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Roberto Acioli de Oliveira

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1 de out. de 2009

Puritanismo e Ficção Científica (I)


“A ficção científica é um refúgio,
fuga para escapar do mundo dos
adultos
e suas responsabilidades”

Alexandre Hougron
Science-Fiction et Société, p.264

Muitas vezes os filmes desse gênero são relegados ao fundo das prateleiras das locadoras. Ou são considerados filmes para criança, ou sem valor cinematográfico, ou ainda como uma coleção de efeitos especiais rudimentares demais para nós que vivemos na era dos efeitos especiais de computação. Entretanto, o fato de serem considerados filmes “para crianças” por si só deveria significar que deveríamos saber mais sobre esse “divertimento”. Os efeitos especiais rudimentares nos filmes mais antigos podem cansar os mais desatentos (alias, falta de atenção parece ser uma marca de nossa época), porém uma analise mais pormenorizada pode mostrar-nos uma verdadeira história da evolução dos efeitos especiais no cinema.

Entretanto, apesar de todas essas qualidades, aqui iremos nos concentrar apenas no elemento “divertimento”. Será que a ficção científica pode mesmo ser considerada apenas isso? Apesar de ter nascido antes da invenção do cinema, deixaremos a literatura de lado e vamos nos concentrar nele. Seguiremos a trilha de Alexandre Hougron. Em seu livro, Science-Fiction et Société (1), procurou mostrar quais as possíveis relações entre vaginas, monstros gosmentos e comportamento puritano. O que um “divertimento” poderia nos ensinar sobre nossa sexualidade?

Muito identificado com certa ética religiosa, o comportamento puritano vem interferindo e moldando nossa sexualidade há muitos séculos. Mesmo quando acreditamos que somos conscientes de nossa sexualidade não percebemos como nossos atos podem ter sido já previstos e induzidos por mecanismos puritanos. O ponto que talvez chame mais atenção na análise de Hougron é a constatação da incapacidade profunda na sociedade ocidental em incorporar o contraditório, o diferente, o Outro: a mulher. (imagem acima, A Mulher Vespa, direção Roger Corman, 1959; imagem ao lado, Tubarão, Jaws, direção Steven Spielberg, 1975; imagem abaixo, A Ilha do Dr. Moreau, Island Of Lost Souls, direção E.C. Kenton, 1933)

Pudera, desde o nascimento da filosofia, lá se vão 2.500 anos, o discurso hegemônico da Razão procura de todas as formas eliminar ou, pelo menos, neutralizar a pluralidade da vida. A intenção até que podia ser boa: explicar o mundo pelas semelhanças, e n ão pelas diferenças. A heterogeneidade do mundo e da vida deveria ter como fonte um elemento comum básico. A partir daí, tudo que significasse desvio era eliminado como exceção ou erro. Onde a ficção científica entra nisso? O que nossa sexualidade tem a ver com o contraditório? O que a vagina tem a ver com a ficção científica?

Sobre Animais Impuros e Homens Puros

“Essa simbólica da perda de
uma Idade de Ouro
. Temática pagã,
e
, mais especificamente, no judaísmo
e cristianismo
, que a assimilaram.
Aquela do desaparecimento de uma ‘natureza’ humana
edênica que é, na realidade, um estado de pureza e incorrupção (lembremos que Adão
era imortal antes da Queda)”

