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Roberto Acioli de Oliveira

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6 de set. de 2009

Desinformação Já



“Uma escola que
não ensina como
assistir à televisão
é uma escola que
não educa”


Joan Ferrés
Televisão e Educação


A
s Coisas e as Imagens das Coisas

Quase sempre, dos milhares de filmes de ação (guerras e tiroteios) vomitados por Hollywood, só chamam a atenção da maioria as belas luzes, um espetáculo para os olhos; além de um suposto heroísmo (na imagem acima, vemos uma cena real de batalha com tropas norte-americanas no Iraque; na imagem ao lado, a imagem não cinematográfica, sem glamour e sem heroísmo da mesma guerra. As duas imagens são de 2003). Lá na terra do Tio Sam (nas emissoras de tv norte-americanas), como cá (nas emissoras de tv brasileiras que cobrem as batalhas entre polícia e bandidos nos morros cariocas), não se mostra as vítimas, não se mostram seus corpos destroçados.

Esse tipo de coisa não dá ibope e, além do mais, pode gerar movimentos da sociedade contra a violência. E mesmo que mostrasse, será que a sociedade brasileira DESEJA saber? Na estratégia de dessensibilização generalizada e no faroeste televisual onde quase já não se distinguem mocinhos de bandidos, tudo é "ação". No comportamento belicista patético que se procura transformar em heroísmo, esconde-se a herança da “sociedade da informação”: desinformar é preciso.

Imagine que você vive num país onde a distância entre tv aberta e tv a cabo é um pouco maior do que se supõe. Especificamente no caso dos noticiários. Imagine que na primeira as notícias sejam rápidas, ralas (talvez porque o interesse seja segurar a audiência para assistir a propaganda, que ocupa mais espaço nos noticiários do que as notícias). Na tv a cabo, os assuntos (ou certos assuntos), são discutidos a exaustão por especialistas. Imagine agora que os públicos das duas são diferentes (ou melhor, pertencem a classes sociais distintas). Sendo a tv a cabo mais cara, naturalmente são as classes baixas que ficam restritas ao “noticiário ralo”. (todas as imagens deste artigo mostram situações reais, não se trata cena cenas de filmes; abaixo, soldado norte-americano cobre Saddam)

Você poderia concluir que, com a generalização do roubo do sinal de tv a cabo naquele país, a informação seria democratizada finalmente! Agora você só tem que descobrir quais são os canais de tv a cabo que a população que rouba o sinal DESEJA assistir. Você poderia ainda concluir que “noticiários profundos” deveriam ser os mesmos (dar a mesma informação) na tv aberta ou no cabo, mas que isso seria naturalmente impossível porque imagens, entrevistas e textos são editados (cortados). O problema não parece ser apenas o fato de que a tv (qualquer uma delas) reconstrói o real ao editar e montar as imagens para que possam caber na programação (entre os intervalos, que contém as propagandas - que é o que importa às emissoras). O problema é que as pessoas parecem não perceber isto que ocorre diante delas. Daí a perplexidade ante as imagens do atentado terrorista em 11 de setembro de 2001 ao World Trade Center. Parecia um filme! Difícil agora compreender que não eram imagens e sim um acontecimento.

Não se duvida que a tv recrie o real. O que alarma é a falta de censo crítico em relação à programação/recriação do real e/ou a forma como são veiculados. A discussão quanto à possibilidade ou não de censura aos programas apelativos é típica. Põe-se a perder a possibilidade da população responsabilizar-se pela programação a partir da hipótese de que isso constituiria censura aos meios de comunicação. Sim, como não, censuram tudo aquilo que não lhes interessa. Por que só nós não podemos decidir o que queremos?


Como se não fosse ato de
censura quando as emisso
ras
de tv decidem só mostrar
o que quiserem...




Alguns retrucariam que pensar assim
é dar importância demais à televisão, quando ela é apenas um eletrodoméstico. Se ela fosse tão irrelevante, o preço do minuto de propaganda não seria tão exorbitante. Se fosse tão irrelevante, as eleições não seriam decididas em debates no horário nobre e a verba de propaganda de empresas e governo não seria maior que os investimentos em seu público e/ou eleitores.

Estereótipos Onde Não Deveriam Estar

Um dos temas preferidos da mídia quando quer criar um factóide internacional para dar ibope é a re-formatação de guerras no horário nobre. Como no caso de Saddam Hussein, ex-ditador do Iraque. Segundo o então presidente (pai do ex-presidente norte-americano) George Bush, Saddam era o império do mal em pessoa. A mídia se apressou em reproduzir mais um estereótipo do déspota oriental. Naturalmente, e infelizmente, o que ninguém vai dizer é que o Saddam real havia sido uma criação do próprio governo norte-americano. Eles precisavam de alguém para servir de bucha de canhão e fazer uma guerra contra o vizinho do Iraque em 1979.

O vilão de então era o Irã do Aiatolá Kolmeini, que tirou seu país das garras dos norte-americanos e de seu fantoche o Shah Reza Palevi. Das atrocidades patrocinadas pelos norte-americanos, e cometidas por Saddam contra os iranianos ninguém sabe, ninguém viu. (imagem acima, mais um banho de sangue no Iraque)

Aliás, essa arrogância é típica de países que constroem seus impérios sobre as cinzas das liberdades dos povos. No filme Mauá, o Imperador e o Rei (1999), ocorre um diálogo entre o futuro Barão de Mauá (ainda bem jovem) e um negociante inglês bem sucedido. Dizia o britânico que a escravatura tinha que acabar porque não interessava aos ingleses. Afirmou também que o mundo está mudando porque a Grã-Bretanha assim deseja. Deu alguns livros de economia para o jovem Mauá e disparou: “a língua é o inglês”.

Inimigos Construídos

Com Osama bin Laden a história se repete. Criação norte-americana para insuflar os guerrilheiros contra as tropas russas que haviam invadido o Afeganistão (1979-89). Agora que a coisa fugiu ao controle, o que George Bush filho disse na época que resolveu invadir o mesmo Afeganistão? “É a luta do Bem contra o Mal...” Novamente o discurso fundamentalista. Mas o fundamentalismo que aparece é o do Talibã, sempre seguindo aquela receita de bolo do estereótipo do déspota oriental. (imagem ao lado, Osama, uma figura que deve ser mantida viva a qualquer custo para justificar a militarização do discurso norte-americano)

Por que imagens do ataque dos terroristas puderam ser mostradas ad nauseum, mas as imagens dos ataques ao Afeganistão são sistematicamente censuradas? Como pode ser que as transmissões da guerra do golfo nunca mostraram destruição ou mortos de ambos os lados? Mas... A mídia ocidental não é um exemplo de idoneidade para o mundo? O direito à informação não foi sempre uma bandeira do assim chamado “mundo livre” (como o Ocidente gosta de se auto-proclamar)?

E, por falar em impérios, segundo Walt Disney, o império feudal e absolutista da Rússia do Czar Nicolau era melhor ou mais legítimo que o regime comunista. Esta distorção da realidade deve dar calafrios em qualquer professor de história. E aqui não vai nenhuma defesa da ditadura na qual degringolou o regime comunista soviético. É só dar uma olhada no desenho animado Anastácia. A mensagem é que o regime pusilânime da casa dos Romanov era democrático, doce, limpo e angelical como na estória da gata borralheira!

Emissoras que Não se Vedem? Existe Isso?

Como lembrou Silio Boccanera, na guerra a primeira vítima é a verdade. O governo dos Estados Unidos reclamou, dizendo que a rede de tv do Qatar, Al Jazeera, fazia propaganda anti-norte-americana ao transmitir pronunciamentos de Osama direto do Afeganistão. Fato: grandes redes de tv norte-americanas perderam muito, cerca de 350 milhões de dólares, ao não transmitirem propagandas na cobertura do ataque terrorista ao World Trade Center. A CNN passou seis dias sem propagandas – por motivos... humanitários. Como se o Pentágono não manipulasse as informações ao enfatizar as imagens dos pacotes de ajuda humanitária lançados aos refugiados afegãos (1).

Quem vê os combates? Não se trata de morbidez, a questão é quem é que vai dizer quem venceu? Notícias de baixas? Só do lado do Talibã. Helicóptero norte-americano abatido? Foi pane, problemas técnicos... O governo norte-americano considera que a Al-Jazeera está servindo como suporte para as idéias de bin Laden. O então Secretário de Estado, Collin Powell, disse... “somos a favor de liberdade de imprensa, mas pensamos que ela não pode servir como suporte para disseminar idéias terroristas. Osama bin Laden não pode usar a mídia para difundir suas idéias” (2).

