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Roberto Acioli de Oliveira

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10 de jun. de 2011

Mulher de Harém




“No inicio
do século 20, com
a dissolução e queda do
Império Otomano, muitas de
suas instituições características
também faleceram. A poligamia
e o repúdio foram abandonados,
os haréns foram fechados. Toda
uma era chegou ao fim, e com
ela os sonhos, alucinações e
mitos que sustentou”
(1)




Vivendo em tribos nômades e vagando pelas estepes da Ásia, a mulher possuía uma autoridade maior. Com o novo modo de vida sedentário, conceitos islâmicos e costumes bizantinos impuseram a elas a segregação do harém. Os homens tinham a autoridade máxima, embora no harém a que tinha direito fossem as mulheres que mandavam. O Corão permite a um homem possuir quatro esposas legítimas e certo número de concubinas, mas ele deverá ser capaz de sustentá-las. Sendo assim, a maioria era monógamo, apenas os ricos e poderosos tinham a possibilidade de manter um harém. Um espaço dominado por elas, para entrar nele mesmo o dono da casa deveria observar certa etiqueta. Devido a essa herança do nomadismo, ao contrário das mulheres no restante do mundo islâmico, as turcas nunca foram completamente marginalizadas na sociedade. A situação da mulher na sociedade otomana era um pouco mais complexa do que poderia parecer a um primeiro olhar. Elas conseguiam estruturar bolsões de autonomia e, em certos momentos na história, até mesmo reverter sua posição de inferioridade social (2).


A esterilidade
feminina poderia
ser vista como uma
das razões para

a poligamia

Durante sua vida, um turco veria apenas essas cinco ou seis mulheres de sua família e não teria nenhuma outra ligação sexual a não ser com algumas mulheres gregas, armênias ou eventualmente uma européia que chegasse à Ásia Menor. O casamento era aceito por todos, embora a família imperial não o praticasse. A partir da segunda metade do século 15, os sultões não formavam uniões legais e, com raras exceções, transavam apenas com as concubinas. Por outro lado, as princesas eram as únicas mulheres do império que, casando-se com escravos, podiam impor a eles a monogamia.


Ao tornarem-se mães, as mulheres adquiriam um outro status no Império Otomano. Um muçulmano só se considera realizado quando produz um descendente (preferencialmente do sexo masculino), o que confere privilégios à maternidade. Neste sentido, a esterilidade feminina poderia ser vista como uma das razões para a poligamia. No harém de um grande chefe, ou nas casas mais humildes, as mães governam suas filhas, noras, servas e filhos homens até certa idade. A mãe escolhe a esposa do filho, o qual se tornará o chefe da família no caso da morte do pai.




A partir
do século 18
,
a
s otomanas foram
le
vadas gradualmente
pela onda de reformas
que modificaram
sua posição na
sociedade





Mas é evidente que um homem turco é privilegiado desde o nascimento, dependendo das poses da família ele pode estudar e trabalha, enquanto as meninas recebem menos educação e na quase totalidade dos casos são direcionadas apenas para se tornam mães, donas de casa e esposas: assim como na sociedade européia da época, as mulheres eram educadas tendo o casamento como única meta. Administrados pela mãe, os encontros do filho com a noiva aconteciam inicialmente nos banhos públicos, e posteriormente no interior do harém. Como de resto em muitos outros lugares, o matrimônio era também uma transação financeira. O Corão estipula o pagamento de uma soma pelo noivo que seja proporcional a suas poses, que será guardada pela noiva no caso dela ser repudiada. O repúdio, contudo, era uma prerrogativa unilateral dos homens. No caso de problemas conjugais, a única chance da esposa era apelar para um juiz que auxiliará o marido na interpretação de seu papel na relação. Mas do ponto de vista da vida no harém, foi apenas no século 18 que as mulheres das aristocracias européias puderam usufruir de um local só para elas. O tempo se passou, mas fetiche masculino do harém continua vivo. Em 1963, o cineasta italiano Federico Fellini construiu um harém em Fellini 8 ½ (Otto e Mezzo). Nos sonhos de Guido (o protagonista e alter ego do cineasta), a primeira coisa que acontece é o encontro entre sua esposa e sua amante exuberante. A seguir... todas as outras, mas a esposa de Guido é a única que lava o chão e as roupas (sem esquecer da vedete que implora para ficar no harém, mas Guido está inflexível). (vídeo abaixo).