Science-Fiction et Société, p. 108

O puritanismo elimina o caráter iniciático que sugere que a pureza é fruto de uma busca espiritual. Portanto, a pureza seria uma recompensa. O puritanismo passa a considerar a pureza como fruto do simples fato de alguém se declarar crente. No caso anterior, também se acreditava que somos intrinsecamente puros, porém seria necessária uma busca dessa pureza. No caso do puritanismo, basta sabermos que somos puros. Esta postura está na base de uma visão de superioridade em relação aos que não professam aquela fé ou são ateus. Trata-se de uma construção religiosa que não admite a hipótese de um ser humano contraditório e m sua natureza. Nas religiões orientais e panteístas, não existe essa postura monolítica (integrista). No Ying sempre existe algo de Yang e vice-versa. A tolerância é mais efetiva. Essa tolerância não existe nos grandes monoteísmos (Cristianismo, Judaísmo e Islamismo). Desta forma, o homem definitivamente puro (2) torna-se um fantasma, perseguido mas nunca encontrado, por duas culturas agressivas e imperialistas (os ocidentais, e o mundo muçulmano). (as próximas três imagens abaixo, O Monstro da Lagoa Negra, Creature from the Black Lagoon, direção Jack Arnold, 1954)

Batem-se entre si buscando afirmar um homem que seja absolutamente santo. O motor dessa agressividade engendrada pelos puritanos. O puritanismo também se manifesta pelo puritanismo sexual, muito comum nos filmes de horror. Nesses filmes, só a virgem sobrevive! Assim sendo, o casal que morre esfaqueado porque se afastou para fazer sexo, reencontra sua própria animalidade na figura do monstro assassino. Dito de outro modo, se não somos puros, os monstros que nos atacam são duplos de nós mesmos. O autor considera o puritanismo americano como a forma mais neurótica de puritanismo. Ainda segundo o autor, aquilo que deixa o código puritano bem visível é justamente o que chama de histeria anti-sexual americana. Já na Ficção Científica o puritanismo é mais sutil (3).

Hoje em dia, o puritanismo se metamorfoseou, perdeu as referências religiosas. Entretanto, ele foi além e se naturalizou. O puritanismo não está mais numa substância reconhecível, está em nossa moral, em nossas mentes. O paradoxo é tão grande que um espectador que não se conforme aos códigos morais puritanos, irá assistir normalmente a um filme de horror ou ficção científica. Quer dizer, irá aderir aos discursos reacionários puritanos quase que inconscientemente. Segundo Hougron, todo o cinema ocidental, de ficção científica, e mesmo o de não-ficção, está impregnado por esses valores – onde a virgindade e a inocência serão recompensadas (4).

É a questão do prazer pelo proibido. Como o puritano é um frustrado, gera grande prazer aquilo que é interditado para ele. O frustrado se identifica com o monstro ou o psicopata. O puritanismo proíbe o sexo, mas o sugere e associa à violência e ao sadismo. Desta forma, o sexo é substituído (coitus interruptus) pelo espetáculo do sangue e da morte. Satisfação sexual e violência tornam-se equivalentes. O pênis é substituído pela faca ou revolver, o sangue escorrendo substitui o esperma. Portanto, serial killers mascarados como o personagem de Jason, é criação de uma sociedade produtora de frustração. Essa lógica seria típica do puritanismo sexual, que é um produto americano – por esta razão não tem apelo na Europa, na França em particular (5).

Os filmes de horror são falsamente subversivos. O fato é que são puritanos e conservadores do fantástico. As estruturas mitológicas mudam devagar: existem sempre um super-herói, uma heroína, e eles acabam juntos. Sociedade ocidental: liberada e progressista na superfície, no fundo muito ligada a sua identidade. É aqui que o espectador americano e europeu se equivalem, pois ambos irão achar normal que o herói seja sempre mais puro do que ele ou ela. No filme de horror, é fácil captar o processo puritano. Porém, é mais complicado percebê-lo no nascimento da ficção científica (6). Primeiramente, os monstros das paredes e tetos das igrejas medievais dão lugar às representações da ordem e da beleza na Renascença. – da oposição entre natureza e cultura passamos a um tempo em que tudo que remete aos animais é “diabolizado”.

A Renascença lança a nova ordem da Razão e da Ciência, afastando-se do animal, do imaginário e do fantástico monstruoso. O animal está presente no imaginário ocidental como figura maléfica e monstruosa. Essa latência é que explicaria a criação da ficção científica. É aí que irá se exprimir toda a ”monstruosidade” do indivíduo, seu inconsciente pulsional, cheio de fantasmas e fobias. A ficção científica é uma catarse que mostra uma interioridade soterrada por 20 séculos de cristianismo e depois pelo positivismo. A ficção científica traz de volta o universo simbólico medieval, articulando-o à dobradinha Ciência-Razão: o maravilhoso científico, ou, a ficção científica.

