Este sítio é melhor visualizado com Mozilla Firefox (resolução 1024x768/fonte Times New Roman 16)

Roberto Acioli de Oliveira

Arquivos

Mostrando postagens com marcador Cesare Lombroso. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Cesare Lombroso. Mostrar todas as postagens

9 de jun. de 2011

Arte do Corpo: As Cabeças de Gerhard Lang






Muitas vezes
nós acre
ditamos que
estamos a tentar entender
 
o que há por trás de um rosto,
mas geralmente descobrimos
que tudo que queremos
ver
é aquilo que os o
lhos
nos entregam






A Fisiognomonia Serve Para Fazer Arte 

Fascinado pelo interesse que o rosto humano desperta na maioria das pessoas e pelo produto da pesquisa em fisiognomonia, o fotógrafo Lang reapresenta o trabalho desta pseudociência de um ponto de vista estético (1). Enquanto saber quem se pretendia objetivo, o ponto de vista da fisiognomonia durante o século 19 e início do seguinte era político-ideológico: mostrar que é possível conhecer o interior do ser humano a partir de seu exterior e provar a superioridade da raça branca. Lang se debruça apenas sobre o subproduto dessa pesquisa, um gigantesco acervo de imagens do rosto humano. Em 1869, o biólogo darwinista Thomas Huxley inicia um projeto com o objetivo de mapear as características físicas das tribos das colônias inglesas. O antropólogo francês Paul Broca foi uma inspiração, com sua classificação de medidas cranianas que supostamente permitiriam a determinação do grau de inteligência de algumas pessoas consideradas “boas” ou “más”, gente “de bem” ou criminosos. Na Itália, Cesare Lombroso colecionava fotografias de rostos de criminosos com o objetivo de classificar a “face do mal”. (Todas as imagens são de Palaeanthropical Physiognomony)







Gerhard Lang
produziu algumas
imagens muito
próximas
dos trabalhos da
fisiognomonia







Muito tempo se passou e outros nomes surgiram no horizonte dessa busca contraditória, o trabalho de Lang traz a luz essa obsessão pela taxonomia e chega a classificar o formato das nuvens e das manchas das vacas na Suíça! Lang também produziu cabeças compostas à maneira de Francis Galton (1822-1911), um antropólogo, meteorologista, matemático e estatístico inglês que sobrepunha várias imagens de criminosos com o objetivo de chegar ao traço físico básico da “face do mal”. No caso de Lang, cujas intenções são menos racistas-salvacionistas, produziu duas séries, em, daquilo que chamou Palaeanthropical Physiognomy (1991/2002). Inicialmente, o trabalho consistia em projetar fotografias de crânios do departamento de paleo-antropologia do Museu Senckenberg em Frankfurt, e também rostos de animais como corujas, abelhas e vespas sobre rostos humanos. Curiosamente, Lang acabou por produzir imagens bastante parecidas com aquelas de fisognomonistas e como Giambattista della Porta (1535-1615) e Petrus Camper (1722-1789), assim como de artistas interessados em representar as paixões como Charles Le Brun (1619-1690).








Com suas cabeças
compostas
,  Gerhard  Lang
tirou  uma  coisa  do  espaço
neutro do museu e a jogou
na  galeria de arte








Em O Habitante Típico de Schloss-Nauses (1992), Lang fotografou todos os 52 habitantes de sua cidade natal na Alemanha de uma forma que lembra muito o método de composição de cabeças elaborado por Galton e pelo francês Alphonse Bertillon (1853-1914), um dos fundadores da antropometria criminal. Ao final, Lang sobrepôs as imagens de todas as mulheres e de todos os homens, depois juntos todos num só. Lang se refere a um “vazio” criado pelas composições de cabeças, pela natureza “não palpável” das imagens. O artista confessou que o impacto visual das composições enquanto imagens é incrivelmente poderoso, um dado que havia permitido a Galton fazer sucesso em sua época com esse experimento - antes que os cientistas começassem a se afastar dele. Para Lang, a classificação da imagem de um rosto humano é tão esquiva quanto a taxonomia das nuvens ou do malhado de uma vaca. Em suas tentativas para chegar à identificação de feições e, portanto, aproximar-se da “verdade fotográfica”, Lang e Galton encontraram uma matéria ambivalente e intangível.



