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Roberto Acioli de Oliveira

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21 de abr. de 2011

Grotesco da Vida ou da Mídia?




Se o horror
pudesse realmente
ser most
rado claramente todos compreenderiam
a total insanidade
da matança?





As imagens da guerra se tornaram parte de nosso cotidiano, mas a consciência do sofrimento é construída – sobretudo em função da maneira como as câmeras registram as imagens. Vivemos numa cultura onde o choque se tornou um estímulo para o consumo: as imagens se encontram como choque e como clichê. Nas palavras de Susan Sontag, as informações do que se passa longe de nossas casas, que alguns chamam de “notícias”, sublinham conflito e violência – a busca do Ibope através do grotesco. A Guerra Civil Espanhola (1936-39) foi a primeira guerra testemunhada no sentido moderno: através de um corpo de fotógrafos profissionais na linha de frente, cujo trabalho era imediatamente visto nos jornais do mundo. A Guerra do Vietnã foi apresentada pelas câmeras de tevê na sala de estar dos norte-americanos. Desde então, explica Sontag, batalhas e massacres filmados na hora em que acontecem tornam-se um ingrediente rotineiro no fluxo incessante de entretenimento televisivo doméstico: “A compreensão da guerra para as pessoas que não vivenciaram uma guerra é, agora, sobretudo um produto do impacto dessas imagens” (1). E assim, a imagem dos eventos passa a definir os próprios eventos. O que fica patente no relato de sobreviventes quanto de pessoas que viram de perto o atentado ao World Trade Center em 11 de setembro de 2001, que se referiram ao acontecimento como “irreal”, “surreal”, “como um filme” (2). (imagem acima, Non Violence, escultura de Karl Fredrik Reutersward, exposta em frente ao prédio das Nações Unidas, em Nova York)



Os norte-america
nos
não mostram os rostos
de seus soldados mortos
,
já os do inimigo... (3)




Sontag se refere a uma iconografia do sofrimento, onde imagens de corpos nessa condição têm uma demanda tão grande quanto imagens de corpos nus. Durante séculos, uma necessidade satisfeita pela arte cristã com as representações do inferno e/ou martírios em geral. A representação de sofrimentos atrozes passará a ser deplorada quando o tema for o sofrimento de uma população civil nas mãos de um exército de militares sádicos, um tema que surge no século XVII (4). Sontag também chama atenção para o fato de que imagens de sofrimento padecido durante uma guerra são tão comuns hoje em dia que torna fácil esquecer como esse tipo de representação é recente. Se dependesse dos governos, as imagens da guerra continuariam sendo de exaltação da atividade guerreira. De fato, afirma Sontag, a fotografia de guerra começa exatamente com essa função vergonhosa durante a Guerra da Criméia (1853-6), com o objetivo de torná-la uma menos impopular entre os ingleses. Somente a partir da Guerra do Vietnã, que transmitida pela televisão, passou-se a ter a certeza de que as fotografias da guerra retratavam acontecimentos reais (não encenados) (5). (imagem acima, famosa fotografia de uma cena filmada no Vietnã durante um ataque das tropas norte-americanas, pelo menos a menina nua parece que sobreviveu; na imagem abaixo, poderíamos dizer que aconteceu no Rio de Janeiro, mas poderia ser também em nossa esquina, Jornal A Notícia, Joinville, Santa Catarina, 20/10/2009)




Imagens de
sofrimento
e
guerra competem com
as de nudez e esportes na preferência popular
(6)





