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Roberto Acioli de Oliveira

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21 de abr. de 2011

Grotesco da Vida ou da Mídia?




Se o horror
pudesse realmente
ser most
rado claramente todos compreenderiam
a total insanidade
da matança?





As imagens da guerra se tornaram parte de nosso cotidiano, mas a consciência do sofrimento é construída – sobretudo em função da maneira como as câmeras registram as imagens. Vivemos numa cultura onde o choque se tornou um estímulo para o consumo: as imagens se encontram como choque e como clichê. Nas palavras de Susan Sontag, as informações do que se passa longe de nossas casas, que alguns chamam de “notícias”, sublinham conflito e violência – a busca do Ibope através do grotesco. A Guerra Civil Espanhola (1936-39) foi a primeira guerra testemunhada no sentido moderno: através de um corpo de fotógrafos profissionais na linha de frente, cujo trabalho era imediatamente visto nos jornais do mundo. A Guerra do Vietnã foi apresentada pelas câmeras de tevê na sala de estar dos norte-americanos. Desde então, explica Sontag, batalhas e massacres filmados na hora em que acontecem tornam-se um ingrediente rotineiro no fluxo incessante de entretenimento televisivo doméstico: “A compreensão da guerra para as pessoas que não vivenciaram uma guerra é, agora, sobretudo um produto do impacto dessas imagens” (1). E assim, a imagem dos eventos passa a definir os próprios eventos. O que fica patente no relato de sobreviventes quanto de pessoas que viram de perto o atentado ao World Trade Center em 11 de setembro de 2001, que se referiram ao acontecimento como “irreal”, “surreal”, “como um filme” (2). (imagem acima, Non Violence, escultura de Karl Fredrik Reutersward, exposta em frente ao prédio das Nações Unidas, em Nova York)



Os norte-america
nos
não mostram os rostos
de seus soldados mortos
,
já os do inimigo... (3)




Sontag se refere a uma iconografia do sofrimento, onde imagens de corpos nessa condição têm uma demanda tão grande quanto imagens de corpos nus. Durante séculos, uma necessidade satisfeita pela arte cristã com as representações do inferno e/ou martírios em geral. A representação de sofrimentos atrozes passará a ser deplorada quando o tema for o sofrimento de uma população civil nas mãos de um exército de militares sádicos, um tema que surge no século XVII (4). Sontag também chama atenção para o fato de que imagens de sofrimento padecido durante uma guerra são tão comuns hoje em dia que torna fácil esquecer como esse tipo de representação é recente. Se dependesse dos governos, as imagens da guerra continuariam sendo de exaltação da atividade guerreira. De fato, afirma Sontag, a fotografia de guerra começa exatamente com essa função vergonhosa durante a Guerra da Criméia (1853-6), com o objetivo de torná-la uma menos impopular entre os ingleses. Somente a partir da Guerra do Vietnã, que transmitida pela televisão, passou-se a ter a certeza de que as fotografias da guerra retratavam acontecimentos reais (não encenados) (5). (imagem acima, famosa fotografia de uma cena filmada no Vietnã durante um ataque das tropas norte-americanas, pelo menos a menina nua parece que sobreviveu; na imagem abaixo, poderíamos dizer que aconteceu no Rio de Janeiro, mas poderia ser também em nossa esquina, Jornal A Notícia, Joinville, Santa Catarina, 20/10/2009)




Imagens de
sofrimento
e
guerra competem com
as de nudez e esportes na preferência popular
(6)





Ernst Friedrich foi um daqueles que se recusou a pegar em armas na Primeira Guerra Mundial. Em 1924 ele publicou Guerra Contra a Guerra! (Krieg dem Kriege!), um libelo pacifista em forma de tratamento de choque. Trata-se de um álbum com 180 fotografias retiradas de arquivos militares e consideradas então impublicáveis. O livro se inicia com uma ironia bizarra, soldados e canhões de brinquedo, e termina com imagens de cemitérios militares. Entre esses dois extremos, o leitor se depara com um desfile horripilante dos resultados dessa guerra que foi precipitadamente chamada de “a guerra para acabar com todas as guerras”. Na opinião de Susan Sontag, quase todas as fotografias em Guerra Contra a Guerra! são difíceis de olhar. Contudo, ao que parece os corpos dos soldados mortos apodrecendo não são nada perto dos 24 closes de soldados com imensos ferimentos no rosto. Sontag chama atenção que Friedrich não “cometeu o erro de supor” que as fotografias nauseantes falariam por si mesmas e inseriu legendas em alemão, francês, holandês e inglês. Com o apoio de associações de veteranos e organizações patrióticas, o governo alemão se apressou a denunciar o livro, que em algumas cidades foi retirado das livrarias pela polícia. Em 1938, o cineasta francês Abel Gance dirigiria o pacifista Eu Acuso (J’Accuse). Onde os soldados desfigurados mortos se levantam e aterrorizam os vivos. Mas parece que não é só no Brasil que a memória é curta, apenas um ano depois Hitler invade a Polônia e começa a Segunda Guerra Mundial (7).

Notas:

Leia também:
A Família Alemã e o Cinema Nazista (I), (II), (final)

1. SONTAG, Susan. Diante da Dor dos Outros. Tradução Rubens Figueiredo. São Paulo: Companhia das Letras, 2003. P. 22.
2. Idem, pp. 21, 23-4, 26.
3. Ibidem, p. 61.
4. Ibidem, p. 39.
5. Ibidem, pp. 43, 50.
6. Ibidem, pp. 38, 43.
7. Ibidem, pp. 18-9.

6 de set. de 2009

Desinformação Já



“Uma escola que
não ensina como
assistir à televisão
é uma escola que
não educa”


Joan Ferrés
Televisão e Educação


A
s Coisas e as Imagens das Coisas

Quase sempre, dos milhares de filmes de ação (guerras e tiroteios) vomitados por Hollywood, só chamam a atenção da maioria as belas luzes, um espetáculo para os olhos; além de um suposto heroísmo (na imagem acima, vemos uma cena real de batalha com tropas norte-americanas no Iraque; na imagem ao lado, a imagem não cinematográfica, sem glamour e sem heroísmo da mesma guerra. As duas imagens são de 2003). Lá na terra do Tio Sam (nas emissoras de tv norte-americanas), como cá (nas emissoras de tv brasileiras que cobrem as batalhas entre polícia e bandidos nos morros cariocas), não se mostra as vítimas, não se mostram seus corpos destroçados.

Esse tipo de coisa não dá ibope e, além do mais, pode gerar movimentos da sociedade contra a violência. E mesmo que mostrasse, será que a sociedade brasileira DESEJA saber? Na estratégia de dessensibilização generalizada e no faroeste televisual onde quase já não se distinguem mocinhos de bandidos, tudo é "ação". No comportamento belicista patético que se procura transformar em heroísmo, esconde-se a herança da “sociedade da informação”: desinformar é preciso.

Imagine que você vive num país onde a distância entre tv aberta e tv a cabo é um pouco maior do que se supõe. Especificamente no caso dos noticiários. Imagine que na primeira as notícias sejam rápidas, ralas (talvez porque o interesse seja segurar a audiência para assistir a propaganda, que ocupa mais espaço nos noticiários do que as notícias). Na tv a cabo, os assuntos (ou certos assuntos), são discutidos a exaustão por especialistas. Imagine agora que os públicos das duas são diferentes (ou melhor, pertencem a classes sociais distintas). Sendo a tv a cabo mais cara, naturalmente são as classes baixas que ficam restritas ao “noticiário ralo”. (todas as imagens deste artigo mostram situações reais, não se trata cena cenas de filmes; abaixo, soldado norte-americano cobre Saddam)

Você poderia concluir que, com a generalização do roubo do sinal de tv a cabo naquele país, a informação seria democratizada finalmente! Agora você só tem que descobrir quais são os canais de tv a cabo que a população que rouba o sinal DESEJA assistir. Você poderia ainda concluir que “noticiários profundos” deveriam ser os mesmos (dar a mesma informação) na tv aberta ou no cabo, mas que isso seria naturalmente impossível porque imagens, entrevistas e textos são editados (cortados). O problema não parece ser apenas o fato de que a tv (qualquer uma delas) reconstrói o real ao editar e montar as imagens para que possam caber na programação (entre os intervalos, que contém as propagandas - que é o que importa às emissoras). O problema é que as pessoas parecem não perceber isto que ocorre diante delas. Daí a perplexidade ante as imagens do atentado terrorista em 11 de setembro de 2001 ao World Trade Center. Parecia um filme! Difícil agora compreender que não eram imagens e sim um acontecimento.

Não se duvida que a tv recrie o real. O que alarma é a falta de censo crítico em relação à programação/recriação do real e/ou a forma como são veiculados. A discussão quanto à possibilidade ou não de censura aos programas apelativos é típica. Põe-se a perder a possibilidade da população responsabilizar-se pela programação a partir da hipótese de que isso constituiria censura aos meios de comunicação. Sim, como não, censuram tudo aquilo que não lhes interessa. Por que só nós não podemos decidir o que queremos?


Como se não fosse ato de
censura quando as emisso
ras
de tv decidem só mostrar
o que quiserem...




