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Roberto Acioli de Oliveira

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15 de jan. de 2009

Bullying


O Hábito de Zombar e a Patologia Social

Atitudes de chacota, piadinhas e agressões entre pessoas, sejam crianças ou adultos: quando alguém, ou um grupo, ataca moralmente outra pessoa ou grupo com freqüência. Acredito que tal comportamento poderia ser resumido pela frase: desprezar o semelhante é preciso, pensar/sentir não é preciso!

O hábito de zombar dos outros, seja por que motivo for, está se alastrando pela sociedade. Quando se fala de bullying, geralmente se comenta sobre crianças e adolescentes em sala de aula que adotam uma posição arrogante em relação a outras – porque alguém é alto demais, ou baixo demais, ou gordo, ou magro, ou estudioso, ou porque não estuda, ou pela religião, ou racial, ou financeiro etc, etc, etc. Enfim, porque é diferente, e atacar o diferente é preciso! Mas quando isso chega ao comportamento de pessoas adultas a coisa muda de figura. Justamente daqueles que se espera que tenham superado sua fase adolescente, é de onde cada vez mais afloram condutas absolutamente infantis (intolerantes) em relação à vida alheia e à diferença.

Parece que algumas pessoas sentem prazer em fazer tortura psicológica em outras pessoas. Uma tortura que “parece” uma brincadeira. “Estamos apenas zoando fulano”, diriam os praticantes desta distorção de comportamento. Entretanto, entre a gozação e o bullying existe certa distância. Isso não é gozação, é pura intolerância. É como se utilizássemos a pata de um elefante para esmagar uma formiga. É uma atitude desproporcional, essa seria a diferença entre a gozação e o bullying. É a banalização da violência. Será que ela pode ser um dos efeitos colaterais da banalização da vida nos tempos atuais?

A Mé(r)dia da Mídia e o Bullying


Mas qual poderia ser a relação da mídia com tudo isso? Na verdade, aqui e ali (sem citar nomes), podemos assistir a uma série de programas e reportagens jornalísticas na televisão aberta que (talvez) constituam bullying ou o estímulo a ele. Se nos lembrarmos daquilo que se chama de “vídeo cacetadas”, o que temos é a suposição de que vamos rir ao assistir pessoas, e até crianças e idosos, tropeçando e levando tombos que poderiam levar a pernas e braços, ou talvez uma coluna vertebral, quebrados. Portanto, a idéia parece ser “sentir prazer com a desgraça do outro”. A mídia acaba incentivando o bullying ao sugerir que isso é “engraçado”: se alguém levar um tombo na sua frente, a primeira atitude não é correr para ajudar, mas rir ou ficar indiferente. O bullying parece se caracterizar pelo desprezo ao semelhante: quando consideramos alguém como um objeto e não como um ser humano, tratá-lo como coisa fica mais fácil.

Não está longe dessa lógica a notícia de jornal que expõe ao ridículo todos aqueles assaltantes (via de regra pobres) que são apanhados (porque os ricos não são expostos ao ridículo). Eles são mostrados e são feitas perguntas a eles pelos jornalistas como se a tela da televisão fosse uma espécie de “tribunal-vitrine”. A primeira pergunta que se pode fazer é: por que humilhar um bandido na televisão? A resposta é simples: porque dá audiência. O que, exatamente, dá audiência? Assistir alguém ser espezinhado publicamente sem poder reagir. É como se a audiência dependesse do grau de covardia da situação.

A mídia acaba incentivando o bullying ao sugerir que isso é “engraçado” ou é a coisa certa a fazer: quando um grupo de pessoas na rua consegue pegar um ladrão, batem nele e xingam, ao invés de simplesmente entregá-lo a polícia. E naturalmente irão espezinhar alguém que tente defender o direito dos próprios linchadores de receber um pronto atendimento da polícia ao sugerir que fazer justiça com as próprias mãos é não ver que o poder público é totalmente omisso em relação à segurança pública. Desta forma, a horda de linchadores fará inclusive o trabalho sujo da segurança pública ao espezinhar também quem deseja apenas abrir seus olhos.

