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Roberto Acioli de Oliveira

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1 de ago. de 2021

O Passado Nazista do Cinema de Entretenimento

 “Essas pessoas tentam se convencer que fazem jornalismo 
mas,  na  verdade, elas estão no ramo  do  entretenimento

Michael Deaver

Consultor  de  comunicação  do  ex-presidente  norte-americano  Ronald
Reagan (1970-1985), comentando sobre jornalistas que cobrem a política  (*)
(imagem acima:  Hitler ensaiando discursos em frente ao espelho,  1925)

 

“O fundamento da autoridade reside na popularidade”. Nestes termos Adolf Hitler definiu as bases da relação com as massas que desejava conquistar. O chanceler do Partido Nacional Socialista já foi definido como um estuprador que utiliza a palavra como um falo. As massas a serem conquistadas eram como mulheres. Após um grande discurso, Hitler declarou que ficava “encharcado” (1). Em Minha Luta (Mein Kampf, 1925), seu livro autobiográfico, Hitler descreve a relação que o poder deve estabelecer com as massas, tomadas como um ser em inferioridade intelectual. De fato, podemos ver suas diretivas operando atualmente de forma clara na mídia em geral e na televisão em particular…

“O poder receptivo das massas é muito limitado e a capacidade de compreensão que revelam é fraca. Por outro lado, esquecem muito depressa. Sendo assim, a propaganda eficaz é aquela que se limita a uns poucos elementos essenciais e estes devem ser expressos, tanto quanto possível, em fórmulas estereotipadas. Esses lemas devem ser repetidos persistentemente, até que o último indivíduo tenha compreendido a ideia apresentada. Se este princípio não for seguido, e se se tentar fazer abstração ou generalizar, a propaganda será ineficiente, pois o público não poderá digerir ou guardar o que lhe é oferecido. Portanto, quanto maior o escopo da mensagem, tanto mais necessário se torna descobrir o plano de ação psicologicamente mais eficiente” (2).

  “A política mais importante é  
a  que fazemos com os olhos 
 
Win Wenders
 
Cineasta alemão do pós-guerra

 

Houve um tempo na história da humanidade em que não existia a televisão! Nessa época, os noticiários eram veiculados pelos cinemas. Chamavam-se cinejornais, e se difundiram com o advento do cinema falado. Antes de o nazismo chegar ao poder, o estudo da técnica cinematográfica era apenas um hobby para Goebbels (imagem ao lado), que vivia sem rumo após terminar a universidade. Entrou para o Partido Nazista em 1924 e terminou no comando da máquina de propaganda. Uma de suas frases que ficou foi: ‘minta, minta que alguma coisa fica”.

Joseph Goebbels, longe de ser o publicitário grosseiro como era considerado pelas potências aliadas, tinha um papel vital para o partido nazista. O Ministro da Propaganda de Hitler dava muito valor aos filmes de entretenimento, seus preferidos eram E o Vento Levou (Gone with the Wind, direção Victor Fleming, George Cukor, Sam Wood, 1939) e Branca de Neve e os Sete Anões (Snow White and the Seven Dwarfs, produção Walt Disney, 1937). Notem bem, ambas as produções são americanas, sendo a segunda um desenho animado para crianças produzido por Walt Disney. Seu diário mostra um Goebbels obcecado por filmes, assistia desde o Encouraçado Potemkin (Bronenosets Potemkin, direção Serguei Eisenstein, 1925) até Ben-Hur (direção Fred Niblo, 1925), de Greta Garbo à Shirley Temple (3).

Anton Kaes mostra como, desde seus primórdios, o cinema tanto expressou quanto foi usado para moldar identidades nacionais. O Nascimento de Uma Nação (The Birth of a Nation, 1915), dirigido pelo americano D.W. Griffith e Napoleão (Napoleon, 1927), dirigido pelo francês Abel Gance, são os exemplos mais óbvios. O primeiro acaba servindo para sugerir a articulação entre a Klu Klux Klan (organização secreta que professa ideais racistas nos Estados Unidos) e o governo americano. 
 
 
Após assistir Os Nibelungos (Die Nibelungen, apresentado em duas partes, 1924), dirigido pelo famoso cineasta alemão Fritz Lang, Hitler o convida para comandar o cinema do III Reich alemão. Goebbels e Hitler perceberam que o mito dos Nibelungos, onde Siegfried traído deveria ser vingado, poderia perfeitamente ser recolocado no contexto da Alemanha daquele momento (4). Foi então que o famoso diretor fugiu para os Estados Unidos. Aliás, muitos foram os diretores e profissionais do cinema que se mudaram da Alemanha para Hollywood. Thomas Elsaesser argumenta que essa migração de profissionais demonstra a grande similaridade entre as práticas dos dois polos cinematográficos naquela época (5). (na imagem acima a cena chave da parte 1, A Morte de Siegfried. No momento em que Siegfried, traído por Gunther, é atingido nas costas pela lança de Hagen, é alcançado justamente o único ponto onde o corpo do herói é vulnerável - uma espécie de Aquiles nórdico)
 
O ano é 1933, Hitler sobe ao poder na Alemanha. O Partido precisa de alguém para pôr em prática a ideologia Nacional Socialista. Alguém que desse uma cara aos inimigos da pátria. Deve ser alguém que, além de manusear bem as palavras, esteja antenado com as novas tecnologias de então: o rádio e o ainda nascente cinema falado. Goebbels agora assume o posto de Ministro do Entretenimento Popular e Propaganda. Nas palavras de Fritz Hippler, diretor de cinema na época, “para [Goebbels], o filme era um meio ideal de atingir o inconsciente. Ele o colocava acima de todos os outros meios, das artes visuais à imprensa” (6). 

caricatura publicada em Der Stürmer, dezembro 
de  1929:  O  ano  acabou.  A  luta  continua!
 
Até  nos  quadrinhos os nazistas  destilavam  seu  veneno  contra os judeus.  A  caracterização  física  do
judeu como sujo e disforme era padrão,  mesmo  modelo  usado  para  negros  e  árabes  em  Hollywood 
 

Goebbels havia percebido que entretenimento é melhor que propaganda. Muitos dos diretores que desejavam trabalhar para o Partido, esbarravam na censura do Ministro, que recusava filmes de propaganda óbvia. Segundo seu secretário na época, “ele vivia dizendo ao pessoal do cinema, ‘não me venha com material político’. Todos os filmes políticos haviam se tornado pavorosos” (…), “e sempre dizia ‘fiquem longe dos filmes políticos’” (7).

