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Roberto Acioli de Oliveira

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9 de jan. de 2010

Arte do Corpo: Jan Saudek e o Tempo




“Nossa vida é uma

jorna
da, uma jornada
até o fim da noite
...





Autobiográfico, o trabalho de Jan Saudek é único, foge a todas as classificações – ou, na sua classificação possível, ele está sozinho. Ele sempre esteve à frente de seu tempo: criava encenações para suas fotografias antes dessa onda aparecer, manipulava as imagens antes de isso virar moda, fotografava a si mesmo antes que os existencialistas começassem a fazer isso. A questão da identidade centraliza nossa atenção nas imagens criadas pelo fotógrafo Tcheco Jan Saudek, apresentando a condição humana em todas as suas contradições inerentes (1). Até o final dos anos 70 do século 20, seu trabalho era uma celebração da “Família Humana”, a apoteose da feminilidade, masculinidade, maternidade, paternidade, infância, amor... as questões do nascimento e da morte. Nos anos 80, a dualidade das emoções começa a aparecer em seu trabalho. A relação entre amor e ódio, sinceridade e dissimulação, beleza e feiúra, juventude e velhice. Elementos contraditórios que se complementam, criando uma tensão dramática. Nos anos 90 temos as questões concernentes ao sentido da vida. Focando na corporeidade, brutalidade, quase perversão e algum masoquismo, a obsessão de Saudek pelo corpo (qualquer corpo, seja velho, gordo ou deformado) não é guiada pela moderna estética do repugnante, mas por um hedonismo erótico.

Um fotógrafo que não acredita no acaso, Saudek não se aproveita daquilo que aparece no caminho. Ele busca infatigavelmente retratar o que tem no coração (imagem acima à esquerda, Hands, 1971; acima à direita, Card nº 358, 1988; à esquerda, ?, 1997; abaixo, Goodbye, Jan (I), 1994). Muitos são seus imitadores, mas falta em suas fotografias uma coisa que para Saudek é a diferença de seu trabalho: “Eu fotografo meus amados através do prisma do amor...” Qual é o tema de Saudek, futilidade cômica? Kitsch? Contos de fada obscenos de um exibicionista? Pornografia? Quando lhe perguntam o que essa ou aquela imagem significa, ele diz não saber:

“O artista também não compreende. Ele é um idiota, criando em função de um tipo de necessidade” (...)”É claro, todo esse esforço aflito, essa desesperada e obstinada tentativa de capturar aquelas poucas pessoas que eu amei, para gravar sua aparência de uma vez por todas, não é nada senão o antigo desejo sem sentido de parar o tempo. Minha câmera em minha mão e minha vida na minha frente – e ao comando, na moda militar: Alto!” (2)



O erotismo está presente
nas fotografias de Saudek
. Eróticas,
mas não vulgares
. A pornografia aponta
para o apetite sexual
, nas imagens de Saudek o erótico é apresentado
como parte da vida




Corpos nus, posições eróticas, algum sadismo, lesbianismo, hermafroditismo, vulgaridade. Saudek já foi acusado de fazer pura pornografia. Não se questiona que ele utilize alguns componentes pornográficos. Entretanto, sugere Daniela Mrázková, como um escritor que utiliza certo vocabulário que não ocorre na linguagem diária, Saudek lança mão de alguns artifícios que constituem tabu para a maioria das pessoas (seja porque suas imagens são muito intimistas ou simplesmente indecentes). (imagem ao lado, Mother and her Children, 2003; acima, à esquerda, The End of the Film, 1997)

Saudek faz uso sistemático de tudo que influenciou nossa cultura por milênios e não apenas sexo e o erotismo. A respeito disso, é curioso notar que a utilização de armas, ou cigarros, ou suicídios em suas fotografias, não parece causar o mesmo rebuliço! A distinção que ele faz entre arte e pornografia é bastante singela: “Para mim, a diferença entre pornografia e arte é simples – você pode olhar para a arte por uma eternidade, enquanto com a pornografia você dá uma olhada e coloca de lado porque tudo é explícito, não há mistério, a fantasia não tem lugar ali”. (3) (ao lado, The Dancer, 2003)


Foi através da publicidade que Saudek acompanhou a popularização de seus trabalhos mais ousados, quando então se abriram as portas das coleções públicas e privadas para sua obra. Paradoxalmente, as visões eróticas de Saudek parecem não caber no mundo de hoje: são eróticas, mas não são vulgares - e muitos confundem as duas coisas. O objetivo da pornografia é despertar o apetite sexual, Saudek trabalha com o exagero humorístico, apresentando expressões do erótico como parte da vida. Com isso, ele evita o banal e o kitsch, tudo que poderia (pela incompreensão e a preguiça) ser chamado de pornografia. (ao lado, The Disobedient Daughter, 2001)

Notas:

1. MRÁZKOVÁ, Daniela. Jan Saudek. Köln: Taschen, 2006. P. 48.
2. Idem, p. 42 e 44.
3. Ibidem, p. 44.

1 de out. de 2009

Puritanismo e Ficção Científica (I)


“A ficção científica é um refúgio,
fuga para escapar do mundo dos
adultos
e suas responsabilidades”

Alexandre Hougron
Science-Fiction et Société, p.264

Muitas vezes os filmes desse gênero são relegados ao fundo das prateleiras das locadoras. Ou são considerados filmes para criança, ou sem valor cinematográfico, ou ainda como uma coleção de efeitos especiais rudimentares demais para nós que vivemos na era dos efeitos especiais de computação. Entretanto, o fato de serem considerados filmes “para crianças” por si só deveria significar que deveríamos saber mais sobre esse “divertimento”. Os efeitos especiais rudimentares nos filmes mais antigos podem cansar os mais desatentos (alias, falta de atenção parece ser uma marca de nossa época), porém uma analise mais pormenorizada pode mostrar-nos uma verdadeira história da evolução dos efeitos especiais no cinema.

Entretanto, apesar de todas essas qualidades, aqui iremos nos concentrar apenas no elemento “divertimento”. Será que a ficção científica pode mesmo ser considerada apenas isso? Apesar de ter nascido antes da invenção do cinema, deixaremos a literatura de lado e vamos nos concentrar nele. Seguiremos a trilha de Alexandre Hougron. Em seu livro, Science-Fiction et Société (1), procurou mostrar quais as possíveis relações entre vaginas, monstros gosmentos e comportamento puritano. O que um “divertimento” poderia nos ensinar sobre nossa sexualidade?

