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Roberto Acioli de Oliveira

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7 de jan. de 2016

Máscaras: Egito Antigo


No idioma do Antigo Egito, não havia uma palavra
específica  que  designasse  o  termo  “máscara”   (1)

Das muitas tradições africanas da máscara, talvez a mais conhecida seja aquela praticada apenas numa pequena região do continente. Talvez devido à antiguidade ou às diferenças estéticas (hipóteses que não resistem a uma análise criteriosa), infelizmente essa tradição da máscara chega a ser citada nos livros e revistas sem que se faça nenhuma referência ao fato de que se trata de técnicas desenvolvidas por uma cultura africana. A primeira característica que salta aos olhos em relação à tradição das máscaras no Antigo Egito é que elas tinham outra função senão a religiosa. Disfarce ou dissimulação das feições do rosto não era seu objetivo, direcionado exclusivamente para a elevação do portador ao nível da divindade, o que incluía tanto as máscaras representando animais, ocasionalmente usadas pelos vivos, quanto os capacetes funerários colocados nos corpos mumificados dos mortos. Contudo, de acordo com John Taylor, além do fato de que em egípcio antigo não existisse uma palavra específica para “máscara”, devido à utilização de matérias perecíveis que deixaram pouco ou nenhum traço arqueológico, a maioria das utilizadas naquela época e naquele lugar não sobreviveu - representações artísticas (pinturas e baixos ou altos-relevos) e inscrições seriam ambíguas demais para resolver o enigma, inspirando mais perguntas do que respostas. Outro fato que pode ter sido determinante em relação à escassez de evidências é o fato de que estamos mais bem informados a respeito dos rituais executados nos grades templos, enquanto as simpatias religiosas realizadas pelos camponeses (com suas máscaras fabricadas com material barato perecível) são relegadas ao segundo plano (2). (imagem acima, close da máscara mortuária de Tutancâmon; original Andrea Jemolo; imagens abaixo, à esquerda, máscara funerária de mulher pertencente à realeza da 18ª dinastia; à direita, máscara funerária de Hornedjitef, vivo durante o reinado de Ptolomeu III Evérgeta {246-222 a. C.}; fotografias British Museum)


No Egito antigo, a promessa de imortalidade não era apenas
privilégio  dos  poderosos. Todos precisavam colocar máscaras
funerárias  em  seus  defuntos,  já que se tratava de importante
elemento da passagem para o reino divino da Eternidade  (3)

Certa dificuldade de compreender do que Taylor está falando está no fato de que não nos damos conta que a maioria absoluta das máscaras egípcias que conhecemos tão corriqueiramente constitua equipamentos funerários, não dando conta de explicar por quem e como eram utilizadas as máscaras no mundo dos vivos – além disso, muitas delas chegaram até nós, constituindo registros arqueológicos importantes. As máscaras colocadas nas cabeças das múmias quase sempre reproduzem feições humanas, embora no estado divino que pretendem possuir depois da morte – geralmente relacionado a Osíris e o Deus Sol. Com feições estereotipadas, a maioria dessas máscaras de múmias era produzida em massa. As exceções são as máscaras mortuárias de pessoas da realeza, como é o caso de Tutancâmon, em cuja máscara alguma semelhança poderia existir. É curioso que ao mesmo tempo a perda da cabeça fosse a desastre mais temido pelos egípcios no outro e mundo, ao mesmo tempo em que a idealização das imagens do defunto era uma regra, seja em estátuas nas tumbas, caixões antropoides ou máscaras de múmias. De fato, atuando como substitutas da cabeça, máscaras forneciam proteção contra a eventualidade da decapitação na outra vida, entre outras funções em relação à garantia de vida após a morte.

“No antigo Egito, se acreditava que os espíritos de pessoas importantes retornariam e viveriam como múmias em suas tumbas. Durante os setenta dias dos procedimentos de embalsamamento, os sacerdotes usavam a máscara de Anúbis, o deus da mumificação. As máscaras podem ter tido duas funções: ao invocar os poderes de Anúbis através de mascaradas, os sacerdotes podiam preparar com sucesso o espírito do falecido para a eternidade; em segundo lugar, a máscara de nariz comprido [porque representa um chacal] pode ter protegido os embalsamadores dos odores desagradáveis e do pó do Natron utilizado no processo de mumificação. Uma máscara mortuária foi colocada no rosto da múmia, assegurando a seu espírito uma vida eterna. Provavelmente, o espírito do falecido foi transportado para o mundo espiritual através da máscara” (4) (imagem abaixo, exemplo das primeiras máscaras de múmias; fotografia, British Museum)