Alguns retrucariam que pensar assim
é dar importância demais à televisão, quando ela é apenas um eletrodoméstico. Se ela fosse tão irrelevante, o preço do minuto de propaganda não seria tão exorbitante. Se fosse tão irrelevante, as eleições não seriam decididas em debates no horário nobre e a verba de propaganda de empresas e governo não seria maior que os investimentos em seu público e/ou eleitores.

Estereótipos Onde Não Deveriam Estar

Um dos temas preferidos da mídia quando quer criar um factóide internacional para dar ibope é a re-formatação de guerras no horário nobre. Como no caso de Saddam Hussein, ex-ditador do Iraque. Segundo o então presidente (pai do ex-presidente norte-americano) George Bush, Saddam era o império do mal em pessoa. A mídia se apressou em reproduzir mais um estereótipo do déspota oriental. Naturalmente, e infelizmente, o que ninguém vai dizer é que o Saddam real havia sido uma criação do próprio governo norte-americano. Eles precisavam de alguém para servir de bucha de canhão e fazer uma guerra contra o vizinho do Iraque em 1979.

O vilão de então era o Irã do Aiatolá Kolmeini, que tirou seu país das garras dos norte-americanos e de seu fantoche o Shah Reza Palevi. Das atrocidades patrocinadas pelos norte-americanos, e cometidas por Saddam contra os iranianos ninguém sabe, ninguém viu. (imagem acima, mais um banho de sangue no Iraque)

Aliás, essa arrogância é típica de países que constroem seus impérios sobre as cinzas das liberdades dos povos. No filme Mauá, o Imperador e o Rei (1999), ocorre um diálogo entre o futuro Barão de Mauá (ainda bem jovem) e um negociante inglês bem sucedido. Dizia o britânico que a escravatura tinha que acabar porque não interessava aos ingleses. Afirmou também que o mundo está mudando porque a Grã-Bretanha assim deseja. Deu alguns livros de economia para o jovem Mauá e disparou: “a língua é o inglês”.

Inimigos Construídos

Com Osama bin Laden a história se repete. Criação norte-americana para insuflar os guerrilheiros contra as tropas russas que haviam invadido o Afeganistão (1979-89). Agora que a coisa fugiu ao controle, o que George Bush filho disse na época que resolveu invadir o mesmo Afeganistão? “É a luta do Bem contra o Mal...” Novamente o discurso fundamentalista. Mas o fundamentalismo que aparece é o do Talibã, sempre seguindo aquela receita de bolo do estereótipo do déspota oriental. (imagem ao lado, Osama, uma figura que deve ser mantida viva a qualquer custo para justificar a militarização do discurso norte-americano)

Por que imagens do ataque dos terroristas puderam ser mostradas ad nauseum, mas as imagens dos ataques ao Afeganistão são sistematicamente censuradas? Como pode ser que as transmissões da guerra do golfo nunca mostraram destruição ou mortos de ambos os lados? Mas... A mídia ocidental não é um exemplo de idoneidade para o mundo? O direito à informação não foi sempre uma bandeira do assim chamado “mundo livre” (como o Ocidente gosta de se auto-proclamar)?

E, por falar em impérios, segundo Walt Disney, o império feudal e absolutista da Rússia do Czar Nicolau era melhor ou mais legítimo que o regime comunista. Esta distorção da realidade deve dar calafrios em qualquer professor de história. E aqui não vai nenhuma defesa da ditadura na qual degringolou o regime comunista soviético. É só dar uma olhada no desenho animado Anastácia. A mensagem é que o regime pusilânime da casa dos Romanov era democrático, doce, limpo e angelical como na estória da gata borralheira!

Emissoras que Não se Vedem? Existe Isso?

Como lembrou Silio Boccanera, na guerra a primeira vítima é a verdade. O governo dos Estados Unidos reclamou, dizendo que a rede de tv do Qatar, Al Jazeera, fazia propaganda anti-norte-americana ao transmitir pronunciamentos de Osama direto do Afeganistão. Fato: grandes redes de tv norte-americanas perderam muito, cerca de 350 milhões de dólares, ao não transmitirem propagandas na cobertura do ataque terrorista ao World Trade Center. A CNN passou seis dias sem propagandas – por motivos... humanitários. Como se o Pentágono não manipulasse as informações ao enfatizar as imagens dos pacotes de ajuda humanitária lançados aos refugiados afegãos (1).

Quem vê os combates? Não se trata de morbidez, a questão é quem é que vai dizer quem venceu? Notícias de baixas? Só do lado do Talibã. Helicóptero norte-americano abatido? Foi pane, problemas técnicos... O governo norte-americano considera que a Al-Jazeera está servindo como suporte para as idéias de bin Laden. O então Secretário de Estado, Collin Powell, disse... “somos a favor de liberdade de imprensa, mas pensamos que ela não pode servir como suporte para disseminar idéias terroristas. Osama bin Laden não pode usar a mídia para difundir suas idéias” (2).

A Al-Jazeera transmitiu uma gravação do porta-voz da Al-Qaeda, Suleiman Abou-Gheith, na qual repete as palavras do líder bin Laden dizendo que a América não terá paz enquanto os muçulmanos não tiverem. O irônico é que Powell e o então Primeiro Ministro britânico Tony Blair concederam entrevistas à Al-Jazeera, e outros líderes norte-americanos também tentaram o mesmo. O que está parecendo é que a emissora árabe está sendo porta voz de todo mundo e o governo norte-americano está querendo c e n s u r a r, em nome de seus próprios interesses. Mas... não era a América (do norte) o bastião da liberdade de imprensa?

Jornalismo?

Richard Reeves considerou ruim o comportamento da imprensa no que diz respeito à cobertura do conflito no Afeganistão, após os atentados de 11 de setembro de 2001. Segundo ele, o jornalismo televisivo acabou. Portanto, a polêmica em torno da autocensura das emissoras norte-americanas quanto a manter uma superficialidade em torno das notícias da guerra não fez a menor diferença. Aqueles que operam as câmeras são mais importantes que os jornalistas, já que cada vez mais a imagem é tudo. Segundo Reeves, o número de bons profissionais na tv norte-americana vem diminuindo gradativamente. Afirmou que jamais confiaria numa informação passada pela tv sem checar. Segue dizendo que a imprensa norte-americana é responsável pela onda de desinformação, já que nos últimos dez anos os jornais norte-americanos removeram 80% dos correspondentes no Oriente Médio. As empresas alegam que é muito caro manter jornalista num outro país até que compreenda a cultura.

Conclui-se, portanto, que ninguém ligava se o Paquistão (ditadura/país vizinho do Afeganistão e que os Estados Unidos buscaram como aliado) estava desenvolvendo armas nucleares nesses mesmos últimos dez anos. Ironiza a visão narcisista dos norte-americanos, como quem diz: “não ligamos, somos uma superpotência e ninguém vai nos atacar”. O que significa dizer que os norte-americanos não sabem nada sobre as ameaças que pairam sobre si. Segundo Reeves, o próprio ex-presidente Bill Clinton é culpado pela disseminação dessa postura narcisista. Por outro lado Reeves, para quem Bush é simplesmente alguém muito ignorante, não acredita que este presidente norte-americano tenha discernimento para saber das coisas o suficiente a ponto de conseguir mentir sobre elas para a imprensa (3). (imagens acima e abaixo, quando se trata da verdade dos fatos, onde fica a fronteira com o sensacionalismo?)

Quando a Verdade Não Dá Ibope

A mídia, com sua miopia, enfatizava os números de vítimas no atentado, deixando de lado uma infinidade de massacres que ocorrem a muito tempo. Muitas guerras são desconhecidas porque simplesmente estão fora do noticiário. Quando acontece de algum desses países “desconhecidos” revidarem agressões das grandes potências em seu próprio território, como foi o caso dos atentados no World Trade Center, as pessoas incrédulas começam a engrossar o coro daqueles que vão classificá-los de loucos, que atacaram sem motivos... Alguns dados: Desde 1975, e durante os 26 anos seguintes, acontecia uma guerra civil em Angola. O país está todo destruído, economicamente falido e entupido de minas terrestres, mutilando milhares a cada ano. Mais de um milhão de pessoas morreram. Outro conflito se deu entre duas ex-repúblicas soviéticas, Azerbaijão e Armênia. Matou mais de 30 mil, com dezenas de milhares de refugiados. O Sri Lanka, antigo Ceilão, está numa guerra civil que se arrasta e mais de 64 mil já morreram desde 1983 (4). Temos que admitir, nós brasileiros, que sabemos sim dos nossos milhões de excluídos, a quem é negada cidadania.

Temos que admitir saber que morrem de fome. Deveremos admitir nossa omissão, quando finalmente se voltarem contra nós. Temos de admitir que não vai dar para chamá-los de fanáticos ou radicais quando... Numa sociedade de consumo, onde a cidadania é medida pela possibilidade que temos de fazer compras, a tv é um agente do consumo. Como disse Joan Ferrés...