Muito identificado com certa ética religiosa, o comportamento puritano vem interferindo e moldando nossa sexualidade há muitos séculos. Mesmo quando acreditamos que somos conscientes de nossa sexualidade não percebemos como nossos atos podem ter sido já previstos e induzidos por mecanismos puritanos. O ponto que talvez chame mais atenção na análise de Hougron é a constatação da incapacidade profunda na sociedade ocidental em incorporar o contraditório, o diferente, o Outro: a mulher. (imagem acima, A Mulher Vespa, direção Roger Corman, 1959; imagem ao lado, Tubarão, Jaws, direção Steven Spielberg, 1975; imagem abaixo, A Ilha do Dr. Moreau, Island Of Lost Souls, direção E.C. Kenton, 1933)

Pudera, desde o nascimento da filosofia, lá se vão 2.500 anos, o discurso hegemônico da Razão procura de todas as formas eliminar ou, pelo menos, neutralizar a pluralidade da vida. A intenção até que podia ser boa: explicar o mundo pelas semelhanças, e n ão pelas diferenças. A heterogeneidade do mundo e da vida deveria ter como fonte um elemento comum básico. A partir daí, tudo que significasse desvio era eliminado como exceção ou erro. Onde a ficção científica entra nisso? O que nossa sexualidade tem a ver com o contraditório? O que a vagina tem a ver com a ficção científica?

Sobre Animais Impuros e Homens Puros

“Essa simbólica da perda de
uma Idade de Ouro
. Temática pagã,
e
, mais especificamente, no judaísmo
e cristianismo
, que a assimilaram.
Aquela do desaparecimento de uma ‘natureza’ humana
edênica que é, na realidade, um estado de pureza e incorrupção (lembremos que Adão
era imortal antes da Queda)”

Science-Fiction et Société, p. 108

O puritanismo elimina o caráter iniciático que sugere que a pureza é fruto de uma busca espiritual. Portanto, a pureza seria uma recompensa. O puritanismo passa a considerar a pureza como fruto do simples fato de alguém se declarar crente. No caso anterior, também se acreditava que somos intrinsecamente puros, porém seria necessária uma busca dessa pureza. No caso do puritanismo, basta sabermos que somos puros. Esta postura está na base de uma visão de superioridade em relação aos que não professam aquela fé ou são ateus. Trata-se de uma construção religiosa que não admite a hipótese de um ser humano contraditório e m sua natureza. Nas religiões orientais e panteístas, não existe essa postura monolítica (integrista). No Ying sempre existe algo de Yang e vice-versa. A tolerância é mais efetiva. Essa tolerância não existe nos grandes monoteísmos (Cristianismo, Judaísmo e Islamismo). Desta forma, o homem definitivamente puro (2) torna-se um fantasma, perseguido mas nunca encontrado, por duas culturas agressivas e imperialistas (os ocidentais, e o mundo muçulmano). (as próximas três imagens abaixo, O Monstro da Lagoa Negra, Creature from the Black Lagoon, direção Jack Arnold, 1954)

Batem-se entre si buscando afirmar um homem que seja absolutamente santo. O motor dessa agressividade engendrada pelos puritanos. O puritanismo também se manifesta pelo puritanismo sexual, muito comum nos filmes de horror. Nesses filmes, só a virgem sobrevive! Assim sendo, o casal que morre esfaqueado porque se afastou para fazer sexo, reencontra sua própria animalidade na figura do monstro assassino. Dito de outro modo, se não somos puros, os monstros que nos atacam são duplos de nós mesmos. O autor considera o puritanismo americano como a forma mais neurótica de puritanismo. Ainda segundo o autor, aquilo que deixa o código puritano bem visível é justamente o que chama de histeria anti-sexual americana. Já na Ficção Científica o puritanismo é mais sutil (3).

Hoje em dia, o puritanismo se metamorfoseou, perdeu as referências religiosas. Entretanto, ele foi além e se naturalizou. O puritanismo não está mais numa substância reconhecível, está em nossa moral, em nossas mentes. O paradoxo é tão grande que um espectador que não se conforme aos códigos morais puritanos, irá assistir normalmente a um filme de horror ou ficção científica. Quer dizer, irá aderir aos discursos reacionários puritanos quase que inconscientemente. Segundo Hougron, todo o cinema ocidental, de ficção científica, e mesmo o de não-ficção, está impregnado por esses valores – onde a virgindade e a inocência serão recompensadas (4).

É a questão do prazer pelo proibido. Como o puritano é um frustrado, gera grande prazer aquilo que é interditado para ele. O frustrado se identifica com o monstro ou o psicopata. O puritanismo proíbe o sexo, mas o sugere e associa à violência e ao sadismo. Desta forma, o sexo é substituído (coitus interruptus) pelo espetáculo do sangue e da morte. Satisfação sexual e violência tornam-se equivalentes. O pênis é substituído pela faca ou revolver, o sangue escorrendo substitui o esperma. Portanto, serial killers mascarados como o personagem de Jason, é criação de uma sociedade produtora de frustração. Essa lógica seria típica do puritanismo sexual, que é um produto americano – por esta razão não tem apelo na Europa, na França em particular (5).

Os filmes de horror são falsamente subversivos. O fato é que são puritanos e conservadores do fantástico. As estruturas mitológicas mudam devagar: existem sempre um super-herói, uma heroína, e eles acabam juntos. Sociedade ocidental: liberada e progressista na superfície, no fundo muito ligada a sua identidade. É aqui que o espectador americano e europeu se equivalem, pois ambos irão achar normal que o herói seja sempre mais puro do que ele ou ela. No filme de horror, é fácil captar o processo puritano. Porém, é mais complicado percebê-lo no nascimento da ficção científica (6). Primeiramente, os monstros das paredes e tetos das igrejas medievais dão lugar às representações da ordem e da beleza na Renascença. – da oposição entre natureza e cultura passamos a um tempo em que tudo que remete aos animais é “diabolizado”.

A Renascença lança a nova ordem da Razão e da Ciência, afastando-se do animal, do imaginário e do fantástico monstruoso. O animal está presente no imaginário ocidental como figura maléfica e monstruosa. Essa latência é que explicaria a criação da ficção científica. É aí que irá se exprimir toda a ”monstruosidade” do indivíduo, seu inconsciente pulsional, cheio de fantasmas e fobias. A ficção científica é uma catarse que mostra uma interioridade soterrada por 20 séculos de cristianismo e depois pelo positivismo. A ficção científica traz de volta o universo simbólico medieval, articulando-o à dobradinha Ciência-Razão: o maravilhoso científico, ou, a ficção científica.

Eis que surgem o naturalista Charles Darwin e o escritor H.G. Wells. O primeiro reintroduz uma filiação entre homem e animal numa relação que a Igreja havia hierarquizado. Ela havia estabelecido que somente o homem fosse puro e originalmente santo, enquanto os animais seriam profanos. As mulheres seriam criações secundárias a partir do homem. H.G. Wells mantém a ligação entre animal e Mal em seus escritos, condena o puritanismo que denigre o animal e o monstro. Em sua opinião, temos uma parte monstruosa que nega todo o nosso suposto angelismo.