“É estranho que
não tenhamos mais
capacidade de des
crever
a forma e feições pessoais do
que atualmente possuímos
. De minha parte, freqüentemente
me irritei com a incapacidade
para explicar verbalmente
semelhanças e tipos
de feições”
(2)


Todas as Cabeças de Archimboldo (I), (II), (final)

Notas:

1. KEMP, Martin; WALLACE, Marina. Spectacular Bodies. The Art and Science of the Human Body from Leonardo to Now. Berkeley: University of California Press, 2000. Pp. 190-9. Catálogo de exposição.
2. Idem, p. 199. 


4 de abr. de 2008

Rostos: Fisiognomonia (V)

Cesare Lombroso


Falar de Cesare Lombroso neste trabalho obedece a uma dupla função. Além de um lugar de destaque nas tentativas de cientificização do discurso sobre a aparência e os movimentos expressivos, suas idéias tiveram muita influência no Brasil entre criminologistas e juristas. Entre seus livros estão O Delinqüente (L’Uomo Delinqüente, 1876) (imagem ao lado), e O Crime, Causas e Remédios (1899). Lombroso morreu em 1909 (1).


Criminologista e professor universitário italiano torna-se famoso por suas teorias no campo da caracteriologia, como a craniologia e a fisionomia, buscando uma relação entre características físicas e mentais. Procurava-se relacionar, por exemplo, o tamanho da mandíbula e a psicopatologia criminal, a tendência inata de alguns indivíduos para a sociopatia e o crime. O ponto de vista lombrosiano foi tributário direto da frenologia, criada no princípio do século 19 pelo alemão Franz Joseph Gall. Cientificamente, sua teoria foi desacreditada, entretanto produziu um impulso decisivo para a antropologia criminal - o estudo científico da mente criminosa.

Inspirado nos modelos evolucionistas do final do século XIX propunha que alguns criminosos carregam uma evidência física de caráter atávico ou hereditário, remanescente de um comportamento adquirido nos mais primitivos estágios da evolução humana. Anormalidades nas dimensões do crânio e mandíbula, assimetrias no rosto e outras partes do corpo, eram chamadas Stigmata: os criminosos mostrariam em seus rostos assim como em seus corpos aquilo que Lombroso gostava de chamar “estigmata de degenerescência” (2). Suas especulações foram substituídas mais tarde por teorias baseadas em causas ambientais.

Entre 1750 e 1850 os fisionomistas e os frenologistas tentaram provar que existe uma ligação entre a propensão ao comportamento criminoso e uma aparência pouco usual (basicamente rosto, ouvidos e olhos) e a forma do crânio (inchaços ou galos sendo um indicador das áreas dominantes do cérebro). Os fisionomistas estudavam a aparência do rosto e os frenologistas estudavam os galos na cabeça. São as bases da antropologia criminal. Segundo os frenologistas, o “exercício mental” poderia regenerar um criminoso. No século 20, chamou-se Constitucionalismo ao estudo da constituição física do corpo. A busca pelo criminoso constitucionalmente determinado se estendeu até 1950.

O trabalho de Ernest Hooton, um antropólogo de Harvard, populariza o Constitucionalismo nos Estados Unidos a partir da década de 30. Concluiu que os criminosos são inferiores aos cidadãos comuns em todos os aspectos físicos. Seu racismo ficou patente quando afirmou que a testa negróide era um perfeito exemplo de testa criminosa. Na década de 40, William Sheldon chamou atenção para as características físicas dos delinqüentes jovens. Produziu um Índice de Delinqüência baseado em fotografias, que determinariam quais deveriam ser institucionalizados. Sua abordagem às vezes é referida como Teoria Somatotípica. Seus procedimentos foram apoiados por Eleanor Glueck nos anos 50. Suas pesquisas sugeriam que rosto estreito, peito estufado, cintura mais larga e maiores antebraços estão associados com 60% dos delinqüentes e 30% dos não delinqüentes.


Francis Galton (1822-1911), cientista britânico e parente de Charles Darwin, tornou-se famoso por seu trabalho em antropologia e hereditariedade. Tido como o fundador da ciência da eugenia, seus escritos sobre hereditariedade muito influenciaram Lombroso. Segundo Galton, considerando a população como um todo, através de sucessivas gerações, o caráter e o talento reverteriam a uma média, vista por ele como medida de mediocridade física e intelectual. Galton procurou entender os processos hereditários, acreditava que ao conseguir compreender seus mecanismos, poderia aumentar a freqüência de traços desejáveis. (imagem ao lado, Alpholse Bertillon, Tableau Synoptique des Traits Physiognomiques, 1901-16).