Ernst Friedrich foi um daqueles que se recusou a pegar em armas na Primeira Guerra Mundial. Em 1924 ele publicou Guerra Contra a Guerra! (Krieg dem Kriege!), um libelo pacifista em forma de tratamento de choque. Trata-se de um álbum com 180 fotografias retiradas de arquivos militares e consideradas então impublicáveis. O livro se inicia com uma ironia bizarra, soldados e canhões de brinquedo, e termina com imagens de cemitérios militares. Entre esses dois extremos, o leitor se depara com um desfile horripilante dos resultados dessa guerra que foi precipitadamente chamada de “a guerra para acabar com todas as guerras”. Na opinião de Susan Sontag, quase todas as fotografias em Guerra Contra a Guerra! são difíceis de olhar. Contudo, ao que parece os corpos dos soldados mortos apodrecendo não são nada perto dos 24 closes de soldados com imensos ferimentos no rosto. Sontag chama atenção que Friedrich não “cometeu o erro de supor” que as fotografias nauseantes falariam por si mesmas e inseriu legendas em alemão, francês, holandês e inglês. Com o apoio de associações de veteranos e organizações patrióticas, o governo alemão se apressou a denunciar o livro, que em algumas cidades foi retirado das livrarias pela polícia. Em 1938, o cineasta francês Abel Gance dirigiria o pacifista Eu Acuso (J’Accuse). Onde os soldados desfigurados mortos se levantam e aterrorizam os vivos. Mas parece que não é só no Brasil que a memória é curta, apenas um ano depois Hitler invade a Polônia e começa a Segunda Guerra Mundial (7).

Notas:

Leia também:
A Família Alemã e o Cinema Nazista (I), (II), (final)

1. SONTAG, Susan. Diante da Dor dos Outros. Tradução Rubens Figueiredo. São Paulo: Companhia das Letras, 2003. P. 22.
2. Idem, pp. 21, 23-4, 26.
3. Ibidem, p. 61.
4. Ibidem, p. 39.
5. Ibidem, pp. 43, 50.
6. Ibidem, pp. 38, 43.
7. Ibidem, pp. 18-9.

7 de dez. de 2008

A Cultura da Arma na América do Norte (final)





“Nos E
stados Unidos [em 1994 existiam] mais
de 140,000 revendas autorizad
as de armas de fogo. Existem menos livrarias e escolas do que lojas
de armas, uma situação que teria chocado o morador mais durão
da antiga fronteira Americana”

Michael Bellesiles (1)





Um País de “?º” Mundo

Em 24 de março de 1998, Andrew Golden (11 anos) e Mitchell Johnson (13 anos) ligaram o alarme de incêndio da escola em Jonesboro, Arkansas. Enquanto todas as crianças se apressavam em sair do prédio, eles dispararam suas armas de fogo (três rifles e 7 pistolas) sobre elas. Em menos de quatro minutos, com vinte e dois tiros disparados, eles mataram quatro alunas e uma professora, ferindo mais onze crianças. Em 6 de abril, as revistas Time e Newsweek se faziam as mesmas perguntas de sempre (que repetiriam um ano depois, em 20 de abril de 1999, por ocasião de outro massacre na escola, desta vez em Columbine, Colorado):

“Como chegamos lá? Como os Estados Unidos chegaram a um ponto em que crianças atiram e matam? Como chegamos a uma cultura onde o Papai Noel dá uma espingarda de natal para uma criança de seis anos? De natal?” (2)

Com seis anos de idade, os pais de Andrew presentearam a criança com uma espingarda. Aos três anos, ele já posava para fotografias com uniformes camuflados e armas mortais (imagem acima). Ele e Mitchell cresceram com as armas de fogo e com Deus. Mitchell era ativo em sua igreja e impressionava os adultos por sua religiosidade. Um alto nível de violência pessoal separa os Estados Unidos das outras nações industrializadas. Níveis semelhantes de violência interpessoal, somente em países em guerra civil ou caos social (3) (como o Brasil?).