Eis que surgem o naturalista Charles Darwin e o escritor H.G. Wells. O primeiro reintroduz uma filiação entre homem e animal numa relação que a Igreja havia hierarquizado. Ela havia estabelecido que somente o homem fosse puro e originalmente santo, enquanto os animais seriam profanos. As mulheres seriam criações secundárias a partir do homem. H.G. Wells mantém a ligação entre animal e Mal em seus escritos, condena o puritanismo que denigre o animal e o monstro. Em sua opinião, temos uma parte monstruosa que nega todo o nosso suposto angelismo.

Ao invés de opor monstruosidade e pureza, a ficção científica traça um paralelo entre nós e eles. A psicanálise, seja de Freud ou de Jung, não fez outra coisa (7). Em seus romances, H.G. Wells questiona essa cultura da pureza. Toda a sua obra pode ser lida como uma grande reação ao puritanismo, assim como um questionamento da idéia de perfeição do europeu cristão do final do século XIX. Como em A Ilha do Dr. Moreau (Island of Lost Souls, 1932), onde se faziam experiências biológicas que misturavam homem e animal. O personagem principal volta da ilha e acredita enxergar o animal, a besta, sob o verniz civilizado dos homens da cidade grande. Coloca-se à nu uma contradição em relação à incondicionalidade da pureza do homem, assim como sua impossibilidade prática. Wells também mostra a coincidência entre um ressurgimento do mito da pureza e a construção das primeiras teorias racistas do final do século XIX (8).

A ficção científica será, ao mesmo tempo, fruto do puritanismo e uma reação contra ele. Sempre a partir do impasse: ser um anjo, um super-homem, mas também um ditador, um censor, um tirano. A própria história ocidental seria uma sucessão de fanatismos em relação à pureza. Uma recusa do imaginário que acaba alcançando seu contrário, a ficção científica. Ela representa uma dominação da ligação entre animal e Mal (monstro) ao mostrá-la. A representação do monstro equivale a sua expulsão e a uma espécie de petrificação que o neutraliza fora de nós. A partir do racionalismo cientificista do século XIX, a noção de progresso substitui a idéia cristã de saúde. Entretanto, em ambos os casos, a vontade de “ordem” (divina ou cientifica) subsiste. A ciência afasta do campo de visão da sociedade tanto as aberrações genéticas quanto os deficientes mentais. Numa sociedade do super-rendimento físico e do narcisismo, essa “desordem”, essa monstruosidade deve ser evacuada de nosso universo.

Mas o monstro triunfa na ficção científica (9). A ficção científica denuncia e critica a sociedade da técnica por tentar banir o imaginário, opondo-o a ordem. Este erro a Igreja também já havia cometido. Por outro lado, devemos admitir que a ficção científica como um todo não esta a serviço do imaginário. Existe também uma ficção cientifica reacionária (10). Na opinião de Hougron, a boa ficção científica, nos trás de volta nossa esfera íntima ilimitada: o sonho. (imagem acima, Guerra dos Mundos, War of the Worlds, direção Byron Haskin, 1952; imagens abaixo, O Médico e o Monstro, Dr. Jekill & Mr. Hyde, direção John S. Robertson, 1920; Guerra nas Estrelas, Star Wars, direção George Lucas, 1977)

É no sonho que nosso imaginário pode ser reencontrado. O autor cita o sucesso que os dinossauros fazem atualmente entre as crianças. Não se trata de “animais simpáticos” ou da “imagem dos pais”, o que seduz nos dinossauros é o fato de serem monstros. Assim como os contos de fadas que devem ser ao mesmo tempo horríveis e sedutores para melhor dominar o inconsciente e suas pulsões, a ficção científica seria como uma terapia. Daí a importância dos monstros, seres que encarnam nossa animalidade. Mas não devemos esquecer de rejeitar uma ficção científica ruim, que apenas reproduz estereótipos e preconceitos. Sob formas degradadas, que privilegiam a violência e agressividade, a ficção científica tem tudo para constituir um novo “ópio do povo”. A ficção científica pode nos levar a refletir sobre nosso destino social, servindo também como utensílio de contestação. Uma estratégia de fuga reestruturante em relação à coletividade.

