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Roberto Acioli de Oliveira

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28 de mai. de 2012

Arte do Corpo: Annie Sprinkle




O palco
de Annie Sprinkle
é seu próprio
corpo





Annie Sprinkle é o nome de guerra de uma atriz pornô norte-americana que começou a fazer performances com temas relacionados à sexualidade – ela também é/foi prostituta, stripper, dominatrix (aquela que exerce o papel de dominadora em relações sexuais sadomasoquistas), produtora de filmes de sexo e escritora pornô. Entre as décadas de 80 e 90 do século passado, ela se graduou em fotografia e sexualidade humana. Ela ficou famosa em 1990 quando apresentou Public Cervix Announcement, uma cena de Post Porn Modernism (1990), no palco de um teatro burlesco. Depois de falar sobre seus vários empregos na indústria pornô (ilustrando suas conquistas através de gráficos), masturbar-se e tomar um banho, Sprinkle reconsta numa cadeira no palco, abre as pernas e introduz um espéculo na vagina. A partir daí, convida a plateia a se aproximar para olhar (com a ajuda de uma lanterna) diretamente para o colo do útero de Sprinkle – invariavelmente, uma fila se forma na frente do palco. Durante todo o tempo de cabeça erguida olhando direto para o público, ela inverte as relações de poder entre sujeito e objeto (1).

Rebecca Schneider insiste a aparição de Sprinkle (e outras atrizes com performances sexuais) nos espaços tradicionalmente reservados à arte seriam bem vindos, no sentido de que permitem o debate renovado sobre o estatuto da arte. Segundo Schneider, os contextos da arte sempre foram tradicionalmente considerados domínio da forma simbólica, portanto implicando um distanciamento estético de “desinteresse”. A pornografia ameaça esse desinteresse, inundando o ambiente com sexualidade “interessada”. No emaranhado de questões implícitas em trabalhos que desafiam a arte através da pornografia, o colapso do simbólico no literal e vice-versa é fundamental, afirma Schneider. Colapso que é duplicado por outro, da obscenidade na sacralidade e vice-versa – assim como Sprinkle e outras migraram da pornografia para a arte, outras mulheres fizeram o caminho inverso. Em qualquer um desses casos, o palco dessas mulheres é seu próprio corpo. Schneider compara a performance de Sprinkle duas obras famosas que mostram o corpo feminino, uma pintura, A Origem do Mundo (Gustave Courbet, 1866), e uma instalação, Etant Donnés: la chute d’eau; le gaz d’eclairage (Marcel Duchamp, 1946-66).

Os dois mostram praticamente apenas a genitália feminina, podendo ser considerados pornográficos. Porém Annie Sprinkle vai além, ela mostra seu rosto de mulher (2).

Notas:

1. WARR, Tracey; JONES, Amelia. The Artists Body. London: Phaidon, 2000. P 110.
2. SCHNEIDER, Rebecca. The Explicit Body in Performance. New York: Routledge, 1997. Pp. 16-7, 64.

24 de abr. de 2012

Pornografia e Imagem



"O mais
profundo
é a pele"

Paul Valéry (1871-1945)




No que diz respeito ao mundo Ocidental, o século XX mostrou tudo em matéria de arte erótica. Esta é a opinião de Paul Ardenne, para quem as razões podem ser encontradas no impudor da própria arte do século XIX. De A Origem do Mundo (1866), de Gustave Courbet, até Made in Heaven (1990), onde Jeff Koons se mostra com sua então esposa (a atriz pornô Cicciolina) numa cena de sexo, um longo caminho foi percorrido – de fato, as artes pré-cristãs grega e romana talvez fossem até mais explícitas. Forma dissimulada do desejo em ação, a arte cultiva o obsceno que a moral (burguesa) reprova. No âmbito da arte, ou fora dele, a figura erótica se arrisca a banalizar sua exibição (especialmente em tempos de internet) - algo talvez impensável em outros tempos de repressão sexual. A superexposição nos levará ao dia quando o sexo deixará de ser desejável? (que o consumidor desvie o olhar, este seria o pior pesadelo das agências de propaganda!). Se a exibição excita, o exibicionismo pode levar ao efeito inverso (1). Em 1966, Niki de Saint Phalle apresentou Figure Hon (= ela) em Estocolmo. Uma boneca gigante deitada de barriga para cima com uma abertura na vagina, por onde o visitante pode penetrar. Questões simbólicas remetendo ao ventre maternal (e à heterossexualidade) enquanto espaço protetor parecem evidentes. Por outro lado, como sugeriu Gilles Neret a respeito de Figure Hon, o desejo pode ser lúdico (2). (as imagens pertencem ao calendário da empresa de imagem EIZO)






A distância entre arte
erótica e pornografia tem
mais relação com o estilo
do  que  com  o  tema





A imagem do “sexo”, mostrar o sexo, não se restringe apenas a imagens de corpos evocando certas situações. Se admitíssemos juntamente com Freud uma dimensão libidinosa da criação artística, toda a arte estaria ligada à sexualidade – a psicanálise faz da arte um efeito da sexualidade. Seja como for, Freud acaba por dessacralizar a criação artística ao torná-la um efeito de outra coisa. O que representa então uma imagem do corpo num sentido estritamente “erótico”? Considerando o sugerido acima, tal questão deixa de ter sentido. Uma natureza morta? Uma paisagem? Um retrato de família? Uma vaca pastando? O pornográfico então acaba sendo apenas uma questão “geométrica”, uma estética purista, uma arrumação sem desejo entre corpo e objetos. De acordo com Ardenne, as fotografias de um Robert Mapplethorpe teriam de “sexual” apenas sua temática. De fato, afirma Ardennes, a imagem “sexual” é uma imagem construída. Ela se torna sexual caso se organize de forma a ativar o desejo: a dimensão espetacular, o potencial atrativo e excitante, a possibilidade de identificação por parte do espectador oferece uma articulação possível com a obra/fotografia/escultura/etc. Atualmente, mais do que nunca, sacrificamos o corpo através do sacrifício à imagem. Consumir a perdição da figura, até que a ausência da materialidade daquilo que ela representa se torne evidente (e nos massacre). Com uma função criminal tanto quanto sacrificial e estética, seria a relação humana com as imagens uma pulsão de morte? (3)




Leia também:

Roma de Antonioni
As Marionetes dos Mistérios de Antonioni
O Expressionista Desconhecido
Fausto e Mefistófeles Segundo Murnau
Arte do Corpo: Natacha Merritt, Veruschka, Cindy Sherman, Carolee Schneemann, Shigeko Kubota, Yoko Ono, Jan Saudek, HR Giger, Leigh Bowery, A Dança das Trevas, As Cabeças de Gerhard Lang

Notas:

1. ARDENNE, Paul. L'Image Corps. Figures de l'Humain dans l'Art do XX Siécle. Paris: Éditions du Regard, 2001. Pp. 291-2.
2. NÉRET, Gilles. Arte Erótica. Köln: Benedikt Taschen, 1994. P. 68.
3. ARDENNE, Paul. Op. Cit., pp. 251-3, 444.

