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Roberto Acioli de Oliveira

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9 de ago. de 2016

Máscara Mortuária na França: De Olhos Bem Fechados


“Há no rosto uma espécie de eloquência silenciosa
que,  mesmo  não  agindo,  age  contudo” 

Padre Louis de Cressolles, Vacationes Autunales..., 1620 (1)

O Corpo e seus Pedaços

Carlos Magno, também conhecido como Carlos o Grande ou Carlos I, foi rei dos francos, fundou e foi o primeiro chefe do Sacro Império Romano-Germânico, na Alta Idade Média (entre 774 e 814 d. C.), sendo responsável por lançar as fundações de futuros países como Alemanha, Países Baixos e França. Falecido em 814 d. C., sua fama e importância levaria imperador Carlos IV de Luxemburgo ordenar a fabricação de um relicário busto (portanto, uma reprodução das supostas feições dele) para guardar uma determinada parte de Carlos Magno. O contexto da atitude de Carlos IV é a tentativa de diminuir a interferência da Igreja na eleição e no reconhecimento do Império. De acordo com Jean Favier, com este objeto...

“Carlos IV vai mais longe: dá a Carlos Magno um papel no desenrolar da coroação. Manda fabricar e enriquecer com joias um relicário de ouro e prata esmaltados em forma de busto, e nele coloca, em 1350 [noutro lugar Favier cita o ano de 1348], a calota craniana do santo imperador [...]. Esse busto com a cabeça vigorosamente expressiva, cingido de uma coroa de florões encimada por um arco com uma cruz de ouro na parte anterior e dois magníficos camafeus antigos, seria levado em procissão para ir receber, quando de sua entrada na cidade da coroação, os reis dos romanos que vinham receber o diadema imperial. Chama atenção a ornamentação das vestes do busto: ela é composta de águias na parte superior e de flores-de-lis na parte da cintura. Os entalhes, os camafeus e os cabochões constituem um ornamento a mais” (2) (imagem acima, close de uma das várias versões da máscara mortuária de Napoleão; abaixo, à esquerda, relicário de para guardar o crânio de Carlos Magno; à direita, braço-relicário de São Lourenço)


 A máscara mortuária testemunha  a  fascinação  que 
a morte exerceu na sociedade europeia do século XV

Mas por que motivo seria necessária esta presença, um tanto mórbida para ouvidos contemporâneos, do crânio do monarca? O que é realmente necessário para se reafirmar a autoridade de alguém não mais presente? Georges Duby já mostrou que durante a Idade Média, o corpo do defunto era levado para um banquete na igreja, reunindo familiares, pessoas próximas e pobres dos arredores, para juntos se beneficiarem uma vez mais da generosidade do morto (3). Um pouco antes disso, durante o Império Romano, os personagens importantes ou influentes ou ancestrais começaram com a moldagem da cera até chegar ao mármore:

“Antigamente, contou Plínio em sua História Natural (XXXV, 6), expunha-se as efígies dos ancestrais no saguão: ‘não as estátuas de artistas estrangeiros, nem bronze ou mármore, mas máscaras moldagem em cera [...], cada uma disposta num nicho’. Desta forma, poderíamos associar aos ritos funerários ‘toda a multidão’ dos parentes desaparecidos do defunto. Essa presença nos funerais de retratos de avós em cera – as imagines maiorum também evocadas por Políbio (VI, 53) – sublinha o prestígio e a antiguidade da descendência e faz o orgulho das famílias da nobilitas, que se valem do jus imaginum. A cera, pouco durável, irá dar lugar ao mármore no Iº século a. C., e esta tipologia do busto esculpido de caráter fortemente realista reencontrará novo vigor com a escultura florentina do Quattrocento” (4)

Norbert Schneider corrobora e complementa citando Horst W. Jason:

“A relação com o culto aos mortos já se manifestava nos retratos da Antiguidade. Na época romana eram feitas máscaras de cera do falecido, que eram colocadas num cofre situado no átrio da casa patricial. ‘Os retratos eram realizados com fins comemorativos e não como obras de arte; como consequência do caráter efêmero da cera, presumivelmente se conservavam apenas alguns decênios. Portanto, copia-las em mármore era um desejo compreensível que, entretanto, apenas se começaria a fazer a partir do primeiro século antes de Cristo. Nesse momento, os patrícios viam ameaçada a posição de liderança que haviam assumido até então; possivelmente desejavam ressaltar seus antigos direitos expondo publicamente seus antepassados’. Esses bustos, as imagines maiorum, como os que têm em suas mãos um Patrício romano (imagem ao lado, cerca de 30 a. C., mármore, tamanho natural) e que se levava à frente das procissões, se converteram num modelo que os escultores do Quattrocento utilizaram ostensivamente, como Donatello em seu busto de Niccolò da Uzzano feito com barro pintado. As pinturas dessa época também procuravam imitar o tipo de busto ‘em relevo’; os artistas se esforçavam para compensar a falta de qualidades plásticas mediante uma coloração próxima da realidade e com o efeito de ilusão ótica” (5)

Durante a Idade Média, muito mais do que ouro e prata, as relíquias eram o que de fato se poderia chamar de algo de valor. De qualquer forma, unindo a duas coisas, ouro e prata se tornaram os materiais preferenciais para a confecção de relicários. É fato que quanto mais metais preciosos possuíssem as igrejas e mosteiros, maior sua importância e poder. Contudo, ao mesmo tempo expressava-se através deles um desejo de proporcionar aos restos mortais dos santos um lugar, digamos, digno. Tal situação levaria alguns mosteiros a se contentar em dourar metais menos valiosos, como o banze ou o cobre. Devido a sua função, a consagração de igrejas e altares, não se podia prescindir da presença de relíquias. Logo, a difusão do Cristianismo geraria uma correria em busca delas, levando a roubos e falsificações. Chega-se assim à conclusão de que o desmembramento do cadáver poderia ser uma solução. Ainda que existisse a crença de que qualquer parte do corpo do santo contém a totalidade de sua pessoa, as unhas, os cabelos, mãos, braços e pernas, eram os itens mais cotados. Seria reprovável durante a Idade Média perder a oportunidade de cortar uma parte de alguém considerado santo para doar a sua igreja – como se pode ver no manuscrito, Vida da Condessa Matilde de Canosa (cerca de 1115), que mostra Godofredo retalhando Apolônio (6).

“De fato, o bispo Godofredo queria o bem de sua igreja, pois retira a Santo Apolônio o braço inteiro, para, provavelmente, conservá-lo num braço-relicário acabado de terminar para o tesouro da sua igreja. O braço-relicário de São Lourenço, exposto no Museu das Artes Decorativas de Berlim, é um dos primeiros exemplos dos relicários cuja forma exterior deixa adivinhar a parte do corpo do santo que ali se esconde. Além disso, nos documentos medievais descreve-se um processo que deixa subjacente a ideia de que a posse de relíquias, sobretudo de santos importantes, dava grande fama aos seus detentores. No ano de 1162, o arcebispo de Colônia, Rainald de Dassel, pediu ao imperador Frederico I, Barba Ruiva, que lhe cedesse as relíquias dos três Reis Magos conseguidas na tomada de Milão ‘como o despojo mais valioso, como um tesouro que não tem comparação com nada na Terra’. O que havia de especial nestas relíquias era o fato de serem consideradas uma perpetuação daqueles primeiros reis que tinham prestado homenagem a Cristo, o rei dos reis. Ernst Günter Grimme define-as como relíquias ‘políticas’: ‘Eram a encarnação da realeza cristã, e quem possuísse este paládio cristão e se encontrasse sob a proteção dos reis do Oriente tinha de imediato a legitimidade da soberania cristã’. O arcebispo de Colônia estava menos interessado na realeza propriamente dita do que em ‘assegurar’ e ‘santificar’ o direito de coroação dos prelados da igreja de Colônia. A este objetivo tentou juntar ainda as relíquias de Carlos Magno, em cuja canonização, no ano de 1165, ele próprio participou. Ainda hoje, as armas da cidade de Colônia apresentam as três coroas dos Reis Magos” (7)

Afinal, como fazer para colecionar e exibir os mortos?

Um Retrato Fúnebre

Emmanuelle Héran chamou atenção para uma prática comum durante o século XIX que reverbera a atitude de Carlos IV em relação a Carlos Magno. Ela chamou de “o último retrato” a uma imagem sem dúvida que pode chocar atualmente aos espíritos mais sensíveis. Geralmente, nossa relação com a morte de seres humanos não é simples, e a prova de que somos escravos de nossos sentidos é a incapacidade de racionalizar quando vemos um corpo morto diante de nós, mesmo que seja através da distância segura de uma imagem. Aquelas fotografias (e antes delas os retratos pintados) muitas vezes estranhas que mostram personalidades históricas (ou pessoas comuns) em seu leito de morte eram até o século XIX bastante públicas e comuns. Porque elas não são mais comuns se vivemos numa sociedade onde a violência que leva à morte se tornou tão comum que assistimos várias cenas diariamente pela televisão durante a refeição? Héran se perguntou então sobre essa prática, tão comum na França até o século XIX, de fotografar um defunto durante o curto espaço de tempo que separa o falecimento da colocação do corpo no caixão. Embora fosse um medievalista, pouco se referindo ao século XIX, Philippe Ariès, pioneiro dos estudos sobre a morte, olhou, comentou e interpretou tais imagens em 1975. Contudo, a sugestão do pesquisador de que no século XIX a morte será escondida cai por terra com a constatação da amplitude da difusão do “último retrato” (8).  (imagem ao lado, vista pelo alto, lápide tumular do arcebispo Siegfried III von Epstein, Mogúncia, catedral de São Martinho e Santo Estevão, após 1249)

“É uma mudança profunda. Para dizer a verdade, durante a Alta Idade Média e, mais tarde, entre o povo, a morte também não ocupava um lugar muito importante: não está afastada por um interdito como hoje, mas seu poder era embotado por sua extrema familiaridade. A partir dos séculos XII e XIII, ao contrário, a morte invadiu as consciências e as preocupações, pelo menos as dos clérigos e dos litterati. Isso se deu em uma ou duas etapas, pelo menos em torno de duas séries de temas: nos séculos XII-XIII, em torno do Juízo Final, e nos séculos XVI-XV, em torno da arte de morrer. No quarto do moribundo representado nas artes moriendi, o universo inteiro está reunido: os viventes deste mundo em volta do leito, e os espíritos do céu e do inferno, que disputam a alma do moribundo, em presença do Cristo e de toda a corte celeste. A vida do moribundo é resumida nesse pequeno espaço e nesse curto momento e, qualquer que seja ela, está agora no centro do mundo natural e sobrenatural. A morte é o lugar da tomada de consciência do indivíduo” (9) (imagem abaixo, efígies jacentes de Henrique II e Catherine de Medici)


Existentes na Antiguidade tardia, a efígie funerária jacente (também
as  duplas  e  suplicantes)   ressurge  na  Europa  entre  os  séculos  XI
 e XVIII. Seu retorno coincide com a eclosão dos relatos de fantasmas, 
especialmente  ao  representarem   os   mortos   de   olhos  abertos (10)

De qualquer forma, é fácil perceber que tudo começou em função da realeza representando a si mesma: como demonstrar que o rei é um enviado de Deus e que nunca morre? Um longo caminho foi percorrido até que o “último retrato” passasse a retratar também o “povo mortal” ou, pelo menos a pequena-burguesia. Héran mostra que poucos historiadores da arte se debruçaram sobre o tema. Os especialistas em arte românica, como os medievalistas, o estudaram em função da busca da origem do gênero do retrato e a emergência da obrigação da semelhança em relação ao modelo, a famosa mimesis. Ernst H. Kantorowicz discorre longamente a respeito do conceito dos dois corpos do rei e as metamorfoses do rito funerário na França e Inglaterra durante a Idade Média em torno da utilização cada vez mais ampla das efígies. Para o pesquisador, não parece razoável concluir que as efígies e/ou futuros substitutos do corpo do morto justificam sua invenção e existência em função da putrefação do corpo dos defuntos (alguns funerais aconteciam meses após a morte) (11):

“(...) Não se deve esquecer que a estranha justaposição de um cadáver em deterioração a uma Dignidade imortal, conforme exposta pelos monumentos sepulcrais, ou a nítida dicotomia entre o lúgubre cortejo funerário circundando o cadáver e o carro alegórico triunfante de um manequim-efígie envolto em vestes e insígnias reais, foi alimentada, afinal, no mesmo ambiente intelectual em que os princípios jurídicos concernentes aos ‘dois Corpos do Rei’ atingiram sua formulação final” (12) (imagem abaixo, Jean-Paul Marat)

Muitos   familiares  e  amigos
 que acompanhavam o processo
 lamentaram  o  estado  do  rosto
 depois  que  o  gesso  era   retirado. 
O  processo    de    moldagem     era
muito  deletério  para  o  rosto  do
 morto. Desenhistas e retratistas
não  tinham  este  problema (13)

Graças a Erwin Panofsky e especialmente à Antoinette Le Normad-Romain, a história da escultura funerária abordou a questão da máscara mortuária enquanto preparação para a realização de esculturas jacentes (reclinadas, deitadas) – “desde que, em meados do século XII, se difundiu no norte da França a estátua jacente, que repousa sobre o sepulcro, esta forma de sepultura ganha um significado [mais abrangente], especialmente no caso de soberanos seculares” (14). Mas quase todos os estudos consagrados às máscaras mortuárias às dissociam das práticas de pintores e desenhistas, ao contrário da opinião de Julius von Schlosser e Ernst Benkard, historiadores da arte alemã e austríaca. Héran também chamou atenção para o fato de que a autoria dos retratos funerários não é conhecida, o que não acontece com as máscaras funerárias, em particular para os músicos: Liszt, criado por Weissbrod, Wagner por Benvenuti, Debussy por Élisa Beetz-Charpentier – o que não significa que sejam conhecidos; o leitor comum não percebe que a maior parte desses retratos e máscaras é reproduzida nas obras sobre celebridades da arte e da cultura sem a indicação de quem foi o artista que a produziu.

Héran lamenta que tanta obscuridade leve a uma série de equívocos, como por exemplo, considerar como moldagem aquilo que não é senão modelagem: portanto, a máscara de Henrique IV (falecido em 1413) não poderia ser moldada sobre a múmia do rei em 1793; aquela da desconhecida do rio Sena não pode ter sido tirada sobre o rosto de uma afogada; a máscara dita “mortuária” de Hector Berlioz foi realizada por Stanislas Lami em 1884, quinze anos depois da morte do compositor. Héran esclarece ainda que as publicações mais antigas muitas vezes confundem o último retrato e seu derivado, a máscara mortuária e as esculturas jacentes, o desenho bruto e a obra retrabalhada no ateliê: já se confundiu a escultura jacente de Henrique II, conservada no Louvre, com a moldagem realizada para seu funeral. Ainda existe muita confusão atualmente, que fica patente com a confusão entre os adjetivos “mortuário” e “funerário”. Da mesma forma, a confusão reina entre a moldagem sobre o vivo e aquela post mortem: é o caso da máscara de Ludwig van Beethoven, feita (em 1812) enquanto o compositor ainda estava vivo (falecido em 1827), que muitas publicações apresentam com sua máscara mortuária. (imagem abaixo, o compositor J. L. Felix Mendelssohn Bartholdy)

Como? Quem? Por quê? 


Por que motivo afinal fazer uma máscara
 mortuária ?  A  motivação  maior  era  para
 guardar  como  lembrança  de  uma  pessoa
querida  ou   um  personagem  célebre (15)

O corpo deve estar deitado horizontalmente, a seguir lubrifica-se a pele, os cabelos os cílios e as sobrancelhas – em se tratando de um homem, deve ser bem barbeado antes do procedimento. Os cabelos também podem ser cobertos por uma faixa de tecido – ela é bem visível na máscara do pintor realista francês Gustave Courbet. Após amolecer o gesso com água morna, aplica-se com um pincel. No momento da morte, o nariz, as bochechas e a boca modificam seus contornos, é preciso aproveitar a momento em que a rigidez cadavérica ainda não se instalou. É aconselhável o acompanhamento por um parente que conheça bem o morto, para garantir a verossimilhança, se ela for mal feita o cadáver pode ser alterado em função do calor da pasta – como foi o caso das máscaras do político Léon Gambetta e do poeta Paul Marie Verlaine, ambos franceses. A próxima etapa é a retirada do molde, que será bem mais complicada caso se pretenda um molde das orelhas – a maioria das máscaras é desprovida delas. A seguir, talvez seja preciso retocar a moldagem. É agora que se pode falar de modelagem. Retiram-se as imperfeições do gesso e, devido à sua natureza, é preciso refazer os cabelos, a barba, o bigode, os cílios, as sobrancelhas, os pelos. Os defeitos físicos são apagados como as feridas de varíola de Mirabeau. Vários casos são celebres: aquele de Victor Hugo, de quem a magnífica máscara, realizada por Dalou e Bertault, teve de ser arranjada de acordo com os interesses da família; ou a do filósofo Friedrich Nietzsche, recusada por sua irmã, Teresa Alexandra Elisabeth Förster-Nietzsche, foi refeito pelo escultor Rudolph Saudek. Dito isto, Héran sugere que ao avistar uma máscara mortuária, devemos nos colocar-se a questão de seu grau de fidelidade, e inclusive de autenticidade (16). (imagem abaixo, Joseph Gall)


Durante o século XIX, frenologistas como
Franz Joseph Gall também entraram nessa moda.
Contudo  o  foco deles englobava toda a cabeça de
criminosos e torturados,  famosos  ou  não

A máscara mortuária é um trabalho para os moldadores, os almanaques profissionais Didot-Bottin franceses anunciavam em 1891, na rubrica “moldadores-figuristas”: E. Fady, moldagem em vivo e falecido. Jules Talrich, trabalhos em cera, moldagens antes e depois da morte. A máscara do escultor Bertel Thorvaldsen foi realizada pelo moldador oficial da corte dinamarquesa, W. Orlandi. Em Viena, o moldador Willy Kauer abriu um ateliê em 1938, realizando muitas moldagens de mortos famosos ou não – 232 peças foram deixadas para o museu de sua cidade natal. Mais recentemente, registram-se dois moldadores em Paris: Édouard Minazzoli, que realizou as máscaras de Christian (?) Bérard, George Braque, Charles Dullin, Louis Jouvet, Charles Maurras, Edith Piaf, Eric von Stroheim, entre 1949 e 1963; e L. P. Bertault, descendente de Dalou e Falguière, realizador das máscaras de Camille Claudel e Sacha Guitry, entre 1955 e 1961. Alguns escultores célebres foram convidados à moldar, como Thorvaldsen que fez as máscaras de Papas (Pio VII e Leão XII) e parentes de Napoleão (Letícia Bonaparte, a mãe do filho famoso). Parece que Auguste Rodin o famoso escultor, ficou com ciúmes quando não foi escolhido para moldar o rosto de Victor Hugo. Contudo, o trabalho tinha mais a ver com prestígio do que técnica. Héran explica que na quase totalidade das vezes os escultores traziam seus próprios moldadores, a ponto de ser abusivo atribuir tal mascara a tal escultor. Honestamente, a máscara de Victor Hugo deveria ser atribuída mais ao trabalho de Bertault, o moldador, do que a seu patrão, o escultor Dalou. No século XIX, ela era mais fiel ao defunto do que o retrato pintado, desenhado ou fotografado. Atualmente, a fotografia e o surgimento do cinema constituem provavelmente uma das razões da queda em desuso da máscara mortuária (17).