O filme de entretenimento tem uma intenção política, afastar-nos de nossas preocupações domésticas e familiares. Nos estúdios de Babelsberg, o mesmo lugar onde Fritz Lang filmou Metrópolis (Metropolis, 1927), era coordenada uma grande produção cinematográfica. Cerca de 90% dos filmes que o Ministro controlava não tinham nenhum conteúdo explícito de propaganda, era um lugar destinado a produzir entretenimento. Era o centro da indústria cinematográfica na Europa, onde Goebbels determinava quem poderia representar qual papel.

Como não podia deixar de ser, a família de Goebbels era retratada como a imagem perfeita da família Nacional Socialista, e sua esposa o modelo da mulher ariana. Tudo era uma farsa, ele vivia em desacordo com sua própria propaganda. Segundo ela, cada alemão só podia ter uma casa (ele tinha várias), os alemães deveriam desdenhar a decadência (ele frequentava boates em segredo), conclamava os alemães a serem felizes no casamento (ele traía sua esposa habitualmente, aquelas que o repeliam ficavam sem trabalho). Sua amante era eslava, de um tipo racial que mais tarde ele chamaria de subumano. 
 
 
 
 Hitler era retratado 
como um homem com habilidade
super-humana, que se sacrificou por seu
país
. O ministro ordenou que mesmo os filmes
noticiosos não se concentrassem em fatos
e informações, mas sim na emoção
e no entretenimento

 

 

“Goebbels sabia que o modo mais eficiente para fazer qualquer tipo de plateia aceitar uma ideia era prepará-la emocionalmente. A aplicação da música adequada, do cerimonial certo, da solenidade e do ritual convenientes predisporia qualquer plateia a aceitar qualquer mensagem. Nunca se duvidou do efeito hipnótico dos gritos, nas reuniões, dos lemas, das canções patrióticas, dos pés em marcha rítmica, dos holofotes caindo sobre as formações de homens uniformizados, desde que aplicados com precisão, para não se tornarem risíveis” (8).

Hans Feld era crítico de cinema na época, antes de ser expulso da Alemanha no expurgo dos judeus da indústria cinematográfica. Ele comenta as técnicas de Goebbels nos filmes noticiosos…

“Havia uma coreografia, como uma orquestra, ou uma sinfonia. Essa é a parte dura, casando o som, a música e a imagem. O ritmo, a marcha, as fileiras das massas. Então você tem a figura solitária do líder, sempre que se vê os braços estendidos, as mulheres acenando. Quando se vê as massas acompanhadas de uma música emocionante. É como ingerir uma droga. Sentimento, emoção. Você só pode ser compelido a uma morte de herói através da emoção. Os close-ups são um ponto de concentração de poder. Você vê aquele nazista em semi perfil, é uma força programada. Então, a suástica marcha em sua direção, agarrando você, levando-o a fazer parte dela. Então, você vê seus camaradas. Você não está só, lá há sempre uma figura paterna, o líder. Tudo foi preparado para criar um clímax” (9). 
 
 

Caricatura publicada em Der Stürmer, 1932: “A vacinação: 
Parece-me que veneno e judeus raramente fazem o bem

Der Stümer foi um jornal de propaganda nazista que circulou na Alemanha entre 1923 e 1945

Goebbels preferia que Hitler aparecesse somente em filmes curtos de notícias. Mas Hitler tinha outros planos, procurou então uma jovem cineasta e atriz, Leni Riefenstahl. Pediu que ela fizesse um longa-metragem sobre ele. São famosas as cenas de abertura em O Triunfo da Vontade (Triumph des Willens, 1935), o avião carregando Hitler como um Deus pelos céus rumando para Nuremberg, onde teria lugar o Congresso do Partido Nacional Socialista daquele ano (imagem abaixo). Leni diz que as tomadas que fez do comício, com câmera em movimento, eram diferentes de tudo que os filmes noticiosos haviam feito até então – neles só se utilizavam câmeras paradas. Tudo isso contradizia a teoria de Goebbels de que os filmes devem conter apenas entretenimento. O Ministro tratou de “congelar” Leni. Nos filmes históricos que se seguiram, o intuito era estabelecer um paralelo com o tempo presente. Hitler era comparado com Frederico o Grande, Bismarck e Schiller.

Estamos agora em 1939, começa a guerra. Goebbels reconhecia o poder da música na propaganda. Como diria Norbert Schultze, compositor de Lili Marlene, a versão mais curta é mais efetiva. Foi ele que escreveu uma canção para os pilotos alemães que iriam lutar nos céus da Inglaterra. Noutro filme, Soldados do Amanhã (Offiziere von Morgen, direção Alfred Weidenmann, 1941), um clássico da propaganda nazista contra os britânicos, Goebbels nunca tentou mudar a visão alemã a respeito de nada, seu segredo estava em reforçar preconceitos de um modo que divertisse as pessoas. E a visão alemã era de que a classe alta inglesa era decadente e afeminada. 

 

 Atravessando  Nuremberg,  a  sombra do avião  que
 traz Hitler para o povo, O Triunfo da Vontade, 1935
 

Hitler não concordou com todas as teorias de Goebbels sobre a propaganda.  Porém Leni Riefenstahl acaba sendo marginalizada a partir do começo da guerra – existe uma hipótese de que ela não acreditava que a coisa iria tão longe. Outros diretores tomaram seu lugar a serviço do regime, Veit Harlan, Carl Froelich, Gerhard Ritter, Gustav Ucicky e Geza von Bolvary (10). 

A divergência em relação à Goebbels ficou evidente quando Hitler pediu um filme sobre os judeus. O Judeu Eterno (Der ewige Jude, direção Fritz Hippler, 1940) foi um fracasso de bilheteria, ninguém aguentou ver ratos por toda a tela e muitas pessoas desmaiaram na plateia. Em 1940 Goebbels produziu seu próprio filme antissemita de acordo com suas teorias. Chamou Kristina Söderbaum, a Marilyn Monroe da época. Segundo ela mesma, eles queriam uma mulher loira, não muito inteligente, agradável e ariana. O filme, dirigido por Veit Harlan, se chamou Judeu Süss (Jud Süß, direção Veit Harlan, 1940).

Tratava-se de um drama histórico sobre um judeu que se infiltra na sociedade aristocrática do século dezoito em Wurtemberg. Através de um ardil ele consegue colocar na prisão o marido da mulher ariana perfeita que ele quer seduzir. Ela ouve os gritos do marido, sendo torturado, até que concorde em se submeter. No final, o judeu é preso e executado. O filme foi um sucesso, pesquisas feitas pelos nazistas mostraram que quase todos faziam uma conexão entre a Wurtemberg do século 18 e a Alemanha do século 20. Goebbels conseguiu fazer um filme que era bem aceito pelo público e ao mesmo tempo justificava a remoção dos judeus de suas casas.  