“A televisão nega a realidade quando a reduz a estereótipos. Os estereótipos falsificam a realidade porque a simplificam ou a deformam, com base em condicionamentos culturais derivados sempre de um jogo de interesses explícitos ou implícitos”(...)”O jornal USA Today demonstrou a visão falsificada da realidade que é oferecida pela televisão americana por meio da análise exaustiva de 94 shows exibidos durante uma semana em 1993, na faixa horária de máxima audiência, pelas quatro grandes redes do país, ABC, CBS, NBC e FOX”.(...)” O protótipo do americano mostrado pela televisão nunca assiste à televisão, faz as refeições sempre fora de casa, nunca lê, não entra em supermercados e explica uma piada sobre sexo a cada quatro minutos” (...) “Dentro desse contexto não pode surpreender a expressão de Umberto Eco: ‘Símbolo é tudo aquilo que serve para mentir’. A linguagem como sistema para mascarar a realidade e não para revelá-la”(...)”A imagem não demonstra ser não uma janela aberta para o mundo, mas uma tela entre o espectador e o mundo, um filtro para o mascaramento da realidade, um obstáculo para uma comunicação transparente. Usando uma expressão de Jean Baudrillard, quando aparentemente mais nos aproximamos da realidade - por intermédio de uma imagem em movimento, a cores, sonora e instantânea – mas nos afastamos dela. E ocorre que ‘atualmente o escândalo já não está mais no atentado aos valores morais e sim no atentado contra o princípio de realidade” (5)

Mas talvez não exista motivo para preocupação. Afinal... A televisão é só um eletrodoméstico! (ao lado, o ex-presidente norte-americano George W. Bush em visita a centro de reabilitação para seus soldados vitimados no campo de batalha, 2007)

“Nenhum vento sopra
a favor de quem
não sabe para onde ir”

Sêneca




Notas:

Leia também:

A Cultura da Arma na América do Norte (I), (II), (III), (IV), (V), (final)

Isto é Holyywood!

O Cinema e o Passado: O Caso do III Reich (I), (II), (final)

1. BOCCANERA, Silio. Tv’s amargam perdas e danos da guerra. Globo News. 09/10/2001. Disponível em: http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos/asp1710200199.htm Acessado em: 05/09/2009.
2. EUA acusam al-Jazeera de colaborar com o Talibã. 10/10/2001 - 20h43m - GloboNews.com Fonte: Reuters. Disponível em:
http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos/asp1710200198.htm Acessado em: 05/09/2009.
3. FOLHA DE SÃO PAULO, folha online, da sucursal Nova York. Jornalismo na tv acabou, diz especialista. 11/10/2001. Disponível em:
http://www1.folha.uol.com.br/folha/mundo/ult94u31096.shtml Acessado em: 05/09/2009.
4. CIMENTI, Carolina. Guerras do terceiro mundo não têm audiência. Redação Terra, informações da Reuters. 02/10/2001. Disponível em:
http://br.groups.yahoo.com/group/ciencialist/message/11575 Acessado em: 05/09/2009.
5. FERRÉS, Joan. Televisão e Educação. Tradução de Beatriz Affonso Neves. Porto Alegre: Artes Médicas, 1996. Pp. 50-51. Citação de Baudrillard em, La guerra del Golfo no há tenido lugar. Barcelona: Anagrama, 1991. Pp. 48 e 86-87.

Fontes das imagens:

Viral Politics
David Leeson
Yraceme
Pasta abu-graib/ (imagem 32e)
Encyclopedia Britanica Blog
Propaganda Matrix
Poor Mojo Newswire

17 de ago. de 2009

A Cegueira da Visão (final)

“O bom
em uma
mulher
é que você não note
nenhuma parte dela
,
só note que ela está presente”


Ivo Pitanguy
Cirurgião Plástico
(1)


O Que Pode Um Corpo?

Essa distância entre eu e minha imagem no espelho tende a substituir a distância entre eu e meu “eu profundo”. Pode-se dizer que a cegueira da visão está na importância desmedida que damos a esse “lado de fora do lado de fora”. Uma distorção em relação a nossa própria auto-imagem não é exclusividade de pessoas bulímicas e anoréxicas. Na “cultura das imagens”, tudo que “parece que é” torna-se mais importante do que aquilo que as coisas e pessoas são de fato.

Quem nunca ouviu a frase, “é tão bonito que parece uma pintura!” Esta colocação inocente dá conta da importância que tendemos a dar ao mundo da imagem (da cópia, do duplo). Damos tanta importância que chegamos a inverter os termos e, para elogiar alguém, algum animal, objeto ou paisagem, dizemos que parece uma pintura. Na verdade, o elogio maior seria dizer, “como o mundo real é belo!”. Mas não, elogiamos o mundo real dizendo que ele é tão bonito que parece uma cópia dele mesmo!

A visão parece perder a razão de existir. A cegueira da visão talvez seja a cruz que temos de carregar, numa sociedade onde o “eu profundo” e invisível perde cada vez mais espaço para um mundo superficial, que se constitui cada vez mais numa espécie de refúgio para os doentes que ele mesmo criou e reproduziu. Um mundo das aparências ou uma espécie de “esquizofrenia das aparências”, já que como apenas vamos comparar uma imagem com a outra, perdemos a dimensão material que está por trás dela. Talvez seja por essa razão que pessoas excessivamente ligadas em sua aparência tendem a não dar importância aos sinais que seu organismo manda (avisando que ele está chegando ao limite). Mas o que importa o corpo físico (o que importa a realidade?) quando a imagem desse corpo vale mais do que ele próprio?

Nota:

1. Jornal O Globo, 23/05/2004, p.2.

16 de ago. de 2009

A Cegueira da Visão (II)

O que Importa a Realidade?

Em 1972, Gina Pane criou uma instalação tendo a cor branca como tema, chamava-se O Branco não Existe. Vestida de branco, ela começou a se cortar com uma gilete até que sua roupa estivesse manchada de sangue. Interrompeu a ação para jogar com uma bola de tênis. Então se virou para a platéia e aproximou a gilete do rosto. A tensão explodiu quando cortou as bochechas. A platéia gritava, “não, não, não o rosto, não!“. Gina pretendia tocar na questão da estética pessoal. Para ela, “o rosto é tabu, o centro da estética humana, o único lugar que retém um poder narcisista” (1).

Possivelmente, muitos de nossos problemas não existiriam se fossemos cegos de nascença. Se não soubéssemos, desde sempre, o que existe de tendencioso, preconceituoso e de manipulação da auto-estima no olhar que temos em relação a nossos corpos, talvez (só talvez) fossemos mais... felizes (ou, pelo menos, mais interessados naquilo que em princípio é o que importa: nossa humanidade).

No mundo superficial da imagem que nos rodeia como uma rede gigante, uma “pedagogia da fuga de si mesmo” se apresenta como uma “ética negativa do bem viver”. Uma rede gigante que nos apanha sem que percebamos e, quando damos por nós, estamos tão presos nesse universo de autonegação que nos sentimos incapazes de romper o ciclo vicioso patrocinado pelo mundo das aparências e seus fetiches.

Muitas pessoas que possuem o dom da visão tendem a utilizá-la de forma equivocada. De fato, algumas pessoas não enxergam aquilo que vêem em seus corpos. Por uma ironia do destino, o ponto que centraliza nossa identidade (o rosto) só é visível por nós mesmos através de um espelho. Quando só nos preocupamos em nos ver por fora, curiosamente não conseguimos fazer isso senão com a ajuda de algo que está fora de nós: um espelho.

No distúrbio neurológico chamado prosopagnosia, o indivíduo é incapaz de reconhecer rostos, mesmo de amigos e familiares. Essa é uma patologia rara; menos rara é a que nos faz acreditar que somos aquele corpo-imagem (sem um corpo físico) que vemos no espelho e não aquele corpo físico que é o referente material dele. Resultado: o corpo físico deverá a qualquer custo se adaptar ao corpo-imagem; só que o corpo físico adoece, enquanto o corpo-imagem nada sofre. Nesse contexto, o corpo físico passa a ser o inimigo número um dessa imagem que não tem nenhum compromisso com a realidade.

As palavras são as ferramentas da artista norte-americana Jenny Holzer. Ela costuma inserir frases em outdoors, painéis eletrônicos e até mesmo camisinhas, incitando o público da cidade a refletir sobre si próprio a partir delas. Holzer trabalha o potencial subversivo das palavras, mostrando que nem tudo que vemos fora de nós é nocivo para nosso autoconhecimento. As palavras estão fora de nós, mas se as arrumamos de uma determinada maneira em certas frases, teoricamente elas são capazes de nos levar a refletir uma auto-imagem mais coerente. Além disso, as palavras possuem uma dimensão aural (elas não são apenas visíveis, são audíveis também), o que significa que não estamos presos à visão. Isso é importante na medida em que, além de não conseguirmos mais nos enxergar, também não conseguimos mais nos ouvir. Um de seus trabalhos mais conhecidos ostenta a seguinte frase: “proteja-me do que eu quero”.

Nota:

1. WARR, Tracey; JONES, Amélia. Artist’s Body. London: Phaidon Press Ltd, 2000. P. 121.

28 de jul. de 2009

O Rosto que Temos e Aquele que Vemos (II)



Parece que

seja qual for o
lado do espelho
em que estivermos
o outro lado será
sempre mais
satisfatório



O Outro Lado do Espelho

Considere o rosto da Górgona Medusa, aquele ser da mitologia grega para quem não se podia olhar o rosto sob pena de virarmos pedra. Será “Medusa” outro nome para “espelho”? Poderia ser, caso sejamos cegados pela imagem de nosso corpo devolvida pelo espelho. Seria o mesmo estranhamento da visão do rosto da Medusa? De acordo com Jean-Pierre Vernant, em A Morte nos Olhos, nosso medo de enfrentar uma alteridade radical apresenta-se sob a forma de uma máscara que aliena o homem de seu próprio rosto, tornando-se irreconhecível para si mesmo. Entre as divindades gregas é a Medusa que encarna essa máscara, sua face monstruosa traduz “a extrema alteridade, o temor apavorante do que é absolutamente outro, o indizível, o impensável, o puro caos” (1).