Os jornais estão cheios de histórias de tiros por motivos fúteis (como no Brasil?), como o caso do trabalhador de Michigan que atirou no amigo porque este pegou um de seus biscoitos sem pedir. Nos Estados Unidos, os médicos militares treinam em hospitais civis para ganhar experiência, dada a quantidade de ferimentos com armas letais (como no Brasil? A única diferença neste caso é que o exercito brasileiro não tem guerras para ir). Tornou-se comum nos Estados Unidos a colocação de detectores de metal na entrada das escolas, na busca por revólveres e facas (como no Brasil?). (imagem acima, video game Crackdown)

A cultura da arma nos Estados Unidos se traduz no “amor e afeto” (4) com que a sociedade vê suas armas. A mídia reforça a noção de que a solução de seus problemas cabe na sua mão. Vídeo games tornam acessível para qualquer criança um simulador de matanças, que irá treiná-lo a atirar sem a menor hesitação. Toda uma geração está sendo condicionada a matar. Nos Estados Unidos você não precisa registrar sua arma, por esta razão ninguém sabe quantas existem no país. O FBI estima em 250 milhões de armas de fogo em mãos de particulares, e 5 milhões são compradas a cada ano (5).

Somos Todos Civilizados Aqui no 1º Mundo...

“Em uma sociedade orgulhosa de suas contribuições à liberdade humana, a arma se tornou o ícone de uma civilização selvagem”

Michael Bellesiles (6)

Aquele país se resignou a acreditar que essa violência é imutável, fruto de seu passado de guerras com outros países, ou entre eles, e com os índios. A “necessidade da violência” na fronteira selvagem dos primeiros tempos da colonização vem da fé de que “a regeneração vem através da violência”. A conclusão: os norte-americanos sempre foram assassinos. Essa herança hobbesiana de cada um contra todos está na base da aceitação da freqüente violência nos Estados Unidos. Portanto, e convenientemente, nada poderia ser feito para alterar a cultura da arma na América do Norte...

Na verdade, uma análise mais profunda mostra que a posse de armas de fogo sempre fora algo incomum do século 17 ao começo do 19, mesmo na fronteira selvagem do oeste. Elas só começaram a se tornar uma mercadoria comum com a industrialização do país em meados do século 19, mesmo assim com uma concentração nas áreas urbanas. “A cultura da arma cresceu com a indústria da arma”. Desde o principio, o governo norte-americano trabalhou para armar seus cidadãos (7).

Sempre a Prostitu... A Propaganda

Nesta cultura da arma norte-americana, as revistas de armas estão longe de fornecer artigos críticos em relação a elas. Ao contrário das revistas sobre automóveis, onde se podem encontrar criticas a indústria automobilística ou aos modelos de novos carros, nas revistas sobre armas de fogo nunca se encontra uma palavra sequer contra qualquer arma ou fabricante. Todas as armas de fogo (norte-americanas) são ótimas e maravilhosas. A única voz que pode criticar alguma arma nessas revistas vem dos representantes das marcas, que criticam umas as outras para convencer o cliente que o seu produto é melhor. Na edição da revista Guns & Ammo de dezembro de 1998, uma propaganda mostrava Papai Noel camuflado e com rifles saindo do saco, ele colocava pistolas e munição numa arvore de natal enquanto uma menininha sorri para ele.

Mesmo assim, os defensores da posse de armas de fogo pela população sentem-se acuados pelo que eles chamam de “liberais fanáticos” que querem desarmar todo mundo e até a polícia. Neste mesmo ano, um defensor das armas de fogo afirmou que criar leis não é a maneira correta de resolver a questão. A solução é mudar a Constituição, que em sua 2ª Emenda decreta o direito de qualquer cidadão norte-americano possuir armas de fogo sem licenças, permissões ou taxas.

Charlton Heston, famoso ator de Hollywood (imagem abaixo), ex-presidente da Associação Nacional do Rifle (National rifle Association, NRA), coloca a culpa na mídia. Segundo ele, a obsessiva repetição de uma programação televisiva e cinematográfica cheia de brutalidade, terror e sangue, é o que na verdade alimenta a violência que a própria mídia noticia e publica. Heston tinha um ponto de vista um tanto monolítico, mas deve-se admitir que só nos Estados Unidos possam existir calendários de mulheres belas e gostosas com biquínis e armas de fogo (8).

Somos Todos Assassinos?