16 de dez. de 2011

Arte do Corpo: Natacha Merritt e o Diário Digital


A velha questão
do desejo de contato
nunca satisfeito
, mas
também o exemplo de
mais uma mulher que
exerce domínio sobre
o próprio desejo



Pornografia X Transgressão

Em 2000 ela publicou um livro com imagens de suas relações sexuais com vários parceiros entre homens e mulheres: Diários Digitais (Digital Diaries) (fonte das duas imagens do artigo). Até aí nada demais, num mundo patriarcal onde o corpo e a sexualidade femininos são normalmente comercializados, enquanto o Ocidente hipócrita se escandaliza com o tratamento dispensado às mulheres por certas correntes do Islamismo. Entretanto, na opinião de Brian MacNair, a publicação do trabalho da fotógrafa norte-americana Natasha Merritt inaugurou uma nova fase no auto-voyeurismo artístico. Seria o caso de mais um trabalho que turva a fronteira entre a pornografia e a arte. Houve muitos elogios e também muitas críticas. Enquanto alguns notaram uma “maravilhosa indecência”, outros viram mais uma colaboração com o olhar masculino predatório. Talvez Lisa Tickner tenha conseguido perceber um dos nós da questão ao sugerir que quanto mais atraente é a mulher (era o caso de Merritt), maior é o risco, uma vez que as imagens poderão mais facilmente se aproximar do estereótipo (1).




“As minhas
necessidades artísticas
e sexuais são uma e a
mesma coisa”

 

Natacha Merritt (2)




Para Rebecca Schneider, pelo contrário, além de não recusar a sexualidade feminina, trabalhos como os de Annie Sprinkle e Merritt procuram utilizar as armas do patriarcado contra ele mesmo ao forçar um segundo olhar no próprio terreno sexual. “Para colocar de outra forma, se o nu feminino foi tradicionalmente a expressão simbólica do confinamento da mulher no patriarcado, seu desenvolvimento pelas mulheres artistas (incluindo a produção de imagens de sua própria nudez) pode subverter esse simbolismo e encorajar a reavaliação e redefinição da identidade sexual feminina em termos consistentes com o projeto feminista mais abrangente” (3). De acordo com McNair, ainda que as imagens de Diários Digitais possam ser utilizadas (por homens e mulheres) para masturbação (realizando pelo menos uma das características da pornografia), e também mais relevante do que seu eventual status artístico, é o fato de se constituírem como produto da decisão do olhar de uma mulher e de suas próprias escolhas. Segundo Frank Frangenberg, afirma que os diários de Merritt nos fazem perceber a diferença entre a satisfação física imediata e o desejo nunca satisfeito de contato com outros seres humanos. Frangenberg cita especialmente uma imagem em que Merritt está a olhar para seu parceiro sexual com uma estranha mistura de ceticismo e curiosidade. A mulher ansiosa por aprender, mas também certa de que o sexo não pode ser confundido com satisfação ou como promessa de um clímax emocional, apenas como uma ferramenta para nos salvar da solidão: o sexo como a forma mais básica de comunicação (4).


Leia também:

As Mulheres de Luis Buñuel
Luis Buñuel, Incurável Indiscreto
Arte do Corpo: Veruschka, Cindy Sherman, Carolee Schneemann, Shigeko Kubota, Yoko Ono,
 Jan Saudek, HR Giger, Leigh Bowery, A Dança das Trevas, As Cabeças de Gerhard Lang
A Ideologia, a Mulher e o Cinema na Itália
O Marcello de Mastroianni
Tatischeff e a Vida em Linha Reta
Fassbinder em Petra von Kant

Notas:

1. McNAIR, Brian. Striptease Culture. Sex, Media and the Democratisation of Desire. London/New York: Routledge, 2002. Pp.202-3.
2. FRANGENBERG, Frank. Natacha Merritt. In: GROSENICK, Uta (ed.). Mulheres Artistas, nos Séculos XX e XXI. Köln: Taschen, 2002. P. 351.
3. McNAIR, B. Op. Cit., p. 203.
4. FRANGENBERG, F. Op. Cit., pp.348. 


22 de set. de 2011

Arte e Estética da Transgressão






“Nas   raízes   greco-
romanas   [do   Ocidente],
não existe distinção entre
‘arte’ e ‘pornografia’”


Rebecca
Schneider (1)



Revolução Sexual!

Uma assim chamada “revolução sexual” ocorreria no mundo ocidental durante a segunda metade do século 20. A nudez estava na ordem do dia, o amor livre pregado pelos hippies passa a conviver com imagens publicitárias cada vez mais sugestivas (e nem havíamos chegado às propagandas de cerveja no Brasil), com a banalização da sexualidade pela pornografia (então uma indústria nascente, trabalhando justamente na tênue fronteira entre o erótico e o pornográfico) e a pílula anticoncepcional (que arrancou o útero das mãos do patriarcado). Paul Ardenne mostra que o desdobramento dessa situação no campo artístico liberou a sexualidade e a tornou comum (2). Se antes, afirmou Ardenne, o sexo foi apresentado como algo interdito, transgressivo, profano, a partir de meados da década de 60 o sexo ganha o mesmo status político da luta pela ecologia e a descriminalização do aborto e da maconha. (imagem acima, do clip de Justify my Love, Madonna; imagem abaixo, à direita, arte erótica, Grécia, século V a.C.)




“Cenas de intercurso 
heterossexual são bastante
comuns  nas
  artes  grega e
romana [antigas]
(...)