A visão de uma alteridade radical em nossa imagem refletida no espelho, que no fundo traduz um horror: somos nós retidos, mas ao mesmo tempo é outra coisa, um ser espectral, uma imagem, um duplo de nós que deveria ser (apenas) nossa cópia, mas que tomamos cada vez mais como se fôssemos nós ali naquela casca virtual. Estamos nos entregando à nossa negação, entregando para a morte. Já não importa o que fazemos de nossos corpos, pois já nos largamos aos devaneios do mundo da imagem. Mais visível do que nós mesmos, somos nossa imagem, aquela multidão de duplos! Meu não-eu é agora mais visível do que meu eu.

Os gregos antigos falavam da Medusa referindo-se à alteridade, experiências de um Outro radicalmente diferente. Na falta de um sentido, o humano criará algum, qualquer um, mesmo que não faça sentido – “arrumar” o mundo. Mas podemos afirmar que qualquer sentido é melhor que nenhum? Outros dirão que seu reflexo no espelho não destrói, mas, ao contrário, dá sentido a suas vidas. No final, a maior maldição é essa, não perceber que a falta de sentido talvez não seja um problema, mas a solução. O caos que advém daí é o melhor lugar para construir novos sentidos, ao invés de procurar se adequar àqueles que o mundo impõe? Por outro lado, romper com o sentido que justifica a vida dos outros e construir o seu próprio também é escravizar-se à busca de um sentido. É uma constatação que, ao fecharmos com um sentido, limitamos nossa vida em relação a outros sentidos possíveis.

Espelho, espelho meu,
minta para mim
,
acreditarei em você


Seríamos como a lua? Ela não possui brilho próprio, sua face só é visível em função da luz do sol que nela se reflete. Se podemos vê-la, isso só acontece em função do brilho de outro: o sol. Seríamos como o sol? Ele possui luz própria, mas não podemos olhar para ele diretamente (ficaríamos cegos), apenas para as coisas que ele ilumina. Talvez seja esta a maldição do sol/ser, nós só conseguimos nos ver indiretamente, através daquilo que eventualmente se iluminar com nossa presença. (imagem acima, de autoria de Avigdor Arika; ao lado, autoria de Gianguido Bonfanti; abaixo, autoria de Roberto Magalhães)

Até que ponto realmente nos compreendemos através daquilo que vemos de nós fora de nós? Uma viagem de si para si mesmo através de um reflexo fora de nós requer autocontrole, não podemos confundir quem somos com aquilo que é apenas nosso reflexo, mera imagem daquilo que somos. Ou podemos?


Mentir faz parte da
natureza
do espelho



Há quem diga que somos ressentidos com a vida e buscamos dar-lhe qualquer sentido a qualquer preço – “arrumar” a vida. Os que buscam sentido estariam perdidos no ressentimento porque a todo custo procuram justificar suas vidas a partir de um sentido que anteceda a si próprio (Deus, a evolução das espécies, etc). Precisamos estar mais atentos à hipótese de que nossas vidas ou, enfim, a vida, não possua sentido algum. Ela apenas existe! Talvez, só talvez, o universo não tenha significado. Nós inventamos significados, geralmente bons para nós, para sobreviver à constatação do nada. Preencher o nada com algo é uma coisa, outra coisa é tentar substituir esse nada como se sua presença não fosse um fato.

Em sua “ação” de construção de significados, o ser ressentido não estaria realmente “agindo”. No sentido nietzschiano do termo, ao criar significados para preencher o nada, o ressentimento age, mas essa é uma ação doente. De acordo com esse ponto de vista, o ressentido parte de um dualismo dialético imaginário entre um eu e um não-eu que ele criou para caracterizar uma suposta falta de sentido, que se opõe ao sentido que ele acredita que existe. Assim, na incapacidade de viver na constatação de sua insignificância (sua falta de sentido), o ressentido inventa significados. Mas estes significados precisam de algo que se oponha para que seu sentido “faça sentido”. Alguns chamaram de “essências” a esses significados que criaram, mas que julgam que estavam aqui antes deles, justificando sua chegada (2).

Entre o significado e o nada, o rosto fica perdido no meio de uma confusão. Ele é forçado a fazer “sentido”, a se encaixar nos sentidos que a cultura estabelece. Mas, afinal, o que pode um rosto? O que pode um corpo?

A Cara do Meu Retrato


“O pintor sempre
pinta a si mesmo”


Comentário de Picasso para William
Rubin, citando Leonardo Da Vinci




Na opinião de William Rubin, no início do século XX foi Pablo Picasso o pintor que de forma mais eficaz conseguiu alargar as possibilidades e limites do retrato. Até essa época, quando se olhava um “retrato” pintado, havia a pressuposição de um paralelismo visual entre a coisa vista e sua imagem. A razão de ser de um retrato consistia em fazer conhecer a aparência física e a personalidade do retratado. Picasso mudou tudo isso, para ele o retrato deveria ser uma transcrição das reações pessoais do artista em relação ao retratado. Dessa forma, o que antes constituía um documento que se pretendia objetivo torna-se francamente subjetivo (3).




(...)Ele pensa
que um quadro
deve dar
o equivalente
pictural da emoção
suscitada pelo

sujeito”

Comentário de Marius Zayas,
a respeito do estilo de Picasso, 1910






Identidade e semelhança adquirem novos
sentidos nos retratos pintados por Picasso



De acordo com Picasso, o retrato traz uma incerteza em relação à própria noção de identidade. Antes a identidade era fixa, agora está sujeita a mutações. Grande parte dos retratos Picasso pintou de memória, não buscava uma cópia do modelo retratado, mas mostrar como o pintor os “vê”. Picasso não renunciou completamente ao realismo, mas redefiniu sua abrangência. Em alguns casos, trabalhou com o modelo, multiplicando suas poses (Femme Assise (Jaqueline), 27 de novembro de 1960) (imagem acima, à direita). Noutros executa retratos de memória que, segundo Rubin, estão entre seus trabalhos mais realistas (Portrait de Jaqueline, 21 de outubro de 1955) (imagem acima, à esquerda). A partir de 1906, para Picasso a idéia de “semelhança” é outra coisa.

"eu não procuro,
eu encontro"

Pablo Picasso


Tampouco podemos confundir com timidez, afirmou Kirk Varnedoe, alguns auto-retratos que tendem a mostrar apenas parte do rosto de Picasso: Auto-Retrato, de (1901) (imagem ao lado) e Picasso et Casagemas (1900, o pintor está em primeiro plano, com a gola do capote escondendo metade do rosto) (imagem acima, à direita). Numa fotografia tirada entre 1901 e 1902, a imagem do artista quase some, Picasso aparece como uma presença fantasmática (4) (imagem abaixo).

Picasso mostra que, na busca
de uma identidade
, o retrato pode
se afastar muito da se
melhança


Se considerarmos apenas seus auto-retratos “realistas”, não vamos além dos que produziu até os trinta anos, o restante são estudos de seu rosto em desenhos e gravuras de menor importância. Entretanto, se expandirmos o conceito de auto-retrato, encontra-se muitos personagens nos quais Picasso não parou de se projetar: arlequins, mosqueteiros e minotauros. Varnedoe defende a hipótese de que toda a obra dele é autobiográfica.

Esta não seria uma afirmação surpreendente, se admitirmos que cada um de nós é intrinsecamente complexo, constituindo-se a partir da combinação de elementos em conflito, sendo bastante comum a incorporação de aspectos da personalidade alheia (5): nossos parentes, professores, amores, rivais ou até personagens fictícios. As auto-representações polimorfas de Picasso oferecem um inventário de seu mundo.

“O Auto-Retrato
de junho de 1972 foi o último.
Ele projetou nesta máscara as
emoções que não queria guardar
em si mesmo, de forma a poder –
e nós com ele – afrontá-las enquanto representações. Quando Picasso se olhou
no espelho, nesse dia de verão em seus
91 anos, navegava por territórios que
bem poucos dentre nós está preparado,
e onde muito pouca arte foi produzida.
A ponto de partir para uma viagem
da qual nenhum explorador voltou,
ele viu adiante e nos deixou, antes
de fechar a porta, essa última
mensagem cifrada no código da
semelhança física” (6)

Notas:

1. VERNANT, Jean-Pierre. A Morte nos Olhos. Figuração do Outro na Grécia Antiga. Ártemis e Gorgó. Tradução de Clóvis Marques. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2ª ed., 1991. Pp. 12-3. Citado em MORAES, Eliane Robert. O Corpo Impossível. A Decomposição da Figura Humana, de Lautréamont a Bataille. São Paulo: Editora Iluminuras Ltda, 2002. P. 213n18.
2. DELEUZE, Gilles. Nietzsche e a Filosofia. Tradução de António M. Magalhães. Porto, Portugal: Rés Editora Ltda. (sem data). Pp. 172 e 183.
3. RUBIN, William. Réflexions sur Picasso et le Portrait In RUBIN, William (org) Picasso et le Portrait. Paris: Flammarion/Réunion des Musées Nationaux, 1997. P. 13. Catálogo de exposição.
4. VARNEDOE, Kirk. Les Autoportraits de Picasso In RUBIN, William (org). Op. Cit., p. 118.
5. Idem, p. 111.
6. Ibidem, p. 175.

