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Roberto Acioli de Oliveira

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21 de abr. de 2011

Grotesco da Vida ou da Mídia?




Se o horror
pudesse realmente
ser most
rado claramente todos compreenderiam
a total insanidade
da matança?





As imagens da guerra se tornaram parte de nosso cotidiano, mas a consciência do sofrimento é construída – sobretudo em função da maneira como as câmeras registram as imagens. Vivemos numa cultura onde o choque se tornou um estímulo para o consumo: as imagens se encontram como choque e como clichê. Nas palavras de Susan Sontag, as informações do que se passa longe de nossas casas, que alguns chamam de “notícias”, sublinham conflito e violência – a busca do Ibope através do grotesco. A Guerra Civil Espanhola (1936-39) foi a primeira guerra testemunhada no sentido moderno: através de um corpo de fotógrafos profissionais na linha de frente, cujo trabalho era imediatamente visto nos jornais do mundo. A Guerra do Vietnã foi apresentada pelas câmeras de tevê na sala de estar dos norte-americanos. Desde então, explica Sontag, batalhas e massacres filmados na hora em que acontecem tornam-se um ingrediente rotineiro no fluxo incessante de entretenimento televisivo doméstico: “A compreensão da guerra para as pessoas que não vivenciaram uma guerra é, agora, sobretudo um produto do impacto dessas imagens” (1). E assim, a imagem dos eventos passa a definir os próprios eventos. O que fica patente no relato de sobreviventes quanto de pessoas que viram de perto o atentado ao World Trade Center em 11 de setembro de 2001, que se referiram ao acontecimento como “irreal”, “surreal”, “como um filme” (2). (imagem acima, Non Violence, escultura de Karl Fredrik Reutersward, exposta em frente ao prédio das Nações Unidas, em Nova York)



Os norte-america
nos
não mostram os rostos
de seus soldados mortos
,
já os do inimigo... (3)




Sontag se refere a uma iconografia do sofrimento, onde imagens de corpos nessa condição têm uma demanda tão grande quanto imagens de corpos nus. Durante séculos, uma necessidade satisfeita pela arte cristã com as representações do inferno e/ou martírios em geral. A representação de sofrimentos atrozes passará a ser deplorada quando o tema for o sofrimento de uma população civil nas mãos de um exército de militares sádicos, um tema que surge no século XVII (4). Sontag também chama atenção para o fato de que imagens de sofrimento padecido durante uma guerra são tão comuns hoje em dia que torna fácil esquecer como esse tipo de representação é recente. Se dependesse dos governos, as imagens da guerra continuariam sendo de exaltação da atividade guerreira. De fato, afirma Sontag, a fotografia de guerra começa exatamente com essa função vergonhosa durante a Guerra da Criméia (1853-6), com o objetivo de torná-la uma menos impopular entre os ingleses. Somente a partir da Guerra do Vietnã, que transmitida pela televisão, passou-se a ter a certeza de que as fotografias da guerra retratavam acontecimentos reais (não encenados) (5). (imagem acima, famosa fotografia de uma cena filmada no Vietnã durante um ataque das tropas norte-americanas, pelo menos a menina nua parece que sobreviveu; na imagem abaixo, poderíamos dizer que aconteceu no Rio de Janeiro, mas poderia ser também em nossa esquina, Jornal A Notícia, Joinville, Santa Catarina, 20/10/2009)




Imagens de
sofrimento
e
guerra competem com
as de nudez e esportes na preferência popular
(6)