“Nada na história é imutável”

Michael Bellesiles (9)






As armas de fogo são centrais para a identidade dos norte-americanos. Da programação de televisão à novela, dos romances baratos à literatura da elite, as armas são empregadas para relacionar o essencial do caráter norte-americano: impaciência, franqueza, barulhento, independente e sujeito a explosões de brutalidade. Os sinais dessa cultura da arma estão em toda parte, nas letras de música, nos jornais, pôsteres de filmes, capas de livros e cd’s, saídas de emergência e blocos de papel da polícia. Alguns Estados norte-americanos aprovaram projetos proibindo seus cidadãos de processar a indústria de armas. Nenhum outro fabricante recebe tal proteção estatal.

As pesquisas sobre ferimentos a bala são sistematicamente boicotadas nos Estados Unidos. O Estado de Washington estava tão preocupado com as evidências estatísticas de que a posse de armas de fogo aumenta a probabilidade de alguém levar um tiro, que colocou os arquivos policiais fora dos limites dos estudiosos (“policiólogos”?) e epidemiologistas (como no Brasil?). “A arma deve ser protegida da pesquisa” (10).

Michael Bellesiles defende a hipótese de que toda essa “história” da necessidade da arma desde sempre (incluindo a pré-história) é uma construção. Trata-se de uma tradição inventada. Uma leitura da história do passado a partir dos interesses do presente (como no Brasil?). Os Estados Unidos não foram sempre voltados para uma cultura da arma. A coisa não “foi sempre assim”. Foi após a Guerra Civil Americana que surgiu essa noção de que um povo bem armado sustentaria o sonho americano. A partir desse preciso momento, surgiu uma cultura da arma. Bellesiles afirma que se trilhou um longo caminho desde uma sociedade indiferente às armas de fogo (que só tinha preocupações religiosas e liberais) até a total aceitação delas (11).

Notas:

1. BELLESILES, Michael A. Arming America. The Origins of a National Gun Culture. New York: Alfred A. Knopf, 2000. P. 14.
2. Idem, p. 4.
3. Ibidem.
4. Ibidem.
5. Dados de 1992.
6. BELLESILES, Michael A. Op. Cit., p. 15.
7. Idem, p. 5.
8. Ibidem, p. 7.
9. Ibidem, p. 16.
10. Ibidem, p. 9.
11. Ibidem, pp. 9-16.

6 de dez. de 2008

A Cultura da Arma na América do Norte (V)


Uma Revol
ução e...

Em 1775, milhares de homens se apresentaram para confrontar o Império Britânico. A Revolução Americana apresentou a primeira oportunidade para o estabelecimento de uma cultura da arma entre os brancos nos Estados Unidos. Vencido o inimigo, ninguém estava mais interessado em armas, nem mesmo um governo federal que agora tinha muitos problemas financeiros para fazer o país funcionar. O arsenal acabou apodrecendo. Sabemos que a França era inimiga do inimigo dos futuros norte-americanos. Foi ela que forneceu o arsenal utilizado na luta contra os ingleses – embora também houvesse armas holandesas e até inglesas roubadas. Os especialistas sabiam, entretanto, que manter a dependência em relação a outro país colocava o futuro da nação numa posição precária (1).

Os esforços para se criar uma fonte estável de armas de fogo para os Estados Unidos inicia um longo processo por parte do governo federal pra armar seus cidadãos brancos. Esta se provaria uma tarefa extremamente difícil e frustrante que levaria 70 anos. O primeiro receio que surgiu já no período inicial, como havia acontecido na Europa antes, foi o medo da elite de que os pobres pudessem utilizar, “de forma incorreta”, as armas que o governo federal queria distribuir. Outro problema era a resistência em admitir o controle por parte de uma milícia federal, pois alguns acreditavam que os Estados se arriscam a perder sua soberania (2). No final, todos concordaram que só o governo federal poderia manter uma milícia bem armada e treinada.

