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Roberto Acioli de Oliveira

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20 de jul. de 2011

O Martírio da Loura






“As conotações
simbólicas dos cabelos
loiros ignoraram a probabilidade histórica
de que houvesse tonalidades diferentes: mártires virgens e outras santas são, todas, loiras
deslumbrantes” (1)






A Histeria da Cor

De acordo com Marina Warner, não se sabe ao certo a etimologia da palavra “blond/e” (loiro/a). Seria relacionada à blandus, que em latim significa “encantador” (uma raiz que sobrevive na palavra inglesa “blandishment”, agrado, lisonja), com influência posterior do latim medieval blundus e do alemão arcaico blund, duas palavras que significam “amarelo”. Entrou para o idioma francês no século XII, e mais tarde foi usada com diminutivos carinhosos para crianças (mais para os meninos do que para as meninas), como em blondin, blondinet. Aparece nos escritos do poeta medieval inglês Geoffrey Chaucer (1343-1400) como “blounde”, mas depois desaparecem da língua inglesa até o século XVII, quando passa a ser aplicada quase exclusivamente no feminino, “blonde”, ainda como sinônimo de doçura, encantamento e juventude. Sob a influência do cinema de Hollywood, somente nas décadas de 30 e 40 do século passado a palavra surge como um substantivo, adquirindo também suas conotações eróticas e de sedução.




No século XV,
cabelos louros estavam
na moda
. As tinturas mais apreciadas vinham
de Veneza
(2)



A ressonância dupla do adjetivo – em francês, italiano, alemão, espanhol – de beleza e coloração clara corresponde ao emprego inglês da palavra “fair” (lindo, claro, loiro) desde a Idade Média. O significado em inglês arcaico de “belo”, ou “agradável”, no século XIII transformou-se em “livre de imperfeições ou defeitos”, e no século XVI já tinha conotações explícitas de “um matiz pálido; de cor clara”. A palavra “fair”, como substantivo, costumava designar uma beleza. Warner mostra que a fábula La Belle aux Cheveux d’Or (A Bela dos Cabelos de Ouro) escrita pela Condessa d’Aulnoy (1650/1-1705) fora inicialmente traduzida do francês para o inglês como The Fair With the Golden Hair, revelando a associação das fadas (fairies) com loiras (fair ones) (3). Em português, o Dicionário Aurélio arrola as duas palavras, “loira” e “loura”, mas designa a segunda como a grafia correta. Define “louraça” como pessoa de cabelo louro deslavado (descolorido), figura simplória, bisonha, ingênua. Mas designa “loureira” à mulher provocante, sedutora, que procura agradar a todos, meretriz. De um ponto de vista menos simbólico, define “louro” como aquilo que possui cor amarelo-tostado, a cor média entre o dourado e o castanho claro. Na gíria de certas regiões do Brasil, também se designa por “loura” a cerveja (4) - sendo servida gelada, a “loura gelada” também remete a implicações simbólicas em relação ao comportamento dessas mulheres; muito associado em outros tempos à atriz francesa Catherine Deneuve, em oposição à outra loura francesa, Brigitte Bardot (neste caso, uma morena que pintava os cabelos, como a “loura” Marilyn Monroe). (nas duas imagens abaixo, Bardot e Marilyn)

As Lourinhas do Tio Adolf





Infelizmente,
a “lourice” não tem
um passado recente
muito educativo





A fama da loura remonta a Homero, desde que ele descreveu as tranças da deusa do Amor foram descritas como xanthe (douradas). Numa tapeçaria sobre o Apocalipse produzida em Angers (França) no século XIII, a Prostituta da Babilônia penteia suas longas madeixas louras mirando-se num espelho de Afrodite (imagem abaixo, à esquerda). Botticelli pintou Afrodite emergindo do mar, vestindo apenas com seus longos cabelos louros (imagem acima, à direita). O planeta Vênus tem graciosos cabelos dourados nas iluminuras de um tratado de astronomia do século XV, De Sphaera. É provável que aos tradutores escapem outras alusões ao “louro”, o que pode gerar confusão quanto a definir os matizes aos quais se referiam autores antigos. Warner admite que um dos melhores léxicos cromáticos advenha dos criadores de cavalos na Idade Média. Por outro lado, conclui a pesquisadora, os narradores de histórias podem ter tido em mente uma tonalidade ou matiz de louro, mas seria improvável; neste caso, a cor cumpre uma função simbólica, não um propósito prático ou descritivo como no comercio de cavalos – embora exista nos contos de fadas um elemento desse comércio na definição da alvura como garantia de qualidade.





