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Roberto Acioli de Oliveira

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4 de set. de 2009

O Diferente (do Oriente) Como Bode Expiatório



Possuímos uma
consciência crítica
, pois
refletimos
, duvidamos.
Correto?






Uma Conversa das Arábias

Mohammed Abed al-Jabri, em Introdução à Crítica da Razão Árabe (1), nos propõe uma reflexão sobre os elementos que os árabes utilizam (ou deveriam utilizar) para responder as perguntas,”quem somos nós?” “Quem queremos ser no futuro?” Como o Ocidente construiu esse “outro”, o árabe? E a articulação entre o árabe e a imagem do mal? Ironia máxima, esta situação parece caminhar passo a passo com a noção do árabe como ser exótico. O árabe é sempre o culpado, seja qual for o evento (o judeu e o ateu também ocupam o posto quando é conveniente). O que o Ocidente entende por “árabe” (ou “oriental”) não passa de uma construção conceitual que pouco tem a ver com a realidade. O árabe não seria um Outro, mas uma espécie de duplo do ocidental. (imagem acima, Édipo, de Jean-Léon Gérôme, 1867-8; provavelmente retratando um soldado francês de Napoleão. Nas imagens abaixo, filmes e desenhos animados norte-americanos retratando o árabe de forma pejorativa. Se fôssemos escrever sobre o tema, teríamos muito a dizer sobre como os norte-americanos falam dos outros povos. Poderíamos começar mostrando como eles retratam os latinos)

Em seu livro, Orientalismo. O Oriente como Invenção do Ocidente, Edward Said, palestino de origem, nos mostra como a visão que temos do não-ocidental é completamente equivocada, não passando de nossa própria imagem refletida (2). Analisa também a medida em que os próprios orientais vêem a si mesmos através da fantasia do Ocidente em relação os povos não europeus. De acordo com Said, o conhecimento moderno sobre o Oriente surgiu de uma postura de força ocidental. O Ocidente olhou para o mundo como algo a ser conquistado. Alexandre o Grande, César, Marco Antônio... Nomes que alimentaram esta tradição no Ocidente. Napoleão Bonaparte apenas segue esta tendência quando parte para o Egito, levando consigo uma equipe de intelectuais cuja função seria assimilar a lógica daqueles a quem se pretendia conquistar. Ao mesmo tempo, não existia entre os árabes um discurso equivalente que pudesse frear esse ímpeto internacionalista. Said segue dizendo que o mundo árabe tem algo de ingênuo, pois em sua curiosidade quanto ao diferente infiltra-se uma falta de vigilância - acabam entrando o amigo e o conquistador.

Sobre o processo de construção de seu livro, é obra de alguém que passou pela desorientação da distância. Ele deveria se colocar entre Oriente e Ocidente. Enquanto palestino ou ocidental, estaria dentro de uma cultura, condicionado pelo ponto de vista que ela impunha. Procurava inventariar e reconquistar a parte de sua identidade árabe que fora construída, manipulada e possuída pelo Ocidente. Do Orientalismo critica uma postura científica, que vê o Oriente como um objeto inerte prostrado em seu laboratório para ser manipulado sem reação. Elogia no Orientalismo a colaboração entre homens e culturas visando uma descoberta coletiva, no sentido de conhecimento que não esteja a serviço da dominação de um pelo outro.

Analisando o discurso dos renascentistas, Said considera bastante evidente a tentativa de sugerir que modernizar o mundo árabe-islâmico significava estar de acordo com as leis ocidentais. Desta forma esperava-se que o Islã fosse percebido numa relação de igualdade. Entretanto, continua Said, hoje o Islã reage ao Ocidente e este teme o Islã militante (3).

Amin Maalouf, em seu As Cruzadas Vistas pelos Árabes, nos mostra como os muçulmanos viam os europeus cristãos das cruzadas. Invasores, atrasados, cruéis, selvagens, ignorantes e culturalmente despreparados. Estes são os adjetivos que em geral os sectários ocidentais sempre utilizam para designar... os muçulmanos. Certamente, mas, e notem a estranha coincidência, são os mesmos que os muçulmanos utilizavam naquela época para classificar os ocidentais cristãos.

