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Roberto Acioli de Oliveira

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28 de ago. de 2010

Arte do Corpo: Todos os Leigh Bowery




Se antes era apenas
mais um refúgio
para a timidez, transformou-se numa expressão radical
e muito indiscreta





Explodindo Clichês

Reinventar-se parecia ser a palavra de ordem de Leigh Bowery. No caso dele, reinventar-se a partir de uma segunda pele: roupas extravagantes, maquiagens e próteses. Performático, Bowery criou uma arte do corpo (body art) como poucos. Sua tela era seu próprio corpo, e ele não parecia nem um pouco preocupado em seguir os padrões de beleza/magreza vigentes. Tampouco os padrões de sexualidade, sua homossexualidade parecia ser empurrada a uma segundo plano frente. Não parecia apenas um homossexual excêntrico, tudo nele (ou pelo menos na pessoa pública) era excesso. Sendo, inclusive, excessivamente explícita sua ultrapassagem dos gêneros (masculino ou feminino). Divisão a que em geral não escapam (e até buscam) tanto homo quanto heterossexuais. A esta necessidade (ou pressão social) de se enquadra num gênero como condição para tornar-se visível, Bowery contrapôs uma arte do corpo radical. Para além do aspecto espalhafatoso e risível que poderia evocar sua figura bizarra numa primeira olhada, a seguir somos confrontados mais e mais com o curto-circuito causado por suas criações.



Curto-circuito
dos gêneros
, Bowery
desfila suas
personas entre
as próteses, piercings,
plumas e paetês





Usados ao mesmo tempo, uma máscara de couro típica do fetiche sado-masoquista entra em ressonância (mas também em curto circuito) com o vestido comprido e comportado que cobre qualquer típica senhora de idade avançada. Os lábios de plástico que jogam com o clichê do glamour feminino, que poderiam soar como um desejo de aderir ao gênero feminino contrasta com os alfinetes de fralda com os quais eles são presos às bochechas de Bowery – não é mais um homem, mas também não parece pretender ser uma mulher! Quando não são de plástico, grandes lábios são pintados em volta da boca, misturando uma típica maquiagem de palhaço de circo com o fetiche/clichê do batom que em muitos (e muitos) casos estabelece e reafirma o estereótipo do gênero feminino. De todos os adjetivos com que se poderia classificar Bowery, referir-se a ele como não-convencional parece mais apropriado.

O Gordo e as Anoréxicas


O clichê sádico
que empurra as mulheres
para a anorexia e a bulimia
nem mesmo foi arranhado
por Bowery




É significativo que Lucien Freud tenha pintado retratos de Bowery totalmente nu. Num deles, de costas, Bowery deixa ver suas costas largas e gordas (imagem acima, à esquerda, com Bowery na frente). Leigh esconde o rosto e ao mesmo tempo mostra e afirma um corpo disforme para os padrões estéticos anoréxicos do Ocidente (ou pelo menos de suas metrópoles) pode soar como um alarme. Tanto apontar para o estilo camaleônico de Bowery como uma forma de questionar o culto apenas a certo tipo físico magro (ou absolutamente magro), como sugerir que as roupas que cobrem o corpo podem ser também uma segunda pele, ao invés de uma maneira de escondê-lo (seja por motivos religiosos ou por vergonha de estar acima do peso). Em tempo, Lucien Freud considerava Bowery “perfeitamente lindo”. Pode ser que Bowery nem tenha tido a intenção, mas tudo que fazia parece carregar em seu interior uma crítica profunda aos clichês e estereótipos do feminino que o próprio universo da moda reproduz.


Aparentemente,
o mundo da moda

ignorou Bowery no que
diz respeito a sua crítica

aos clichês femininos.
M
as o lado bizarro e
pastelão era muito
bem vindo


Não é apenas a divisão de gênero que é explodida nas aparências e performances de Bowery, seu corpo anti-masculino e anti-feminino bate de frente também com um dos clichês mais populares (e mais bizarros) de nosso tempo: o culto ao “emagrecimento patológico”. Esse que já é classificado como um distúrbio de personalidade que distorce a visão de si mesmo (no pior sentido possível), e que curiosamente está presente no universo da moda e dos estilistas, do qual o próprio Bowery fazia parte. Por que será que um estilista homossexual pode ser gordo e ainda assim ser aceito, enquanto as modelos que trabalham para os estilistas continuam obrigadas a se submeter à ditadura da anorexia/bulimia que nada tem de saudável (ou de belo)? É curioso que a eterna reinvenção de si que projetou Leigh Bowery não pareça (em teoria) importar-se com seu peso, enquanto concomitantemente as mulheres que trabalham nas passarelas capitaneadas pelos/as estilistas parecem não ter nenhum direto de posse sobre o próprio corpo! O mundo misógino masculino heterossexual tem seu equivalente no que cada vez mais se deixa ver como um mundo misógino homossexual – neste caso, protegidos pelo manto “sagrado” das exigências do mercado de consumo. Supondo, evidentemente, que Bowery de fato desejasse questionar os padrões do mundo da moda que transformam as mulheres em esqueletos ambulantes!