Adolf Hitler também
preferia as louras, e levaria seu
desejo muito a sério




O que a princípio pode parecer hilário adquire conotações assustadoras quando descobrimos que as fantasias arianas dos nazistas estavam parcialmente enraizadas nesse código cromático primitivo, que tipifica os deuses como meninos e maneiras loiras e os estrangeiros como morenos. Um filme de marionetes, feito pelo alemão Paul Dihe em 1935, dois anos depois da subida de Adolf Hitler ao poder, conta a conhecida história dos irmãos Grimm sobre o menino que queria aprender o que era o medo, mostrando suas façanhas, como dormir debaixo do patíbulo, entrar no castelo assombrado, derrotar os demônios e conquistar a princesa. Marina Warner esclarece que o que parece um filme infantil comum, mostrando a vitória após a superação das dificuldades, transforma-se em algo horrendo quando somos informados do prazer de Hitler com a crueldade nos contos de fadas. Esse curta-metragem conta uma das histórias preferidas usadas na educação da Juventude Hitlerista, ao inculcar destemor, intrepidez e violência máscula. O menino-herói tem cabelos cor de estopa, enquanto seus agressores têm nariz aquilino e são morenos, peludos, escuros, velhos – a típica representação dos judeus na Alemanha dos tempos de Hitler. No texto dos irmãos Grimm, explica Warner, esses monstros são gatos e cachorros negros (5) – que talvez estejam mais identificados com o escuro da noite e dos lugares fechados do que com essa outra cor de pele.

A Tradição dos Cachinhos Dourados



“Se desejar se
casar de nov
o após
minha morte gostaria que escolhesse alguém tão bela quanto eu
, e com cabelos
tão louros q
uanto
os meus”

Do conto All-Fur,
irmãos Grimm


Os contos de fadas e o romance herdaram esse tipo de sistema de valores desde os tempos helenistas. Em Eros e Psique, Afrodite envia Psique aos infernos para que lhe traga um pouco do creme de beleza de Perséfone. Psique não resiste abre o estojo, liberando uma nuvem que a faz dormir, algumas interpretações sugerem que ela ficou negra – o que funciona como sinal de beleza perdida! Em Etiópica, de Heliodoro, uma menina branca nasce de pais negros. Isso aconteceu porque durante a gravidez sua mãe contemplou uma pintura clássica da Andrômeda loura, o questionamento sobre a paternidade acaba quando se reconhecem marcas de nascença singulares. Traduzido para o inglês em 1587, tornou-se muito popular e os valores que incute circularam. Menos preconceituoso é o conto Estrelinha, onde uma heroína é transformada em muçulmana – detalhe significativo, pois sabemos que a Europa odeia os árabes a centenas de anos literalmente. Ela teme que seu amado desista dela, mas não é o que acontece, ele a considera adorável, embora fique perturbado pela possibilidade de estar sendo infiel ao seu verdadeiro amor.



A madrasta má
de Borralheira era morena.
E tinha duas irmãs más, uma
morena e outra ruiva. Judas
tinha, originalmente,
uma barba ruiva
(6)



Enquanto isso, na Europa moderna, a Rapunzel dos irmãos Grimm joga seus longos cabelos louros do alto da torre para que a feiticeira que a protege possa subir. Mélisande, na ópera de Maeterlink e Debussy, atira-os pela janela para que Pélleas, extasiado, enrole-se neles. A Cinderela típica da literatura infantil herdou, como marca de sua beleza perfeita, essa característica de Afrodite. Warner sugere a descrição de Cinderela numa versão musical inglesa de 1889: “Uma donzela dócil, jovem e bela/Seus olhos eram azuis como miosótis/Sua pele tinha o formoso matiz das rosas/E seus cabelos caíam em ondas douradas”. O penteado de Cinderela pode até mudar, mas nunca açor de seus cabelos – ou apenas raramente. Em 1966, a Gata Borralheira (que seria a versão original escrita pelos irmãos Grimm, sendo Cinderela uma adaptação desse texto feita por Walt Disney) apareceu num livro com a mesma franja e o penteado de Brigitte Bardot. Apenas Branca de Neve é morena, por que sua história começa com o desejo da mãe: “Quem me dera ter uma filha tão alva como a neve, tão rubra como o sangue e tão negra como o quadro da janela”. Warner disse que as tentativas de Walt Disney foram débeis em A Bela e a Fera, a bela aparecer morena não é suficiente para quebrar a tradição. Cachinhos Dourados, cujo nome deixa clara a tonalidade de sua cabeleira, começou como uma velha e transformou-se em Cachinhos Prateados. (Imagem acima, à direita)