A Al-Jazeera transmitiu uma gravação do porta-voz da Al-Qaeda, Suleiman Abou-Gheith, na qual repete as palavras do líder bin Laden dizendo que a América não terá paz enquanto os muçulmanos não tiverem. O irônico é que Powell e o então Primeiro Ministro britânico Tony Blair concederam entrevistas à Al-Jazeera, e outros líderes norte-americanos também tentaram o mesmo. O que está parecendo é que a emissora árabe está sendo porta voz de todo mundo e o governo norte-americano está querendo c e n s u r a r, em nome de seus próprios interesses. Mas... não era a América (do norte) o bastião da liberdade de imprensa?

Jornalismo?

Richard Reeves considerou ruim o comportamento da imprensa no que diz respeito à cobertura do conflito no Afeganistão, após os atentados de 11 de setembro de 2001. Segundo ele, o jornalismo televisivo acabou. Portanto, a polêmica em torno da autocensura das emissoras norte-americanas quanto a manter uma superficialidade em torno das notícias da guerra não fez a menor diferença. Aqueles que operam as câmeras são mais importantes que os jornalistas, já que cada vez mais a imagem é tudo. Segundo Reeves, o número de bons profissionais na tv norte-americana vem diminuindo gradativamente. Afirmou que jamais confiaria numa informação passada pela tv sem checar. Segue dizendo que a imprensa norte-americana é responsável pela onda de desinformação, já que nos últimos dez anos os jornais norte-americanos removeram 80% dos correspondentes no Oriente Médio. As empresas alegam que é muito caro manter jornalista num outro país até que compreenda a cultura.

Conclui-se, portanto, que ninguém ligava se o Paquistão (ditadura/país vizinho do Afeganistão e que os Estados Unidos buscaram como aliado) estava desenvolvendo armas nucleares nesses mesmos últimos dez anos. Ironiza a visão narcisista dos norte-americanos, como quem diz: “não ligamos, somos uma superpotência e ninguém vai nos atacar”. O que significa dizer que os norte-americanos não sabem nada sobre as ameaças que pairam sobre si. Segundo Reeves, o próprio ex-presidente Bill Clinton é culpado pela disseminação dessa postura narcisista. Por outro lado Reeves, para quem Bush é simplesmente alguém muito ignorante, não acredita que este presidente norte-americano tenha discernimento para saber das coisas o suficiente a ponto de conseguir mentir sobre elas para a imprensa (3). (imagens acima e abaixo, quando se trata da verdade dos fatos, onde fica a fronteira com o sensacionalismo?)

Quando a Verdade Não Dá Ibope

A mídia, com sua miopia, enfatizava os números de vítimas no atentado, deixando de lado uma infinidade de massacres que ocorrem a muito tempo. Muitas guerras são desconhecidas porque simplesmente estão fora do noticiário. Quando acontece de algum desses países “desconhecidos” revidarem agressões das grandes potências em seu próprio território, como foi o caso dos atentados no World Trade Center, as pessoas incrédulas começam a engrossar o coro daqueles que vão classificá-los de loucos, que atacaram sem motivos... Alguns dados: Desde 1975, e durante os 26 anos seguintes, acontecia uma guerra civil em Angola. O país está todo destruído, economicamente falido e entupido de minas terrestres, mutilando milhares a cada ano. Mais de um milhão de pessoas morreram. Outro conflito se deu entre duas ex-repúblicas soviéticas, Azerbaijão e Armênia. Matou mais de 30 mil, com dezenas de milhares de refugiados. O Sri Lanka, antigo Ceilão, está numa guerra civil que se arrasta e mais de 64 mil já morreram desde 1983 (4). Temos que admitir, nós brasileiros, que sabemos sim dos nossos milhões de excluídos, a quem é negada cidadania.

Temos que admitir saber que morrem de fome. Deveremos admitir nossa omissão, quando finalmente se voltarem contra nós. Temos de admitir que não vai dar para chamá-los de fanáticos ou radicais quando... Numa sociedade de consumo, onde a cidadania é medida pela possibilidade que temos de fazer compras, a tv é um agente do consumo. Como disse Joan Ferrés...

“A televisão nega a realidade quando a reduz a estereótipos. Os estereótipos falsificam a realidade porque a simplificam ou a deformam, com base em condicionamentos culturais derivados sempre de um jogo de interesses explícitos ou implícitos”(...)”O jornal USA Today demonstrou a visão falsificada da realidade que é oferecida pela televisão americana por meio da análise exaustiva de 94 shows exibidos durante uma semana em 1993, na faixa horária de máxima audiência, pelas quatro grandes redes do país, ABC, CBS, NBC e FOX”.(...)” O protótipo do americano mostrado pela televisão nunca assiste à televisão, faz as refeições sempre fora de casa, nunca lê, não entra em supermercados e explica uma piada sobre sexo a cada quatro minutos” (...) “Dentro desse contexto não pode surpreender a expressão de Umberto Eco: ‘Símbolo é tudo aquilo que serve para mentir’. A linguagem como sistema para mascarar a realidade e não para revelá-la”(...)”A imagem não demonstra ser não uma janela aberta para o mundo, mas uma tela entre o espectador e o mundo, um filtro para o mascaramento da realidade, um obstáculo para uma comunicação transparente. Usando uma expressão de Jean Baudrillard, quando aparentemente mais nos aproximamos da realidade - por intermédio de uma imagem em movimento, a cores, sonora e instantânea – mas nos afastamos dela. E ocorre que ‘atualmente o escândalo já não está mais no atentado aos valores morais e sim no atentado contra o princípio de realidade” (5)

Mas talvez não exista motivo para preocupação. Afinal... A televisão é só um eletrodoméstico! (ao lado, o ex-presidente norte-americano George W. Bush em visita a centro de reabilitação para seus soldados vitimados no campo de batalha, 2007)

“Nenhum vento sopra
a favor de quem
não sabe para onde ir”

Sêneca




Notas:

Leia também:

A Cultura da Arma na América do Norte (I), (II), (III), (IV), (V), (final)

Isto é Holyywood!

O Cinema e o Passado: O Caso do III Reich (I), (II), (final)

1. BOCCANERA, Silio. Tv’s amargam perdas e danos da guerra. Globo News. 09/10/2001. Disponível em: http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos/asp1710200199.htm Acessado em: 05/09/2009.
2. EUA acusam al-Jazeera de colaborar com o Talibã. 10/10/2001 - 20h43m - GloboNews.com Fonte: Reuters. Disponível em:
http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos/asp1710200198.htm Acessado em: 05/09/2009.
3. FOLHA DE SÃO PAULO, folha online, da sucursal Nova York. Jornalismo na tv acabou, diz especialista. 11/10/2001. Disponível em:
http://www1.folha.uol.com.br/folha/mundo/ult94u31096.shtml Acessado em: 05/09/2009.
4. CIMENTI, Carolina. Guerras do terceiro mundo não têm audiência. Redação Terra, informações da Reuters. 02/10/2001. Disponível em:
http://br.groups.yahoo.com/group/ciencialist/message/11575 Acessado em: 05/09/2009.
5. FERRÉS, Joan. Televisão e Educação. Tradução de Beatriz Affonso Neves. Porto Alegre: Artes Médicas, 1996. Pp. 50-51. Citação de Baudrillard em, La guerra del Golfo no há tenido lugar. Barcelona: Anagrama, 1991. Pp. 48 e 86-87.

Fontes das imagens:

Viral Politics
David Leeson
Yraceme
Pasta abu-graib/ (imagem 32e)
Encyclopedia Britanica Blog
Propaganda Matrix
Poor Mojo Newswire

4 de jun. de 2009

O Corpo Suficiente (final)


“Agrade a todos e não
agradará a ninguém”

Esopo (1)

Virgindade Madura e Infantilidade Imatura

Somos compostos de carne e dúvidas. Não dá para esconder as últimas debaixo de maquiagens ou plástica ou botox, ou etc. Também não é possível eliminar as dúvidas para sempre, pois elas se sucedem a cada novo passo. As dúvidas, na verdade, são elementos essenciais, nos empurrando para buscas.