As qualidades indesejáveis que Galton pretendia erradicar intrigavam Lombroso. Baseando-se na teoria da seleção natural de Darwin, Lombroso concluiu que em qualquer população, um pequeno número de indivíduos poderia exibir instintos extremamente primitivos. Constituiriam retrocessos evolucionários – estes são os casos de atavismo.

Sua hipótese afirmava que, nas sociedades primitivas, indivíduos com esses traços estariam mais equipados para sobreviver. Forte desejo de matar os teria transformado em ótimos caçadores e parceiros sexuais disputados. Nas sociedades “civilizadas e urbanas” da Europa, esse atavismo provavelmente seria a causa do comportamento criminoso. Entretanto, argumentou Lombroso, tais indivíduos não teriam muitas possibilidades de sobreviver nas sociedades industriais, posto apresentar baixa fertilidade. Ainda assim, Lombroso mostrou que nos campos europeus e nas áreas industriais (onde havia muitas favelas) esses indivíduos com características primitivas estariam apresentando um grau de fertilidade maior. Concluiu então pelo aumento de qualidades sociais indesejáveis nas pessoas destas classes sociais.(Imagem abaixo, tipos criminosos segundo Lombroso).

Desejava demonstrar, por exemplo, que a tatuagem entre criminosos indicava a sobrevivência de instintos primitivos. Sabemos que existem códigos entre os detentos que passam por tatuagens. Remoção das tatuagens, assim como a cirurgia plástica, foram algumas das práticas que encontraram seu caminho nos programas de reabilitação nos Estados Unidos no passado. Lombroso também escreveu sobre uma articulação entre mulher e crime.


Lombroso conclui que o criminoso não é uma vítima de circunstâncias sociais desfavoráveis. Contudo, era um defensor dos bons tratos aos detentos, já que seria imoral não adotar uma atitude humanitária com aqueles biologicamente incapazes de neutralizar o próprio comportamento anti-social. Apostou, assim como Galton, que a prevenção do crime demandava uma ciência da eugenia que permitiria aos governos implementar programas de melhoramento social e moral através da procriação. Temos aqui as bases científicas de uma tendência muito disseminada no princípio do século 20 (inclusive implementadas por políticas públicas em diversos países), e que também está na base da limpeza étnico-estética de Hitler (3).


No mundo anglófono, a teoria da criminalidade atávica conquistou muitos nomes influentes na ciência de seu tempo, contudo tornou-se de fato mais conhecida por artigos como o de J. Holt Schooling, na revista Harmsworth, que em 1898 escreveu Sinais de Perigo da Natureza. Tais artigos colocaram Lombroso no mapa das classes e grupos sociais xenófobos e racistas. Ainda assim, havia um ceticismo em relação a suas idéias. No Congresso Internacional de Antropologia Criminal, em 1889 na França, os especialistas o criticaram. Defendiam a hipótese de que as origens do crime seriam encontradas nas condições sociais e não em tendências inatas. De fato, mesmo que o holocausto de Hitler ainda demorasse mais 40 anos para chegar, já começa um movimento nas nascentes ciências sociais em direção oposta às teorias de cunho biológico.


Notas:

1. SABBATINI, Renato M. E. Phrenology: the history of brain localization. Salvo quando referenciado, estas observações são retiradas do site onde reproduziu parte de seu texto. http://www.cerebromente.org.br/n01/frenolog/frenologia.htm
2. LIGGETT, John. The Human Face. London: Constable, 1974. P. 244.
3. O documentário de Peter Cohen, Homo Sapiens 1900 (1998), apresenta farto material sobre o tema. Lançado em dvd no Brasil pela Versátil Home Vídeo (2007). 


29 de mar. de 2008

Rostos: Fisiognomonia (I)

“Como começamos a cobiçar”? 
Cobiçamos   aquilo   que
 vemos... todos os dias !