 Desde  as  primeiras verdadeiras máscaras  de  múmias, 
 a  importância   em   relação   à   cabeça  do  morto  já  era  evidente. 
Na falta de ouro ou impossibilidade de pintar de dourado, a riqueza
material do defunto será representada pela cor amarela

De acordo com Taylor, as primeiras máscaras verdadeiras de múmias (imagem acima) surgiram entre o 22º e o 21º séculos a. C., mas seus precursores podem ser reconhecidos em tumbas da época do Império Antigo (2686-2181 a. C.). À cabeça já era dispensada atenção nesse período, feições humanas podiam ser pintadas diretamente nos panos que embrulhavam a múmia ou modeladas com gesso diretamente sobre as bandagens (tratamento por vezes aplicado ao corpo inteiro durante a Quinta e a Sexta dinastias). Este procedimento no princípio da tradição culminaria no desenvolvimento de máscaras separadas para múmias, cobrindo a cabeça e os ombros do cadáver, tendo sido encontrados exemplos em tumbas datadas do Primeiro Período Intermediário e Império Médio (2181-1650 a. C.), por todo o Egito e até em Mirgissa ao sul, na Núbia. Os rostos eram pintados de amarelo, vermelho ou ouro, e os olhos às vezes incrustados. No caso dos homens, muitas vezes barbas e bigodes, enquanto as mulheres tinham seus seios nus representados em abas típicas dessas máscaras, que se alongavam na direção do tórax e das costas – embora os textos antigos se refiram a ela como mulher, a rainha Hatshepsut, que reinou entre 1490-1480 a. C., sempre foi representada em estátuas como um homem, incluindo barba e, às vezes, pênis (5). Algumas dessas máscaras contêm inscrições dos Textos dos Sarcófagos – as quais, revisadas a partir do Império Novo (1550-1070 a. C.), serão incorporadas ao Livro dos Mortos. (abaixo, máscara mortuária de Tutancâmon; fotografias, Andrea Jemolo)


Na passagem 531, algo ou alguém se dirige à máscara: “Saudações a você cujo rosto é amável, Senhor de visão... Amável rosto que está entre os deuses!”. O texto segue, identificando partes da máscara com divindades ou com os barcos em que o Deus sol viajou (portadores do potencial para a ressurreição): “Seu olho esquerdo é o barco noturno, seu olho esquerdo é o barco diurno, suas sobrancelhas são (aquelas de) Enneade (os nove deuses da história de criação da Heliópolis), sua testa é (aquela) de Anúbis, a nuca de seu pescoço é (aquela) de Hórus, as mechas de seu cabelo são (aquelas) de Ptah-Sokar...”. Uma versão do texto está gravada na máscara de outro de Tutancâmon (na aba da parte traseira, dos ombros até a altura das costas, dividida pela trança estilizada que desce do capacete): “Você está diante de Osíris, ele vê graças a você, você o guia para boas estradas, você castiga para ele os confederados de Seth, para que ele possa derrotar seus inimigos diante da Enneade dos deuses...”. Aqui o doente é Osíris (que foi morto por seu irmão Seth e ressuscitou), acima de todos os outros o deus identificado com a chave para o renascimento. A descrição da máscara como “cabeça misteriosa” levava os egípcios a identificar a cabeça com o deus sol, aquele que clareia as cavernas subterrâneas quando desce para o submundo à noite, iluminando com seu rosto dourado brilhante e trazendo nova vida para aqueles que lá habitam. Portanto, a máscara aparelha os doentes com aquilo que é necessário para uma passagem segura à vida após a morte – não apenas o cabelo azul (acreditava-se que o cabelo das divindades fosse desta cor), colar e carne dourada de um ser divino, mas os atributos físicos de todo uma gama de deuses específicos. Isso o identificava simultaneamente com Osíris e Re, o deus sol – uma garantia dupla de ressurreição. (imagens abaixo, máscaras funerárias para mulheres; à direita, datada de 1325-1224 a. C., provavelmente da época de Ramsés II, fotografia David Ulmer; à esquerda, máscara de Henutmehit, de Tebas, 19ª ou 20ª dinastia, 1295-1069 a. C., fotografia British Museum)