Louro não é Amarelo





Eva era loura. É possível
que a lourice tenha sido salva
da fogueira devido à associação do branco com o dourado
, afastando
o amarelo e o vermelho na
direção do demônio




A cor amarela, que vem depois das cores vermelha e alaranjada no espectro, como estas é permeada no simbolismo cristão pelas ambigüidades dos matizes sensuais. É revelador, observa Warner, que cabelos quase nunca sejam descritos como amarelos nos idiomas inglês, francês, italiano ou alemão. A categoria do louro “protege” o ser humano de cabelos claros das associações perigosas e até mesmo demoníacas do amarelo, como denota o uso da palavra “giallo” (amarelo) para designar a literatura de suspense-terror que começou a ser publicada em 1929 na Itália – cuja designação se estenderia aos filmes de terror italianos a partir da década de 60. A “lourice” está ligada ao simbolismo daquilo que é claro e não daquilo que é amarelo. De acordo como Warner, a metafísica cristã em torno da luz contribuiu para uma mudança nas associações do termo latino fulvus (amarelo, amarelado). Termos mais precisos para o vermelho e o amarelo começaram a se desenvolver e o outro passou a ser mais relacionado ao branco, fortalecendo a identificação da lourice com o esplendor celestial. Quando os cruzados foram matar muçulmanos na Terra Santa durante a Idade Média, foi permitido que usassem armaduras de outro e prata, supondo que o brilho do sol sobre elas aterrorizaria os infiéis. (imagem acima, Natividade, de Boticelli; na imagem abaixo, representação da rainha de Sabá segundo a estética medieval, combinação da donzela loura do paraíso cristão com as imagens bíblicas, Conrad Keyser, Bellinfortis, Boêmia, 1405)





“[Ela] tinha um
coração tão bondoso
e tão piedoso
, vejo nela tanta
graça feminina em contraste com sua
determinação na hora de agir
,
que só posso imaginá-la
como sendo loira (...)


Comentário do artista francês Maurice Boutet
de Movel sobre a imagem de Joana d’Arc (7)



Em 1502, o letrado Olivier de La Marche maravilhou-se com a beleza da luz solar dançando sobre os cabelos louros. O estudioso do folclore Max Lüthi menciona esse efeito dos cabelos louros como elemento vital da função da beleza e da verdade nos contos de fadas – a inocência da rainha acusada, a bondade da criada suja e desmazelada. Além da beleza, amor, nubilidade, atração sexual e fertilidade, a luminosidade do louro também foi tornou-se a cor dos cabelos das virgens – o signo astrológico também aparece com cabelo louro (8). Depois do século XV, conta Warner, até a Virgem Maria foi freqüentemente retratada como loura. Até Madonas negras têm cabelo louro, como a estátua de culto no mosteiro de Montserrat, na Espanha. As santas e mártires virgens são representadas com cabelos louros, como Catarina, Agnes e Bárbara. Os banhos de Cleópatra com leite de jumenta tinham como objetivo clarear sua pele. Joana d’Arc, que se acreditava ter cabelos escuros, teve como um dos motivos de sua condenação o fato de usar cabelos curtos como homem. Entretanto, ela passaria a ser retratada no século XV com cabelos louros até o pescoço. De acordo com o raciocínio de Maurice Boutet de Movel (1851-1913), criador de um dos livros infantis mais influentes sobre a mártir, em sua santidade e bondade, Joana só podia ser loura!

Notas:

Leia também:

As Mulheres de Luis Buñuel
Luis Buñuel, Incurável Indiscreto
Monica Vitti: A Trajetória de Uma Loura
Estética da Destruição
Arte do Corpo: Cindy Sherman e Seus Duplos
Cabelos: Uma Tragédia Grega
Seios na Cabeça: Conexão Seios (I)
Se Cabelo Fosse só Pêlo...
As Mulheres de Andrei Tarkovski (I)
O Rosto no Cinema (VII): Brigitte Bardot
Os Auto-Retratos de Francis Bacon

1. WARNER, Marina. Da Fera à Loira. Sobre Contos de Fadas e Seus Narradores. Tradução Thelma Médici Nóbrega. São Paulo: Companhia das Letras, 1999. Ilustração 16.
2. BERNHEIM, François; KAMMER, Samuel; PEREGO, Elvira. Quelques Notes par... In GASCAR, Pierre. Le Cheveu Essentiellement. Paris: Nathan/Delpire, 1998. P. 108.
3. WARNER, Marina. Op. Cit., pp. 401-21.
4. FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Dicionário Aurélio. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 2ª edição, 1986. Pp. 1045, 1049.
5. WARNER, Marina. Op. Cit., p. 403.
6. Idem, p. 405.
7. Ibidem, p. 408.
8. Ibidem, p. 414.