A frase de O Silêncio dos Inocentes (Silent of the Lambs, 1991) dá o tom de nossa busca. Uma agente do FBI insistentemente pergunta a um famoso ex-psiquiatra comedor de carne humana sobre o paradeiro de um assassino de mulheres que teria sido seu cliente. Procurando mostrar em forma de enigma qual é o objetivo desse assassino, o canibal enuncia esta frase. Pois bem, o assassino não matava por ódio. Na verdade, gostava tanto das mulheres que queria ser uma delas. Entretanto, para alcançar seu objetivo, ele raptava mulheres meio gordas. Mantendo-as em cativeiro, as engordava mais e mais. Então as matava e retirava partes de suas peles. Então as costurava. Pretendia fazer uma roupa com a pele das mulheres.


Paul Valery tem uma frase, “o mais profundo é a pele”. Seja como for, o assassino de mulheres parecia fixar a identidade delas no elemento mais material e mais visível. Ser mulher passava por parecer com uma mulher. Desta forma, para ele ser mulher não teria nenhuma relação com a busca de uma possível alma feminina. Travestido com pele humana morta, o assassino parece curto-circutar a lógica da linguagem não-verbal da aparência. Platão já havia chamado atenção para a inutilidade do mundo sensível. Ou melhor, sua única utilidade seria servir de degrau para ultrapassá-lo.

A fisiognomonia sempre baseou seus estudos na articulação entre a afirmação da necessidade de um mundo sensível articulada à crença na existência de outro, desta vez inteligível. Sendo que é deste que podemos inferir a verdade última. Trata-se, na verdade, da velha questão da engenharia dos métodos de previsão.


A Linguagem do Rosto, de Umberto Eco, nos dá uma resumida introdução ao tema (1). Mostra-nos que Aristóteles já havia tocado no assunto. O dado básico é a hipótese de que poderíamos julgar o caráter de um homem ou animal a partir de sua estrutura corporal. Tal avaliação seria possível por conta de outra hipótese, as inclinações naturais transformariam simultaneamente alma e corpo. Portanto, os traços do rosto deveriam remeter a características internas (éticas e morais) (ao lado, prisioneiro de campo de concentração nazista).

Eco nos conta que, com Charles Darwin e Cesare Lombroso, o século XIX confere a ela um status científico. Procurava-se desta forma distinguir entre uma fisiognomonia natural (associações frágeis e ambíguas) e outra fisiognomonia, dita científica (baseada em estudos anatômicos) (2). A frenologia postula que tudo encontra representação na superfície do cérebro: faculdades mentais, tendências, instintos, sentimentos. Por exemplo, aqueles com acentuadas qualidades mnemônicas tem o crânio redondo, olhos salientes e distantes um do outro. Combatida por todos, pretendia que, mesmo que um indivíduo seja honesto, sua honestidade é mentirosa porque sua conformação craniana mostra quem ele de fato é.


Lombroso acaba ligando esta tradição às práticas racistas que, além do mais, revestem de caráter científico a visualização da figura do criminoso. Eco faz uma interessante referência ao caráter lombrosiano-lavateriano da fotografia 3x4, que todos nós carregamos na carteira de identidade. Em sua opinião, a própria fotografia nos deforma, tornando-nos “pessoas ruins” por nossa feiura. Eco também faz referência à revista em quadrinhos... “Chegamos à revista em quadrinhos. E, de fato, a revista em quadrinhos e a caricatura são os lugares onde a fisiognomonia adquire valor fotográfico de estenografia e esboça, com poucos traços enfatizados, toda uma história psicológica e moral. Baseando-se exatamente nos preconceitos (e em parte na sabedoria antiga) de uma fisiognomonia natural:usando-os e reforçando-os”. (3) (Ao lado, George Bush filho, presidente dos Estados Unidos da América e atual dono do mundo).


Aberrações

Em seu livro, Aberrações (4), Jurgis Baltrusaitis mostra como o pensamento fisiognomônico atravessou a Antiguidade, Idade Média, Renascimento e Modernidade. De pensadores como Aristóteles e Descartes, passando por artistas como Miguel Ângelo, Leonardo Da Vinci, Rubens, e escritores como Goethe, Zola, Marivaux e Balzac, a fisiognomonia foi motivo de intensa pesquisa.


Em 1586 Giambattista Della Porta mostra imagens de homens-animais como deformações. Rubens, por sua vez, as mostra como a revelação de um mistério.


Em 1776 Rubens publica um tratado que corrobora as tradições esotéricas do século XVI. Segundo Baltrusaitis, Rubens representa a última eclosão das cosmogonias fantásticas na história da ciência das formas humanas (5).