As máscaras de múmias do Império Médio marcaram o início de uma longa tradição que continuou, apesar de interrupções, até o século IV depois de Cristo. Influenciaram também, tanto técnica quanto iconograficamente, o desenvolvimento do caixão antropoide. Os primeiros caixões mumiformes assemelhavam-se a extensões da máscara. De fato, as funções de ambos continuariam ligadas durante os séculos seguintes. Por novecentos anos (1200-300 a. C.) o caixão antropoide, ostentando uma representação idealizada do rosto do morto, predominava nos funerais egípcios, ao passo que as máscaras de múmias eram utilizadas apenas eventualmente. O último grande florescimento da tradição da máscara de múmia no Egito chegaria durante o governo dos reis ptolomaicos (305-30 a. C.), estendendo-se durante os séculos do governo romano, quando começa a se verificar uma fusão entre os elementos faraônicos e a arte do mundo mediterrâneo.

Leia também:
 
Notas:

1. TAYLOR, John H. Masks in Ancient Egypt: The Image of Divinity. In: MACK, John (ed.). Masks. The Art of Expression. London: The British Museum Press, 1996. P. 171.
2. Idem, pp. 171, 178-83.
3. SIKE, Yvonne de. Les Masques. Rites et Symboles en Europe. Paris: Éditions de La Martinière, 1998. P. 50.
4. NUNLEY, J. W. Rites of Passage. In: NUNLEY, John W.; McCARTY, Cara. MASKS. Faces of Culture. New York: Harry Abrams Incorporated. 1999. Catálogo de exposição. Pp. 77-8.
5. ___________. Men as Women. In: NUNLEY, John W.; McCARTY, Cara. Op. Cit., p. 166.

11 de out. de 2010

A Múmia Hollywoodiana e a Islamofobia




Jack G. Shaheen
listou 900 filmes
onde
aparecem personagens
árabes. Em apenas seis
deles os árabes não
eram os vilões
(1)




Quando Boris Karloff estrelou no papel de morto-vivo em A Múmia (The Mummy, direção de Karl Freund, 1932), já havia alcançado a fama como o homem construído de pedaços de gente morta em Frankenstein (direção de James Whale, 1931). Nesse último caso, voltaria a encarnar o personagem em A Noiva de Frankenstein (The Bride of Frankenstein, direção James Whale, 1935), esperançoso de que lhe fosse construída uma mulher a partir de pedaços de gente morta – embora a experiência tenha produzido uma mulher, a vida de Frankenstein não melhorou, pois ela o rejeitou. Enquanto múmia, Karloff experimentou mais um grande sucesso de bilheteria numa época em que muitos milhões de norte-americanos passavam fome ou morriam disso – foi a época da Grande Depressão, que seguiu a crise econômica mundial a partir da quebra da bolsa de valores em 1929. Entre 1914 e 1918, a Europa havia passado pela Grande Guerra (que passaria a ser chamada apenas de Primeira Guerra), com milhões de mortos numa carnificina sem precedentes. Pouco depois, em torno de 1922, arqueólogos ingleses encontram no Egito a tumba do rei Tutancâmon, reacendendo o interesse no Egito Antigo e na maldição que se abateria sobre seus violadores.




A Múmia foi um
dos filmes de terror
que floresceu  quando
o capitalismo destruiu
milhões de lares nos
Estados Unidos





Portanto, ao mesmo tempo em que a morte parecia ser uma presença definitiva na vida das pessoas, o interesse pelo Egito dos faraós se reacendia com a descoberta de mortos famosos. Segundo nos conta Renan Pollès, o próprio Lorde Carnarvon, descobridor da tumba de Tutancâmon, teve a idéia de escrever um roteiro para cinema em função do impacto de sua descoberta. Um mês depois de descobri-la, já especulava sobre a melhor forma de vender o roteiro para as diferentes mídias (2). A partir daí muitos foram os filmes realizados tendo o Egito Antigo e as múmias como tema, um assunto que já freqüentava a literatura e o imaginário Ocidental havia muito tempo. O frenesi culminaria em 1932 com a versão estrelada por Boris Karloff. Curiosamente, apesar do interesse despertado pelo tema, o roteiro de A Múmia surgiu a partir da sinopse de um filme que se passava noutro contexto. Cagliostro contava a historia de um mágico egípcio que se mantinha vivo já há 3000 anos devido a injeções de nitrato e passava seu tempo a procura de mulheres que se parecessem com aquela que o havia traído e as assassinava. O filme se passava na cidade norte-americana de São Francisco durante os anos 30 do século passado e era muito influenciado pelos cenários de laboratórios fantásticos de Frankenstein. Não se sabe ao certo se Nina Wilcox Putnam, a autora do roteiro, conhecia a história do verdadeiro Cagliostro. Charlatão para alguns, para outros um ocultista. No século XVIII despertou a curiosidade das cortes européias antes de morrer na prisão depois de ser condenado como herege pelos tribunais da Inquisição.