Exagerando um pouco, Hougron chega a afirmar que, pelo fato de não haver ficção científica em países com regimes totalitários, ela é naturalmente libertária (11). Ele só não deixa claro se os Estados Unidos, maior produtor de ficção científica, é ou não um regime totalitário – ou se os filmes do gênero lá produzidos (ou pelo menos parte deles) são ou não ficção científica reacionária. Lembro-me neste ponto de dois filmes do cineasta russo Andrei Tarkovski, Solaris (1972) e Stalker (1979). Tarkovski fazia seus filmes em plena vigência do regime comunista soviético. Não é que ele não tivesse lá seus problemas para filmar, mas não me parece que os empecilhos que enfrentava tivessem relação com o fato desses filmes serem de ficção científica – seus problemas eram a burocracia e a censura, o que atingia todos os seus filmes, e não apenas aqueles cujo gênero é a ficção científica. De qualquer forma, os filmes foram realizados. Hougron nem mesmo cita Tarkovski em seu livro e, embora critique boa parte da produção americana de ficção científica, não chega a ser explícito na articulação entre a produção de ficção científica reacionária e o país onde foi produzida quando esse país é os Estados Unidos.

A maior parte dos primeiros romances de ficção científica trata da animalidade no homem. O que tem relação com a rejeição dessa animalidade pelo cristianismo e a hipócrita dissimulação disse fato. A ficção científica é marcada tanto pelo mito da pureza no ocidente quanto pelo antídoto para essa situação. Hougron admite que muito da ficção científica dos bons autores também está impregnada de uma representação puritana da animalidade. Os marcianos de Wells, de A Guerra dos Mundos (War of The Worlds, 1953), e o Mr. Hyde, de O Médico e o Monstro (Dr. Jeckyll and Mr. Hyde, primeira de várias versões para cinema, 1920), de Stevenson, apresentam esses nossos duplos de uma forma tranqüilizadora: afirmam que não somos assim!

Segundo Hougron, Guerra nas Estrelas (George Lucas, 1977), e todas as seqüências, são o melhor exemplo do puritanismo na ficção científica(imagem ao lado). Tragédia shakespeariano-edipiana, gira em torno da relação entre o filho (justo) e o pai (corrupto). A questão é saber se a “morte do pai” (elemento psicanalítico) pode às vezes ser legítima. George Lucas, o idealizador da série e diretor dos filmes, decidiu que Luke deve salvar o pai (o vilão Darth Vader) para salvar a si mesmo. A trilogia fala da passagem para a maturidade: ao invés de ceder a suas pulsões e matar o pai, mata-se simbolicamente a parte ruim do pai, fazendo surgir o pai bom. A morte do Mal se dá pelo amor do filho ao pai. George Lucas rompe com mitologias onde o pai deve matar o filho para evitar que este o mate e o retire do trono no futuro.

O que salta aos olhos é a quase ausência de mulheres na trama. Portanto ausência de sexualidade. Vemos aí aparecer o puritanismo dessa estória pré-púbere. A princesa, quando vira mulher, é para sabermos que na verdade é a irmã de Luke – portanto, qualquer coisa aqui seria incesto. Hans Solo, piloto da nave espacial que leva todos pela galáxia, a sexualidade masculina adulta, não consegue nada com a princesa. Trata-se de uma temática familial, entretanto sem uma mãe para criar um conflito edipiano. Esse conflito é apenas sugerido pelo antagonismo Luke x Darth Vader. Parece que George Lukas tem grande interesse pela questão da passagem à idade adulta. Na verdade, um interesse por não se tornar adulto – aliás, uma qualidade de todo grande autor de ficção científica (12).