São elas que fazem o rio fluir em todas as direções – rompendo a maldição cronológica. A dúvida sobre aquilo que queremos ser (criança, maduro, velho) pode nos empurrar para várias respostas. Mas se é assim, como podemos ser criança, adolescente virgem e ao mesmo tempo um(a) velho(a) com vários filhos criados? Conceber uma personalidade tripla (que aqui não têm nada a ver com psicose), ao mesmo tempo criança-maduro(a)-idoso(a) não impede a constatação de nossa virgindade - que não está nos orgãos sexuais, mas no coração. Ela também é um sentimento. Só chegamos à velhice madura se resgatamos a inocência da virgindade da criança que temos dentro de nós. Sem essa virgindade, qualquer tentativa de rejuvenescer através de produtos artificiais não gera outra coisa senão pessoas regredidas e infantilizadas. (imagem acima, Interior no Verão. Edward Hopper, 1909)

Criando Um Monstro Maquiado

Então como fazem as mulheres pobres, para quem produtos de beleza ou plásticas estão fora do orçamento? Como faz quem não têm poder aquisitivo para se autoconhecer e ser feliz? Quem é pobre não pode “se cuidar”, portanto não há beleza sem dinheiro (imagem ao lado, 26.06.2002 Auto-Retrato. Gianguido Bonfanti). Isso faz sentido? O que pode um corpo sem a “indústria do rejuvenescimento da burguesia”? Temos então mais um dos tantos mecanismos de segregação social e racial. Até a sacola da padaria têm que ser de grife, senão ficamos parecidos demais com pobres carregando marmita! Mas afinal, de onde surgem fenômenos como a indústria do rejuvenescimento? De onde surge a motivação que torna natural a opção pela plástica facial, pelo botox, pela lipoaspiração, por produtos de beleza e mascaramento da idade cronológica? Quando e por que mascarar a idade passa a ser uma opção?

Como e por que esse valor (rejuvenescimento) se grudou ao exterior de nossos corpos e adquiriu relevância na afirmação de mudança interior? Por que modificar o exterior do corpo passou a ser sinônimo de mudança exterior (ou interior)? Quando um creme para controle de celulite passou a ser um elemento importante para a auto-estima? Um creme anti-rugas, antiestrias ou anticelulite é mais importante que o autoconhecimento? Cremes como estes ajudam mesmo o autoconhecimento?

Em Literatura de Auto-Ajuda e Individualismo, Francisco Rüdiger mostra como os manuais de auto-ajuda surgem no vácuo de uma mutação na Modernidade. Se antes o indivíduo recebia da tradição valores nos quais acreditar e justificar suas ações, agora é ele que deve administrar sua identidade. O problema começa, não é tão simples estabelecer parâmetros numa sociedade como a nossa, onde tudo vira mercadoria, onde há uma cisão entre pensamento e ação. Onde as práticas de conhecimento de si são engolidas pela cultura de massa. Rüdiger distingue a auto-racionalização (daquele que, percebendo-se cidadão de uma sociedade racionalizada, racionaliza seus hábitos, adequando-se ao sistema), teorizada por Max Weber, do conceito de reflexividade (capacidade de auto-observação, quando medito sobre meu modo de ser) sugerido por Karl Manheim: “Normalmente, o homem não se volta para si mesmo, dirige-se apenas às coisas que maneja, troca ou deseja fazer. Seu próprio agir permanece sem observação. A experiência imediata é onde se vive, de onde se parte, sem que se capte seu próprio sujeito” (2). (imagem ao lado, 12.07.2002 Auto-Retrato. Gianguido Bonfanti)

A literatura de auto-ajuda entra como elemento de compensação em relação à desintegração dos referenciais coletivos, uma característica das sociedades industriais do século 20. A libertação em relação às representações coletivas, que outrora engessavam a identidade, bate de frente com uma sociedade cada vez mais complexa, que tende a desintegrar a personalidade. Há uma precarização da subjetividade que, exposta à possibilidade constante de perda da unidade, mantém como pode os elementos de algo que possa chamar de identidade. A individualidade depende agora de reciclagem permanente, única forma de o indivíduo preservar sua condição de agente social. A liberdade desse indivíduo torna-se profundamente problemática no contexto de uma sociedade degradada, a literatura de auto-ajuda entra aí como uma das mediações a partir das quais as pessoas procuram construir um eu. Mas esse talvez seja um remédio que limita mais do que liberta, pois a literatura de auto-ajuda tende a reintroduzir valores tão clichês quanto aqueles da cultura de massa. (imagem ao lado, 13.03.2002 Auto-Retrato. Gianguido Bonfati)

Trocar um clichê por outro, ou seis por meia dúzia, talvez não baste para aqueles que buscam mais o auto-conhecimento de seus labirintos do que palavras açucaradas. Portanto, talvez a busca caótica pelo eu de cada um seja mais proveitosa do que a compra de mais um manual para nos dizer o que fazer (e, portanto, nos dando ordens, exatamente como a tradição fazia antes, nos obrigando a obedecer regras sem questionar, como condição para atingir a felicidade). A indústria do rejuvenescimento seria mais um desses mediadores que entra no vácuo identitário, ou reflexivo, da despersonalização. Daí essa tendência a aderir às novas tentativas de matar a charada do ser (feliz): cremes, plásticas, lipoaspiração, etc… A questão é que nesses processos o corpo pode não agüentar. O problema é a capacidade ou não do indivíduo escapar das armadilhas da indústria cultural e de massa – onde tanto indústria do rejuvenescimento quanto mercado editorial, do qual fazem parte os livros de auto-ajuda, estão inseridos. (imagem ao lado, 09.08.2002 Auto-Retrato. Gianguido Bonfanti)

Quando seu corpo será suficiente?

Eu Só Queria um Corpo Mais Corajoso

Uma vez ouvi na televisão uma tese bizarra. Alguém dizia que essa ditadura da magreza imposta às modelos das passarelas não têm nenhuma relação com a hipótese de que as mulheres precisam ser magras para poder vestir qualquer roupa que se lhes apresente o estilista. Ao contrário, afirmavam, não haveria nenhuma necessidade dessa imposição de um corpo esquelético, anoréxico e bulímico. Tudo não passaria de um complô dos homossexuais (que geralmente são os estilistas) contra as mulheres. Eu realmente não me lembro quando nem quem disse isso na televisão. Uma coisa se pode constatar, quase sempre somente AS modelos são bulímicas, OS modelos não.

Os homens que desfilam, geralmente estão bem nutridos e muito bem tratados. Não têm nenhum esquelético. Eu só não consigo explicar, seguindo essa lógica bizarra, por que AS modelos que trabalham para estilistas mulheres também são esqueléticas (imagem acima, Cinema em nova York, 1939; abaixo, Interior [Modelo a Ler], 1925. Edward Hopper). Será que essas mulheres (estilistas) não perceberam que seu gosto (sexual) por mulheres esqueléticas talvez obedeça à imposição misógina de seus colegas (estilistas)?

No fundo, pouco importa se a culpa é dos homossexuais. Até porque nós, elas e eles, todos somos vítimas do mercado de consumo – a falta de consciência disso talvez explique a pouca solidariedade entre nós, uns pisando nos outros, enquanto o mercado manipula a todos impunemente. Mas por que será que as mulheres não percebem essas manipulações (no fundo misóginas) de seu ego e seus corpos? Não dá para desconfiar nem um pouquinho de certas imposições feitas ao corpo feminino? Não dá para lembrar o exemplo (da mercantilização) da erotização da criança na televisão brasileira? De qualquer forma, a mulher sempre foi a “criança” preferida do mercado. (abaixo, 13.07.2001. Gianguido Bonfanti)


Mercantilização da libido infantil, meninas adolescentes mais preocupadas em se maquiar do que em viver a vida, mulheres infantilizadas mais preocupadas com a imagem do que com a substância interior, será esse o panorama do feminino no século 21? Será este o legado do feminismo? Não é que as mulheres não devem se cuidar ou se arrumar – fazer plástica, lipoaspiração ou injetar botox. Também não se defende que os homens devem largar o viagra, não se trata de negar um aumento de potência sexual fora de época. Não se trata de negar à mulher idosa ou às adolescentes o direito de se maquiarem até sufocarem todos os poros da pele. O que é importante é perceber o limite do exagero. O que é sábio é perceber até que ponto desejamos fazer isto ou aquilo ou se estamos sendo induzidos por pressões sociais preconceituosas e/ou mercadológicas. Usar a indústria do rejuvenescimento não é o problema, mas ser usada por ela sim.


Se a mulher não percebe essa fronteira, não me parece justo afirmar que com quilos desse ou daquele produto a vida vai parecer melhor. As mulheres acabam perdendo de vista que não existe corpo suficiente para suprir essa falta nutrida pela indústria do embelezamento (do seu exterior). Não há corpo suficiente porque sempre haverá um produto novo no mercado. Nunca haverá corpo suficiente porque o corpo humano não é isso, ele não foi pensado (por Deus?) como algo congelado no tempo, algo que não muda – a mulher não pode se comparar à comida congelada. A vantagem do corpo humano é exatamente o fato de que ele está sujeito à mudança. Essa é a qualidade do exterior do corpo que pode mudar o interior: a mudança física no corpo sugere que o interior (espiritual ou o que for) não só pode como deve mudar. Nesse sentido, as marcas do envelhecimento do corpo não são parte do problema, são parte da solução.