O pintor Oskar Kokoschka se tornou amante
 da viúva do compositor Gustav Mahler um ano
 após a morte  dele. Mas teve um acesso de cólera
 quando  descobriu  que a mulher  possuía  uma
máscara   mortuária   do   finado   marido (18)

Em muitos casos, as máscaras mortuárias se tornaram a última lembrança do falecido entre os vivos. Para citar alguns famosos: Liszt possuía a máscara de Beethoven, André Gide a de Dante Alighieri, Pascal e Leopardi. A máscara de Jean-Jacques Rousseau é tão importante que está vetada sua saída da Suíça, enquanto a máscara de Luis Pasteur jaz num nicho da cripta no Instituto Pasteur, em Paris. A de Nietzsche está na Galeria Tielska, em Estocolmo. A do músico e compositor Frederic Chopin está exposta numa vitrine-relicário em Palma de Maiorca, onde teve seu caso de amor com George Sand. Este culto agradou a alguns, como a meditação que Bernard Gavoty escreveu na biografia de Chopin, lançada em 1974, estimulado pela moldagem de Clésinger:

“Sempre retorno à sua máscara de olhos fechados sobre os segredos de sua vida [...] a lembrança ideal que nos deixam os desaparecidos é mais fiel à verdade de seu ser do que uma jornada de sua existência. Aquilo que, neles, era perecível, parasita, e do que sofrem por vezes primeiro, a morte apaga, e eles parecem favorecer a regressão, mais parecidos consigo mesmos do que eram durante sua vida” (19)

Por outro lado, o comentário de Vladimir Jankélévitch poderá satisfazer todos aqueles contrários à prática:

“Para esconder de nós mesmos a farsa da morte, nós gostamos de embelezar o rosto cadavérico e fazer dele um culto: o amor das múmias, o fetichismo da máscara mortuária são algumas formas dentre tantas outras de uma piedade necrófila onde se diz claramente, face à ambiguidade da morte, a ambivalência da fobia mortal” (20)

A função de lembrança do morto era bastante disseminada, seja em relação ao último retrato quanto à máscara mortuária. Ferdinand Victor Eugène Delacroix, o pintor francês, contou certa vez que já quis beijar a boca da máscara de seu conterrâneo, Jean-Louis André Théodore Géricault, o pintor – ambos trabalharam a temática do Romantismo. Em seu filme O Quarto Verde (La Chambre Verte, 1978), baseado no conto O Altar dos Mortos (The Altar of the Dead, 1895) de do escritor realista Henry James (1843-1916), o cineasta francês François Truffaut apresentou um protagonista que cultuava uma mulher falecida, mantinha o quarto dela intacto, exceto por um par de mãos dela que ele mandou modelar. Muitas vezes as máscaras mortuárias serviam de intermediárias. Assim como durante a Idade Média e a Renascença, quando uma simulação do rei servia de modelo para a estátua jacente da tumba, as máscaras podiam ser utilizadas para a montagem posterior de um busto. Com o advento da fotografia, as máscaras mortuárias seriam difundidas como nunca antes, desde os expressionistas até aos adeptos da action painting, exercendo tanto poder de atração quanto as próprias máscaras. Na França, a moldagem delas está praticamente extinta - o que não é o caso na Alemanha. As últimas foram as do poeta e cineasta Jean Cocteau e da cantora Edith Piaf, ambos falecidos no mesmo dia, em 1963. (imagens abaixo, à esquerda, Madame Tussaud; à direita, Robespierre)

O Culto do Gênio

Maria ou Marie Grassholz (1761-1850), futura Madame Tussaud, era sobrinha e pupila de Philipp Curtius, o ceroplasta suíço que se especializou em retratos dos membros da família real e da nobreza francesas. Ele abriu uma galeria em Paris para expor seus personagens de cera com grande sucesso. Tussaud se juntou a ao tio em 1780 e fundou seu próprio negócio. Com a Revolução Francesa, Tussaud teve a ideia de colaborar com Charles-Henri Sanson, o carrasco da República e seu assistente, Desmorest, que fazia a toalete dos condenados – consta que Sanson guilhotinou quase três pessoas. Desta forma, cada vez que um personagem famoso da Revolução ou um criminoso era guilhotinado, ela poderia rapidamente efetuar uma moldagem de seu rosto, a partir da qual realizava uma figura de cera. Tussaud fez os moldes de gente como Camille Desmoulins, Jacques-René Hébert, Georges Jacques Danton e, provavelmente, Maximilien de Robespierre - este último, responsável pelo Terror pós-revolucionário, acabou vítima de seu próprio sistema de repressão, sendo guilhotinado em 1794 aos 36 anos de idade (21).

“É provável que a prática do último retrato, em particular da máscara mortuária, a partir do final do século XVIII, tenha sido encorajado pela utilização da guilhotina [na França]. De fato, [como disse Daniel Arasse em La guillotine et l’imaginaire de la Terreur],  ‘do corpo é sobre a cabeça que a guilhotina prende a atenção’: ela é ‘uma verdadeira máquina de tirar retratos’. As obras de [Jacques-Louis] David e de Madame Tussaud podem ser comparadas com essas gravuras representando as cabeças cortadas e ainda sangrando de Luis XVI ou [do general] Custine, que se multiplicaram durante o Terror, destinadas a mostrar quanto a morte revela a verdadeira natureza dos traidores e dos tiranos” (22)
Mas a prática de Madame Tussaud não era algo exclusivo, muitos escultores e moldadores alemães executavam o mesmo tipo de procedimento – coincidentemente, ela própria, nascida em Estrasburgo, vinha de uma região francesa de influência germânica. Os estudos sobre a máscara mortuária nos países europeus de língua alemã dão conta de que a prática era particularmente intensa nessas regiões. O interesse teria surgido na Alemanha no final do século XVIII, por intermédio das famílias nobres de Saxe-Weimar e da Prússia. A primeira máscara conhecida surge com o falecimento de Frederico Guilherme I da Prússia, conhecido como o Rei Soldado, em 1740. Muito em breve, sem ironia, muitos escritores e filósofos terão direito à sua própria máscara mortuária: Gotthold Ephraim Lessing em 1781, J. C. Friedrich von Schiller em 1805, Georg Wilhelm Friedrich Hegel e C. J. F. Ludwig von Arnim em 1831. Da mesma forma, os compositores: Joseph Haydn em 1809, Carl Maria von Weber em 1826 e Beethoven em 1827. Héran afirma que esta moda se explica em função do culto do gênio, derivada do movimento literário Romântico alemão, Sturm und Drang (Tempestade e Ímpeto), efetivo aproximadamente entre 1767 e 1786. O rosto de um morto será doravante considerado imagem de sua alma e gênio. Héran se detém mais profundamente em três personagens exemplares: Schiller, Goethe e Beethoven. (imagens abaixo, à esquerda, Friedrich von Schiller; à direita, Johann Wolfgang von Goethe)


Goethe possuía um busto  e  uma máscara  mortuária do amigo
Schiller. Não aprovava a substituição da imagem mental que se tem de
alguém por sua máscara, mas admitiu que a máscara mortuária tivesse
um papel importante na missão social e universal dos escritores

Schiller faleceu aos 46 anos de idade, em Weimar. Sua Irma adotiva convenceu a viúva a permitir que um escultor, Johan Christian Ludwig Klauer, realizasse a impressão do rosto do defunto para a posteridade – um desenhista também foi convocado. Após quinze horas do óbito, o físico do morto já estava se modificando e alguns “retoques” foram providenciados: a testa foi arredondada, porque uma touca, que servia para manter o queixo fechado, incomodou o moldador. Foi preciso polir a superfície em diferentes pontos para aplainar imperfeições do gesso, respeitar os cílios e as sobrancelhas, remontar as bochechas, engrossar os lábios muito finos, mas a assimetria da boca foi respeitada e alguns traços do pano que protegia o cabelo foram conservados. Goethe possuiu uma máscara e um busto de Schiller. Mas Goethe era cético em relação às máscaras mortuárias: 

“(...) Por que deveria eu deixar destruir pela realização de uma máscara as impressões amadas dos traços do rosto de meus amigos e amigas? Existe aí qualquer coisa de estranho, de totalmente não verdadeira que se impõe face à minha capacidade de imaginação [...]. A morte é um retratista muito fraco. Eu prefiro de minha parte conservar [...] uma imagem que tenha mais alma” (23)

Ele está recusando a capacidade de perenizar a “imagem individual” de um gênio. Segundo ele, o escritor está a serviço de uma coletividade e deve se apagar em proveito dela. Héran lembra que Goethe está falando num momento em que a Alemanha ainda não estava unificada, e a palavra dos escritores deveria transcender as fronteiras dos pequenos reinos e principados. De acordo com Goethe, o desenvolvimento da máscara mortuária, “expressão do gênio individual”, vinha ao encontro dessa missão social e universal dos escritores.


No século XIX, em Paris, o necrotério era um lugar público. Um morto
  não  chocava  tanto.   Originário  do  depósito de cadáveres das prisões, 
todos vinham “olhar  com  altivez” os corpos dos prisioneiros. Descrito
   por Emile Zola em Thérèse Raquin, chegou-se a 1 milhão de visitantes  

No  necrotério,  os corpos eram exibidos por trás de uma vitrine. Com o desenvolvimento dos 
meios científicos de identificação de cadáveres, os necrotérios foram fechados ao público (24)

Goethe faleceu em 1832, aos 83 anos de idade, ele havia proibido que se fizesse uma impressão post mortem de seu rosto, além do mais já existia uma moldagem realizada em vida. Dois anos depois da morte de Schiller, Goethe aceitou que se moldasse seu rosto, já que foi o médico e anatomista Franz Joseph Gall (1758-1828) quem pediu. De fato, o escritor era um apaixonado pela frenologia e não pareceu se importar com as pesquisas em criminologia que subjazem ao interesse desta ciência no corpo humano, e na cabeça em particular.

“Apesar de Gall e Spurzheim contestarem a forma como seu sistema era ‘tratado como uma arte da previsão’, a prática de ler as ‘protuberâncias’ na cabeça de alguém se tornou uma mania, tanto nos círculos científicos quanto populares – praticada, temida e satirizada na mesma medida. Sociedades frenológicas surgiram em muitas cidades importantes, inclusive em Edimburgo, onde George Combe e seu irmão, Andrew (posteriormente um dos médicos da rainha Vitória), seguiram o conselho de Gall para montar um museu de máscaras mortuárias e [de pessoas vivas], e moldes de cabeças de indivíduos notáveis. A coleção variava desde o grande e bom, como Sir Issac Newton, Jacques-Louis David, o pintor, e o próprio Gall, até o infame e mal, nomeadamente os abomináveis ‘ressureicionistas’, Burke e Hare. Não é de estranhar que essa ciência popular, juntamente com a Fisiognomonia de [Johann Kaspar] Lavater, fornecia uma fonte completa de informação para artistas que desejavam refinar a fisiognomonia tradicional à luz da ciência avançada” (25)

Em 1807, o escultor Carl Gottlob Weisser fez uma impressão do rosto de Goethe, então com 58 anos de idade – o escritor gostou muito do processo e também da moldagem. Em 1816, com 67 anos, submeteu-se a uma segunda impressão, para se assegurar que o monumento em sua homenagem a ser erguido em sua cidade natal, Frankfurt, fosse verossímil. O encarregado foi o escultor Johann Gottfried Schadow. Na opinião de Héran, esta segunda máscara, poderia ser considerada uma máscara mortuária, principalmente porque muitas vezes ela é exposta ao lado daquela de Schiller. Encarando-as, lembrou Héran, somos imediatamente advertidos dos riscos de confusão possível na leitura destes objetos: autênticos ou retocados? Impressões mortuárias ou realizadas ainda em vida? (imagens abaixo, máscaras de Beethoven, à esquerda, máscara feita ainda em vida, por Franz Klein, 1812; à direita, máscara post mortem realizada por Danhauser, 1827)


Já  haviam  se  passado  dois dias do falecimento de Beethoven
quando   Danhauser   moldou   sua   máscara   mortuária.   Naquele
momento,   o   médico   já   havia   extraído   os   ouvidos   internos, 
procurando compreender as causas da surdez do compositor (26)

A mesma confusão ocorre em relação às máscaras de Beethoven, a mais difundida foi realizada com o compositor ainda vivo em 1812 (ele tinha 36 anos de idade), pelo escultor Franz Klein - a partir da qual modelaria um busto. Esta é muitas vezes erroneamente considerada sua máscara mortuária, mas a confrontação com a máscara realizada por Josef  Danhauser após a morte do compositor em 1827 elimina qualquer ambiguidade – realizada dois dias depois do falecimento. Certamente Beethoven não foi o primeiro compositor na Alemanha de quem se realizou uma impressão. Sabemos que o primeiro foi Haydn em 1809, o segundo Weber, em 1826. Héran explica que as máscaras mortuárias de músicos são extremamente numerosas. Uma das explicações sugere que na época de Beethoven os músicos estavam aos poucos mudando de condição: se até então eles eram funcionários dos príncipes, cujo trabalho era obrigatório e de pouca remuneração, passam aos poucos a conquistar sua independência financeira, portanto sua liberdade. Juntamente com os escritores, os filósofos e os artistas, os músicos se equiparam aos grandes desse mundo, alcançando até mesmo a condição de gênios. Se Goethe ainda está ligado à tradição cortês, Beethoven se rebela contra ela - é o sentido da admiração de Luis II da Baviera por Wagner. É revelador, concluiu Héran, constatar que a notoriedade das máscaras de Schiller e de Beethoven iguala a fama da máscara de Napoleão.

A Máscara do Corso


A  máscara  mortuária   de   Napoleão   será  comercializada
em diversos modelos,  em  bronze, pátina e gesso.  Uma  versão
em miniatura da imagem marcaria o auge da total  banalização
da efígie do herói nacional, agora transformado em bibelô (27)

Exilado na ilha de Santa Helena desde meados de outubro de 1815, Napoleão morrerá no cativeiro em 5 de maio de 1821, às cinco horas e cinquenta e cinco minutos da tarde. No dia 6 a autópsia, no dia 7 pela manhã tem lugar a tomada da impressão. Segundo os assistentes, o rosto do defunto, pacificado e magro apresentava nas primeiras horas da morte um rejuvenescimento impressionante. Marchand, primeiro criado de quarto e testamenteiro do imperador, lamentou que a produção do molde não tivesse sido realizada logo após a morte, pois dois dias mais tarde o rosto já estava ficando envelhecido e tensionado – na verdade, ao explicar a respeito da regulamentação das leis em torno da modelagem de máscaras mortuárias atualmente na França, caso alguém ainda deseje produzir uma, Héran esclarece que os procedimentos obrigam a que o molde seja feito apenas até vinte e quatro horas após a morte, e acompanhado do devido certificado legal (28). Todos ficaram impressionados com esta nova fisionomia do defunto, alguns a aproximaram do general Bonaparte dos primeiros anos de glória, assim como ficou eternizada no busto esculpido por Charles Louis Corbet. Foram dois os encarregados da moldagem, Francesco Antommarchi, chegou na ilha em 1819 e não era favorável à realização do procedimento, temendo que tudo pudesse dar errado em função do tipo de gesso disponível. Francis Burton, cirurgião militar inglês familiarizado com o procedimento, estava bastante entusiasmado com a chance. No final, o molde foi finalmente realizado apenas graças à perseverança e insistência de Madame Bertrand, esposa do general Henri Gratien – o casal se mudou para a ilha com seus filhos e ficou com Napoleão até o final (29).