Uma malhação do Judas que dá audiência, esse tipo de abordagem acaba incentivando (porque funciona como modelo) um comportamento hostil entre as pessoas. Uma chacota que funciona como linchamento moral, podendo levar a reações fatais. Quem sabe, muitos dos homicídios e chacinas sem causa aparente ou classificadas como motivo fútil tenham como origem esse tipo de comportamento, levando a vítima (que acaba transformada em algoz), psicologicamente despreparada, a reagir na única linguagem que conhecem aquelas pessoas que não sabem dialogar – ou que só dialogam para fazer fofoca sobre a vida alheia: por causa de uma chacota fruto de uma fofoca, destroem-se vidas.

A mídia patrocina uma patologia social em nome do lucro fácil. Noticiar a violência não pode se igualar a ela, da mesma forma como a polícia não pode agir com a irresponsabilidade social dos bandidos. Caso contrário, não se saberá mais quem é quem! É como uma pedagogia do ódio. E o que é pior, um ódio mútuo travestido de “brincadeira” e fofoca. Tudo isso, com o consentimento das emissoras de rádio e televisão que veiculam esse tipo de programação. Apesar de todas serem concessões públicas, insistem em pensar apenas no próprio lucro. E o poder público, que deveria disciplinar a situação, mais uma vez é o primeiro a se omitir.

É curiosa a desproporção entre a atenção absurda que a mídia comercial dá a dramas sociais do tipo em que se fazem reféns e a nenhuma cobertura que se dá a casos de suicídio. Por que se noticiam os primeiros à exaustão enquanto nunca vemos nada sobre o segundo? Será que as pessoas não se suicidam? Não devemos mostrar aquilo que acontece na sociedade?

De fato, esta é a questão, existem “formas e formas” de dizer alguma coisa ou de mostrar um fato. Não pretendo “ensinar o padre a rezar missa”, suponho que os profissionais da mídia têm capacidade de perceber os desdobramentos de seus atos e modificá-los caso desejem. Algum deles irá desejar perder audiência só para avisar aos telespectadores que se as coisas continuarem assim todos nós vamos nos transformar em monstros?

31 de ago. de 2008

Marketing e Ética? (final)


“Um sistema democrático de educação (…) é um
dos meios mais seguros de criar e ampliar enormemente
os mercados para bens de todos os tipos e especialmente aqueles bens em que a moda
tem importância.

ex-publicitário James Rorty
Our Master’s Voice, 1934



Culture Jamming

Em seu livro, Sem Logo. A Tirania das Marcas em um Planeta Vendido, Naomi Klein nos fala de uma prática crescente nos Estados Unidos, Canadá e Europa, mas certamente está longe (bem longe) de ocorrer aqui no Brasil.

Culture Jamming é o nome que se dá à prática de parodiar peças publicitárias e utilizar os outdoors adulterando e alterando suas mensagens de forma drástica. Considerado um dos maiores expoentes nessa prática, o americano Rodriguez de Gerada prefere a expressão “arte do cidadão”, e não “arte de guerrilha”. Ao contrário dos publicitários, afirma Rodriguez, esse trabalho implica uma discussão quanto às políticas de espaço público na comunidade em que for colocado. (todas as imagens deste artigo são exemplos de jamming)

Os adbursters (ou subverting, subversão da publicidade, como são chamados em Londres) acreditam que o público tem o direito de responder às imagens que nunca pediram para ver. O termo culture jamming foi cunhado em 1984 pela banda americana de audiocolagem Negativeland. Mas a questão vai muito mais longe, “tentar apontar as raízes da culture jamming é quase impossível, em grande parte porque a prática é em si mesma uma mistura de grafite, arte moderna, filosofia punk faça-você-mesmo e molecagem antiqüíssima” (1).