Notas:

24 de fev. de 2011

Este Corpo Não Te Pertence: A Mulher Fascista


Organizar Para Controlar

Benito Mussolini tinha fama de mulherengo, de homem macho. É parte do folclore dizer que muitas mulheres deixavam suas calcinhas nas praças, depois dos discursos dele - seria Berlusconi, o atual Primeiro Ministro/mulherengo italiano, a reencarnação de Benito? Entretanto, a conversa mudava quando o assunto eram os direitos das mulheres italianas enquanto cidadãs. No início do governo de Mussolini houve uma contribuição feminista. Entretanto, em 1922, a participação feminina não passava de 2%, e não havia mulheres na liderança (1) - embora isso ocorresse também noutros partidos políticos, já que as italianas não tinham direito a voto. O fascismo recrutou muitas descontentes com o feminismo, e organizações de mulheres fascistas rivalizavam com as similares católicas. De acordo com Michael Mann, o fascismo precisava organizar as mulheres para controlá-las. O controle se deu de forma não-coercitiva, através de atividades sociais e ritualizadas. O fascismo às homenageava como “reprodutoras da nação”, os “anjos do coração”. Embora discursassem com textos escritos basicamente pelos homens, pela primeira vez as mulheres foram projetadas no cenário nacional. O que o poder queria das mulheres do povo, era o bom e velho apoio passivo.



.
Em Um Dia
Muito Especial,
Scola  mostrou  que
tipo   de   função   era
reservada à mulher/
mãe italiana na

  era fascista




Em 26 de maio de 1927, naquele que ficou conhecido como Discurso da Ascensão, Benito Mussolini mostra sua obsessão em relação às taxas de natalidade. Naquela época a política imperialista de Mussolini (e de muitos outros), mas também a política industrial em geral, era muito dependente de uma alta taxa de natalidade – uma preocupação nacionalista desde 1923. O casamento, dizia o nacionalista Alfredo Rocco, não se dá em benefício dos cônjuges, mas como ato de dedicação e sacrifício, pois a família é o núcleo de fundação da sociedade. O Futurismo de Marinetti também deu sua contribuição com a introdução do conceito de mulher-raiz. Em 1926, nasce uma discussão entre cientistas e assistentes sociais sobre a necessidade de exames pré-matrimoniais visando garantir a compatibilidade genética dos cônjuges e a “saúde da raiz itálica” (2). Seja para dispor de gente para colonizar áreas conquistadas, ou dispor dos soldados que conquistarão novas áreas, o contingente populacional era um fator crucial. Portanto, naquele dia de maio, o famoso discurso de Mussolini selou o futuro da condição feminina no regime fascista.





Em     Amarcord,
Fellini   nos   mostrou
a  mentalidade  do  povo
italiano durante o fascismo
.
Gradisca
,   por   exemplo,
adorava os homens em
 