Leia Também:

Puritanismo e Ficção Científica (II)

Notas:

1. HOUGRON, Alexandre. Science-Fiction et Société. Paris: PUF. 2000.
2. P. 100.
3. P. 101.
4. P. 102.
5. P. 103.
6. Pp. 102 e 105.
7. P. 111.
8. P.112.
9. P.115.
10. P.117.
11. P.119.
12. P.124. 


4 de abr. de 2008

Rostos: Fisiognomonia (V)

Cesare Lombroso


Falar de Cesare Lombroso neste trabalho obedece a uma dupla função. Além de um lugar de destaque nas tentativas de cientificização do discurso sobre a aparência e os movimentos expressivos, suas idéias tiveram muita influência no Brasil entre criminologistas e juristas. Entre seus livros estão O Delinqüente (L’Uomo Delinqüente, 1876) (imagem ao lado), e O Crime, Causas e Remédios (1899). Lombroso morreu em 1909 (1).


Criminologista e professor universitário italiano torna-se famoso por suas teorias no campo da caracteriologia, como a craniologia e a fisionomia, buscando uma relação entre características físicas e mentais. Procurava-se relacionar, por exemplo, o tamanho da mandíbula e a psicopatologia criminal, a tendência inata de alguns indivíduos para a sociopatia e o crime. O ponto de vista lombrosiano foi tributário direto da frenologia, criada no princípio do século 19 pelo alemão Franz Joseph Gall. Cientificamente, sua teoria foi desacreditada, entretanto produziu um impulso decisivo para a antropologia criminal - o estudo científico da mente criminosa.

Inspirado nos modelos evolucionistas do final do século XIX propunha que alguns criminosos carregam uma evidência física de caráter atávico ou hereditário, remanescente de um comportamento adquirido nos mais primitivos estágios da evolução humana. Anormalidades nas dimensões do crânio e mandíbula, assimetrias no rosto e outras partes do corpo, eram chamadas Stigmata: os criminosos mostrariam em seus rostos assim como em seus corpos aquilo que Lombroso gostava de chamar “estigmata de degenerescência” (2). Suas especulações foram substituídas mais tarde por teorias baseadas em causas ambientais.

Entre 1750 e 1850 os fisionomistas e os frenologistas tentaram provar que existe uma ligação entre a propensão ao comportamento criminoso e uma aparência pouco usual (basicamente rosto, ouvidos e olhos) e a forma do crânio (inchaços ou galos sendo um indicador das áreas dominantes do cérebro). Os fisionomistas estudavam a aparência do rosto e os frenologistas estudavam os galos na cabeça. São as bases da antropologia criminal. Segundo os frenologistas, o “exercício mental” poderia regenerar um criminoso. No século 20, chamou-se Constitucionalismo ao estudo da constituição física do corpo. A busca pelo criminoso constitucionalmente determinado se estendeu até 1950.

O trabalho de Ernest Hooton, um antropólogo de Harvard, populariza o Constitucionalismo nos Estados Unidos a partir da década de 30. Concluiu que os criminosos são inferiores aos cidadãos comuns em todos os aspectos físicos. Seu racismo ficou patente quando afirmou que a testa negróide era um perfeito exemplo de testa criminosa. Na década de 40, William Sheldon chamou atenção para as características físicas dos delinqüentes jovens. Produziu um Índice de Delinqüência baseado em fotografias, que determinariam quais deveriam ser institucionalizados. Sua abordagem às vezes é referida como Teoria Somatotípica. Seus procedimentos foram apoiados por Eleanor Glueck nos anos 50. Suas pesquisas sugeriam que rosto estreito, peito estufado, cintura mais larga e maiores antebraços estão associados com 60% dos delinqüentes e 30% dos não delinqüentes.