Em 1943 Goebbels percebeu que nem a propaganda convenceria os alemães de que estavam realmente vencendo a guerra. Um filme escapista foi produzido, O Barão de Münchhausen (Münchhausen, direção Josef von Báky, 1940) (imagem acima), repleto de haréns e frutas exóticas. Tudo estava em ruínas e as pessoas continuavam fazendo filas para ver filmes que criavam um mundo bonito e elegante. 

Em 1944, Goebbels se concentrou no filme que considerava seu maior legado. Um drama histórico sobre a heroica resistência dos alemães em inferioridade numérica contra o exército de Napoleão em Kolberg – também dirigido por Veit Harlan. O Ministro chegou a desviar cem mil soldados da linha de frente para atuarem como figurantes. O que Goebbels escondia dos alemães é que, naquela altura da guerra, a cidade real já havia caído nas mãos do exército soviético. Kristina Söderbaum fazia a moça do vilarejo. No diálogo final vemos a tentativa de dar dignidade à derrota alemã iminente. Kristina se junta a um senhor que vem confortá-la: ela diz, “Schill saiu de lá.” Então, a resposta: “Sim, você deu tudo de si Maria. Mas não foi em vão. Morte e vitória estão interligadas. É assim. A grandeza só nasce da dor” (11).

Goebbels parecia considerar-se um personagem perfeito e relevante da história alemã. Projetava-se num ator imaginário que viria representá-lo no futuro - num filme histórico. Dias antes do final da guerra, assistindo Kolberg (direção Veit Harlan, Wolfgang Liebeneiner, 1945) em companhia de alguns oficiais, dirige-se a eles dizendo…

“Cavalheiros, vocês não querem fazer parte desse filme? Serem revividos daqui a cem anos? Posso assegurar-lhes que será um filme belo e edificante, e a partir dessa perspectiva é que vale a pena resistir. Resistam e daqui a cem anos o público não irá assobiar e vaiar quando vocês aparecerem na tela”. (12)

 

O fundamento da autoridade reside na popularidade

Adolf Hitler 
 

O Passado Nazista do Cinema de Entretenimento foi originalmente publicado neste blog, em 12 de novembro de 2009. Com exceção da revisão ortográfica e introdução de novas imagens e legendas, assim como referências aos títulos originais dos filmes citados, o texto original foi mantido sem modificações

Leia também:

Notas:

(*) Propaganda Política nos Estados Unidos In 4º Poder, série O Poder e a Mídia, TVE, Canal 2, RJ. 13/09/1996. Original BBC.
 
1. WYKES, Alan. Hitler. Tradução Edmond Jorge. Rio de Janeiro: Renes, 1973. P. 37.
2. ____________. Goebbels. Tradução Edmond Jorge. Rio de Janeiro: Renes,1975.
P. 58.
3. Goebbels, Mestre da Propaganda In 4º Poder, série O Poder e a Mídia, TVE, canal 2, RJ. 05/09/1996. Original BBC.
4. KAES, Anton. From Hitler to Heimat. The Return of History as Film. USA: Harvard University Press, 1989. P.63.
5. ELSAESSER, Thomas. Weimar Cinema and After. Germany´s Historical Imaginary. New York: Routledge, 2000. P. 7.
6. Goebbels, Mestre da Propaganda. Op. Cit., nota 3.
7. Idem.
8. WYKES, Alan. Op. Cit., nota 2.
9. Goebbels, Mestre da Propaganda. Op. Cit., nota 3.
10. ELSAESSER, Thomas. Op. Cit., p. 399
11. Goebbels, Mestre da Propaganda. Op. Cit., nota 3.
12. Idem.

6 de set. de 2009

Desinformação Já



“Uma escola que
não ensina como
assistir à televisão
é uma escola que
não educa”


Joan Ferrés
Televisão e Educação


A
s Coisas e as Imagens das Coisas

Quase sempre, dos milhares de filmes de ação (guerras e tiroteios) vomitados por Hollywood, só chamam a atenção da maioria as belas luzes, um espetáculo para os olhos; além de um suposto heroísmo (na imagem acima, vemos uma cena real de batalha com tropas norte-americanas no Iraque; na imagem ao lado, a imagem não cinematográfica, sem glamour e sem heroísmo da mesma guerra. As duas imagens são de 2003). Lá na terra do Tio Sam (nas emissoras de tv norte-americanas), como cá (nas emissoras de tv brasileiras que cobrem as batalhas entre polícia e bandidos nos morros cariocas), não se mostra as vítimas, não se mostram seus corpos destroçados.

Esse tipo de coisa não dá ibope e, além do mais, pode gerar movimentos da sociedade contra a violência. E mesmo que mostrasse, será que a sociedade brasileira DESEJA saber? Na estratégia de dessensibilização generalizada e no faroeste televisual onde quase já não se distinguem mocinhos de bandidos, tudo é "ação". No comportamento belicista patético que se procura transformar em heroísmo, esconde-se a herança da “sociedade da informação”: desinformar é preciso.

Imagine que você vive num país onde a distância entre tv aberta e tv a cabo é um pouco maior do que se supõe. Especificamente no caso dos noticiários. Imagine que na primeira as notícias sejam rápidas, ralas (talvez porque o interesse seja segurar a audiência para assistir a propaganda, que ocupa mais espaço nos noticiários do que as notícias). Na tv a cabo, os assuntos (ou certos assuntos), são discutidos a exaustão por especialistas. Imagine agora que os públicos das duas são diferentes (ou melhor, pertencem a classes sociais distintas). Sendo a tv a cabo mais cara, naturalmente são as classes baixas que ficam restritas ao “noticiário ralo”. (todas as imagens deste artigo mostram situações reais, não se trata cena cenas de filmes; abaixo, soldado norte-americano cobre Saddam)

Você poderia concluir que, com a generalização do roubo do sinal de tv a cabo naquele país, a informação seria democratizada finalmente! Agora você só tem que descobrir quais são os canais de tv a cabo que a população que rouba o sinal DESEJA assistir. Você poderia ainda concluir que “noticiários profundos” deveriam ser os mesmos (dar a mesma informação) na tv aberta ou no cabo, mas que isso seria naturalmente impossível porque imagens, entrevistas e textos são editados (cortados). O problema não parece ser apenas o fato de que a tv (qualquer uma delas) reconstrói o real ao editar e montar as imagens para que possam caber na programação (entre os intervalos, que contém as propagandas - que é o que importa às emissoras). O problema é que as pessoas parecem não perceber isto que ocorre diante delas. Daí a perplexidade ante as imagens do atentado terrorista em 11 de setembro de 2001 ao World Trade Center. Parecia um filme! Difícil agora compreender que não eram imagens e sim um acontecimento.