Ao invés de opor monstruosidade e pureza, a ficção científica traça um paralelo entre nós e eles. A psicanálise, seja de Freud ou de Jung, não fez outra coisa (7). Em seus romances, H.G. Wells questiona essa cultura da pureza. Toda a sua obra pode ser lida como uma grande reação ao puritanismo, assim como um questionamento da idéia de perfeição do europeu cristão do final do século XIX. Como em A Ilha do Dr. Moreau (Island of Lost Souls, 1932), onde se faziam experiências biológicas que misturavam homem e animal. O personagem principal volta da ilha e acredita enxergar o animal, a besta, sob o verniz civilizado dos homens da cidade grande. Coloca-se à nu uma contradição em relação à incondicionalidade da pureza do homem, assim como sua impossibilidade prática. Wells também mostra a coincidência entre um ressurgimento do mito da pureza e a construção das primeiras teorias racistas do final do século XIX (8).

A ficção científica será, ao mesmo tempo, fruto do puritanismo e uma reação contra ele. Sempre a partir do impasse: ser um anjo, um super-homem, mas também um ditador, um censor, um tirano. A própria história ocidental seria uma sucessão de fanatismos em relação à pureza. Uma recusa do imaginário que acaba alcançando seu contrário, a ficção científica. Ela representa uma dominação da ligação entre animal e Mal (monstro) ao mostrá-la. A representação do monstro equivale a sua expulsão e a uma espécie de petrificação que o neutraliza fora de nós. A partir do racionalismo cientificista do século XIX, a noção de progresso substitui a idéia cristã de saúde. Entretanto, em ambos os casos, a vontade de “ordem” (divina ou cientifica) subsiste. A ciência afasta do campo de visão da sociedade tanto as aberrações genéticas quanto os deficientes mentais. Numa sociedade do super-rendimento físico e do narcisismo, essa “desordem”, essa monstruosidade deve ser evacuada de nosso universo.

Mas o monstro triunfa na ficção científica (9). A ficção científica denuncia e critica a sociedade da técnica por tentar banir o imaginário, opondo-o a ordem. Este erro a Igreja também já havia cometido. Por outro lado, devemos admitir que a ficção científica como um todo não esta a serviço do imaginário. Existe também uma ficção cientifica reacionária (10). Na opinião de Hougron, a boa ficção científica, nos trás de volta nossa esfera íntima ilimitada: o sonho. (imagem acima, Guerra dos Mundos, War of the Worlds, direção Byron Haskin, 1952; imagens abaixo, O Médico e o Monstro, Dr. Jekill & Mr. Hyde, direção John S. Robertson, 1920; Guerra nas Estrelas, Star Wars, direção George Lucas, 1977)

É no sonho que nosso imaginário pode ser reencontrado. O autor cita o sucesso que os dinossauros fazem atualmente entre as crianças. Não se trata de “animais simpáticos” ou da “imagem dos pais”, o que seduz nos dinossauros é o fato de serem monstros. Assim como os contos de fadas que devem ser ao mesmo tempo horríveis e sedutores para melhor dominar o inconsciente e suas pulsões, a ficção científica seria como uma terapia. Daí a importância dos monstros, seres que encarnam nossa animalidade. Mas não devemos esquecer de rejeitar uma ficção científica ruim, que apenas reproduz estereótipos e preconceitos. Sob formas degradadas, que privilegiam a violência e agressividade, a ficção científica tem tudo para constituir um novo “ópio do povo”. A ficção científica pode nos levar a refletir sobre nosso destino social, servindo também como utensílio de contestação. Uma estratégia de fuga reestruturante em relação à coletividade.

Exagerando um pouco, Hougron chega a afirmar que, pelo fato de não haver ficção científica em países com regimes totalitários, ela é naturalmente libertária (11). Ele só não deixa claro se os Estados Unidos, maior produtor de ficção científica, é ou não um regime totalitário – ou se os filmes do gênero lá produzidos (ou pelo menos parte deles) são ou não ficção científica reacionária. Lembro-me neste ponto de dois filmes do cineasta russo Andrei Tarkovski, Solaris (1972) e Stalker (1979). Tarkovski fazia seus filmes em plena vigência do regime comunista soviético. Não é que ele não tivesse lá seus problemas para filmar, mas não me parece que os empecilhos que enfrentava tivessem relação com o fato desses filmes serem de ficção científica – seus problemas eram a burocracia e a censura, o que atingia todos os seus filmes, e não apenas aqueles cujo gênero é a ficção científica. De qualquer forma, os filmes foram realizados. Hougron nem mesmo cita Tarkovski em seu livro e, embora critique boa parte da produção americana de ficção científica, não chega a ser explícito na articulação entre a produção de ficção científica reacionária e o país onde foi produzida quando esse país é os Estados Unidos.

A maior parte dos primeiros romances de ficção científica trata da animalidade no homem. O que tem relação com a rejeição dessa animalidade pelo cristianismo e a hipócrita dissimulação disse fato. A ficção científica é marcada tanto pelo mito da pureza no ocidente quanto pelo antídoto para essa situação. Hougron admite que muito da ficção científica dos bons autores também está impregnada de uma representação puritana da animalidade. Os marcianos de Wells, de A Guerra dos Mundos (War of The Worlds, 1953), e o Mr. Hyde, de O Médico e o Monstro (Dr. Jeckyll and Mr. Hyde, primeira de várias versões para cinema, 1920), de Stevenson, apresentam esses nossos duplos de uma forma tranqüilizadora: afirmam que não somos assim!

Segundo Hougron, Guerra nas Estrelas (George Lucas, 1977), e todas as seqüências, são o melhor exemplo do puritanismo na ficção científica(imagem ao lado). Tragédia shakespeariano-edipiana, gira em torno da relação entre o filho (justo) e o pai (corrupto). A questão é saber se a “morte do pai” (elemento psicanalítico) pode às vezes ser legítima. George Lucas, o idealizador da série e diretor dos filmes, decidiu que Luke deve salvar o pai (o vilão Darth Vader) para salvar a si mesmo. A trilogia fala da passagem para a maturidade: ao invés de ceder a suas pulsões e matar o pai, mata-se simbolicamente a parte ruim do pai, fazendo surgir o pai bom. A morte do Mal se dá pelo amor do filho ao pai. George Lucas rompe com mitologias onde o pai deve matar o filho para evitar que este o mate e o retire do trono no futuro.