Francis Galton (1822-1911), cientista britânico e parente de Charles Darwin, tornou-se famoso por seu trabalho em antropologia e hereditariedade. Tido como o fundador da ciência da eugenia, seus escritos sobre hereditariedade muito influenciaram Lombroso. Segundo Galton, considerando a população como um todo, através de sucessivas gerações, o caráter e o talento reverteriam a uma média, vista por ele como medida de mediocridade física e intelectual. Galton procurou entender os processos hereditários, acreditava que ao conseguir compreender seus mecanismos, poderia aumentar a freqüência de traços desejáveis. (imagem ao lado, Alpholse Bertillon, Tableau Synoptique des Traits Physiognomiques, 1901-16).

As qualidades indesejáveis que Galton pretendia erradicar intrigavam Lombroso. Baseando-se na teoria da seleção natural de Darwin, Lombroso concluiu que em qualquer população, um pequeno número de indivíduos poderia exibir instintos extremamente primitivos. Constituiriam retrocessos evolucionários – estes são os casos de atavismo.

Sua hipótese afirmava que, nas sociedades primitivas, indivíduos com esses traços estariam mais equipados para sobreviver. Forte desejo de matar os teria transformado em ótimos caçadores e parceiros sexuais disputados. Nas sociedades “civilizadas e urbanas” da Europa, esse atavismo provavelmente seria a causa do comportamento criminoso. Entretanto, argumentou Lombroso, tais indivíduos não teriam muitas possibilidades de sobreviver nas sociedades industriais, posto apresentar baixa fertilidade. Ainda assim, Lombroso mostrou que nos campos europeus e nas áreas industriais (onde havia muitas favelas) esses indivíduos com características primitivas estariam apresentando um grau de fertilidade maior. Concluiu então pelo aumento de qualidades sociais indesejáveis nas pessoas destas classes sociais.(Imagem abaixo, tipos criminosos segundo Lombroso).

Desejava demonstrar, por exemplo, que a tatuagem entre criminosos indicava a sobrevivência de instintos primitivos. Sabemos que existem códigos entre os detentos que passam por tatuagens. Remoção das tatuagens, assim como a cirurgia plástica, foram algumas das práticas que encontraram seu caminho nos programas de reabilitação nos Estados Unidos no passado. Lombroso também escreveu sobre uma articulação entre mulher e crime.


Lombroso conclui que o criminoso não é uma vítima de circunstâncias sociais desfavoráveis. Contudo, era um defensor dos bons tratos aos detentos, já que seria imoral não adotar uma atitude humanitária com aqueles biologicamente incapazes de neutralizar o próprio comportamento anti-social. Apostou, assim como Galton, que a prevenção do crime demandava uma ciência da eugenia que permitiria aos governos implementar programas de melhoramento social e moral através da procriação. Temos aqui as bases científicas de uma tendência muito disseminada no princípio do século 20 (inclusive implementadas por políticas públicas em diversos países), e que também está na base da limpeza étnico-estética de Hitler (3).


No mundo anglófono, a teoria da criminalidade atávica conquistou muitos nomes influentes na ciência de seu tempo, contudo tornou-se de fato mais conhecida por artigos como o de J. Holt Schooling, na revista Harmsworth, que em 1898 escreveu Sinais de Perigo da Natureza. Tais artigos colocaram Lombroso no mapa das classes e grupos sociais xenófobos e racistas. Ainda assim, havia um ceticismo em relação a suas idéias. No Congresso Internacional de Antropologia Criminal, em 1889 na França, os especialistas o criticaram. Defendiam a hipótese de que as origens do crime seriam encontradas nas condições sociais e não em tendências inatas. De fato, mesmo que o holocausto de Hitler ainda demorasse mais 40 anos para chegar, já começa um movimento nas nascentes ciências sociais em direção oposta às teorias de cunho biológico.