uniformes militares





A demografia e a raça eram as duas preocupações principais do governo. Considerada questão de saúde pública, o aumento da taxa de natalidade fez da demografia o maior inimigo dos donos de bar - assim como das camisinhas, do aborto e do trabalho feminino fora de casa. Sob a bandeira da luta contra o alcoolismo, Mussolini chegou a fechar 25 mil bares. A lógica machista por trás foi fazer com que os homens largassem o vinho e o carteado, indo procurar outro passatempo debaixo dos lençóis. Mussolini também questionava o que considerava incompetência do governo liberal por não dar devida importância à questão demográfica como base da força econômica de uma nação. Todos os métodos contraceptivos foram condenados, o que agradou ao Vaticano. Mas como fazer com que as mulheres largarem os empregos, voltarem para casa e assumirem os velhos papeis de mãe-esposa-arrumadeira? Em Um Dia Muito Especial (Una Giornata Particolare, direção Ettore Scola, 1977), acompanhamos o dia de uma dessas criaturas. O fetiche de Gradisca por uniformes militares em Amarcord (direção Federico Fellini, 1973) deveria facilitar bastante o trabalho dos fascistas. (no vídeo abaixo, Amarcord. A seqüência mostra a visita de um oficial fascista, Gradisca é a morena de roupa e boné vermelhos. Pode-se notar que eles estão trotando ao invés de marchar. Aqui Fellini fez alusão ao costume do fascista Achille Starace, que achava que assim seria identificado como um homem enérgico. A certa altura, um deles faz alusão ao fato de que Mussolini tem “colhões”)


Todo o peso da política demográfica recairá sobre os ombros das mulheres, fascistas ou não. Em 1929, o programa demográfico fascista é lançado: 1) desestímulo às migrações para o exterior e as cidades; 2) estímulo à natalidade; 3) proteção da maternidade e da infância. Mussolini propagou a idéia de que a baixa taxa de natalidade colocaria em risco a civilização italiana. Os médicos foram induzidos a “demonstrar” que as mulheres que tinham filhos eram mais belas e saudáveis. A Universidade de Roma realizou uma pesquisou e concluiu que a elegância no vestir tem reflexos negativos na fecundidade. Além do mais, como a maioria dos frutos da natalidade deveria tornar-se soldado, era melhor que elas tivessem filhos homens. A mulher passa a ser considerada a depositária da pureza racial italiana, função articulada à de “mãe responsável”. Quer dizer, ela deve estar em casa criando marmanjos saudáveis para entregar ao Duce. A eugenia está por traz dessa busca de “incremento qualitativo e quantitativo da raça”. Apesar disso, ressaltou Bosworth, o racismo fascista tinha um sentido mais espiritual e subjetivo do que no caso dos nazistas. As medidas legislativas que se apresentaram como protetoras, na verdade ajudaram a construir a gaiola que isolou a mulher, subordinando-a ao homem.

O Dia das Mães Italianas




A ditadura fascista
se proclamava um Estad
o
do bem-estar social

R. J. B.
Bosworth (3)





Instituída em 1925, a Agência Nacional para Mães e Crianças (Opera Nazionale Maternità e Infanzia, ONMI) (4), pensada pelos liberais e Católicos, era ligada ao Partido Fascista e seu objetivo era prestar assistência às mães necessitadas e à infância abandonada. Fornecia-se auxílio também as mães de filhos ilegítimos. Entretanto, sustenta Vicini, o objetivo seria mais ligado às idéias eugênicas do que a qualquer outra coisa: acreditava-se que o aleitamento no seio materno (impossível num orfanato) reforça a saúde do filho. Portanto, mesmo as mães com filhos ilegítimos devem fornecer à pátria homens fortes. As mulheres desempenhavam também o papel de propagandistas da ONMI, pois entravam nas casas para difundir as idéias de Mussolini sobre os deveres da maternidade, sobre a eugenia, sobre a hierarquia entre os sexos. Pelo menos durante a época de Mussolini, a instituição jamais chegou a ser efetiva fora do papel.