O que salta aos olhos é a quase ausência de mulheres na trama. Portanto ausência de sexualidade. Vemos aí aparecer o puritanismo dessa estória pré-púbere. A princesa, quando vira mulher, é para sabermos que na verdade é a irmã de Luke – portanto, qualquer coisa aqui seria incesto. Hans Solo, piloto da nave espacial que leva todos pela galáxia, a sexualidade masculina adulta, não consegue nada com a princesa. Trata-se de uma temática familial, entretanto sem uma mãe para criar um conflito edipiano. Esse conflito é apenas sugerido pelo antagonismo Luke x Darth Vader. Parece que George Lukas tem grande interesse pela questão da passagem à idade adulta. Na verdade, um interesse por não se tornar adulto – aliás, uma qualidade de todo grande autor de ficção científica (12).

Leia Também:

Puritanismo e Ficção Científica (II)

Notas:

1. HOUGRON, Alexandre. Science-Fiction et Société. Paris: PUF. 2000.
2. P. 100.
3. P. 101.
4. P. 102.
5. P. 103.
6. Pp. 102 e 105.
7. P. 111.
8. P.112.
9. P.115.
10. P.117.
11. P.119.
12. P.124. 


28 de jun. de 2008

Fetiches Digitais: Conexão Seios (III)


"Os  homens  se  deitam
eufóricos com Gilda e acordam decepcionados com Rita"


Rita Hayword, atriz norte-americana,
comentando o constrangimento que já
lhe trouxe a constatação pelos homens
de que ela não é Gilda, personagem que
um dia representou nas telas de cinema


Seios Virtuais, Violência e Morte

O mundo digital da realidade virtual também já foi invadido pelo fetiche (norte-)americano. As heroínas dos jogos de computador (também chamados no idioma colonizado brasileiro de games – leia-se “gueimes”) são peitudas e magras. Além disso, são totalmente masculinas (viris e violentas). Tiro pra cá, tiro pra lá. Tudo muito educativo é claro! Mais uma dessas modas que veio “do norte”, seios grandes nunca foi uma preferência nacional brasileira – leia-se culturalmente produzida no “seio” da sociedade brasileira. Do jeito que somos macacos de imitação, vai chegar o dia que mutilaremos a nossa preferência nacional (a bunda) só para que possamos dizer que estamos na moda – lá nos “esteites” o ideal é muito busto e pouca bunda.

Noventa por cento dos jogos de computador são vendidos para pessoas acima dos dezoito anos (1). Com isso quero sugerir que os jogos de computador não são mais feitos somente para crianças. Mas isso significa que os temas se diversificaram? Política, história, ecologia, literatura, poesia, teatro, romance, filosofia, cinema, medicina, direitos civis, mensagens contra a violência em relação à mulher/filhos/negros/pobres, esportes? Bem, não exatamente. Esportes até existem nos jogos de computador, mas o forte gira em torno de violência e morte. Jogos em que mulheres são heroínas invariavelmente não exaltam personalidades humanitárias. Vejamos alguns exemplos nos jogos, Dead or Alive, Druuna (imagem acima, lado esquerdo), Fear Effect, No One Lives Forever, Perfect Dark, Tomb Raider e Urban Chaos. As mulheres são aí representadas como meros objetos sexuais, suas armas seriam talvez símbolos fálicos que matam principalmente homens. Sendo assim, elas são gostosas e peitudas, mas ao mesmo tempo destruidoras de homens. Como os criadores destes jogos são principalmente homens, talvez Freud explique. “E como poderá um homem alguma vez ter esperança de encarnar uma mulher, mesmo sendo ela virtual?” (2)

Quem São as Peitudas Virtuais 


Joan “Perfect” Dark, a personagem de Perfect Dark e Cate Archer, a heroína sexy de No One Lives Forever, não passam de clones de James Bond em corpo de mulher; ou Lara Croft, personagem de Tomb Raider, versão feminina de Indiana Jones (ao lado). Lara Croft é uma arqueóloga, entretanto as únicas qualidades que parecem interessar aos homens/consumidores seriam uma capacidade de agir violentamente e o belo corpo. Hitomi a karateca, Tina a lutadora, Lei Fanf mestre em t’ai chi e Ayana a ninja, estas são as personagens de Dead or Alive. Morto ou vivo, como diz o título, apresenta meninas/mulheres com roupas sensuais participando de um torneio de artes marciais onde nada é ilegal. Ah, temos a opção de escolher as roupas delas! A alma de Druuna é prisioneira de um mundo dominado por um vírus que provoca a busca por sexo e sangue. O jogador deverá libertá-la. O jogo foi baseado em estória em quadrinhos do mesmo nome, apenas foram cortadas ou suavizadas as práticas sexuais violentas e a brutalidade sanguinária. Ainda assim pergunta-se, mulheres gordas e de peito caído não tem direito a estar possuídas por um vírus pornográfico?


Em Fear Effect duas mulheres (uma delas é classificada como euro-asiática) e máquinas de matar atacam o crime organizado, sem a preocupação em seguir as regras. O jogo “joga” também com o fetiche masculino de um homossexualismo feminino insinuado. D’Arcy Stern é uma policial negra armada até os dentes em Urban Chaos. Curiosamente, mesmo que as várias mulheres tenham as mais variadas origens (euro-asiática, afro-americana), isso somente fica um pouco marcado no rosto, pois no restante o corpo parece basicamente o mesmo – e os seios grandes e empinados também. (3)

Um seio é apenas um seio?

Notas:

1. CHOQUET, David (ed.).1000 Game Heroes. Köln: Taschen, 2002. P. 517.
2. Idem, p. 505.
3. Ibidem, pp. 506-41. 


24 de jun. de 2008

A Guerra dos Seios: Conexão Seios (II)


A Guerra dos Seios nas Histórias em Quadrinhos



Existe um ponto onde se encontram “peitões de silicone”, “peitões de papel” e os “tigres de papel”. Chamo de peitões de papel aos mamilos das heroínas de histórias em quadrinhos que, principalmente a partir das vésperas da Segunda Guerra Mundial, começam a povoar os olhos, corações e mentes dos garotos e garotas (na América do Norte) e os soldados (norte-)americanos nos campos de batalha. Tigres de papel era como os chineses se referiam aos (norte-)americanos. (ao lado esquerdo, a Bat Girl na versão para tv na década de 60 do século 20; do lado direito, sua rival, a Mulher Gato também na da década de 60 na versão para tv)


Entre dezembro de 1941 e janeiro de 1942, poucas semanas antes da América (do Note) entrar oficialmente na Segunda Guerra Mundial, a indústria dos quadrinhos apresenta a Mulher Maravilha aos garotos americanos; e também para as garotas e mulheres, que tiveram que assumir a casa e o trabalho nas fábricas. Ela vivia numa ilha perdida com um monte de amazonas com poderes mágicos e imortais – o que significa que elas não precisavam de homens para se reproduzir. Então um piloto americano cai ali e a rainha manda a própria filha com ele para o mundo exterior para “lutar pela América, a última cidadela da democracia, e dos direitos iguais para mulheres” (1). A própria rainha desenha a roupinha da filha, que vem a ser um biquíni (da época) com as cores e estrelas da bandeira (norte) Americana. Tempos depois, lá pela década de ’70, a heroína ressurge na televisão. Em 1976, “a mulher” aparece tentando reabilitar sua inimiga, uma espiã nazista (2).