...Uma Constituição

O artigo I, seção 8 da Constituição dos Estados Unidos da América do Norte, garantiu a autoridade do Congresso Federal quanto ao controle de uma milícia nacional que faria valer as Leis da União, suprimiria insurreições e repeliria invasões do território nacional. Ainda havia críticas, que sugeriam que isso era um cheque em branco para o governo federal reprimir qualquer desafio a sua autoridade. Já em 1787, um argumento se tornaria o centro da crença norte-americana. Mais difícil de determinar era a relação entre a noção da milícia enquanto suporte dos Estados e a posse de armas de fogo. (imagem ao lado, assinatura da declaração de independência)

Segundo especialistas, há uma relação direta entre a posse individual de armas de fogo e a milícia, uma relação que informa a 2ª Emenda. Segundo o texto da Emenda, os Estados e o Governo Federal mantiveram a tradição britânica de controlar o suprimento e o acesso a armas de fogo (3). Em 1780, a Constituição de Massachusetts declarou que “o povo tem o direito de possuir e usar armas para proteção”. Mas este direito não coloca o indivíduo acima do Estado porque, “como em tempo de paz exércitos são perigosos para a liberdade, eles não deveram ser mantidos sem o consentimento da Assembléia Legislativa; e o poder militar deverá sempre estar subordinado a autoridade civil, e governado por ela” (4). O povo usa armas para proteção como resultado de uma suspeita natural em relação aos militares, apesar da defesa que estes fizeram do povo durante a Revolução contra os Ingleses.

A diferença marcada entre o cidadão comum armado sendo subordinado a uma milícia federal armada e treinada é que levantava as criticas daqueles que eram contra o governo federal – os anti-federalistas. Por outro lado, quando se olhava para a Europa, o que se via eram grandes exércitos e corpos bem treinados de infantaria leve varrendo os últimos remanescentes da guerra medieval. Portanto, a questão de uma milícia ou um exército “bem treinado” não tinha como objetivo isolar o cidadão comum da ação ao subordiná-lo a uma força federal especializada. A questão de fundo era, pelo menos também, relacionada como as mudanças na forma de organização das campanhas militares – uma questão com a qual os Europeus já estavam se defrontando há uns dois séculos.

Notas:

1. BELLESILES, Michael A. Arming America. The Origins of a National Gun Culture. New York: Alfred A. Knopf, 2000. P. 209.
2. Idem, p. 212.
3. Ibidem, p. 214.
4. Ibidem, a ênfase é minha.

20 de nov. de 2008

A Cultura da Arma na América do Norte (III)


Nós Somos os Santos

As armas eram apenas uma das muitas vantagens que os europeus tinham em sua conquista da América. Apesar disso, elas não se provaram decisivas. As narrativas que falam que as batalhas contra os índios podiam matar alguns deles davam a impressão de que as armas de fogo européias picotavam suas vítimas. Estudos mostram que outras armas eram responsáveis pela maioria das mortes. Especificamente, espadas, machados e fogo eram as armas mais mortais na guerra colonial. Nem sempre os índios corriam assustados com medo das armas de fogo. As primeiras quatro tentativas espanholas de invasão da Flórida fornecem ampla evidência da habilidade dos índios em resistir às incursões européias armados apenas com arcos e flechas. Entre 1513 e 1562, a tecnologia européia em armas de fogo utilizada pelos espanhóis provou ser irrelevante (1).

Inicialmente, os franceses seguiram a política espanhola de não comerciar armas de fogo com os índios. Entretanto, em 1640, os franceses fizeram uma exceção aos Huron do Canadá, que naquela altura haviam sido cristianizados. Certa feita, os Huron encontraram seus inimigos, os Mohawk, no caminho. Os Mohawk ficaram abalados ao descobrir que índios também podiam utilizar mosquetes e fugiram. Isso levou os franceses a fornecer armas de fogo para seus aliados índios, para que os ajudassem contra outros índios e contra os competidores ingleses no sul. Os índios perceberam que, para conseguir armas de fogo, bastava abraçar a religião dos europeus. Como escreveu um jesuíta em 1644, “a utilização do arcabús, recusado aos Infiéis... e garantido aos cristãos recém batizados, é um poderoso encanto para atraí-los: parece que nosso Senhor pretende fazer uso desses meios de forma a tornar a cristandade aceitável nessas regiões” (2).