Ainda Existe Um Rosto?


A reconfiguração
das feições sugere um afastamento em relação
à prisão do rosto (e do
olhar fixado no rosto)
,
tendendo a devolver
a cabeça ao corpo




A primeira vista, Leigh Bowery poderia ser confundido com mais um homossexual excêntrico e bizarro. Ele veste suas próprias criações, como as botas que se tornam próteses das pernas – mas que não apenas as substituem, senão as remodelam. Suas mascaram fazem de seu rosto uma espécie de cabeça de manequim, ao mesmo tempo aplanando as feições em sua carne e abrindo caminho para a expressividade da cabeça – a qual, diriam Gilles Deleuze e Felix Guattari (1), sempre perdeu em importância para o rosto. Porém, ainda existe um rosto, os buracos dos olhos, nariz e boca. Aliás, esta última receberia atenção especial através dos lábios de plástico que muitas vezes cobriam seus lábios de carne – uma paródia do batom que cobre tantos lábios femininos. Lábios cuja força da nudez as mulheres insistem em esconder por trás do batom. Mas este é apenas um dos modos de ser Bowery.



Pouco se via
o rosto (real) de
Bowery
, então não se
sabia exatamente

quem ele era (2)



Havia também aquela maquiagem em que ele cobre o rosto com pingos ou pontos, como uma extensão de um vestido ou roupa de bolinhas. Outras vezes Bowery é azul como uma daquelas divindades hinduístas, sem esquecer o piercing no nariz. O corpo inteiro é seu teatro de experimentações. Como aquelas pessoas que se escondem justamente através da superexposição, Bowery faz de suas criações o disfarce perfeito. Ao mesmo tempo em que se esconde dentro do disfarce, Bowery parece tentar explodir o corpo esconde. Além dos lábios de plástico, ele também aparece com seios de plástico. Além de romper as fronteiras de gênero, Bowery rompe com o elemento da maternidade (território restrito às mulheres) ao ostentar seios que não dão leite. Talvez um traço Drag Queen de Bowery, já que nesse universo o objetivo não é tornar-se mulher, mas simplesmente parodiar o feminino.


Numa de suas
performances durante
um show musical
, Bowery
se deita aos berros como uma mu
lher prestes a dar a luz. De repente sai uma mulher (de verdade, de carne e osso)
já crescida de dento do
que seria a vagina
de Bowery




Entre o monstruoso e o fantástico, Bowery explode a fronteira entre os gêneros. Classificá-lo como homossexual apenas por conta de seus trejeitos talvez não faça sentido – até porque, esta seria uma saída fácil que não dá conta da realidade. Às vezes, Bowery deixava a mostra uma espécie de vagina (mais exatamente os pêlos pubianos que denotavam a vagina antigamente). Enquanto isso, ou talvez um pouco antes, Cicciolina, a atriz pornô, mostrava os seios durante sua campanha eleitoral atrás de emprego no parlamento italiano. O contraponto perfeito, enquanto o “homossexual” Bowery explodia a barreira/prisão dos gêneros, a atriz pornô procurava ganhar uma eleição ao reforçar o pior da barreira entre os gêneros (a puramente aparente e frágil superioridade da mulher no mundo machista dos homens, onde ela não passa de objeto), e ela ainda levantava o braço imitando da Estátua da Liberdade em Nova York (Estados Unidos).

“Bowery criou e vestiu suas roupas extraordinárias para afirmar um sentimento de anormalidade (homossexual com 102 kg e mais de 2 metros) e projetar uma persona confiante e forte. No início envolvendo maquiagem e perucas, botas de salto plataforma e grandes ombreiras, as roupas se tornaram mais esculturais – com braços esféricos, pernas disformes, seios postiços – enquanto seu rosto desaparecia sob capas que cobriam toda sua cabeça. Manipulava e prolongava seu corpo, muitas vezes de forma dolorosa, a fim de criar um ‘visual’ que o libertasse de sua timidez, permitindo-lhe criar uma persona extravagante na cena ‘subterrânea’ das boates [de Londres]. Seu engajamento com a total teatralização da personalidade, tendo a boate como palco, foi de fato o compromisso com uma forma extrema de auto-expressão, permitindo-lhe explorar medos e desejos em performances públicas escandalosas que o tornaram um ícone da cultura subterrânea. Desafiando diretamente a estética de estilo e moda, as roupas e performances de Bowery expunham o corpo do artista como uma ferramenta através da qual examinar os juízos existentes do que é perverso e do que é normal” (3)