Robin-hoodismo semiótico, é disso que parece se tratar aqui, sugere Naomi. Seus militantes não acreditam mais que o espaço livre de propaganda pode ser conseguido pacificamente. “A culture jamming rejeita frontalmente a idéia de que o marketing – porque compra sua entrada em nossos espaços públicos – deve ser aceito passivamente como um fluxo de informação unilateral” (2).

Radicalizar a verdade na publicidade, produzir contra mensagens que interferem com a comunicação do anunciante para revelar a verdade mais profunda oculta nos eufemismos publicitários. Seus trabalhos vão de paródias de propagandas à interseções no outdoor original. (imagem acima, intervenção em outdoor da marca de equipamento eletrônico Sony que diz: não há nada real na televisão)

(...)A única ideologia que une o espectro de culture jamming é
a crença de que a livre expressão

não tem sentido se a cacofonia comercial aumentou ao ponto de ninguém mais lhe ouvir (...)

Naomi Klein (3)


Pensemos aqui na questão central deste livro. Lembrem-se da patética superexposição do nu feminino na propaganda, nos filmes, nas novelas… Não se trata de menosprezar a nudez. Também não se trata de pura e nefasta tentativa de diminuir as mulheres que acreditam numa busca da beleza ideal. Entretanto, temos que admitir que fomos tão intoxicados com a avalanche da mesma representação do mesmo ideal de beleza, que estamos nos tornando insensíveis ao fato de que se tratam de representações e não da realidade viva dos corpos. Na crença de que este ideal é um produto à venda no mercado, nem cogitamos mais na hipótese de que beleza talvez seja um estado de espírito. Estamos narcotizados com esta “cacofonia comercial” que diz que a beleza pode ser comprada!

A reação a essa cacofonia comercial levou a culture jamming a se espalhar em redes de organizações coletivistas de mídia. Descentralizadas e anárquicas, combinam a subversão da publicidade com a publicação de zines, rádios piratas, vídeos ativistas, desenvolvimentos na internet (o que inclui hackers ou crackers invadindo sites de grandes corporações) e militância comunitária (4). Vejamos um exemplo. Trata-se da questão do cigarro, mas imaginem quanto resta a ser feito em relação ao machismo presente na propaganda que utiliza o nu feminino? (imagem ao lado, o tenista norte-americano Tiger Woods, patrocionado pela marca Nike, tem sua boca deformada para se assemelhar ao logotipo e sugerir que ele não pode ter opinião própria; na imagem acima, ilustração de uma opinião mais radical a respeito da influência da Nike no cenário esportivo)

“Uma culture jam bem divulgada surgiu no outono americano de 1997 quando o lobby anti-tabaco de Nova York comprou centenas de placas publicitárias de táxis para apregoar as marcas de cigarro ‘Lodo da Virgínia’ (Virginia Slime) e ‘País do Câncer’. Em toda Manhattan, quando os táxis amarelos ficavam presos nos engarrafamentos, as propagandas jammed se acotovelavam com as das empresas de cigarros”. (5)

Agora os correligionários dessa prática dividem-se entre aqueles que dão boas vindas aos avanços tecnológicos em informática (que permitem uma interferência sem mudança do padrão de cores utilizado pelos publicitários que criaram o original, fazendo com que pareça ter sido feita por estes) e os apreciadores das tecnologias já existentes. No primeiro grupo, encontramos gente como Rodriguez de Gerada. No segundo, temos um exemplo que vem do Canadá e deveria interessar às mulheres, por atacar a questão da indústria da moda.