Não se duvida que a tv recrie o real. O que alarma é a falta de censo crítico em relação à programação/recriação do real e/ou a forma como são veiculados. A discussão quanto à possibilidade ou não de censura aos programas apelativos é típica. Põe-se a perder a possibilidade da população responsabilizar-se pela programação a partir da hipótese de que isso constituiria censura aos meios de comunicação. Sim, como não, censuram tudo aquilo que não lhes interessa. Por que só nós não podemos decidir o que queremos?


Como se não fosse ato de
censura quando as emisso
ras
de tv decidem só mostrar
o que quiserem...




Alguns retrucariam que pensar assim
é dar importância demais à televisão, quando ela é apenas um eletrodoméstico. Se ela fosse tão irrelevante, o preço do minuto de propaganda não seria tão exorbitante. Se fosse tão irrelevante, as eleições não seriam decididas em debates no horário nobre e a verba de propaganda de empresas e governo não seria maior que os investimentos em seu público e/ou eleitores.

Estereótipos Onde Não Deveriam Estar

Um dos temas preferidos da mídia quando quer criar um factóide internacional para dar ibope é a re-formatação de guerras no horário nobre. Como no caso de Saddam Hussein, ex-ditador do Iraque. Segundo o então presidente (pai do ex-presidente norte-americano) George Bush, Saddam era o império do mal em pessoa. A mídia se apressou em reproduzir mais um estereótipo do déspota oriental. Naturalmente, e infelizmente, o que ninguém vai dizer é que o Saddam real havia sido uma criação do próprio governo norte-americano. Eles precisavam de alguém para servir de bucha de canhão e fazer uma guerra contra o vizinho do Iraque em 1979.

O vilão de então era o Irã do Aiatolá Kolmeini, que tirou seu país das garras dos norte-americanos e de seu fantoche o Shah Reza Palevi. Das atrocidades patrocinadas pelos norte-americanos, e cometidas por Saddam contra os iranianos ninguém sabe, ninguém viu. (imagem acima, mais um banho de sangue no Iraque)

Aliás, essa arrogância é típica de países que constroem seus impérios sobre as cinzas das liberdades dos povos. No filme Mauá, o Imperador e o Rei (1999), ocorre um diálogo entre o futuro Barão de Mauá (ainda bem jovem) e um negociante inglês bem sucedido. Dizia o britânico que a escravatura tinha que acabar porque não interessava aos ingleses. Afirmou também que o mundo está mudando porque a Grã-Bretanha assim deseja. Deu alguns livros de economia para o jovem Mauá e disparou: “a língua é o inglês”.

Inimigos Construídos

Com Osama bin Laden a história se repete. Criação norte-americana para insuflar os guerrilheiros contra as tropas russas que haviam invadido o Afeganistão (1979-89). Agora que a coisa fugiu ao controle, o que George Bush filho disse na época que resolveu invadir o mesmo Afeganistão? “É a luta do Bem contra o Mal...” Novamente o discurso fundamentalista. Mas o fundamentalismo que aparece é o do Talibã, sempre seguindo aquela receita de bolo do estereótipo do déspota oriental. (imagem ao lado, Osama, uma figura que deve ser mantida viva a qualquer custo para justificar a militarização do discurso norte-americano)

Por que imagens do ataque dos terroristas puderam ser mostradas ad nauseum, mas as imagens dos ataques ao Afeganistão são sistematicamente censuradas? Como pode ser que as transmissões da guerra do golfo nunca mostraram destruição ou mortos de ambos os lados? Mas... A mídia ocidental não é um exemplo de idoneidade para o mundo? O direito à informação não foi sempre uma bandeira do assim chamado “mundo livre” (como o Ocidente gosta de se auto-proclamar)?

E, por falar em impérios, segundo Walt Disney, o império feudal e absolutista da Rússia do Czar Nicolau era melhor ou mais legítimo que o regime comunista. Esta distorção da realidade deve dar calafrios em qualquer professor de história. E aqui não vai nenhuma defesa da ditadura na qual degringolou o regime comunista soviético. É só dar uma olhada no desenho animado Anastácia. A mensagem é que o regime pusilânime da casa dos Romanov era democrático, doce, limpo e angelical como na estória da gata borralheira!

Emissoras que Não se Vedem? Existe Isso?

Como lembrou Silio Boccanera, na guerra a primeira vítima é a verdade. O governo dos Estados Unidos reclamou, dizendo que a rede de tv do Qatar, Al Jazeera, fazia propaganda anti-norte-americana ao transmitir pronunciamentos de Osama direto do Afeganistão. Fato: grandes redes de tv norte-americanas perderam muito, cerca de 350 milhões de dólares, ao não transmitirem propagandas na cobertura do ataque terrorista ao World Trade Center. A CNN passou seis dias sem propagandas – por motivos... humanitários. Como se o Pentágono não manipulasse as informações ao enfatizar as imagens dos pacotes de ajuda humanitária lançados aos refugiados afegãos (1).

Quem vê os combates? Não se trata de morbidez, a questão é quem é que vai dizer quem venceu? Notícias de baixas? Só do lado do Talibã. Helicóptero norte-americano abatido? Foi pane, problemas técnicos... O governo norte-americano considera que a Al-Jazeera está servindo como suporte para as idéias de bin Laden. O então Secretário de Estado, Collin Powell, disse... “somos a favor de liberdade de imprensa, mas pensamos que ela não pode servir como suporte para disseminar idéias terroristas. Osama bin Laden não pode usar a mídia para difundir suas idéias” (2).

A Al-Jazeera transmitiu uma gravação do porta-voz da Al-Qaeda, Suleiman Abou-Gheith, na qual repete as palavras do líder bin Laden dizendo que a América não terá paz enquanto os muçulmanos não tiverem. O irônico é que Powell e o então Primeiro Ministro britânico Tony Blair concederam entrevistas à Al-Jazeera, e outros líderes norte-americanos também tentaram o mesmo. O que está parecendo é que a emissora árabe está sendo porta voz de todo mundo e o governo norte-americano está querendo c e n s u r a r, em nome de seus próprios interesses. Mas... não era a América (do norte) o bastião da liberdade de imprensa?

Jornalismo?

Richard Reeves considerou ruim o comportamento da imprensa no que diz respeito à cobertura do conflito no Afeganistão, após os atentados de 11 de setembro de 2001. Segundo ele, o jornalismo televisivo acabou. Portanto, a polêmica em torno da autocensura das emissoras norte-americanas quanto a manter uma superficialidade em torno das notícias da guerra não fez a menor diferença. Aqueles que operam as câmeras são mais importantes que os jornalistas, já que cada vez mais a imagem é tudo. Segundo Reeves, o número de bons profissionais na tv norte-americana vem diminuindo gradativamente. Afirmou que jamais confiaria numa informação passada pela tv sem checar. Segue dizendo que a imprensa norte-americana é responsável pela onda de desinformação, já que nos últimos dez anos os jornais norte-americanos removeram 80% dos correspondentes no Oriente Médio. As empresas alegam que é muito caro manter jornalista num outro país até que compreenda a cultura.