Em 1644, na região da América do Norte que correspondia à colonização inglesa, havia um mosquete para cada quatro homens – na colônia da Virgínia, essa percentagem só seria superada na Guerra Civil Americana, entre 1861 e 1865. A maioria das armas estava nas mãos de gente do governo e de soldados, mas se temia que de uma forma ou de outra as armas caíssem nas mãos de índios. Ao contrário dos franceses, o comercio de armas era fora da lei entre os ingleses (3). Massachusetts era a colônia inglesa mais militarista. Na medida em que os assentamentos dos ingleses se expandem na região da Nova Inglaterra, os conflitos com os índios se intensificam. Nem índios nem europeus tinham a tradição do assassinato em massa, mas essas atrocidades acabaram se tornando rotina em ambos os lados. Os ingleses costumavam dar uma salva de tiros e partir para o confronto direto empunhando espadas e queimando aldeias, preferivelmente com gente dentro das cabanas.

Todas as armas de fogo existentes na América do Norte no século 17 vieram da América do Norte. Os vários governos europeus não viam razão para implementar a produção de armas de fogo nas colônias, mesmo porque ainda estavam longe de conseguir criar número suficiente de fabricantes em seus próprios reinos. Havia também pouca evidencia de que essas armas estivessem fazendo tanta diferença nas guerras de conquista.

Na América do Norte, dois sistemas de violência estavam lentamente se articulando. Para os europeus, a violência era monopólio do Estado, enquanto para os índios era uma questão de honra individual. Essa divisão perduraria até o século 19. Por outro lado, a política de extermínio da coroa britânica vinha também articulada a uma profunda justificativa religiosa. Como estabeleceram os residentes da cidade de Milford: “votado, que a terra é o Senhor e a completude dela; votado, que a terra é dada aos Santos; votado, que nós somos os Santos” (4). *

Notas:

* A sequência deste artigo se encontra no arquivo de dezembro de 2008.

1. BELLESILES, Michael A. Arming America. The Origins of a National Gun Culture. New York: Alfred A. Knopf, 2000. P. 46.
2. Idem, p. 50.
3. Ibidem, p. 58.
4. Ibidem, p. 63 e 67.

17 de nov. de 2008

A Cultura da Arma na América do Norte (II)


A Tendência Expansionista (e o Futuro Mercado de Armas?)

Entre os séculos 15 e 16, alguns governos europeus debatiam se deveriam substituir o arco e flecha pelas armas de fogo. Na virada para o século 17 havia dois tipos de arma: o arcabús e o mosquete. Um era pouco precisão no tiro, o outro muito dispendioso. Levava-se muito tempo para carregar e disparar, enquanto o arco e flecha disparava 12 flechas durante o tempo necessário para carregar um mosquete, além de ter um alcance maior. A relutância advinha do fato de que por muito tempo o arco e flecha fora o armamento padrão, responsável por algumas das vitórias mais decisivas durante 5 séculos. Porém, em 1595, o governo inglês decidiu substituí-lo pela arma de fogo.

Entretanto, já em 1590, nem mesmo nos primeiros assentamentos da colonização britânica da América do Norte havia um consenso sobre isso (1). Por outro lado, alguns acontecimentos deixaram claro que se a Inglaterra desejava competir pelo controle internacional nessa época, deveria desenvolver exércitos altamente treinados e organizados segundo o modelo da Europa continental.