A política

de Mussolini para
as mulheres não passava 
de uma tentativa de melhor administrar a dominação dos
homens sobre elas. Nisso ele
não   fez   diferente   de
nenhum Estado no
Ocidente





Em 1933 foi instituída a Giornata della Madre e del Fanciullo. Em 1934 a revista Almanacco Della Donna Italiana relembrou o evento como um momento de festejo e glorificação das mães e a maternidade. Uma exaltação do que constitui o maior “mérito da ração”: a fecundidade. A revista lembrou ainda a distribuição de presentes às famílias numerosas e as informações sobre aleitamento e higiene. Contou-se ainda com exibição de filmes de educação demográfica e recreação, para a mãe e o filho. Mussolini em pessoa daria um prêmio em dinheiro para os 92 casais mais férteis! A Giornata aconteceu durante o Natal, o objetivo era aproximar-se da festa cristã e capturar sua aura sacra. De acordo com Bosworth, apesar de realizações como a Agência Nacional para Mães e Crianças, o que poderia parecer um Estado do bem-estar social fascista não passava de uma preocupação indireta da liderança patriarcal. No discurso do Dia da Ascensão, Mussolini explicitou o papel crucial da demografia em seu projeto político. Os italianos bebem demais, ele dizia – embora tenha feito o mesmo na juventude (5). Mussolini chegou a dizer que a industrialização e rápida urbanização estavam esterilizando os italianos. Apesar de haver criticado a vida no campo, ele passou a defender a ruralização como fonte da vida demograficamente produtiva (6).




Nem só de fundamentalismo
islâmico é feita a misoginia







Augusto Turati, secretário do Partido Fascista e racista de carteirinha, dizia que a raiz da raça tinha de ser protegida. A família, a educação da mulher e o “problema da raça” eram as questões fundamentais de litígio dos Fascistas. Em relação à crítica de Mussolini à metrópole, talvez seus projetos de cidade espalhados pela Itália fossem uma resposta. A reurbanização de Roma levada a cabo por ele, abrindo avenidas e botando abaixo bairros medievais para permitir seus desfiles militares, seria uma solução? Mães Italianíssimas, assim foram chamadas as italianas residentes no exterior - que o Partido chamou para terem seus filhos na Itália. Mas a estrutura do projeto era precária, italianas pobres em outros continentes dificilmente encontravam ajuda. Outro problema foram as trabalhadoras. Como trazê-las de volta para dentro de casa? O problema de mandá-las de volta para os afazeres domésticos é que os industriais precisavam delas. De qualquer forma, elas eram mais maleáveis porque menos sindicalizadas. Elaboraram-se dois princípios para a política fascista do trabalho: 1) o Estado deve tutelar as mulheres enquanto mães ou futuras mães; 2) as mulheres devem trabalhar, mas seria melhor se o fizessem em casa.




Leia também: 

Fellini: Infantilismo e Fascismo na Sociedade Italiana
As Mulheres de Federico Fellini (I), (II), (III), (IV), (V), (VI), (VII), (VIII)
Fellini e a Orquestra Itália
Mussolini e a Sombra de Auschwitz

Notas:

1. MANN, Michael. Fascistas. Tradução de Clóvis Marques. RJ/SP: Record, 2008. Pp. 141-2.
2. VICINI, Sergio. Fasciste. La Vita Delle Donne nel Ventennio Mussoliniano. Milano: Hobby & Work, 2009. Pp. 23-4, 27-8, 29, 31, 35.
3. BOSWORTH, R. J. B. Mussolini's Italy. Life Under the Fascist Dictatorship, 1915-1945. New York: Penguim Books, 2006.  P. 442.
4. VICINI, Sergio. Op. Cit., pp. 36, 40-1.
5. BOSWORTH, R. J. B. Op. Cit., pp. 245.
6. VICINI, Sergio. Op. Cit., pp. 25, 42, 44. 


1 de out. de 2009

Puritanismo e Ficção Científica (I)


“A ficção científica é um refúgio,
fuga para escapar do mundo dos
adultos
e suas responsabilidades”

Alexandre Hougron
Science-Fiction et Société, p.264

Muitas vezes os filmes desse gênero são relegados ao fundo das prateleiras das locadoras. Ou são considerados filmes para criança, ou sem valor cinematográfico, ou ainda como uma coleção de efeitos especiais rudimentares demais para nós que vivemos na era dos efeitos especiais de computação. Entretanto, o fato de serem considerados filmes “para crianças” por si só deveria significar que deveríamos saber mais sobre esse “divertimento”. Os efeitos especiais rudimentares nos filmes mais antigos podem cansar os mais desatentos (alias, falta de atenção parece ser uma marca de nossa época), porém uma analise mais pormenorizada pode mostrar-nos uma verdadeira história da evolução dos efeitos especiais no cinema.