Antommarchi anunciou e vendeu muitas reproduções da máscara
mortuária  de  Napoleão  que  moldou com Francis  Burton em Santa
Helena Rapidamente  surgem  falsificações, a ponto de o anatomista
entrar  com  um  processo na justiça, o qual iria perder em 1834 (30)

A moldagem foi realizada em duas etapas: a parte facial, da testa para a extremidade do queixo, terminando bem próximo das orelhas, foi subtraído por Antommarchi com a complacência, ao que parece (senão cumplicidade) dos assistentes franceses, incluindo Madame Bertrand. O restante do crânio, segundo ele, teria ficado com Burton. A perda dessa segunda parte arruinará os ensaios de interpretação frenológica da personalidade de Napoleão – o restante do crânio que se vê é um trabalho de modelagem de Antommarchi, assim como a retirada das orelhas, a parte abaixo do queixo e o pescoço. Várias provas da máscara foram produzidas, gerando inclusive uma polêmica entre os colecionadores, que reivindicam cada o estatuto de original para seu exemplar. Em 1825, Antommarchi lança a edição da máscara de Napoleão por assinatura, alcançando considerável sucesso comercial – o rei Louis Philippe encomendou 30 exemplares, cinco em bronze e vinte e cinco em gesso. No final, o homem que mudou a face da Europa (e que teria enunciado a frase: “Nunca interrompa seu inimigo quando ele estiver cometendo um erro”) terá, depois de morto, sua máscara mortuária à venda também em formato de miniatura, como um bibelô. (imagem abaixo, Franz Liszt)

A Cara do Indivíduo 


A figura do Rei Carlos VI em seus funerais no ano de 1422 é considerada por muitos como a primeira utilização da máscara mortuária. Desde o início do século XX, Émile Mâle e Julius Schlosser explicam em parte a emergência do realismo na escultura no final do século XIII em função disso. Desta forma, as efígies de Isabel de Aragão na Catedral de Cosenza e a de Filipe III, o Ousado, teriam sido confeccionadas com auxílio de uma cobertura sobre os cadáveres – Schlosser reconhece no caso de Isabel a mais antiga máscara mortuária conhecida, mas não tem tanta certeza em relação a Filipe. Situando o desenvolvimento desta prática numa data próxima, os dois autores lhe atribuem papel decisivo na renascença da arte do retrato no século XIV. Contudo, esta tese não foi confirmada e segue sendo questionada: a vontade de caracterizar a fisionomia de Isabel e Filipe não basta para provar a utilização de uma máscara para a execução de rostos que indiscutivelmente continuam ancorados na tradição idealista do século XIII. Ralph Giesey, na década de 1960, afirmou que esta prática não foi atestada antes dos anos 1440. Apesar de tudo, muitos autores não excluem os princípios estabelecidos por Mâle e Schlosser. Embora levante problemas específicos, a prática da modelagem post mortem na Idade Média tem sido pouco explorada (31). (imagem abaixo, Walt Whitman)

O    desenvolvimento    da    técnica    tanatológica
da  moldagem   mortuária   coincide,  precisamente,
com  o  sucesso   no   fim  do  século  XV   das  Artes
Moriendi, os tratados sobre a arte de bem morrer

Na Inglaterra, os primeiros exemplos não são anteriores ao século XVI. Na França, a primeira menção indiscutível não remete aos funerais de Carlos VI, mas aos de seu sucessor. A utilização de uma máscara mortuária durante os funerais de Carlos VII, em 1441, não deixa nenhuma dúvida. A manufatura de máscaras mortuárias foi uma prática corrente na Itália. Datada de 1450, a mais antiga é a de São Bernardino de Siena, morto em 1444. A seguir, a máscara de Filippo Brunelleschi (1446), de Fra Angelico (1455) e Santo Antonin (1459). Il Libro del Arte, de Cennino Cennini, escrito em Pádua em fins do século XIV e início de século XV revela que a técnica da modelagem sobre modelos vivos já estava bem desenvolvida, mas não se fala em máscaras mortuárias. Cennini e Vasari situam durante a primeira metade do século XV a ascensão da prática da máscara mortuária em Florença. Na França, os relatos mais antigos apontam para a realeza, afirmando apenas que a máscara era produzida em função da elaboração de um manequim que substituísse o corpo durante um cortejo fúnebre – a modelagem do rosto de Carlos VII teriam sido executada para a entrada do corpo do monarca morto em Paris. Portanto, esta prática surge inicialmente ligadas aos funerais. Anteriormente, quando ainda não havia nada que indicasse o caráter sagrado do defunto, o corpo era envolto em vestimentas e coroa da nobreza. Contudo, a complexidade crescente dos cerimoniais aumentou o tempo de exposição do corpo até o limite da conservação. (imagem abaixo, Edmund Burke)

No  final  da  Idade  Média  na  Europa,  com  as
crescentes exigências do realismo macabro, ocorre
 uma teatralização crescente dos ritos funerários 

No enterro de Filipe o Belo, em 1314, o rosto e as mãos do rei chegaram a apresentar sinais de deterioração. Chegou-se então à conclusão de que apenas a substituição do corpo por sua imagem permitiria uma exposição fúnebre prolongada. Em 1327, decidiu-se substituir os restos mortais de Eduardo II por uma efígie em madeira. Esta inovação inglesa seria adotada na França apenas um século mais tarde, para os funerais de Carlos VI, celebrados três semanas após a morte do rei. Desde o começo do século XIV, as personificações do defunto animavam as cerimônias fúnebres de pessoas de fora da nobreza. Em 1329, Giraud Amic, senhor de Caumont, pediu que uma representação viva de si mesmo precedesse sua urna funerária. Desse modo, verifica-se no final da Idade Média uma teatralização dos ritos fúnebres, objeto de uma verdadeira encenação. No centro do cortejo, o corpo do defunto, ou sua “representação”, será exposto com ostentação aos olhares dos vivos. Todos se dedicam, com especial cuidado, a fabricar manequins realistas. Na França, a utilização da máscara aparece estreitamente ligada a pelo menos dois fenômenos: a) o aumento da duração do tempo de exposição do corpo, levando à necessidade de substituição por uma imagem do defunto; b) surgimento de uma nova exigência: o realismo macabro.


As máscaras mortuárias já foram utilizadas como relíquias

Não está provado que a máscara mortuária servia de modelo para o escultor encarregado da execução da efígie funerária do morto em alto relevo sobre sua tumba de pedra. Com relação à França, tudo é hipótese. Como nenhuma modelagem do rosto de Carlos VII sobreviveu, não há como saber a respeito da realização de sua efígie em mármore – depois dos distúrbios revolucionários de 1793, o que sobrou da cabeça e rosto em mármore seria restaurada (testa, olho direito, bochecha direita, lado direito do cabelo, nariz) e colada num busto em 1799. Na Itália, é possível mensurar objetivamente o impacto dessa prática sobre a arte do retrato durante a segunda metade do século XV. A efígie funerária em alto relevo em mármore de Fra Angelico sugere que seu escultor se inspirou na máscara funerária do pintor florentino. Como no caso anterior, pintores que representaram São Bernardino de Siena se referiram à utilização de sua máscara mortuária como modelo. O caso de Santa Joana de França (Joana de Valois, Duquesa de Berry) (imagem acima), filha de Luis XI, evidencia a utilização da máscara como relíquia que contribui na difusão de um culto. Ela fundou a Ordem da Anunciação em 1502. Foi beatificada em 1742 e canonizada em 1950. Algumas horas após sua morte, seus traços foram conservados com uma atadura sobre o rosto. Depois de embalsamada, foi colocada sobre um leito e deixada para visitação durante um dia. Só então o corpo foi colocado num caixão ladeado por um busto e exposto à visitação dos fiéis por dezoito horas. Isso foi importante para a história da Ordem, especialmente durante a expansão nos séculos XVI e XVII. O que importa é que o primeiro monastério da Ordem será fundado na presença de uma relíquia maior de Joana. (imagem abaixo, George Washington)

“De várias maneiras, os usos da máscara
 mortuária  são  emblemáticos da evolução
 das  mentalidades  no  século  XV (...) (32)

De acordo com Clémence Raynaud, o crescimento desta prática corresponde em primeiro lugar ao desenvolvimento da iconologia macabra que irrompe na arte ocidental no final do século XIV, com seu cortejo de transes e danças sinistras. Com o estímulo dos corpos descarnados, pois nem sempre as efígies são mentirosas, que os artistas esculpiram sobre as tumbas, a máscara testemunha a fascinação que a morte exerce sobre a Europa do século XV. A realidade quase serena que emana do último retrato de Joana se distingue da complacência mórbida que caracteriza os transes no final da Idade Média. Para Raynaud, se as imagens da decomposição se apresentam como memento mori ameaçador, a máscara de Joana, que define o teste final permitindo a ascensão ao mundo da santidade, parece ensinar uma arte de morrer.

“O desenvolvimento da técnica tanatológica da modelagem mortuária coincide, precisamente, com o sucesso da Arte moriendi. Esses tratados sobre a arte de bem morrer, cujos mais antigos remontam ao final do século XIV, se multiplicam durante a segunda metade do século XV. Nessas obras ilustradas com gravuras, a morte é apresentada como um drama que acontece ao redor do leito do moribundo. Michele Vovelle mostrou como se exprimia, através de imagens, a descoberta da morte individual. A marca mortuária que, justamente, conserva esse último instante com uma impressionante veracidade, não é ela outra demonstração? A máscara mortuária é uma manifestação evidente da obsessão macabra que assombra os homens do final da Idade Média. Imaginamos a preocupação provocada, nos espíritos, pelos manequins fardados dos cortejos fúnebres da realeza. Mas esta prática é também a expressão da descoberta da ‘morte de si’, descrita por Philippe Ariès. Que tenha sido simulacro ou cadáver, modelo ou relíquia, a máscara constituiu um meio eficaz para exaltar a memória do falecido. Artifício dos funerais do século XV que celebram, pela pompa aparente, a glória terrestre do defunto, oferecem outra forma de imortalidade a ele, permitindo aos artistas produzir retratos póstumos. Na Itália, os príncipes, os artistas e a Igreja muito cedo compreenderam todo o partido que poderiam tirar desta técnica que assegurava ao defunto uma forma de sobrevivência. Desta forma, por trás da máscara, se avizinha um outro fenômeno: a afirmação do indivíduo” (33)

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Máscaras: Papua Nova Guiné e Oceano Pacífico
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Mascaras: Homem Selvagem Europeu
Máscaras: Teatros Grego e Romano
Máscaras: Astecas, Maias e Incas
Máscaras: Carnaval de Veneza
Máscaras: África Equatorial

Notas:

1. COURTINE, Jean-Jacques; HAROCHE, Claudine. História do Rosto. Exprimir e Calar as suas Emoções (do século XVI ao início do século XIX). Tradução Ana Moura. Lisboa (?): Teorema, s/d. P. 7.
2. FAVIER, Jean. Carlos Magno. Tradução Luciano Vieira Machado. São Paulo: Estação Liberdade, 2004. P. 565.
3. DUBY, Georges. Ano 1000 - Ano 2000. No rastro dos nossos medos. Tradução Telma Costa. Lisboa (?): Editorial Teorema, 1997.  P. 127.
4. FOSSI, Gloria. Le Portrait entre Souvenir, Realité et Imagination. In: FOSSI, Gloria (org.). Le Portrait. Paris: Librarie Gründ, 1998. P. 11.
5. SCHNEIDER, Norbert. El Arte del Retrato. Las principales obras del retrato europeo, 1420-1670. Colônia: Taschen, 2002. P. 28.
6. GEESE, Uwe. A Escultura Românica. In: TOMAN, Rolf; BEYER, Birgit; GUNDERMANN, Angelika (Eds.). O Românico. Arquitetura. Escultura. Pintura. Colônia: Könemann, 2000. P. 360.
7. Idem, p. 361.
8. HÉRAN, Emmanuelle. Avertissement: Comment peut-on collectioner et exposer les morts ? In: Le Dernier Portrait. Paris: Éditions de la Réunion des musées nationaux, 2002. Catálogo de exposição. Pp. 12-5.
9. ARIÈS, Philippe. História da Morte no Ocidente. Tradução Priscila Vianna de Siqueira. São Paulo: Livraria Francisco Alves Editora S. A., 1977.  P. 157.
10. SCHMITT, Jean-Claude. Os Vivos e os Mortos na Sociedade Medieval. Tradução Maria Lucia Machado. São Paulo: Companhia das Letras, 1999. P. 240.
11. KANTOROWICZ, Ernst H. Os Dois Corpos do Rei. Um estudo sobre a teologia política medieval. São Paulo: Companhia das Letras, 1998. Pp. 253-263.
12. Idem, p. 262.
13. HÉRAN, Emmanuelle. Le dernier portrait ou la belle mort. In: Le Dernier Portrait. Op. Cit., p. 82.
14. GEESE, Uwe. Escultura Gótica em França, Itália, Alemanha e Inglaterra. In: TOMAN, Rolf; BEYER, Birgit; BORNGÄSSER, Barbara (Eds.). O Gótico. Arquitetura. Escultura. Pintura. Colônia: Könemann, 2000. P. 346.
15. HÉRAN, Emmanuelle. Le dernier portrait ou la belle mort. Op. Cit., p. 81.
16. Idem, pp. 80-6.
17. Ibidem, p. 82.
18. Ibidem.
19. Ibidem, p. 85.
20. Ibidem.
21. Ibidem, pp. 32-7.
22. Ibidem, p. 33.
23. Ibidem, p. 34.
24. Ibidem, p. 37.
25. KEMP, Martin; WALLACE, Marina. Spectacular Bodies. The art and science of the human body from Leonardo to now. Berkeley/Los Angeles/London: University of California Press/Hayward Gallery Publishing, 2000. Catálogo de exposição. Pp. 110-1.
26. HÉRAN, Emmanuelle. Le dernier portrait ou la belle mort. Op. Cit., p. 36.
27. POUGETOUX, Alain. Le Masque de Napoléon: de La relique au bibelot. In: Le Dernier Portrait. Op. Cit., p. 156.
28. HÉRAN, Emmanuelle. Le dernier portrait ou la belle mort. Op. Cit., p. 90.
29. POUGETOUX, Alain. Op. Cit., pp. 146-156.
30. Idem, p. 156n12.
31. RAYNAUD, Clémence. Du cortège funèbre au portrait posthume: Functions et enjeux du masque mortuaire à la fin du Moyen Âge. In: Le Dernier Portrait. Op. Cit., pp. 16-23, 23n6, 24n36.
32. Idem, p. 22.
33. Ibidem, pp. 22-3.

28 de mai. de 2015

Máscaras: Carnaval de Veneza


As festas  com máscaras  nos carnavais de Veneza e Viareggio
contêm elementos da cultura popular,  fruto de uma formalização
do  “folclore”  enquanto  gênero  de  política cultural  nacionalista
originada no século XIX mais do que questão de continuidade (1)

Dizem que tradição local foi a responsável por trazer máscaras do estrangeiro, na sequência da expansão da República de Veneza (dita A Sereníssima) em direção ao oriente. De acordo com Yvonne de Syke, as informações mais antigas se referem à utilização de “cobre rostos” remontando a 1094, durante do reinado do Doge Vitale Faliero Dodoni. No século seguinte, a vitória veneziana de 1162 sobre o patriarcado de Aquiléia (ao norte, no atual Friuli). Para comemorar o feito, prolongou-se um carnaval já existente. Rapidamente, folias com máscaras se instalam noutros meses do ano em Veneza. Elas começam em outubro com a abertura dos teatros, são interrompidas durante o período do Advento (Sensa), sendo retomadas em 26 de dezembro até a Ascensão, após uma pausa durante a Quaresma e a Semana Santa. As máscaras logo adquiriram um caráter de licenciosidade, transgressão e igualdade entre as classes sociais em Veneza, embora sua utilização tenha sido o mais das vezes imposta pelo governo por ocasião de acontecimentos políticos, neste caso em nada podendo ser considerada como sinônimo de carnaval. A passagem das máscaras pela Praça São Marcos acontece após a missa celebrada na Basílica da ilha de São Jorge Maior (San Giorgio Maggiore) em honra de São Estevão, cujo corpo está abrigado ali, trazido de Constantinopla em 1009. As máscaras seguem na direção do Palácio Ducal e fazem festa durante toda a noite, atravessando a ponte Rialto no final da festa pouco antes do amanhecer (2).


No século XVIII, era um servo humilde quem dava início oficial
ao  carnaval  de máscaras  em Veneza,  vestido com uma imitação
da   chamada   máscara    nobre     bauta   torta,   uma   máscara
branca   de   cera   furada  e  um  tabarro  cheio  de  remendos (3)

Mascarar-se para fazer mímica era privilégio exclusivo dos atores, que gesticulavam representando os mouros (a expulsão dos muçulmanos da Península Ibérica), em memória de eventos históricos, e dançavam a mourisca. Tudo era apresentado na Praça de São Marcos, enquanto certas pantomimas despejando sátiras da vida política tinham lugar no interior dos palácios, com atores e plateia igualmente protegidos por máscaras. Os salões dos conventos também recebiam apresentações teatrais quando, ao cair da noite, jovens monjas de origem aristocrática deixavam o isolamento escondidas atrás de máscaras e se misturavam com o povo nas festas pela cidade. Foi neste ambiente de deboche, de subversão e de diversão generalizada que nasceram, durante o século XVI, os personagens da commedia dell’arte, herdeiros de uma tradição bem enraizada na península itálica. Surge então a larva (ou Volto), a famosa máscara veneziana fabricada com oleado preto ou branco; rematada pela bauta, véu que cobre a cabeça e os ombros; o tabarro, capa grande, e o típico chapéu de três pontas. Tal configuração do carnaval histórico parecia ser suficiente para garantir a igualdade entre os sexos e suplantar as diferenças de classe e de fé, até que surgiu o traje de seda composto de um dominó de losangos multicoloridos, permitindo um anonimato ainda mais completo, por excelência o efeito buscado pelos disfarces venezianos.


Foi justamente durante as proibições que o uso de máscaras
e   disfarces   alcançou  maior  desenvolvimento  em  Veneza

Como em toda a Itália, também em Veneza as precursoras do carnaval são as antigas festas de máscaras como a Saturnália, que durante todo o Império Romano desenvolveram as possibilidades da orgia dos disfarces. Apesar da oposição da Igreja Católica, os venezianos celebravam o carnaval desde os primeiros tempos da cidade. Como é o caso do Jogo dos Ovos, quando homens disfarçados de pequenos diabos apareciam diante das casas daquelas moças que lhes interessavam e, ao comando de um cavaleiro (Mattaccino) vestido de branco e vermelho, jogavam ovos perfumados (imagem acima, ilustração F. Bertelli, Veneza, 1569). Em 1268 o Grande Conselho proíbe tal coisa no “bairro do governo” (a região em torno de São Marcos), apesar disso o costume continuaria popular até o século XVII. Tem início uma época de proibições. Supondo que tal medida inibiria o roubo e a fraude, foi proibido o uso de máscaras na cidade em 1339. Muitas reedições e complementações das leis foram realizadas ao longo de séculos sem que fossem respeitadas - um século mais tarde ainda se ouvia falar de homens que disfarçados de mulher cometeram obscenidades no interior de conventos. Contudo, Rolf Schwarz afirmou que tal interesse em proibir tinha mais relação com o estabelecimento de mecanismos de controle por parte das instâncias de poder político, e o carnaval representava uma reserva de liberdade com a qual o Estado veneziano não sabia lidar (4). (imagem abaixo, Il Caffè Florian, Francesco Guardi, 17??)


(...) A máscara faz parte da vestimenta (...)