“O artista performático de Toronto Jubal Brown espalhou o vírus visual na maior blitz de adulteração de outdoors do Canadá com nada mais que um marcador. Ele ensinou aos amigos como distorcer as já encovadas faces de modelos de moda usando um marcador para escurecer seus olhos e desenhar um zíper em suas bocas – pronto! Caveira instantânea. Para as mulheres jammers em particular, o ‘encaveiramento’ se ajusta muito bem com a teoria da ‘verdade na publicidade’: se a emancipação é o ideal de beleza, porque não ir até o fim com o zumbi chique – dar aos publicitários algumas modelos do além-túmulo? Para Brown, mais niilista que feminista, o encaveiramento era simplesmente um detournement para acentuar a pobreza cultural da vida patrocinada. (‘Compre, compre, compre! Morra, morra, morra! ‘, diz a declaração de Brown exposta em uma galeria de Toronto). No 1º de abril de 1997, dezenas de pessoas partiram em missões de encaveiramento, atacando centenas de outdooors nas ruas movimentadas de Toronto. Seu trabalho foi impresso em Adburters [o autodenominado boletim da cultura jamming; editado pela Media Foudation de Vancouver, entre outras coisas veicula anticomerciais em televisão acusando a indústria de beleza de causar distúrbios alimentares], ajudando a espalhar o encaveiramento a cidades por toda a América do Norte”. (6)

Resta a todos nós a esperança da ética – conceito empobrecido e desgastado nos dias atuais. A questão é ter a coragem de NÃO mentir. Mentir, isso sim, é apostar na alienação – o que é uma pena, pois o marketing deveria apostar em seus produtos. (imagem do lado esquerdo, adulteração de um outdoor de produto da rede de lanchonetes McDonalds pergunta porque alguém pode se tornar uma pessoa obesa)


O marketing é realmente uma peça importante na engrenagem da interação social e econômica, mas o consumidor também! O bom marketing… nunca deveria esquecer-se disso.

Notas:

1. KLEIN, Naomi. Sem Logo. A tirania das marcas em um planeta vendido. Tradução Ryta Vinagre. Rio de Janeiro: Record, 2002. P. 310.
2. Idem, p. 309.
3. Ibidem, p. 312.
4. Ibidem.
5. Ibidem, p. 313. Virgínia é um dos estados americanos.
6. Ibidem, p. 314.

26 de jan. de 2008

Sociedade Pedófila


Seria difícil acreditar que uma cultura como a ocidental não teria problemas com a questão das práticas sexuais. Sim, posto que exista uma dificuldade extrema em se discutir sobre sexualidade entre nós. Evidentemente a televisão, o cinema e a internet, nos oferecem cada vez mais sexo explícito. Porém, e este é o ponto, muito sexo (seja ele visto na tela ou praticado) não significa necessariamente maior compreensão em relação à própria sexualidade, e muito menos em relação à sexualidade como elemento de cultura.

Portanto, simplesmente censurar a programação da televisão, da internet ou do cinema, não surtiria efeito neste caso em particular - naturalmente, limites são bem vindos. Não estou sugerindo que a pornografia generalizada em torno da qual vivemos seja natural e sem maiores problemas. Insisto apenas em que reprimir simplesmente poderia redundar em aumento da incidência daquilo que se deseja evitar. Devemos reprimir a pedofilia, mas devemos também aprofundar a discussão a respeito da sexualidade humana. Uma sociedade que não discute o que é a sexualidade, não saberia definir as práticas que elegeu como lícitas, ilícitas, normais, anormais. O que é a sexualidade?

Em antropologia, é famosa a discussão do francês Claude Lévi-Strauss. Em seu livro, As Formas Elementares do Parentesco (1949), mostra como a proibição do incesto é uma chave para entender a formação da cultura humana. Ou seja, um pai não pode manter relações com sua filha, o mesmo serve para a mãe em relação ao filho. Desta forma, na busca de parceiros, as pessoas são forçadas a estabelecer relações com outros grupos familiares. Cresce a partir daí uma rede de alianças e de interdições dos corpos daqueles que se tornam parentes. Porém não é tão simples assim, lembremos do exemplo dos antigos esquimós, que ofereciam suas esposas aos forasteiros como cumprimento de boas vindas. E não seria de bom tom que o forasteiro recusasse; seria de fato um insulto! Outro ponto é que a definição de “família” difere muito entre as sociedades humanas.