21 de jun. de 2010

Cabelos: Uma Tragédia Grega


“Os textos da Antiguidade
clássica - grega e romana -
aludem com freqüência ao cabelo.
Ao descrever Aquiles a caminho do combate, Homero observa que o
vento levantava os orgulhosos
anéis de cabelo que lhe
aureolavam a cabeça”
(1)

Conta-se que Medusa era uma jovem lindíssima e muito orgulhosa de sua cabeleira. Tendo ousado competir em beleza com Atena, esta fez nascerem serpentes em sua cabeça e transformou-a em Górgona. Depois que Perseu matou e degolou Medusa, Atena colocou a cabeça desta no centro de seu escudo. Os inimigos que olhassem para ela se tornariam pedra. A visão de uma só mecha da outrora lindíssima cabeleira da Górgona era o suficiente para afugentar um exército (2).

Seu olhar era penetrante que podia literalmente petrificar aqueles que a encarassem. No topo de sua cabeça, uma cabeleira formada por uma multidão de serpentes. Em O Escudo de Hércules, Hesíodo escreveu sobre “cabeças de terríveis serpentes” que espalhavam o terror entre os homens. Quando as serpentes das Górgonas foram lançadas aos calcanhares de Perseu, elas “dardejavam a língua e rangiam os dentes com furor, lançando olhares selvagens”. Quando Aquiles está em combate, no “furor do morticínio”, seu rosto é como a máscara das Górgonas (3). (imagem acima, Medusa, pintada por Caravaggio, 1598; abaixo, à direita, outra Medusa, pintada por artista holandês não identificado, século 16)

Os guerreiros deveriam manter seus cabelos longos, o que deveria fazê-los parecer maiores e mais terríveis. Especialmente durante o perigo, os jovens guerreiros tratavam de seus cabelos. Naquela Grécia, existia uma relação entre as crinas dos cavalos de guerra e o louro acobreado dos cabelos que o jovem guerreiro agita como uma crina. A selvageria do guerreiro macho se manifesta em sua cabeleira longa e esvoaçante como a crina de um cavalo (4). Numa batalha, entre os lacedemônios e os argivos, estes foram vencidos e passaram a raspar as cabeças. Os primeiros, vitoriosos, promulgaram uma lei impondo a cabeleira longa.


Os cabelos raspados denotam nesse contexto vergonha da derrota, luto. Os cabelos longos são sinônimos de vitória, celebração. A beleza viril do guerreiro, Vernant sugere, realçada por uma cabeleira longa e esvoaçante comporta um aspecto terrificante. O efeito deste último no campo de batalha era um sinal de vitória (5). Os homens de Esparta tinham como tradição raptar mulheres para se casarem. Elas teriam seus cabelos raspados e eram enfiadas em roupa masculina. Um ritual de inversão da condição sexual – um rito de passagem. A virilidade dos homens seria garantida caso o sinal estivesse presente – uma cabeleira longa. Raspando-se a cabeça da jovem noiva tira-se dela o que ainda pode haver de masculino e guerreiro em sua feminilidade. Evita-se assim a introdução no lar, sob a máscara da mulher casada, da face da Górgona Medusa – o “rosto” da Górgona é o sexo feminino tornado máscara (6). Do ponto de vista dos homens, ao cortar-se os cabelos das recém-casadas, exorciza-se nelas um inquietante elemento. Trata-se da selvageria que Atena e Ártemis, as duas virgens excluídas do casamento, preservam cada uma de um jeito. Atena, a guerreira, pela face de Gorgó que ostenta no peito. Ártemis, aquela que cuida de todos os rebentos, a selvagem, pelo lado gorgônico de seu personagem e pelas máscaras que intervêm nos ritos de iniciação de jovens presididos por ela (7).