Catherine
Johns (3)


Nos anos 70 e 80, cada vez mais, assistimos ao que Ardenne chamou de “monumentalização do sexual” pelo sexual. Enquanto objeto estético, o sexo passa a ser venerado e até idolatrado. Essa monumentalização do sexo pela arte pode ser dividida em duas vertentes: 1) o artista plástico (mas também o cineasta, o escritor, etc) chama atenção para a sexualidade como uma prática a ser estetizada enquanto tal, insistindo sobre o caráter comum do ato sexual – não no sentido banal, mas porque o sexo faz parte da existência cotidiana. Ardenne cita como exemplos os cineastas Rainer Werner Fassbinder e Bernardo Bertolucci em muitos de seus filmes; 2) Paralelamente à essa concepção mecânica, o artista construirá monumentos à carne, como se pode encontrar na freqüente conversão estética de órgãos genitais em formas totêmicas por Louise Bourgeois, ou a insistência na singularidade da genitália (Photographies du Sexe Féminin, de Henri Maccheroni, odes à vagina difundidas pela literatura lésbica, ou ainda Orlan com Étude Documentaire: la Tête de Méduse, 1978, performance onde uma lupa expõe o sexo da artista). Essa monumentalização de ordem totêmica, conclui Ardenne, pode chegar a dar lugar a uma celebração dionisíaca, em particular através da arte do corpo (body art) – as performances de sexo de Rudolf Schwarzkogler, Otto Mühl, Daniel Pommereule, Carolee Schneemann e Bruce Nauman. (imagem abaixo, à esquerda, Nature Study 5, Louise Bourgeois, 1995)



“A  vida  do
artista é a negação do
sexo. A arte procede da
incapacidade de seduzir.
Não sou  capaz  de levar
alguém a me amar. Na
realidade, a equação
é a seguinte: sexo e
crueldade, sexo
e  morte”


Louise Bourgeois (4)


Nem tanto ao mar, nem tanto a terra! Embora tudo isso signifique que finalmente o sexo enquanto órgão físico deixa de ser visto como algo repugnante, Ardenne acredita que a “exibição artística do sexo” parece começar a perder sua singularidade. Porque isso acontece? Definitivamente aclimatado em relação à exposição do sexo, o artista do final do século 20 acaba por nos apresentar um padrão repetitivo em relação ao tema que tende ao lugar comum e a constatar que a estetização sedutora do sexo deixa cada vez mais de ser auto-evidente (como fora outrora, no mundo dos tabus). De acordo com Ardenne, estes são alguns dos questionamentos que esse artista do final do século 20 começa a se fazer: a requisição artística do sexo é realmente uma necessidade? Por que essa representação ainda, quando o sexo já foi apresentado a todos os meandros da representação? A estas, soma-se outra questão de ordem política: qual o valor dessa liberação sexual que permite estetizar o sexo a qualquer preço? Como sugeriu Freud em sua época, o diabo tem medo da vagina. De uma maneira ou de outra, sabemos que as relações entre o sexo e os poderes estabelecidos são problemáticas.(imagem abaixo, à direita, Dennis, Mapplethorpe, 1978)







Robert Mapplethorpe
foi um dos primeiros artistas

a utilizar a pornografia como
fonte   de   inspiração






O caso de Mapplethorpe talvez seja exemplar. Seus primeiros trabalhos importantes foram colagens inspiradas no trabalho de Andy Wahol que utilizavam imagens explícitas retiradas de revistas pornográficas homossexuais. Um dos primeiros artistas a se inspirar a partir de elementos pornográficos, suas influências também incluem uma auto-imposta culpa e erotismo reprimido pela Igreja Católica. Quando emergiu na década de 70 como fotografo autodidata, estas influências se combinaram para criar uma obra cheia de referências ao simbolismo religioso e também ao sadomasoquismo e homoerotismo. MacNair enumera três razões para justificar a importância de Mapplethorpe: 1) foi o primeiro artista do sexualmente explícito a se tornar famoso; 2) foi o primeiro fotógrafo homoerótico a se estabelecer no mundo da arte dominante; 3) foi o primeiro a fotografar a nudez de homens negros. Por tudo isso, ele pode ser considerado uma figura essencial nos debates em torno da arte transgressora em geral. Como Mapplethorpe não mantinha guardadas as imagens sexualmente explícitas que produzia (como Pablo Picasso ou Wahol), passou a ser considerado um pornográfico e não um artista. Ao retratar o estilo de vida homossexual na Nova York da década de 70, Mapplethorpe antecipa a indefinição entre o pornográfico e o artístico.

Uma Coisa Pode Ser Outra Coisa !?





Afinal  de  contas,
quem decide aquilo que
 
deve    ser    considerado
u
m objeto digno de ser
retratado pela arte?





Uma das fórmulas para a articulação entre a pornografia e a arte ficou conhecida pelo rótulo Porno-Chique. Brian McNair sugere que Pornô-Chique não é pornô, mas a sua representação através da arte e da cultura não-pornográficas. O pastiche da pornografia, uma paródia e uma homenagem e investigação do pornô. A transformação pós-moderna do pornô num artefato cultural da tendência dominante (mainstream) visando uma variedade de propósitos que incluem propaganda, arte, comédia e educação. Tendência artística alvo de muitas críticas, para MacNair o Pornô-Chique reflete um interesse público legítimo (em oposição ao meramente comercial) em relação à pornografia e suas qualidades transgressoras e questionadoras dos tabus. O rótulo já havia sido empregado nos Estados Unidos desde o começo dos anos 70 do século passado para descrever filmes pornográficos como Garganta Profunda (Deep Throat, 1972), Emmanuelle (1974) e outros. Na mesma época, a revista masculina Playboy (que vendia até 7 milhões de cópias por mês) era considerada “chique”. Ainda de acordo com MacNair, o problema com o pornô era não saber como administrar o fato de que seu lado tabu era essencial para atrair público, o que implicava não fazer parte do mainstream. Essa infiltração só começou a ocorrer no final dos anos 80, foi quando o Pornô-Chique entrou em cena. MacNair inclusive ressaltou que nesta mesma época a comunidade acadêmica começa a se debruçar sobre a pornografia e a sexualidade, constituindo um fenômeno recente a inclusão de títulos sobre tais assuntos nos catálogos das editoras (5). (imagem acima, à esquerda, Closed Contact nº10, Jenny Saville, 1995-7)



Até que ponto
o sexo pertenceria ao

reino do privado  ou esta
seria uma justif
icativa de pessoas sexualmente reprimidas?



Na esfera das artes, do jornalismo e da mídia, a pornografia foi paulatinamente sendo transformada em algo menos carregado negativamente. Na década de 90, o Pornô-Chique se encontra com o contexto político das idéias feministas e dos movimentos de liberação dos homossexuais. No Pornô-Chique, o erotismo não teria, em tese, sido transformado em mercadoria. Esta é a hipótese de MacNair, mesmo levando em consideração que as celebridades que aderiram a isso estão trabalhando com uma massa de consumidores. Não se pode esquecer que o advento do HIV/AIDS também faz parte desse contexto. Um dos primeiros exemplos de pornô-chique artístico incorporando o que se poderia chamar de “erotismo de celebridade” foi criado pelo norte-americano Jeff Koons. Na série de fotografias e esculturas denominada Made in Heaven (imagem acima), ele aparece mantendo relações sexuais com sua então esposa Ilona Staller – a então famosa atriz pornô italiana Cicciolina. Posteriormente, Koons assou a impedir a publicação de seus trabalhos e insistia não se tratar de pornografia. Dizia que seu trabalho apenas utiliza a sexualidade como uma ferramenta de comunicação – entretanto, MacNair esclarece que Koons se divorciou e estava tendo dificuldade em relação à custódia de filhos. A constatação de MacNair: Made in Heaven “casa” a figura do artista com a figura pornográfica de Cicciolina e produz uma imagem que parece pornografia (é sexualmente explícita e tem a intenção de estimular), mas é validada culturalmente como arte. (imagem abaixo, Lisa Lyon, Mapplethorpe, 1982)







Quando o capitalismo
trans
formou a transgressão
em algo  chique   ela deixou
d
e ser transgressora?