Entre nós, temos mãe-pai-filhos. Entretanto, noutras sociedades os papeis podem ser mais complicados, se analisarmos sob nosso ponto de vista. O pai, a mãe, os filhos, os tios, as tias e avós, podem não manter o mesmo tipo de vínculo afetivo e/ou separação sexual que existe entre nós. Nem por isso devemos concluir que eles são pervertidos. Como entre nós, trata-se apenas de outra forma de organização social baseada nas relações sexuais. O ponto comum entre todas elas é a proibição do incesto. Esta proibição é uma regra (portanto denota caráter normativo que indica a existência de uma cultura humana) que possui um caráter universal (da ordem da natureza, pré-social). Conclui Lévi-Strauss que a proibição do incesto é uma regra tanto social quanto pré-social.

Que tipo de orientação sexual (direta ou indireta) os pedófilos receberam de suas famílias? Alguém perguntou? O fato de o Brasil fazer parte da chamada “cultura ocidental” permite concluir que nossa compreensão do papel da sexualidade é idêntica? As sociedades tribais são reconhecidas como “sociedades simples” porque tendem a obedecer apenas a um código de conduta. A Cultura Ocidental engloba muitas sociedades (e muitos códigos), por essa razão é chamada de “sociedade complexa”. Isto significa que aqui existe uma pluralidade de códigos de conduta, além dos hibridismos entre vários códigos. A pergunta então poderia ser: como opera o código que rege a sexualidade entre nós? Existe apenas um código? Qual? Quem decide?

Eis, portanto, a questão principal: a sexualidade é um tabu entre nós. Bancas de jornal abarrotadas de mulheres peladas, milhares de sites pornográficos na internet, sexo praticamente explícito nas novelas da televisão, programas de auditório também na televisão que se especializaram em mostrar aleatoriamente corpos seminus de homens e mulheres - que se submetem a este expediente porque é a condição para divulgarem seus produtos artísticos. É tanto corpo, é tanto erotismo, é tanto sexo explícito que um extraterrestre que aqui chegasse deduziria que esta é uma sociedade onde corpo e sexualidade não seriam problemas. O que é erotismo? O que é pornografia? Qual é sua função social? Quantos pais conseguem substituir essa indústria por diálogo e informação?

Não se discute que muitas crianças pelo Brasil afora sofram abuso sexual sistematicamente. Não se questiona o fato de que é degradante a prática corrente nas estradas brasileiras de venda de meninas de menos de quinze anos para satisfazer favores sexuais de caminhoneiros. Repito que não discordo que essa situação é calamitosa e merece atenção por parte tanto das autoridades quando da sociedade. O que questiono é a incapacidade da sociedade brasileira perceber que reprimir atos considerados bestiais não é o suficiente. O que questiono é a incapacidade da sociedade brasileira perceber que o problema é mais profundo. Portanto, reprimir os desvios e abusos sem discutir porque eles ocorrem é apenas empurrar com a barriga a responsabilidade em relação ao problema. É como acreditar que basta reprimir o tráfico para acabar com o problema das drogas.

Agindo desta forma em relação à pedofilia, a sociedade brasileira se transforma ela própria em pedófila. A esposa que descobre que seu marido abusou de sua filha, e expulsa a filha de casa, demonstra uma incapacidade patológica em lidar com sua sexualidade e seu corpo. A esposa que, no mesmo exemplo, expulsa o marido, é capaz de salvar sua filha. Mas talvez isso não seja suficiente, essa esposa teria também de perguntar a si mesma se sua própria maneira de lidar com sua sexualidade não teria sido um catalisador dessa situação. Claro que eu não esqueci do marido. Vivemos numa sociedade que, além de reprimida sexualmente, é machista. Entretanto, e aqui vai mais uma pergunta, não seria simples demais para um homem esconder sua ignorância (a respeito de como lidar com o sexo feminino) aplicando a força física e agindo como dono do corpo da mulher? Ou melhor, quando se vai discutir o estereótipo do machão como uma máscara que esconde um ignorante sexual? O que é o machismo?