A Inglaterra concluiu que deveria aderir àquela corrida armamentista. A França e a Espanha haviam aderido às armas de fogo, o que significava que seus exércitos passariam a ser reconstruídos a partir de soldados profissionais que necessitavam de anos de treinamento. Na Inglaterra, ainda existia uma visão medieval do cidadão-soldado sem treinamento especializado (daí o sucesso do arco e flecha), defendendo uma ilha isolada. Portanto, uma postura expansionista naquele momento, significava (esse era o debate) maior competitividade militar. Mas os Ingleses que defendiam esse expansionismo compreendiam as limitações das novas armas. Todo o debate girava em torno do fato de que se propunha substituir o arco e flecha em uma época onde ele ainda era uma arma superior.

A Arma e a Conquista da América do Norte

Em 1609, quando os franceses chegaram lá no Canadá, mais especificamente em Quebec, perceberam que para sua sobrevivência a melhor coisa a fazer era estabelecer alianças com os índios. Só que não dava para ser amigo de todo mundo! No caso daquela área, os índios eram os Huron, só que eles tinham inimigos, os Mohawk. Com seus arcabuses (um mosquete pequeno), três franceses acompanharam os Huron em uma expedição contra os Mohawk naquele mesmo verão. Então aconteceu uma das poucas batalhas na América do Norte durante o século 17, e foi quando as novas armas européias se provaram decisivas. No fundo, tudo foi resolvido com apenas um tiro.

Foram dois mortos e um gravemente ferido, e o restante dos Mohawks fugiu. Passariam décadas antes que outros europeus pudessem aterrorizar tanto os índios novamente com armas de fogo. Depois dessa fase, a resistência ao europeu aumentaria, uma vez que os índios finalmente perceberam que os estrondos e explosões das armas de fogo não eram a voz de nenhum espírito. (2).

É uma crença estabelecida que, no início da conquista das Américas, as armas de fogo significavam uma vantagem tecnológica que os índios nunca poderiam superar. Na verdade, armas de fogo eram curiosidades raras no século 16 quando a Espanha conquistou o México e grande parte da América do Sul. Elas também apareceram em números muito pequenos entre ingleses, holandeses e franceses no século 17, quando essas nações estabeleceram suas primeiras bases na costa leste da América do Norte. As armas de fogo não dominariam a guerra no Ocidente até o século 19. A supremacia européia também foi causada por: elemento surpresa, controle político centralizado, uma disposição para matar inocentes, superioridade de transporte, epidemias e muitos imigrantes. Ainda que as armas de fogo fossem chamadas de “milagre da cristandade” por um arcebispo inglês, elas estavam bem no fim da lista de vantagens gozadas pelos europeus (3).

Naquela época, talvez pela demorar em recarregar e falta de precisão de tiro, as armas de fogo eram mais efetivas para a defesa. Como os europeus queriam colonizar e não apenas conquistar, construiu-se muitos fortes, o que maximizava o uso das armas. Entretanto, as armas de fogo eram mais significativas como objetos de troca com os índios. Houve uma mudança na relação entre os índios armados e seus inimigos tradicionais. Ainda se afirme que a letalidade que alcançaram tinha mais a ver com os novos métodos do que com o material. Como ocorreu na Europa, a introdução das armas de fogo implicou uma mudança de ponto de vista no que diz respeito ao campo de batalha. A organização mudou ou, diriam alguns, ela finalmente chegou.

Notas:

1. BELLESILES, Michael A. Arming America. The Origins of a National Gun Culture. New York: Alfred A. Knopf, 2000. P. 23 e 26.
2. Idem, pp. 40 e 45.
3. Ibidem, 41.

7 de nov. de 2008

A Cultura da Arma na América do Norte (I)


Sempre a Europa

A noção de que a pólvora poderia ser usada para impulsionar um projétil parece ter se desenvolvido simultaneamente na Europa e na China. Foram encontrados esboços mostrando armas deste tipo em 1326 (Europa) e 1332 (China). Porém, se passariam séculos antes que as melhorias tecnológicas na área fossem vistas pelos europeus como algo mais do que curiosidades. As armas portáteis tiveram um desenvolvimento lento e foram objeto de suspeita e hostilidade. O cavalo era considerado uma ferramenta de guerra bem mais importante. Além disso, desde o começo a fascinação com as armas de fogo era um fenômeno urbano (1).