Conclui-se, portanto, que ninguém ligava se o Paquistão (ditadura/país vizinho do Afeganistão e que os Estados Unidos buscaram como aliado) estava desenvolvendo armas nucleares nesses mesmos últimos dez anos. Ironiza a visão narcisista dos norte-americanos, como quem diz: “não ligamos, somos uma superpotência e ninguém vai nos atacar”. O que significa dizer que os norte-americanos não sabem nada sobre as ameaças que pairam sobre si. Segundo Reeves, o próprio ex-presidente Bill Clinton é culpado pela disseminação dessa postura narcisista. Por outro lado Reeves, para quem Bush é simplesmente alguém muito ignorante, não acredita que este presidente norte-americano tenha discernimento para saber das coisas o suficiente a ponto de conseguir mentir sobre elas para a imprensa (3). (imagens acima e abaixo, quando se trata da verdade dos fatos, onde fica a fronteira com o sensacionalismo?)

Quando a Verdade Não Dá Ibope

A mídia, com sua miopia, enfatizava os números de vítimas no atentado, deixando de lado uma infinidade de massacres que ocorrem a muito tempo. Muitas guerras são desconhecidas porque simplesmente estão fora do noticiário. Quando acontece de algum desses países “desconhecidos” revidarem agressões das grandes potências em seu próprio território, como foi o caso dos atentados no World Trade Center, as pessoas incrédulas começam a engrossar o coro daqueles que vão classificá-los de loucos, que atacaram sem motivos... Alguns dados: Desde 1975, e durante os 26 anos seguintes, acontecia uma guerra civil em Angola. O país está todo destruído, economicamente falido e entupido de minas terrestres, mutilando milhares a cada ano. Mais de um milhão de pessoas morreram. Outro conflito se deu entre duas ex-repúblicas soviéticas, Azerbaijão e Armênia. Matou mais de 30 mil, com dezenas de milhares de refugiados. O Sri Lanka, antigo Ceilão, está numa guerra civil que se arrasta e mais de 64 mil já morreram desde 1983 (4). Temos que admitir, nós brasileiros, que sabemos sim dos nossos milhões de excluídos, a quem é negada cidadania.

Temos que admitir saber que morrem de fome. Deveremos admitir nossa omissão, quando finalmente se voltarem contra nós. Temos de admitir que não vai dar para chamá-los de fanáticos ou radicais quando... Numa sociedade de consumo, onde a cidadania é medida pela possibilidade que temos de fazer compras, a tv é um agente do consumo. Como disse Joan Ferrés...

“A televisão nega a realidade quando a reduz a estereótipos. Os estereótipos falsificam a realidade porque a simplificam ou a deformam, com base em condicionamentos culturais derivados sempre de um jogo de interesses explícitos ou implícitos”(...)”O jornal USA Today demonstrou a visão falsificada da realidade que é oferecida pela televisão americana por meio da análise exaustiva de 94 shows exibidos durante uma semana em 1993, na faixa horária de máxima audiência, pelas quatro grandes redes do país, ABC, CBS, NBC e FOX”.(...)” O protótipo do americano mostrado pela televisão nunca assiste à televisão, faz as refeições sempre fora de casa, nunca lê, não entra em supermercados e explica uma piada sobre sexo a cada quatro minutos” (...) “Dentro desse contexto não pode surpreender a expressão de Umberto Eco: ‘Símbolo é tudo aquilo que serve para mentir’. A linguagem como sistema para mascarar a realidade e não para revelá-la”(...)”A imagem não demonstra ser não uma janela aberta para o mundo, mas uma tela entre o espectador e o mundo, um filtro para o mascaramento da realidade, um obstáculo para uma comunicação transparente. Usando uma expressão de Jean Baudrillard, quando aparentemente mais nos aproximamos da realidade - por intermédio de uma imagem em movimento, a cores, sonora e instantânea – mas nos afastamos dela. E ocorre que ‘atualmente o escândalo já não está mais no atentado aos valores morais e sim no atentado contra o princípio de realidade” (5)

Mas talvez não exista motivo para preocupação. Afinal... A televisão é só um eletrodoméstico! (ao lado, o ex-presidente norte-americano George W. Bush em visita a centro de reabilitação para seus soldados vitimados no campo de batalha, 2007)

“Nenhum vento sopra
a favor de quem
não sabe para onde ir”

Sêneca




Notas:

Leia também:

A Cultura da Arma na América do Norte (I), (II), (III), (IV), (V), (final)

Isto é Holyywood!

O Cinema e o Passado: O Caso do III Reich (I), (II), (final)

1. BOCCANERA, Silio. Tv’s amargam perdas e danos da guerra. Globo News. 09/10/2001. Disponível em: http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos/asp1710200199.htm Acessado em: 05/09/2009.
2. EUA acusam al-Jazeera de colaborar com o Talibã. 10/10/2001 - 20h43m - GloboNews.com Fonte: Reuters. Disponível em:
http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos/asp1710200198.htm Acessado em: 05/09/2009.
3. FOLHA DE SÃO PAULO, folha online, da sucursal Nova York. Jornalismo na tv acabou, diz especialista. 11/10/2001. Disponível em:
http://www1.folha.uol.com.br/folha/mundo/ult94u31096.shtml Acessado em: 05/09/2009.
4. CIMENTI, Carolina. Guerras do terceiro mundo não têm audiência. Redação Terra, informações da Reuters. 02/10/2001. Disponível em:
http://br.groups.yahoo.com/group/ciencialist/message/11575 Acessado em: 05/09/2009.
5. FERRÉS, Joan. Televisão e Educação. Tradução de Beatriz Affonso Neves. Porto Alegre: Artes Médicas, 1996. Pp. 50-51. Citação de Baudrillard em, La guerra del Golfo no há tenido lugar. Barcelona: Anagrama, 1991. Pp. 48 e 86-87.