O que é o homossexualismo? Naturalmente, o impulso homossexual também está presente nesse universo da pedofilia. O machismo no Brasil é tão intenso que a pedofilia heterossexual tem muito menos impacto nas manchetes do que quanto se trata de homossexualismo. Um marido tem uma esposa, mas estupra seu filho pequeno habitualmente. Será que basta expulsá-lo de casa? Expulsar quem, o menino ou o pai? Quem decide? Uma mãe que pode ser reprimida sexualmente? E os outros filhos que existem por aí como vítimas potenciais? Será que a falta de discussão na mídia sobre a sexualidade não está assinando uma sentença contra essas crianças? Não esqueçamos, não é só o pai que vai abusar dos filhos e filhas, a mãe também. Mas e aquele pedófilo que abusa de bebês? Como pode alguém sentir atração sexual por um bebê? Afinal, o que é sexualidade? Quais são seus mecanismos?

O que falta não é apenas coibir a pedofilia, mas compreender melhor os mecanismos da sexualidade humana. E também falta dar tanta publicidade a esta discussão quanto se dá à pornografia. Brasileiros e brasileiras tem essa qualidade hipócrita de utilizar pornografia generalizada, erotismo e machismo, como álibis para esconder a ignorância sobre seu próprio corpo. O Brasil finalmente está chegando à conclusão de que o problema da violência urbana e do tráfico de drogas não se resolve apenas com repressão. Falta investir na própria sociedade. Por quanto tempo, e por mais quantos milhares de vítimas vamos ter que esperar para concluir o mesmo quanto à pedofilia. Tanto quanto para a violência urbana ou para as drogas, o remédio para a pedofilia é a informação.

***

A proibição do incesto estabelece tanto o ponto a partir do qual a identidade da criança se forma quanto o ato pedófilo. Segundo Patrice Dunaigre, psiquiatra especializado no estudo da pedofilia, a transgressão do incesto está por trás desse fenômeno (1). Como a proibição do incesto foi estabelecida como regra e condição de possibilidade da cultura, o ato pedófilo, que sempre existiu, permaneceu marginal em sociedades como a ocidental. A proibição do incesto estabelece e reforça os laços de parentesco. Desta forma, o prazer sexual deveria ser codificado, para não colocar esse parentesco em risco. Entretanto, além da pedofilia continuar a existir como ato fora da lei e anti-social, acaba presente em rituais - que muitas culturas utilizam justamente para reafirmar a necessidade de excluir tal ato.

Em culturas como a ocidental, pode-se dizer que a mídia trata de manter vivo este comportamento quando, ao noticiar tais eventos, mais desinforma do que informa a respeito desse ato. Tratando a questão como um caso de polícia, invariavelmente caracteriza-se o pedófilo como uma espécie de animal. Silenciando tanto o agressor quanto a vítima, os estereótipos com os quais a mídia trabalha incitam uma histeria em torno do assunto que acaba por impedir um tratamento conseqüente do problema.

Na verdade, aparentemente, a própria sociedade parece preferir que as coisas caminhem nessa direção, já que a espetacularização de um comportamento sexual desviante evita que a questão da sexualidade humana entre na pauta. As pessoas querem enforcar o pedófilo em praça pública, querem se passar por paladinos protetores das crianças indefesas, mas odiariam ter que discutir a própria sexualidade.

A pedofilia é, em princípio, praticada por homens (2). Entretanto, se o elemento chave é a proibição do incesto, nada impede que uma mulher se sinta induzida a assumir comportamento pedófilo. Outro detalhe pouco divulgado é que a vítima precisa ter menos de 13 anos (3) para que seja tipificado como ato pedófilo. Como o incesto é o arquétipo do ato, e ocorre por definição dentro da família, isso determina que a pedofilia também aí surja e se propague.