Maalouf conta que em 1099 o cádi de Damasco Abu-Saad al-Harawi (que teria feito a primeira chamada ao jihad), ao acolher os refugiados vindos da Palestina de onde foram expulsos pelos europeus, disse a eles que o muçulmano não deve se envergonhar de ter tido que fugir de sua casa. Maomé fora o primeiro refugiado do Islã, quando foi forçado a deixar Meca, buscando santuário em Medina. Nas palavras de Maalouf...

“E não fora a partir de seu exílio que lançara a Guerra Santa, o jihad, para libertar a pátria da idolatria? Os refugiados devem considerar-se os combatentes da Guerra Santa, os mujahidins por excelência, tão honrados no Islã que a imigração do Profeta [Maomé], a Hégira, foi escolhida como ponto de partida da era muçulmana” (4). O exílio chega ou chegava a ser visto como um imperativo, enquanto para alguns causava escândalo ver muçulmanos aceitarem viver em território ocupado. Segundo William Stoddart, o tão pouco discutido e muito mal compreendido conceito de Jihad, longe de ser a ferramenta preferida de fanáticos e animalizados muçulmanos, constitui uma peça que vai além do puro e simples combate ou tentativa de destruição...

“Outro conceito islâmico muito conhecido é o de ‘guerra santa’ (Jihād). Esta se refere exteriormente à defesa da comunidade islâmica. Interior ou espiritualmente, refere-se à guerra oculta contra o eu. O profeta mostrou a relação destes dois aspectos da guerra santa quando, depois de uma batalha, observou aos seus companheiros: ‘Regressamos da guerra santa menor (contra os nossos inimigos externos) para a guerra santa maior (contra nós mesmos) ‘“ (5)

Notas:

1. Al-JABRI, Mohammed Abed. Introdução à Crítica da Razão Árabe. Roberto Leal Ferreira. São Paulo: Editora UNESP, 1997[1994].
2. SAID, Edward. Orientalismo. O Oriente Como Invenção do Ocidente. Tradução Tomás Rosa Bueno. São Paulo: Companhia das Letras, 1996[1978].
3. SAID, Edward (et alii). Entrevistas do Le Monde. Civilizações. Tradução Sergio Flaksman. São Paulo: Editora Ática, 1989. Pp. 184-189.
4. MAALOUF, Amin. As Cruzadas Vistas pelos Árabes. Tradução Pauline Alphene e Rogério Muoio. São Paulo: Editora Brasiliense, 2001[1983]. P. 13.
5. STODDART, William. O Sufismo. Doutrina Metafísica e Via Espiritual no Islão. Tradução Iva Vicente Flores. Edições 70, coleção Esfinge, 1976. P. 30.

3 de set. de 2009

Medo do Diferente ou Conveniência Política?



O discurso da igreja cristã
era (?) particularmente
xenófobo e escatológico

Em História do Medo no Ocidente (1), Jean Delumeau nos dá uma visão da concepção que se fazia do islã na Europa dos séculos XVI à XVIII. De Acordo com o historiador, nem de longe se podia falar de uma unanimidade do europeu em torno da satanização do muçulmano – naquela época, o império otomano era a força que havia produzido uma unidade, sendo os turcos seu centro. (todas as imagens deste artigo são de O Rei e Eu, com Yul Brynner no papel título. Con exceção da última, um desenho animado do filme. Filme exemplar quando se trata do discurso preconceituoso ocidental)

Consta que as populações que não estavam na iminência de uma invasão dos otomanos não se preocupavam muito com eles (2). Mesmo nas regiões ameaçadas, como as penínsulas ibérica, itálica e balcânica, não só não havia medo dos turcos como na verdade verifica-se certo desejo dos autóctones por serem invadidos – na Hungria havia hostilidade em relação aos Habsburgos (3). O motivo era a opressão por parte de seus senhores. Entre os séculos XV e XVI, os camponeses chegaram a emigrar para os territórios controlados pelos turcos (4). Delumeau mostra, com um lamento composto à época, como reagiam por volta de 1570 certas camadas da população de Veneza em relação aos turcos. Dois pescadores se queixam do governo...