Descrição do carnaval de Veneza por um turista em 1739

Aparentemente, tal situação levaria ao aprofundamento do interesse nos disfarces, atingindo estágio culminante durante o Renascimento, com a mitologia da Antiguidade e a fantasia poética da modernidade – sem esquecer o arsenal de elementos trazidos dos povos colonizados por Veneza, assim como daqueles com quem estabelecera laços comerciais. Em 1608 cairia a proibição de visitas aos conventos e outros edifícios eclesiásticos de pessoas portando máscaras, a partir de agora se passariam a permitir os disfarces apenas durante o carnaval – ainda que a festa já estivesse ocorrendo em diversas partes do ano, incluindo as festividades anuais mais variadas e até as cerimônias políticas. Ainda de acordo com Schwarz, essa mudança de atitude do Estado em relação às máscaras e aos disfarces teria relação com o declínio político e econômico de Veneza em relação às mudanças que estavam acontecendo na Europa – era mais fácil se esconder por trás de máscaras e o carnaval acalmava os ânimos.  No século XVIII, essa infiltração da sociedade pelas máscaras estava consolidada (tanto que para dirigir-se a alguém bastava a fórmula “senhor máscara”), convertendo Veneza numa grande atração turística na era pré-industrial – indústria que compensaria as perdas crescentes na economia da cidade. Um destes turistas foi o presidente do parlamento da cidade francesa de Dijon, o escritor Charles de Brosses, que em uma de suas cartas à família em 1739 descreve o papel das máscaras na sociedade veneziana do settecento:

“O carnaval tem início em 5 de outubro, e logo acontece outro menor na época da Ascensão. A partir de então pode contar-se com algo em torno de seis meses nos quais todo mundo aqui utiliza máscaras, sacerdotes e leigos, inclusive o núncio e o porteiro dos capuchinhos. Não pense que estou brincando. A máscara faz parte da vestimenta. Os padres se zangam com seus paroquianos, e o arcebispo com seus clérigos, se estes não levam a máscara na mão ou acima do nariz” (5)

Leia também:
Notas:

1. POPPI, Cesare. The Other Within: Masks and Masquerades in Europe. In: MACK, John (Ed.). Masks. The Art of Expression. London: The British Museum Press, 1996. P. 215.
2. SIKE, Yvonne de. Les Masques. Rites et Symboles en Europe. Paris: Éditions de La Martinière, 1998. Pp. 71, 74.
3. SCHWARZ, Rolf D. Carnaval en Venecia. Espanha: Salvat Editores, S. A., 1991. Pp. 130, 134.
4. Idem, pp. 125, 126-32.
5. Ibidem, pp. 129.

13 de nov. de 2014

Máscaras: Papua Nova Guiné e Oceano Pacífico


(...) Eu sonho com um espelho. Eu me
 vejo    com    uma   máscara,  ou   vejo   no
 espelho alguém que sou eu, mas  que  não
reconheço como sendo eu mesmo (...)

Jorge Luis Borges (1)

Geografia do Oceano de Símbolos

De acordo com a historiografia oficial, os europeus começaram a navegar nas águas do Oceano Pacífico a partir do século XVI. Apesar da diversidade humana encontrada, uma semelhança de traços culturais se fazia sentir. Em 1831, o explorador francês Dumont d’Urville lançaria as bases de uma divisão artificial daquela vasta região do mundo em três zonas: a Melanésia (ou “ilhas negras”), a Polinésia (ou “numerosas ilhas”) e a Micronésia (ou “pequenas ilhas”). Apesar de ser considerada um tanto aleatória, tal divisão dá vazão à tentação de sublinhar certos particularismos próprios a cada região. Desta forma, a arte polinésia se distingue por seu acabamento e elegância, a melanésia assusta um pouco e parece apostar no efeito surpresa, enquanto a arte da Micronésia enfatiza a ornamentação de superfície. Posteriormente, surge uma redefinição de quatro outros grandes centros de criação, sublinhando a circulação de objetos e temas. Um primeiro conjunto reúne a Nova Guiné e a Austrália, é a área do povoamento mais antigo vindo da Ásia (demarcada pelas línguas não austronésias). O segundo grupo compreende a Melanésia insular (populações de origem estritamente austronésia), as ilhas entre os arquipélagos do Almirantado à Nova Caledônia, incluindo Tonga, Fiji, Samoa (anteriormente chamada “Polinésia ocidental”). O terceiro conjunto reagrupa as populações muito homogêneas da Polinésia central e oriental (ilhas de Páscoa, Marquesas, Havaí, Nova Zelândia...). A Micronésia está sozinha no quarto grupo, devido a suas origens asiáticas. Dentre as várias similitudes e diferenças que poderiam ser apontadas e nesse tabuleiro de xadrez, uma questão continua sem resposta: como explicar a presença de máscaras na Melanésia e sua ausência em grande parte da Polinésia e quase total na Micronésia? (2).

Imagem acima, close-up nos olhos de uma máscara coletada entre 1935-6 no delta do rio Ramu, à leste do rio Sepik, Papua Nova Guiné, Fotografia British Museum; imagens abaixo, da esquerda para a direita, máscara de crocodilo, Sepik central; máscara desconhecida, Anthony Meyer sugere uma função funerária como a máscara taatuana do norte da Nova Irlanda ou similar as máscaras de uma sociedade secreta como iniet ou Duk-duk do povo Tolai da Nova Bretanha; mesma máscara da imagem anterior


Agrupadas  em  torno  do  equador, as ilhas
 da Oceania se espalham por 12 mil quilômetros,
 entre    os   trópicos   de   Câncer   e   Capricórnio.
 Na     vastidão     azul     dos     mares     do     sul,
a   Melanésia   é  o  paraíso  das  máscaras (3)

O Iluminismo que se instala na Europa do século XVIII alimentará seu debate filosófico, a respeito do estado natural do homem, com os relatos das expedições de John Byron, Samuel Wallis, Louis-Antoine de Bougainville e James Cook aos mares do sul. Foi a partir daí que a Polinésia passou a ser vista como uma espécie de paraíso povoado por criaturas virgens, modelos ideais de inocência e virtude, o Taití foi elevado ao posto de “nova Citera” (Kythera, referência à ilha grega onde nasceu a deusa Afrodite). Contudo, essa imagem idílica será manchada pelos assassinatos de Cook (esfaqueado) no Havaí em 1779 e do capitão Marc-Joseph Marion-Dufresne (comido por canibais) na Nova Zelândia em 1772. No século XIX, as expedições europeias se intensificam (muitos objetos serão coletados sem o menor cuidado e por quantias irrisórias), prenunciando a era das colonizações, cujos terríveis excessos serão denunciados pelo pintor Paul Gauguin. É aqui que a visão turva do rótulo do “bom selvagem” se metamorfoseia no rótulo míope do “primitivo”. Ironia do destino presente no comentário do escultor Alberto Giacometti em 1959: “(...) A escultura das Novas Hébridas é verdadeira, até mais que verdadeira, porque ela possui um olhar. Não é a imitação de um olho, há, de fato, a imitação de um olhar. Todo o restante é suporte do olhar (...). Contudo, o mais engraçado, é que numa máscara da Oceania (...), onde no lugar do olho existem duas conchas incrustadas (...), temos a impressão de um olhar extremamente vivo, quase perturbador” (4).

Entre o Rosto e a Máscara


(...) O  conde  de  Beaumont  promoveu
 um   ‘baile  marinho’   em   1928,  no  qual
as    máscaras,     desenhadas     por     Louis
  Marcousssis,   olham   mais   para  o  lado
 da  Oceania   do  que   da   África (...)(5)

Em muitas partes da Melanésia, os objetos de culto são mantidos num prédio isolado (Casa dos Homens, Casa dos Espíritos), muitos dos quais são vistos como seres criadores, como indicado por grandes máscaras-frontão anexadas do lado externo da construção, acima da entrada principal. Muitas máscaras e figuras rituais são decoradas com pinturas e esculturas ornamentais nos padrões costumeiros da pintura corporal ou facial da tribo, uma vez que são percebidos como seres criadores (antepassados do clã ou ancestrais mortos) identificados por sua ornamentação. Acredita-se que apenas quando a pintura estiver terminada a peça será preenchida com o poder dos ancestrais ou dos heróis culturais Em muitas áreas, a entrecasca da amoreira é utilizada na fabricação de máscaras. O artesão estica esse material, conhecido como tapa, sobre uma armação de vime e o modela no formato da máscara, que então será pintada. Também na área do rio Sepik não há muitas possibilidades de variação da decoração das máscaras, apenas na medida em que correspondam ao exato padrão que a pessoa usava enquanto estava viva – ao qual tinha direito e ninguém mais poderia copiar (imagem acima). Espíritos e demônios também possuem sua própria decoração individual, como, por exemplo, Moen, o protetor da palmeira Sago (Metroxylon sagu) entre os antigos canibais e caçadores de cabeça Iatmul, no Sepik central - feita em resina e argila modeladas sobre crânio adornado com pintura, conchas e cabelo humano (imagem abaixo) (6).


Os povos do golfo de Papua desenvolveram
 uma  linguagem  estética  inspirada  no  corpo
humano,   com  uma   obsessão   particular   pelo
 rosto   -   presente    mesmo   quando   ele   está
 escondido    por   trás   de   uma    máscara (7)

Na opinião de Bérénice Geoffroy-Schneiter, caso pretendêssemos nos restringir apenas à definição estrita de máscara enquanto “segundo rosto” cuja função é dissimular os traços daquele que a utiliza, nos arriscaríamos a derrubar vários fenômenos artísticos que servem plenamente a função do desdobramento e da metamorfose, tão popular entre os povos da Oceania. Contudo, uma constatação se impõe: se a Melanésia aparece como a pátria da máscara (desde o vale do Sepik até a Nova Caledônia, passado pela Nova Irlanda e a Nova Bretanha), a Polinésia, por outro lado, parece haver desdenhado tudo isso em favor de ornamentos faciais e tatuagens, que elevou à perfeição. Fora este “detalhe” (que engloba alguns milhares de quilômetros quadrados de mar), Geoffroy-Schneiter admite que em poucos lugares do mundo seja tão celebrada a dança com máscaras, o disfarce e a transformação do “eu” num “outro”. Com as mais variadas formas e materiais, podemos encontrar máscara-boné, máscara-capacete, máscara-roupa, máscara-escultura, máscaras-vegetais, de madeira, de casca pintada, de teia de aranha, multicoloridas, gigantescas, terrificantes, calmantes, fúnebres, para a dança, para a guerra ou apenas lúdicas... Ainda de acordo com Geoffroy-Schneiter, os Baining da Nova Bretanha são o exemplo máximo de fabricantes de máscaras. Estruturas quase independentes do personagem-portador, rostos gigantescos com olhos hipnóticos que parecem chorar lágrimas de sangue, são um verdadeiro desafio à lei da gravidade. A esses “fantasmas” de rostos iluminados como pipas em voo, Geoffroy-Schneiter, opõe a força brutal das máscaras Malagan de Nova Irlanda, acumulações “bárbaras” de formas e sensações ao mesmo tempo selvagens e inquietantes (8).

Imagem abaixo, à direita, máscara susu, do povo Sulka, natural do sudeste da península Gazelle, Nova Bretanha. Fotografia Bremen, Überseemuseum. Imagens a seguir, pinturas rupestres pré-históricas na Austrália, supostamente representando seres com máscaras e adereços na cabeça

“Monstruosas” e “aterrorizantes”, “medonhas” e “infernais”, durante muito tempo foi com estes termos que arte, máscaras e cerimônias sagradas dos povos não ocidentais eram descritas, como é o caso do registro escrito pelo capitão de corveta Julien Lafférière, ao relatar seu encontro com os Kanak da Nova Caledônia, em 1843: “Vimos aparecer no meio da cena duas grandes máscaras negras com traços medonhos de forma e de dimensão, coroada por um grande chapéu de pelos no estilo de um chapéu hussardo [colback]. Aqueles que as portavam tinham o corpo revestido por uma espécie de casaco curto, também com plumas pretas, que se encaixava muito bem com o resto do disfarce. Acompanhados pelo canto do grupo de Paliki-Pouma, esses dois personagens saltavam diante daqueles que estavam presentes, percorrendo de um lado a outro o espaço reservado entre os cantores e os espectadores, nos ofertando com uma espécie de selvageria bem original. Todos esses homens negros, numa nudez completa, mal iluminados pelo fogo de palha reanimado de tempos em tempos, batendo forte o pé no chão, entregando-se a contorções e agitando seus longos braços, assobiando como as serpentes, ou uns davam gritos agudos enquanto outros grunhiam. Aquelas duas máscaras monstruosas correndo e saltando como duas bestas ferozes desacorrentadas. E todo esse barulho, toda essa agitação, era conduzida e regulada pela voz e o gesto do chefe Paliki-Pouma, ele próprio bastante medonho. Era um quadro que possuía algo de infernal, e que não teria sido indigno do mais hábil pincel” (9).

Austrália, Nova Caledônia, Ilhas Salomão e Vanuatu


(...) Mascarados,   ou   imagens   sugerindo   máscaras, 
do    início    do    Paleolítico,    são    forte    evidência    da
importância desse hábito na sociedade humana (...)(10)

Conhecida como ilha-continente, na Austrália os rituais com máscaras têm sido praticados pelos povos da região nordeste do Estreito de Torres, e, mais recentemente, na região noroeste, em rituais entre adolescentes masculinos. Embora John W. Nunley se refira especificamente a pinturas elaboradas e penas no rosto dos iniciados por toda a Austrália, ele acredita que nesse caso se poderia falar na transmissão de uma forte aparência de máscara – apesar de, ao sustentar essa hipótese, nos sentirmos forçados a considerar como máscaras todas as fantásticas manifestações de pintura do rosto presentes na Papua Nova Guiné, o que nos parece um exagero. Apesar de a maior parte da literatura a respeito da pintura rupestre encontrada na Austrália argumentar que as figuras híbridas presentes nos Territórios do Norte representem espíritos ao invés de mascarados, alguns exemplos (como o aspecto de mascarado do Homem Relâmpago no rio Calder) sugerem que máscaras estão associadas com espíritos e figuras ancestrais. Representações de guerreiros na pintura rupestre da região incluem um elemento do dança de máscaras: por exemplo, dois indivíduos portando flechas parecem ter suas cabeças cobertas com algum tipo de coroa com fitas ou serpentinas (acima, à direita), além de uma figura (pessoa ou espírito?) de cócoras com pintura corporal de listras com linhas irradiando da cabeça (acima, à esquerda). Podemos não compreender a intenção do artista, explicou Nunley, mas alguma utilização de máscaras parece ter tido uma função em cerimônias praticadas durante os últimos 50 mil anos pelos aborígenes australianos – os espíritos Wandjina representados em pinturas rupestres também aparentam a utilização de máscaras (11).


“As   artes   primitivas   indonésias  e  filipinas  formam  um  tríptico,
juntamente  com   a   arte   da   Melanésia  e  da  Polinésia,  do  qual não
saberíamos separar  os  elementos  sem  afetar  a  compreensão correta
de um mundo malaio-polinésio que engloba também Madagascar” (12)

Situada na porção oeste da Oceania, a Melanésia é a área das máscaras por excelência – compreendendo, de leste a oeste, todas as ilhas entre Irian Jaya/Papua-Nova Guiné e Fiji, ao norte-nordeste da Austrália. Em quase todos os grupos maiores de ilhas, máscaras são produzidas e utilizadas em ciclos religiosos cerimoniais e ritos de iniciação (à maioridade, a sociedades secretas, etc.), ritos mortuários e ciclos agrícolas – na costa sul da Papua, o exemplo mais famoso é o de Trobriand, grupo de ilhas localizadas no arquipélago Massim, onde o antropólogo polonês Bronisław Malinowski (1884-1942) elaborou sua teoria do Kula, entre 1915-18; ainda que, neste caso, não haja relatos da fabricação ou utilização de máscaras. Associadas sempre ao mundo dos homens (como fabricantes e usuários), as mulheres são excluídas dos cultos relacionados às máscaras naquela área – apenas os homens podem usar, mesmo quando uma máscara representa seres sobrenaturais femininos. A contribuição das mulheres é indireta: fornecem o material utilizado na produção das máscaras e roupas; estão envolvidas na produção da comida e criação dos porcos que, juntamente com objetos de valor, são necessários para festividades e trocas que desempenham papel crucial nas cerimônias; alem disso elas constituem a plateia. Por conta de sua capacidade de engravidar, as mulheres são vistas como uma ameaça potencial aos poderes dos homens sobre o mundo espiritual. A exclusão das mulheres se justifica, em algumas sociedades da área, devido a mitos que as apresentam como originais proprietárias das máscaras, que foram roubadas pelos homens juntamente com os poderes e segredos associados a esses objetos (13).

Imagem acima, dançarinos Baining. Fotografia Peter Horner, s/d. Abaixo, à esquerda, máscara mwei homenageando ancestrais, ao lado, dançarinos mwei; as máscaras mais estreitas representam os homens (na frente), enquanto as mais largas representam as mulheres, Iatmul do Sepik central


No   Sepik   médio   estamos   entre
os antigos  caçadores  de  cabeças, mas  onde  a
obra de arte ocupa um lugar muito semelhante
 ao que dispõe entre os ocidentais (14) 

Extremamente variadas em forma e complexidade, as máscaras melanésias apresentam predominantemente o rosto humano (embora também ocorram formas animais), quase todas apresentando decoração adicional de penas, conchas, mantos, capas ou camisas de penas – nem todas as máscaras têm como função esconder a identidade do usuário. Muitas máscaras daquela área são fabricadas apenas para uma ocasião especial, sendo em seguida descartadas, seja porque não tem mais função ou porque oferecem um perigo espiritual e devem ser destruídas. Algumas delas, como as máscaras Elema não são mais fabricadas, demandam extrema habilidade e grande quantidade de material para sua produção. Ainda existem máscaras que são a continuação de antigas tradições, enquanto outras expressam um renascimento de tradições negligenciadas a partir do contato com os europeus – especialmente em função da “bem sucedida” evangelização religiosa ocidental, que incorporou muitas delas em novo contexto, tornando quase impossível a reconstituição do saber local que permitiria decifrar o significado de a função social das máscaras. Evidentemente, tradições foram perdidas também por conta do contato comercial e/ou beligerante entre as próprias sociedades melanésias entre si – muito embora, mesmo a memória de tais interações fossem virtualmente apagadas pelo colonizador europeu. (imagem abaixo, máscaras Kanak, fotografia Archives Barbier-Mueller, Genebra)



Azyu, o filho do chefe, foi desfigurado e morto pelos inimigos. 
 Ao  invés  de  retornar à vida sem o nariz, ele enviou a  máscara  lá
da terra dos mortos. O mato de penas teria relação com poderosos
espíritos da  floresta  que  podem se transformar em  pássaros

Mito de origem da máscara funerária de dança Kanak, Nova Caledônia

Na ilha de Nova Caledônia, máscaras são encontradas apenas ao norte (arredondadas e alongadas, com um nariz em formato de bico curvado de pássaro de projetando sobre a boca) e no centro (arredondadas e achatadas, com um nariz curto), talhadas em madeira e pintadas de preto. A função dessas máscaras não está inteiramente clara, parece que as do norte simbolizam o poder dos chefes (surgem nas cerimônias de luto para pessoas de posição), enquanto as do centro prestam-se apenas ao entretenimento. Algumas delas, espalhadas em museus pelo mundo, possuem nomes específicos, que provavelmente representam encarnações de divindades associadas à água e ao mundo subterrâneo. Com sua máscara pwéémwa (abaixo, à esquerda), o dançarino mascarado é um símbolo da Nova Caledônia. Elas podem ser de dois tipos, com um grande nariz pontudo (no lado norte), ou um nariz naturalista (no lado sul), o significado dessa distinção está perdido atualmente.