Uma revisão da fisiognomonia, que já se anunciava desde a Antiguidade, eclode no século XV. Lomazzo deu o chute inicial ainda em 1584, depois por um teólogo, Coeffeteau (1620), um médico, Cureau de La Chambre (1640-1662), e um filósofo, Descartes (1649). Trata-se dos estudos das paixões, sentimentos passageiros, que afrontavam os caracteres permanentes propostos na fisiognomonia. (acima, um dos muitos jatos de combate norte-americanos que durante a guerra do Vietnã eram pintados com rostos de animais ferozes)

Em sua teoria da fisiologia, Descartes propõe que as paixões se localizam na glândula pineal do cérebro e não no coração, como se acreditava. A questão é que poderiam ser percebidas a partir de sinais exteriores. Baltrusaitis mostra o comentário de Charles Le Brun, contemporâneo de Descartes, quanto às conseqüências para os artistas... “E como dissemos que a glândula que está no meio de cérebro é o lugar em que a alma recebe as imagens das paixões, as sobrancelhas são a parte do rosto em que as paixões se dão a conhecer melhor” (6).

Em 1678, Le Brun apresenta sua criação na Academia de Pintura. Elabora 41 máscaras de paixões simples e derivações, onde as sobrancelhas comandam os movimentos. Ainda assim, completa Baltrusaitis, “a sombra do animal permanece ao fundo”. Le Brun segue em sua caracteriologia dividindo os homens em 3 classes:

1) de paixões suaves que não alteram seus traços;
2) de paixões generosas que imprimem neles uma marca particular;
3) de paixões condenáveis e atrozes que degradam seu rosto.


Ele procura resolver o impasse propondo uma geometria da face humana. O gênio do homem e a natureza de um animal seriam captáveis a partir do ângulo constituído pelas linhas retas que passam no eixo dos olhos. A aplicação de tal expediente provaria que o leão possui paixões nobres, enquanto o burro tem impulsos vergonhosos. Importância muito grande adquire o nariz na análise de Le Brun. Aponta o fato de que os narizes dos homens ilustres, da Antiguidade à Modernidade, eram mais ou menos aquilinos – resta o problema de ter certeza que as esculturas e os bustos que retratam estes homens correspondem a sua forma real. Um herói deve possuir também testa alta e larga com sobrancelhas grossas.


Interessante notar que a forma considerada mais negativa parece muito com o nariz do judeu típico... “Mas o cúmulo da desgraça está reservado a quem junta esses sinais funestos um nariz que termina em bico de corvo: ele deve então, irremediavelmente, ser presa das paixões as mais condenáveis” (7). Nota-se como os escorregões no preconceito são perfeitamente possíveis. Tempos mais tarde, no século 20, Adolf Hitler patrocinaria uma perseguição sem precedentes aos judeus, onde a fisiognomonia seria retomada com o objetivo de marcar a diferença (e a suposta superioridade) dos arianos em relação aos judeus.

Tudo isso acaba por dar à cabeça um valor maior frente ao restante do corpo. Le Brun partia do princípio de que se o homem é uma cópia reduzida do universo, sua cabeça resume seu corpo. Por conta da glândula pineal, a cabeça se torna também sede da alma, além de conter um mundo animal. Ainda que se admita que os animais difiram tanto quanto os humanos em suas afeições, o alfabeto de sinais mais seguros seria fornecido pelos animais (8)(imagem abaixo, Lula, presidente do Brasil). Como disseram Gilles Deleuze e Félix Guattari no século 20: separaram a cabeça do corpo...




Leia também:

Rostos: Fisiognomonia (II)
As Mulheres de Luis Buñuel
Luis Buñuel, Incurável Indiscreto

Notas:

1. ECO, Umberto. A linguagem do rosto IN Sobre os espelhos e outros ensaios. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1989.
2. Idem, p.48.
3. Ibidem, p. 52.
4. BALTRUSAITIS, Jurgis. Aberrações. Ensaio sobre a lenda das formas. Tradução de Vera de Azambuja Harvey. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 1999.
5. Idem, p. 33.
6. Ibidem, p. 34.
7. Ibidem, p. 38.
8. Ibidem, p. 35. 