Em O Céu Que Nos Protege (The Sheltering Sky, direção de Bernardo Bertolucci, 1990) (imagem abaixo), temos um casal no deserto em busca daquilo que se perdeu em seu amor. Logo no início faz-se uma distinção entre turista e viajante. O primeiro quer logo voltar para casa, enquanto o segundo pode nunca mais voltar – como um rio, ele simplesmente vai. Em certo ponto, o marido morre. Kit, a viúva, parte então pelos caminhos do deserto com uma caravana. Lá pelas tantas, é resgatada no hospital com um olhar perdido. A pergunta é, onde está a vida afinal, para onde devemos olhar? Como olhar para o interior sem confundi-lo com o exterior? Cadê meu corpo? Cadê minha vida? Kit volta ao bar onde estivera no início de sua busca com seu marido. De repente ela vê um velho, que parece falar com ela telepaticamente.

Velho: Você está perdida?
Kit: Sim.
Velho: Porque a gente não sabe quando vai morrer. A gente pensa na vida como um bem inesgotável (3). As coisas acontecem certo número de vezes. Um pequeno número, na verdade. Por quantas vezes você se lembrou de uma tarde de sua infância, uma tarde tão comum, mas que você não poderia viver sem ela? Talvez umas quatro ou cinco vezes, talvez nem isso. Quantas vezes você vai admirar a lua? Talvez vinte. E ainda assim parece sem limites.


Cadê sua vida? Cadê o corpo que você tinha? Você tinha vida quando tinha aquele corpo? Quantas vezes você percebeu o mundo lá fora? Quando vamos entender que nossos corpos são frágeis sutilezas da vida relegadas a segundo plano em nossas próprias lembranças? Por que colocar no corpo mais esse fardo de carregar a culpa por nossa incapacidade em buscar a felicidade?

Quando seu corpo será suficiente?

Notas:

1. Conhecido como o primeiro fabulista da história. Grécia, séc. VI a.C.
2. RÜDIGER, Francisco. Literatura de Auto-Ajuda e Individualismo. Rio Grande do Sul: Editora da Universidade. 1996. P. 12.
3. Na edição lançada em 2006, na versão dublada em português a palavra ‘inexhaustible’ foi traduzida por ‘incansável’.

1 de fev. de 2009

Os Biblioclastas (I)


“Aqueles que
ignoram o seu
passado   estão
condenados a
 repeti-lo”
George Santayana


Uma Religião Para se Orgulhar 


Em matéria de perseguição religiosa e extermínio do pensamento discordante, nada suplanta o terror da Inquisição. Tortura institucionalizada, condenações sem direito de defesa, censura e destruição de livros (e as idéias neles contidas), eis a herança que a Igreja Católica legou para o mundo Ocidental. Após a queda do Império Romano e a cristianização de suas cinzas, a consolidação do “império cristão” começa a esbarrar na pluralidade do pensamento e das vontades. Ou melhor, incisivamente ou apenas com sua simples presença, os livres pesadores, religiosos e/ou ateus, os movimentos religiosos de vários matizes nascentes ou remanescentes de formas arcaicas, começam a questionar a “força cristã”.

A Inquisição tinha como objetivo mapear esses movimentos de idéias contrárias aos seus dogmas e dissuadi-los por meio da excomunhão, tortura, ordálio (ou prova de Deus), queima de hereges (alcunha negativa que denomina todos que atacam a Igreja ou, simplesmente, discordam), chegando ao ataque a populações inteiras. Com o surgimento da Reforma Protestante de Martinho Lutero (que por sua vez teria pregado também o anti-semitismo) no século XVI, a bestialidade da Inquisição se institucionaliza. Muito já se falou a respeito das torturas e fogueiras de gente.

Em seu livro, História Universal da Destruição dos Livros. Das Tábuas Sumérias à Guerra do Iraque (1), Fernando Báez mostra como ao lado de todas as formas autoritárias de governo, e das mortes de seres humanos que eles patrocinam, existe um outro crime contra a humanidade do qual pouco se fala. Báez mostra como a queima de livros sempre foi um empreendimento levado muito a sério pelos donos do poder em cada época da história. Não tanto pela destruição física do livro, pergaminho ou folheto, mas pela tentativa de destruir as idéias neles contidas. Um capítulo convenientemente pouco divulgado da Inquisição passa por essa forma de destruição da cultura humana. Muitas foram as listas de livros proibidos e de bibliotecas particulares destruídas, juntamente com seus donos.


Situação que lembra muito outro livro, Fahrenheit 451 (1953) (imagens acima), de Ray Bradbury, que ganhou uma versão para cinema em 1966, pelas mãos do cineasta francês François Truffaut. A história se passa num tempo futuro, onde as pessoas são perseguidas por possuírem livros. Os bombeiros, que hoje apagam incêndios, têm como função juntar os livros descobertos e queimá-los – fahrenheit 451 é a temperatura que deve ser atingida pelo fogo para queimar os livros com mais eficiência.

Para o Estado Totalitário que vigiava a todos, o perigo da disseminação de idéias novas (que poderiam levar ao questionamento de seus dogmas políticos) tornava a busca, apreensão e destruição (tanto dos livros quanto de seus donos) uma tarefa imprescindível. E assim era para uma Igreja Católica desvairada ao longo de alguns séculos, influência nefasta que chegou até o século 19 em alguns lugares onde ela ainda mostrava suas garras. Seja no livro, no filme, ou na Inquisição real, a desqualificação do discurso e das idéias de alguém (pelo fato de ter sido questionado por essas forças do obscurantismo) já funciona como uma mordaça.

O Santo Ofício e a Censura aos Livros 

O controle pelo medo é a arma da intolerância religiosa, que durante alguns séculos foi pregada por uma Inquisição cujo objetivo parecia ser instalar uma indigência do pensamento em sua área de influência. O questionamento de todas as visões de mundo que, direta ou indiretamente, contradiziam os dogmas da Santa Igreja gerou grandes listas negras. Em 1542, o Papa Paulo III constituiu o Santo Ofício. De modo geral, a Inquisição perseguia a todos que pudessem causar problemas políticos para a Igreja. O Santo Ofício, que fora criado em função da proliferação do protestantismo, se concentrava nos teólogos e sacerdotes, que eram rastreados por espiões e mercenários (2).

Em 1520, uma bula do Papa Leão X excomungou Martinho Lutero e publicamente proibiu a difusão, leitura ou citação de qualquer de seus escritos. A população, a maior vítima, passou a queimar os livros e efígies de Lutero (por medo de ser questionada ou por uma fé genuína que respeitava a autoridade da Igreja), que por sua vez mandou destruir a bula numa fogueira (3). Em 1529, foi proibida a impressão de livro não autorizado por um órgão sacerdotal. Em 1220 uma lei que autoriza o confisco dos bens dos hereges, facilitando a queima dos “teimosos”.


Em 1252, Inocêncio IX nomeou duas ordens eclesiásticas encarregadas do cumprimento das penas contra os hereges: dominicanos e franciscanos. Foi um dominicano fanático, Bernardo Guidonis, que em 1323 escreveu o primeiro manual de instruções para o combate as heresias. (imagem acima, à direita, Librorum Prohibitorum, 1559-1964, uma lista de livros proibidos publicada pelo Vaticano)

Espanha, o Inferno na Terra

A Inquisição na Espanha constitui um capítulo à parte, a perseguição contra toda opinião contrária era frenética! Em 1478, o rei Fernando II e a rainha Isabel I se destacaram na formulação de uma monarquia inquisitorial. Felipe II, em seguida, instaurou a censura católica. Judeus e Árabes foram perseguidos, aquele que não se convertia ao catolicismo era executado. Autores de livros e seus editores foram enforcados. Em 1570, criou-se um catálogo espanhol próprio de obras proibidas, o que permitiu o confisco e destruição de milhares de livros em toda a Europa. Em 1583, a Universidade de Salamanca elaborou um índice que especificava tanto obras quanto trechos proibidos. Assim, poderiam se suprimir frases, parágrafos e partes de um livro, como condição para permitir sua circulação. Esse índice circulou até 1790.