Ernst Friedrich foi um daqueles que se recusou a pegar em armas na Primeira Guerra Mundial. Em 1924 ele publicou Guerra Contra a Guerra! (Krieg dem Kriege!), um libelo pacifista em forma de tratamento de choque. Trata-se de um álbum com 180 fotografias retiradas de arquivos militares e consideradas então impublicáveis. O livro se inicia com uma ironia bizarra, soldados e canhões de brinquedo, e termina com imagens de cemitérios militares. Entre esses dois extremos, o leitor se depara com um desfile horripilante dos resultados dessa guerra que foi precipitadamente chamada de “a guerra para acabar com todas as guerras”. Na opinião de Susan Sontag, quase todas as fotografias em Guerra Contra a Guerra! são difíceis de olhar. Contudo, ao que parece os corpos dos soldados mortos apodrecendo não são nada perto dos 24 closes de soldados com imensos ferimentos no rosto. Sontag chama atenção que Friedrich não “cometeu o erro de supor” que as fotografias nauseantes falariam por si mesmas e inseriu legendas em alemão, francês, holandês e inglês. Com o apoio de associações de veteranos e organizações patrióticas, o governo alemão se apressou a denunciar o livro, que em algumas cidades foi retirado das livrarias pela polícia. Em 1938, o cineasta francês Abel Gance dirigiria o pacifista Eu Acuso (J’Accuse). Onde os soldados desfigurados mortos se levantam e aterrorizam os vivos. Mas parece que não é só no Brasil que a memória é curta, apenas um ano depois Hitler invade a Polônia e começa a Segunda Guerra Mundial (7).

Notas:

Leia também:
A Família Alemã e o Cinema Nazista (I), (II), (final)

1. SONTAG, Susan. Diante da Dor dos Outros. Tradução Rubens Figueiredo. São Paulo: Companhia das Letras, 2003. P. 22.
2. Idem, pp. 21, 23-4, 26.
3. Ibidem, p. 61.
4. Ibidem, p. 39.
5. Ibidem, pp. 43, 50.
6. Ibidem, pp. 38, 43.
7. Ibidem, pp. 18-9.

14 de dez. de 2009

Isto é Entretenimento!


 
“É só um filme divertido.
É divertido. Para mim não
há nenhuma consequência.
É  divertido,  divertido,
apenas  divertido”

Jamie Lee Curtis,
atriz de True Lies



Uma Coisa é Uma Coisa...

O Agente Especial Harry está numa festa luxuosa na Suíça, cercado por alguns “tediosos bilionários árabes do petróleo”. Sua missão é identificar “vilões” transportando armas. Os terroristas roubaram as armas de uma ex-república soviética falida e deram um ultimato: a menos que o governo dos Estados Unidos retire suas tropas em nações árabes, eles irão detonar seis bombas nucleares sobre cidades norte-americanas. Ao mesmo tempo, Harry está deprimido com a possibilidade de sua esposa o estar traindo. Procurando acalmá-lo, seu amigo Gib exclama: “vamos pegar alguns terroristas e vamos acabar com eles. E você vai se sentir bem melhor”.

...Outra Coisa é Outra Coisa 



“A mensagem de Gib
é assustadora: deprimido?
Pulverize um árabe!”


Jack Shaheen




No final do filme, num opulento salão de baile, a elite presente é formada por norte-americanos, asiáticos, africanos, gente falando francês, e nenhum árabe. De acordo com Jack Shaheen, a mensagem de mais um filme de Hollywood é clara: quando o mundo estiver livre dos árabes, estaremos seguros afinal. Na opinião de Shaheen, True Lies (direção James Cameron, 1994) é um exemplo perfeito quando se deseja saber o quanto um filme pode perpetuar estereótipos negativos – neste caso, em relação aos árabes.


Mais especificamente, ali os palestinos são mostrados como seres sujos, demoníacos e desprezíveis. Terroristas fanáticos espreitando os Estados Unidos com bombas atômicas – aliás, este foi o primeiro filme a mostrar árabes explodindo esse tipo de coisa naquele país. Antes disso em vários filmes, entre eles De Volta Para o Futuro (Back to the Future, direção Robert Zemeckis, 1985; nesse caso são terroristas líbios), os árabes só haviam tentado. Houve protestos contra o filme na época, mas nada que impedisse o faturamento de 62 milhões de dólares nas duas primeiras semanas de exibição – para um filme que custou 110 milhões foi um bom começo.