Para MacNair, foi a cantora e atriz Madonna quem mais do que qualquer outra construiu o Pornô-Chique na esfera da cultura popular, através de três trabalhos realizados entre 1989 e 1992. Em músicas como Open your Eyes, Madonna retrata uma stripper sendo vista por um garoto, em Like a Prayer (1989) ela faz sexo com um Cristo negro (uma hipótese um pouco forçada, mas próximo do final eles se beijam), em Vogue (1990) acompanhamos uma celebração da sexualidade homossexual. Madonna lançou Justify my Love em 1990, num cenário bissexual, fetichista e sadomasoquista. Em 1992, Madonna imerge completamente no Pornô-Chique com Erotica, e o livro de fotografias Sex. Embora Madonna negue, MacNair admite que esse livro foi a coisa Pornô-Chique mais próxima do pornô colocado no mercado, ainda que em seu otimismo em relação ao tema ele acredite que o objetivo era captar a força transgressora do pornô num contexto de mercado massificado:

Sex influenciou fortemente a cultura sexual e a política [da década de 90] porque quebrou uma série de tabus (foi transgressor), e ao mesmo tempo foi um produto comercial popular. O capital cultural que ela investiu no projeto assegurou que ele chamasse atenção até mesmo daqueles que o odiaram, levando o debate sobre a sexualidade para o interior do mainstream. Sex e Erotica de Madonna contribuíram substancialmente para a criação de um clima cultural dentro do qual se tornou possível considerar o pornô como apenas mais outro assunto – não um que tivesse de ser demonizado ritualisticamente como algo moralmente maligno ou politicamente reacionário, mas que pudesse ser tratado como tendo algum interesse estético e validade em si mesmo” (6)

Transgressão e Capitalismo!? 

(...) A estética
da  transgressão   pode
ser um importante veículo
para a democra
tização
do desejo”


Brian MacNair (7)

A “atividade sexual” é um tema de grande apelo na arte muito antes do século passado terminar. Vasos da antiga civilização grega já traziam cenas de cópula, templos indianos as mostram também em pinturas e esculturas, afrescos de Pompéia são bastante explícitos a respeito da vida sexual da Roma Antiga, sem falar nas gravuras japonesas do Japão de alguns séculos atrás. Para falar apenas do Grande Irmão do norte, desde 1989, quando o senador Alfonse D’Amato atacou o National Endowment for the Arts (fundo público que financia a Arte) por patrocinar Piss Christ, de Andres Serrano (1987, o artista mergulhou um crucifixo num recipiente transparente cheio com sua própria urina), os Estados Unidos mergulharam em feroz debate a respeito do status e legitimidade de um número crescente de artistas que inserem imagens sexuais em seus trabalhos. Filmes como Crash (direção David Cronenberg, 1996), Os Idiotas (direção Lars von Trier 1998), e Romance (direção Catherine Breillat, 1999), provocaram ansiedade na Grã-Bretanha. Em 1998, a polícia invadiu a University of Central England para confiscar um livro do fotógrafo Robert Mapplethorpe usado em sala de aula. O fotógrafo em questão era homossexual e mostrava imagens eróticas, mas ninguém parece se importar (agora) com o fato de certo Giorgione ter pintado o primeiro quadro mostrando um nu feminino deitado em 1510! (imagem acima, à esquerda) (8).




Incorporar instrumentos
de co
ntrole do desejo (como
a pornografia) para atacá-los
na enevoada fronteira entre
 
o que seria arte ou não ?




Teóricos pós-modernos decretaram que a vanguarda morreu em algum momento da década de 60... Ao incorporar a transgressão e a transformar em algo chique tão rapidamente, o capitalismo tornaria impossível seu impacto subversivo. Por outro lado, referindo-se ao panorama da arte nos Estados Unidos, Rebecca Schneider sugeriu que é notável como a sugestão de que a vanguarda e sua tendência para chocar tenham morrido justamente quando as mulheres, os artistas de cor e os artistas homossexuais de ambos os sexos começaram a fazer uma arte crítica, política e incisiva, em função de suas próprias bandeiras de raça e gênero. Schneider também insiste em afirmar que a ansiedade dos conservadores quanto à busca do limite cultural “apropriado” para a expressão estética está relacionada a uma nostalgia pela crença modernista no poder da transgressão. Ou melhor, se nada puder ser considerado transgressor, então nada poderá ser considerado inapropriado. De fato, nesse sentido, até se compreende a afirmação pós-moderna de que a força transgressora da arte morreu. Ainda de acordo com Schneider, mulheres artistas que usam seu próprio corpo nu em obras/performances (Carolee Schneemann, etc) teriam mostrado a ligação entre as formas de olhar o corpo e as formas de estruturar o desejo de acordo com a lógica da mercadoria no capitalismo (9). (imagem acima, arte erótica, Pompéia)

Revolução Sexual?