Em 1558 foi expressamente proibida a importação de livros e o contrabando deles era punido com penas elevadas. Os livros de Lutero e Calvino, o Talmude, o Corão, livros de adivinhação, superstições, alusões sexuais ou necromancia, foram todos proibidos. Na França, já a partir de 1563, a intimidação a impressores, vendedores e autores de livros era franca e aberta – imagine-se o quanto se poderia intimidá-los caso naquela época já existisse a televisão!


Como observou Turberville, não bastava proibir, era necessário comprovar que não se liam livros proibidos. A Inquisição utilizava agentes para fiscalizar as livrarias e as bibliotecas particulares (4).

Na América espanhola era a mesma coisa, Peru, México, Colômbia, Venezuela, de norte a sul a Inquisição se fez presente através do Santo Ofício, queimando homens e livros até a primeira década do século XIX. Havia até visitas domiciliares para interrogatório dos proprietários de livros. Equipes de busca fuçavam as cidades atrás de livros proibidos ou considerados questionáveis segundo o ponto de vista distorcido da Inquisição. “Um país se faz com homens e livros”, já disse Monteiro Lobato a respeito do Brasil. Não precisamos somente de livros, mas de leitores, livreiros, editores e autores livres. Como podemos ler naquela gravura do espanhol Francisco Goya (acima à esquerda): “o sono da razão produz monstros”.

Notas:

1. BÁEZ, Fernando. História Universal da Destruição dos Livros. Das Tábuas Sumérias à Guerra do Iraque. Tradução Léo Schlafman. Rio de Janeiro: Ediouro, 2006.
2. Idem, p. 160.
3. Ibidem, p. 159.
4. Ibidem, p. 162.


19 de jan. de 2009

A Fabricação do Herói (final)





Obras Encomendadas

A glorificação de Tiradentes encontra muita receptividade no governo, mais do que qualquer outro protagonista de nossa história. Em 1890, um único decreto estabelece as comemorações do 15 de novembro (Proclamação da República) e do 21 de Abril (Inconfidência Mineira). Com muitas obras encomendadas aos artistas de plantão, a imagem do herói-mártir se cristaliza definitivamente na memória nacional. O fato de pouco se saber da vida real de Joaquim José da Silva Xavier até facilitou o trabalho dos artistas, que ficaram livres para recriá-lo. “A vida de Joaquim é parasitada pelo mito”, agora a figura heróica preenche de tal maneira o vazio da biografia dele que, de ilustração, acaba se transformando na verdadeira vida de Joaquim.

É segundo esta perspectiva, afirma Maria Alice Milliet, que a litografia de Décio Rodrigues Villares deve ser compreendida. Com efígies do Tiradentes distribuídas ao povo pelo governo durante o desfile comemorativo da data em 21 de abril de 1890, o pseudo-retrato criado por Villares é considerado a imagem fundante: Tiradentes, para os brasileiros, é uma espécie de Jesus Cristo. Assim ele apareceu na litografia de Villares editada pela Igreja Positivista do Rio de Janeiro e assim permanece até hoje (imagem ao lado)

“O rosto visto de três quartos é o de um homem de tez clara, traços regulares, com pouco mais de 40 anos. A longa barba e os cabelos até os ombros emprestam-lhe um ar de estudada negligência. Seu olhar evasivo não fixa o observador, perde-se na distância. Como único adereço, traz uma corda enlaçada ao pescoço sem, contudo, ameaçar enforcá-lo. Abaixo do busto, vê-se a palma e a coroa de ramos de café enfeixados por uma fita onde se lê: 1792–Libertas Quae Sera Tamen e Ordem e Progresso–1889. No topo da prancha, ao centro, a legenda Tiradentes 1792-21-abril-1890. No canto inferior esquerdo vem: Edição do Apostolado Positivista do Brasil-1890, e na mesma altura, à direita, o autor D. Villares” (1)

Um Rosto Para a República

Na litografia de Villares, o texto controla a recepção da imagem, direciona o sentido, fixa uma interpretação. “Na conjugação palavra/imagem se arma a conotação ideológica do ícone concebido para o grande público”. Como nos lembra Milliet, uma imagem desprovida de pathos, onde o drama é apenas evocado: a corda delicada e frouxa em volta do pescoço pouco lembra o laço da forca. Ocorre também uma contaminação entre a mensagem política e a religiosa.

“A barba crescida sugere as duras condições da prisão, e os olhos mansos voltados para o além indicam desprendimento do mundo. O semblante aproxima-se do arquétipo da santidade: o santo, antes de mais nada, é alguém alheio às contingências da vida mundana. O ícone do herói confunde-se com certa iconografia do Cristo que consagra ‘um tipo fino e aristocrático, um tanto insípido’, cuja fixação ocorre no século XVIII, segundo [Germain] Bazin, na famosa pintura do Sagrado Coração de Jesus, de Pompeu Batoni (1708-87) para a igreja do Gesú de Roma” [imagem ao lado] (...)”Dessa tradição vem a fácil aceitação de figura cristianizada do Tiradentes” (2)

Em seu rosto não se vê tensão, não é o rosto impetuoso de um subversivo (como era visto no tempo do Império) ou o olhar passional do revolucionário. O que sobra é uma efígie olímpica, adocicada, próxima da medalha de devoção ou do santinho do catecismo. Nada, nenhum relato preciso da aparência de Joaquim, remete a essa imagem. Como resumiu Roland Barthes:

“Passando da história à natureza, o mito faz uma economia: abole a complexidade dos atos humanos, confere-lhe a simplicidade das essências, suprime toda e qualquer dialética, qualquer elevação para lá do visível imediato, organiza um mundo sem contradições, porque sem profundeza, um mundo plano que se ostenta em sua evidência, cria uma clareza feliz: as coisas parecem significar sozinhas, por elas próprias” (3)

Imagem da República, Imagem Positivista

A litografia de Villares foi encomendada pelos Positivistas do Rio de Janeiro. Seu patrono, Augusto Comte, havia criado em 1847 uma Igreja Positivista (a Religião da Humanidade) cujo objetivo era substituir os personagens religiosos pelos pais da Razão. Assim, seus templos, ao invés de imagens de santos tinham imagens de filósofos como Platão, Aristóteles, Rousseau, Hobbes etc. Homens da Razão e da Ciência. Apesar de se propor como uma opção à religião teológica, o catecismo positivista se apropria de símbolos do catolicismo. Em seu país de origem, a França, ela já estava extinta, mas no Brasil ela está viva até hoje (na Igreja Positivista do Rio de Janeiro). E foi essa Igreja que encomendou a imagem de Tiradentes que se cristalizou nos olhos e na imaginação do brasileiro.

A identidade entre Tiradentes e Cristo está no lema Positivista: Viver para Outrem. Tanto para o cristianismo quanto para o Positivismo, a idéia do mártir está ligada à figura do herói altruísta: a renuncia individual em benefício do interesse social. Uma dedicação dos fortes aos fracos e a veneração dos primeiros pelos últimos. Isso leva a reconhecer os homens ilustres como guias da humanidade e a reverenciá-los como se faz com os santos. O culto aos homens notáveis ou mortos ilustres é integrado então como elemento disciplinador das forças sociais. Segundo a diretiva do próprio Augusto Comte, o Gran-Ser “não incorpora a si senão os mortos verdadeiramente dignos”, “afasta de cada um deles as imperfeições que sempre lhe maculam a vida objetiva”. Era o que faltava para a idealização dos mortos, cuida-se de “melhorar a realidade” (4). Isso acontece também quando só encontramos elogios para alguém que acabou de morrer!

A França da Revolução, entre 1789 e 1799, também havia desenvolvido esse fenômeno. Com a desvinculação entre Estado e Igreja (instituída aqui pela Constituição de 1891), era necessário preencher o vazio. A necessidade do sagrado teria buscado satisfação no culto aos mártires da Liberdade, espécie de santos patriotas (5). (ao lado, o sacrifício do mártir, Tiradentes Esquartejado, de Pedro Américo, 1893)

Com tudo isso acontecendo numa época sem a imprensa e a máquina da propaganda de que dispomos atualmente, podemos imaginar (para aqueles que se arriscam a produzir pensamentos) o que pode estar em jogo na construção da imagem dos homens notáveis que a televisão vomita sobre nós diariamente. Quem são essas pessoas afinal? Nós as vemos e ouvimos, mas como distinguir entre aquilo que elas são e aquilo que elas apenas parecem que são? Sem falar nas imagens cuja legenda nos diz: "esse é bandido". O que exatamente distingue um homem notável de um bandido na sociedade brasileira? Quem define "bandido" e quem define "homem notável"? De repente, “ler” as imagens torna-se uma tarefa muito mais complicada do que fomos acostumados a acreditar...