Também acontece um striptease da atriz principal, mas a presidente da Organização Nacional para Mulheres desabafou que comparadas com os árabes, neste filme as mulheres se dão relativamente bem! Pouca diferença fez também que no filme se desse a entender que Jihad é sinônimo de violência. Como esclareceu William Stoddart:

“Outro conceito islâmico muito conhecido é o de ‘guerra santa’ (Jihād). Esta se refere exteriormente à defesa da comunidade islâmica. Interior ou espiritualmente, refere-se à guerra oculta contra o eu. O profeta mostrou a relação destes dois aspectos da guerra santa quando, depois de uma batalha, observou aos seus companheiros: ‘Regressamos da guerra santa menor (contra os nossos inimigos externos) para a guerra santa maior (contra nós mesmos) ‘“ (1)


A Fox, estúdio que produziu o filme, pagou uma entidade especializada em direitos dos animais para acompanhar os procedimentos da produção. O estúdio também convidou críticos de cinema para assistir a obra antes do lançamento. Porém, o estúdio se recusou a consultar ou reunir-se com especialistas árabes e muçulmanos residentes nos Estados Unidos – ou fora dele. Nem foram convidados a assistir o filme antes do lançamento. Pouco tempo depois do lançamento do filme, o estúdio fez uma débil tentativa para acalmar espectadores preocupados. Adicionaram uma advertência: “Este filme é uma obra de ficção e não representa as ações ou crenças de uma cultura ou religião particular”.


O problema é que a frase aparece apenas no final dos créditos, no final do filme. Shaheen declarou que, quando assistiu ao filme no cinema, ele foi o único que permaneceu na cadeira até o final dos créditos – poderíamos perguntar aqui quantas vezes vimos os créditos dos filmes rodarem até o final na televisão aberta brasileira, onde, diga-se de passagem, os enlatados norte-americanos inundam as telas.


Alguns dizem, afirma Shaheen, que esse tipo de advertência deveria vir antes do filme começar. Mas ele acredita que tanto faz, no começo ou no final, o repúdio será desprezado. Aparentemente foi a partir de 1972, em O Poderoso Chefão (The Godfather, direção Francis Ford Coppola), que a indústria cinematográfica começou a se preocupar com isso, pressionada pela comunidade italiana nos Estados Unidos. Então esse tipo de advertência começou a aparecer em filmes que apresentam estereótipos de cubanos e chineses residentes naquele país. O diretor James Cameron disse que não se sentia culpado de vilificar os árabes em True Lies. Afirmou ainda necessitar de algum “vilão conveniente”. Além disso, completou ainda, qualquer um que se refugie no terrorismo, independente de sua origem étnica ou religião, está moralmente errado e, portanto, os árabes são a escolha certa em qualquer filme. Com este tipo de afirmação, Cameron não só demonstra uma incompreensão absoluta da situação no Oriente Médio como parece desconhecer o fato de que seu próprio país foi o único a lançar bombas atômicas desde que elas foram inventadas. Parece desconhecer também que as duas bombas lançadas pelos Estados Unidos sobre o Japão durante a Segunda Guerra Mundial atingiram apenas população civil.

“Alguns espectadores reconhecem que filmes ajudam a formar atitudes. Por exemplo, no outono de 1993 [ano em que True Lies foi lançado], crimes de ódio estavam em elevação contra árabes e muçulmanos norte-americanos. De fato, a cidade de Natchez, Mississipi, estava planejando um ‘Dia Nacional de Exercício de Segurança’, apresentando um ataque terrorista simulado por um grupo fictício chamado ‘Árabes contra [norte-]americanos’. O exercício militar estava planejado para todo o Estado; a diretriz de Natchez veio diretamente da Agência de Gerenciamento de Emergência Estadual. Mais tarde, por sua conta, o prefeito de Natchez e diretor da Agência mudou o nome do grupo terrorista simulado para ‘Qualquer um contra a América [do Norte]’. Além disso, mandaram uma carta de desculpas para o Comitê Árabe-Americano Anti-Discriminação” (2)


Em 1995 houve um atentado terrorista nos Estados Unidos. Reportagens especulativas na imprensa, e anos de estereótipos nocivos, resultando em mais de 300 crimes de ódio contra norte-americanos de origem árabe (3). No final, o terrorista era um norte-americano. Apesar disso: se é árabe, está decretado que é criminoso e seu único objetivo na vida é destruir a nós e nossa propriedade. Esta pode ser uma lição valiosa para certos países latino-americanos onde, ao invés dos árabes, é a pobreza que é criminalizada.

