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Roberto Acioli de Oliveira

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4 de jun. de 2009

O Corpo Suficiente (final)


“Agrade a todos e não
agradará a ninguém”

Esopo (1)

Virgindade Madura e Infantilidade Imatura

Somos compostos de carne e dúvidas. Não dá para esconder as últimas debaixo de maquiagens ou plástica ou botox, ou etc. Também não é possível eliminar as dúvidas para sempre, pois elas se sucedem a cada novo passo. As dúvidas, na verdade, são elementos essenciais, nos empurrando para buscas.

São elas que fazem o rio fluir em todas as direções – rompendo a maldição cronológica. A dúvida sobre aquilo que queremos ser (criança, maduro, velho) pode nos empurrar para várias respostas. Mas se é assim, como podemos ser criança, adolescente virgem e ao mesmo tempo um(a) velho(a) com vários filhos criados? Conceber uma personalidade tripla (que aqui não têm nada a ver com psicose), ao mesmo tempo criança-maduro(a)-idoso(a) não impede a constatação de nossa virgindade - que não está nos orgãos sexuais, mas no coração. Ela também é um sentimento. Só chegamos à velhice madura se resgatamos a inocência da virgindade da criança que temos dentro de nós. Sem essa virgindade, qualquer tentativa de rejuvenescer através de produtos artificiais não gera outra coisa senão pessoas regredidas e infantilizadas. (imagem acima, Interior no Verão. Edward Hopper, 1909)

Criando Um Monstro Maquiado

Então como fazem as mulheres pobres, para quem produtos de beleza ou plásticas estão fora do orçamento? Como faz quem não têm poder aquisitivo para se autoconhecer e ser feliz? Quem é pobre não pode “se cuidar”, portanto não há beleza sem dinheiro (imagem ao lado, 26.06.2002 Auto-Retrato. Gianguido Bonfanti). Isso faz sentido? O que pode um corpo sem a “indústria do rejuvenescimento da burguesia”? Temos então mais um dos tantos mecanismos de segregação social e racial. Até a sacola da padaria têm que ser de grife, senão ficamos parecidos demais com pobres carregando marmita! Mas afinal, de onde surgem fenômenos como a indústria do rejuvenescimento? De onde surge a motivação que torna natural a opção pela plástica facial, pelo botox, pela lipoaspiração, por produtos de beleza e mascaramento da idade cronológica? Quando e por que mascarar a idade passa a ser uma opção?

Como e por que esse valor (rejuvenescimento) se grudou ao exterior de nossos corpos e adquiriu relevância na afirmação de mudança interior? Por que modificar o exterior do corpo passou a ser sinônimo de mudança exterior (ou interior)? Quando um creme para controle de celulite passou a ser um elemento importante para a auto-estima? Um creme anti-rugas, antiestrias ou anticelulite é mais importante que o autoconhecimento? Cremes como estes ajudam mesmo o autoconhecimento?

Em Literatura de Auto-Ajuda e Individualismo, Francisco Rüdiger mostra como os manuais de auto-ajuda surgem no vácuo de uma mutação na Modernidade. Se antes o indivíduo recebia da tradição valores nos quais acreditar e justificar suas ações, agora é ele que deve administrar sua identidade. O problema começa, não é tão simples estabelecer parâmetros numa sociedade como a nossa, onde tudo vira mercadoria, onde há uma cisão entre pensamento e ação. Onde as práticas de conhecimento de si são engolidas pela cultura de massa. Rüdiger distingue a auto-racionalização (daquele que, percebendo-se cidadão de uma sociedade racionalizada, racionaliza seus hábitos, adequando-se ao sistema), teorizada por Max Weber, do conceito de reflexividade (capacidade de auto-observação, quando medito sobre meu modo de ser) sugerido por Karl Manheim: “Normalmente, o homem não se volta para si mesmo, dirige-se apenas às coisas que maneja, troca ou deseja fazer. Seu próprio agir permanece sem observação. A experiência imediata é onde se vive, de onde se parte, sem que se capte seu próprio sujeito” (2). (imagem ao lado, 12.07.2002 Auto-Retrato. Gianguido Bonfanti)