Notas:

Leia também:

Arte do Corpo: Cindy Sherman, Carolee Schneemann, Yoko Ono, Shigeko Kubota, Jan Saudek, HR Giger
Os Seios da República: Conexão Seios (epílogo)

1. DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Felix. Mil Platôs. Rio de Janeiro: Editora 34, vol. 3.
2. The Legend of Leigh Bowery. Documentário, direção de Charles Atlas, 2002.
3. WARR, Tracey; JONES, Amelia. The Artist's Body. London: Phaidon, 2000. P. 187.

17 de ago. de 2009

A Cegueira da Visão (final)

“O bom
em uma
mulher
é que você não note
nenhuma parte dela
,
só note que ela está presente”


Ivo Pitanguy
Cirurgião Plástico
(1)


O Que Pode Um Corpo?

Essa distância entre eu e minha imagem no espelho tende a substituir a distância entre eu e meu “eu profundo”. Pode-se dizer que a cegueira da visão está na importância desmedida que damos a esse “lado de fora do lado de fora”. Uma distorção em relação a nossa própria auto-imagem não é exclusividade de pessoas bulímicas e anoréxicas. Na “cultura das imagens”, tudo que “parece que é” torna-se mais importante do que aquilo que as coisas e pessoas são de fato.

Quem nunca ouviu a frase, “é tão bonito que parece uma pintura!” Esta colocação inocente dá conta da importância que tendemos a dar ao mundo da imagem (da cópia, do duplo). Damos tanta importância que chegamos a inverter os termos e, para elogiar alguém, algum animal, objeto ou paisagem, dizemos que parece uma pintura. Na verdade, o elogio maior seria dizer, “como o mundo real é belo!”. Mas não, elogiamos o mundo real dizendo que ele é tão bonito que parece uma cópia dele mesmo!

A visão parece perder a razão de existir. A cegueira da visão talvez seja a cruz que temos de carregar, numa sociedade onde o “eu profundo” e invisível perde cada vez mais espaço para um mundo superficial, que se constitui cada vez mais numa espécie de refúgio para os doentes que ele mesmo criou e reproduziu. Um mundo das aparências ou uma espécie de “esquizofrenia das aparências”, já que como apenas vamos comparar uma imagem com a outra, perdemos a dimensão material que está por trás dela. Talvez seja por essa razão que pessoas excessivamente ligadas em sua aparência tendem a não dar importância aos sinais que seu organismo manda (avisando que ele está chegando ao limite). Mas o que importa o corpo físico (o que importa a realidade?) quando a imagem desse corpo vale mais do que ele próprio?

Nota:

1. Jornal O Globo, 23/05/2004, p.2.

4 de jun. de 2009

O Corpo Suficiente (final)


“Agrade a todos e não
agradará a ninguém”

Esopo (1)

Virgindade Madura e Infantilidade Imatura

Somos compostos de carne e dúvidas. Não dá para esconder as últimas debaixo de maquiagens ou plástica ou botox, ou etc. Também não é possível eliminar as dúvidas para sempre, pois elas se sucedem a cada novo passo. As dúvidas, na verdade, são elementos essenciais, nos empurrando para buscas.

São elas que fazem o rio fluir em todas as direções – rompendo a maldição cronológica. A dúvida sobre aquilo que queremos ser (criança, maduro, velho) pode nos empurrar para várias respostas. Mas se é assim, como podemos ser criança, adolescente virgem e ao mesmo tempo um(a) velho(a) com vários filhos criados? Conceber uma personalidade tripla (que aqui não têm nada a ver com psicose), ao mesmo tempo criança-maduro(a)-idoso(a) não impede a constatação de nossa virgindade - que não está nos orgãos sexuais, mas no coração. Ela também é um sentimento. Só chegamos à velhice madura se resgatamos a inocência da virgindade da criança que temos dentro de nós. Sem essa virgindade, qualquer tentativa de rejuvenescer através de produtos artificiais não gera outra coisa senão pessoas regredidas e infantilizadas. (imagem acima, Interior no Verão. Edward Hopper, 1909)