A Mulher Maravilha compartilha com Batman e Super-Homem a distinção de manter uma publicação por mais de 50 anos. Ela foi a primeira mulher e objeto da cultura de massas que batia e subjugava os homens além de ser mais honesta que eles. Com o fim da guerra as vendas caíram, pois com a volta dos seus homens e maridos, as mulheres foram forçadas a voltar para a cozinha. Curiosamente (ou não), seu criador foi um psicólogo, um crítico das histórias em quadrinhos e inventor do detector de mentiras, que acabou sendo menos efetivo nos americanos do que o personagem que criou – seu precursor parece ter surtido mais efeito, a Mulher Maravilha (imagem do lado esquerdo, na versão da década de 90 do século 20; ao lado direito, a versão para televisão na década de 60) possuía uma corda mágica que fazia qualquer um dizer a verdade quando estava envolto em seu laço. Além disso, também escrevia livros de auto-ajuda como “A Arte do Casamento”. Depois de ler o artigo do psicólogo contra os quadrinhos, um dos executivos dessas revistas consegue contratá-lo, com o suposto objetivo de tornar as estórias mais benéficas do ponto de vista psicológico. William Moulton Marston, o psicólogo, afirmou “parecia a mim, de um ponto de vista psicológico, que a pior ofensa dos quadrinhos era sua masculinidade aterrorizante. Um herói homem, na melhor das hipóteses, não possui as qualidades de amor maternal e ternura que são tão essenciais para a criança como o sopro da vida”.

Ele pretendia desenvolver uma personagem que fosse “terna, submissa, amante da paz como são as boas mulheres”, uma que tivesse “a força de um Super-Homem além de toda a sedução de uma boa e maravilhosa mulher”. Marston acreditava que o fato dos consumidores de quadrinhos serem predominantemente de homens não seria problema. Como ele disse, “apresente uma mulher sedutora mais forte que eles e ficarão orgulhosos em tornarem-se seus escravos!” (3). Além de misturar feminismo e patriotismo, a Mulher Maravilha tinha o principal: peitões e um decote bem pronunciado. E isso parece mesmo fazer diferença, tanto é que tentaram modernizar o visual da heroína em 1968, mas as vendas despencaram e a coisa não durou mais que 25 números da revista. Outra super-heroína e boazinha que não durou muito foi a Bat Girl que, apesar de peitos empinados, era muito menos interessante que a vilã e também peituda Mulher Gato. Ao contrário daquela do seriado de tv da década de 60, uma nova versão com Michelle Pfeiffer (acima, do lado esquerdo) já não tinha seios fartos. Depois veio a versão com a afro-americana e meio branca Halle Berry (acima, do lado direito), com cabelos curtos, mas peituda novamente. Nos primórdios, a Mulher Gato praticava atos ilícitos apenas por diversão, na versão com Michelle ficou implícito que foi o chauvinismo masculino que a empurrou para uma vida fora da lei. Outro traço de personalidade que não costuma ser questionado em seus desdobramentos psicológicos (ou psicóticos) é o fato de que, como tantos outros super-heróis, estas heroínas têm dupla personalidade, pois se fantasiam de “gente normal” enquanto não estão em ação; o que não acontecem com vilãs como a Mulher Gato, que é ela mesma o tempo todo.

O Seio Empinado e o Soldado (Norte-)Americano


Uma curiosa associação entre seio (o doador do leite da vida) e morte foi inaugurada por nossos irmãos do berço da democracia no Novo Mundo. Durante a Segunda Guerra Mundial, os bombardeiros americanos pintavam mascotes em sua fuselagem para dar sorte. Na verdade, enquanto os nazistas estavam vencendo, só era permitido que se escrevessem frases (já que desenhos poderiam facilitar a visualização dos aviões), que podiam variar desde mensagens afetuosas (dirigidas a mulheres e não ao inimigo) até libelos do politicamente incorreto. Os tais desenhos também variavam em função de temas, de personagens de desenho animado, passando por charges depreciativas ao inimigo e… mulheres sedutoras. E os seios estavam lá, bem visíveis, para que os inimigos pudessem ver, com seus próprios olhos e antes de morrer, a ilibada e elevada moral do combatente (norte-)americano. Como paredes de borracharias voadoras, os aviadores copiavam os desenhos e fotos de pin-ups da época, para tornar as viagens mais agradáveis e garantir aos outros pilotos que ali naquele avião só tinha macho.

Nuas por inteiro ou até a cintura, essas figuras seriam um eco daquelas nas proas dos veleiros de outros tempos. Revistas de mulheres nuas eram mandadas sem despesa ao campo de batalha para “levantar o moral” do soldado americano. Entre 1942 e 1945, foram enviados seis milhões de cópias da revista Esquire, com as pin-ups criadas pelo mítico desenhista (de mulheres-objeto em poses sensuais) Alberto Vargas (4). Vargas girl: pouca roupa, seios empinados, pernas longas. Criada em 1942, a revista Yank não era de graça, custava uns cinco centavos aos soldados. Nessa revista, as mulheres eram mais parecidas com uma vizinha comum, mas também havia as maliciosas de seios grandes quase pulando das blusas que estavam quase caindo dos ombros. Muitas atrizes de Hollywood também eram eleitas como “bonecas de papel” pelos soldados, Jane Russel e Linda Darnell tiveram um grande impulso em suas carreiras seguindo este caminho. Muitos daqueles seios de Hollywood que iam para a guerra eram falsos, preenchidos com espuma no sutiã. Acho que a moda pegou aqui em nossas praias.