Leia também:


Notas:

1. STODDART, William. O Sufismo. Doutrina Metafísica e Via Espiritual no Islão. Tradução Iva Vicente Flores. Edições 70, coleção Esfinge, 1976. P. 30.
2. SHAHEEN, Jack G. Reel Bad Arabs. How Hollywood Vilifies a People. Massachusetts: Olive Branch Press, 2º ed., 2009. P. 539. A Ênfase é minha.
3. Idem, p. 13. 


6 de set. de 2009

Desinformação Já



“Uma escola que
não ensina como
assistir à televisão
é uma escola que
não educa”


Joan Ferrés
Televisão e Educação


A
s Coisas e as Imagens das Coisas

Quase sempre, dos milhares de filmes de ação (guerras e tiroteios) vomitados por Hollywood, só chamam a atenção da maioria as belas luzes, um espetáculo para os olhos; além de um suposto heroísmo (na imagem acima, vemos uma cena real de batalha com tropas norte-americanas no Iraque; na imagem ao lado, a imagem não cinematográfica, sem glamour e sem heroísmo da mesma guerra. As duas imagens são de 2003). Lá na terra do Tio Sam (nas emissoras de tv norte-americanas), como cá (nas emissoras de tv brasileiras que cobrem as batalhas entre polícia e bandidos nos morros cariocas), não se mostra as vítimas, não se mostram seus corpos destroçados.

Esse tipo de coisa não dá ibope e, além do mais, pode gerar movimentos da sociedade contra a violência. E mesmo que mostrasse, será que a sociedade brasileira DESEJA saber? Na estratégia de dessensibilização generalizada e no faroeste televisual onde quase já não se distinguem mocinhos de bandidos, tudo é "ação". No comportamento belicista patético que se procura transformar em heroísmo, esconde-se a herança da “sociedade da informação”: desinformar é preciso.

Imagine que você vive num país onde a distância entre tv aberta e tv a cabo é um pouco maior do que se supõe. Especificamente no caso dos noticiários. Imagine que na primeira as notícias sejam rápidas, ralas (talvez porque o interesse seja segurar a audiência para assistir a propaganda, que ocupa mais espaço nos noticiários do que as notícias). Na tv a cabo, os assuntos (ou certos assuntos), são discutidos a exaustão por especialistas. Imagine agora que os públicos das duas são diferentes (ou melhor, pertencem a classes sociais distintas). Sendo a tv a cabo mais cara, naturalmente são as classes baixas que ficam restritas ao “noticiário ralo”. (todas as imagens deste artigo mostram situações reais, não se trata cena cenas de filmes; abaixo, soldado norte-americano cobre Saddam)

Você poderia concluir que, com a generalização do roubo do sinal de tv a cabo naquele país, a informação seria democratizada finalmente! Agora você só tem que descobrir quais são os canais de tv a cabo que a população que rouba o sinal DESEJA assistir. Você poderia ainda concluir que “noticiários profundos” deveriam ser os mesmos (dar a mesma informação) na tv aberta ou no cabo, mas que isso seria naturalmente impossível porque imagens, entrevistas e textos são editados (cortados). O problema não parece ser apenas o fato de que a tv (qualquer uma delas) reconstrói o real ao editar e montar as imagens para que possam caber na programação (entre os intervalos, que contém as propagandas - que é o que importa às emissoras). O problema é que as pessoas parecem não perceber isto que ocorre diante delas. Daí a perplexidade ante as imagens do atentado terrorista em 11 de setembro de 2001 ao World Trade Center. Parecia um filme! Difícil agora compreender que não eram imagens e sim um acontecimento.

Não se duvida que a tv recrie o real. O que alarma é a falta de censo crítico em relação à programação/recriação do real e/ou a forma como são veiculados. A discussão quanto à possibilidade ou não de censura aos programas apelativos é típica. Põe-se a perder a possibilidade da população responsabilizar-se pela programação a partir da hipótese de que isso constituiria censura aos meios de comunicação. Sim, como não, censuram tudo aquilo que não lhes interessa. Por que só nós não podemos decidir o que queremos?


Como se não fosse ato de
censura quando as emisso
ras
de tv decidem só mostrar
o que quiserem...