Criando Um Monstro Maquiado

Então como fazem as mulheres pobres, para quem produtos de beleza ou plásticas estão fora do orçamento? Como faz quem não têm poder aquisitivo para se autoconhecer e ser feliz? Quem é pobre não pode “se cuidar”, portanto não há beleza sem dinheiro (imagem ao lado, 26.06.2002 Auto-Retrato. Gianguido Bonfanti). Isso faz sentido? O que pode um corpo sem a “indústria do rejuvenescimento da burguesia”? Temos então mais um dos tantos mecanismos de segregação social e racial. Até a sacola da padaria têm que ser de grife, senão ficamos parecidos demais com pobres carregando marmita! Mas afinal, de onde surgem fenômenos como a indústria do rejuvenescimento? De onde surge a motivação que torna natural a opção pela plástica facial, pelo botox, pela lipoaspiração, por produtos de beleza e mascaramento da idade cronológica? Quando e por que mascarar a idade passa a ser uma opção?

Como e por que esse valor (rejuvenescimento) se grudou ao exterior de nossos corpos e adquiriu relevância na afirmação de mudança interior? Por que modificar o exterior do corpo passou a ser sinônimo de mudança exterior (ou interior)? Quando um creme para controle de celulite passou a ser um elemento importante para a auto-estima? Um creme anti-rugas, antiestrias ou anticelulite é mais importante que o autoconhecimento? Cremes como estes ajudam mesmo o autoconhecimento?

Em Literatura de Auto-Ajuda e Individualismo, Francisco Rüdiger mostra como os manuais de auto-ajuda surgem no vácuo de uma mutação na Modernidade. Se antes o indivíduo recebia da tradição valores nos quais acreditar e justificar suas ações, agora é ele que deve administrar sua identidade. O problema começa, não é tão simples estabelecer parâmetros numa sociedade como a nossa, onde tudo vira mercadoria, onde há uma cisão entre pensamento e ação. Onde as práticas de conhecimento de si são engolidas pela cultura de massa. Rüdiger distingue a auto-racionalização (daquele que, percebendo-se cidadão de uma sociedade racionalizada, racionaliza seus hábitos, adequando-se ao sistema), teorizada por Max Weber, do conceito de reflexividade (capacidade de auto-observação, quando medito sobre meu modo de ser) sugerido por Karl Manheim: “Normalmente, o homem não se volta para si mesmo, dirige-se apenas às coisas que maneja, troca ou deseja fazer. Seu próprio agir permanece sem observação. A experiência imediata é onde se vive, de onde se parte, sem que se capte seu próprio sujeito” (2). (imagem ao lado, 12.07.2002 Auto-Retrato. Gianguido Bonfanti)

A literatura de auto-ajuda entra como elemento de compensação em relação à desintegração dos referenciais coletivos, uma característica das sociedades industriais do século 20. A libertação em relação às representações coletivas, que outrora engessavam a identidade, bate de frente com uma sociedade cada vez mais complexa, que tende a desintegrar a personalidade. Há uma precarização da subjetividade que, exposta à possibilidade constante de perda da unidade, mantém como pode os elementos de algo que possa chamar de identidade. A individualidade depende agora de reciclagem permanente, única forma de o indivíduo preservar sua condição de agente social. A liberdade desse indivíduo torna-se profundamente problemática no contexto de uma sociedade degradada, a literatura de auto-ajuda entra aí como uma das mediações a partir das quais as pessoas procuram construir um eu. Mas esse talvez seja um remédio que limita mais do que liberta, pois a literatura de auto-ajuda tende a reintroduzir valores tão clichês quanto aqueles da cultura de massa. (imagem ao lado, 13.03.2002 Auto-Retrato. Gianguido Bonfati)

Trocar um clichê por outro, ou seis por meia dúzia, talvez não baste para aqueles que buscam mais o auto-conhecimento de seus labirintos do que palavras açucaradas. Portanto, talvez a busca caótica pelo eu de cada um seja mais proveitosa do que a compra de mais um manual para nos dizer o que fazer (e, portanto, nos dando ordens, exatamente como a tradição fazia antes, nos obrigando a obedecer regras sem questionar, como condição para atingir a felicidade). A indústria do rejuvenescimento seria mais um desses mediadores que entra no vácuo identitário, ou reflexivo, da despersonalização. Daí essa tendência a aderir às novas tentativas de matar a charada do ser (feliz): cremes, plásticas, lipoaspiração, etc… A questão é que nesses processos o corpo pode não agüentar. O problema é a capacidade ou não do indivíduo escapar das armadilhas da indústria cultural e de massa – onde tanto indústria do rejuvenescimento quanto mercado editorial, do qual fazem parte os livros de auto-ajuda, estão inseridos. (imagem ao lado, 09.08.2002 Auto-Retrato. Gianguido Bonfanti)

Quando seu corpo será suficiente?