E por falar em praia, imaginem a cena, milhões de soldados desembarcam nas praias da Normandia, “arrombando” a Europa dominada pelos nazistas. Em suas mãos armas, em suas mochilas honradez, justiça, alimentos para os famintos, enfim, liberdade. Vamos tentar novamente, em suas mãos armas, em suas mochilas revistas de mulher pelada! Naquele filme famoso, O Resgate do Soldado Ryan (1998) (do famoso bom moço e diretor de cinema Steven Spielberg), faltou esse detalhe. Imagine aquela cena do desembarque, famosa por seu realismo: soldados sendo explodidos e pedaços de corpos por todo lado, a água vermelha de sangue e, espalhadas nesse cenário muitas, muitas revistas de mulher pelada. Será que se os soldados não tivessem as revistas de mulher pelada poderiam perder a guerra? É a moral deles que era levantada com essas revistas? O que talvez os soldados preferissem não lembrar é que suas esposas em casa poderiam também ter dificuldades em manter a abstinência sexual (ou o moral baixo, como os militares americanos preferiam referir-se em relação à “seus homens”). Então, mesmo que estivéssemos do lado do mundo livre (como os americanos gostam de se auto-intitular), tudo ia depender da quantidade de pornografia (leve é verdade) disponível para que eles concordassem em continuar morrendo em nome de um sistema financeiro? Bem, aqui no Brasil já temos a pornografia, só está faltando entender como ela se articula com a moral…

“O que viria a ser chamado o seio fetiche americano dos anos da guerra e do pós-guerra correspondia aos mais baixos [ou básicos] desejos psicológicos. Ao nível mais simples, os seios são sinais biológicos de diferença sexual que podem ser realçados de acordo com o momento histórico. A Segunda Grande Guerra foi um desses momentos. Os homens em combate no ultramar viam o peito feminino como uma lembrança dos valores que a guerra destrói: amor, intimidade, alimento. As funções maternal e erótica do seio ganharam um sentido acrescentado para uma geração inteira de soldados durante a guerra e muito depois dela, quando eles regressaram à ‘normalidade’”. (5)

Um seio é apenas um seio?

Notas:

1. DANIEL, Les. DC Comics: sixty years of the world´s favorite comic book heroes. New York: Bullfinch Press. 1995. P. 60.
2. Idem, p. 170.
3. Ibidem, p. 58
4. YALOM, Marilyn. História do Seio. Tradução Maria Augusta Júdice. Lisboa: Teorema, 1998. p. 167.
5. Idem, p. 169.

1 de fev. de 2008

Suicídio é Pecado Mesmo?

A partir do século VI d.C. a Igreja Católica passou a considerar o suicídio um pecado. Por que não foi assim desde o princípio? O que levou a esta decisão? A crença na vida após a morte? Na verdade, a crença na vida após a morte é que levava aos suicídios. Para além da vida depois da vida, a Igreja teria tido outros motivos mais terrenos. Suicidas, os primeiros cristãos, trucidados das mais variadas formas, ofereciam-se de bom grado para morrer nas arenas romanas em nome de sua fé. Nessa vida após a morte podemos ir para o paraíso ou para o inferno; dar a vida por sua fé garantiria o paraíso, além de encurtar o tempo de espera. Seja como for, a então nascente Igreja Cristã perdia muitos adeptos. Foi então que ela proibiu ao crente dirigir-se ao atalho do suicídio, testando sua fé durante uma vida toda de martírios e dúvidas. Portanto, a Igreja decretou que o suicida vai para o inferno. Ficando vivos, poderíamos nos testar de outras formas. Mas que formas são essas?
 
***
 
O Novo Testamento, através do qual os cristãos irão diferenciar-se do mundo judaico, não aborda este assunto (1). Quando Cristo diz a João, “minha vida ninguém tira de mim, sou EU que a dou por mim mesmo” e “Dou a minha vida pelas minhas ovelhas” (Evangelho de São João, 10, 15-18), não estaria fazendo uma clara opção pela morte voluntária? Tais afirmativas saídas supostamente da própria boca de Cristo criaram problemas para os teólogos medievais.
 
No contexto de um homem-Deus e da redenção, o suicídio de Jesus ultrapassaria o suicídio “vulgar”. Mas como deve agir o seguidor, o cristão? Ele, que deve imitar seu mestre, é convidado a fazer o sacrifício: “Quem quiser a sua vida, perdê-la-á, mas quem perder a sua vida por Minha causa, encontrá-la-á“ (Evangelho de São Mateus, 16, 25); “Se alguém vem ter Comigo e não me prefere ao seu pai, mãe, esposa, filhos, irmãos, irmãs, e até à própria vida, não pode ser Meu discípulo” (Evangelho de São Lucas, 14, 26); “Quem ama a sua vida perdê-la-á e quem neste mundo a rejeita conservá-la-á para a vida eterna” (Evangelho de São João, 12, 25); “Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida pelos seus amigos” (Evangelho de São João, 15, 13). Em muitas passagens do Novo Testamento Paulo, Tiago, Pedro, Lucas e João abominam (e convidam a abominar) a vida terrena. Ela é desprezível, um exílio que deveria ser o mais breve possível. “Mas, a meus olhos a vida não tem qualquer valor” (Atos dos Apóstolos, 20, 24), assim João ecoa vários textos do Antigo Testamento. (2) 
 
“As primeiras gerações cristãs entendem isso muito bem durante o período das perseguições e entregam-se voluntariamente ao martírio. ‘Eles desprezaram as suas vidas até ao ponto de aceitarem a sua morte’ [Apocalipse, 12, 11], dizia São João nos finais do século I e coloca no céu ‘aqueles que foram decapitados por terem dado testemunho de Jesus e terem acreditado na Palavra de Deus’ [idem, 20, 4]. No século II, São Justino, na sua Apologia, exalta os cristãos a correrem para a morte e no começo do século II Tertuliano e os montanistas (3) abundam em exemplos de cristãos que se entregam por si mesmos ou que, como resposta às autoridades, escolhem deliberadamente a morte”. (4)
 
Nos primórdios da Igreja Cristã, esta tendência se coloca claramente. Mas existe uma diferenciação entre a morte do desespero e a do mártir. O desesperado é um pecador, porque ele permitiu que o diabo o convencesse a condenar a si mesmo e também duvidar da misericórdia divina (5). Muita habilidade teológica fora empregada para proclamar a interdição do suicídio, o caso do suicídio de Judas talvez se enquadre nesse contexto como uma pedagogia que o crente deverá assimilar. O ato fundador do cristianismo é um suicídio, e seus discípulos exaltavam o sacrifício voluntário(6). Durante os três primeiros séculos, a Igreja se interroga sobre o exemplo de Cristo. Falsa visão do martírio? Para se opor ao donatismo, que exaltava o ato, no ano de 348 o bispo de Alexandria decide que não haverá mais orações em favor dos suicidas. De forma geral, a cúpula da Igreja adota posições conflitantes a respeito do caso nesses primeiros tempos. Foi então que Santo Agostinho bateu o martelo. Em A Cidade de Deus (I, 47), ele anuncia a doutrina rigorista que definirá a doutrina da Igreja:
 