Imagens abaixo, da esquerda para a direita, máscara pwéémwa com nariz naturalista, costa sul da Nova Caledônia; máscara Eharo, dos Elema do delta do rio Purari, lado leste do Golfo de Papua; máscara com cabelos "louros" usada em festividades para homenagear o porco, ilha Ambrym, Vanuatu


De fato, a origem da máscara Kanak é hoje objeto de intenso debate, em várias partes da nova Caledônia, o termo usado para designar a máscara funerária de dança (imagem abaixo, à esquerda) corresponde à palavra para "pássaro" - embora “kanak”, ou “kanaky”, tenha sido originalmente apenas um termo pejorativo utilizado para descrever os “nativos”, fora apropriado pelo povo da Nova Caledônia. Seria um item indígena ou uma importação posterior? Meyer observa que o nariz pontudo lembra formas de máscaras das regiões baixa e central do rio Sepik e do golfo de Papua. Narinas dilatadas, testa abobadada ou toca em forma de bola e bochechas levantadas são elementos do desenho Kanak também encontrados em máscaras de Pentecostes, Ambrym e Malekula, em Vanuatu. (15).

Imagens abaixo, à esquerda máscara funerária de dança Kanak, Nova Caledônia; à direita, máscara do rio Yuat, tributário do Sepik central; o relevo na testa representa o bico do Calau, evocando ancestrais, tanto quanto a guerra e a caça de cabeças. Fotografias, respectivamente, Peter Horner Christian Coiffier

Certos   elementos
de   máscaras   na    foz
do  rio  Sepik,  como nariz
grande lembrando  tromba quase se fundindo ao pênis, 
teria     raízes    no    oeste, 
 incluindo a Indonésia (16)

As máscaras do povo Kanak são associadas com a posição do chefe, e são famosas por sua plasticidade arrojada, especialmente àquelas originárias da região norte da Nova Caledônia. A primeira descrição de uma dança com máscaras na região é de 1843, quando exploradores franceses condenaram o ritual, considerando-o medonho e de natureza depravada – anotaram também que o chefe tinha um papel central no controle dos dançarinos. Apesar de as máscaras não serem mais usadas, relatos de missionários e exploradores sugerem que eram associados a ritos fúnebres dos chefes e outras pessoas importantes. Ali no norte, a dança com máscaras consistia de dois dançarinos, um representando o chefe e outro seus comandados. A roupa possui três partes, enquanto a máscara é cavada na madeira de uma árvore local conhecida por houp. As máscaras propiciam uma transição de poder no caso da morte de um chefe. A autoridade do chefe doente deve ser transferida para um novo líder, realizando-se através da conexão entre o chefe e o mundo submarino dos ancestrais e outras forças espirituais. Acredita-se que os narizes grandes e curvados apontando para a boca simbolizam as serpentes sagradas que alimentam os ancestrais. A base do manto feito de rede de pesca torna possível a captura dos espíritos do morto. No mundo natural a rede de pesca captura os peixes; quando utilizada no ritual com máscaras, ela captura os espíritos dos ancestrais, que moram no mar com os peixes.  Além de promover a continuidade e estabilidade no interior da sociedade, tais danças com máscaras apontam para um tema comum nos rituais fúnebres com máscaras em várias sociedades. Além de prover os meios para uma jornada segura em direção ao lugar dos espíritos, este lugar é suficientemente distante dos vivos para não acarretar desgraças, mas ao mesmo tempo suficientemente próximo para ser contatado em tempos de crise (17). Como vimos, na parte norte da Nova Caledônia a máscara está relacionada “àqueles que vieram do mar”, que poderiam ser visitantes chegando de canoas – “por que não de Vanuatu?”, Meyer se pergunta.

Abaixo, dois exemplos de máscaras de Vanuatu, è esquerda, máscara pouco comum na área, semi-capacete com traços naturalistas, orifício de piercing no nariz; à direita, os grandes orifícios de piercing no nariz lembram o piercing dos Big Nambas (V'ənen Taut) das ilhas Malekula e Espiritu Santo - a segunda máscara foi coletada na passagem entre os séculos XVIII-XIX. A seguir, exemplares de madeira (esquerda) e casco de tartaruga, Estreito de Torres, entre o sul de Papua Nova Guiné e norte da Austrália

As máscaras são variadas em Vanuatu (Novas Hébridas anteriormente), a nordeste da Nova Caledônia e sul das ilhas Salomão. Nesta região, onde as mulheres também são iniciadas em suas próprias sociedades secretas, é particularmente difícil distinguir entre máscaras e cocares. As máscaras/cocares são cônicas em formato de diamante ou ovais, podendo ser de fibra de palmeira, cascas e teia de aranha. Nas ilhas de Pentecostes, Malekula e Ambrym, existem máscaras em madeira esculturalmente mais complexas, lembrando a Nova Caledônia. Embora não sejam propriamente máscaras, esculturas figurativas decoram grandes tambores de fenda em Ambrym e Malekula – outras formas de escultura são extremamente raras (18). Um tipo especial de máscara foi encontrado nas ilhas Banks e Torres, ainda que não sejam consideradas esteticamente interessantes, estão ligadas às sociedades secretas chamadas Tamate - exercendo controle social como as sociedades secretas Duk-duk do leste da Nova Bretanha, a grande ilha na costa leste de Papua. 


Nas ilhas Salomão as máscaras são raras, encontradas apenas em Vanikoro, no grupo Santa Cruz, mais ao sul do arquipélago (onde estariam relacionadas aos cultos Tamate das ilhas Banks e Torres), e a noroeste (ilhas Nissan, Buka e Bougainville, próximas à Nova Bretanha). Contudo, curiosamente, as máscaras são um dos souvenires mais típicos! Dizem que uma europeia teria mostrado algumas fotografias de máscaras africanas ao povo local após a Segunda Guerra Mundial. Portanto, seria um exemplo típico de arte desenvolvida especificamente para turistas – embora não possa ser descartada nenhuma ligação com tradições antigas ligadas às máscaras.  Já nas ilhas do Estreito de Torres (politicamente parte da Austrália, mas culturalmente relacionadas à costa sul da Papua Nova Guiné), a cultura das máscaras é generalizada. Utilizadas em cerimônias relacionadas à agricultura, fertilidade, iniciações e proteção contra crocodilos, as máscaras da região são de madeira e casco de tartaruga. Vestidas em conjunto com saias de folhas ou mantos, podem ser de dois tipos: aquelas que representam uma face humana (de madeira ou casco de tartaruga) e grandes máscaras de animais (geralmente apenas de casco). Contudo, os ilhéus daquela região rapidamente incorporam novos materiais – uma famosa máscara que fez parte da coleção do pintor e escultor Pablo Picasso era feita de entalhe e chapa de metal pintada (19). As melhores máscaras de rosto humano em madeira vieram de Saibai (bem em frente à costa de Papua), enquanto as de casco da tartaruga são de Mer (Murray) e Erub (Darnley) (imagens acima, respectivamente, à esquerda e direita). Máscaras de animais (representando criaturas marinhas de corpo inteiro e, às vezes, um rosto humano), algumas bastante complexas e de tamanho considerável, são particularmente características nas ilhas do lado ocidental do Estreito.

Elema, Gogodala, Asmat e Rio Sepik

 Apesar das    hostilidades
tradicionais,  a
riqueza   estética
do    Sepik  é  fruto
  da intensa relação  
de   troca   entre
os diferentes
grupos (20)

Localizada ao norte do Estreito de Torres, a província do golfo em Papua é muito rica em máscaras, objeto sagrado dentre outros que compõe uma rica vida cerimonial, centralizada na Casa dos Homens - as cerimônias consistem numa série de atividades, cujo ciclo pode levar anos para se completar. Entre os deltas dos rios Purari e Kikori encontra-se uma arte mais espontânea (como as máscaras Keweke, grandes e ovais feitas em cestaria, e Kanipu, abobadada, feita de tecido) menos rígida do que a do povo Kerewa (ainda que estes sejam considerados os mais prolíficos produtores de arte na região) a oeste. Os Elema, habitantes na região a oeste da baía de Orokolo (logo em frente ao delta do Purari), apresentam dois ciclos cerimoniais, um dedicado aos espíritos da floresta (Kovave) e outro aos espíritos do mar de Orokolo (Hevehe) – este povo está entre aqueles cuja cultura mais sofreu em função de intervenções de missionários religiosos ocidentais (21). Neste último ciclo, acredita-se que os espíritos do mar (ma-hevehe) visitam periodicamente a aldeia, trazendo para a Casa dos Homens (eravo) alguns materiais para a fabricação de máscaras. As máscaras Hevehe representam as irmãs dos espíritos, apresentando-se para a multidão no clímax do ciclo. Essas máscaras são grandes, ovais e verticais com uma estrutura de cana, madeira e cestaria coberta por um pano de fibras vegetais, a parte inferior forma uma face humana e são usadas juntamente com um manto de folhas de palmeira. Um ciclo completo Hevehe pode levar entre dez a doze anos para se completar, sendo realizado apenas em tempos de fartura, devido à grande quantidade de mão de obra requerida (as máscaras tem 2 metros de altura e podem chegar a 120 unidades em certas cerimônias), assim como a acumulação de comida, porcos e ornamentos de conchas (22). 

Imagem acima, a fotografia de uma máscara Kovave adquirida pela National Geographic Society em 1938, mas não chegou a ser publicada. Parece razoável acreditar que a mesma máscara esteja presente na fotografia abaixo (elemento à direita), onde se veem três Kovaves de frente. De acordo com Anthony J. P. Meyer, ela foi tirada nas proximidades da cidade de Port Moresby, Papua Nova Guine, 1933

Na primeira cerimônia mais importante do ciclo, Hevehe Karawa, homens jovens são iniciados tomam conhecimento dos segredos desses espíritos: eles são emboscados na praia por homens moldando máscaras e personificando os espíritos, então se inicia a montagem propriamente dita. Cada uma das fases da fabricação é introduzida pela cerimônia Hevehe Karawa, durante as quais os espíritos trazem outros materiais para as máscaras. Quando uma nova porta para a eravo for construída (a Casa dos Homens possui um frontão muito alto, justamente para receber as grandes máscaras) acontece um intervalo, ocasião em que máscaras de um diferente tipo aparecem. Chamadas eharo, são bem menores e feitas de palmeira, cônicas ou arredondadas e muitas vezes encimadas por emblemas totêmicos (o exemplar abaixo foi entregue ao Museu Britânico em 1929). Terminadas as máscaras, os iniciados são apresentados aos segredos delas, o clímax chega pouco antes do nascer do sol, quando as portas da eravo são abertas e surgem as máscaras. O momento supremo se aproxima quando o Hevehe, após quase vinte anos de confinamento, se apresenta para iniciar a breve realização de sua existência. Na luz enevoada da manhã, o primeiro deles, Koraia, surge enquadrado pela escuridão por trás da porta aberta – uma figura alta e fantástica, branco prata, com seus padrões coloridos surgindo pálidos e muito delicados na atmosfera do amanhecer. Tocando tambores e seguidos por outros tambores, os homens mascarados vão dançar na praia por um mês até que o ciclo se conclua com outra festa, onde um fuzilamento das máscaras com flechas precede à incineração.

As    máscaras   Eharo 
não   são   sagradas   como
as HeveheKovave,  podem  ser fabricadas   por   qualquer
um,   inserindo  também   um
elemento   de   comédia  que
 compensa    a    seriedade
 do    ciclo    Hevehe (23)

“[Kovave é um ciclo menor em termos de abrangência e parafernália]. Constitui, no entanto, um momento extremamente importante, já que representa a principal cerimônia de iniciação masculina. Os Kovave são espíritos míticos do tempo da Criação que agora moram nas árvores da floresta. A cerimônia Kovave traz os espíritos para fora do mato, alimenta-os e os induz a iniciar os meninos na maioridade. Os meninos são levados por seus tios para o mato, onde são surpreendidos pelos homens mais velhos que avançam sobre eles batendo em suas cabeças com grandes máscaras cônicas Kovave. No dia seguinte, os meninos, usando suas máscaras, fazem uma entrada cerimonial formal na aldeia. Com uma postura meio séria e meio cômica, durante um mês os meninos desfilam na praia em frente da aldeia usando máscaras. O povo traz oferendas de porcos para eles, que os matam com flechas. No final do ciclo, os meninos Kovave retornam para o mato, queimam as máscaras e voltam como adultos plenos” (24)

A cerimônia Hevehe pode ser interpretada de diferentes maneiras. Do ponto de vista dos iniciados, por exemplo, ela poderia ser descrita como um processo de desencanto. Enquanto meninos, eles descobrem que as máscaras não são as irmãs dos espíritos, mas homens disfarçados e; a seguir, enquanto adultos jovens, que o grande barulho feito pelos espíritos quando vem do mar é produzido por homens fingindo serem espíritos. Com os segredos revelados, não há mais um mistério. Ao mesmo tempo, o processo de iniciação é uma forma de promoção social. Aquisição de conhecimento traz consigo poder, pois são os anciãos, ao dominarem a fabricação das máscaras, que orquestram o ciclo cerimonial e se beneficiam da maior parte das repetidas apresentações e trocas de comida e objetos de valor. No nível econômico, a conclusão de cada estágio do ciclo dispara a intensificação da produção de alimentos se a qual a continuação da cerimônia seria impossível. A produção de comida (criação de porcos em particular) envolve mulheres, cujo papel é ambivalente, mas também típico de sua função numa festa de máscaras melanésia. Por um lado, elas são excluídas do Hevehe; por outro, produzem o material a partir do qual o manto das máscaras é fabricado, e sua cooperação é necessária tanto na produção de alimentos quanto na participação como plateia. Apesar do Hevehe, sendo um culto exclusivamente masculino, retirar delas os poderes que confere a eles, também reconhece a contribuição delas: a certa altura tem lugar uma apresentação especial entre as mulheres, ainda que simbólica, onde os presentes são oferecidos pelos homens, que assim satisfazem suas variadas e complexas obrigações, aumentando seu próprio prestígio.  


No Sepik, a representação figurada do pássaro faz parte
de uma  corrente de símbolos que associam a prosperidade
do  grupo,  fecundidade   das   mulheres,  força  e  virilidade
dos homens,   o   ato   sexual   e   a   caça   de   cabeças (25)

Máscaras similares a dos Elema são encontradas entre outros grupos na região do golfo, ainda que o contexto cerimonial seja distinto. Máscaras feitas com casca de amoreira predominam no leste dessa área, enquanto no oeste são fabricadas como a cestaria, mas todas são baseadas no motivo do rosto humano. Entre os Gogodala, que vivem para o interior no rio Aramia, no extremo oeste da área do golfo, seu estilo particular é representado por máscaras construídas com madeira leve em forma oval, pintada com decoração curvilínea em preto, vermelho, amarelo e branco. Um dos tipos, medindo entre um e dois metros de altura, possui uma figura totêmica com o motivo central (ou “olho” da casca) circundado por sementes de ervilha do rosário (abrus precatorius) e uma abertura em forma de crescente na parte inferior que serve como visor do usuário. Outro tipo representa um rosto humano, sempre um ancestral do mesmo clã. Estas máscaras são usadas em cerimônias de iniciação, que o usuário acompanha com um vestido de folhas de palmeira, plumas de penas e tranças. Após um período de quase total declínio (induzido por missionários cristãos), a tradição da fabricação de máscaras retornou como parte de um renascimento cultural dos Gogodala durante os anos 1970 do século passado.

Imagem acima, máscara-capacete de pássaro, área do Sepik, Papua. Abaixo, máscaras coletadas no baixo Sepik, no início do século XX. Anthony Meyer não soube precisar se este par representa espíritos macho e fêmea ou irmão e irmã. A máscara masculina possui narinas na ponta do nariz (direita), enquanto o nariz feminino termina num bico. A pintura é incomum, utilizando-se de tintas tradicionais e europeias. Meyer também questionou o esquema decorativo, totalmente distinto de todos os padrões de cor da área

“Os Gogodala, ou Gododara, situados em torno do rio Aramia a leste do Fly, formam outro grupo único. Suas esculturas são extremamente refinadas e ‘lisas’, mais suaves do que noutros lugares na Nova Guiné, com um toque acentuadamente oriental ou asiático. Apesar de suas formas plásticas serem extremamente bem esculpidas, o aspecto mais notável da arte Gogodala é seu extraordinário colorido: tudo é pintado de maneira extravagante em preto, branco, vermelho e amarelo. Uma espécie de logotipo central ou assinatura, chamado gawa tao e representando o totem do clã do indivíduo, é pintado em cada máscara, figura, canoa, etc. Em essência, o gawa tao pode ser relacionado à forma em umbigo, mopere, usada pelos Mimika. As margens das máscaras e coletes dos Gogodala são costuradas com amarração de vime e decorados com penas (imagens abaixo). Os olhos, que normalmente ocupam um terço do rosto, são incrustados em complexas composições de conchas do mar, sementes de plantas e grãos. Representando um crocodilo gigante ou um lagarto monitor, as canoas Gogodala estão entre as formas de arte mais impressionantes encontradas na Nova Guiné. A proa é apresentada como uma mandíbula aberta devorando uma cabeça humana de pescoço grande. Apesar de oferecerem um paralelo impressionante com as cerimônias asiáticas do Barco Dragão, não existe qualquer evidência etnológica de ligação. O mesmo simbolismo é encontrado nas proas de canoas das ilhas do Almirantado e nalgumas do arquipélago Salomão. A arte dos Gogodala parece estar mais relacionada aos Marind-anim no oeste do que aos grupos orientais, seus vizinhos do golfo [de Papua]” (26)


Apesar de as máscaras serem características da parte leste da ilha de Nova Guiné e da maior parte do vizinho arquipélago de Bismarck (que juntos formam atualmente o Estado independente de Papua Nova Guiné), são raras na parte oeste (atual Irian Jaya, uma província da Indonésia). Entre os Asmat da costa sul, antigos caçadores de cabeças, máscaras estão presentes nos cultos que celebram as mortes recentes de parentes, durante a qual os mascarados os personificam. Existem dois tipos de máscaras, a primeira é combinada com um corpete feito de fibra vegetal cobrindo cabeça e tórax, onde se prende uma saia de folhas de palmeira. A segunda máscara é mais simples, utilizada também em conjunto com uma saia, consiste de um cone de cestaria com pequenos orifícios no lugar dos olhos. Depois de montadas, as máscaras são nomeadas e aparecem pela última vez diante dos parentes do morto. As máscaras cônicas são ambivalentes já que ao mesmo tempo podem representar um ancestral e ser uma figura cômica com conotações de fertilidade. No final da cerimônia, as máscaras são afugentadas até a Casa dos Homens, de onde partem para o mundo dos mortos. Máscaras similares são encontradas entre os Mimika, a oeste dos Asmat, onde também são associadas aos mortos e a vida.