Eu Só Queria um Corpo Mais Corajoso

Uma vez ouvi na televisão uma tese bizarra. Alguém dizia que essa ditadura da magreza imposta às modelos das passarelas não têm nenhuma relação com a hipótese de que as mulheres precisam ser magras para poder vestir qualquer roupa que se lhes apresente o estilista. Ao contrário, afirmavam, não haveria nenhuma necessidade dessa imposição de um corpo esquelético, anoréxico e bulímico. Tudo não passaria de um complô dos homossexuais (que geralmente são os estilistas) contra as mulheres. Eu realmente não me lembro quando nem quem disse isso na televisão. Uma coisa se pode constatar, quase sempre somente AS modelos são bulímicas, OS modelos não.

Os homens que desfilam, geralmente estão bem nutridos e muito bem tratados. Não têm nenhum esquelético. Eu só não consigo explicar, seguindo essa lógica bizarra, por que AS modelos que trabalham para estilistas mulheres também são esqueléticas (imagem acima, Cinema em nova York, 1939; abaixo, Interior [Modelo a Ler], 1925. Edward Hopper). Será que essas mulheres (estilistas) não perceberam que seu gosto (sexual) por mulheres esqueléticas talvez obedeça à imposição misógina de seus colegas (estilistas)?

No fundo, pouco importa se a culpa é dos homossexuais. Até porque nós, elas e eles, todos somos vítimas do mercado de consumo – a falta de consciência disso talvez explique a pouca solidariedade entre nós, uns pisando nos outros, enquanto o mercado manipula a todos impunemente. Mas por que será que as mulheres não percebem essas manipulações (no fundo misóginas) de seu ego e seus corpos? Não dá para desconfiar nem um pouquinho de certas imposições feitas ao corpo feminino? Não dá para lembrar o exemplo (da mercantilização) da erotização da criança na televisão brasileira? De qualquer forma, a mulher sempre foi a “criança” preferida do mercado. (abaixo, 13.07.2001. Gianguido Bonfanti)


Mercantilização da libido infantil, meninas adolescentes mais preocupadas em se maquiar do que em viver a vida, mulheres infantilizadas mais preocupadas com a imagem do que com a substância interior, será esse o panorama do feminino no século 21? Será este o legado do feminismo? Não é que as mulheres não devem se cuidar ou se arrumar – fazer plástica, lipoaspiração ou injetar botox. Também não se defende que os homens devem largar o viagra, não se trata de negar um aumento de potência sexual fora de época. Não se trata de negar à mulher idosa ou às adolescentes o direito de se maquiarem até sufocarem todos os poros da pele. O que é importante é perceber o limite do exagero. O que é sábio é perceber até que ponto desejamos fazer isto ou aquilo ou se estamos sendo induzidos por pressões sociais preconceituosas e/ou mercadológicas. Usar a indústria do rejuvenescimento não é o problema, mas ser usada por ela sim.


Se a mulher não percebe essa fronteira, não me parece justo afirmar que com quilos desse ou daquele produto a vida vai parecer melhor. As mulheres acabam perdendo de vista que não existe corpo suficiente para suprir essa falta nutrida pela indústria do embelezamento (do seu exterior). Não há corpo suficiente porque sempre haverá um produto novo no mercado. Nunca haverá corpo suficiente porque o corpo humano não é isso, ele não foi pensado (por Deus?) como algo congelado no tempo, algo que não muda – a mulher não pode se comparar à comida congelada. A vantagem do corpo humano é exatamente o fato de que ele está sujeito à mudança. Essa é a qualidade do exterior do corpo que pode mudar o interior: a mudança física no corpo sugere que o interior (espiritual ou o que for) não só pode como deve mudar. Nesse sentido, as marcas do envelhecimento do corpo não são parte do problema, são parte da solução.

Em O Céu Que Nos Protege (The Sheltering Sky, direção de Bernardo Bertolucci, 1990) (imagem abaixo), temos um casal no deserto em busca daquilo que se perdeu em seu amor. Logo no início faz-se uma distinção entre turista e viajante. O primeiro quer logo voltar para casa, enquanto o segundo pode nunca mais voltar – como um rio, ele simplesmente vai. Em certo ponto, o marido morre. Kit, a viúva, parte então pelos caminhos do deserto com uma caravana. Lá pelas tantas, é resgatada no hospital com um olhar perdido. A pergunta é, onde está a vida afinal, para onde devemos olhar? Como olhar para o interior sem confundi-lo com o exterior? Cadê meu corpo? Cadê minha vida? Kit volta ao bar onde estivera no início de sua busca com seu marido. De repente ela vê um velho, que parece falar com ela telepaticamente.