“Nós dizemos, declaramos e confirmamos de qualquer forma que ninguém tem o direito de espontaneamente se entregar à morte sob pretexto de escapar aos tormentos passageiros, sob pena de mergulhar nos tormentos eternos; ninguém tem o direito de se matar pelo pecado de outrem, isso seria cometer um pecado mais grave, porque a falta de um outro não seria aliviada; ninguém tem o direito de se matar por faltas passadas, porque são sobretudo os que pecaram que mais necessidade têm da vida para nela fazerem a sua penitência e curar-se; ninguém tem o direito de se matar na esperança de uma vida melhor imaginada depois da morte, porque os que se mostram culpados da sua própria morte não terão acesso a essa vida melhor”. (7) 
 
O suicida passa então a ser considerado um covarde (porque não suporta provações), um vaidoso (porque se importa em demasia com o que pensam dele), um pecador. Essa interdição é ao mesmo tempo fruto da influência platônica contra o donatismo (8). Segundo os platônicos, o suicídio é um atentado contra os direitos de Deus. Santo Agostinho aprofunda esse princípio à luz do “Tu não matarás”: a vida é um dom de Deus e somente ele poderá tirá-la. A posição dos donatistas é praticamente criminalizada. Mas, então, como fica a vida após a morte dos mártires da Igreja? Santo Agostinho sugeriu que alguns casos devem ter recebido um apelo particular de Deus. Entretanto, no caso de Jesus, sua morte foi mesmo voluntária. De fato, o quinto mandamento (tu não matarás) nunca foi absoluto: é permitido matar um condenado ou um inimigo de guerra; o suicida é um criminoso, mas a morte de milhões nos campos de batalha é um ato meritório.
 
Lá pelo final do século IV e começo do V d.C., o Império Romano está com problemas. Em crise econômica e demográfica, os direitos civil e canônico se unem para tentar resolver a questão. O sistema, totalitário, retira os direitos da pessoa sobre si mesma. O colono depende do senhor de terra. A falta de mão-de-obra e de soldados exige cada vida humana disponível. A legislação civil, normalmente indulgente em relação ao suicídio, endurece. São confiscados todos os bens dos suicidas, sendo o suicídio já relacionado a uma confissão de culpa (9). A Igreja, por seu lado, revaloriza o casamento, condena a abstinência sexual e todas as formas de contracepção. Uma lei do Império, datada de 374, proíbe o infanticídio, ao mesmo tempo em que luta contra o abandono de crianças. A partir de Constantino, os poderes civil e religioso colaboram entre si no combate ao suicídio e ao martírio em função mais de uma convergência de interesses do que por fé na vida.
 
Ao que tudo indica, o suicídio passa a ser considerado um crime contra Deus (mas também contra a natureza e a sociedade) por motivos bem mais mundanos: quando a pressão da situação econômico-política impõe-se à própria moral. A Igreja vinha aumentando consideravelmente sua posse de terras, portanto ela não desejava a emancipação dos colonos ou dos escravos – o que incluía a própria vida. Em 452, o Concílio de Arles proíbe que escravos e criados se suicidem. A idéia é que quando um criado se mata ele rouba seu senhor, já que este é dono dele – tal ato por parte de um escravo era considerado “revelador de um furor diabólico”. O martírio voluntário, única forma de suicídio vista de forma respeitável, cai em desuso com a conversão do Império Romano ao catolicismo. Se ainda havia hipóteses de permissão para o suicídio, a condenação do ato se torna definitiva a partir dos Concílios de Braga e de Auxerre, em 563 e 578. A partir daí, o suicídio é mais castigado do que um crime qualquer. 
 
Como? O criminoso paga uma multa, enquanto o suicida terá seus bens confiscados.
 
Lá pelos séculos VIII e IX, só aos doidos era desculpado o suicídio. Mesmo assim, sob uma condição, apenas se houvesse levado uma vida respeitável antes de ser dominado pelo diabo. O suicídio por desespero é o mais condenado, essa modalidade é repudiada pela Igreja por questionar completamente a ela e a Deus. Essa é a época em que a Igreja introduz a prática da confissão individual dos pecados, o que permite o controle absoluto da vida dos crentes. Proíbem-se as orações pelo suicida, assim como uma sepultura cristã. Seja por medo de uma condenação judicial ou mesmo por uma causa desconhecida, o suicídio está interditado. A partir do século X começa uma verdadeira caça aos suicidas, principalmente com o início das invasões muçulmanas na Europa. 
 
A partir do Baixo Império, os interesses de Deus estão cada vez mais parecidos com os dos senhores de terras e nobres, suicidar-se é insultar tanto a um quanto a outro. Na Idade Média, entre os séculos XI e XIV, os teólogos consolidam a proibição do suicídio. Se um dos Salmos diz, “o corpo é uma prisão”, isso não quer dizer que temos o direito de sair dela: 
 
“As autoridades civis e religiosas iniciam o mesmo combate contra o suicídio e completam-se as próprias medidas dissuasivas: confiscação dos bens e condenação eterna. Nos dois domínios, a proibição do suicídio acompanha o recuo da liberdade humana; o homem perde o direito de dispor da sua própria pessoa. Em proveito da Igreja, que dirige toda a sua existência e retira a sua força do número de fiéis, em proveito dos senhores e de alguns eclesiásticos, que necessitam conservar e aumentar a mão-de-obra num mundo subpovoado em que fomes e epidemias acabam regularmente por comprometer a valorização dos seus domínios”. (10)
 
Os poetas também dão sua contribuição, para desespero dos desesperados. Na Divina Comédia, Dante coloca os suicidas no inferno. Eles perdem a forma humana e se transformam em árvores de uma floresta sombria com folhas sem cor, fustigadas pelo vento e congelados. É curioso notar neste caso que, na Idade Média, a natureza na Europa ainda era exuberante. Portanto, em função de animais como lobos e ursos, o verde constituía um problema para as populações. Mato, naquela época, era sinônimo de lugar fora do mundo. Pelo menos, fora do mundo dos homens. Daí essa ideia de degredo para quem, não podendo morar na cidade, é relegado à floresta. 
 
Lá pela Idade Média temos também a introdução de outros elementos chave a partir do século XI: a confissão, a sentença e o perdão. A confissão é considerada remédio para o desespero (que é considerado um pecado e não um estado psíquico), somos então perdoados e levamos uma penitência para casa. Se depois disso insistimos no suicídio, aos olhos da Igreja somos loucos. Se o suicida se mostra sadio antes do ato, a punição é extrema, a não ser que ele se arrependa (ao padre) na hora da morte. Somente em 1284 temos os primeiros casos confirmados oficialmente de recusa de enterro cristão para suicidas – muitos foram recusados antes. Curiosa essa insistência na onipotência da Igreja, se ela nos perdoa ou nos condena é porque Deus o fez antes.
 