A reviravolta que
se  concretizou  entre
as décadas de 60 e 70 foi
acom
panhada   por  outra,
não   muito   visível,   que
consistia  na  repressão

à liberalização dos
costumes

A universalidade de regras como a proibição do incesto, a hierarquia dos direitos sexuais, a endogamia, etc, sugerem que de fato toda sociedade humana se constitui a partir de uma negociação em relação ao sexo. Entretanto, Ardenne dá um passo além, ele se junta ao coro daqueles que acreditam que a construção do social invariavelmente implica a eliminação e/ou controle do elemento sexual. Como disse Freud, o amor não se mistura com a civilização. Sem nos esquecermos do Contrato Social, de Jean-Jacques Rousseau, a sociedade interdita os instintos. A “revolução sexual” fez tudo isso em pedaços, mas Ardenne se pergunta sobre a possibilidade de que ela esconda (como antes se escondiam até os joelhos e os ombros, sem falar no resto do corpo) alguma coisa no plano político: “tudo bem que o dionisíaco livremente ‘autorizado’ emane de uma tolerância política respeitosa em relação ao nosso indestrutível desejo de fruir. Outra coisa é, ao contrário, que, por um lado, ele se molde dentro dessa liberdade e, por outro, o faça com o objetivo de capturar e explorar” (10). Como mostrou Herbert Marcuse (1898-1979), a liberação sexual pode estar ligada a uma manipulação política. Para Michel Foucault (1926-1984), ela pode esconder ainda múltiplas alienações. (imagem acima, à esquerda, Up to and Including her Limits, 1973-6, Carolee Schneemann)


“Eu  acredito
que os artistas deveriam
usar todas  as  ferramentas
disponíveis para eles hoje, todas
aquelas que o assim chamado mundo
real – publicidade, as indústrias da música
e do cinema – disponibilizou para eles. Estes
são nossos competidores. Se o mundo da
 
arte não empregar todos os meios de
sedução à sua disposição, será
devorado pela publicidade
e  pela  indústria  do
entretenimento”

Jeff Koons,
Flash Art
supplement, 1989 (11)


Em Eros e Civilização (Eros and Civilisation: A Philosophical Inquiry into Freud, 1955), Marcuse chamou atenção contra a ilusão que poderia representar a liberação sexual. A palavra de ordem dos pequeno-burgueses nas ruas de Paris em maio de 1968 conclamando por uma fruição alegre dos corpos corre o risco de se tornar uma fruição despolitizada, inocente, ingênua. Essa fruição sem consciência não percebe que o poder escapa a ela. No volume I (A Vontade de Saber, 1976) de sua História da Sexualidade, Foucault se pergunta se mais do que uma libertação dos costumes, a “revolução sexual” não seria uma ilusão de libertação. Na mesma época, o poeta, cineasta e crítico social italiano Pier Paolo Pasolini (192-1975) dizia o mesmo (12) - se estivesse vivo, talvez Pasolini fosse um dos que consideraria Erotica e Sex de Madonna como produtos massificados politicamente reacionários. Em Escritos Corsários (1975) ele se referiu a uma falsa tolerância do poder, que “ofereceu” a liberdade sexual até que ela se tornasse uma neurose, uma obsessão – em tempo, uma obrigação social. (imagens acima, à direita, Casanova, Salvador Dali, 1967; abaixo, cena de Os Contos de Canterbury, segunda parte da Trilogia da Vida, Pier Paolo Pasolini, 1972)


“(...) Abjuro a Trilogia da Vida,
se bem que não me arrependa de
tê-la feito. De fato, não posso negar
a sinceridade e a necessidade que me
impeliram   para   a   representação
dos   corpos   e   do   seu   símbolo
culminante,   o   sexo   (...)”

 

Pier Paolo
Pasolini (13)


Concomitantemente, o poder aumenta a repressão ao diferente e às minorias. Repressão que se desdobra na intolerância grosseira e infame que frutifica no seio da sociedade – em tempo, não estamos falando de Brasil, Pasolini se referia à Itália... O cineasta italiano chegou a abjurar sua Trilogia da Vida (14) (onde ele enaltecia a fruição alegre do sexo como uma potencia da vida), uma vez que ela deu origem (ou um impulso definitivo) à indústria pornográfica. Marcuse, Foucault e Pasolini viviam e se referiam ao mundo das décadas de 50 a 70 do século passado. Ardenne, falando conosco já no século atual, não nos presenteia com nenhum alívio otimista. Pelo contrário, mais do que liberação, ele se refere a uma mercantilização do sexo, que o advento da AIDS apenas transferiu para o espaço virtual da internet. E conclui com palavras lacônicas que poderiam ter saído da boca de Pasolini: “Fruir o sexo, que seja, mas com essa condição: conservar o suficiente dessa energia para satisfazer ao reino absolutista da produção capitalista” (15).

Notas:

Leia também:

As Mulheres de Luis Buñuel
Luis Buñuel, Incurável Indiscreto
Holocausto: Palavra Nordestina
O Inferno é Para as Crianças
A Nudez no Cinema (VIII)
Pênis e Racismo

1. SCHNEIDER, Rebecca. The Explicit Body in Performance. London/New York: Routledge, 1997. P. 20.
2. ARDENNE, Paul. L’Image Corps. Figures de l’Humain dans l’Art do XX Siécle. Paris: Éditions du Regard, 2001. Pp. 182-4, 297-300.
3. JOHNS, Catherine. Sex or Symbol? Erotic Images of Greece and Rome. London: British Museum Press, 1989. P. 117.
4. NERET, Gilles. Arte Erótica. Köln: Benedikt Taschen, 1994. P. 50.
5. MAcNAIR, Brian. Striptease Culture. Sex, Media and the Democratisation of Desire. London/New York: Routledge, 2002. Pp. 61-7.
6. Idem, p. 69.
7. Ibidem, p. 166.
8. Ibidem, pp. 165-6, 222.
9. SCHNEIDER, Rebecca. Op. Cit., pp. 4-5.
10. ARDENNE, Paul. Op. Cit., pp. 299-300.
11. WARR, Tracey; JONES, Amelia. The Artists Body. London: Phaidon, 2000. P. 157.
12. PASOLINI, Pier Paolo. Escritos Corsários/Cartas Luteranas – uma antologia. Lisboa: Assírio & Alvim, 2006. Pp. 71-2.
13. NAZÁRIO, Luiz. Todos os Corpos de Pasolini. São Paulo: Perspectiva, 2007. P. 99.
14. Decameron (1971), Os Contos de Canterbury (I Racconti di Canterbury, 1972) e As Mil e uma Noites (Il Fiore Delle Mille e una Notti, 1974).
15. ARDENNE, Paul. Op. Cit, p. 300. 