Fontes das imagens:

Viral Politics
David Leeson
Yraceme
Pasta abu-graib/ (imagem 32e)
Encyclopedia Britanica Blog
Propaganda Matrix
Poor Mojo Newswire

7 de dez. de 2008

A Cultura da Arma na América do Norte (final)





“Nos E
stados Unidos [em 1994 existiam] mais
de 140,000 revendas autorizad
as de armas de fogo. Existem menos livrarias e escolas do que lojas
de armas, uma situação que teria chocado o morador mais durão
da antiga fronteira Americana”

Michael Bellesiles (1)





Um País de “?º” Mundo

Em 24 de março de 1998, Andrew Golden (11 anos) e Mitchell Johnson (13 anos) ligaram o alarme de incêndio da escola em Jonesboro, Arkansas. Enquanto todas as crianças se apressavam em sair do prédio, eles dispararam suas armas de fogo (três rifles e 7 pistolas) sobre elas. Em menos de quatro minutos, com vinte e dois tiros disparados, eles mataram quatro alunas e uma professora, ferindo mais onze crianças. Em 6 de abril, as revistas Time e Newsweek se faziam as mesmas perguntas de sempre (que repetiriam um ano depois, em 20 de abril de 1999, por ocasião de outro massacre na escola, desta vez em Columbine, Colorado):

“Como chegamos lá? Como os Estados Unidos chegaram a um ponto em que crianças atiram e matam? Como chegamos a uma cultura onde o Papai Noel dá uma espingarda de natal para uma criança de seis anos? De natal?” (2)

Com seis anos de idade, os pais de Andrew presentearam a criança com uma espingarda. Aos três anos, ele já posava para fotografias com uniformes camuflados e armas mortais (imagem acima). Ele e Mitchell cresceram com as armas de fogo e com Deus. Mitchell era ativo em sua igreja e impressionava os adultos por sua religiosidade. Um alto nível de violência pessoal separa os Estados Unidos das outras nações industrializadas. Níveis semelhantes de violência interpessoal, somente em países em guerra civil ou caos social (3) (como o Brasil?).

Os jornais estão cheios de histórias de tiros por motivos fúteis (como no Brasil?), como o caso do trabalhador de Michigan que atirou no amigo porque este pegou um de seus biscoitos sem pedir. Nos Estados Unidos, os médicos militares treinam em hospitais civis para ganhar experiência, dada a quantidade de ferimentos com armas letais (como no Brasil? A única diferença neste caso é que o exercito brasileiro não tem guerras para ir). Tornou-se comum nos Estados Unidos a colocação de detectores de metal na entrada das escolas, na busca por revólveres e facas (como no Brasil?). (imagem acima, video game Crackdown)

A cultura da arma nos Estados Unidos se traduz no “amor e afeto” (4) com que a sociedade vê suas armas. A mídia reforça a noção de que a solução de seus problemas cabe na sua mão. Vídeo games tornam acessível para qualquer criança um simulador de matanças, que irá treiná-lo a atirar sem a menor hesitação. Toda uma geração está sendo condicionada a matar. Nos Estados Unidos você não precisa registrar sua arma, por esta razão ninguém sabe quantas existem no país. O FBI estima em 250 milhões de armas de fogo em mãos de particulares, e 5 milhões são compradas a cada ano (5).

Somos Todos Civilizados Aqui no 1º Mundo...

“Em uma sociedade orgulhosa de suas contribuições à liberdade humana, a arma se tornou o ícone de uma civilização selvagem”

Michael Bellesiles (6)

Aquele país se resignou a acreditar que essa violência é imutável, fruto de seu passado de guerras com outros países, ou entre eles, e com os índios. A “necessidade da violência” na fronteira selvagem dos primeiros tempos da colonização vem da fé de que “a regeneração vem através da violência”. A conclusão: os norte-americanos sempre foram assassinos. Essa herança hobbesiana de cada um contra todos está na base da aceitação da freqüente violência nos Estados Unidos. Portanto, e convenientemente, nada poderia ser feito para alterar a cultura da arma na América do Norte...

Na verdade, uma análise mais profunda mostra que a posse de armas de fogo sempre fora algo incomum do século 17 ao começo do 19, mesmo na fronteira selvagem do oeste. Elas só começaram a se tornar uma mercadoria comum com a industrialização do país em meados do século 19, mesmo assim com uma concentração nas áreas urbanas. “A cultura da arma cresceu com a indústria da arma”. Desde o principio, o governo norte-americano trabalhou para armar seus cidadãos (7).

Sempre a Prostitu... A Propaganda

Nesta cultura da arma norte-americana, as revistas de armas estão longe de fornecer artigos críticos em relação a elas. Ao contrário das revistas sobre automóveis, onde se podem encontrar criticas a indústria automobilística ou aos modelos de novos carros, nas revistas sobre armas de fogo nunca se encontra uma palavra sequer contra qualquer arma ou fabricante. Todas as armas de fogo (norte-americanas) são ótimas e maravilhosas. A única voz que pode criticar alguma arma nessas revistas vem dos representantes das marcas, que criticam umas as outras para convencer o cliente que o seu produto é melhor. Na edição da revista Guns & Ammo de dezembro de 1998, uma propaganda mostrava Papai Noel camuflado e com rifles saindo do saco, ele colocava pistolas e munição numa arvore de natal enquanto uma menininha sorri para ele.

Mesmo assim, os defensores da posse de armas de fogo pela população sentem-se acuados pelo que eles chamam de “liberais fanáticos” que querem desarmar todo mundo e até a polícia. Neste mesmo ano, um defensor das armas de fogo afirmou que criar leis não é a maneira correta de resolver a questão. A solução é mudar a Constituição, que em sua 2ª Emenda decreta o direito de qualquer cidadão norte-americano possuir armas de fogo sem licenças, permissões ou taxas.

Charlton Heston, famoso ator de Hollywood (imagem abaixo), ex-presidente da Associação Nacional do Rifle (National rifle Association, NRA), coloca a culpa na mídia. Segundo ele, a obsessiva repetição de uma programação televisiva e cinematográfica cheia de brutalidade, terror e sangue, é o que na verdade alimenta a violência que a própria mídia noticia e publica. Heston tinha um ponto de vista um tanto monolítico, mas deve-se admitir que só nos Estados Unidos possam existir calendários de mulheres belas e gostosas com biquínis e armas de fogo (8).

Somos Todos Assassinos?







“Nada na história é imutável”

Michael Bellesiles (9)






As armas de fogo são centrais para a identidade dos norte-americanos. Da programação de televisão à novela, dos romances baratos à literatura da elite, as armas são empregadas para relacionar o essencial do caráter norte-americano: impaciência, franqueza, barulhento, independente e sujeito a explosões de brutalidade. Os sinais dessa cultura da arma estão em toda parte, nas letras de música, nos jornais, pôsteres de filmes, capas de livros e cd’s, saídas de emergência e blocos de papel da polícia. Alguns Estados norte-americanos aprovaram projetos proibindo seus cidadãos de processar a indústria de armas. Nenhum outro fabricante recebe tal proteção estatal.

As pesquisas sobre ferimentos a bala são sistematicamente boicotadas nos Estados Unidos. O Estado de Washington estava tão preocupado com as evidências estatísticas de que a posse de armas de fogo aumenta a probabilidade de alguém levar um tiro, que colocou os arquivos policiais fora dos limites dos estudiosos (“policiólogos”?) e epidemiologistas (como no Brasil?). “A arma deve ser protegida da pesquisa” (10).