Além de ser negada uma sepultura ao morto, pelos vivos de Lille na França do século XIII, o cadáver será amarrado pelos pés e arrastado como um criminoso – e naturalmente seus bens serão confiscados, procedimento que se oficializa na França em 1205. Em Anjou e no Maine, vão arrastá-lo por aí e depois as pedras do caminho serão arrancadas. Se for mulher, será queimada. Tudo isso e mais algumas outras práticas patéticas e patológicas ligavam-se às crenças antigas de que o suicida poderia voltar e importunar os vivos. O que para as crenças anteriores ao cristianismo eram espíritos maus, para a Igreja passa a ser o demônio. Essa bizarra prática de “execução do cadáver” (11), ao mesmo tempo em que exorciza o corpo morto, tem um efeito dissuasivo, convencendo os outros a não fazer o mesmo. A família do suicida deve assistir publicamente todos os procedimentos em torno do cadáver.
 
Na Idade Média europeia não existia aquilo que apenas a partir do século XVIII surge com o nome de “suicídio filosófico” (12). Desgosto da vida, ou considerar que a vida não vale a pena, essas seriam atitudes atribuídas à loucura – o que era uma vantagem para as famílias, que não veriam confiscados os bens do morto. No início, essa loucura se chamava “melancolia”. Este termo também tem data de nascimento, um dos primeiros a empregá-lo o fez lá por 1265. A melancolia se manifesta pelo abatimento e pela tristeza, mas temos também o estado de frenesi ou fúria. Nesses casos, como o nome evidencia, temos atitudes violentas, às vezes fruto de delírios e alucinações. Certamente podemos concluir que, naquela época como ainda hoje, qualquer comportamento que evidencie alguma forma de depressão ou de indignação, pode ser rotulado de loucura – o que me parece muito conveniente, tanto para resolver de forma insatisfatória os problemas familiares, quanto para controlar os corações e mentes de seus seguidores, sejam cidadãos ou adeptos de uma religião qualquer.
 
No século XIV verifica-se na França a intenção de abrandar as punições em caso de suicídio. Ainda assim, mesmo que seja por desgosto da vida, o ato ainda é entendido como evidência de loucura – embora o conceito de loucura seja bastante amplo nessa época. Até entre os teólogos e moralistas a pressão diminui. Resgata-se a ideia do suicídio de Cristo e não se recusa uma sepultura ao corpo do suicida. A literatura enaltece os suicídios por amor e honra. No final das contas, apesar de o suicídio ser repudiado, a atitude medieval é mais branda do que manda a letra da Lei (13). 
 
***
 
Não se trata de apologia ao suicídio. A questão levantada aqui aponta noutra direção. Com a desculpa de defesa da vida, a Igreja (e um Estado não laicizado) nega autonomia aos indivíduos – que deveriam ser os donos do próprio destino. A Igreja Católica e suas vertentes protestantes, assim como qualquer outra confissão religiosa não têm o direito de neutralizar o livre arbítrio do ser humano. Sem essa capacidade básica das pessoas, as próprias religiões não contariam com adeptos, posto que (supostamente) foi o livre arbítrio de cada um (e não o medo) que os levou a comungar esta ou aquela fé. Por que não se discute a cobrança de dízimos? A fé de uma pessoa deveria ser julgada pelo crescimento espiritual e não pelo tamanho da contribuição financeira e/ou material – crescimento espiritual e dízimo não são sinônimos. A fé deveria preencher o coração e não o bolso. 
 
Leia também: 
 

Notas:

1. MINOIS, Georges. História do Suicídio. Tradução Serafim Ferreira. Lisboa: Teorema, s/d. P. 35. 
2. Idem, p. 36. 
3. Montanismo é um movimento cristão do segundo século fundado por Montano. Os montanistas declaravam-se possuídos pelo Espírito Santo e, por isso, profetizavam. Segundo estas profecias, uma outra era cristã se iniciava com a chegada da nova revelação concedida a eles. Esse movimento surgiu na Frígia (Ásia Menor Romana, hoje Turquia), pelos anos 170 d.C. Havia duas mulheres, Priscila e Maximila, que eram as porta-vozes proféticas de Montano e dizia que o Espírito Santo falava através delas. Fez muitas predições proféticas enganosas, pois jamais foram cumpridas, como a de que a aldeia de Pepuza, na Frígia, seria a Nova Jerusalém. Proibia certos alimentos, exigia jejuns prolongados e não permitia o casamento de viúvas, como também negava o perdão de pecados graves ao novo convertido, mesmo após o batismo (com confissão e arrependimento). Montano queria fundar uma nova ordem e reivindicar seu movimento como sendo um movimento especial na história da salvação. O principal motivo de Montano era lutar contra a paralisia e o intelectualismo estéril da maioria das igrejas organizadas na época. Infelizmente, ele também caiu em extremos enganosos. Esse movimento foi condenado várias vezes por vários sínodos de bispos, tanto na Ásia Menor como em outros lugares. A Igreja montanista se espalhou pela Ásia Menor, chegou a Roma e ao norte da África. Seu adepto mais famoso foi, sem dúvida, Tertuliano - o maior teólogo de então. (Fonte Wikipedia) 
4. MINOIS, Georges. Op. Cit. , p. 36. 
5. Idem, p. 46. 
6. Ibidem, p. 37. 
7. Ibidem, p. 39. 
8. O Donatismo foi uma doutrina religiosa cristã, considerada herética pelo catolicismo. Persistiu na África romanizada nos séculos IV e V. O seu nome advém de dois bispos com o mesmo nome: Donato de Casa Nigra, bispo da Numídia; e Donato, o Grande, bispo de Cartago. Os donatistas defendiam que os sacramentos só eram válidos se quem os ministrava era digno. Na religião católica, porém, crê-se que os sacramentos valem por si, seja o ministrante (geralmente um sacerdote) um indivíduo corrupto ou não. Os autores que mais influenciaram os donatistas, em termos de doutrina religiosa, foram São Cipriano, Montano e Tertuliano. O bispo de Hipona, Santo Agostinho, fez campanhas contra esta crença e foi principalmente graças aos seus esforços que a Igreja católica acabou por vencer a controvérsia. Com a ocupação vândala do norte de África, o donatismo voltou a ter, aí, alguma preponderância, o que continuou a acontecer depois da reconquista bizantina destes territórios por Justiniano. Desconhece-se quanto tempo persistiu depois da conquista muçulmana. (Fonte Wikipedia) 
9. MINOIS, Georges. Op. Cit. , p. 41. 
10. Idem, p. 44. 
11. Ibidem, p. 49. 
12. Ibidem, p. 52. 
13. Ibidem, p. 55. 
 

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