“Marino: Mas como Deus não quer que o reino do Tirano [o Senado] pese demasiadamente sobre o mundo, ele preparou para fazer justiça o turco e o grande sultão. Vettore: Este toma o que eles tomaram e lhes prepara guerras e sofrimentos para lhes pespegar um bom golpe na cabeça. Marino: Então seremos seus irmãos muito queridos e eles virão conosco, de traseiro nu, pegar caranguejos moles, lagostas, douradas. Vettore: Eles não chamarão mais os pobres de cornudos, de imbecis, de ladrões nem de cachorros e não lhes lavarão mais os olhos com suas cusparadas” (5)

Portanto, além daquelas populações diretamente em contato com a violência de um exército invasor, no plano geral era a Igreja cristã que estava realmente preocupada. Na Alemanha, Áustria e Hungria, o inimigo estava fora, chegando. Entretanto, na Espanha, o inimigo estava dentro e fora. Ainda que os mouros de Aragão (1526), Castela e Granada houvessem sido convertidos em 1499, esses muçulmanos conservaram sua língua e costumes, celebrando clandestinamente seu culto – segregando-se inclusive dos casamentos com cristãos. De fato, esta população mourisca acolhia os piratas muçulmanos de braços abertos. A situação chega ao ponto de segregarem-se as populações mouriscas aos arredores das cidades ou às terras ruins do planalto. O governo obriga inclusive a que os trajes típicos e o idioma dos espanhóis sejam a partir de então adotados pela população mourisca. Essa incapacidade de assimilar o muçulmano autóctone leva a grande expulsão de 1609-1614, quando ¾ da população de 8 milhões de habitantes foi empurrado para fora da Espanha.

Em várias partes da Europa, católicos e protestantes ouviam sinos sempre ao meio dia lembrando “o perigo iminente”. Pio V, em 1571, pediu preces públicas pela proteção da frota que iria combater o sultão. A vitória foi saldada com a celebração de uma Festa de Nossa Senhora das Vitórias e a instituição da festa do Rosário, no primeiro domingo de outubro. Em missas contra turcos, orações são compostas para salvar a cristandade da invasão pagã. O avanço otomano é comparado às pragas, epidemias e inundações. “Com base em Daniel e em Ezequiel, anuncia-se o fim próximo do mundo pelas mãos dos turcos” (6).

Era uma leitura tanto católica quanto protestante que as vitórias dos turcos eram um castigo de Deus. Duas vozes eram as de Lutero e Erasmo. Lutero apresentava uma visão escatológica, que associava os turcos, o papa, o diabo e o “mundo da carne”...

“E se vós vos puserdes em campanha, agora, contra o turco, estejai absolutamente certos, e não duvideis, de que não lutais contra seres de carne e osso, em outras palavras homens [...]. Ao contrário, estejai certos de que lutais contra um grande exército de diabos [...]. Assim, não confieis em vossa lança, em vossa espada, em vosso arcabuz, em vossa força ou em vosso número, pois os diabos não se importam com isso [...]. Contra os diabos, é preciso que tenhamos anjos junto de nós; é o que advirá se nos humilharmos, se suplicarmos a Deus e se tivermos confiança em sua Palavra” (7)

“Se a cidade cristã é atacada por Satã, só Deus pode defendê-la” (8). Erasmo, ainda que sem a visão escatológica de Lutero, abandona seu pacifismo. O círculo de Carlos V lhe pedira que adotasse uma posição menos pessimista que o derrotismo de Lutero. Escreve Erasmo que...“Se desejamos ter êxito em nossa empresa de livrar nossa garganta do aperto turco, ser-nos-á necessário, antes de expulsar a raça execrável dos turcos, extirpar de nossos corações a avareza, a ambição, o amor da dominação, a boa consciência, o espírito de deboche, o amor da volúpia, a fraude, a cólera, o ódio, a inveja [...]”(9)

Porque não se fala dos Judeus? Creio que já é hora de os Judeus procurarem mostrar, como os muçulmanos estão sendo forçados a fazê-lo, que sua religião não é a favor da guerra indiscriminada – seja contra exércitos ou populações civis. Palestinos que Israel espremeu em grandes guetos (Cisjordânia e faixa de Gaza). Os judeus não resistiram até o último homem (e criança) no gueto de Varsóvia durante a Segunda Guerra Mundial? Por que com os palestinos deveria ser diferente?