A literatura de auto-ajuda entra como elemento de compensação em relação à desintegração dos referenciais coletivos, uma característica das sociedades industriais do século 20. A libertação em relação às representações coletivas, que outrora engessavam a identidade, bate de frente com uma sociedade cada vez mais complexa, que tende a desintegrar a personalidade. Há uma precarização da subjetividade que, exposta à possibilidade constante de perda da unidade, mantém como pode os elementos de algo que possa chamar de identidade. A individualidade depende agora de reciclagem permanente, única forma de o indivíduo preservar sua condição de agente social. A liberdade desse indivíduo torna-se profundamente problemática no contexto de uma sociedade degradada, a literatura de auto-ajuda entra aí como uma das mediações a partir das quais as pessoas procuram construir um eu. Mas esse talvez seja um remédio que limita mais do que liberta, pois a literatura de auto-ajuda tende a reintroduzir valores tão clichês quanto aqueles da cultura de massa. (imagem ao lado, 13.03.2002 Auto-Retrato. Gianguido Bonfati)

Trocar um clichê por outro, ou seis por meia dúzia, talvez não baste para aqueles que buscam mais o auto-conhecimento de seus labirintos do que palavras açucaradas. Portanto, talvez a busca caótica pelo eu de cada um seja mais proveitosa do que a compra de mais um manual para nos dizer o que fazer (e, portanto, nos dando ordens, exatamente como a tradição fazia antes, nos obrigando a obedecer regras sem questionar, como condição para atingir a felicidade). A indústria do rejuvenescimento seria mais um desses mediadores que entra no vácuo identitário, ou reflexivo, da despersonalização. Daí essa tendência a aderir às novas tentativas de matar a charada do ser (feliz): cremes, plásticas, lipoaspiração, etc… A questão é que nesses processos o corpo pode não agüentar. O problema é a capacidade ou não do indivíduo escapar das armadilhas da indústria cultural e de massa – onde tanto indústria do rejuvenescimento quanto mercado editorial, do qual fazem parte os livros de auto-ajuda, estão inseridos. (imagem ao lado, 09.08.2002 Auto-Retrato. Gianguido Bonfanti)

Quando seu corpo será suficiente?

Eu Só Queria um Corpo Mais Corajoso

Uma vez ouvi na televisão uma tese bizarra. Alguém dizia que essa ditadura da magreza imposta às modelos das passarelas não têm nenhuma relação com a hipótese de que as mulheres precisam ser magras para poder vestir qualquer roupa que se lhes apresente o estilista. Ao contrário, afirmavam, não haveria nenhuma necessidade dessa imposição de um corpo esquelético, anoréxico e bulímico. Tudo não passaria de um complô dos homossexuais (que geralmente são os estilistas) contra as mulheres. Eu realmente não me lembro quando nem quem disse isso na televisão. Uma coisa se pode constatar, quase sempre somente AS modelos são bulímicas, OS modelos não.

Os homens que desfilam, geralmente estão bem nutridos e muito bem tratados. Não têm nenhum esquelético. Eu só não consigo explicar, seguindo essa lógica bizarra, por que AS modelos que trabalham para estilistas mulheres também são esqueléticas (imagem acima, Cinema em nova York, 1939; abaixo, Interior [Modelo a Ler], 1925. Edward Hopper). Será que essas mulheres (estilistas) não perceberam que seu gosto (sexual) por mulheres esqueléticas talvez obedeça à imposição misógina de seus colegas (estilistas)?

No fundo, pouco importa se a culpa é dos homossexuais. Até porque nós, elas e eles, todos somos vítimas do mercado de consumo – a falta de consciência disso talvez explique a pouca solidariedade entre nós, uns pisando nos outros, enquanto o mercado manipula a todos impunemente. Mas por que será que as mulheres não percebem essas manipulações (no fundo misóginas) de seu ego e seus corpos? Não dá para desconfiar nem um pouquinho de certas imposições feitas ao corpo feminino? Não dá para lembrar o exemplo (da mercantilização) da erotização da criança na televisão brasileira? De qualquer forma, a mulher sempre foi a “criança” preferida do mercado. (abaixo, 13.07.2001. Gianguido Bonfanti)


Mercantilização da libido infantil, meninas adolescentes mais preocupadas em se maquiar do que em viver a vida, mulheres infantilizadas mais preocupadas com a imagem do que com a substância interior, será esse o panorama do feminino no século 21? Será este o legado do feminismo? Não é que as mulheres não devem se cuidar ou se arrumar – fazer plástica, lipoaspiração ou injetar botox. Também não se defende que os homens devem largar o viagra, não se trata de negar um aumento de potência sexual fora de época. Não se trata de negar à mulher idosa ou às adolescentes o direito de se maquiarem até sufocarem todos os poros da pele. O que é importante é perceber o limite do exagero. O que é sábio é perceber até que ponto desejamos fazer isto ou aquilo ou se estamos sendo induzidos por pressões sociais preconceituosas e/ou mercadológicas. Usar a indústria do rejuvenescimento não é o problema, mas ser usada por ela sim.