Velho: Você está perdida?
Kit: Sim.
Velho: Porque a gente não sabe quando vai morrer. A gente pensa na vida como um bem inesgotável (3). As coisas acontecem certo número de vezes. Um pequeno número, na verdade. Por quantas vezes você se lembrou de uma tarde de sua infância, uma tarde tão comum, mas que você não poderia viver sem ela? Talvez umas quatro ou cinco vezes, talvez nem isso. Quantas vezes você vai admirar a lua? Talvez vinte. E ainda assim parece sem limites.


Cadê sua vida? Cadê o corpo que você tinha? Você tinha vida quando tinha aquele corpo? Quantas vezes você percebeu o mundo lá fora? Quando vamos entender que nossos corpos são frágeis sutilezas da vida relegadas a segundo plano em nossas próprias lembranças? Por que colocar no corpo mais esse fardo de carregar a culpa por nossa incapacidade em buscar a felicidade?

Quando seu corpo será suficiente?

Notas:

1. Conhecido como o primeiro fabulista da história. Grécia, séc. VI a.C.
2. RÜDIGER, Francisco. Literatura de Auto-Ajuda e Individualismo. Rio Grande do Sul: Editora da Universidade. 1996. P. 12.
3. Na edição lançada em 2006, na versão dublada em português a palavra ‘inexhaustible’ foi traduzida por ‘incansável’.

3 de jun. de 2009

O Corpo Suficiente (II)


Alguns  grupos  humanos,
como os nazistas, consideram
o   diferente   inferior.  Algumas
pessoas,    por   outro   lado,    são
tão    obcecadas     pela     imagem
 do  diferente  que  terminam por
 anular justamente suas próprias
características   originais,   que
 as   tornam  diferentes


Espelho, Espelho Meu...

Faz alguns anos que assistimos à disseminação de mais uma bizarria contra o corpo humano. Especialmente na China, um país onde a estatura das pessoas é menor do que no Ocidente, faz sucesso uma cirurgia ortopédica para aumentar a altura das pessoas. E adivinhem em que grupo essa prática faz mais sucesso? Os jovens. Esta cirurgia já existe a uns cinqüenta anos, sendo indicada basicamente para correção de deformações físicas. Mas o caso Chinês tem uma motivação bem diferente. Com a dominância do modelo de beleza ocidental, os chineses começam a discriminar suas próprias características físicas. Não querem mais ser baixos, como a natureza os fez e com isso deu-lhes características próprias.


Resultado, para ganhar alguns centímetros a mais, as mulheres chinesas submetem-se a sofrimentos talvez ainda maiores do que aqueles decorrentes do comportamento anoréxico e bulímico que se alastra no mundo em proporções epidêmicas. A cirurgia consiste em quebrar as pernas em vários lugares, mas apenas a camada externa do osso, deixando a medula intacta. Fios de aço ligam os ossos a uma estrutura metálica que envolve a perna. Essa estrutura é reajustada quatro vezes por dia, esticando o osso. A cada ajuste, o corte feito no osso se abre e o espaço é preenchido com tecido ósseo no processo de regeneração. Detalhe, o processo não é indolor. (imagem no início do artigo, Ministro do Tempo, 1976. Roberto Magalhães)

Originalmente, o chamado Método Ilizarov é utilizado no tratamento de fraturas graves, nanismo e vítimas de poliomielite. Portanto, mais um procedimento corretivo que passa a ser utilizado com objetivos estéticos e cosméticos. A média é de um ganho de 10 centímetros de altura em seis a sete meses. Existe risco de infecção e o procedimento deixa cicatrizes, os ossos podem ficar fragilizados e fraturas podem ocorrer ao caminhar. Mas a advogada Zhang Xiaoli acha que vale a pena o sacrifício, vejamos seus argumentos: “Não me preocupo com os riscos nem com os custos. Para mim esse é um investimento a longo prazo, já que terei um emprego melhor, um namorado melhor e finalmente um marido melhor” (...) “Sendo baixa, eu não tinha trunfo nenhum para conquistar isso tudo” (1).