26 de set. de 2010

Yasuzo Masumura e os Olhos nos Dedos



“O mais
profundo
é a pele”


Paul Valéry
(1871-1945) 






A Cega Obsessão da Arte do Toque


Michio é um escultor cego de nascença, obcecado pelas formas femininas ele seqüestra uma jovem modelo. Depois de analisar com seus dedos uma escultura que representava o corpo dela, Michio decide fazer ele mesmo uma escultura da mulher que considera possuir a forma perfeita. Ele se aproxima de Aki, a bela modelo, através de um ardil – finge-se de massagista e seqüestra a mulher. Com a conivência e auxílio da mãe, Michio mantém Aki em seu ateliê. O estúdio é uma espécie de fortaleza disfarçada de casebre. Aki se apavora com a bizarria do local, nas paredes estão centenas de esculturas de partes do corpo humano: olhos, bocas, narizes, braços, pernas, vaginas e, no meio da grande sala, dois corpos gigantes de mulher. Michio diz que os esculpiu de memória, lembrando-se das formas de suas clientes quando ele trabalhava de massagista. O escultor diz que deseja apenas fazer uma escultura do corpo da modelo, mas que a seqüestrou por acreditar que ela não aceitaria posar para ele. Michio fala de uma nova forma de arte, de e para cegos: uma arte do toque. (todas as imagens são de Cega Obsessão)





Michio é virgem, o que
ele  idolatra   em   Aki  é
a sensação da pele dela






Após várias tentativas de fuga, Aki acaba provocando o ciúme da mãe de Michio ao fingir estar apaixonada por ele. A velha senhora tenta libertar Aki para se livrar da competição. Segue-se uma briga onde fica clara a vontade da mãe em monopolizar a atenção do filho. No final, ao tentar impedir que enforque Aki, Michio acaba matando a mãe. Enfurecido, Michio avança sobre Aki e tira a virgindade dela. Fazem sexo muitas vezes mais, enquanto ele termina a escultura. Com o tempo, Aki começa a se apaixonar por Michio. Enterram a mãe dele no chão do estúdio e se matem isolados. Aki também começou a ficar cega como Michio, passando a desenvolver a mesma sensibilidade do toque como ele. Os dois mergulham numa espécie de frenesi físico sado-masoquista em busca de sensações. Até que chegam ao ponto de ferir um ao outro e beber o sangue. É quando Aki pede a Michio que arranque os braços e pernas dela, para que possa experimentar mais sensações de dor, êxtase e agonia. Enquanto ele corta a carne dela, os braços e pernas da escultura que ele fez de sua musa desprendem-se e caem no chão. A seguir, Michio comete suicídio.

Aki é a Personagem Principal



Masumura   critica
uma  tendência   do
 cinema  japonês  de
 
criar   personagens
submissos ao social





Em Cega Obsessão (Môjû, 1969), o cineasta japonês Yasuzo Masumura (1924-1986) adaptou o livro homônimo do escritor também japonês Rampo Endogawa (1894-1965). Um dos expoentes da Nouvelle Vague japonesa, a carreira de Masumura tem início em 1957 após retornar da Itália, onde estudou entre 1952-5 com a nata do cinema italiano no Centro Experimental de Cinematografia de Roma – antes de dirigir ainda passou um período na assistência de direção para Kenji Mizoguchi (1898-1956) e Kon Ichikawa (1915-2008). Masumura integrou uma geração que resolveu contestar certos valores estabelecidos da cultura japonesa que se faziam sentir também no cinema. Ele foi muito criticado por dar mais importância a descrição de personagens, dizia-se que isso acabava tornando seus filmes áridos e frios. Por sua vez, Masumura respondeu afirmando que de fato rejeitava a tendência do cinema japonês em colocar os sentimentos muito fortemente condicionados pelo ambiente social.





Yasuzo Masumura
estava entre os cineastas
que procuravam fugir da
estética domesticada





Disse ainda que isso demonstrasse como seus conterrâneos não eram capazes de dar voz a seus próprios e sinceros desejos e emoções. Como resultado, o binômio “verdade” e “atmosfera” servira apenas par dar muito mais corpo ao ambiente do que ao homens que o animavam. Isso significa, conclui Maria Roberta Novielli, a negação do lirismo dos grandes mestres e de uma série de convenções retóricas que o cinema vinha utilizando cada vez mais e o fim da “resignação” como tampão para uma existência vivida pela metade. “Eu odeio o sentimento”, disse Masumura, “e isso é devido ao fato de que no cinema japonês ele é representado de maneira controlada, harmoniosa, resignada, triste, derrotada e fugaz”. Novielli explica que o cineasta também rejeitava as duas tendências cinematográficas então em voga em seu país: a naturalista, animada pela “gente pobre sem esperança”, e aquela baseada em princípios realistas ideológicos que “descreviam idealmente os defeitos da sociedade” (1).





A mulher é um
personagem   central
 
no cinema de Yasuzo
Masumura





Masumura se interessava por personagens de ego forte e desejos incontroláveis. Concentrou-se no universo feminino, pois acreditava que a mulher afirmava sua individualidade com mais liberdade. É o que fica evidente, nos mostra Novielli, nas figuras femininas que são os personagens centrais de alguns de seus melhores filmes, a enfermeira Sakura em Anjo Vermelho (Akai tenshi, 1966), a jovem amante do triangulo erótico em Tudo em Desordem (Manji, 1964), a mulher fatal tatuada em A Tatuagem (Irezumi, 1966). O que explica o papel ativo que Aki passa a ter na busca de seu próprio prazer tátil e da exploração de um mundo (o sexual) proibido às japonesas, sugerindo que a experiência com Michio abriu-lhe as portas da percepção – ao invés da conclusão de que ela passou a agir daquele modo porque enlouqueceu. Na primeira vez que o encontramos, Michio está tateando a estátua de Aki colocada no centro da sala onde estão expostas as fotografias dela tiradas por um famoso fotógrafo.




O conceito de nudez
foi introduzido no Japão pelo Ocidente, mas só se
faria   sentir  no   cinema
japonês a partir do final
da  década  de 50
(2)




Em silêncio ela observa, e com certa repulsa tenta entender aquele homem. De repente Aki sente a mão dele deslizando por seu corpo enquanto de fato ele não tirou as mãos da estátua. O curioso é que em nenhuma parte do filme se sugere que as fotografias que ela tirou nua e amarrada por correntes, motivo da exposição onde se encontra a estátua, constituíssem uma bizarria (como Aki classifica o trabalho do escultor). Michio vive num universo totalmente tátil, mas desvaloriza todos os outros sentidos, colocando a visão como elemento central do estar no mundo. Nessa luta entre os cinco sentidos humanos, Michio se contrapõe ao filósofo francês Maurice Merleau-Ponty (1908-1961), para quem, “(...) sua voz me desenha sua boca, seus olhos, sua figura, me faz seu retrato inteiro, exterior e interior, melhor que se estivesse diante de mim” (3). No final, é Aki quem irá mais longe no “drama tátil” de Cega Obsessão, desde que ela admite que começa a se apaixonar por Michio, ele vai aos pontos passando a uma posição secundária no desenrolar da estória.