Alguns retrucariam que pensar assim
é dar importância demais à televisão, quando ela é apenas um eletrodoméstico. Se ela fosse tão irrelevante, o preço do minuto de propaganda não seria tão exorbitante. Se fosse tão irrelevante, as eleições não seriam decididas em debates no horário nobre e a verba de propaganda de empresas e governo não seria maior que os investimentos em seu público e/ou eleitores.

Estereótipos Onde Não Deveriam Estar

Um dos temas preferidos da mídia quando quer criar um factóide internacional para dar ibope é a re-formatação de guerras no horário nobre. Como no caso de Saddam Hussein, ex-ditador do Iraque. Segundo o então presidente (pai do ex-presidente norte-americano) George Bush, Saddam era o império do mal em pessoa. A mídia se apressou em reproduzir mais um estereótipo do déspota oriental. Naturalmente, e infelizmente, o que ninguém vai dizer é que o Saddam real havia sido uma criação do próprio governo norte-americano. Eles precisavam de alguém para servir de bucha de canhão e fazer uma guerra contra o vizinho do Iraque em 1979.

O vilão de então era o Irã do Aiatolá Kolmeini, que tirou seu país das garras dos norte-americanos e de seu fantoche o Shah Reza Palevi. Das atrocidades patrocinadas pelos norte-americanos, e cometidas por Saddam contra os iranianos ninguém sabe, ninguém viu. (imagem acima, mais um banho de sangue no Iraque)

Aliás, essa arrogância é típica de países que constroem seus impérios sobre as cinzas das liberdades dos povos. No filme Mauá, o Imperador e o Rei (1999), ocorre um diálogo entre o futuro Barão de Mauá (ainda bem jovem) e um negociante inglês bem sucedido. Dizia o britânico que a escravatura tinha que acabar porque não interessava aos ingleses. Afirmou também que o mundo está mudando porque a Grã-Bretanha assim deseja. Deu alguns livros de economia para o jovem Mauá e disparou: “a língua é o inglês”.

Inimigos Construídos

Com Osama bin Laden a história se repete. Criação norte-americana para insuflar os guerrilheiros contra as tropas russas que haviam invadido o Afeganistão (1979-89). Agora que a coisa fugiu ao controle, o que George Bush filho disse na época que resolveu invadir o mesmo Afeganistão? “É a luta do Bem contra o Mal...” Novamente o discurso fundamentalista. Mas o fundamentalismo que aparece é o do Talibã, sempre seguindo aquela receita de bolo do estereótipo do déspota oriental. (imagem ao lado, Osama, uma figura que deve ser mantida viva a qualquer custo para justificar a militarização do discurso norte-americano)

Por que imagens do ataque dos terroristas puderam ser mostradas ad nauseum, mas as imagens dos ataques ao Afeganistão são sistematicamente censuradas? Como pode ser que as transmissões da guerra do golfo nunca mostraram destruição ou mortos de ambos os lados? Mas... A mídia ocidental não é um exemplo de idoneidade para o mundo? O direito à informação não foi sempre uma bandeira do assim chamado “mundo livre” (como o Ocidente gosta de se auto-proclamar)?

E, por falar em impérios, segundo Walt Disney, o império feudal e absolutista da Rússia do Czar Nicolau era melhor ou mais legítimo que o regime comunista. Esta distorção da realidade deve dar calafrios em qualquer professor de história. E aqui não vai nenhuma defesa da ditadura na qual degringolou o regime comunista soviético. É só dar uma olhada no desenho animado Anastácia. A mensagem é que o regime pusilânime da casa dos Romanov era democrático, doce, limpo e angelical como na estória da gata borralheira!

Emissoras que Não se Vedem? Existe Isso?

Como lembrou Silio Boccanera, na guerra a primeira vítima é a verdade. O governo dos Estados Unidos reclamou, dizendo que a rede de tv do Qatar, Al Jazeera, fazia propaganda anti-norte-americana ao transmitir pronunciamentos de Osama direto do Afeganistão. Fato: grandes redes de tv norte-americanas perderam muito, cerca de 350 milhões de dólares, ao não transmitirem propagandas na cobertura do ataque terrorista ao World Trade Center. A CNN passou seis dias sem propagandas – por motivos... humanitários. Como se o Pentágono não manipulasse as informações ao enfatizar as imagens dos pacotes de ajuda humanitária lançados aos refugiados afegãos (1).