Com sua simples "cobertura natural", os Homens-Lama Asaro do vale do Sepik talvez sejam os mais "assustadores" ou "primitivos". Numa encenação muito banalizada para turistas nos dias atuais, sua  mitologia conta que os Asaro fugiram para o mato ao serem atacados. Enlameados quando saíram, a visão era aterradora o suficiente para espantar os inimigos, que acreditaram se tratar de espíritos

Na Papua Nova Guiné continental, a região do rio Sepik é reconhecida por sua imensa diversidade cultural no universo da Oceania. A qualidade artística dos objetos (cerimoniais ou utilitários) produzidos naquela área alcançou renome mundo, e as máscaras são um bom exemplo disso. Geralmente fabricadas de madeira ou cestaria, em diferentes formas e tamanhos, são decoradas com uma desconcertante variedade de ornamentos: conchas, miçangas, penas, dentes, chifres, sementes e várias fibras vegetais. A maioria é pintada, geralmente em branco, preto, vermelho e cinza. Representando seres mitológicos ou os mortos eram (e ainda são em algumas áreas) utilizadas em todo o espectro de cerimônias associadas com iniciações, rituais de luto e o ciclo agrícola. Normalmente, as máscaras de madeira do Sepik são ovais, com ênfase especial no nariz: nalgumas ele é largo e bulboso, noutras é pontudo e alongado (é muitas vezes o caso das máscaras de cestaria), às vezes se juntando ao queixo. Grande variedade de máscaras de cestaria é confeccionada pelos Abelam que vivem ao norte da parte central do rio, a maioria para a decoração de grandes inhames cerimoniais (mas algumas são utilizadas pelos homens). Máscaras representando a face humana são onipresentes na cultura material do Sepik. Seja nos frontões das casas ou em pequenos amuletos, elas decoram recintos cerimoniais, utensílios e vestimentas, além de serem são levadas como amuletos de boa sorte em caçadas e expedições de pescaria. Apenas uma fração é realmente “vestida” por alguém. No Sepik central, os Kaningara e Kabriman do rio Blackwater são reconhecidos pelas máscaras cônicas de narizes grandes em cestaria utilizadas em cerimônias de iniciação – na opinião de Anthony J.P. Meyer, esta região também produz algumas das mais belas máscaras que decoram os frontões da Casa dos Espíritos (haus tambaran) (27).


Mais   facilmente   navegáveis, as regiões
  média    e    baixa     do    Sepik    são    mais
  ricas    do    ponto    de    vista    estético (28)

As montanhas Hunstein, lar do povo Bahinemo, marcam a fronteira sudoeste do Sepik central. Suas máscaras interessam na medida em que não são fabricadas para serem vestidas. Existem dois tipos de máscaras, ambas chamadas garra. A primeira lembra o corpo do yipwon (estátua de uma entidade espiritual que acompanha os guerreiros) encontrado na área do rio Korewori: formada inteiramente por ganchos em oposição ligados numa longa e fina “espinha dorsal” (acima, à esquerda). Às vezes, um único pé rudimentar pode existir (como o que existe na base dos yipwon). O segundo tipo de garra possui uma “coluna” mais larga e grande rosto estilizado no centro da máscara, que é rodeada por ganchos em oposição (acima, no centro). Garra é carregada com as mãos pelos guerreiros durante as cerimônias de iniciação. Além dos yipwon dos Yiman e Alamblak, o conceito da máscara garra está ligado também ao aripa dos Inyai Ewa (acima, à direita). Os ganchos concêntricos da garra não constituem uma máscara verdadeira, alguns acreditam que representem uma imagem do cosmos, onde se assemelham ao bico de um pássaro chamado Calau (Bucerotidae), distribuído em torno do elemento central (o sol e a lua), enquanto outros já sugeriram que os ganchos da garra representam o peixe-gato (Siluridade). Uma terceira hipótese os identifica com espíritos da água, o que significa que a peça deverá ser mantida imersa ou, pelo menos, em local úmido. De acordo com Meyer, garra representa espíritos da floresta e os anciãos (a quem os Calaus são associados, uma vez que são os únicos a quem é permitido se alimentar do pássaro). De qualquer forma, trata-se de objetos sagrados cuja fabricação é creditada pela crença a Wimogu e Igoshua, um casal mítico que se supõe ainda residir numa pequena ilha na embocadura do rio April (29). Em 1927, antropólogo Franz Boas citou o trabalho de Charles H. Read (as relações entre figuras humanas e o desenho geométrico em ornamentos polinésios) ao comentar a respeito da tendência (que ele retraçou até a pré-história) à “simplificação”, até que a forma se torna completamente abstrata (30).

A   fabricação     de     máscaras    prospera   na
Papua   Nova   Guiné,   muitas  vezes  direcionada
 à indústria  do  turismo.  Estilos tamanhos e formas, 
geralmente,   são   ajustadas   ao    gosto   do   freguês. 
A maior parte desses suvenires possui apenas uma
vaga  semelhança com as máscaras  tradicionais

Máscaras de um estilo relativamente uniforme são características da Baía do Astrolábio e do Golfo Huon na região nordeste da Papua Nova Guiné, incluindo as ilhas do estreito de Vitiaz, que separa a Nova Bretanha (ao sul do arquipélago de Bismarck) do continente (e da parte mais ocidental da própria Nova Bretanha). A vida cerimonial dessa área foi dominada pelo culto secreto chamado Balum, centrado num espírito de mesmo nome e envolvendo a iniciação de garotos numa casa especialmente construída na selva. Máscaras usadas no contexto do culto nas ilhas Tami (e outras ilhas do estreito Vitiaz), representando o espírito conhecido entre eles como Kani, são oblongas e pintadas de branco, com decoração em preto e vermelho. O ilhéus de Tami também possuem máscaras feitas com casca de árvore (associadas com os espíritos Tago), pertencentes a grupos de famílias. Utilizadas durante cerimônias que reencenam chegada ou partida de espíritos, são ovais e o topo da cabeça é arredondado como um capacete, sendo o rosto pintado em estilo similar ao das máscaras de madeira dos Kilenge da ponta ocidental da Nova Bretanha (imagem à esquerda). Máscaras da baía Astrolábio (com seus olhos protuberantes e grandes narizes curvados), assim como máscaras-capacete cilíndricas pintadas das ilhas Witu (no oeste da Nova Bretanha), ainda que diferentes, mostram afinidades com o estilo das máscaras da região de Huon. Além disso, o povo Kilenge possui máscaras/cocares (eles não fazem distinção entre um e outro, considerando ambos como diferentes versões de adereços de cabeça decorativos) feitos de fibra de coqueiro, pintada e decorada com penas e outras fibras vegetais, utilizadas em danças cerimônias cíclicas chamadas narogo.

Arquipélago Bismarck


Ao contrário de seus vizinhos a leste (Polinésia e Micronésia), máscaras são abundantes na Nova Irlanda e Nova Bretanha, as maiores ilhas do arquipélago de Bismarck, província da Papua Nova Guiné. Na Nova Irlanda, as máscaras são utilizadas no contexto das complexas e elaboradas cerimônias do Malagan (ou Malanggan), para o qual grande número de esculturas e máscaras (também conhecidas genericamente como Malagan) são produzidas, constituindo os elementos mais importantes na cultura desta ilha. Como tantas vezes na Melanésia, o processo gera muitos gastos (banquetes e pagamentos, intimamente ligados aos rituais, demandam acumulação de comida e conchas utilizadas como moeda), levando a que seja executado meses ou até anos após uma morte (ou mesmo para vários defuntos simultaneamente). Os objetos do Malagan são “possuídos”, no sentido de que o direito por sua forma e estilo pode ser comprado (como consequência o dono original perde o direito de usar no futuro aquilo que não mais lhe pertence). Possuir um Malagan é uma questão de prestígio, atestando a honra e os recursos materiais de seu dono. As máscaras são extremamente variadas, algumas feitas para serem usadas, outras para serem expostas; algumas são cuidadas para uso constante, outras são destruídas após a cerimônia. A influência do cristianismo levou a substituição das esculturas (que, quando existem, são muito menos elaboradas do que no passado) por marcas de sepultura em cimento (31).

Imagem acima, à esquerda, máscara usada em cerimônias associadas ao amadurecimento da fruta ubar (uma variedade de ameixa selvagem), em madeira com decoração pintada, olhos de concha, cabelo e sobrancelhas de fibra vegetal (além de um pequeno casco de tartaruga no queixo), ilha Saibai, Estreito de Torres; à direita, máscara do líder pranteador, Taití. O traje para cerimônia fúnebre é uma coleção dos materiais mais valorizados: concha de pérola, casco de tartaruga, cascas de árvore, fibra de coco e penas de pássaro. Imagem abaixo, máscara malagan kepong, Nova Hanover

Nova Hanover (Lavongai), encontra-se na ponta norte da Nova Irlanda, com a qual possui identidade cultural. Ainda que existam poucas referências à prática dos ritos mortuários de Malagan em Lavongai, é relatado que ali as máscaras kepong (ao lado) relacionadas a ele são mais populares do que em Nova Irlanda, onde os objetos artísticos mais notáveis são relacionados aos ritos mortuários uli e kulap (além do Malagan). De acordo com Meyer, as lâminas de obsidiana encontradas na região seriam perfeitamente capazes de criar as figuras Malagan e máscaras tatanua como na costa da Nova Guiné e nas ilhas do Almirantado, mas as esculturas pelas quais a Nova Irlanda é conhecida só poderiam se popularizar através da substituição de pedras e lâminas de concha por lâminas de ferro – a ilha foi “descoberta” por holandeses em 1616, seguidos pelos baleeiros e culminando com a transformação em colônia alemã. Contudo, explicou Meyer, como a maioria dos objetos cerimônias é destruída após as cerimônias, fica a questão de saber por que as coleções europeias de Malagan e tatanua são consideradas “autênticas” apenas por serem antigas, já que devem ter sido compradas ou encomendadas como suvenires desde o século XVII – de fato, provavelmente essa questão poderia ser replicada na maioria das vezes que nos deparamos com objetos não europeus antigos. Apesar disso, não se conhece o significado de muitos objetos, como é o caso das máscaras que representam o espírito da floresta chamado n’gass (ou ges). Pouco se sabe a respeito de sua função na mitologia local, a não ser que se acredita serem o duplo espiritual ou alma de uma pessoa viva, que morre com ela e está presente no Malagan. As máscaras tatanua são utilizadas na mesma cerimônia, constituindo a mais importante das três almas da pessoa (que são representadas por uma máscara por que a alma reside na cabeça) (32).

As máscaras são particularmente importantes entre os Tolai, Baining e Sulka da Nova Bretanha, povos que vivem na península Gazelle, no lado oriental da ilha (uma província da Papua Nova Guiné com máscaras na própria bandeira). Entre os Tolai e seus aparentados das ilhas Duke de York (pequeno arquipélago entre a Nova Bretanha e a Nova Irlanda), grandes máscaras cônicas usadas juntamente com mantos de folhas estão associadas a sociedades secretas (cuja iniciação inclui o pagamento em conchas, a moeda corrente). Um exemplo de Karavar (Kerawara?), uma das pequenas ilhas, ilustra bem a importância da sociedade duk-duk. Existem dois tipos de máscaras: a fêmea tubuan, de longe a mais importante (com grandes olhos de círculos concêntricos) e o macho, duk-duk (que, apesar de decorado, pode não possuir olhos ou feições humanas e é bem maior do que a outra máscara). Comprar os diretos de uma forma particular de duk-duk sai caro, mas tais transações são realizadas na base da reciprocidade (quase todos os adultos possuem um). A aquisição de uma tubuan é mais difícil (também é possível encontrar pequenos bastões de mão representando tubuan, com o objetivo de servir como espelho dos próprios dançarinos), agregando influência e poder na bagagem daqueles que possuem. As duas máscaras são os símbolos externos do sistema de classificação que impõe ordem à sociedade, que foi construída em torno de iniciados cujo reino é a religião, a mágica e o conhecimento do mundo espiritual (onde os principais espíritos são justamente duk-duk e tubuan). Em principio, esses espíritos pertencem a um Grande Homem e a um clã específico (um grupo matrilinear).


Imagem anterior, exemplo complexo de máscara malagan; na mesma imagem, à direita, outro exemplo de máscara malagan, com crista de fibra vegetal, Nova Irlanda. Na mesma imagem, à esquerda, máscara Tolai, parcialmente coberta com tecido europeu (no vermelho do chapéu e do colar, também no branco da cobra de dois corpos), coletada pelo reverendo George Brown, um missionário, entre 1875 e 1881, Nova Bretanha. Acima, dançarinos duk-duk usando máscaras tubuan femininas, fotografia Olaf Wipperfürth
Os dois espíritos são convocados para três eventos principais: vunavuna, cerimônias do funeral do Grande Homem; balagan, uma série de danças relacionadas a uma cerimônia de comemoração ancestral; e matamatam, cerimônia funerária mantida por um clã para todos os seus ancestrais. Existe também um chapéu de dança em forma de arraia, apesar dos olhos e boca pode-se intuir o formato de um quepe de marinheiro. De acordo com Meyer, são quepes dos marinheiros alemães que frequentaram a região durante o período em que foi colônia alemã (fotografias da época mostram os Gunantuna usando bonés e quepes navais, provavelmente trocados por objetos locais). Por razões desconhecidas, o povo atualmente conhecido como Gunantuna ou Tolai migrou para a península de Gazelle, vindo da parte centro-sul da Nova Irlanda, provavelmente entre os séculos XVI e XVII. Eles empurraram as populações locais Baining de volta para as montanhas e colonizaram a área ao norte da península. Pertenciam às sociedades secretas duk-duk e iniet, onde a passagem pelos graus pode incluir a compra do conhecimento da fabricação de máscaras (os Gunantuna construíram uma sociedade completamente comercial, onde tudo pode ser comprado, vendido ou alugado). As iniet não são conhecidas apenas pelos pequenos bonecos de giz utilizados em rituais de iniciação, mas também por pelo menos duas máscaras: uma delas de casca árvore recoberta com material modelável, enquanto nas máscaras ior é o próprio crânio de um ancestral que será sobremodelado (imagens abaixo). Os Gunantuna enfrentaram batalhas selvagens contra a apropriação de suas terras pelos europeus, mantendo-se hostis à influência externa. O domínio colonial alemão se esforçou muito para suprimir o iniet e o duk-duk, mas conseguiu apenas fazer com que o primeiro se tornasse ainda mais secreto, enquanto o segundo ainda floresce abertamente. A administração alemã considerava os iniet um movimento anticolonial e procurou acabar com ele, contando com a ajuda dos missionários católicos e metodistas de plantão (que por sua vez desejavam erradicar o que considerava práticas pagãs). Exatamente por conta desse esforço concentrado, explicou Anthony Meyer, pouco se conhece a respeito da real função do iniet.


No  Sepik,  a  frequência  da  representação  humana  é  bem  maior
do que a de animais. Embora se possa encontrar bastante o crocodilo
e  os  pássaros,  como  a  águia  pescadora ou o Casuar.  A composição
entre     homem    e    pássaro     também    é    muito      recorrente (33)

A área dos Baining apresenta máscaras bastante surrealistas, dentre as quais as mais impressionantes talvez sejam as enormes Hareiga - com até impressionantes 12 metros de altura, celebravam tanto a morte como o sucesso da colheita, consta que a última aparição relatada foi em 1927. Com longos corpos tubulares e cabeças alongadas, redondas ou pontudas com pequenas orelhas, elas não são mais fabricadas, embora diferentes tipos de máscaras diurnas grandes ainda sejam produzidas e utilizadas – mesmo que, em grande parte, apenas para turistas. Exemplos menores e mais variados estão associados com danças noturnas e a iniciação dos garotos. As máscaras kavat representam lowengi (a raposa voadora) (abaixo, à esquerda) e surgem durante muitas danças distintas diurnas e noturnas que compõem as cerimônias miaus: Kavat noturnas representam Surraga, um ancião sábio; a máscara vungvung (abaixo, à direita) combina uma máscara kavat com um tubo horizontal e representa formas animais e florais comestíveis; a máscara lingan ostenta painéis e efígies de animais ou peixes. À noite acontece a espetacular dança do fogo, além das danças com serpentes, onde dançarinos kavat giram as cobras e até pulam corda com elas. No idioma dos Gunantuna, “baining” quer dizer povo do mato, selvagem e grosseiro. Contudo, lá como cá, foram eles que impuseram sofrimento aos Baining ao invadirem suas terras. Após seu êxodo forçado desde o século XVI, os Baining viveram escondidos nas montanhas até a década de 1920 do século passado. Para Meyer, tanto o hábito de queimar as máscaras após os rituais, quanto a natureza hesitante dos Baining (durante boa parte do século passado evitaram estabelecer contato com os europeus), ajuda a explica a raridade de exemplares mais antigos de suas máscaras. As danças foram ressuscitadas na década de 1970, e grandes quantidades de máscaras modernas foram colocadas no mercado nas últimas décadas.