Notas:

1. MILLIET, Maria Alice. Tiradentes: O Corpo do Herói. São Paulo: Martins fontes, 2001. P. 140.
2. Idem, p. 142.
3. BARTHES, Roland. Mitologias. São Paulo: Difel, 1988. Pp. 163-4. In MILLIET, Maria Alice. Op. Cit., p. 144.
4. COMTE, Augusto. Curso de Filosofia positiva, Discurso Preliminar Sobre o conjunto do Positivismo, Catecismo Positivista. São Paulo: Nova Cultural, 1988. P. 74 In MILLIET, Maria Alice. Op. Cit., p. 148. A ênfase é minha.
5. MILLIET, Maria Alice. Op. Cit., p. 152.

15 de jan. de 2009

Bullying


O Hábito de Zombar e a Patologia Social

Atitudes de chacota, piadinhas e agressões entre pessoas, sejam crianças ou adultos: quando alguém, ou um grupo, ataca moralmente outra pessoa ou grupo com freqüência. Acredito que tal comportamento poderia ser resumido pela frase: desprezar o semelhante é preciso, pensar/sentir não é preciso!

O hábito de zombar dos outros, seja por que motivo for, está se alastrando pela sociedade. Quando se fala de bullying, geralmente se comenta sobre crianças e adolescentes em sala de aula que adotam uma posição arrogante em relação a outras – porque alguém é alto demais, ou baixo demais, ou gordo, ou magro, ou estudioso, ou porque não estuda, ou pela religião, ou racial, ou financeiro etc, etc, etc. Enfim, porque é diferente, e atacar o diferente é preciso! Mas quando isso chega ao comportamento de pessoas adultas a coisa muda de figura. Justamente daqueles que se espera que tenham superado sua fase adolescente, é de onde cada vez mais afloram condutas absolutamente infantis (intolerantes) em relação à vida alheia e à diferença.

Parece que algumas pessoas sentem prazer em fazer tortura psicológica em outras pessoas. Uma tortura que “parece” uma brincadeira. “Estamos apenas zoando fulano”, diriam os praticantes desta distorção de comportamento. Entretanto, entre a gozação e o bullying existe certa distância. Isso não é gozação, é pura intolerância. É como se utilizássemos a pata de um elefante para esmagar uma formiga. É uma atitude desproporcional, essa seria a diferença entre a gozação e o bullying. É a banalização da violência. Será que ela pode ser um dos efeitos colaterais da banalização da vida nos tempos atuais?

A Mé(r)dia da Mídia e o Bullying


Mas qual poderia ser a relação da mídia com tudo isso? Na verdade, aqui e ali (sem citar nomes), podemos assistir a uma série de programas e reportagens jornalísticas na televisão aberta que (talvez) constituam bullying ou o estímulo a ele. Se nos lembrarmos daquilo que se chama de “vídeo cacetadas”, o que temos é a suposição de que vamos rir ao assistir pessoas, e até crianças e idosos, tropeçando e levando tombos que poderiam levar a pernas e braços, ou talvez uma coluna vertebral, quebrados. Portanto, a idéia parece ser “sentir prazer com a desgraça do outro”. A mídia acaba incentivando o bullying ao sugerir que isso é “engraçado”: se alguém levar um tombo na sua frente, a primeira atitude não é correr para ajudar, mas rir ou ficar indiferente. O bullying parece se caracterizar pelo desprezo ao semelhante: quando consideramos alguém como um objeto e não como um ser humano, tratá-lo como coisa fica mais fácil.

Não está longe dessa lógica a notícia de jornal que expõe ao ridículo todos aqueles assaltantes (via de regra pobres) que são apanhados (porque os ricos não são expostos ao ridículo). Eles são mostrados e são feitas perguntas a eles pelos jornalistas como se a tela da televisão fosse uma espécie de “tribunal-vitrine”. A primeira pergunta que se pode fazer é: por que humilhar um bandido na televisão? A resposta é simples: porque dá audiência. O que, exatamente, dá audiência? Assistir alguém ser espezinhado publicamente sem poder reagir. É como se a audiência dependesse do grau de covardia da situação.

A mídia acaba incentivando o bullying ao sugerir que isso é “engraçado” ou é a coisa certa a fazer: quando um grupo de pessoas na rua consegue pegar um ladrão, batem nele e xingam, ao invés de simplesmente entregá-lo a polícia. E naturalmente irão espezinhar alguém que tente defender o direito dos próprios linchadores de receber um pronto atendimento da polícia ao sugerir que fazer justiça com as próprias mãos é não ver que o poder público é totalmente omisso em relação à segurança pública. Desta forma, a horda de linchadores fará inclusive o trabalho sujo da segurança pública ao espezinhar também quem deseja apenas abrir seus olhos.

Uma malhação do Judas que dá audiência, esse tipo de abordagem acaba incentivando (porque funciona como modelo) um comportamento hostil entre as pessoas. Uma chacota que funciona como linchamento moral, podendo levar a reações fatais. Quem sabe, muitos dos homicídios e chacinas sem causa aparente ou classificadas como motivo fútil tenham como origem esse tipo de comportamento, levando a vítima (que acaba transformada em algoz), psicologicamente despreparada, a reagir na única linguagem que conhecem aquelas pessoas que não sabem dialogar – ou que só dialogam para fazer fofoca sobre a vida alheia: por causa de uma chacota fruto de uma fofoca, destroem-se vidas.

A mídia patrocina uma patologia social em nome do lucro fácil. Noticiar a violência não pode se igualar a ela, da mesma forma como a polícia não pode agir com a irresponsabilidade social dos bandidos. Caso contrário, não se saberá mais quem é quem! É como uma pedagogia do ódio. E o que é pior, um ódio mútuo travestido de “brincadeira” e fofoca. Tudo isso, com o consentimento das emissoras de rádio e televisão que veiculam esse tipo de programação. Apesar de todas serem concessões públicas, insistem em pensar apenas no próprio lucro. E o poder público, que deveria disciplinar a situação, mais uma vez é o primeiro a se omitir.

É curiosa a desproporção entre a atenção absurda que a mídia comercial dá a dramas sociais do tipo em que se fazem reféns e a nenhuma cobertura que se dá a casos de suicídio. Por que se noticiam os primeiros à exaustão enquanto nunca vemos nada sobre o segundo? Será que as pessoas não se suicidam? Não devemos mostrar aquilo que acontece na sociedade?

De fato, esta é a questão, existem “formas e formas” de dizer alguma coisa ou de mostrar um fato. Não pretendo “ensinar o padre a rezar missa”, suponho que os profissionais da mídia têm capacidade de perceber os desdobramentos de seus atos e modificá-los caso desejem. Algum deles irá desejar perder audiência só para avisar aos telespectadores que se as coisas continuarem assim todos nós vamos nos transformar em monstros?

27 de set. de 2008

O Rosto e a Ética na Televisão


“Posso obrigar meu rosto a fazer qualquer coisa”

Marilyn Monroe


No filme Cidadão Kane (Citizen Kane, 1941), o cineasta Orson Welles retratou um grande empresário dos jornais que tinha por costume transformar ficção em realidade – no sentido negativo. O cidadão era Randolph Hearst, magnata da indústria da informação nos Estados Unidos da primeira metade do século 20. De manchetes que eram a mais pura ficção, à pré-julgamento de personalidades públicas, seu império jornalístico cresceu em função de sensacionalismo barato.

Digamos que fossemos convidados a montar os cartazes da campanha eleitoral do Senhor X. Não há dúvidas, mesmo que não seja bonito, deverá manter todos os músculos do rosto em ação. Por outro lado, outros signos emanam de sua postura, pela maneira como levanta os braços... Suas mãos nunca podem ser esquecidas.

Quem se lembra dos óculos no rosto de Jânio Quadros? No entanto, todos daquela época guardam em sua mente a imagem da vassoura com a qual pretendia varrer a corrupção - ao som de “varre, varre, vassourinha” (à esquerda). Coincidência ou não, o atual governador da Califórnia, Arnold Exterminador do Futuro Schwarszenegger, apareceu em público para falar de corrupção com uma vassoura nas mãos. Afirmava que ia varrer esse mal da vida de seus eleitores (à direita).