Postagens populares (última semana)

Quadro de Avisos

Salvo quando indicado em algum ponto da página ou do perfil, este blog jamais foi patrocinado por ninguém e não patrocina nada (cursos, palestras, etc.), e jamais "doou" artigos para sites de "ajuda" a estudantes - seja no passado, presente ou futuro. Cuidado, não sejam enganados por ladrões da identidade alheia.

e-mail (no perfil do blog).
....

COMO CITAR ESTE BLOG: clique no título do artigo, verifique o link no alto da tela e escreva depois do nome do autor e do título: DISPONÍVEL EM: http://digite o link da página em questão ACESSO EM: dia/mês/ano

Marcadores

Action Painting Androginia Anorexia Antigo Egito Antonioni Antropologia Antropologia Criminal Aristóteles Armas Arquitetura da Destruição Artaud Arte Arte Degenerada Arte do Corpo Auto-Retrato Balthus Bat Girl Batman Baudrillard Bauhaus Beckmann Beleza Biblioclasta Body Art Brecht Bulimia Bullying Burguesia Butô Buñuel Cabelo Carl Jung Carnaval de Veneza Carolee Schneemann Castração Censura Cesare Lombroso Chaplin Charles Darwin Charles Le Brun Chicago Cicciolina Cindy Sherman Cinema Ciência Ciência do Concreto Claude Lévi-Strauss Claus Oldenburg Clifford Geertz Clitoridectomia Close up Comunismo Corpo Criança Cristianismo Cubismo Cultura Cézanne Código Hays Da Vinci Dadaísmo David Le Breton Descartes Desinformação Deus Diabo Distopia Déspota Oriental Erotismo Eugenia Europa Evgen Bavcar Expressionismo Fahrenheit 451 Falocentrismo Família Fascismo Fellini Feminilidade Feminismo Ficção Científica Filme de Horror Fisiognomonia Fluxus Fotografia Francis Bacon Francisco Goya Frankenstein Franz Boas Freud Frida Kahlo Fritz Lang Frobenius Futurismo Games Gaudí Gauguin George Lucas George Maciunas Giacometti Giambattista Della Porta Gilles Deleuze Giuseppe Arcimboldo Goebbels Griffith Grécia Guerra nas Estrelas H.G. Wells HR Giger Herói Hieronymus Bosch História Hitchcock Hitler Hollywood Holocausto Homossexual Idade Média Igreja Imagem Império Romano Infibulação Informação Inquisição Ioruba Islamismo Jackson Pollock Jan Saudek Janine Antoni Johan Kaspar Lavater Judeu Judeu Süss Kadiwéu Konrad Lorenz Koons Ku Klux Klan Kurosawa Le Goff Leni Riefenstahl Livro Loucura Loura Lutero Madonna Magritte Manifesto Antropofágico Maquiagem Marilyn Monroe Marketing Masculinidade Masumura Maternidade Matisse Max Ernst Merleau-Ponty Michel Foucault Militares Minorias Misoginia Mitologia Mizoguchi Morte Mulher Mulher Gato Mulher Maravilha Mussolini Muçulmanos Máscaras Mídia Nascimento de Uma Nação Nazismo Nova Objetividade Nudez O Judeu Eterno O Planeta Proibido O Retrato de Dorian Gray O Show de Truman Olho Orientalismo Orson Welles Orwell Oshima Ozu Palestinos Panóptico Papeis Sexuais Papua Paul Virílio Perdidos no Espaço Performance Picasso Piercing Pin-Ups Platão Pornografia Primitivismo Privacidade Propaganda Prosopagnosia Protestantismo Psicanálise Publicidade Purgatório Puritanismo Pênis Racismo Razão Religião Retrato Richard Wagner Rita Haywood Robert Mapplethorpe Rosto Sadomasoquismo Salvador Dali Sartre Seio Semiótica Sexo Sexualidade Shigeko Kubota Silicone Simone de Beauvoir Sociedade Sociedade Disciplinar Sociedade de Controle Sociedades Primitivas Sprinkle Stanley Kubrick Suicídio Super-Herói Super-Homem Surrealismo Tatuagem Televisão Terrorismo Umberto Eco Vagina Viagem a Tóquio Violência Walt Disney Woody Allen Xenofobia Yoko Ono Yves Klein botox imprensa kamikaze plástica van Gogh Índio

Minha lista de blogs

Visitantes

Flag Counter
Creative Commons License
This work is licensed under a Creative Commons Atribuição-Uso não-comercial-No Derivative Works 3.0 Brasil License.