O grande interesse 
popular  pelo  Egito Antigo
ajudou a transformá-lo em
um produto rentável







O roteiro de Putnam foi retrabalhado por John L. Balderston. Interessado em ocultismo, além de haver participado da autoria do roteiro de Frankenstein, Balderston foi um dos autores da adaptação teatral do Drácula de Bram Stoker, de onde foi tirado o roteiro do Drácula (1931) - dirigido por Tod Browning, a famosa versão com Bela Lugosi no papel principal. De acordo com Pollès, depois de se livrarem da confusão pseudo-científica e manterem apenas o elemento sobrenatural, o roteiro final ganhou na construção dramática. Entretanto, não pareceu preocupar aos produtores a confusão na cronologia. O nome dado à múmia, Imhotep, é o nome do grande sacerdote de Heliópolis, sob o faraó Djoser. A esse faraó é atribuída a construção da primeira pirâmide em pedra em Saqqarah. Anck-es-en-Amon, a múmia que a encarnação de Imhotep faz desenterrar e de quem ele acredita que Helen Grosvenor é a encarnação, era a esposa de Tutancâmon, que só nasceria 1000 anos depois (3).




A Múmia
tem vários

mocinhostodos  ingleses.
Mas tem apenas um vilão
:
uma múmia árabe






Talvez essa confusão na cronologia dos nomes escolhidos não seja exatamente uma confusão. A razão de ser de A Múmia é a mística do Antigo Egito, uma terra que existiu noutro tempo e que os ingleses redescobriram. O Egito atual, ou melhor, os egípcios contemporâneos estão praticamente ausentes do filme. Quando aparecem, são trabalhadores apenas braçais ou servos. Não nos esqueçamos que os egípcios são árabes e Hollywood tem uma longa história de preconceito em relação a eles. Antes de qualquer coisa, um esclarecimento, os egípcios do Antigo Egito acreditavam em muitas divindades. Já os egípcios contemporâneos ao filme (que se passa na mesma década de 30 de quando o filme foi realizado) são muçulmanos. Do ponto de vista religioso, os últimos consideram os primeiros como infiéis, pagãos. Some-se a isso, o fato de que quando o filme foi feito (e quando a tumba de Tutancâmon foi achava por Lorde Carnarvon), o Egito era uma colônia britânica – portanto, um país dominado. Não deixa de chamar atenção essa diferença de tratamento em relação a esses “dois Egitos”.



A
Múmia é
mais
um produto
de Hollywood que
não  escapou  à
Islamofobia




Invariavelmente, em todas as refilmagens de A Múmia, podemos encontrar bem clara a demarcação entre o mundo civilizado dos brancos e o mundo caótico, violento e sem lei dos árabes. O curioso é que os filmes são geralmente ambientados na primeira metade do século 20, uma fase da história da humanidade que viu todo o horror e carnificina que produziram duas guerras entre os brancos – que arrastaram o resto do mundo com eles. Em A Múmia, um dos arqueólogos insiste que eles não estão lá para desenterrar objetos e levá-los para o museu em Londres. Tudo deve ficar no Cairo e a ciência e o conhecimento é seu único interesse. Ora! Sabemos que os museus ocidentais sempre financiaram a rapinagem das relíquias antigas por todo o planeta – incluindo objetos de uso das tribos atuais. Uma prática que foi facilitada pela atitude oficial dos muçulmanos, que não davam valor ao que consideravam relíquias de um tempo quando o Egito era dominado por infiéis. Muitas das ruínas que vemos no Egito e na Grécia não foram espalhadas pelas areias do tempo. Grande parte foi simplesmente abandonada já que não podia ser levada para a Europa e Estados Unidos – incluído colunas de mármore gigantescas e/ou frontões de templos. Basta saber que até hoje existem 14 obeliscos em Roma que foram roubados do Egito pelas tropas do Império Romano para entender que a prática é antiga. Foram colocados em algumas das praças mais importantes da cidade como a Piazza São Pedro (é aquela mesmo que fica diante do Vaticano), a Piazza del Popolo, a Piazza Rotonda em frente ao Panteão, a Piazza Navona, a basílica de Latrão, Trinità dei Monti no cimo da Escadaria de Espanha e o Quirinal. É possível que tenham existido mais de 40 obeliscos na antiga Roma, todos roubados! (4)



