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Roberto Acioli de Oliveira

28 de mai de 2015

Máscaras: Carnaval de Veneza


As festas  com máscaras  nos carnavais de Veneza e Viareggio
contêm elementos da cultura popular,  fruto de uma formalização
do  “folclore”  enquanto  gênero  de  política cultural  nacionalista
originada no século XIX mais do que questão de continuidade (1)

Dizem que tradição local foi a responsável por trazer máscaras do estrangeiro, na sequência da expansão da República de Veneza (dita A Sereníssima) em direção ao oriente. De acordo com Yvonne de Syke, as informações mais antigas se referem à utilização de “cobre rostos” remontando a 1094, durante do reinado do Doge Vitale Faliero Dodoni. No século seguinte, a vitória veneziana de 1162 sobre o patriarcado de Aquiléia (ao norte, no atual Friuli). Para comemorar o feito, prolongou-se um carnaval já existente. Rapidamente, folias com máscaras se instalam noutros meses do ano em Veneza. Elas começam em outubro com a abertura dos teatros, são interrompidas durante o período do Advento (Sensa), sendo retomadas em 26 de dezembro até a Ascensão, após uma pausa durante a Quaresma e a Semana Santa. As máscaras logo adquiriram um caráter de licenciosidade, transgressão e igualdade entre as classes sociais em Veneza, embora sua utilização tenha sido o mais das vezes imposta pelo governo por ocasião de acontecimentos políticos, neste caso em nada podendo ser considerada como sinônimo de carnaval. A passagem das máscaras pela Praça São Marcos acontece após a missa celebrada na Basílica da ilha de São Jorge Maior (San Giorgio Maggiore) em honra de São Estevão, cujo corpo está abrigado ali, trazido de Constantinopla em 1009. As máscaras seguem na direção do Palácio Ducal e fazem festa durante toda a noite, atravessando a ponte Rialto no final da festa pouco antes do amanhecer (2).


No século XVIII, era um servo humilde quem dava início oficial
ao  carnaval  de máscaras  em Veneza,  vestido com uma imitação
da   chamada   máscara    nobre     bauta   torta,   uma   máscara
branca   de   cera   furada  e  um  tabarro  cheio  de  remendos (3)

Mascarar-se para fazer mímica era privilégio exclusivo dos atores, que gesticulavam representando os mouros (a expulsão dos muçulmanos da Península Ibérica), em memória de eventos históricos, e dançavam a mourisca. Tudo era apresentado na Praça de São Marcos, enquanto certas pantomimas despejando sátiras da vida política tinham lugar no interior dos palácios, com atores e plateia igualmente protegidos por máscaras. Os salões dos conventos também recebiam apresentações teatrais quando, ao cair da noite, jovens monjas de origem aristocrática deixavam o isolamento escondidas atrás de máscaras e se misturavam com o povo nas festas pela cidade. Foi neste ambiente de deboche, de subversão e de diversão generalizada que nasceram, durante o século XVI, os personagens da commedia dell’arte, herdeiros de uma tradição bem enraizada na península itálica. Surge então a larva (ou Volto), a famosa máscara veneziana fabricada com oleado preto ou branco; rematada pela bauta, véu que cobre a cabeça e os ombros; o tabarro, capa grande, e o típico chapéu de três pontas. Tal configuração do carnaval histórico parecia ser suficiente para garantir a igualdade entre os sexos e suplantar as diferenças de classe e de fé, até que surgiu o traje de seda composto de um dominó de losangos multicoloridos, permitindo um anonimato ainda mais completo, por excelência o efeito buscado pelos disfarces venezianos.