Cinema Erótico Japonês 


Masumura foi
um  dos  primeiros
da  nova  geração  a
questionar    velhos
mestres
japoneses
do   cinema
(4)



Masumura ocupa um lugar de destaque no cinema japonês, está entre os mestres do cinema erótico de um Japão onde o nu integral nunca foi uma constante e a censura sempre se fez presente – tanto a autocensura dos estúdios cinematográficos quanto a censura exercida pelo Estado (5). Segundo Novielli, Masumura tem de fato o mérito de ter aberto o caminho para o cinema erótico japonês (6). Do mundo da nudez nas telas de cinema estão excluídos nomes famosos do cinema nipônico como Yasujiro Ozu, Akira Kurosawa, Kenji Mizoguchi e Mikio Naruse. Apesar de um cinema erótico japonês florescer nas décadas de 60 e 70 do século passado, a proibição da exposição dos pelos púbicos manteve-se inabalável. Poderíamos dizer que, apesar do elemento erótico presente em Cega Obsessão, o fato de a atriz que interpreta Aki mostrar os seios, mas estar sempre de calcinha seria um reflexo dessa situação. Por outro lado, também é uma tradição japonesa que o verdadeiro erotismo é aquele que deixa aparecer apenas a pele. Nesse sentido, a dependência de Michio em relação ao toque da pele humana estaria perfeitamente de acordo com a libido japonesa.



A única
nudez tolerada
no   cinema   era

a  do  banho de
ofurô
(7)





De acordo com Max Tessier, os mais belos nus do cinema erótico japonês são aqueles onde se sugere mais do que se mostra. Seja como for, filmes como Império dos Sentidos (Ai no korida, 1976), onde o cineasta Nagisa Oshima mostra uma nudez masculina e feminina explícita custou-lhe muitos problemas em sua carreira. Poucos sabem, mas o filme que se viu no Ocidente não foi o mesmo que a censura japonesa permitiu que fosse projetado nos cinemas do país. De acordo com Tessier, foi a impossibilidade de representação da sexualidade nas telas que levou o erotismo japonês no cinema a recorrer a “substitutos incontornáveis” como a violência, a perversidade e o sado-masoquismo. Talvez seja esse o conteúdo da mensagem final de Aki, de quem vemos o corpo morto e apenas ouvimos sua voz dizendo: “O mundo do toque. O mundo dos insetos. As vidas mais simples como as águas-vivas. Aquelas que se aventuram no limite de tais mundos, só podem esperar uma morte escura e úmida as envolvendo”.

Zurlini e o Deserto de Nossas Vidas
Rostos: Fisiognomonia (I), (II), (III), (IV), (V), (Epílogo)
Masculinidade e Violência
Geografia das Ausências em Yasujiro Ozu

Notas:

1. NOVIELLI, Maria Roberta. História do Cinema Japonês. Tradução Lavínia Porciúncula. Brasília: UNB, 2007. P. 214.
2. TESSIER, Max. Japonais. in BERGALA, Alain; DÉNIEL, Jacques; LEBOUTTE, Patrick (orgs) Une Encyclopédie du Nu au Cinéma. Éditions Yellow Now/Studio 43 – MJC/Terre Neuve Dunkerque. P. 210.
3. AUMONT, Jacques. Du Visage au Cinema. Paris: Editions de l’Etoile/Cahiers du Cinema, 1992. P 125.
4. NOVIELLI, Maria Roberta. Op. Cit., p. 213.
5. TESSIER, Max. Op. Cit., p. 210.
6. NOVIELLI, Maria Roberta. Op. Cit., p. 215.
7. TESSIER, Max. Op. Cit., p. 211. 


28 de ago. de 2010

Arte do Corpo: Todos os Leigh Bowery




Se antes era apenas
mais um refúgio
para a timidez, transformou-se numa expressão radical
e muito indiscreta





Explodindo Clichês

Reinventar-se parecia ser a palavra de ordem de Leigh Bowery. No caso dele, reinventar-se a partir de uma segunda pele: roupas extravagantes, maquiagens e próteses. Performático, Bowery criou uma arte do corpo (body art) como poucos. Sua tela era seu próprio corpo, e ele não parecia nem um pouco preocupado em seguir os padrões de beleza/magreza vigentes. Tampouco os padrões de sexualidade, sua homossexualidade parecia ser empurrada a uma segundo plano frente. Não parecia apenas um homossexual excêntrico, tudo nele (ou pelo menos na pessoa pública) era excesso. Sendo, inclusive, excessivamente explícita sua ultrapassagem dos gêneros (masculino ou feminino). Divisão a que em geral não escapam (e até buscam) tanto homo quanto heterossexuais. A esta necessidade (ou pressão social) de se enquadra num gênero como condição para tornar-se visível, Bowery contrapôs uma arte do corpo radical. Para além do aspecto espalhafatoso e risível que poderia evocar sua figura bizarra numa primeira olhada, a seguir somos confrontados mais e mais com o curto-circuito causado por suas criações.



Curto-circuito
dos gêneros
, Bowery
desfila suas
personas entre
as próteses, piercings,
plumas e paetês





Usados ao mesmo tempo, uma máscara de couro típica do fetiche sado-masoquista entra em ressonância (mas também em curto circuito) com o vestido comprido e comportado que cobre qualquer típica senhora de idade avançada. Os lábios de plástico que jogam com o clichê do glamour feminino, que poderiam soar como um desejo de aderir ao gênero feminino contrasta com os alfinetes de fralda com os quais eles são presos às bochechas de Bowery – não é mais um homem, mas também não parece pretender ser uma mulher! Quando não são de plástico, grandes lábios são pintados em volta da boca, misturando uma típica maquiagem de palhaço de circo com o fetiche/clichê do batom que em muitos (e muitos) casos estabelece e reafirma o estereótipo do gênero feminino. De todos os adjetivos com que se poderia classificar Bowery, referir-se a ele como não-convencional parece mais apropriado.

O Gordo e as Anoréxicas


O clichê sádico
que empurra as mulheres
para a anorexia e a bulimia
nem mesmo foi arranhado
por Bowery




É significativo que Lucien Freud tenha pintado retratos de Bowery totalmente nu. Num deles, de costas, Bowery deixa ver suas costas largas e gordas (imagem acima, à esquerda, com Bowery na frente). Leigh esconde o rosto e ao mesmo tempo mostra e afirma um corpo disforme para os padrões estéticos anoréxicos do Ocidente (ou pelo menos de suas metrópoles) pode soar como um alarme. Tanto apontar para o estilo camaleônico de Bowery como uma forma de questionar o culto apenas a certo tipo físico magro (ou absolutamente magro), como sugerir que as roupas que cobrem o corpo podem ser também uma segunda pele, ao invés de uma maneira de escondê-lo (seja por motivos religiosos ou por vergonha de estar acima do peso). Em tempo, Lucien Freud considerava Bowery “perfeitamente lindo”. Pode ser que Bowery nem tenha tido a intenção, mas tudo que fazia parece carregar em seu interior uma crítica profunda aos clichês e estereótipos do feminino que o próprio universo da moda reproduz.