Notas:

1. SABBATINI, Renato M. E. Phrenology: the history of brain localization. Salvo quando referenciado, estas observações são retiradas do site onde reproduziu parte de seu texto. http://www.cerebromente.org.br/n01/frenolog/frenologia.htm
2. LIGGETT, John. The Human Face. London: Constable, 1974. P. 244.
3. O documentário de Peter Cohen, Homo Sapiens 1900 (1998), apresenta farto material sobre o tema. Lançado em dvd no Brasil pela Versátil Home Vídeo (2007). 


3 de abr. de 2008

Rostos: Fisiognomonia (IV)

Charles Darwin


O pai da teoria sobre a evolução das espécies era de opinião que os movimentos expressivos do rosto e do corpo aumentavam bastante o poder da linguagem falada. Seu interesse na problemática fisiognomônica foi tão profundo que escreveu um livro sobre o tema. Trata-se de A Expressão das Emoções no Homem e nos Animais, publicado em 1872. Os títulos dos capítulos já mostram claramente que Darwin não tinha dúvidas quanto à pertinência de tal discussão: Princípios Gerais da Expressão, desânimo, amor, reflexão, ódio, desdém, culpa, orgulho, medo, vergonha. O renomado etologista Konrad Lorenz, no prefácio que escreveu para apresentar o estudo de Darwin, o coloca como o ponto de partida da etologia (1) (imagem ao lado, cão da raça pitbull; abaixo, orangotango). Entretanto, Darwin distingue entre expressão e fisionomia, esclarecendo que seu interesse recai sobre a busca das causas da primeira. Segundo ele, as hipóteses até então aventadas pouco ou nada esclarecem por considerarem homem e animal como criações independentes. Em seus próprios termos...

“De acordo com essa doutrina, toda e qualquer coisa pode ser igualmente bem explicada; e isso se provou ser tão pernicioso com respeito à Expressão quanto com respeito a qualquer outro ramo da história natural. Nos humanos, algumas expressões, como o arrepiar dos cabelos sob a influência de terror extremo, ou mostrar os dentes quando furioso ao extremo, dificilmente podem ser compreendidas sem a crença de que o homem existiu um dia numa forma mais inferior e animalesca. A partilha de certas expressões por espécies diferentes ainda que próximas, como na contração dos mesmos músculos faciais durante o riso pelo homem e por vários grupos de macacos, torna-se mais inteligível se acreditamos que ambos descendem de um ancestral comum. Aquele que admitir que, no geral, a estrutura e os hábitos de todos os animais evoluíram gradualmente, abordará toda a questão da Expressão a partir de uma perspectiva nova e interessante”. (2)


A partir daí, Darwin sugere alguns meios para escaparmos das opiniões do senso comum. 1) observar crianças, pois além de considerar a pureza da fonte de suas emoções, dado o pouco contato com a complexidade emocional posterior dos humanos, a intensidade com a qual são expressas é considerada muito grande; 2) observar loucos, pois além de expressar suas paixões sem nenhum controle, estas se manifestam também intensamente; 3) observar fotografias de rostos previamente galvanizados; 4) observar pinturas, ainda que Darwin tenha feito ressalvas, pois considerou que a excessiva contração dos músculos faciais pode nos induzir ao erro; 5) Observar diferentes raças humanas, especialmente aquelas que pouco contato tiveram com os europeus, buscando saber se as feições quanto à determinada emoção se repetem da mesma forma, no intuito de estabelecer se tais expressões são inatas. 6) observar animais, porque estaríamos menos propensos às influências da imaginação, já que as expressões não seriam convencionadas (3).