Foi justamente durante as proibições que o uso de máscaras
e   disfarces   alcançou  maior  desenvolvimento  em  Veneza

Como em toda a Itália, também em Veneza as precursoras do carnaval são as antigas festas de máscaras como a Saturnália, que durante todo o Império Romano desenvolveram as possibilidades da orgia dos disfarces. Apesar da oposição da Igreja Católica, os venezianos celebravam o carnaval desde os primeiros tempos da cidade. Como é o caso do Jogo dos Ovos, quando homens disfarçados de pequenos diabos apareciam diante das casas daquelas moças que lhes interessavam e, ao comando de um cavaleiro (Mattaccino) vestido de branco e vermelho, jogavam ovos perfumados (imagem acima, ilustração F. Bertelli, Veneza, 1569). Em 1268 o Grande Conselho proíbe tal coisa no “bairro do governo” (a região em torno de São Marcos), apesar disso o costume continuaria popular até o século XVII. Tem início uma época de proibições. Supondo que tal medida inibiria o roubo e a fraude, foi proibido o uso de máscaras na cidade em 1339. Muitas reedições e complementações das leis foram realizadas ao longo de séculos sem que fossem respeitadas - um século mais tarde ainda se ouvia falar de homens que disfarçados de mulher cometeram obscenidades no interior de conventos. Contudo, Rolf Schwarz afirmou que tal interesse em proibir tinha mais relação com o estabelecimento de mecanismos de controle por parte das instâncias de poder político, e o carnaval representava uma reserva de liberdade com a qual o Estado veneziano não sabia lidar (4). (imagem abaixo, Il Caffè Florian, Francesco Guardi, 17??)


(...) A máscara faz parte da vestimenta (...)

Descrição do carnaval de Veneza por um turista em 1739

Aparentemente, tal situação levaria ao aprofundamento do interesse nos disfarces, atingindo estágio culminante durante o Renascimento, com a mitologia da Antiguidade e a fantasia poética da modernidade – sem esquecer o arsenal de elementos trazidos dos povos colonizados por Veneza, assim como daqueles com quem estabelecera laços comerciais. Em 1608 cairia a proibição de visitas aos conventos e outros edifícios eclesiásticos de pessoas portando máscaras, a partir de agora se passariam a permitir os disfarces apenas durante o carnaval – ainda que a festa já estivesse ocorrendo em diversas partes do ano, incluindo as festividades anuais mais variadas e até as cerimônias políticas. Ainda de acordo com Schwarz, essa mudança de atitude do Estado em relação às máscaras e aos disfarces teria relação com o declínio político e econômico de Veneza em relação às mudanças que estavam acontecendo na Europa – era mais fácil se esconder por trás de máscaras e o carnaval acalmava os ânimos.  No século XVIII, essa infiltração da sociedade pelas máscaras estava consolidada (tanto que para dirigir-se a alguém bastava a fórmula “senhor máscara”), convertendo Veneza numa grande atração turística na era pré-industrial – indústria que compensaria as perdas crescentes na economia da cidade. Um destes turistas foi o presidente do parlamento da cidade francesa de Dijon, o escritor Charles de Brosses, que em uma de suas cartas à família em 1739 descreve o papel das máscaras na sociedade veneziana do settecento:

“O carnaval tem início em 5 de outubro, e logo acontece outro menor na época da Ascensão. A partir de então pode contar-se com algo em torno de seis meses nos quais todo mundo aqui utiliza máscaras, sacerdotes e leigos, inclusive o núncio e o porteiro dos capuchinhos. Não pense que estou brincando. A máscara faz parte da vestimenta. Os padres se zangam com seus paroquianos, e o arcebispo com seus clérigos, se estes não levam a máscara na mão ou acima do nariz” (5)

Leia também:
Notas:

1. POPPI, Cesare. The Other Within: Masks and Masquerades in Europe. In: MACK, John (Ed.). Masks. The Art of Expression. London: The British Museum Press, 1996. P. 215.
2. SIKE, Yvonne de. Les Masques. Rites et Symboles en Europe. Paris: Éditions de La Martinière, 1998. Pp. 71, 74.
3. SCHWARZ, Rolf D. Carnaval en Venecia. Espanha: Salvat Editores, S. A., 1991. Pp. 130, 134.
4. Idem, pp. 125, 126-32.
5. Ibidem, pp. 129.

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