Alguém ainda se lembra do episódio de Sabra e Shatila em 1982? São vilas no sul do Líbano invadidas por milícias cristãs apoiadas por Israel. Massacraram, torturaram, estupraram e estriparam 2.750 homens, mulheres, crianças e velhos. Ariel Sharon comandava as tropas israelenses na época e existem indícios que apontam para sua cumplicidade. Na verdade, existem muitas acusações sobre Sharon na rubrica “crimes contra a humanidade” – mas a imprensa só fala sobre esse tema citando muçulmanos e africanos.


A quem beneficia
esse belicismo desenfr
eado?
À indústr
ia armamentista?
À geopolítica das grandes potências?




Um filme chama atenção pelo interminável desfile de clichês do mundo oriental. Em Ana e o Rei do Sião (Anna and the King of Siam, direção John Cromwell, 1946) a história gira em torno da relação entre uma viúva inglesa que segue com seu pequeno filho para o Sião (atual Tailândia) contratada pelo rei como professora de seus 67 filhos. Desde o início, os siameses são criticados. Ela considera totalmente inaceitáveis os procedimentos do protocolo real, que entre outras coisas manda que todos se prostrem ao chão na presença do rei. Então, Ana “ensina” ao rei como seria o procedimento “correto” perante uma pessoa da realeza. Só para lembrar, na época retratada pelo filme, a Inglaterra era um império extenso e poderoso. Bem perto do Sião está a Índia, colônia britânica (na época) infinitamente maior em termos territoriais.

Irônica era outra crítica do o filho da professora. Ele chamava atenção para a nudez. As pessoas andavam com cangas e chinelos, os homens com peito nu, as mulheres com um bustiê bem colado ao corpo, delineando os seios. Só o Rei andava “vestido”. A professora não fazia comentários a respeito. Não falava nada, mas se vestia de uma forma que deixava a mostra apenas mão e rosto. A ironia está em que nós criticamos o Talibã justamente por obrigar as mulheres a utilizarem a burka, escondendo tudo. Neste filme, por outro lado, uma das mensagens coloca ocidentais sugerindo que a nudez dos corpos dos siameses é prova de sua selvageria.

Em O Rei e Eu (The King and I, direção Walter Lang, 1956), uma refilmagem, com Yul Brynner no papel de rei do Sião, tem lugar uma das cenas mais odiosas. Ocorre na aula de geografia, quando o rei abre seu mapa do mundo. Nele o Sião é enorme e ocupa praticamente tudo. A professorinha retruca que ele está enganado. Abre seu próprio mapa do mundo, feito no Ocidente, onde o Sião é minúsculo. Bem menor que a Índia, que não passava então de mera colônia britânica. Esse mapa mostrava também outras colônias britânicas pelo mundo, as francesas, as holandesas, etc... A Inglaterra não tem seu tamanho superdimensionado, como o Sião no outro mapa. Entretanto, onde estava localizado este país? Todos podem abrir o atlas e verificar, a Grã-Bretanha está no centro geográfico do mapa. Ou seja, ela é representada como se fosse o centro do mundo. Ela, é claro, está no centro geográfico em termos do eixo leste-oeste (ou direita-esquerda). No eixo norte-sul ela não poderia estar, já que se situa bem ao norte do equador.

Alguns diriam que esta interpretação de “centro do mundo” é um equívoco, pois a questão da posição deste país no centro do mapa se dá porque é por lá que passa o meridiano de Greenwich, que divide o planeta em duas partes iguais. Muito conveniente que o planeta seja dividido em duas partes iguais bem ali. Porque os geógrafos ingleses não escolheram, por exemplo, o Chuí, no extremo sul do Brasil, para dividir o planeta em dois, ou a capital do Paraguai, ou Bagdá no Iraque, ou Moscou, ou uma vila perdida no interior do Mali, na África ocidental?

Notas:

1. DELUMEAU, Jean. História do medo no ocidente 1300-1800. Tradução Maria Lúcia Machado, tradução das notas Heloísa Jahn. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.
2. Idem, pp. 271 e 274.
3. Ibidem, p. 274.
4. Ibidem, p. 269.
5. Ibidem, p. 270.
6. Ibidem, p. 275.
7. Ibidem, p. 277.
8. Ibidem.
9. Ibidem.

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