Aparentemente,
o mundo da moda

ignorou Bowery no que
diz respeito a sua crítica

aos clichês femininos.
M
as o lado bizarro e
pastelão era muito
bem vindo


Não é apenas a divisão de gênero que é explodida nas aparências e performances de Bowery, seu corpo anti-masculino e anti-feminino bate de frente também com um dos clichês mais populares (e mais bizarros) de nosso tempo: o culto ao “emagrecimento patológico”. Esse que já é classificado como um distúrbio de personalidade que distorce a visão de si mesmo (no pior sentido possível), e que curiosamente está presente no universo da moda e dos estilistas, do qual o próprio Bowery fazia parte. Por que será que um estilista homossexual pode ser gordo e ainda assim ser aceito, enquanto as modelos que trabalham para os estilistas continuam obrigadas a se submeter à ditadura da anorexia/bulimia que nada tem de saudável (ou de belo)? É curioso que a eterna reinvenção de si que projetou Leigh Bowery não pareça (em teoria) importar-se com seu peso, enquanto concomitantemente as mulheres que trabalham nas passarelas capitaneadas pelos/as estilistas parecem não ter nenhum direto de posse sobre o próprio corpo! O mundo misógino masculino heterossexual tem seu equivalente no que cada vez mais se deixa ver como um mundo misógino homossexual – neste caso, protegidos pelo manto “sagrado” das exigências do mercado de consumo. Supondo, evidentemente, que Bowery de fato desejasse questionar os padrões do mundo da moda que transformam as mulheres em esqueletos ambulantes!

Ainda Existe Um Rosto?


A reconfiguração
das feições sugere um afastamento em relação
à prisão do rosto (e do
olhar fixado no rosto)
,
tendendo a devolver
a cabeça ao corpo




A primeira vista, Leigh Bowery poderia ser confundido com mais um homossexual excêntrico e bizarro. Ele veste suas próprias criações, como as botas que se tornam próteses das pernas – mas que não apenas as substituem, senão as remodelam. Suas mascaram fazem de seu rosto uma espécie de cabeça de manequim, ao mesmo tempo aplanando as feições em sua carne e abrindo caminho para a expressividade da cabeça – a qual, diriam Gilles Deleuze e Felix Guattari (1), sempre perdeu em importância para o rosto. Porém, ainda existe um rosto, os buracos dos olhos, nariz e boca. Aliás, esta última receberia atenção especial através dos lábios de plástico que muitas vezes cobriam seus lábios de carne – uma paródia do batom que cobre tantos lábios femininos. Lábios cuja força da nudez as mulheres insistem em esconder por trás do batom. Mas este é apenas um dos modos de ser Bowery.



Pouco se via
o rosto (real) de
Bowery
, então não se
sabia exatamente

quem ele era (2)



Havia também aquela maquiagem em que ele cobre o rosto com pingos ou pontos, como uma extensão de um vestido ou roupa de bolinhas. Outras vezes Bowery é azul como uma daquelas divindades hinduístas, sem esquecer o piercing no nariz. O corpo inteiro é seu teatro de experimentações. Como aquelas pessoas que se escondem justamente através da superexposição, Bowery faz de suas criações o disfarce perfeito. Ao mesmo tempo em que se esconde dentro do disfarce, Bowery parece tentar explodir o corpo esconde. Além dos lábios de plástico, ele também aparece com seios de plástico. Além de romper as fronteiras de gênero, Bowery rompe com o elemento da maternidade (território restrito às mulheres) ao ostentar seios que não dão leite. Talvez um traço Drag Queen de Bowery, já que nesse universo o objetivo não é tornar-se mulher, mas simplesmente parodiar o feminino.


Numa de suas
performances durante
um show musical
, Bowery
se deita aos berros como uma mu
lher prestes a dar a luz. De repente sai uma mulher (de verdade, de carne e osso)
já crescida de dento do
que seria a vagina
de Bowery




Entre o monstruoso e o fantástico, Bowery explode a fronteira entre os gêneros. Classificá-lo como homossexual apenas por conta de seus trejeitos talvez não faça sentido – até porque, esta seria uma saída fácil que não dá conta da realidade. Às vezes, Bowery deixava a mostra uma espécie de vagina (mais exatamente os pêlos pubianos que denotavam a vagina antigamente). Enquanto isso, ou talvez um pouco antes, Cicciolina, a atriz pornô, mostrava os seios durante sua campanha eleitoral atrás de emprego no parlamento italiano. O contraponto perfeito, enquanto o “homossexual” Bowery explodia a barreira/prisão dos gêneros, a atriz pornô procurava ganhar uma eleição ao reforçar o pior da barreira entre os gêneros (a puramente aparente e frágil superioridade da mulher no mundo machista dos homens, onde ela não passa de objeto), e ela ainda levantava o braço imitando da Estátua da Liberdade em Nova York (Estados Unidos).

“Bowery criou e vestiu suas roupas extraordinárias para afirmar um sentimento de anormalidade (homossexual com 102 kg e mais de 2 metros) e projetar uma persona confiante e forte. No início envolvendo maquiagem e perucas, botas de salto plataforma e grandes ombreiras, as roupas se tornaram mais esculturais – com braços esféricos, pernas disformes, seios postiços – enquanto seu rosto desaparecia sob capas que cobriam toda sua cabeça. Manipulava e prolongava seu corpo, muitas vezes de forma dolorosa, a fim de criar um ‘visual’ que o libertasse de sua timidez, permitindo-lhe criar uma persona extravagante na cena ‘subterrânea’ das boates [de Londres]. Seu engajamento com a total teatralização da personalidade, tendo a boate como palco, foi de fato o compromisso com uma forma extrema de auto-expressão, permitindo-lhe explorar medos e desejos em performances públicas escandalosas que o tornaram um ícone da cultura subterrânea. Desafiando diretamente a estética de estilo e moda, as roupas e performances de Bowery expunham o corpo do artista como uma ferramenta através da qual examinar os juízos existentes do que é perverso e do que é normal” (3)

Notas:

Leia também:

Arte do Corpo: Cindy Sherman, Carolee Schneemann, Yoko Ono, Shigeko Kubota, Jan Saudek, HR Giger
Os Seios da República: Conexão Seios (epílogo)

1. DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Felix. Mil Platôs. Rio de Janeiro: Editora 34, vol. 3.
2. The Legend of Leigh Bowery. Documentário, direção de Charles Atlas, 2002.
3. WARR, Tracey; JONES, Amelia. The Artist's Body. London: Phaidon, 2000. P. 187.

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