Os chineses não são especialmente baixos, mas numa sociedade chinesa que se torna cada vez mais competitiva, seja no mercado de trabalho seja no amor, a estatura passou a ser um critério importante – tanto para conseguir emprego quanto um bom casamento. Curiosamente, o Ministério do Interior e o Exército Chinês incentivam a prática ao exigir uma altura mínima de 1,70 para homens e 1,60 para mulheres. No Brasil, em 2002 havia o registro de uma média de 30 casos por ano, sempre acompanhados de um laudo psicológico do paciente. Na Austrália, recentemente, uma mulher se submeteu à mesma cirurgia alegando que suas chances de ser eleita na política local. Segundo ela, “muitas mulheres são inseguras em relação a seu peso ou seu nariz; a minha é meu tamanho” (2). (imagem ao lado, Caligrafias [coloração invertida]. Acima, à direita, detalhe de 08.07.2000. Ambos de Gianguido Bonfanti)

A tirania do espelho é uma arma bastante utilizada pela indústria do rejuvenescimento ou da beleza, e geralmente contra nós. Quando olhamos para o espelho, não vemos com nossos olhos, mas através das compulsões induzidas pelo mercado de consumo (imagem ao lado, Reflexos do Passeio, 1998. Gil Vicente). Não vemos mais com nossos próprios olhos... Talvez por isso nosso corpo nunca nos satisfaça... Porque já não nos satisfazemos com nós mesmos... Porque já não sabemos o que realmente desejamos. Falta-nos tudo, inclusive nós mesmos... Talvez a pergunta (“quando seu corpo será suficiente?”) não faça mais sentido porque não há (ou ainda não há) o suficiente de nós dentro de nós. Tudo é falta. Tudo é dor. Como poderíamos então chegar a conceber a pergunta “quando seu corpo será suficiente?”

A Tirania Cronológica: A Vida Como Tic-Tac 

O velho ou, homem da Terceira Idade, compra o viagra para ter o desempenho sexual de um adolescente – aparentemente sugere-se que é essa a sabedoria a se adquirir com a Terceira Idade... o que já implica uma desvalorização de sua faixa etária por ele mesmo. Homens e mulheres em idade madura se preparam para pintar os cabelos brancos assim que aparecerem. A adolescente se pinta como uma psicótica para esconder uma velhice que ainda não existe - e aos poucos vai aprendendo que o importante é pescar alguém com dinheiro para seu futuro e para o futuro dos seus tratamentos psicóticos de beleza (imagem ao lado, Tempo Ordena a Velhice que Destrua Beleza, 1746. Pompeu Bartoli). Projetando essas vidas para o futuro, o aumento da expectativa de vida propiciado pelos avanços da medicina chega a ser uma perspectiva torturante. A propósito, mais tempo de vida é sinônimo de felicidade? Acabamos aceitando o pior da juventude, sua falta de compromisso com as conseqüências de seus atos. A indústria do rejuvenescimento precisa apostar numa infantilização de sua clientela, caso contrário os consumidores começam a refletir sobre seus atos.

O problema não é que eles pensem o que quiserem pensar, mas que acabem decidindo não comprar os produtos oferecidos. Já pensou se alguém ganha mais quarenta anos de vida e a indústria descobre que essa pessoa nunca vai consumir seus produtos? Seria o caos mercadológico! Desta forma, as pessoas que consomem esses produtos se adaptam à idéia de que “remoçar” é regredir no tempo. E também aceitam que “regredir” é uma coisa boa.

Explodir o tempo não é isso! Se querem tomar viagra para voltar no tempo, então vão em frente. Se desejam se maquiar de manhã cedo, ou fazer uma maquiagem permanente, ou fazer uma plástica, para voltar ao que um dia foi, então vão em frente. Mas o tempo somente será recuperado na medida em que não negamos que sua natureza é fluida: ele não anda só para trás ou para frente, ele anda para trás E para frente. Se velho é aquilo que já passou, então as mulheres maduras e idosas deviam entender que o comportamento adolescente deve ficar no passado. Mas não é o que acontece, e elas acabam revivendo sua adolescência como passado – o lado infantil da adolescência. (ao lado, Eu, 1994. Abaixo, A Ilha. Ambos de Roberto Magalhães)


A juventude não está lá (no passado representado pelo visual exterior, ou por um comportamento “jovem” vivenciado como regressão). Ela está aqui mesmo, no presente. A natureza fluida do tempo sugere que passado, presente e futuro são simultâneos – e não fases sucessivas. O presente só acontece porque passado e futuro estão inseridos nele. A expressão, “voltar no tempo”, deveria ser banida, pois está envenenada por um ponto de vista cronológico. Tomar viagra ou fazer plástica não é a questão, ou pelo menos não toca na questão do tempo em sua complexidade. O ponto de vista cronológico simplifica tanto a questão do tempo da vida que acaba deixando a impressão de que o tempo é só isso – começo, meio ou fim.