24 de jul. de 2009

O Rosto que Temos e Aquele que Vemos (I)


“A beleza é assimetria
sutil
, não pureza” (1)

Hans-Leo Nathrath
cirurgião plástico

Arrumando o Mundo

Apesar do nome que damos às coisas, dependendo do nosso ponto de vista elas poderiam ter vários outros. Cada nome remete a dimensões diversas de uma mesma realidade. Algo que chamamos de lago poderia chamar-se mar se fossemos insetos. Um simples parque para nós, seria algo parecido com o paraíso para alguns outros minúsculos insetos. Dada a fluidez do real, as palavras nos são indispensáveis, pois o mundo não pára de escorrer entre por entre os dedos. Afinal de contas, precisamos que alguma coisa nos assegure que alguém ou algum objeto existe, mesmo quando não podemos vê-lo ou estamos de costas para ele.

E quando aquilo que vemos não é real, ainda que veja a única forma de comprovar uma existência? A imagem no espelho não somos nós, no entanto ela nos representa fielmente. O espelho, um objeto de vidro, assim como nosso corpo físico, existe, mas aquilo que reflete não passa de uma imagem. Um duplo de nós que frequentemente nos satisfaz (porque acreditamos que reflete a realidade), a ponto de prestarmos mais atenção nessa imagem do que em nós. Seja lá por que motivo for, é fato que nosso eu, nossa subjetividade, nosso eu para nós mesmos, está quase sempre projetado em nossos rostos. Entretanto, só conseguimos olhar para eles com a ajuda do espelho: para olhar em nossos olhos, precisamos de algo fora de nós, mas que só nos pode devolver uma cópia sem substância. (imagem acima, O Grande Paranóico, Salvador Dali, 1936)

Somente as outras pessoas podem nos olhar nos olhos, nós não temos essa capacidade. Nossa experiência de nosso rosto é vaga e ambígua, se não mexemos os músculos do rosto, sentimos um buraco em seu lugar. Mesmo assim, não conseguimos “sentir nosso eu” se não nos fixamos em nossos rostos. Nós tendemos a nos fixar mais nos rostos dos outros do em nosso pensamento sobre nosso rosto. Nós e os outros estamos em seus rostos, quando deveríamos estar em outro lugar. Quando nós mesmos estamos diante do espelho raramente nos encaramos de verdade, olhamos para todo o nosso corpo, menos para nossos rostos – e muito menos ainda para nossos olhos. Encarar os outros é fácil.

Se o espelho nos dá apenas uma cópia, então não estamos olhando para nós mesmos quando nos miramos neles (nem mesmo quando nos encaramos). Onde está nosso eu se não podemos transformá-lo em imagem? Se não podemos nos ver, como é sentir o que somos? Qual é a sensação de si quando não é engendrada por uma imagem? Se acreditarmos que ser é estar no mundo, então nosso corpo, sua carne, teria um papel importante em nossa percepção de nós mesmos. Entretanto, como experimentar nosso eu corporeamente sem cair na tentação de cultivar sua imagem? Experienciar o próprio corpo implica olhar para ele? Então quando nosso corpo será suficiente para nos dar uma imagem fiel daquilo que acreditamos que somos? Na sociedade contemporânea, onde a imagem vale cada vez mais do que o referente que ela está a refletir, talvez tenhamos poucas chances de chegar a nos conhecer.

Com palavras “arrumamos” o real para “entendê-lo”, talvez a imagem possua também alguma função positiva. Contanto que não percamos de vista que estamos “arrumando” o real. Quando vemos uma fotografia de algo em movimento, podemos até encontrar alguma beleza na imagem. Mas não podemos perder de vista que aquela “realidade da imagem” é uma ficção! Na realidade, aquela fotografia corresponde a milionésimos de segundo na vida daquilo que foi fotografado. Quando “arrumamos” o real ou olhamos para uma fotografia de alguma coisa em movimento, devemos saber que aquilo é uma ficção. Uma imagem não respira, somos nós que respiramos. A vida é ao vivo! Isso deveria fazer alguma diferença ou algum... sentido?

Notas:

1. TASCHEN, Angelika (ed). Cirurgia Estética. Köln: Taschen, 2005. P. 196.

19 de jan. de 2009

A Fabricação do Herói (final)





Obras Encomendadas

A glorificação de Tiradentes encontra muita receptividade no governo, mais do que qualquer outro protagonista de nossa história. Em 1890, um único decreto estabelece as comemorações do 15 de novembro (Proclamação da República) e do 21 de Abril (Inconfidência Mineira). Com muitas obras encomendadas aos artistas de plantão, a imagem do herói-mártir se cristaliza definitivamente na memória nacional. O fato de pouco se saber da vida real de Joaquim José da Silva Xavier até facilitou o trabalho dos artistas, que ficaram livres para recriá-lo. “A vida de Joaquim é parasitada pelo mito”, agora a figura heróica preenche de tal maneira o vazio da biografia dele que, de ilustração, acaba se transformando na verdadeira vida de Joaquim.

É segundo esta perspectiva, afirma Maria Alice Milliet, que a litografia de Décio Rodrigues Villares deve ser compreendida. Com efígies do Tiradentes distribuídas ao povo pelo governo durante o desfile comemorativo da data em 21 de abril de 1890, o pseudo-retrato criado por Villares é considerado a imagem fundante: Tiradentes, para os brasileiros, é uma espécie de Jesus Cristo. Assim ele apareceu na litografia de Villares editada pela Igreja Positivista do Rio de Janeiro e assim permanece até hoje (imagem ao lado)

“O rosto visto de três quartos é o de um homem de tez clara, traços regulares, com pouco mais de 40 anos. A longa barba e os cabelos até os ombros emprestam-lhe um ar de estudada negligência. Seu olhar evasivo não fixa o observador, perde-se na distância. Como único adereço, traz uma corda enlaçada ao pescoço sem, contudo, ameaçar enforcá-lo. Abaixo do busto, vê-se a palma e a coroa de ramos de café enfeixados por uma fita onde se lê: 1792–Libertas Quae Sera Tamen e Ordem e Progresso–1889. No topo da prancha, ao centro, a legenda Tiradentes 1792-21-abril-1890. No canto inferior esquerdo vem: Edição do Apostolado Positivista do Brasil-1890, e na mesma altura, à direita, o autor D. Villares” (1)

Um Rosto Para a República

Na litografia de Villares, o texto controla a recepção da imagem, direciona o sentido, fixa uma interpretação. “Na conjugação palavra/imagem se arma a conotação ideológica do ícone concebido para o grande público”. Como nos lembra Milliet, uma imagem desprovida de pathos, onde o drama é apenas evocado: a corda delicada e frouxa em volta do pescoço pouco lembra o laço da forca. Ocorre também uma contaminação entre a mensagem política e a religiosa.

“A barba crescida sugere as duras condições da prisão, e os olhos mansos voltados para o além indicam desprendimento do mundo. O semblante aproxima-se do arquétipo da santidade: o santo, antes de mais nada, é alguém alheio às contingências da vida mundana. O ícone do herói confunde-se com certa iconografia do Cristo que consagra ‘um tipo fino e aristocrático, um tanto insípido’, cuja fixação ocorre no século XVIII, segundo [Germain] Bazin, na famosa pintura do Sagrado Coração de Jesus, de Pompeu Batoni (1708-87) para a igreja do Gesú de Roma” [imagem ao lado] (...)”Dessa tradição vem a fácil aceitação de figura cristianizada do Tiradentes” (2)

Em seu rosto não se vê tensão, não é o rosto impetuoso de um subversivo (como era visto no tempo do Império) ou o olhar passional do revolucionário. O que sobra é uma efígie olímpica, adocicada, próxima da medalha de devoção ou do santinho do catecismo. Nada, nenhum relato preciso da aparência de Joaquim, remete a essa imagem. Como resumiu Roland Barthes:

“Passando da história à natureza, o mito faz uma economia: abole a complexidade dos atos humanos, confere-lhe a simplicidade das essências, suprime toda e qualquer dialética, qualquer elevação para lá do visível imediato, organiza um mundo sem contradições, porque sem profundeza, um mundo plano que se ostenta em sua evidência, cria uma clareza feliz: as coisas parecem significar sozinhas, por elas próprias” (3)

Imagem da República, Imagem Positivista

A litografia de Villares foi encomendada pelos Positivistas do Rio de Janeiro. Seu patrono, Augusto Comte, havia criado em 1847 uma Igreja Positivista (a Religião da Humanidade) cujo objetivo era substituir os personagens religiosos pelos pais da Razão. Assim, seus templos, ao invés de imagens de santos tinham imagens de filósofos como Platão, Aristóteles, Rousseau, Hobbes etc. Homens da Razão e da Ciência. Apesar de se propor como uma opção à religião teológica, o catecismo positivista se apropria de símbolos do catolicismo. Em seu país de origem, a França, ela já estava extinta, mas no Brasil ela está viva até hoje (na Igreja Positivista do Rio de Janeiro). E foi essa Igreja que encomendou a imagem de Tiradentes que se cristalizou nos olhos e na imaginação do brasileiro.