Quem vê os combates? Não se trata de morbidez, a questão é quem é que vai dizer quem venceu? Notícias de baixas? Só do lado do Talibã. Helicóptero norte-americano abatido? Foi pane, problemas técnicos... O governo norte-americano considera que a Al-Jazeera está servindo como suporte para as idéias de bin Laden. O então Secretário de Estado, Collin Powell, disse... “somos a favor de liberdade de imprensa, mas pensamos que ela não pode servir como suporte para disseminar idéias terroristas. Osama bin Laden não pode usar a mídia para difundir suas idéias” (2).

A Al-Jazeera transmitiu uma gravação do porta-voz da Al-Qaeda, Suleiman Abou-Gheith, na qual repete as palavras do líder bin Laden dizendo que a América não terá paz enquanto os muçulmanos não tiverem. O irônico é que Powell e o então Primeiro Ministro britânico Tony Blair concederam entrevistas à Al-Jazeera, e outros líderes norte-americanos também tentaram o mesmo. O que está parecendo é que a emissora árabe está sendo porta voz de todo mundo e o governo norte-americano está querendo c e n s u r a r, em nome de seus próprios interesses. Mas... não era a América (do norte) o bastião da liberdade de imprensa?

Jornalismo?

Richard Reeves considerou ruim o comportamento da imprensa no que diz respeito à cobertura do conflito no Afeganistão, após os atentados de 11 de setembro de 2001. Segundo ele, o jornalismo televisivo acabou. Portanto, a polêmica em torno da autocensura das emissoras norte-americanas quanto a manter uma superficialidade em torno das notícias da guerra não fez a menor diferença. Aqueles que operam as câmeras são mais importantes que os jornalistas, já que cada vez mais a imagem é tudo. Segundo Reeves, o número de bons profissionais na tv norte-americana vem diminuindo gradativamente. Afirmou que jamais confiaria numa informação passada pela tv sem checar. Segue dizendo que a imprensa norte-americana é responsável pela onda de desinformação, já que nos últimos dez anos os jornais norte-americanos removeram 80% dos correspondentes no Oriente Médio. As empresas alegam que é muito caro manter jornalista num outro país até que compreenda a cultura.

Conclui-se, portanto, que ninguém ligava se o Paquistão (ditadura/país vizinho do Afeganistão e que os Estados Unidos buscaram como aliado) estava desenvolvendo armas nucleares nesses mesmos últimos dez anos. Ironiza a visão narcisista dos norte-americanos, como quem diz: “não ligamos, somos uma superpotência e ninguém vai nos atacar”. O que significa dizer que os norte-americanos não sabem nada sobre as ameaças que pairam sobre si. Segundo Reeves, o próprio ex-presidente Bill Clinton é culpado pela disseminação dessa postura narcisista. Por outro lado Reeves, para quem Bush é simplesmente alguém muito ignorante, não acredita que este presidente norte-americano tenha discernimento para saber das coisas o suficiente a ponto de conseguir mentir sobre elas para a imprensa (3). (imagens acima e abaixo, quando se trata da verdade dos fatos, onde fica a fronteira com o sensacionalismo?)

Quando a Verdade Não Dá Ibope

A mídia, com sua miopia, enfatizava os números de vítimas no atentado, deixando de lado uma infinidade de massacres que ocorrem a muito tempo. Muitas guerras são desconhecidas porque simplesmente estão fora do noticiário. Quando acontece de algum desses países “desconhecidos” revidarem agressões das grandes potências em seu próprio território, como foi o caso dos atentados no World Trade Center, as pessoas incrédulas começam a engrossar o coro daqueles que vão classificá-los de loucos, que atacaram sem motivos... Alguns dados: Desde 1975, e durante os 26 anos seguintes, acontecia uma guerra civil em Angola. O país está todo destruído, economicamente falido e entupido de minas terrestres, mutilando milhares a cada ano. Mais de um milhão de pessoas morreram. Outro conflito se deu entre duas ex-repúblicas soviéticas, Azerbaijão e Armênia. Matou mais de 30 mil, com dezenas de milhares de refugiados. O Sri Lanka, antigo Ceilão, está numa guerra civil que se arrasta e mais de 64 mil já morreram desde 1983 (4). Temos que admitir, nós brasileiros, que sabemos sim dos nossos milhões de excluídos, a quem é negada cidadania.