Se a mulher não percebe essa fronteira, não me parece justo afirmar que com quilos desse ou daquele produto a vida vai parecer melhor. As mulheres acabam perdendo de vista que não existe corpo suficiente para suprir essa falta nutrida pela indústria do embelezamento (do seu exterior). Não há corpo suficiente porque sempre haverá um produto novo no mercado. Nunca haverá corpo suficiente porque o corpo humano não é isso, ele não foi pensado (por Deus?) como algo congelado no tempo, algo que não muda – a mulher não pode se comparar à comida congelada. A vantagem do corpo humano é exatamente o fato de que ele está sujeito à mudança. Essa é a qualidade do exterior do corpo que pode mudar o interior: a mudança física no corpo sugere que o interior (espiritual ou o que for) não só pode como deve mudar. Nesse sentido, as marcas do envelhecimento do corpo não são parte do problema, são parte da solução.

Em O Céu Que Nos Protege (The Sheltering Sky, direção de Bernardo Bertolucci, 1990) (imagem abaixo), temos um casal no deserto em busca daquilo que se perdeu em seu amor. Logo no início faz-se uma distinção entre turista e viajante. O primeiro quer logo voltar para casa, enquanto o segundo pode nunca mais voltar – como um rio, ele simplesmente vai. Em certo ponto, o marido morre. Kit, a viúva, parte então pelos caminhos do deserto com uma caravana. Lá pelas tantas, é resgatada no hospital com um olhar perdido. A pergunta é, onde está a vida afinal, para onde devemos olhar? Como olhar para o interior sem confundi-lo com o exterior? Cadê meu corpo? Cadê minha vida? Kit volta ao bar onde estivera no início de sua busca com seu marido. De repente ela vê um velho, que parece falar com ela telepaticamente.

Velho: Você está perdida?
Kit: Sim.
Velho: Porque a gente não sabe quando vai morrer. A gente pensa na vida como um bem inesgotável (3). As coisas acontecem certo número de vezes. Um pequeno número, na verdade. Por quantas vezes você se lembrou de uma tarde de sua infância, uma tarde tão comum, mas que você não poderia viver sem ela? Talvez umas quatro ou cinco vezes, talvez nem isso. Quantas vezes você vai admirar a lua? Talvez vinte. E ainda assim parece sem limites.


Cadê sua vida? Cadê o corpo que você tinha? Você tinha vida quando tinha aquele corpo? Quantas vezes você percebeu o mundo lá fora? Quando vamos entender que nossos corpos são frágeis sutilezas da vida relegadas a segundo plano em nossas próprias lembranças? Por que colocar no corpo mais esse fardo de carregar a culpa por nossa incapacidade em buscar a felicidade?

Quando seu corpo será suficiente?

Notas:

1. Conhecido como o primeiro fabulista da história. Grécia, séc. VI a.C.
2. RÜDIGER, Francisco. Literatura de Auto-Ajuda e Individualismo. Rio Grande do Sul: Editora da Universidade. 1996. P. 12.
3. Na edição lançada em 2006, na versão dublada em português a palavra ‘inexhaustible’ foi traduzida por ‘incansável’.

2 de jun. de 2009

O Corpo Suficiente (I)





“O tédio mortal
da imortalidade”

Jean Cocteau
O Sangue de um Poeta







Me Dêem Um Corpo

Asas do Desejo (Himmel Über Berlin, direção de Win Wenders, 1987) (imagem abaixo) conta a história de um anjo que caminha entre as pessoas, ouvindo seus pensamentos eternamente. Seu mundo é preto e branco, o mundo dos humanos é colorido. Acompanha crises em família, dúvidas existenciais, avalia o que os humanos fazem de sua materialidade, seus corpos. Em certo ponto, ele se apaixona por uma trapezista de circo. O anjo começa então a perceber a distância que os separa: ele não tem corpo e é invisível. A única maneira de efetivar seu amor é tornar-se humano. Só que isso implica abdicar de sua imortalidade. Tornar-se corpo vivo, significa tornar-se mortal. Portanto, só poderá assumir seu amor por ela se admitir a idéia de que isso faz dele um ser finito. Para amar, ele vai ter que morrer um dia, como qualquer mortal. (imagem acima, Auto-Retrato no Futuro, 1975. Roberto Magalhães)


Um rosto esticado
por plástica ou botox
é realmente capaz de
trad
uzir a felicidade
interior?