Entretanto, apesar de todas essas qualidades, aqui iremos nos concentrar apenas no elemento “divertimento”. Será que a ficção científica pode mesmo ser considerada apenas isso? Apesar de ter nascido antes da invenção do cinema, deixaremos a literatura de lado e vamos nos concentrar nele. Seguiremos a trilha de Alexandre Hougron. Em seu livro, Science-Fiction et Société (1), procurou mostrar quais as possíveis relações entre vaginas, monstros gosmentos e comportamento puritano. O que um “divertimento” poderia nos ensinar sobre nossa sexualidade?

Muito identificado com certa ética religiosa, o comportamento puritano vem interferindo e moldando nossa sexualidade há muitos séculos. Mesmo quando acreditamos que somos conscientes de nossa sexualidade não percebemos como nossos atos podem ter sido já previstos e induzidos por mecanismos puritanos. O ponto que talvez chame mais atenção na análise de Hougron é a constatação da incapacidade profunda na sociedade ocidental em incorporar o contraditório, o diferente, o Outro: a mulher. (imagem acima, A Mulher Vespa, direção Roger Corman, 1959; imagem ao lado, Tubarão, Jaws, direção Steven Spielberg, 1975; imagem abaixo, A Ilha do Dr. Moreau, Island Of Lost Souls, direção E.C. Kenton, 1933)

Pudera, desde o nascimento da filosofia, lá se vão 2.500 anos, o discurso hegemônico da Razão procura de todas as formas eliminar ou, pelo menos, neutralizar a pluralidade da vida. A intenção até que podia ser boa: explicar o mundo pelas semelhanças, e n ão pelas diferenças. A heterogeneidade do mundo e da vida deveria ter como fonte um elemento comum básico. A partir daí, tudo que significasse desvio era eliminado como exceção ou erro. Onde a ficção científica entra nisso? O que nossa sexualidade tem a ver com o contraditório? O que a vagina tem a ver com a ficção científica?

Sobre Animais Impuros e Homens Puros

“Essa simbólica da perda de
uma Idade de Ouro
. Temática pagã,
e
, mais especificamente, no judaísmo
e cristianismo
, que a assimilaram.
Aquela do desaparecimento de uma ‘natureza’ humana
edênica que é, na realidade, um estado de pureza e incorrupção (lembremos que Adão
era imortal antes da Queda)”

Science-Fiction et Société, p. 108

O puritanismo elimina o caráter iniciático que sugere que a pureza é fruto de uma busca espiritual. Portanto, a pureza seria uma recompensa. O puritanismo passa a considerar a pureza como fruto do simples fato de alguém se declarar crente. No caso anterior, também se acreditava que somos intrinsecamente puros, porém seria necessária uma busca dessa pureza. No caso do puritanismo, basta sabermos que somos puros. Esta postura está na base de uma visão de superioridade em relação aos que não professam aquela fé ou são ateus. Trata-se de uma construção religiosa que não admite a hipótese de um ser humano contraditório e m sua natureza. Nas religiões orientais e panteístas, não existe essa postura monolítica (integrista). No Ying sempre existe algo de Yang e vice-versa. A tolerância é mais efetiva. Essa tolerância não existe nos grandes monoteísmos (Cristianismo, Judaísmo e Islamismo). Desta forma, o homem definitivamente puro (2) torna-se um fantasma, perseguido mas nunca encontrado, por duas culturas agressivas e imperialistas (os ocidentais, e o mundo muçulmano). (as próximas três imagens abaixo, O Monstro da Lagoa Negra, Creature from the Black Lagoon, direção Jack Arnold, 1954)