Imagens anteriores, dois exemplos de máscaras ior dos Tolai (Gunantuna) modeladas sobre crânio de ancestrais (o dançarino se torna um deles ao usar a máscara), península Gazelle, Nova Bretanha. Acima, máscaras Baining. À esquerda, máscara de dança kavat representando lowengi, a raposa voadora, coletada entre 1929 e 1931 na Nova Bretanha; no centro, um exemplar mais comum de máscara Baining; à direita, no alto, kavat noturna, coletada na passagem; abaixo, máscara vungvung

As máscaras produzidas pelos Sulka são as mais coloridas da Nova Bretanha. Da mesma forma como em outras sociedades da região, estão ligadas à iniciação dos meninos, cerimônias mortuárias, e também são representantes dos espíritos consideradas perigosas. Queimadas logo após as cerimônias, mulheres e crianças só tem permissão de vê-las durante sua exibição pública, e tudo relacionado a elas (método de fabricação, materiais utilizados e destruição final) é mantido no mais absoluto segredo. Este procedimento ainda persiste e as máscaras ainda são fabricadas, apesar de atualmente serem utilizadas em diferentes contextos - em 1982, na Missão Católica Guma, na baía Wide, dançarinos mascarados participaram das festividades de ordenação de um padre local. Os Sulka da baía Wide, a sudeste da península Gazelle, produzem a máscara Susu, que se supõe ser empregada na iniciação de sociedades secretas. Os dentes pretos que se pode ver na boca (prática chamada Nunkir) classificam essa máscara como pertencente ao tipo gitvung (que significa “iniciado”) (imagem abaixo, à direita). Os Sulka usam a palavra nunu (reflexo ou imagem de espelho) para descrever a aparência humana dessas máscaras gitvung de coloração vermelho-rosada. Ao longo da costa na direção sul estão os Mengen, estreitamente relacionados aos Sulka, e, mais além se encontram os Arawe, que produzem máscaras cônicas cobertas de casca de amoreira ou coqueiro, pintadas de branco com os detalhes em preto e vermelho. Essas máscaras são relacionadas a uma sociedade secreta chamada kaumotmot, similar à duk-duk. Os Arawe também são adeptos da deformação craniana, raramente encontrada na Nova Guiné. Os Kilenge, que situados na extremidade oeste da ilha, estão na parte mais oriental do triângulo Golfo Huon/Baía do Astrolábio/Nova Bretanha, também produzem máscaras alongadas de madeira.

Imagem à esquerda, máscara Tago dos Siassi, ilha Tami, costa norte da Papua. A cerimônia Tago é realizada a cada 10 ou 12 anos, rememorando os ancestrais de cada clã. Esta máscara provavelmente é originária da Nova Bretanha, apenas as tintas preta e vermelha são de Tami. Esta ilha se localiza na passagem de uma importante rota comercial, o que fez dos habitantes de Tami atravessadores no comércio de matéria prima para a confecção de objetos cerimoniais. À direita, máscara susu do tipo gitvung, dos Sulka da sudeste da baía Wide, Nova Bretanha

(...) O  que fascina  os
surrealistas é
a capacidade
daquela arte
em superar a
oposição entre
percepção   e
representação, 
em  oferecer
uma   síntese
da   percepção
sensorial com
a representação
mental. Síntese
esta,   explicou
Paul Éluard (...), 
que  só pode ser
encontrada nas
camadas mais
profundas
do ser” (34)

O longo litoral da Nova Bretanha, dos Kilenge no oeste até a península Gazelle ao leste, era basicamente inexplorado até o início dos anos 1950. Culturalmente aparentado aos Kilenge, o povo Koobe (ou Kove) da península Willaumez produz uma máscara cônica para cerimônias de iniciação. Os Bakovi e os Bulu, da mesma área, fazem parte de um extenso sistema de comércio baseado na utilização de obsidiana como moeda de troca (algumas provenientes da ilha Watom, da área de Gazelle, já foram encontradas na Nova Caledônia, a dois mil quilômetros de distância). Os Nakanai vivem a leste de Willaumez, sua cultura material inclui um ciclo bem documentado de cerimônias fúnebres, de grupos que vivem no interior pouco se sabe. Os Mokolkol são um exemplo extremo (e talvez bem vindo) da ausência de penetração europeia na Nova Bretanha. Considerados espíritos mortais que vivem no mato por grande parte da população costeira, os Mokolkol são apenas uma tribo minúscula e hostil vivendo nas profundezas da floresta montanhosa. O primeiro contato foi em 1951 com patrulhas australianas, descobriu-se então que o grupo todo não passava de 50 indivíduos – o que não deixa de ser curioso, já que toda aquela região presenciou ferozes batalhas entre o Japão e os Estados Unidos (e seus aliados). Nas ilhas Vitu (ou Witu, conhecidas também como Ilhas Francesas), a noroeste de Willaumez, encontramos dois tipos de máscaras. A primeira é uma das poucas máscaras-capacete conhecidas na Oceania e muito pouco se sabe a respeito dela, podendo ter sido utilizada em alguma forma de sociedade secreta relacionada às da Nova Bretanha. Meyer acredita que elas se chamam kakaparaga, e que retratem ancestrais importantes a serem personificados em cerimônias de iniciação. O segundo tipo de máscara é grande e construída com folhas de casca de árvore ou cones vegetais costurados numa moldura cônica. Possui um nariz protuberante e topete bulboso, sendo similar às máscaras dos Arawe e Koobe. Toda essa área das ilhas Vitu também é ainda muito pouco conhecida.

Polinésia e Micronésia


 O chamado “traje do pranteador” é o único
exemplo de máscara Polinésia. Na Micronésia,
o  único  exemplo  vem dos atóis  Mortloch

Não é por acaso que a Polinésia é mais conhecida pelos estudiosos com paraíso da tatuagem. Contrariando o padrão de seus vizinhos, as máscaras são extremamente raras tanto na Polinésia (não existe relato confiável quanto a sua existência antes da chegada dos europeus) quanto na Micronésia. Exceto, talvez, no Taití, com o “traje do pranteador” (imagem acima, à esquerda), ainda que não haja consenso quanto à vestimenta que acompanha o capacete ser considerada parte da máscara – ainda é objeto de especulação uma possível relação com as máscaras acompanhadas de trajes na Melanésia. O traje foi descrito na primeira viagem do Capitão Cook e coletado na segunda e na terceira (1772-5 e 1776-80). Evidência de objetos no Havaí semelhantes a máscaras datam da mesma época, quando o desenhista da expedição representou remadores numa canoa havaiana usando capacetes de cabaça (abóbora) cobrindo parte do rosto, mas também não há consenso quanto a sua função. Na opinião de Dorota C. Starzecka, os registros da única outra máscara na Polinésia apontam para um desenvolvimento pós-contato com europeus – feita de casca de árvore ou papel, respectivamente nas ilhas de Mangaia e Páscoa. Embora tenham sido coletadas apenas numa expedição norte-americana em 1840, máscaras também estão presentes em Fiji - área muitas vezes incluída na Melanésia, mas cuja cultura é mais próxima a da Polinésia ocidental – apesar disso, ao contrário das demais ilhas da Oceania, onde o canibalismo constituía  um exercício essencialmente ritual, a carne humana fazia parte da dieta em Fiji. Pouco se sabe a respeito delas (são bastante simples, em formato de capacete com cabelo humano e barba), presumisse que representem seres protetores das plantações, já que estão presentes em festivais da colheita – todas as culturas da Oceania desenvolveram complexos rituais cuja função é proteger e aumentar as colheitas (35).

Imagem acima, à esquerda, traje do pranteador, Taití. à direita, máscara Tapuanu, único exemplo de máscara da Micronésia, mortlock, Ilhas Carolinas. Abaixo, à esquerda, máscara polinésia Matavulo: à direita, máscara Tago, ilha Tami


Anthony J. P. Meyer acha tragicamente curioso que o refinamento tecnológico e cultural que os polinésios levaram 2000 anos para desenvolver tenha decaído tão rapidamente após o contato com os europeus a partir do século XVIII. Ele chega a se referir a um desaparecimento instantâneo, a partir do momento em que as sociedades polinésias imediatamente aceitaram aquele novo e estranho deus e as regras europeias. Para Meyer, a facilidade com que os polinésios abandonaram suas antigas crenças e tradições, sugere a hipótese de que aquelas sociedades já poderiam estar em processo de decadência quando os europeus chegaram. Meyer acha que aceitar essa possibilidade seria mais razoável do que acreditar que os polinésios simplesmente caíram de joelhos diante da imagem do deus cristão, e que a conversa dos missionários tenha dobrado aquelas culturas altamente elaboradas. Em menos de 50 anos de contato com o invasor europeu, a maior parte das crenças religiosas locais sucumbiu, logo seguida pela perda dos conhecimentos artísticos – apenas a dança e a história oral sobrevivem atualmente. O arquipélago de Fiji é o ponto geográfico onde a Polinésia se liga à Melanésia, sua cultura e arte são fruto deste ponto de encontro entre várias levas migratórias – Meyer sugere que a arte encontrada em Fiji, inigualável na Oceania, não apresenta o “preciosismo” da arte oriunda das regiões central e oriental da Polinésia. A representação da figura humana é bastante variada, mas sempre com objetos de pequeno diâmetro, pois grandes esculturas são praticamente inexistentes em Fiji – e os poucos exemplos encontrados ainda não foram devidamente decifrados. Fiji é o lar da única cultura polinésia a utilizar máscaras (exceto pelo “traje do pranteador”, no Taití). Denominadas Matavulo, na opinião de Meyer apresentam semelhanças com a máscara Tago das ilhas Tami. São utilizadas em cerimônias relacionadas à colheita, representam seres sobrenaturais que dançam como bufões. Segundo Meyer, as máscaras Matavulo provavelmente são uma importação da Melanésia – ao falar da ocorrência de máscaras em Fiji, Starzecka não deixa claro se está fazendo referência à Matavulo. 

 





 
Existe  um   laço
estilístico entre os
 antropomorfismos
 encontrados no rio
Sepik,    na    região
 próxima às colinas 
Washkuk,     e     os 
Asmat     de    Irian
Jaya na  Indonésia, 
além  da  fronteira
da Nova Guiné (36)








Na Micronésia, as máscaras aparecem apenas nos atóis Mortlock, nas ilhas Carolinas (atual Estados Federados da Micronésia), onde são usados em cerimônias para afastar furacões, aparecendo também como decoração nos postes que sustentam as casas cerimônias. As máscaras Tapuanu ainda são fabricadas atualmente, embora apenas para venda a turistas. Originalmente direcionadas a danças cerimoniais para proteção da colheita de fruta-pão contra furações e tempestades, essa máscara representa o espírito ancestral, anu. Era usada apenas pelos dançarinos pertencentes à soutapuanu, uma sociedade secreta cujo quartel general fica na casa sagrada, falefol. Há registro de uma máscara feita de conchas que pertenceu a uma família de Palau (ilha a leste dos Estados Federados, a meio caminho entre Filipinas, Papua e a ilha indonésia Sulawesi). Foi e talvez ainda seja usada como talismã (nascimentos, colheitas, prosperidade), mas não há nenhuma menção à sua presença em rituais. Em Kiribati (anteriormente chamadas Ilhas Gilbert), a leste dos Estados Federados da Micronésia e nordeste dos arquipélagos Bismarck e Salomão, pode-se pensar numa espécie de armadura local, ou mais especificamente seu protetor de rosto, como uma máscara. Esta é a hipótese de Clara McCarty, que vai além da classificação das máscaras apenas em torno de simbolismos rituais, incorporando também a função de proteção física (37). 

Imagem acima, à esquerda, máscara dos Elema utilizada no Kovave, Papua Nova Guiné; à direita, uma das duas máscaras dos Asmat,  coletada em 1961, Irian Jaya, Indonésia; abaixo, traje do guerreiro, note-se o impressionante escudo para a cabeça, que ainda é protegida por um capacete de espinhos feito com a metade posterior do baiacú, Kiribati (Ilhas Gilbert), Polinésia, a meio caminho entre o Taití e o Havaí. Por uma trágica coincidência, o arquipélago de Kiribati foi palco de ferozes combates durante a Segunda Guerra Mundial - talvez um dos mais conhecidos seja a batalha de Tarawa


A descrição feita por uma expedição exploratória dos Estados Unidos em 1845 descreve uma couraça que recobre todo o corpo, protegendo especialmente a cabeça. Produzida com fibra da casca de coco entrelaçada formando uma placa de meia polegada de espessura (+/- 2, 00 cm), a proteção possuía várias camadas. Embora os exemplos mais conhecidos apresentem apenas uma proteção na parte de trás da cabeça em forma de chapa quadrada, uma gravura datada de 1880 apresenta um exemplo onde a parte da frente da cabeça também é isolada. A cabeça do guerreiro era protegida na parte superior por um capacete feito com a metade posterior da pele espinhosa de uma espécie de baiacú gigante (provavelmente Diodon hystrix), com a cauda do peixe apontando para cima e suas nadadeiras protegendo os ouvidos. O relato dos exploradores afirmava também que os guerreiros se consideravam invulneráveis com suas armaduras, sendo que a natureza guerreira dos ilhéus de Kiribati (sem igual em toda a Micronésia) já vinha sendo atestada em função dos comentários de visitantes europeus em relação às muitas cicatrizes nos braços e pernas das pessoas. Essas armaduras eram defesas efetivas contra suas principais armas, as espadas e lanças de madeira de coco com fileiras de dentes de tubarão encravados. De acordo com McCarty, esse tipo de armadura provavelmente foi desenvolvido após 1765, quando aconteceram os primeiros contatos com os europeus.

Matisse, Gauguin e Picasso

A   descoberta
da   arte    da   África
negra   e    da   Oceania
pela  estética   moderna
europeia data de  1906-
1907, sendo atribuída
a Henry Matisse (38)

Pode-se dizer que a Europa experimentou uma explosão de divulgação da arte dita primitiva no final do século XIX. Embora se pudesse ter decidido não mostrar, tudo isso só foi possível porque os impérios colonizadores (ou invasores, dependendo do ponto de vista) desejaram mostrar as culturas dominadas. De acordo com Bérénice Geoffroy-Schneiter, foi uma bagunça o que encontraram os visitantes ao adentrar no Trocadéro, primeiro museu antropológico de Paris, aberto em 1878 – posteriormente demolido, suas coleções foram transferidas para o Palácio de Chaillot. Em 1899, o futurista italiano Carlo Dalmazzo Carrà (1881-1966) referiu-se à mediocridade do local, enquanto o escultor Jacob Epstein (1880-1959), três anos mais tarde, mencionou uma massa de esculturas primitivas mal apresentadas. O próprio Pablo Picasso se referiu à Trocadéro como um lugar sinistro e desagradável: “era nojento; o mercado de pulgas. O odor... eu queria sair. Eu não parti. Eu fiquei”. De fato, com a história Antropologia intimamente ligada ao colonialismo europeu, não é de estranhar que “arte negra” e “arte primitiva” fossem termos intercambiáveis na época, designando sem rigor tanto os objetos de origem africana quanto da Oceania. Alguns decênios antes, o próprio Paul Gauguin (1848-1903) batizara de “primitivos” e de “selvagens” as artes da Pérsia, Egito, Índia, Java, Camboja e Peru. Picasso, por sua vez, não fazia distinção entre arte africana ou da Oceania. Contudo, no caso do primeiro, Geoffroy-Schneiter afirma que os termos se aplicavam em sentido não pejorativo ao caráter não acadêmico daquela arte. No caso do segundo, aquilo só o interessou na medida em que alimentava sua obra, podendo comprar uma máscara apenas por causa da forma das orelhas, do perfil, etc (39).

Imagem acima, povo Wosera, festival da colheita do inhame, Sepik oriental, Papua Nova Guiné; Abaixo, máscara de acordo com Meyer, as penas foram colocadas por mãos europeias, coletada na passagem dos século XIX para o XX, na área dos rios Keram e Yuat, baixo Sepik, Papua Nova Guiné. Imagem a seguir, à esquerda, dançarinos mascarados em frente à Casa dos Homens, aldeia Tovei, ilha Urama, província do golfo, Papua, junho 1921. Fotografia Frank Hurley


  
 
Os franceses
surrealistas
 demonstram
um interesse
basicamente
museológico, 
raramente se
aventurando
fora da Europa, 
e  muito  menos
nos mares do sul. 
Ao  contrário  de
alguns   alemães
do grupo A Ponte, 
que até moraram
por lá pouco antes
que  a  Iª  Guerra
Mundial viesse
mudar  o
mundo

Antes de Paul Gauguin, Henry Matisse (1869-1954), Pablo Picasso (1881-1973), Maurice de Vlaminck (1876-1958) ou dos pintores alemães de A Ponte (Die Brücke), os encontros do Ocidente com a “arte primitiva” sempre foram marcados por um viés eurocêntrico. Para romper esse tabu, era necessária uma conquista estética autônoma no campo da antropologia. Os artistas foram os primeiros a atacar a discriminação do colonialismo em relação à arte etnológica: ao reconhecer a equivalência da escultura primitiva, eles também estavam reconhecendo a equivalência de outras formas de organização da vida. De acordo com Werner Spies, as conquistas dos fauvistas (fovistas) e dos cubistas eram inequívocas, elas levaram à estetização, mas também à profanação, do conteúdo animista da arte tribal, uma falta de atenção em relação à sua função ritual. Embora o interesse desses artistas tenha sido bastante direcionado à arte africana (especialmente máscaras), é preciso deixar claro que a arte encontrada na Oceania também fazia parte de suas indagações estéticas (ainda que mais focada na escultura) (40). Picasso sofreu fortes influências de ambas, enquanto os surrealistas chegaram a desenhar um mapa onde algumas das pequenas ilhas do pacífico sul são maiores do que a África. Quanto a Die Brücke, podem ser citados pelo menos dois exemplos extremos além da pesquisa formal e das indagações. Emil Nolde (1867-1956), que chegou a se organizar para escrever um livro sobre arte indígena, fez extensas viagens entre Ásia e Oceania a partir de 1913; Max Pechstein (1881-1955), seguindo o exemplo de seu no ano seguinte, viveu muitos anos em Palau (41).