“O incesto se enquadra no escopo do ato pedófilo, do qual, em última análise é o arquétipo. No entanto, sua execução se recobre de características especiais. O pai incestuoso não sente qualquer atração por crianças em geral, exceto por sua própria criança. O incesto ocorre somente dentro das relações familiares, nunca fora. Os critérios de escolha são restritos às suas próprias crianças, às da esposa ou da companheira. A experiência da vítima é de natureza diferente. É importante notar que tanto meninas como meninos são alvos. E que o adulto transgressor pode ser pai, padrasto, irmão ou tio. Além disso, somente nesse contexto se observam práticas incestuosas da parte de adultos mulheres”. (4)

O pedófilo é uma pessoa que rompeu o elo entre a sexualidade e a legalidade. Este elo determina a dimensão simbólica das relações sexuais. Portanto, a sociedade precisa deter esta pessoa que, “impondo uma sexualidade ilegal, (...) mina totalmente a dimensão simbólica da sexualidade” (5). É neste sentido que a pedofilia é um ato criminoso, pois ameaça um princípio civilizatório fundamental para a sociedade. Resumindo, enquanto efeito colateral da proibição do incesto, a pedofilia constitui uma transgressão que coloca em xeque as regras da sociedade em relação à sexualidade. Por esse motivo, a pedofilia não deve ser reduzida à dimensão do ato em si. Trata-se de um fenômeno mais amplo, que está inserido no limbo em que a sociedade prefere colocar as discussões a respeito da sexualidade.

O problema não está no fato da mídia falar sobre a pedofilia. Ela deve abordar a questão, apenas deveria fazê-lo de maneira mais conseqüente, evitando os estereótipos que mais desinformam do que esclarecem. De fato, ao optarem por utilizar uma linguagem superficial e ligeira, os meios de comunicação de massa tendem a criar uma cortina de fumaça em torno justamente do assunto que desejam dar publicidade – será que desejam mesmo? Agindo desta forma, a mídia desqualifica e infantiliza o público. Neste sentido, a mídia pode acabar como propagadora da pedofilia que pretende ajudar a coibir.

Por exemplo, quando em busca de audiência o jornal enfatiza de alguma forma o caráter bestial desse comportamento sexual, reproduz clichês e estereótipos que, ao mesmo tempo que demonizam o pedófilo, mantém a sociedade ignorante sobre aquilo que realmente importa saber: os mecanismos que desencadeiam tal comportamento. Desta forma, por mais estardalhaço que faça, a mídia acaba silenciando sobre o assunto, o que aprofunda o silêncio imposto pelo próprio pedófilo a suas vítimas. Some-se a isso o fato de que a sociedade não parece sentir-se confortável em discutir temas tabus como o prazer sexual em suas múltiplas formas, manifestações e interdições. Chega-se então ao paradoxo de uma sociedade da informação, mergulhada em pornografia, mas que ao mesmo tempo opta por ignorar as questões que a sexualidade apresenta. Nos termos de Dunaigre...

“No tocante ao pedófilo, não se deve excluir a dimensão penal, mas é essencial que ele não seja reduzido ao ato em si. É preciso se dar a devida atenção aos diferentes aspectos de sua sintomatologia. Esta não pode se restringir ao quadro apresentado pela mídia, que acaba estendendo o silêncio a outros aspectos e termina por contribuir, no contexto social, para o mutismo que circunda a pedofilia. Basta lembrar o silêncio que, até muito recentemente, encobria o assunto. Resta ainda muito a ser feito para entender quem foi tão eficaz em impor tal silêncio”. (6)

Notas:

1. DUNAIGRE, Patrice. O Ato Pedófilo na História da Sexualidade Humana In Inocência em Perigo. Abuso Sexual de Crianças, Pornografia Infantil e Pedofilia na Internet. Tradução Cibele de Souza e Silva e Cláudia Bernadete Kein. Rio de Janeiro: Garamond, 1999. P. 12.
2. Idem, p. 15.
3. Ibidem.
4. Ibidem, p. 17.
5. Ibidem, p. 20.
6. Ibidem, p. 23.


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Quadro de Avisos

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