Batem-se entre si buscando afirmar um homem que seja absolutamente santo. O motor dessa agressividade engendrada pelos puritanos. O puritanismo também se manifesta pelo puritanismo sexual, muito comum nos filmes de horror. Nesses filmes, só a virgem sobrevive! Assim sendo, o casal que morre esfaqueado porque se afastou para fazer sexo, reencontra sua própria animalidade na figura do monstro assassino. Dito de outro modo, se não somos puros, os monstros que nos atacam são duplos de nós mesmos. O autor considera o puritanismo americano como a forma mais neurótica de puritanismo. Ainda segundo o autor, aquilo que deixa o código puritano bem visível é justamente o que chama de histeria anti-sexual americana. Já na Ficção Científica o puritanismo é mais sutil (3).

Hoje em dia, o puritanismo se metamorfoseou, perdeu as referências religiosas. Entretanto, ele foi além e se naturalizou. O puritanismo não está mais numa substância reconhecível, está em nossa moral, em nossas mentes. O paradoxo é tão grande que um espectador que não se conforme aos códigos morais puritanos, irá assistir normalmente a um filme de horror ou ficção científica. Quer dizer, irá aderir aos discursos reacionários puritanos quase que inconscientemente. Segundo Hougron, todo o cinema ocidental, de ficção científica, e mesmo o de não-ficção, está impregnado por esses valores – onde a virgindade e a inocência serão recompensadas (4).

É a questão do prazer pelo proibido. Como o puritano é um frustrado, gera grande prazer aquilo que é interditado para ele. O frustrado se identifica com o monstro ou o psicopata. O puritanismo proíbe o sexo, mas o sugere e associa à violência e ao sadismo. Desta forma, o sexo é substituído (coitus interruptus) pelo espetáculo do sangue e da morte. Satisfação sexual e violência tornam-se equivalentes. O pênis é substituído pela faca ou revolver, o sangue escorrendo substitui o esperma. Portanto, serial killers mascarados como o personagem de Jason, é criação de uma sociedade produtora de frustração. Essa lógica seria típica do puritanismo sexual, que é um produto americano – por esta razão não tem apelo na Europa, na França em particular (5).

Os filmes de horror são falsamente subversivos. O fato é que são puritanos e conservadores do fantástico. As estruturas mitológicas mudam devagar: existem sempre um super-herói, uma heroína, e eles acabam juntos. Sociedade ocidental: liberada e progressista na superfície, no fundo muito ligada a sua identidade. É aqui que o espectador americano e europeu se equivalem, pois ambos irão achar normal que o herói seja sempre mais puro do que ele ou ela. No filme de horror, é fácil captar o processo puritano. Porém, é mais complicado percebê-lo no nascimento da ficção científica (6). Primeiramente, os monstros das paredes e tetos das igrejas medievais dão lugar às representações da ordem e da beleza na Renascença. – da oposição entre natureza e cultura passamos a um tempo em que tudo que remete aos animais é “diabolizado”.

A Renascença lança a nova ordem da Razão e da Ciência, afastando-se do animal, do imaginário e do fantástico monstruoso. O animal está presente no imaginário ocidental como figura maléfica e monstruosa. Essa latência é que explicaria a criação da ficção científica. É aí que irá se exprimir toda a ”monstruosidade” do indivíduo, seu inconsciente pulsional, cheio de fantasmas e fobias. A ficção científica é uma catarse que mostra uma interioridade soterrada por 20 séculos de cristianismo e depois pelo positivismo. A ficção científica traz de volta o universo simbólico medieval, articulando-o à dobradinha Ciência-Razão: o maravilhoso científico, ou, a ficção científica.

Eis que surgem o naturalista Charles Darwin e o escritor H.G. Wells. O primeiro reintroduz uma filiação entre homem e animal numa relação que a Igreja havia hierarquizado. Ela havia estabelecido que somente o homem fosse puro e originalmente santo, enquanto os animais seriam profanos. As mulheres seriam criações secundárias a partir do homem. H.G. Wells mantém a ligação entre animal e Mal em seus escritos, condena o puritanismo que denigre o animal e o monstro. Em sua opinião, temos uma parte monstruosa que nega todo o nosso suposto angelismo.