 
A terminologia 
utilizada no início do
 século XX era confusa, 
classificando       como
“objetos   dos   negros”
tanto aqueles naturais
da  África   quanto
da  Oceania (42)

Já famoso e prosperando com sua arte, o pintor e escultor francês Henry Matisse seguiu os passos de seu conterrâneo, o também pintor Paul Gauguin, partindo para a Oceania em 1930 – nascido em Paris, Gauguin falece em Atuona, nas ilhas Marquesas (outro território da região com o desenho de uma máscara na própria bandeira), na Polinésia francesa. Contudo, retornou sem encontrar aquilo que procurava (além da luz do sol dos mares do sul). Após seu regresso, Matisse molda em 1930 uma cabeça em bronze com nome de uma flor dos mares do sul, Tiaré - cuja semelhança com Cabeça de Mulher, também em bronze, que Pablo Picasso moldou em 1932, foi notada por Gilles Néret (43). Picasso começa a moldar cabeças em metal a partir de 1906, já nas cabeças em madeira Werner Spies enxerga modelos não europeus (como lábios grossos) inspirados nos relevos em madeira de Gauguin (como Soyez Amoureux, 1889). Além da arte ibérica e das xilogravuras e estatuetas produzidas por Gauguin, modelos não europeus começam a influenciar a obra de Picasso. Por algum tempo Gauguin pretendeu escapar da Europa embarcando para os mares do sul, não para descobrir a arte, mas para buscar um paraíso antropológico, culturas intocadas que inspiram fantasias escapistas. Artisticamente, sua maior inspiração era a arte erótica dos templos indianos e indonésios, apenas nas suas esculturas em madeira ele imitava os motivos e técnicas polinésios. Com certeza, insistiu Spies, a síntese da arte tribal, arte erudita e a idealização de um estilo de vida primitivo que Gauguin procurava alcançar tiveram um apelo apenas temporário para Picasso. Por outro lado, os autênticos trabalhos não europeus de Gauguin se tornaram o foco de atenção para o artista espanhol (44).

Imagem acima, à direita, dançarino Iatmul, note-se o piercing de nariz, Sepik médio, Papua Nova Guiné. Abaixo, único exemplo de máscaras totalmente de madeira na Oceania, não se conhece claramente a função das máscaras-capacete Kakaparaga, a própria área não é muito pesquisada, ilhas Vitu, Nova Bretanha

 
Máscaras,   objetos   cotidianos  e  pinturas das  culturas   tribais
da  África,  Oceania,  América   do   Norte  e  Espanha   pré-histórica
influenciaram artistas como Picasso e Matisse  ambos utilizaram a
máscara como metáfora em suas incursões no “estilo primitivo”

A descoberta da arte africana e da Oceania no âmbito da arte europeia foi atribuída a Matisse. O próprio Picasso teria tomado conhecimento da arte da África negra (subsaariana) através dele no outono de 1906, mas o artista espanhol contesta a hipótese dos historiadores da arte segundo a qual ele teria tomado conhecimento de tais objetos antes de realizar As Senhoritas de Avignon (Les Demoiselles d'Avignon) no inicio do verão de 1907. Embora Picasso tenha admitido seu choque ao encontrar as esculturas no Museu Etnográfico de Trocadéro após ter completado As Senhoritas, Spies sugeriu que ele não estivesse se referindo aos objetos africanos, mas às estátuas muito coloridas e de entalhes profundos das Novas Hébridas (nome da atual Vanuatu antes da independência) esculpidas em xaxim. Além disso, observa Spies citando um comentário de Kahnweiler, infelizmente a terminologia da época era marcada pela confusão, designando como “objetos dos negros” tanto os africanos quanto aqueles provenientes da Oceania. Carsten-Peter Warncke também é de opinião que Picasso não copiou as esculturas “negras”. De acordo com essa outra hipótese, Picasso ficou chocado com a constatação de que aquelas esculturas eram talhadas da mesma maneira que ele fazia em seu estúdio, e a prova seria um estudo para cabeça que o artista fez em 1907 para ser usado nos rostos mascarados em As Senhoritas. “Seu choque no museu não foi causado pela visão de alguma coisa nova, mas pelo reconhecimento de que aquilo que ele acreditava ter inventado já existia” (45).

imagens abaixo, à esquerda, máscara com palha tecida simulando uma barba, região costeira do Sepik; no centro, máscara de madeira coletada no início do século XX no baixo Sepik; à direita, máscara para decorar flauta, o som do instrumento é a voz do espírio, rio Ramu central e Sepik central; os palipos nas laterais são objetos de mão do espírito feminino, tubuan, par dos espíritos masculinos duk-duk - as máscaras masculinas não possuem olhos. Fotografias Bruce Cowell, British Museum, Olaf Wipperfürth, Fülleborn


(...) Não existe, no conjunto das línguas faladas
 na  Polinésia,  termo  ou  conceito  para  designar
 a   atividade   artística   enquanto   tal   (...)(46)

Ao contrário de Gauguin, Picasso não estava interessado no exotismo enquanto um elemento narrativo (o tema das obras), mas apenas enquanto pudesse ser integrado num processo formal – além dele, apenas Matisse teria conseguido alcançar esse objetivo. De fato, afirma Spies, ao rejeitar os temas exóticos, Picasso enfatizou a autonomia de sua primeira fase cubista. Ainda que Spies enfatize que o importante foi a qualidade existencial do encontro, a primeira referência à um objeto etnológico no ateliê de Picasso dá conta de que em 1907 o artista adquiriu um Tiki (escultura de uma divindade polinésia) das ilhas Marquesas. As estatuetas criadas por ele naquele ano sugerem uma síntese do Tiki com a abordagem de Gauguin em relação a esse tipo de objeto. Enquanto Gauguin parecia procurar representar o “nobre selvagem” de Jean-Jacques Rousseau, as misturas de Picasso (cabeça da escultura de um tipo, corpo de outro) sugerem que estivesse buscando uma síntese das muitas formas culturais distintas num todo formal único e novo. Para Bérénice Geoffroy-Schneiter, ainda que seja um exagero resumir a via primitivista de um Picasso a simples empréstimos formais soa redutor a até falacioso, ela mesma admite tal influencia no caso do escultor suíço Alberto Giacometti, para quem as máscaras vungvung Baining eram simplesmente fantásticas, que teriam inspirado O Nariz (1947) – vinte anos antes, Mulher Colher (1927) teria se inspirado em colheres cerimoniais africanas do povo Dan (Costa do Marfim) (47).

Arquipélago Surreal

No princípio
do    século   XX, 
o surrealismo  deu
muita importância
à arte da cultura
dita “primitiva”


No rio Porapora, primeiro tributário no lado sul do rio Sepik, vive um povo que, na opinião de Meyer, é responsável por um dos tipos de arte mais estranhos descobertos na Nova Guiné. Uma pequena máscara de osso altamente surreal (confeccionada a partir da seção frontal do crânio de um porco, sua exata função é desconhecida), com uma auréola de penas de Casuar (imagem acima), poderia perfeitamente ser mais prontamente atribuída a Max Ernst (1891-1976) do que a um artesão dessa região - serena e cerebral ao mesmo tempo, “a fascinação de Max Ernst pela arte da Oceania se traduzirá numa verdadeira paixão pelo Homem-Pássaro, criatura mitológica da ilha de Páscoa, cuja silhueta adornará diversas criações do pintor” (48). Não é de surpreender, concluiu Meyer, que os surrealistas tenham comprado a maior parte das 15 ou mais máscaras conhecidas deste tipo ao serem exibidas numa moderna galeria de arte parisiense no início dos anos 60 do século passado (coletadas por Pierre Langlois entre 1959-60, talvez datem da passagem dos séculos XIX e XX) (49). 

Imagem acima, máscara de crânio de porco, sua função é desconhecida, do pouco que se sabe a respeito delas, foi relatado que os dançarinos as levavam nas mãos ao invés do rosto, área do rio Porapora, baixo Sepik. Abaixo, dois exemplos de escudos utilizados na proa de canoas, Sepik central (esquerda) e superior. Última imagem do artigo, máscara de ancestrais Iatmul, Sepik central


Entre     os    surrealistas,    o    interesse    pela    arte    da    Oceania
só  não foi maior do que em relação aos indígenas  norte-americanos
(especialmente os Inuit do Canadá e Alaska, os Hopi do sudoeste dos
Estados   Unidos    e    as    culturas   pré-colombianas   no   México)

André Breton (1896-1966) dizia que “o olho existe em seu estado selvagem”, somente através dele podemos vislumbrar as maravilhas do mundo. Embora haja esclarecido que esse “olho selvagem” possa ser encontrado em qualquer parte (da pintura acadêmica às vanguardas e aos artistas sem treinamento técnico, sem esquecer as manifestações artísticas daqueles psicologicamente deslocados em relação à sociedade dita “normal”), em nenhum outro lugar ele seria mais manifesto do que fora da cultural ocidental. Além de se assemelharem a colecionadores especializados, os surrealistas estavam interessados principalmente numa qualidade visionária do assim chamado “estado primitivo”. O “primitivo” foi celebrado por toda a vanguarda europeia daquele tempo, embora cada movimento caminhasse numa direção particular – cubistas se concentraram nas qualidades formas; surrealistas valorizaram os aspectos espirituais, o que podia ser sentido, mas não visto. Apesar do debate que procurou decidir qual cultura era mais importante para eles, de modo geral os surrealistas valorizavam as culturas primitivas pela habilidade atribuída a elas de aceitar de modo concreto as forças invisíveis ao olho civilizado (50).

“Os surrealistas imprimiram uma atitude
etnográfica a seu estudo do ‘primitivo’; contudo
 pareciam   preferir   mais   as   artes  da  Oceania
 [do    que    as    africanas],  porque,     para    eles, 
 aquelas    pareciam    mais      criativas” (51)

Num leilão de esculturas e objetos não europeus em Paris durante 1931 foram negociadas peças de Andre Breton e Paul Éluard (1895-1952), dois fundadores do Surrealismo: 30 itens da África, 150 da Oceania e Malásia, 125 das Américas do norte e do sul. De acordo com Sifrid Metken, embora a arte dos índios norte-americanos tenha fascinado os surrealistas desde o começo, a atração pelos mitos e a arte das culturas da Oceania foi muito mais forte. Já Robert Ponge esclareceu que os surrealistas admitiam a contribuição da escultura africana para com a arte moderna, mas essa é ainda realista demais para seu gosto. Até que eles descobrissem os povos indígenas das Américas a partir da década de 1920, explicou Ponge, a Oceania era seu foco preferencial. Em junho de 1929, a revista Variétés dedicou um número especial ao Surrealismo, ali Breton e seus companheiros desenharam um mapa mundi segundo seus amores, desamores e os interesses estéticos do movimento francês – embora os fundadores do movimento surrealista fossem muito pouco afeitos às viagens, sua primeira preocupação foi percorrer o subconsciente revelado por Sigmund Freud (52). No mapa do mundo segundo os surrealistas, a (originalmente pequenina) ilha de Páscoa é maior do que a Austrália (originalmente do tamanho de um continente); a Nova Guiné e o arquipélago de Bismarck (que aparece bem maior do que sua vizinha e domina o centro do Oceano Pacífico) tem quase o mesmo tamanho da África e da América do Sul, aparecendo bem maiores do que Bornéu (53). Robert Ponge resume a busca do Surrealismo ao dizer que eles consideravam o mundo ocidental contemporâneo um mundo sem mitos, de negação da poesia. De acordo com os surrealistas, os chamados povos “primitivos” (culturas da Oceania incluídas) apresentaram a eles uma saída em sua busca de novas formas de pensar e sentir em sintonia com os poderes poéticos.


No que diz respeito àqueles artistas que durante o século XX se interessaram pelas pesquisas em torno das imagens do corpo, pode-se afirmar que foi intensa a utilização de máscaras (incluindo as máscaras sociais). Paul Ardenne acredita que o objetivo desses artistas vivendo na sociedade ocidental urbana contemporânea era fugir da cultura de massa: “Disfarçar meu corpo - por quê? Uma razão essencial entre outras reside nesse desejo: agir contra a banalização (...)” (54). De qualquer forma, Ardenne constata que as máscaras ocupam um lugar de destaque na arte do século XX. Ao citar o escritor e poeta argentino Jorge Luis Borges, Ardenne se refere a esse elemento paradoxal da máscara que é desaparecer aparecendo e/ou aparecer desaparecendo: “(...) Eu sonho com um espelho. Eu me vejo com uma máscara, ou vejo no espelho alguém que sou eu, mas que não reconheço como sendo eu mesmo (...)” (55). Dissimulação de si através de um disfarce, mas que não vai dissimular o ser, apenas transformá-lo num sujeito teatral, um ator ou atriz (pelo menos no Ocidente...). Corpo clandestino, concluiu Ardenne, do qual o ativismo se expõe enquanto a identidade se recusa (56). 



Leia também:


Notas:

1. ARDENNE, Paul. L'Image Corps. Figures de l'Humain dans l'Art do XX Siécle. Paris: Éditions du Regard, 2001. P. 228.
2. GEOFFROY-SCHNEITER, Bérénice. Arts Premiers. Paris: Éditions Assouline, 1999. Pp. 15, 18, 259, 262.
3. MEYER, Anthony J. P. Art Oceanien. Paris: Gründ, vol. I, 1995. P. 10.
4. GEOFFROY-SCHNEITER, Bérénice. Op. Cit., p.  263.
5. Idem, p. 36.
6. GRÖNING, Karl. Decorated Skin. A World Survey of Body Art. London: Thames and Hudson, 1997. P. 81.
7. GEOFFROY-SCHNEITER, Bérénice. Op. Cit., p. 340.
8. Idem, p.  346.
9. Ibidem, p. 363.
10. NUNLEY, John W. Prehistory and Origins. In: NUNLEY, John W.; MCCARTY, Cara (orgs). MASKS. Faces of Culture. New York: Harry Abrams Incorp. 1999. P. 30.
11. Idem, p. 29.
12. GEOFFROY-SCHNEITER, Bérénice. Op. Cit., p. 369.
13. STARZECKA, Dorota Czarkowska. Masks in Oceania. In: MACK, John (ed.). Masks. The Art of Expression. London: British Museum Press, 1996. Pp. 57, 59-60, 61, 62-3.
14. GUIART, Jean. Arte de Oceania. Region del Sepik (nueva guinea). México/Buenos Aires: Editorial Hermes/UNESCO, 1968. P. 11.
15. LEWIS-HARRIS, Jacquelyn. Mask Captions. In: NUNLEY, John W.; MCCARTY, Cara (orgs). Op. Cit., p.305;  MEYER, Anthony J. P. Op. Cit., vol. II, pp. 431, 435, 437.
16. GUIART, Jean. Op. Cit., p. 8.
17. NUNLEY, John W. Rites of Passage. In:  NUNLEY, John W.; MCCARTY, Cara (orgs). Op. Cit., pp. 82-3.
18. MEYER, Anthony J. P. Op. Cit., vol. II, pp. 411-2.
19. Idem, vol. I, p. 95.
20. GUIART, Jean. Op. Cit., p. 24.
21. MEYER, Anthony J. P. Op. Cit., vol. I, pp. 121, 125.
22. STARZECKA, Dorota Czarkowska. Op. Cit., pp. 63, 65-6, 69-71, 73, 75.
23. MEYER, Anthony J. P. Op. Cit., vol. I, p. 128.
24. Idem, p. 127.
25. GUIART, Jean. Op. Cit., p. 20.
26. MEYER, Anthony J. P. Op. Cit., vol. I, p. 105.
27. Idem, p. 247.
28. GUIART, Jean. Op. Cit., p. 23.
29. MEYER, Anthony J. P. Op. Cit., vol. I, pp. 265-6.
30. BOAS, Franz. Primitive Art. New York: Dover Publications Inc., 1955. P. 115.
31. STARZECKA, Dorota Czarkowska. Op. Cit., pp. 75-6, 78-9, 81.
32. MEYER, Anthony J. P. Op. Cit., vol. II, pp. 339, 345-6, 361-2, 365, 369-70, 373-4, 377, 381.
33. GUIART, Jean. Op. Cit., p. 16.
34. PONGE. Robert. Surrealismo e Viagens. In: PONGE, Robert (Org.). Surrealismo e Novo Mundo. Porto Alegre: Ed. Universidade/UFRGS, 1999. P. 75.
35. MEYER, Anthony J. P. Op. Cit., vol. I, p. 275; vol. II, pp. 455, 457-8, 462, 514, 607.
36. GUIART, Jean. Op. Cit., p. 10.
37. MCCARTY, Cara. Offense/Defense. In: NUNLEY, John W.; MCCARTY, Cara (orgs). Op. Cit., pp. 281-2.
38. SPIES, Werner (ed.) Picasso. The Sculptures. Bonn: Hatje Cantz Publishers, 2000. Catálogo de exposição. P. 46.
39. GEOFFROY-SCHNEITER, Bérénice. Op. Cit, p. 20.
40. SPIES, Werner (ed.). Op. Cit., pp. 51, 54.
41. ELGER, Dietmar. Expressionismo. Uma Revolução Alemã na Arte. Köln: Taschen, 2003. Pp. 90, 115.
42. SPIES, Werner (ed.). Op. Cit., 2000, p. 46.
43. NÉRET, Gilles. Matisse. Köln: Taschen, 2004. Pp. 143, 163.
44. SPIES, Werner (ed.). Op. Cit., 2000, pp. 38, 42, 46, 48.
45. WARNCKE, Carsten-Peter. Pablo Picasso. 1881-1973. Köln: Taschen, vol. I, 1992. P. 148.
46. GEOFFROY-SCHNEITER, Bérénice. Op. Cit, p. 269.
47. Idem, pp. 26, 32.
48. Ibidem, p. 32.
49. MEYER, Anthony J. P. Op. Cit., vol. I, p. 199.
50. LESLIE, Richard. Surrealism. The Dream of Revolution. London: Tiger Books, 1997. Pp. 18, 20-1.
51. Idem, p. 28.
52. PONGE. Robert. Op. Cit., pp. 68, 69, 74.
53. METKEN, Sigrid. Ten Thousand Redskins. Max Ernst and the North American Indians. In: SPIES, Werner (Ed.). Max Ernst. A Retrospective. Munich: Prestel-Verlag, 1991. Catálogo de exposição. Pp. 357, 362n1.
54. ARDENNE, Paul. Op. Cit., p. 225.
55. Idem, p. 228.
56. Ibidem p. 227.

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