Mas essa é sua decisão, não há sentido em sua vida infinita se não existe a possibilidade de amar. E o corpo físico é uma necessidade para efetivar esse amor: fazer parte do mundo físico é saber que se vai abandoná-lo em breve. Vale dizer, um corpo físico finito, que envelhece e que acaba. Mas será um corpo que vive e que tem coragem de viver sua finitude. Um corpo cuja finitude torna o amor mais urgente – a vida é tão curta... Um corpo cuja finitude se traduz em amor, em afeto por alguém. Tornar-se verdadeiro, orgulhar-se de seu corpo, passa por orgulhar-se de suas marcas de finitude. As marcas do envelhecimento do corpo que vão fazer lembrar a cada momento os instantes de amor, por si, pelos outros, pela vida – como um diário afetivo. Uma poética da finitude.(imagem abaixo, Escritório em Nova York. Edward Hopper, 1962)



“[Edward] Hopper
des
creve, aqui, o que o
sociólogo norte-americano,
Richard Sennett, chama o ‘paradoxo do isolamento na transparência’. Apesar de transparente, o vidro
do escritório estabelece
uma barreira”
(1)




Trapezista… Sim, essa é uma boa metáfora para começarmos a compreender a questão. Como uma trapezista que está no céu (dos produtos de beleza e do corpo belo), mas não olha para baixo, somente para cima. Caso olhasse para baixo poderia perceber que o trapézio (a indústria do rejuvenescimento) não é o chão. Suspensa no ar por algumas cordas, a mulher parece não perceber os perigos físicos e emocionais que corre. Porém, sejamos otimistas, quando (ou se) ela “cair na real”, espero que não tenha sido trocada por “duas de vinte anos”. Oscilando entre a cruz e a espada, a mulher ocidental contemporânea parece seguir alegremente para a fogueira (a mesa do cirurgião plástico, o cabeleireiro, a aplicação de botox, etc).

Quando seu corpo será suficiente?

Corpos em Exibição, Vitrines da Alma?

Lá vão eles, para cima e para baixo, manequins de porcelana ambulantes. Rotas de fuga em relação à necessidade de construir subjetividades capazes de dialogar consigo mesmas. Além de ser uma atitude melhor acolhida pela sociedade, para quê construir um interior (uma substância), se remodelar o exterior (sua imagem) é mais fácil? O problema é saber a hora de parar. Na verdade, nunca deverão saber, pois nunca será suficiente. De qualquer forma, é uma opção aprovada socialmente, o que permite uma sensação de aceitação muito necessária justamente às pessoas que delegaram aos outros a tarefa de reformulá-las. O problema com esta opção inicia com a constatação de que ninguém está interessado em aumentar a auto-estima de ninguém. Só querem vender produtos. Que melhor estratégia de marketing? Caçar pessoas com baixa auto-estima e fazê-las acreditar que não é necessário descobrir as causas, mas apenas maquiar a situação. (imagem ao lado, Nu Feminino Reclinado. Lasar Segall, 1943)

É perfeito, porque as vítimas não percebem que o remédio escolhido para reconstruir o interior é justamente o veneno que desvia o foco de atenção para longe dos parâmetros de julgamento necessários para cuidar desta mesma beleza interior. Com relação a este ponto, podemos apenas especular quanto ao destino das adolescentes brasileiras. Segundo pesquisa recente (2), elas gastam em produtos de maquiagem mais que uma mulher adulta – a indústria agradece. O que é mais assustador, não podemos nem elogiar a maquiagem, elas querem que acreditemos que já se levantaram da cama daquele jeito! Querem que acreditemos que o rosto delas é assim! Quanto tempo levará para se tornarem inseguras quanto à própria beleza exterior? – sim, porque a mesma pergunta, que poderia ser direcionada para a beleza interior, já não faz mais sentido!



“A felicidade
é um anjo com

um rosto sério”

Amadeo Modigliani






Ou então, vamos acreditar que a precocidade com que essas meninas se preocupam em não envelhecer fará delas pessoas mais tolerantes com os mais velhos e com os velhos mesmo… Vamos acreditar? Bem, uma das soluções implementadas pela indústria é, com o aumento da população de velhos no mundo todo, reinserí-los... na vida? No mercado de consumo? Os tratamentos de rejuvenescimento (aqui incluindo, além da mulher, também o homem idoso) e os cosméticos para a Terceira Idade talvez acabem mesmo reunindo jovens e velhos - já que ambos não param de se reunir nas salas de espera das clínicas estéticas. Unidos pelo mesmo lema, vão todos seguindo o flautista até o precipício: mude apenas por fora, pode não ser mais barato, mas é mais fácil, mais rápido e, principalmente, mais visível!