Michael Bellesiles defende a hipótese de que toda essa “história” da necessidade da arma desde sempre (incluindo a pré-história) é uma construção. Trata-se de uma tradição inventada. Uma leitura da história do passado a partir dos interesses do presente (como no Brasil?). Os Estados Unidos não foram sempre voltados para uma cultura da arma. A coisa não “foi sempre assim”. Foi após a Guerra Civil Americana que surgiu essa noção de que um povo bem armado sustentaria o sonho americano. A partir desse preciso momento, surgiu uma cultura da arma. Bellesiles afirma que se trilhou um longo caminho desde uma sociedade indiferente às armas de fogo (que só tinha preocupações religiosas e liberais) até a total aceitação delas (11).

Notas:

1. BELLESILES, Michael A. Arming America. The Origins of a National Gun Culture. New York: Alfred A. Knopf, 2000. P. 14.
2. Idem, p. 4.
3. Ibidem.
4. Ibidem.
5. Dados de 1992.
6. BELLESILES, Michael A. Op. Cit., p. 15.
7. Idem, p. 5.
8. Ibidem, p. 7.
9. Ibidem, p. 16.
10. Ibidem, p. 9.
11. Ibidem, pp. 9-16.

5 de dez. de 2008

A Cultura da Arma na América do Norte (IV)

“Abençoados os pacificadores; pois eles
serão chamados as crianças de Deus”

Mateus 5:9

Nada Como Uma Guerra Para Aquecer as Vendas

Com o fim da Guerra Civil Americana, não houve um desarmamento das tropas desmobilizadas. Assim, todo o armamento foi levado para casa com os ex-soldados. A unificação do país pela guerra mostrou que a arma de fogo foi o verdadeiro ícone da União. Foram as armas que resolveram o problema da escravidão dos negros e da desunião do país. “Ninguém deve se enganar sobre o significado das armas para vencer a guerra pela liberdade nos Estados Unidos” (1).

Num primeiro momento, o excesso de armas nas mãos da população criou um problema para as fábricas. Elas que haviam enriquecido durante a guerra civil, agora estavam à beira da falência. As companhias que conseguiram atravessar este problema prosperaram e agora a América do Norte começa exportar armas de fogo.


Mas a produção de armas de fogo não é em si mesma suficiente para criar uma cultura da arma. Se assim fosse, a Inglaterra teria desenvolvido esse tipo de cultura bem antes. É necessário existir uma convicção, sustentada pelo governo, de que a posse de armas serve a um propósito social maior. Por exemplo, de que elas preservam a liberdade da nação ou a segurança da família. Os anúncios de todas as fabricantes de armas jogavam com estes dois temas, e com o incentivo de baixos preços (2). Em 1863, ainda durante a guerra civil, um acontecimento mostrou que a relação das pessoas com as armas estava mudando. Pela primeira vez na história daquele país, a polícia atirou numa multidão de trabalhadores manifestantes irlandeses que estavam depredando os escritórios de alistamento militar em Nova York. A multidão depredou também bairros negros e por fim sacou suas próprias armas e atirou de volta na polícia.

A guerra civil inspirou muitas carreiras criminosas depois que o conflito terminou. A taxa de crimes começa a aumentar nas cidades, enquanto muito da violência atribuída ao “velho oeste” não passava de mito. Mesmo quando o assunto era direitos constitucionais da população, grupos de pessoas eram capazes de fazer valer seus interesses pela força das armas. Em 1866, os Republicanos da Louisiana, supostamente apoiados pelo próprio governo Federal, reuniram-se com a intenção de escrever uma constituição dando direitos civis aos negros. Brancos enfurecidos, liderados pela polícia, atacaram o prédio e a população. Trinta e oito pessoas morreram e cento e cinqüenta ficaram feridos. Nada como isso havia ocorrido no país antes (3).

A Propaganda é a Alma do Negócio

O custo das armas de fogo começa a baixar e elas se tornam o equipamento padrão para assassinos e suicidas nos Estados Unidos. Em 1879 uma revista religiosa oferece uma pistola para cada assinatura. A oferta foi muito popular, apenas quatro pessoas reclamaram dessa relação entre religião e armas. Muitas assinaturas foram de sacerdotes. Durante boa parte do século 19, a melhor propaganda era comparar as armas produzidas por sua fábrica com os modelos ingleses. Mas a maioria dos fabricantes manipulava o medo de uma sociedade pesadamente armada. Era a idéia da proteção individual.

Em 1870, todos tinham medo de mendigos e vagabundos. Existia a convicção de que milhares deles espalhavam-se pelo país pensando apenas em assassinato. Foi lançado um revólver que cabia no bolso exatamente para esse tipo de defesa. A propaganda dizia que, mendigos, ladrões e assaltantes infestam todas as partes do país. Mas a solução era óbvia: “Todo mundo deveria se armar”. O medo se tornou o perigo e as pessoas começaram a se armar. Tiros acidentais se tornaram comuns e discussões familiares muitas vezes acabavam em fatalidades. Sem esquecer as balas perdidas.

Na mesma época, era muito bem aceita a frase que dizia que “Deus criou os homens; Coronel Colt os tornou iguais”. A crença de que dois homens armados eram iguais, na verdade, acabou criando problemas para a igualdade na América do Norte pós-guerra civil. Com a liberdade. Os negros também começaram a se armar como símbolo de sua autoridade recém conquistada. Começam a se forma milícias armadas, legais e ilegais, por todo o país. A mais famosa entre as ilegais talvez seja a milícia racista chamada Ku Klux Klan.

O fabricante de armas Samuel Colt referia-se a elas como os “pacificadores”. Em 1861, o reverendo T. C. Browell foi assaltado. No dia seguinte Colt escreveu uma carta e mandou uma cópia para a imprensa: “tomei a liberdade de mandar uma cópia do meu último trabalho em ‘Reforma Moral’, acreditando que, na hipótese de outros saques serem tentados, os perpetradores possam sentir um efeito da influência moral de meu trabalho”. Junto com a carta, Colt mandou um revólver. Em 1872, depois de sua morte, sua companhia cria um revólver chamado “O Pacificador”. A visão de Colt triunfou, naquele ano armas de fogo estavam por todo lado na América do Norte (4). *

Notas:

* As partes I a III deste artigo se encontram no arquivo de novembro de 2008.

1. BELLESILES, Michael A. Arming America. The Origins of a National Gun Culture. New York: Alfred A. Knopf, 2000. P. 431
2. Idem, p. 432.
3. Ibidem, p. 435-6
4. Ibidem, p. 430.