Benito Mussolini, o ditador italiano, gostava de ser filmado sem camisa, empunhando enxada, pás ou dirigindo tratores. Seu amigo alemão, Adolf Hitler, preferia os palanques. Sua voz e suas mãos/braços faziam uma triangulação com seu rosto. Geralmente, aparecia nas telas do cine-jornais da época num ângulo que deveríamos utilizar se pretendêssemos fazer do Senhor X um deus. Em discursos importantes a câmera era posicionada abaixo dele. Isso fazia com que sua imagem evocasse um ser acima da corrupção mundana. O espectador é colocado na posição do filho pequeno, para quem o pai está sempre numa posição superior (1).



"Minta, minta que
alguma coisa fica"


Josef Goebbels
Ministro da Propaganda de Hitler



John Kennedy, Fernando Collor… Exemplos poderiam seguir ao infinito. O Senhor X é uma construção. Uma imagem construída ao gosto do freguês. A próxima pergunta: mas isto é um problema? Sim e não. Sim, porque obviamente conhecemos os males advindos de confundir uma barba bem feita com um bom administrador. Não, porque assimilação de comportamentos culturais também se dá por um aprendizado imitativo. Portanto, quando Kane/Hearst criava/vendia um personagem, procurava sua “cara” nos leitores. Como afirmou Joan Ferres, “uma escola que não ensina como assistir à televisão é uma escola que não educa” (2). Jesús-Martín Barbero e Germán Rey criticam o asco dos intelectuais em relação à televisão. Acreditam que não se pode negar que a televisão constitui uma das mediações históricas mais expressivas de matrizes narrativas, gestuais e cenográficas do mundo cultural popular (3).

No que denominaram de “mal-olhado dos intelectuais”, chamam atenção para uma “exasperação da queixa”. O que irrita Barbero e Rey é o fato desse olhar, em geral, não perceber que na maior parte das vezes não passa de asco estético misturado com indignação moral (4). Referindo-se ao próprio país, afirmam que aquela tendência a não admitir em público que se vê televisão ainda seria lugar comum entre professores colombianos, numa tentativa de afirmar uma autoridade intelectual. (acima, à esquerda, três poses de Adolf Hitler enquanto praticava seus discursos; acima, Bush, o presidente norte-americano; ao lado, Fernando Collor)

Na opinião de Barbero e Rey, desligar a tv também não é a saída. Agir assim é tornar irrelevantes as lutas contra a lógica mercantil! As próprias políticas educativas falham quando não acreditam ser necessário ensinar a ver tv. Esta atitude acaba tornando o aparelho em si (e não a programação) um veículo de incultura (5).

Eles afirmam que, se atravessamos um desordenamento cultural, ele é fruto da interação (cada dia mais densa) entre dois universos. Por um lado, os modos de simbolização e ritualização do laço social e, por outro lado, os modos de operação dos fluxos audiovisuais e das redes comunicacionais. (ao lado, o presidente Lula)

Barbero e Rey defendem a hipótese de que essa desordem questiona as formas invisíveis do poder articuladas aos modos do saber e do ver. Ao mesmo tempo, são tornados visíveis novos saberes, novas formas de sentir, novas figuras da sociabilidade (6).

Os personagens criados pelos cidadãos Kane da grande mídia, nossa própria criatura (o Senhor X)… Enfim, não podemos confundir reprodução de estereótipos com criação. Não podemos confundir o puro clichê com a potência do novo.

Notas:

1. Joseph Goebbels, ministro da propaganda de Hitler, é aquele que está por trás dessa produção da imagem do ditador.
2. FERRES Joan. Televisão e Educação. Tradução Beatriz Affonso Neves. Porto Alegre: Artes Médicas, 1996. P. 7. O grifo é meu.
3. MARTÍN-BARBERO, Jesús; REY, Germán. Os Exercícios do Ver. Hegemonia Audiovisual e Ficção Televisiva. São Paulo: Editora SENAC São Paulo, 2001. P. 26.
4. Idem, p. 23.
5. Ibidem, p. 27.
6. Ibidem, p. 18.

23 de set. de 2008

Entre o Rosto e o Corpo



“Nossas feridas do corpo,
eventualmente, fecham e cicatrizam.
Mas há sempre feridas escondidas, aquelas do
coração, e se você sabe c
omo aceitar e suportá-las,
você descobrirá a dor e a alegria que é impossível
expressar com palavras. Você conquistará
o d
omínio da poesia que só
o corpo pode expressar".

Kazuo Ono


O frenesi em torno do rosto se justifica por sua indefinição radical. Por sua exposição excessiva e incrível desvalorização do restante do corpo em relação a ele, o rosto lança constitui um enigma. Como o famoso enigma da esfinge, “decifra-me ou devoro-te”, o rosto cria mais problemas que soluções.


Nosferatu, o vampiro, não é só um rosto. Suas mãos são partes indissociáveis do personagem, especialmente nas cenas onde o foco está em sua sombra (imagem abaixo). Frankenstein é fruto da soma de vários corpos, trata-se de parte crucial do próprio enredo da história (acima). Curioso ter que falar de monstros para falar de corpo!

Não se trata de criticar gratuitamente a relevância que o rosto alcançou como ponto central da comunicação não-verbal na cultura ocidental contemporânea. Olhamos o rosto esquecendo que às vezes uma mensagem tem um campo de significação mais amplo nas posturas assumidas pelo restante do corpo. A dependência em relação ao rosto é tão grande que pouco entendemos das posturas das partes “restantes” do corpo.

Não há como negar, as telenovelas brasileiras investem pesado nos corpos. Porém os rostos estão sempre em destaque. Galã ou estrela, não apenas uma qualidade ligada ao estilo, mas ao rosto, ao olhar. Nas “telasnovelas”, mesmo um corpo escultural não resiste muito tempo a um rosto que não corresponda à máscara da beleza.

Reconheço o poder comunicacional do rosto. Apenas acredito que, reduzindo o corpo ao rosto, simplificamos por demais qualquer análise de comunicação não-verbal. Como sugerem Gilles Deleuze e Felix Guattari, talvez estejamos fazendo do rosto uma ficção (1).

Da pintura ao cinema, da fotografia à televisão e à computação gráfica, a sedução do rosto não cessa de nos provocar. Mas, “quem vê cara não vê coração?” A questão é o olhar viciado de uma sociedade mergulhada em imagens. Olhamos tudo, não vemos mais nada! Uma perda de sensibilidade do olhar, viciado por velocidade/quantidade. É necessário não perder o elo entre a sensação e o olhar. Agenciando olhar e intensificação das sensações, o rosto poderia atualizar alteridades, abdicando de representar universais: clichês, estereótipos. “O rosto não é um universal” (2).


Os comentários de Nelson Brissac sobre o trabalho de Evgen Bavcar (3) nos apontam pistas para buscar um desvio e escapar dos clichês que aprisionam as representações do rosto. Fotografar a sensação, desafio que se lança à cegueira da visão.

Bavcar é um fotógrafo cego, o que talvez o salve da “cegueira da visão”. Apela para outros sentidos que nós os não-cegos não mais enxergamos, escravos que nos tornamos da visão. Ele descreve seu trabalho dizendo: “eu fotografo contra o vento”. Desta forma, o vento recorta a posição daquilo a fotografar. O vento traz o perfil, o cheiro e o ruído das coisas. Essa visão feita pelo vento cria um deslocamento em relação à ótica. O Renascimento instituiu a perspectiva óptica como forma privilegiada de organização do espaço. “A perspectiva é um ordenamento do mundo a partir da visão óptica” (4), mas Bavcar aguça outros sentidos e multiplica seus pontos de vista. (imagem abaixo, La Vista Táctil, Evgen Bavcar)

Bavcar procede a um deslocamento lateral que rompe a relação entre primeiro-plano e profundidade, fruto da visão em perspectiva “Aí está o primeiro elemento extremamente contemporâneo de Bavcar: introduzir uma lateralidade na abordagem do mundo” (5).

Ele introduz o elemento tátil ao apalpar aquilo que fotografa. Apalpando, coloca-se em meios às coisas. Bavcar se insere no mundo que fotografa, não se comportando como um espectador para quem o mundo se descortina à distância. A luz é tratada como inscrição do espaço e não como sua ordenação. Procedendo desta forma, ele que não pode ver, paradoxalmente cria uma polifonia do olhar, multiplicando as formas de ver ao substituir o olho pela mão.