Ao invés de opor monstruosidade e pureza, a ficção científica traça um paralelo entre nós e eles. A psicanálise, seja de Freud ou de Jung, não fez outra coisa (7). Em seus romances, H.G. Wells questiona essa cultura da pureza. Toda a sua obra pode ser lida como uma grande reação ao puritanismo, assim como um questionamento da idéia de perfeição do europeu cristão do final do século XIX. Como em A Ilha do Dr. Moreau (Island of Lost Souls, 1932), onde se faziam experiências biológicas que misturavam homem e animal. O personagem principal volta da ilha e acredita enxergar o animal, a besta, sob o verniz civilizado dos homens da cidade grande. Coloca-se à nu uma contradição em relação à incondicionalidade da pureza do homem, assim como sua impossibilidade prática. Wells também mostra a coincidência entre um ressurgimento do mito da pureza e a construção das primeiras teorias racistas do final do século XIX (8).

A ficção científica será, ao mesmo tempo, fruto do puritanismo e uma reação contra ele. Sempre a partir do impasse: ser um anjo, um super-homem, mas também um ditador, um censor, um tirano. A própria história ocidental seria uma sucessão de fanatismos em relação à pureza. Uma recusa do imaginário que acaba alcançando seu contrário, a ficção científica. Ela representa uma dominação da ligação entre animal e Mal (monstro) ao mostrá-la. A representação do monstro equivale a sua expulsão e a uma espécie de petrificação que o neutraliza fora de nós. A partir do racionalismo cientificista do século XIX, a noção de progresso substitui a idéia cristã de saúde. Entretanto, em ambos os casos, a vontade de “ordem” (divina ou cientifica) subsiste. A ciência afasta do campo de visão da sociedade tanto as aberrações genéticas quanto os deficientes mentais. Numa sociedade do super-rendimento físico e do narcisismo, essa “desordem”, essa monstruosidade deve ser evacuada de nosso universo.

Mas o monstro triunfa na ficção científica (9). A ficção científica denuncia e critica a sociedade da técnica por tentar banir o imaginário, opondo-o a ordem. Este erro a Igreja também já havia cometido. Por outro lado, devemos admitir que a ficção científica como um todo não esta a serviço do imaginário. Existe também uma ficção cientifica reacionária (10). Na opinião de Hougron, a boa ficção científica, nos trás de volta nossa esfera íntima ilimitada: o sonho. (imagem acima, Guerra dos Mundos, War of the Worlds, direção Byron Haskin, 1952; imagens abaixo, O Médico e o Monstro, Dr. Jekill & Mr. Hyde, direção John S. Robertson, 1920; Guerra nas Estrelas, Star Wars, direção George Lucas, 1977)

É no sonho que nosso imaginário pode ser reencontrado. O autor cita o sucesso que os dinossauros fazem atualmente entre as crianças. Não se trata de “animais simpáticos” ou da “imagem dos pais”, o que seduz nos dinossauros é o fato de serem monstros. Assim como os contos de fadas que devem ser ao mesmo tempo horríveis e sedutores para melhor dominar o inconsciente e suas pulsões, a ficção científica seria como uma terapia. Daí a importância dos monstros, seres que encarnam nossa animalidade. Mas não devemos esquecer de rejeitar uma ficção científica ruim, que apenas reproduz estereótipos e preconceitos. Sob formas degradadas, que privilegiam a violência e agressividade, a ficção científica tem tudo para constituir um novo “ópio do povo”. A ficção científica pode nos levar a refletir sobre nosso destino social, servindo também como utensílio de contestação. Uma estratégia de fuga reestruturante em relação à coletividade.