Notas:

Leia também :

Isto é Hollywood!
A Bela, a Fera e o Cinema Puritano
Cabelos: Uma Tragédia Grega
Os Auto-Retratos de Francis Bacon

1. SHAHEEN, Jack G. Reel Bad Arabs. How Hollywood Vilifies a People. Massachusetts: Olive Branch Press, 2º ed., 2009. Pp. 16-7.
2. POLLÉS, Renan. La Momie. The Khéops à Hollywood. Paris: Les Éditions de l’Amateur, 2001. P. 193.
3. Idem, p. 197.
4. WILDUNG, Dietrich. O Egito. Da Pré-história aos Romanos. Tradução de Maria Filomena Duarte. Köln: Taschen, 2001. P. 227. 


11 de out. de 2008

Pênis Guerreiro


A santidade do pênis era a idéia central do mito mais importante do Antigo Egito. O mito de Osíris e Ísis, os irmãos que governaram como rei e rainha do Egito. Seth, outro irmão, odiava Osíris e partiu o corpo do rei em 14 pedaços. Ísis achou todos, menos o pênis do rei. Numa das várias versões do mito, Ísis formou primeira múmia com esses pedaços. Transformou-se em falcão e pairou entre as pernas de Osíris. Batendo as asas produziu um novo pênis para o rei morto. Então ela se abaixa nesse órgão e recebe a semente de Osíris. O filho dessa união é Horus, de quem todos os faraós alegavam descender. Para vingar seu pai, Horus mata e castra Seth. Supondo que isso aconteceu, outra estória parecida se quer história. Foi na Judéia, onde um homem dizia ter nascido de Deus e de uma virgem, oferecendo a salvação àqueles que acreditassem que o filho de deus havia se levantado dos mortos. No Egito Antigo, um mito sagrado preconizava a salvação de uma cultura inteira através da morte e renascimento do pênis de um deus (1).

Portanto, no mundo do além do Antigo Egito, o pênis era capaz de derrotar a morte. Para os inimigos do Egito de então, a ligação entre derrota e impotência sexual teve conseqüências implacáveis. Uma inscrição nos muros de Karnak, pelo faraó Merneptah em cerca de 1200 a.C., falava sobre o triunfo em batalha: 6 pênis de generais líbios, 6.359 pênis decepados de líbios, 222 pênis decepados de sicilianos, 542 pênis de etruscos, 6.111 pênis de gregos oferecidos ao rei. Três mil anos depois, quando o presidente norte-americano Lyndon Johnson não tinha mais argumentos para os repórteres que questionavam por que o país ainda combatia no Vietnã, ele abriu a braguilha, puxou seu pênis para fora e disse: “Isto é o porquê!”(2). (à direita, a bala de um canhão alemão da Primeira Guerra Mundial)

Uma das hipóteses para a origem da circuncisão era como marca quase universal da escravidão ou da desonra dos prisioneiros militares. Aliás, a nudez masculina de um corpo imaculado era, em Atenas, mas importante do que a nudez feminina. Na Grécia Antiga, os homens se exercitavam nus no ginásio, uma palavra que deriva de gymnos, que significa “nu”. Para um ateniense, a nudez afirmava sua posição de cidadão-guerreiro. As pinturas dos vasos do período clássico retratam, com freqüência, um grego nu expondo seu pênis para uma mulher completamente vestida. O que chamamos de “exibicionismo” eles chamavam de “flerte” (3).


O pênis ereto também simbolizava o poder ateniense. A homenagem que os gregos pediram após derrotarem os persas em Eion, em 476 a.C., foi um monumento com três hermae – colunas de pedra ou madeira encimadas pela cabeça do deus Hermes e logo abaixo um pênis em ereção. Eles desejavam essas estátuas que só tinham cabeça e pênis em grupos de três na agora, a praça do mercado e centro da vida ateniense. Portanto, a civilização grega e a vitória que a preservou foram simbolizadas por três ereções de pedra. O trauma veio em 415 a.C, quando o exército partiria para invadir a Sicília, notou-se que haviam destruído as hermae da cidade. A cidade despertou e se viu castrada! Seja ou não por culpa desse presságio aterrador, a invasão fracassou e acelerou a derrota de Atenas por Esparta (4).