“Existe um belíssimo texto de Gilles Deleuze que mostra como Francis Bacon (1909-1992), na pintura, procedia da mesma maneira. Na verdade, não há novidade em si no trabalho de Bavcar; o que existe é essa afinidade extraordinária dele com pintores tão reconhecidos como, por exemplo, Bacon. Qual é o trabalho de Bacon? É fazer do quadro, da organização do quadro, uma irradiação ou uma justaposição de superfícies, onde as coisas funcionam por composição matérica, onde os diversos planos da cena funcionam todos em um mesmo plano como composições, onde o cromatismo ganha força material. Podemos pensar na enorme semelhança que existe entre as fotos de Bavcar e os quadros de Bacon. É curioso que tenha sido necessário um cego para aproximar a fotografia da pintura”. (6)

Notas:

Leia também:

As Mulheres de Luis Buñuel
Luis Buñuel, Incurável Indiscreto

1. DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Felix. Mille Plateaux. Paris: Les Édition de Minuit, 1980. Cap. 7. Na edição brasileira ver Mil Platôs. Capitalismo e Esquizofrênia. Tradução Ana Lúcia de Oliveira e Lúcia Cláudia Leão. Rio de Janeiro: Editora 34, vol. 3, capítulo 7 Ano Zero - Rosticidade. 1996.
2. Idem, p. 216.
3. BRISSAC, Nelson. Fotografando contra o vento In O ponto zero da fotografia. Rio de Janeiro: VSArts do Brasil. 2000.
4. Idem, p. 41.
5. Ibidem, p. 42.
6. Ibidem, p. 43. O grifo é meu.

31 de ago. de 2008

Marketing e Ética? (final)


“Um sistema democrático de educação (…) é um
dos meios mais seguros de criar e ampliar enormemente
os mercados para bens de todos os tipos e especialmente aqueles bens em que a moda
tem importância.

ex-publicitário James Rorty
Our Master’s Voice, 1934



Culture Jamming

Em seu livro, Sem Logo. A Tirania das Marcas em um Planeta Vendido, Naomi Klein nos fala de uma prática crescente nos Estados Unidos, Canadá e Europa, mas certamente está longe (bem longe) de ocorrer aqui no Brasil.

Culture Jamming é o nome que se dá à prática de parodiar peças publicitárias e utilizar os outdoors adulterando e alterando suas mensagens de forma drástica. Considerado um dos maiores expoentes nessa prática, o americano Rodriguez de Gerada prefere a expressão “arte do cidadão”, e não “arte de guerrilha”. Ao contrário dos publicitários, afirma Rodriguez, esse trabalho implica uma discussão quanto às políticas de espaço público na comunidade em que for colocado. (todas as imagens deste artigo são exemplos de jamming)

Os adbursters (ou subverting, subversão da publicidade, como são chamados em Londres) acreditam que o público tem o direito de responder às imagens que nunca pediram para ver. O termo culture jamming foi cunhado em 1984 pela banda americana de audiocolagem Negativeland. Mas a questão vai muito mais longe, “tentar apontar as raízes da culture jamming é quase impossível, em grande parte porque a prática é em si mesma uma mistura de grafite, arte moderna, filosofia punk faça-você-mesmo e molecagem antiqüíssima” (1).

Robin-hoodismo semiótico, é disso que parece se tratar aqui, sugere Naomi. Seus militantes não acreditam mais que o espaço livre de propaganda pode ser conseguido pacificamente. “A culture jamming rejeita frontalmente a idéia de que o marketing – porque compra sua entrada em nossos espaços públicos – deve ser aceito passivamente como um fluxo de informação unilateral” (2).

Radicalizar a verdade na publicidade, produzir contra mensagens que interferem com a comunicação do anunciante para revelar a verdade mais profunda oculta nos eufemismos publicitários. Seus trabalhos vão de paródias de propagandas à interseções no outdoor original. (imagem acima, intervenção em outdoor da marca de equipamento eletrônico Sony que diz: não há nada real na televisão)

(...)A única ideologia que une o espectro de culture jamming é
a crença de que a livre expressão

não tem sentido se a cacofonia comercial aumentou ao ponto de ninguém mais lhe ouvir (...)

Naomi Klein (3)


Pensemos aqui na questão central deste livro. Lembrem-se da patética superexposição do nu feminino na propaganda, nos filmes, nas novelas… Não se trata de menosprezar a nudez. Também não se trata de pura e nefasta tentativa de diminuir as mulheres que acreditam numa busca da beleza ideal. Entretanto, temos que admitir que fomos tão intoxicados com a avalanche da mesma representação do mesmo ideal de beleza, que estamos nos tornando insensíveis ao fato de que se tratam de representações e não da realidade viva dos corpos. Na crença de que este ideal é um produto à venda no mercado, nem cogitamos mais na hipótese de que beleza talvez seja um estado de espírito. Estamos narcotizados com esta “cacofonia comercial” que diz que a beleza pode ser comprada!

A reação a essa cacofonia comercial levou a culture jamming a se espalhar em redes de organizações coletivistas de mídia. Descentralizadas e anárquicas, combinam a subversão da publicidade com a publicação de zines, rádios piratas, vídeos ativistas, desenvolvimentos na internet (o que inclui hackers ou crackers invadindo sites de grandes corporações) e militância comunitária (4). Vejamos um exemplo. Trata-se da questão do cigarro, mas imaginem quanto resta a ser feito em relação ao machismo presente na propaganda que utiliza o nu feminino? (imagem ao lado, o tenista norte-americano Tiger Woods, patrocionado pela marca Nike, tem sua boca deformada para se assemelhar ao logotipo e sugerir que ele não pode ter opinião própria; na imagem acima, ilustração de uma opinião mais radical a respeito da influência da Nike no cenário esportivo)

“Uma culture jam bem divulgada surgiu no outono americano de 1997 quando o lobby anti-tabaco de Nova York comprou centenas de placas publicitárias de táxis para apregoar as marcas de cigarro ‘Lodo da Virgínia’ (Virginia Slime) e ‘País do Câncer’. Em toda Manhattan, quando os táxis amarelos ficavam presos nos engarrafamentos, as propagandas jammed se acotovelavam com as das empresas de cigarros”. (5)

Agora os correligionários dessa prática dividem-se entre aqueles que dão boas vindas aos avanços tecnológicos em informática (que permitem uma interferência sem mudança do padrão de cores utilizado pelos publicitários que criaram o original, fazendo com que pareça ter sido feita por estes) e os apreciadores das tecnologias já existentes. No primeiro grupo, encontramos gente como Rodriguez de Gerada. No segundo, temos um exemplo que vem do Canadá e deveria interessar às mulheres, por atacar a questão da indústria da moda.

“O artista performático de Toronto Jubal Brown espalhou o vírus visual na maior blitz de adulteração de outdoors do Canadá com nada mais que um marcador. Ele ensinou aos amigos como distorcer as já encovadas faces de modelos de moda usando um marcador para escurecer seus olhos e desenhar um zíper em suas bocas – pronto! Caveira instantânea. Para as mulheres jammers em particular, o ‘encaveiramento’ se ajusta muito bem com a teoria da ‘verdade na publicidade’: se a emancipação é o ideal de beleza, porque não ir até o fim com o zumbi chique – dar aos publicitários algumas modelos do além-túmulo? Para Brown, mais niilista que feminista, o encaveiramento era simplesmente um detournement para acentuar a pobreza cultural da vida patrocinada. (‘Compre, compre, compre! Morra, morra, morra! ‘, diz a declaração de Brown exposta em uma galeria de Toronto). No 1º de abril de 1997, dezenas de pessoas partiram em missões de encaveiramento, atacando centenas de outdooors nas ruas movimentadas de Toronto. Seu trabalho foi impresso em Adburters [o autodenominado boletim da cultura jamming; editado pela Media Foudation de Vancouver, entre outras coisas veicula anticomerciais em televisão acusando a indústria de beleza de causar distúrbios alimentares], ajudando a espalhar o encaveiramento a cidades por toda a América do Norte”. (6)

Resta a todos nós a esperança da ética – conceito empobrecido e desgastado nos dias atuais. A questão é ter a coragem de NÃO mentir. Mentir, isso sim, é apostar na alienação – o que é uma pena, pois o marketing deveria apostar em seus produtos. (imagem do lado esquerdo, adulteração de um outdoor de produto da rede de lanchonetes McDonalds pergunta porque alguém pode se tornar uma pessoa obesa)


O marketing é realmente uma peça importante na engrenagem da interação social e econômica, mas o consumidor também! O bom marketing… nunca deveria esquecer-se disso.

Notas:

1. KLEIN, Naomi. Sem Logo. A tirania das marcas em um planeta vendido. Tradução Ryta Vinagre. Rio de Janeiro: Record, 2002. P. 310.
2. Idem, p. 309.
3. Ibidem, p. 312.
4. Ibidem.
5. Ibidem, p. 313. Virgínia é um dos estados americanos.
6. Ibidem, p. 314.

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