalitários, ela é naturalmente libertária (11). Ele só não deixa claro se os Estados Unidos, maior produtor de ficção científica, é ou não um regime totalitário – ou se os filmes do gênero lá produzidos (ou pelo menos parte deles) são ou não ficção científica reacionária. Lembro-me neste ponto de dois filmes do cineasta russo Andrei Tarkovski, Solaris (1972) e Stalker (1979). Tarkovski fazia seus filmes em plena vigência do regime comunista soviético. Não é que ele não tivesse lá seus problemas para filmar, mas não me parece que os empecilhos que enfrentava tivessem relação com o fato desses filmes serem de ficção científica – seus problemas eram a burocracia e a censura, o que atingia todos os seus filmes, e não apenas aqueles cujo gênero é a ficção científica. De qualquer forma, os filmes foram realizados. Hougron nem mesmo cita Tarkovski em seu livro e, embora critique boa parte da produção americana de ficção científica, não chega a ser explícito na articulação entre a produção de ficção científica reacionária e o país onde foi produzida quando esse país é os Estados Unidos.

A maior parte dos primeiros romances de ficção científica trata da animalidade no homem. O que tem relação com a rejeição dessa animalidade pelo cristianismo e a hipócrita dissimulação disse fato. A ficção científica é marcada tanto pelo mito da pureza no ocidente quanto pelo antídoto para essa situação. Hougron admite que muito da ficção científica dos bons autores também está impregnada de uma representação puritana da animalidade. Os marcianos de Wells, de A Guerra dos Mundos (War of The Worlds, 1953), e o Mr. Hyde, de O Médico e o Monstro (Dr. Jeckyll and Mr. Hyde, primeira de várias versões para cinema, 1920), de Stevenson, apresentam esses nossos duplos de uma forma tranqüilizadora: afirmam que não somos assim!

Segundo Hougron, Guerra nas Estrelas (George Lucas, 1977), e todas as seqüências, são o melhor exemplo do puritanismo na ficção científica(imagem ao lado). Tragédia shakespeariano-edipiana, gira em torno da relação entre o filho (justo) e o pai (corrupto). A questão é saber se a “morte do pai” (elemento psicanalítico) pode às vezes ser legítima. George Lucas, o idealizador da série e diretor dos filmes, decidiu que Luke deve salvar o pai (o vilão Darth Vader) para salvar a si mesmo. A trilogia fala da passagem para a maturidade: ao invés de ceder a suas pulsões e matar o pai, mata-se simbolicamente a parte ruim do pai, fazendo surgir o pai bom. A morte do Mal se dá pelo amor do filho ao pai. George Lucas rompe com mitologias onde o pai deve matar o filho para evitar que este o mate e o retire do trono no futuro.

O que salta aos olhos é a quase ausência de mulheres na trama. Portanto ausência de sexualidade. Vemos aí aparecer o puritanismo dessa estória pré-púbere. A princesa, quando vira mulher, é para sabermos que na verdade é a irmã de Luke – portanto, qualquer coisa aqui seria incesto. Hans Solo, piloto da nave espacial que leva todos pela galáxia, a sexualidade masculina adulta, não consegue nada com a princesa. Trata-se de uma temática familial, entretanto sem uma mãe para criar um conflito edipiano. Esse conflito é apenas sugerido pelo antagonismo Luke x Darth Vader. Parece que George Lukas tem grande interesse pela questão da passagem à idade adulta. Na verdade, um interesse por não se tornar adulto – aliás, uma qualidade de todo grande autor de ficção científica (12).

Notas:

1. HOUGRON, Alexandre. Science-Fiction et Société. Paris: PUF. 2000.
2. P. 100.
3. P. 101.
4. P. 102.
5. P. 103.
6. Pp. 102 e 105.
7. P. 111.
8. P.112.
9. P.115.
10. P.117.
11. P.119.
12. P.124.

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