As pessoas e oficiais ligados aos armamentos militares não tinham idéia do que as armas de fogo representariam no futuro. As armas com lâminas haviam melhorado muito desde os tempos medievais enquanto o armamento tradicional com flecha demonstrava enorme potencial. O arco e flecha chinês do século 13 era letal acima de 400 metros, sendo mais letal do que os mosquetes do século 18. O arco e flecha europeu era menos eficiente, mas era largamente utilizado. A tecnologia da catapulta também foi aperfeiçoada no período medieval e seu desempenho continuou superior ao do canhão até a metade do século 15.

Tantos eram os problemas operacionais com as primeiras armas de fogo, que muitos não compreendiam a fascinação que levava os europeus a persistir acreditando que aquilo serviria para alguma coisa. Isso perdurou até o advento da baioneta no século 18. Em 1439 as armas de fogo portáteis foram utilizadas pela primeira vez, quando bolonheses abriram fogo contra seus rivais venezianos. Contudo, os venezianos venceram a batalha, imediatamente massacrando aqueles que utilizaram esta “inovação covarde e cruel”.

Entre a aristocracia européia, a crença de que as armas de fogo não eram adequadas para um cavalheiro persistiu até o século 17. A maioria dos aristocratas e dos soldados profissionais achava que armas de fogo minavam a habilidade militar e a masculinidade. Segundo esse ponto de vista, o combate deveria ser um teste de força, coragem e habilidade. Temia-se que qualquer pessoa do povo com treinamento no uso das armas de fogo poderia tornar-se perigosa para a classe dominante. Mas havia também outro motivo porque soldados profissionais odiavam armas de fogo: elas eram mortais. Muitas batalhas no final da Idade Média terminavam com poucas mortes, terminando com a rendição de um grupo para outro. Fazer prisioneiros era mais importante, ao passo que com armas de fogo não só se matava, mas nem mesmo se poderia saber quantos cairiam (2).

A transformação da guerra pelas armas de fogo veio, mas não imediatamente. Mesmo na Europa, centro do desenvolvimento das armas, os soldados carregavam uma grande variedade de armamento até o final do século 18. Foi apenas no final do século 19 que a grande virada aconteceu. O campo de batalha não mais seria formado por um conjunto de combates isolados, as armas de fogo necessitavam de mais coordenação e garantiam a um comandante muito mais controle do que qualquer líder feudal jamais exerceu. Mesmo assim, os militares se mantiveram céticos em relação às armas de fogo, normalmente considerando-as como um suplemento aos métodos tradicionais de luta.

Os governos também se mantinham reticentes em relação às armas de fogo. Acima de tudo, eles temiam a utilização dessa tecnologia pelos indivíduos e não apenas pelo exército. Nenhum monarca queria testar a hipótese de que apenas uma companhia de soldados poderia subjugar um bando de descontentes armados. As classes dirigentes não viam razão para aceitar qualquer nível de desordem social por causa da disponibilidade de armas. Como resultado, os governos integraram as armas de fogo apenas lentamente aos seus exércitos, ao mesmo tempo em que mantinham um olhar cauteloso e vigilante sobre a distribuição de armas aos civis – se é que isso aconteceu.

Portanto, somente a elite, o exército e, no caso da Inglaterra em 1541, aqueles que eram capazes de faturar mais de 100 libras por ano com suas propriedades, poderiam ter acesso às armas de fogo – a curiosidade do caso inglês é que, para ter direito de voto nas eleições municipais, a pessoa deveria possuir uma propriedade 50 vezes menos valiosa do que as 100 libras. Havia também o fato de que as armas de fogo eram mais difíceis de construir, portanto eram mais fáceis de regulamentar do que o arco e flecha (3).

Notas:

1. BELLESILES, Michael A. Arming America. The Origins of a National Gun Culture. New York: Alfred A. Knopf, 2000. Pp. 18-9.
2. Idem, p. 20.
3. Ibidem, p. 22.

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