A identidade entre Tiradentes e Cristo está no lema Positivista: Viver para Outrem. Tanto para o cristianismo quanto para o Positivismo, a idéia do mártir está ligada à figura do herói altruísta: a renuncia individual em benefício do interesse social. Uma dedicação dos fortes aos fracos e a veneração dos primeiros pelos últimos. Isso leva a reconhecer os homens ilustres como guias da humanidade e a reverenciá-los como se faz com os santos. O culto aos homens notáveis ou mortos ilustres é integrado então como elemento disciplinador das forças sociais. Segundo a diretiva do próprio Augusto Comte, o Gran-Ser “não incorpora a si senão os mortos verdadeiramente dignos”, “afasta de cada um deles as imperfeições que sempre lhe maculam a vida objetiva”. Era o que faltava para a idealização dos mortos, cuida-se de “melhorar a realidade” (4). Isso acontece também quando só encontramos elogios para alguém que acabou de morrer!

A França da Revolução, entre 1789 e 1799, também havia desenvolvido esse fenômeno. Com a desvinculação entre Estado e Igreja (instituída aqui pela Constituição de 1891), era necessário preencher o vazio. A necessidade do sagrado teria buscado satisfação no culto aos mártires da Liberdade, espécie de santos patriotas (5). (ao lado, o sacrifício do mártir, Tiradentes Esquartejado, de Pedro Américo, 1893)

Com tudo isso acontecendo numa época sem a imprensa e a máquina da propaganda de que dispomos atualmente, podemos imaginar (para aqueles que se arriscam a produzir pensamentos) o que pode estar em jogo na construção da imagem dos homens notáveis que a televisão vomita sobre nós diariamente. Quem são essas pessoas afinal? Nós as vemos e ouvimos, mas como distinguir entre aquilo que elas são e aquilo que elas apenas parecem que são? Sem falar nas imagens cuja legenda nos diz: "esse é bandido". O que exatamente distingue um homem notável de um bandido na sociedade brasileira? Quem define "bandido" e quem define "homem notável"? De repente, “ler” as imagens torna-se uma tarefa muito mais complicada do que fomos acostumados a acreditar...

Notas:

1. MILLIET, Maria Alice. Tiradentes: O Corpo do Herói. São Paulo: Martins fontes, 2001. P. 140.
2. Idem, p. 142.
3. BARTHES, Roland. Mitologias. São Paulo: Difel, 1988. Pp. 163-4. In MILLIET, Maria Alice. Op. Cit., p. 144.
4. COMTE, Augusto. Curso de Filosofia positiva, Discurso Preliminar Sobre o conjunto do Positivismo, Catecismo Positivista. São Paulo: Nova Cultural, 1988. P. 74 In MILLIET, Maria Alice. Op. Cit., p. 148. A ênfase é minha.
5. MILLIET, Maria Alice. Op. Cit., p. 152.

18 de jan. de 2009

A Fabricação do Herói (I)


Heróis Convenientes

Joaquim José da Silva Xavier poderia ter sido esquecido para sempre, não fosse a mudança da forma de governo em seu país, que passou da Monarquia para República. Mas quem é Joaquim? A República fez dele um mito, o que sempre acontece quando se instaura um novo governo, que geralmente cria seus próprios mitos de legitimação. Joaquim insurgiu-se contra a Monarquia, insurgiu-se contra o Poder constituído de sua época. Ele foi apanhado, juntamente com seus companheiros de insurgência.

A República, o poder constituído que veio a seguir, mas muito tempo depois disso, fez dele seu herói. Curiosamente, pelo menos para aqueles que não estão acostumados a ler nas entrelinhas da História, todos aqueles que eventualmente, a partir dos mesmos ideais de Joaquim, se insurgem contra a República e são considerados insurgentes, são punidos com infâmia, prisão, a covardia da tortura e a morte. Paradoxalmente, Joaquim se tornou o símbolo de liberdade e justiça que, teoricamente, está nas bases dessa República.

Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, intitulado Mártir da Liberdade e Patrono da Nação Brasileira, ganha comemoração anual, estátua, efígie, e um lugar nos livros escolares. Todos conhecem (ou já ouviram falar), desde criança, aquela figura de camisolão branco e corda no pescoço, invocando uma indisfarçável semelhança com Cristo. Maria Alice Milliet se pergunta (com alguns de nós): por que o vestiram como santo? (1)

Imagem é Tudo

Qual a relação entre o que é e o que parece que é, entre o real e a representação? Falando especificamente em relação à Inconfidência Mineira, quanto de verdade pode existir nos depoimentos dos conspiradores presos se foram tomados sob “constrangimento”? (2) Resta apenas a documentação oficial, nada existe sobre o plano de ação dos conspiradores. Curiosamente, em 1792, quando foi dada a sentença, apenas um dos conspiradores foi condenado. Joaquim José da Silva Xavier, que ainda não era Tiradentes, foi enforcado, esquartejado, as partes do corpo expostas a execração pública, os bens confiscados (parece que o Estado brasileiro continua gostando muito de fazer isso, ainda que com procedimentos mais sutis e hipócritas), os descendentes desmoralizados. Um cenário de terror sempre montado quando um poder dominante entra em crise e precisa manter seu domínio sobre a população-refém. (na imagem acima, a estátua de Tirandentes na frente da Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro; ao lado, podemos ver a mesma estátua, agora do ponto de vista da Assembléia. Ou seja, de costas para os legisladores. Abaixo, um protesto durante as comemorações da Inconfidência Mineira, em 21 de abril de 2008)

Um século depois, a Inconfidência Mineira perde o sentido negativo que tinha durante o Império e adquire um valor positivo durante a República. Tiradentes agora é saldado (e divinizado) como um herói. A dificuldade de se reconstituir a verdadeira história de Joaquim acaba permitindo a criação do herói em função de interesses e conveniências políticas. Maria Alice Milliet adverte sobre a importância de se revelar o que existe por trás do mito e sua aparente naturalidade (“isso aconteceu assim”).

“Isto porque a perversidade do mito não está em deformar o objeto a que se refere, mas em fazer com que a deformação pareça coisa natural. Tão natural e verdadeira que a invenção pode parecer mais real do que o real”(...)”Uma pintura pode ser tão relevante quanto um artigo de jornal, uma estátua tão ou mais reveladora que um poema, porque o mito, em sua ânsia de comunicação, não discrimina os meios, usando tanto a palavra quanto a imagem em diferentes suportes. Com habilidade perversa o mito descola-se da história” (3)

Cada Época Escolhe Seu Passado (4)

“Minta, minta que alguma coisa fica”

Josef Goebbels,
Ministro da Propaganda
de Adolf Hitler


Para justificar o presente, recorre-se ao passado. A Inconfidência Mineira entra para a história oficial do Brasil Republicano. A República deveria contar sua história (mesmo que tivesse que inventá-la). Bandeiras, hinos, estátuas, quadros, monumentos, cerimônias oficiais, tudo deve tornar visível e dar lastro histórico para a nova ordem política. Disso fazem parte os heróis da pátria (mesmo que tenham que ser inventados ou, reconstruídos à imagem e semelhança daquilo que a ordem política que ele representa enxergar como sendo ela mesma). Eric Hobsbawn chamou de invenção das tradições a esse procedimento, ao constatar sua freqüência na Europa, de 1870 a 1914, como também no continente Americano.

“Nesse período, os Estados criam deliberadamente mitos, símbolos e práticas sociais com o objetivo de mobilizar a sociedade em torno da idéia de nação. Das operações de caráter institucional, as artes visuais participam inseridas num amplo sistema de representações voltado para a sensibilização coletiva. Também no Brasil, o nacionalismo é o grande gerador de mitos, convocando uma variedade de significantes (textos, quadros, estátuas, monumentos, cerimônias públicas etc), frequentemente subsidiando encomendas oficiais. Sob essa diversidade aparente é possível reconhecer as constantes, revelar certas fórmulas, certos padrões de funcionamento, identificar significados recorrentes” (5)

O Culto aos Heróis, como é o caso de Tiradentes, é parte de uma política de reforço da coesão sociopolítica da nação. Hobsbawn mostrou que, durante o século XIX, os Estados Nacionais empenham-se no estreitamento dos laços com a nação (os habitantes e seus territórios, considerados povo, ou seja, cidadãos com deveres e direitos). A massa começa a tornar-se visível para os governos. Depois de 1880, começa a fazer diferença como os homens e mulheres que compõem a nação sentem-se em relação à nacionalidade. Como bem lembra Hobsbawn, já não se poderia mais dizer como o coronel Pilsudiski, libertador da Polônia: “É o Estado que faz a nação e não a nação que faz o Estado” (6).

O patriotismo surge como uma pedagogia cujo objetivo é inculcar o sentimento de lealdade cívica nos cidadãos (neutralizando a vontade de mudar de opinião a respeito do Estado a qualquer momento), além de legitimar o Estado (ou, mais especificamente, o governo que estiver no poder). Os poderes instituídos (os governos) percebem que, se utilizado a seu favor, o nacionalismo (que pode irromper com força contra eles) pode se tornar um instrumento poderoso.