Exagerando um pouco, Hougron chega a afirmar que, pelo fato de não haver ficção científica em países com regimes totalitários, ela é naturalmente libertária (11). Ele só não deixa claro se os Estados Unidos, maior produtor de ficção científica, é ou não um regime totalitário – ou se os filmes do gênero lá produzidos (ou pelo menos parte deles) são ou não ficção científica reacionária. Lembro-me neste ponto de dois filmes do cineasta russo Andrei Tarkovski, Solaris (1972) e Stalker (1979). Tarkovski fazia seus filmes em plena vigência do regime comunista soviético. Não é que ele não tivesse lá seus problemas para filmar, mas não me parece que os empecilhos que enfrentava tivessem relação com o fato desses filmes serem de ficção científica – seus problemas eram a burocracia e a censura, o que atingia todos os seus filmes, e não apenas aqueles cujo gênero é a ficção científica. De qualquer forma, os filmes foram realizados. Hougron nem mesmo cita Tarkovski em seu livro e, embora critique boa parte da produção americana de ficção científica, não chega a ser explícito na articulação entre a produção de ficção científica reacionária e o país onde foi produzida quando esse país é os Estados Unidos.

A maior parte dos primeiros romances de ficção científica trata da animalidade no homem. O que tem relação com a rejeição dessa animalidade pelo cristianismo e a hipócrita dissimulação disse fato. A ficção científica é marcada tanto pelo mito da pureza no ocidente quanto pelo antídoto para essa situação. Hougron admite que muito da ficção científica dos bons autores também está impregnada de uma representação puritana da animalidade. Os marcianos de Wells, de A Guerra dos Mundos (War of The Worlds, 1953), e o Mr. Hyde, de O Médico e o Monstro (Dr. Jeckyll and Mr. Hyde, primeira de várias versões para cinema, 1920), de Stevenson, apresentam esses nossos duplos de uma forma tranqüilizadora: afirmam que não somos assim!

Segundo Hougron, Guerra nas Estrelas (George Lucas, 1977), e todas as seqüências, são o melhor exemplo do puritanismo na ficção científica(imagem ao lado). Tragédia shakespeariano-edipiana, gira em torno da relação entre o filho (justo) e o pai (corrupto). A questão é saber se a “morte do pai” (elemento psicanalítico) pode às vezes ser legítima. George Lucas, o idealizador da série e diretor dos filmes, decidiu que Luke deve salvar o pai (o vilão Darth Vader) para salvar a si mesmo. A trilogia fala da passagem para a maturidade: ao invés de ceder a suas pulsões e matar o pai, mata-se simbolicamente a parte ruim do pai, fazendo surgir o pai bom. A morte do Mal se dá pelo amor do filho ao pai. George Lucas rompe com mitologias onde o pai deve matar o filho para evitar que este o mate e o retire do trono no futuro.

O que salta aos olhos é a quase ausência de mulheres na trama. Portanto ausência de sexualidade. Vemos aí aparecer o puritanismo dessa estória pré-púbere. A princesa, quando vira mulher, é para sabermos que na verdade é a irmã de Luke – portanto, qualquer coisa aqui seria incesto. Hans Solo, piloto da nave espacial que leva todos pela galáxia, a sexualidade masculina adulta, não consegue nada com a princesa. Trata-se de uma temática familial, entretanto sem uma mãe para criar um conflito edipiano. Esse conflito é apenas sugerido pelo antagonismo Luke x Darth Vader. Parece que George Lukas tem grande interesse pela questão da passagem à idade adulta. Na verdade, um interesse por não se tornar adulto – aliás, uma qualidade de todo grande autor de ficção científica (12).

Leia Também:

Puritanismo e Ficção Científica (II)

Notas:

1. HOUGRON, Alexandre. Science-Fiction et Société. Paris: PUF. 2000.
2. P. 100.
3. P. 101.
4. P. 102.
5. P. 103.
6. Pp. 102 e 105.
7. P. 111.
8. P.112.
9. P.115.
10. P.117.
11. P.119.
12. P.124. 


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