Na Grécia Clássica, a virilidade era aprendida e merecida, o primeiro processo instigado por um professor, o segundo ocorrendo na guerra. No caso dos Romanos, a virilidade era avaliada simplesmente pelo poder dinâmico do sexo. Em suas operações militares, eles costumavam escrever obscenidades ou provocações nos projéteis que arremessavam em seus inimigos. Glans, a palavra latina para projétil, também significa “cabeça do pênis”, como hoje em dia “glande”. No cerco de Perúgia, em 41 a.C., as munições tinham inscrições sobre o ânus do rei inimigo (5). Prática que se popularizou durante a Segunda Guerra Mundial. (ao lado e acima)

Na era moderna, pelo menos desde a Segunda Guerra Mundial, é bastante fácil encontramos imagens dos aviões de combate e bombardeiros norte-americanos e ingleses rodeados de bombas com inscrições. (imagem colorida acima, à direita, uma bomba enderaçada a Saddam Hussein, durante a invasão do Iraque pelas tropas norte-americanas em 2003, ao estilo de remetente postal; logo abaixo, à esquerda, ainda os norte-americanos, desta vez durante a Guerra do Vietnã, com a inscrição Fuck Communisn; acima, também de avião norte-americano e também no Vietnã, um recado para o líder comunista, esta foto estava datada de 15 de março de 1968)

Quem sabe, uma pesquisa etimológica da palavra “gladiador” revele glans como uma raiz comum. Enquanto isso não acontece, é o gladiador que evidencia a crueldade que impregnava o erotismo romano. A vida do gladiador era penetrar ou ser penetrado por suas armas pontudas e mortais. Os generais romanos, às vezes, promoviam soldados com base no tamanho do pênis (6). E os homens com priapismo eram considerados donos de uma força excepcional. (ao lado, as duas maiores bombas do mundo durante a Segunda Guerra Mundial. Com até 10 toneladas, eram de fabricação inglesa, para serem lançadas de avião)


Durante a Primeira Guerra Mundial, o recrutamento levava em consideração uma relação entre masculinidade física e combatividade. Curiosamente, o cabelo púbico fazia uma grande diferença. Especialmente o contorno da margem superior – eram rejeitados aqueles que, entre outras faltas físicas, apresentavam distribuição lateral de cabelo púbico. Segundo as diretivas dos manuais de alistamento, afirmava-se seriam soldados ruins aqueles homens que possuíssem o tamanho da pélvis, a distribuição do cabelo e a disposição da gordura próximos ao tipo feminino, ou ainda, aqueles que tivessem "características sexuais fracas”. (ao lado, bomba sendo preparada durante a invasão do Iraque, com a inscrição Bow)


Naturalmente, de todos os pedaços do corpo do inimigo que poderiam ser cortados e levados como souvenirs pelos soldados norte-americanos durante a guerra do Vietnã, o pênis estava entre as escolhas. Os próprios oficiais esperavam que o soldado fizesse isso, ou alguma coisa estaria errada com os soldados (7). Afinal, isso não é difícil de concluir, já que o pênis parece ser tão importante para afirmar sua força. Pode parece uma conclusão bizarra ou esdrúxula, mas, muito antes de Freud, era evidente para um observador mais atento aos mitos em torno do suposto poder masculino, que a castração do inimigo resolveria todos os problemas. Só não ganharia a guerra...

(nas imagens ao lado podemos visualizar as diferenças anatômicas dos corpos considerados aptos para a guerra. Abaixo, vemos corpo de homem considerado com características femininas - note a disposição dos cabelos púbicos tendendo para uma distribuição lateral na parte superior. Acima, corpo de homem considerado como uma união da masculinidade com a combatividade. É possível perceber uma constituição quase fusiforme, que lembra os projéteis mortíferos em torno dos quais gira a vida do homem da guerra - note-se a disposição dos cabelos púbicos neste caso, sem a distribuição lateral eles parecem enfatizar o formato fusiforme do pênis do guerreiro; seria esta a única razão da exigência?)


Notas:

1. FRIEDMAN, David M. Uma Mente Própria. A História Cultural do Pênis. Tradução Ana Luiza Dantas Borges. Rio de Janeiro: Objetiva, 2002. P. 15.
2. Idem, p. 16.
3. Ibidem, pp. 17 e 23.
4. Ibidem, p. 24.
5. Ibidem, pp. 27 e 29.
6. Ibidem, p. 31.
7. BOURKE, Joanna. An Intimate History of Killing. Face-to-Face Killing in 20th Century Warfare. US: Basic Books, 1999. P. 30 e 99.

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Quadro de Avisos

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