“Nesse sentido, procuram manipular por todos os meios o imaginário social, fazendo recair sobre si os benefícios de uma crença comum. Utilizam vários dispositivos de comunicação, especialmente bandeiras, hinos, cerimônias e obras públicas, o ensino para difundir datas, heróis, feitos militares: em suma, toda uma herança cultural que funciona como matéria de aglutinação do sentimento nacional” (7)

Notas:

1. MILLIET, Maria Alice. Tiradentes: O Corpo do Herói. São Paulo: Martins fontes, 2001. P. 11.
2. Idem, p. 13.
3. Ibidem, pp. 16 e 17.
4. Frase de Marguerite Youcenar, lembrada por Milliet.
5. MILLIET, Maria Alice. Op. Cit., p. 19.
6. HOBSBAWN, Eric. A Invenção das Tradições, p. 271 e Nações e Nacionalismo Desde 1780, p. 56. In MILLIET, Maria Alice. Idem.
7. MILLIET, Maria Alice. Op. Cit., p. 20.

18 de ago. de 2008

Imagem Corporal e Satisfação





“Apenas pessoas superficiais 
 não     julgam     pela     aparência. 
O verdadeiro mistério do mundo
é o visível,  não  o  invisível"

Oscar Wilde (1854–1900)



Imagem corporal, aspecto da satisfação existencial que na cultura contemporânea ocidental está sendo afetado negativamente: não mais se vê o corpo como o exterior de um interior – o fora de um dentro, uma dobra. Atualmente, o corpo é cada vez mais só o exterior do exterior – o fora do fora. Onde exatamente foi parar a satisfação existencial com nosso corpo? O corpo, considerado como objeto exterior, poderia mesmo nos auxiliar quando tentamos compreender o que é ser feliz?

Mary Del Priori conta que, na época dos descobrimentos, nudez era sinal de pobreza. Daí considerar os índios inferiores. Na Europa, erótico era esconder o corpo. A superexposição do corpo no Brasil contemporâneo representa uma classe social e não a mulher: loira, corpo de academia. Esta mulher é minoria.

Corpo Monstruoso

No cinema norte-americano o nu feminino se instaura em 1933. Hedy Lamarr aparece nua em Êxtase (direção Gustav Machatý), deixando para trás o anonimato (acima, à esquerda). Nascem as ligas da decência e centrais católicas. O nu especificamente pornográfico já havia surgido no cinema em 1910 (1). O “problema” do cinema é a possibilidade do close-up. No teatro se pode desviar o olhar, já o enquadramento cinematográfico é incontornável. Entretanto, a possibilidade de corrigir uma imagem resolve os medos que havia no teatro, onde um vento ou outro acidente pode revelar as partes íntimas de um ator ou atriz. Temos o depoimento de um jornalista em 1896, a propósito de um beijo no filme A Viúva Jones:

“Em tamanho natural, é já animalesco, mas não é nada comparado com o efeito produzido por este ato aumentado para proporções gargantuescas e repetido três vezes seguidas. É absolutamente nojento. Fatos destes apelam à intervenção da polícia” (2).

Em 1912 uma lei regulamentava a duração do beijo na tela de cinema. Nos Estados Unidos, após a primeira guerra mundial, o umbigo era o mais indecente. Até 1965 o problema era mostrar os pêlos do corpo – o próprio Tarzan só aconteceu depois de depilar o torso. De fato, o cinema, que finalmente podia mostrar o real de forma realista (quando desejasse), foi impedido de fazê-lo (3). No cinema brasileiro, Norma Bengell no filme Os Cafajestes (1962, direção de Ruy Guerra) marca o ponto de partida do nu aqui por nossas telas, corpo acompanhado pelo riso sádico do personagem de Daniel Filho, que, aliás, filmava a cena.

No cinema de ficção científica norte-americano, a imagem da mulher tem dificuldade em se desvencilhar de preconceitos. Em A Invasão das Garotas Abelha (Invasion of the Bee Girls, 1973), de Dennis Sanders, mulheres estéreis por conta de experiências científicas matam homens a golpes de orgasmo (acima, à direita). Erotismo é uma raridade na ficção científica. Uma das poucas vezes em que isso ocorreu foi com os originais do livro, Os Amantes (1951), de Philip José Farmer. A história descreve relações sexuais entre um homem e um inseto extraterrestre capaz de trejeitos femininos sedutores. Um editor recusou os originais, classificando-os de nojentos (4).

Também encontramos a misoginia no gigantismo: mulheres, aranhas gigantes e extraterrestres concorrem quanto a maior monstruosidade. Vale lembrar O Ataque da Mulher de Dez Metros (Attack of the 50-foot Woman, 1957), de Natan Hertz (ao lado). Uma esposa traída encontra um extraterrestre verde gigante que passava por aqui, é transformada num enorme monstro vingador que estripa o marido infiel com as próprias mãos. Barbara Creed mostra como, a partir do universo dos filmes de ficção científica norte-americanos, verifica-se a satanização do feminino (5).

Corpo Feliz e Próteses

Quem sabe o biquíni e o implante de silicone sejam a mesma coisa? Uma mulher, adepta do nudismo, faz uma cirurgia para implante de silicone nos seios e nádegas. Ainda podemos dizer que ela está nua, já que partes do seu corpo estão cobertas? O biquíni seria mais erótico que a pele? Uma prótese de pele é mais erótica que a pele real? Nudez é não estar vestindo próteses ou roupas? Roupas são próteses? Qual é a diferença entre uniforme e fantasia? Qual é a diferença entre uniforme e máscara? Cobrir o corpo é criar uma imagem ou representação ordenada da natureza, tomando as roupas como complementação do organismo? Até que ponto o que vestimos afirma ou nega o que acreditamos ser por dentro?

E quando o que vestimos não é mais nosso próprio corpo? A ex-paquita [para quem não sabe, é o título de “antigas” adolescentes, dançarinas no programa infantil de Xuxa] Monique Alfradique malha até quatro horas em academias de ginástica. Afirma que seus músculos não eram bem definidos e ela foi “atrás de desenhar” seu corpo. Qual seria a recompensa de Monique? Bem, ela ganhou a capa da revista Boa Forma (6). Tudo bem, diriam, pelo menos não é uma revista masculina de mulher pelada!!! Tudo bem talvez, de uma maneira ou de outra, “boa forma” é “corpo malhado”… e não necessariamente um corpo feliz!

Corpos em Exposição, Conquista do Feminismo?

Participar do Big Brother Brasil (Rede Globo) é uma espécie de passaporte para ser convidada a aparecer nua nas revistas masculinas. A disputa parece girar entre as revistas Sexy e Playboy. É curioso como o dinheiro e a fama desinibem algumas pessoas, contanto que se tenha o corpo certo… Manuela Saadeh, segunda colocada no BBB2, que posou nua em setembro de 2002, declarou:

"No primeiro dia eu estava bem envergonhada. O ensaio começou com roupa e fui tirando... até que o Duran [o fotógrafo] falou: 'Vai dançando e levanta a blusa'. Aí eu travei e não conseguia levantar a blusa. Pedi, então, que algumas pessoas saíssem do estúdio. Tive de tomar champanhe, que me deixou mais alegrinha e desinibida". (7)

Thaís Ventura, também do BBB2, se “lançou” na edição de janeiro de 2003. Em seus 19 anos, a revista explorou o fetiche masculino de Lolita, com direito a aparelhos nos dentes e bichinhos de pelúcia. Para quem não conhece, Lolita é uma estória escrita por Vladimir Nabokov. O tema gira em torno de uma relação erótica entre uma menina adolescente e um homem mais velho, bem mais velho. Thaís declarou:

"Foi muito difícil. A gente pensa que é fácil porque muitas mulheres lindas já fizeram. Mas quando é com você é difícil! Eu passei por um processo de insônia, nervosismo à flor da pele". (8)

"Enquanto  isso,  lá  bem  no  início  de  tudo...  'E,  como  Deus  me  permitiu
denominar  todas  as  coisas,  eu  vou  chamar  você  de  vaca,  você  de  burro,
 
 você de toupeira e você de idiota' ". (Millôr Fernades, revista Veja, 11/1982)

A recordista de vendas foi a paulista Sabrina Sato, que participou do BBB3, posando para a revista Playboy. Desta vez, o ensaio fotográfico foi acompanhado por impressões dos outros participantes [masculinos] do jogo que contracenaram com ela. Um deles, Harry, disparou: "Sabrina, uma mulher oriental que desorienta qualquer homem". O Big Brother já serviu de "palco" para uma nudez "alternativa". No paredão que eliminou Harry do BBB3, uma mulher invadiu o estúdio e tirou o vestido diante das câmeras e de um Pedro Bial [o apresentador] atônito. O nome da então anônima era Maria Eliane Lima Araújo, e ela tinha 18 anos.

Algumas outras mulheres, desta vez atrizes renomadas, também não vêem problema em posar nua. Cláudia Raia é bem objetiva, da última vez o problema foi o dinheiro oferecido: “gostaria de ser fotografada nua de uma maneira que nunca apareci antes. Meu corpo está mais bonito do que nunca e não encontraria problemas em casa por ser casada”. E completa, “em ensaio nu a gente se expõe de tal maneira que tenho de estar apaixonada pela mulher que vou representar. Sinceramente, depende mais da revista do que de mim” (9).