O “comportamento jovial” de alguém que física e cronologicamente não é mais um jovem não deveria indicar uma tendência regressiva, mas é justamente a isso que induz o ponto de vista cronológico. Assim, primeiramente a ênfase no ponto de vista cronológico nos faz sentir inferiores (atacando nossa auto-estima), já que nosso exterior não é mais jovem. Em seguida, o próprio ponto de vista cronológico vende para nós a solução – e “vender” é o verbo correto para ser empregado aqui. Qual é a solução? Reverta a cronologia de seu exterior, fique mais jovem por fora, disfarce a maturação de seu corpo físico, disfarce sua velhice!

Para tentar romper com o ponto de vista cronológico, talvez “comportamento jovial” não tenha que entrar em contradição com o corpo físico. Jovial é aquele que aprende a viver a soma da juventude, da maturidade e da velhice (passado, presente e futuro) como simultaneidades. Cair de cabeça na indústria do rejuvenescimento, pensar cronologicamente a vida, é instrumentalizar demais coisas que não são materiais. A jovialidade é um sentimento e, como tal, não poderia ser fruto de uma plástica ou de um produto químico. Tomar viagra ou fazer plástica não é a questão. A questão é reforçar o sentimento de juventude-maturidade-velhice enquanto simultaneidade que está dentro de nós o tempo todo – sim, inclusive no bebê e na criança. Ser jovem, maduro e idoso, são sentimentos concomitantes em nosso presente e afloram o tempo todo de acordo com os humores de cada momento. Enfatizar apenas um em detrimento dos outros é como tentar andar com apenas uma perna. É esquecer que nosso andar depende não só da outra perna, mas também da coluna, da bacia, dos braços, da cabeça, dos músculos e do sangue. Nesse sentido, passado, presente e futuro se intercambiam para formar o sentimento do viver.

Quando seu corpo será suficiente?

Esculpir o Tempo, Fluir a Vida


O tempo deveria
ser   entendido   como
um aliado de nossos corpos
.
A passagem do tempo deveria

ser um alívio  e  não uma fonte
de   desnorteio
.  Mas  este  tipo
de  raciocínio  não  é  lucrativo

para o mercado de consumo
(que   nos   consome)





O tempo não está aí para ser esquartejado e transformado em produto para vender. O tempo está aí para ser esculpido. Deveríamos nos preocupar em esculpir não nossos corpos, mas nossas vidas. Naturalmente, eu percebo que o tempo se esculpe em nossos corpos. Mas, quem sabe, talvez sejamos nós que o esculpimos em nossos corpos, mesmo que não tenhamos preocupações quanto ao rejuvenescimento. Ou talvez não, quem sabe é ele mesmo se esculpindo em nossos corpos. Talvez ele esteja tentando dialogar conosco. Talvez o tempo esteja procurando uma forma de nos dizer que ele não é um problema, mas parte da solução. Mas não ouvimos. Preferimos não ouvir! Preferimos acreditar que ele lança sobre nós uma maldição cronológica. E alguém nos fez preferir lutar com as mesmas armas cronológicas. (imagem acima, Mulher do Futuro, 1975. Roberto Magalhães)

Mas o tempo não para, não para não! O tempo cronológico não, mas esta é apenas uma das facetas do tempo. Ele flui também, em todas as direções simultaneamente. O fluir de um rio, por exemplo, não é apenas cronológico. Sim, ele segue sempre uma direção, mas enquanto isso ele se bate em todas as direções possíveis. A questão é que essas direções possíveis no interior de sua correnteza deveriam importar mais do que o fato inexorável de que ele sempre terminará no mar. Sim, o rio passa sim! Mas é o seu fluir que importa. A passagem do rio (tempo) esculpi as margens e a paisagem (nossos corpos físicos?), o turbilhão da correnteza esculpe seu interior! O rio esculpe as margens enquanto esculpe a si mesmo. Mas essa escultura interior que o rio faz de si mesmo depende da firmeza com que as margens são marcadas solidamente na terra e na rocha. Portanto existe uma interação entre o interior e o exterior, entre o tempo que flui e o tempo cronológico. Um não existe sem o outro, o rio só seguirá em frente se tiver um turbilhão – se tiver vida interior. Só terá um turbilhão interior seguindo em frente, para o mar que o dominará fisicamente.

Quando seu corpo será suficiente?

Notas:

1. Os Chineses querem Crescer. Cirurgia Ortopédica Para Aumentar a Estatura Vira Obsessão na China. Natasha Madov. Revista Veja, 22 de maio de 2002.
2. Australian councillor, Hajnal Ban, has legs broken to become taller. Sophie Tedmanson. Times online, 01/05/2009. Disponível em:
http://women.timesonline.co.uk/tol/life_and_style/women/article6196646.ece Acessado em: 28/05/2009. 

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