Pela cabeleira, o guerreiro se aproxima da animalidade, das serpentes ou dos cavalos. A cabeleira de réptil ou de cavalo é um dos atributos da Górgona por ser pavoroso, representa uma viagem para a terra do Pavor. Ao contrário de Freud, Jean-Pierre Vernant não vê o tema da castração relacionado à Górgona – a questão da necessidade de raspar a cabeça da noiva para “extirpar-se dela o que pode haver de másculo e de guerreiro em sua feminilidade”. (abaixo, A Cabeça de Medusa de Peter Paul Rubens, 1617)

As serpentes na cabeça dela não são pênis. A raiva furiosa que toma conta do rosto do guerreiro no combate não remete à virilidade, mas um poder de morte que o invade. Os temas do Pavor, do Horror, da Morte têm um alcance muito maior aqui do que a virilidade. Portanto, conclui Vernant, em sua opinião a decapitação de Medusa por Perseu também não constituiria uma castração, disfarçada ou não (8). Fálicas ou não, as serpentes estão na cabeça da Medusa, poderiam estar em outro lugar qualquer do corpo! Poderiam?



Notas:

Leia também:

A Cegueira da Visão (I)
Pênis Guerreiro
Masculinidade e Violência
Entre o Rosto e o Corpo

1. DESLANDES, Yvonne; FONTANÈS, Monique. Historia das Modas do Toucado In POIRIER, Jean (org.) História dos Costumes. Tradução Manuel Ruas. Lisboa: Editorial Estampa, 1998. Volume II, As Técnicas Corporais. P. 217.
2. BRANDÂO, Junito de Souza. Mitologia Grega. Petrópolis: vozes, vol.1, 2ª ed., 1986. P. 239.
3. VERNANT, Jean-Pierre. A Morte nos Olhos. Figuração do Outro na Grécia Antiga. Tradução de Clóvis Marques. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2ª ed., 1991. P. 53.
4. Idem, p. 59.
5. Ibidem, pp. 55-7.
6. Ibidem, p. 41.
7. Ibidem, pp. 59-60.
8. VERNANT, Jean-Pierre. Entre Mito & Política. Tradução de Cristina Murachco. São Paulo: Edusp, 2001. Pp. 77-82.

20 de jun. de 2010

Se Cabelo Fosse Só Pêlo...


Certo dia da década de 40 do século passado, uma polonesa corta seus longos cabelos louros em troca de dinheiro. Quem vai comprar é uma judia cujo cabelo não cresce mais desde que foi libertada de um dos campos de extermínio dos nazistas. Antes de cortar, o barbeiro faz uma longa traça, para que o cabelo saia mais organizado daquela cabeça. Enquanto corta, ele pergunta se o marido sabe o que ela está fazendo. Certamente, a pergunta dele denota o machismo presente na cultura polonesa, e talvez tenha relação também com a preocupação da judia em recompor sua silhueta. Por falar em silhueta, no final da Segunda Guerra Mundial, além das surras e humilhação pública, por toda a Europa as prostitutas, e outras colaboradoras em geral, que se relacionaram com o ocupante alemão, tiveram seus cabelos raspados em praça pública. No caso da polonesa, trata-se da cena de Katyń (direção Andrzej Wajda, 2007). No segundo caso, podemos presenciar tal cena em Mallena (direção Giuseppe Tornatore, 2000).

Um pouco antes disso, a pintora mexicana Frida Kahlo está a construir mais um de seus tantos auto-retratos. Sentada e vestindo terno, segura uma tesoura olha para nós. Seu corte de cabelo é masculino, à sua volta muitas madeixas espalhadas dão testemunho de sua feminilidade esparramada. Frida se representou como homem, o corte de cabelo talvez fale mais alto nessa direção do que a vestimenta masculina. Era fascinada pela androginia, mas desejou também misturar seus traços com os de Diego Rivera. O pintor e muralista mexicano era o amor da vida dela e já no diário de Frida encontra-se o desenho de um rosto dividido em duas metades. O lado esquerdo, ostentando longos cabelos, representa uma mulher. O lado direito, um homem de cabelos curtos (1). Dois episódios num oceano infinito de exemplos que evidenciam uma obsessão em relação aos cabelos. Obsessão que talvez vá além da simples indução ao consumo de cosméticos ou do narcisismo de uma sociedade em crise de valores.




"Olha
,
se te amava
,
era pelo teu cabelo
.
Agora que estás
careca
, não
te amo
mais"



Frida Kahlo,
escrito sobre a pauta musical em seu
Auto-Retrato com Cabelo Cortado
, 1940



Nota:

Leia também:

Retrato e Auto-Retrato
Imagem Corporal e Satisfação

O Rosto e a Ética na Televisão

1. BERNHEIM, François; KAMMER, Samuel; PEREGO, Elvira. Quelques Notes par... In GASCAR, Pierre. Le Cheveu Essentiellement. Paris: Nathan/Delpire, 1998. P. 102. 

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