Luma de Oliveira concorda com Raia, posar nua não tem problema. Só não concorda com a estratégia, para ela não se trata de representar uma personagem: “no ensaio nu, não vivo um personagem. Sou eu ali, é meu corpo ali. Faço o trabalho com muita naturalidade”. Luma não só não vê problema em posar nua, como acredita que seus filhos achariam muito mais estranho se a vissem numa cena de amor em que ela estivesse apenas seminua. Curiosa é a diferenciação que ela faz em relação a revistas e televisão: acredita que o nu da revista é mais natural que cenas de amor na tevê.

“Em 2000, a atriz Vera Fischer escandalizou ao mostrar as virilhas não depiladas nas páginas da Playboy, aos 48 anos de idade. ‘Há artistas que posam porque querem ser vistas e desejadas. Trata-se de um narcisismo velado e me parece ser o caso da Vera’, diz o especialista em sexualidade Esdras Vasconcellos, da Universidade de São Paulo”. (10)

Hoje em dia, no que diz respeito a jovens artistas, a coisa é diferente. Existe (pelo menos por enquanto) certa resistência a fazer concessões à nudez gratuita, seja para alavancar a carreira, seja pelo dinheiro (11). Mas talvez exista um equívoco aí também, pois algumas acreditam que ensaios fotográficos sensuais na internet permitem que elas ganhem dinheiro sem precisar se expor muito. Como não se expõem? Com a popularização da internet… Sem mencionar que, caso as fotos delas não sejam muito acessadas pelos internautas, certamente não serão mais nem contratadas para fazer outros “ensaios”, nem serão pagas.

The Girl abre portas internacionais, carreira na TV e projeção nacional para vencedoras” (12). A manchete se refere a um concurso de “modelos”, promovido por um provedor de internet, ostenta como elemento que justifica sua importância, o fato de abrir portas para a carreira das participantes. A questão não é uma cruzada contra o erótico e/ou nudez na mídia. O problema é o fato de se viver numa sociedade na qual para entrar no mercado de trabalho e perseguir a oportunidade de um trabalho digno, a “projeção nacional” tem primeiro que vir a nudez dos corpos!

Alice Matkins, artista norte-americana, pinta quadros de mulheres cujo
corpo  está  totalmente  fora  do
padrão de beleza.  Ela procura resgatar o
corpo da mulher como ele de fato é.  À  esquerda, Rose, 87 anos; à direita,
Jonsey,  64  anos;   no  final  do  artigo,  à  esquerda,  Phillis,  68  anos.

Mesmo fora do ambiente artístico, a possibilidade de posar nua é uma espécie de “prêmio” das pessoas que por algum motivo (qualquer motivo) tornam-se visíveis na mídia – e, portanto, tornam-se vendáveis. Exemplo (torpe) disto se refere a certas mulheres que depuseram no Congresso Nacional recentemente em função dos escândalos relacionados ao Partido dos Trabalhadores. A secretária do publicitário e escroque Marcos Valério, que testemunhou contra ele, tirou as fotos na própria sala onde depôs – ou então foi um cenário que reproduzia o lugar onde se pretende fazer Justiça em nome do povo. A esposa (e também a irmã dela) do dono do restaurante do mesmo Congresso que foi o responsável pela queda de Severino Cavalcanti (presidente da Câmara de Deputados) também já foi sondada sobre a possibilidade de tirar fotos para uma revista masculina.

Corpo e Imagem

“Como começamos a cobiçar? Cobiçamos aquilo
que vemos... todos os dias!“

A frase vem do filme O Silêncio dos Inocentes (Silent of the Lambs, 1991). Uma agente do FBI insistentemente pergunta a um famoso ex-psiquiatra e atual canibal sobre o paradeiro de um assassino de mulheres. Procurando mostrar em forma de enigma qual é o objetivo desse assassino, o canibal enuncia esta frase. O assassino não matava por ódio, gostava tanto das mulheres que queria ser uma delas. Para alcançar seu objetivo, raptava algumas, contanto que estivessem meio gordas. No cativeiro, às engordava mais e mais. Então as matava, retirava partes de suas peles e costurava. Pretendia fazer uma roupa.

O assassino de mulheres parecia fixar a identidade delas no elemento mais visível. Para ele, ser mulher não teria nenhuma relação com a busca de uma alma feminina. Travestido com pele humana morta, baseava-se apenas na aparência: Ser mulher passava por parecer mulher. Platão já havia chamado atenção para a inutilidade do mundo sensível (13). (acima, imagem de Shrek, desenho animado norte-americano)

Beleza (ou a nova identidade) pode ser comprada? Num ponto pelo menos Jean Baudrillard tem razão, os fluxos simbólicos dos quais dependemos para dar sentido ao mundo e a nós mesmos estão cada vez mais longe de uma real satisfação dos desejos íntimos. Como uma tentativa de questionar o pessimismo de Baudrillard, lembre-se que no desenho animado Shrek (parte 2) nós temos um final inusitado, praticamente contraditório em relação ao mundo em que vivemos atualmente. Em certo ponto da estória, Shrek tinha tomado uma poção mágica que o transformara num ser “normal” – quer dizer, ele ficou bonito. A princesa, que tinha sido transformada em “anormal” (o que significa que ela ficou feia) e também voltou a ser uma mulher bonita por conta da mesma poção, em certo momento recusa o beijo de Shrek. É que no final da estória Shrek avisa a ela que, caso beijem-se, poderão ficar permanentemente com “aquela forma” – quer dizer, bonitos. Ela então recusa e dá a entender que aquele (o bonitão) não seria o homem com quem ela escolhera se casar! Ou seja, ela está preocupada com o sentimento que a aproximou dele, e não precisa que ele “conserte” seu exterior!

Resta o Corpo, Resta uma Questão… 

Sabemos, portanto, como resolver isso. Temos que mergulhar em nós mesmos. Ainda assim, resta uma questão. Quantas vezes você mudou de canal e as mensagens eram as mesmas? O problema é que a sociedade está comprometida com o mercado. Lembro neste ponto do filme O Show de Truman (1998), quando o personagem principal começa a se questionar sobre a incongruência do sistema.

Temos que admitir estarmos tão intoxicados com a avalanche da representação do mesmo ideal de beleza, que nos tornamos insensíveis ao fato de que se trata de modelos e não da realidade viva dos corpos. Na crença de que o ideal está à venda, não cogitamos mais na hipótese de que beleza talvez seja um estado de espírito. Estamos narcotizados com a hipótese de que a beleza pode ser comprada!

Collete resume com uma frase a querela em torno do nu no teatro francês em 1907: “soltem um seio!”. Pesquisas da época levaram à constatação de nudez no teatro desde a Antiguidade (14). Atualmente, decretou-se o fim da privacidade corporal no mundo ocidental [cristão…]. Esconder o corpo passou a ser muito explorado como aspecto selvagem dos muçulmanos. Opõe-se cobrir e descobrir o corpo, dando sinal negativo ao hábito cultural de cobri-lo. Poucos e poucas se perguntam se a pressão social para desnudar o corpo acaba se tornando tão opressiva quanto cobri-lo completamente. Até que ponto nudez pública significa libertação?

Curioso é que na busca desenfreada de uma beleza exterior desarticulada de outra beleza que é interior, muitas mulheres não percebem a abóbora que se tornaram! Bem, quem sabe o caminho para o interior seja esse, destruir o exterior ao tentar reconstruí-lo. No final a sensação de indefinição permanece e a questão volta: onde e como entra o corpo na busca da resposta à pergunta, ‘o que é ser feliz?’

Notas:

Leia também:

As Deusas de François Truffaut

1. BOLOGNE, Jean-Claude. Tradução Telma Costa. História do Pudor. Rio de Janeiro: Elfos Editora. Pp. 286-7.
2. Idem, p. 285.
3. Ibidem, p.288.
4. SODRÉ, Muniz. A ficção do tempo. Análise da narrativa de Science Fiction. Petrópolis: Vozes, 1973. Pp. 49-50.
5. CREED, Barbara. The monstrous-feminine. Film, feminism, psychoanalysis. London: Routledge, 1993.
6. WURM, Sabrina; DIAS, Leo. Em Busca do Corpo Perfeito In Jornal Extra, coluna Retratos da Vida, 08/07/2005. P. 12.
7. BBB’s saem da casa para as revistas masculinas In TERRA. Seção Gente & TV. 06/05/2004. Disponível em: http://diversao.terra.com.br/gente/noticias/0,,OI3527042-EI13419,00-BBBs+saem+da+casa+para+as+revistas+masculinas.html
Acesso em: 29/10/2013.
8. idem.
9. CARDOSO, Rodrigo. Elas posam porque gostam In Isto É GENTE, 21/01/2002. Disponível em: http://www.terra.com.br/istoegente/129/reportagem/capa_nu_04.htm Acesso em: 18/08/2008.
10. idem.
11. Reportagem de Rodrigo Cardozo. ISTO É, GENTE. 21/01/2002. Edição 129. Disponível em: http://www.terra.com.br/istoegente/129/reportagem/capa_nu_01.htm Acesso em: 18/08/2008.
12. Reportagem de Silvia Marconato. Disponível em: http://www.terra.com.br/thegirl/verao2003/materias/vencedoras_passadas.htm Acesso em:18/08/2008.
13. A fisiognomonia sempre baseou seus estudos na articulação entre a afirmação da necessidade de um mundo sensível e a crença na existência de outro inteligível. A verdade última seria encontrada apenas no inteligível.
14. BOLOUGNE, Jean-Claude. Op. Cit., p. 259.  


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