Sempre
foi
um grande
problema para
a arte tornar
sentimentos
visíveis



Esse corpo perfeito, e sem gozo afetivo, que só serve para mostrar para os outros, mostra também a falta que faz um ego. Este personagem, o ego, é que deveria ser o verdadeiro juiz das necessidades de mudança externa. Sem uma vida interna (sem uma substância emocional) que interaja com o mundo exterior, nos tornamos escravos desse mesmo mundo exterior - e de processos que não visam necessariamente nosso crescimento interno. Pelo contrário, nutrem nossa fraqueza com o veneno da descrença em si mesmo. (imagem acima, à direita, Nu Reclinado com Braço Esquerdo Sobre a Fronte, 1917; à esquerda, Nu Reclinado, 19??. Imagem abaixo, à direita, Nu Sentado, 1917; à esquerda, Nu Reclinado, 1917. Os quatro de Amedeo Modigliani, 1884-1920)

Quando seu corpo será suficiente?

Introduza Uma Moeda!

A indústria do rejuvenescimento (ou da alienação?) é uma grande armadilha para aquelas pessoas que não conseguem estimular a si mesmas, necessitando de estímulos externos constantes. Para essas pessoas, infelizmente, momentos de introspecção constituem uma verdadeira dor de cabeça. Ficar sozinha (por algumas horas que seja), para elas, é sinônimo de depressão. Ligam a tv, o computador, o rádio, falam ao telefone e se maquiam – tudo ao mesmo tempo. Não pode sobrar um segundo, pois não podem correr o risco de ouvir seu caos interno. Isso serve também para as pessoas com quem elas se relacionam; aliás, não há relacionamento, pois elas não conseguem ficar um minuto (ou um segundo) distantes de uma fonte de estímulo (no caso, outra pessoa qualquer). Não estou ironizando, acho tudo isso um problema muito sério, uma verdadeira epidemia. Um distúrbio de comportamento convenientemente estimulado pela indústria do rejuvenescimento, que naturalmente vai agregar a indústria farmacêutica também – pois esta fornecerá os calmantes e outros bichos. As pessoas acabam sentindo-se confortáveis com a ênfase no exterior do corpo. Afinal, todos os detalhes (de uma maquiagem, uma plástica e etc), bem visuais, distraem o olhar sem demandar maiores questionamentos existenciais. É o mundo perfeito, tudo é só para olhar, não temos que pensar ou nos relacionar – até porque os relacionamentos seguem o mesmo modelo de superficialidade.

É o mundo da distração infinita. E é nisso que as mulheres acabam se tornando, uma distração! O que parece ser um alívio para elas, já que não conseguem mais prender a atenção em nada (por mais de 5 minutos). Assim, o admirável mundo novo da indústria do rejuvenescimento nos presenteia com um mundo divertido, que propõe hiper-estimulação corporal eterna – excluindo estimulação intelectual e sentimental. Como tudo isso é conveniente para a desvalorização dos sentimentos e aprovação dos comportamentos neuróticos em torno da distorção do conceito de beleza! E o dinheiro continua fluindo.

Essa mercantilização da felicidade (e de certo conceito de beleza) naturalmente exclui o mais fraco – o mais pobre. Exclui também, procurando estigmatizar e segregar socialmente, aqueles (as) que conseguem encontrar formas de comunicação interna com seu próprio caos – o que os torna imunes ao excesso de estímulos externos; não porque eles evitem esses estímulos, mas porque conseguem interagir com eles, e, portanto, julgá-los. Sempre que passo por uma farmácia me lembro disso. Especialmente quando tem alguém querendo se pesar. Refiro-me àquela balança eletrônica (?) que invadiu as farmácias. Subimos nessas coisas para obter um diagnóstico sobre nós (que influenciará muito nossas vidas e auto-estima), e o que escutamos? A voz de uma mulher robótica ordenando: “Introduza uma moeda!”

Quando seu corpo será suficiente?

Notas:

1. KRANZFELDER, Ivo. Edward Hopper. Visão da Realidade. Kohl: Taschen, 2003. P. 159.
2. Reportagem veiculada no Jornal Hoje, Rede Globo, 30/03/2006.

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