31 de ago. de 2008

Marketing e Ética? (I)


“Uma escola que não ensina como assistir
à televisão é uma escola que não educa”

Joan Ferrés

Televisão e Educação



Tentando Ser Otimista

Na sociedade capitalista contemporânea, temos a tomada de consciência a respeito de um fator do sistema de produção que até meados do século passado era considerado secundário: a questão das estratégias de divulgação dos produtos. Após a Segunda Guerra Mundial houve uma mudança radical nesta área. Estamos falando de Marketing.

Basta olharmos em nossa volta. Outdoors, panfletos, anúncios em jornal, revistas e na televisão, carros nas ruas espalhando suas mensagens em auto-falantes. Os carros de Fórmula I e seus pilotos parecem outdoors ambulantes – e os próprios autódromos. Quem não se lembra do carro de Emerson Fittipaldi? Ele não era preto, era da cor da marca de cigarros que patrocinava nosso campeão.

Caso particular seriam as peças de vestuário. O Jeans, em função do sucesso de vendas, tornou-se tão conhecido que não precisa mais ostentar o nome do produto na cintura – agora são as etiquetas que procuram ser vistas nos jeans.

Na sociedade capitalista, quem não anuncia não vende. A propaganda torna-se um instrumento tão poderoso quanto as linhas de produção. O logotipo da Wolkswagen bastava ao fusca – ele não precisa ostentar o próprio nome. Na verdade, o fusca é outro caso como o do jeans, o nome do produto suplantou o logotipo da fábrica – então o fusca é que passou a fazer propaganda da Wolkswagen, quando antes era o oposto. No mundo automobilístico os exemplos são inúmeros. Quem não conhece os Mercedes da Mercedes Benz, os Rolls Royce da Rolls Royce, os BMW da BMW?


Outro exemplo perfeito de marketing utilizando especificamente logotipos são os selos postais ingleses. Desde sempre, este país nunca colocou seu nome nos selos. Todo selo inglês pode ser identificado pelo fato de ostentar a efígie de um de seus reis ou rainhas.

O marketing procura, através das pesquisas de mercado, de políticas de produção, distribuição e divulgação, atingir o máximo de rentabilidade para seu produto. Acabou tomando conta da vida cotidiana quando ampliou seus horizontes para abranger aquelas áreas que não visam lucros (instituições, privadas ou não, como igrejas, partidos políticos e as forças armadas).

A diferença é que adotar uma estratégia de marketing é ter um objetivo mercadológico. Trata-se de um procedimento intencional, sistemático e com expectativa de resultados previsíveis. No marketing, tudo gira em torno da busca de equilíbrio na relação entre a demanda do mercado e o produto oferecido: opera na busca de nichos onde a demanda não está sendo satisfeita, e sua satisfação com o mínimo de gastos possível.


É sempre muito conveniente
que todos aqueles que servem
ao capital de uma maneira tão despudorada sejam chamados
de "criativos" e comemorados




Para tanto o mercado, via campanhas publicitárias, propõe uma união ética e estética entre o produto e o consumidor. Os críticos do marketing o têm como instrumento de alienação. Sugerem que, com suas propagandas, não busca nichos, ele os produz! E, ao produzi-los, transfere as pessoas (o público alvo, o consumidor) para fora da realidade – um mundo de ficção onde tudo se resolve na compra do produto… Mas o consumidor é tão passivo? Se o anunciante tomar o consumidor mais como um parceiro numa transação do que como uma vítima dela, o marketing pode tornar-se ainda mais presente nas vidas das pessoas (que não são apenas público alvo ou consumidores), sem carregar o estigma de instrumento de alienação.


De fato, em nossa sociedade, quem não anuncia não vende! Mas isso não quer dizer que vale tudo. Marketing é uma coisa, mentira é outra.

Tentando ser otimista, o projeto de marketing que continuar tomando o consumidor como “aquilo” que está aí para ser manipulado está fadado ao fracasso. Pode até triunfar em termos de lucro financeiro, mas fracassará em termos de valorização do ser humano. Fracassando aí, contribuirá para tornar a sociedade menos inteligente, menos interessante, menos produtiva – a mesma sociedade da qual ele depende para sobreviver a longo prazo. Eu diria que é o famoso “tiro no pé”!

O que assistimos com o marketing é a introdução no capitalismo da relação entre o produto e sua imagem. É uma relação mágica que se estabelece entre o consumidor e o produto. Aqueles críticos de que falei a pouco propõem que, pelo bombardeio da mídia, a tendência é de substituição do mundo real pelo mundo ficcional da propaganda e que isto seria alienante. É neste ponto que esses críticos se encontram com os capitalistas selvagens que não sabem utilizar o marketing. Para ambos o consumidor é um ser boçal e passivo, pronto a agir de acordo com qualquer coisa que leia ou veja numa propaganda.

Não há como negar que o marketing é formador de opinião. Entretanto, saber se o consumidor muda seu modo de viver em função de uma propaganda qualquer e por isso ela é alienante ou se ele mudou porque ia mesmo mudar, além de ser uma discussão infrutífera sugere uma posição conservadora em relação às teorias de mudança cultural… Mas qual seria a saída, como abandonar esse comportamento de rebanho em relação à propaganda? Como deixar de ser usado pela propaganda de empresas que investem mais nisso do que em seus próprios produtos? Como nos convencemos que a beleza depende de algo (um produto) que está fora de si e, portanto, tudo depende de poder aquisitivo?

Essa tirania do mercado parece dominar nossas vidas tão profundamente que não nos damos mais conta dela. Num ponto pelo menos Jean Baudrillard tem razão, os “fluxos simbólicos” dos quais dependemos para dar sentido ao mundo e a nós mesmos estão cada vez mais longe de uma real satisfação de nossos desejos íntimos. Até porque, confundimos cada vez mais nossos desejos com os interesses do mercado. As propagandas parecem já estar em nossas mentes mesmo que não as vejamos...

Sabemos, portanto, como resolver isso, temos que mergulhar em nós mesmos. Ainda assim, resta uma questão. Devemos permitir que nossas mentes continuamente sejam assaltadas pela propaganda? Será que basta não olhar mais os anúncios? Quantas vezes você mudou de canal e as mensagens eram as mesmas (tanto dos anúncios quanto das programações)? Será que apenas pedindo às agências de propaganda que parem de dizer mentiras sobre o mundo e o corpo elas vão nos obedecer? Será que os publicitários vão abandonar seus empregos (que eles acham muito criativos) só porque o público resolveu questionar a necessidade da existência deles? Se ninguém vai nos dar nossas vidas e mentes de volta pela própria vontade, como romper nossa passividade e voltar a ter vontade própria?

A sociedade está tão comprometida com o mercado que qualquer proposta ou tentativa de questionar o discurso publicitário é vista como guerrilha contra o capital. E o capital não suporta que lhe digam o que fazer.

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