Temos que admitir saber que morrem de fome. Deveremos admitir nossa omissão, quando finalmente se voltarem contra nós. Temos de admitir que não vai dar para chamá-los de fanáticos ou radicais quando... Numa sociedade de consumo, onde a cidadania é medida pela possibilidade que temos de fazer compras, a tv é um agente do consumo. Como disse Joan Ferrés...

“A televisão nega a realidade quando a reduz a estereótipos. Os estereótipos falsificam a realidade porque a simplificam ou a deformam, com base em condicionamentos culturais derivados sempre de um jogo de interesses explícitos ou implícitos”(...)”O jornal USA Today demonstrou a visão falsificada da realidade que é oferecida pela televisão americana por meio da análise exaustiva de 94 shows exibidos durante uma semana em 1993, na faixa horária de máxima audiência, pelas quatro grandes redes do país, ABC, CBS, NBC e FOX”.(...)” O protótipo do americano mostrado pela televisão nunca assiste à televisão, faz as refeições sempre fora de casa, nunca lê, não entra em supermercados e explica uma piada sobre sexo a cada quatro minutos” (...) “Dentro desse contexto não pode surpreender a expressão de Umberto Eco: ‘Símbolo é tudo aquilo que serve para mentir’. A linguagem como sistema para mascarar a realidade e não para revelá-la”(...)”A imagem não demonstra ser não uma janela aberta para o mundo, mas uma tela entre o espectador e o mundo, um filtro para o mascaramento da realidade, um obstáculo para uma comunicação transparente. Usando uma expressão de Jean Baudrillard, quando aparentemente mais nos aproximamos da realidade - por intermédio de uma imagem em movimento, a cores, sonora e instantânea – mas nos afastamos dela. E ocorre que ‘atualmente o escândalo já não está mais no atentado aos valores morais e sim no atentado contra o princípio de realidade” (5)

Mas talvez não exista motivo para preocupação. Afinal... A televisão é só um eletrodoméstico! (ao lado, o ex-presidente norte-americano George W. Bush em visita a centro de reabilitação para seus soldados vitimados no campo de batalha, 2007)

“Nenhum vento sopra
a favor de quem
não sabe para onde ir”

Sêneca




Notas:

Leia também:

A Cultura da Arma na América do Norte (I), (II), (III), (IV), (V), (final)

Isto é Holyywood!

O Cinema e o Passado: O Caso do III Reich (I), (II), (final)

1. BOCCANERA, Silio. Tv’s amargam perdas e danos da guerra. Globo News. 09/10/2001. Disponível em: http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos/asp1710200199.htm Acessado em: 05/09/2009.
2. EUA acusam al-Jazeera de colaborar com o Talibã. 10/10/2001 - 20h43m - GloboNews.com Fonte: Reuters. Disponível em:
http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos/asp1710200198.htm Acessado em: 05/09/2009.
3. FOLHA DE SÃO PAULO, folha online, da sucursal Nova York. Jornalismo na tv acabou, diz especialista. 11/10/2001. Disponível em:
http://www1.folha.uol.com.br/folha/mundo/ult94u31096.shtml Acessado em: 05/09/2009.
4. CIMENTI, Carolina. Guerras do terceiro mundo não têm audiência. Redação Terra, informações da Reuters. 02/10/2001. Disponível em:
http://br.groups.yahoo.com/group/ciencialist/message/11575 Acessado em: 05/09/2009.
5. FERRÉS, Joan. Televisão e Educação. Tradução de Beatriz Affonso Neves. Porto Alegre: Artes Médicas, 1996. Pp. 50-51. Citação de Baudrillard em, La guerra del Golfo no há tenido lugar. Barcelona: Anagrama, 1991. Pp. 48 e 86-87.

Fontes das imagens:

Viral Politics
David Leeson
Yraceme
Pasta abu-graib/ (imagem 32e)
Encyclopedia Britanica Blog
Propaganda Matrix
Poor Mojo Newswire

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