Chegou então a três princípios que segundo ele explicam a origem dos movimentos expressivos (4). No primeiro, uma expressão torna-se habitual quando é repetida com o objetivo de satisfazer um desejo, ainda que não se pretenda agir como indicado pela expressão (como quando alguém indignado assume uma atitude própria para a luta, mesmo que sua intenção não seja realmente atacar). O segundo princípio afirma que a expressão de alguém pode mudar para seu completo oposto quando se verifica que a intenção daquele outro que se aproxima não corresponde ao esperado (como quando um cachorro late e assume postura de ataque em relação a alguém, mudando instantaneamente para uma postura de submissão quando percebe que é seu dono quem se aproxima). No terceiro princípio, a influência de um sistema nervoso agindo independente da vontade na produção de movimentos expressivos (tremores musculares, o suor da pele). Estes três princípios agem em combinação, nunca estão isolados.


Darwin insiste na hipótese de que os movimentos expressivos, tanto em homens quanto em animais, são inatos e hereditários. O que não quer dizer que algumas expressões, apesar de sua origem inata, não requeiram certa prática até serem desempenhadas perfeitamente. Assim, ainda que a vontade e a consciência tenham um papel, não estamos necessariamente conscientes dos músculos que utilizamos para produzi-los.


Encontrar a fronteira entre os elementos instintivos e não instintivos na produção dos movimentos expressivos sempre foi o problema de Darwin. Comenta o argumento de um Sr. Lemoine, para quem se o homem possuísse um conhecimento inato das expressões, escritores e artistas não teriam a dificuldade que ele considera que tem para retratar os sinais característicos de cada estado de espírito. Segundo Darwin, este argumento não se sustenta, posto que nossa enorme capacidade de perceber mudanças na expressão de alguém não é acompanha de igual eficiência quando tentamos analisar a natureza da mudança (5). Encerra seu livro afirmando que, seja qual for a origem dos movimentos expressivos do rosto e do corpo, são eles muito importantes para nosso bem estar.



Leia também: 

Fisiognomonia (III), (V)

Notas:

1. DARWIN, Charles. A expressão das emoções no homem e nos animais. Tradução Leon de Souza Lobo Garcia. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.
2. Idem, pp. 21-22.
3. Ibidem, pp. 23-27.
4. Ibidem, conclusão e os primeiros três capítulos.
5. Ibidem, p. 334. 


 

29 de mar. de 2008

Rostos: Fisiognomonia (I)

“Como começamos a cobiçar”? 
Cobiçamos   aquilo   que
 vemos... todos os dias !


A frase de O Silêncio dos Inocentes (Silent of the Lambs, 1991) dá o tom de nossa busca. Uma agente do FBI insistentemente pergunta a um famoso ex-psiquiatra comedor de carne humana sobre o paradeiro de um assassino de mulheres que teria sido seu cliente. Procurando mostrar em forma de enigma qual é o objetivo desse assassino, o canibal enuncia esta frase. Pois bem, o assassino não matava por ódio. Na verdade, gostava tanto das mulheres que queria ser uma delas. Entretanto, para alcançar seu objetivo, ele raptava mulheres meio gordas. Mantendo-as em cativeiro, as engordava mais e mais. Então as matava e retirava partes de suas peles. Então as costurava. Pretendia fazer uma roupa com a pele das mulheres.


Paul Valery tem uma frase, “o mais profundo é a pele”. Seja como for, o assassino de mulheres parecia fixar a identidade delas no elemento mais material e mais visível. Ser mulher passava por parecer com uma mulher. Desta forma, para ele ser mulher não teria nenhuma relação com a busca de uma possível alma feminina. Travestido com pele humana morta, o assassino parece curto-circutar a lógica da linguagem não-verbal da aparência. Platão já havia chamado atenção para a inutilidade do mundo sensível. Ou melhor, sua única utilidade seria servir de degrau para ultrapassá-lo.

A fisiognomonia sempre baseou seus estudos na articulação entre a afirmação da necessidade de um mundo sensível articulada à crença na existência de outro, desta vez inteligível. Sendo que é deste que podemos inferir a verdade última. Trata-se, na verdade, da velha questão da engenharia dos métodos de previsão.


A Linguagem do Rosto, de Umberto Eco, nos dá uma resumida introdução ao tema (1). Mostra-nos que Aristóteles já havia tocado no assunto. O dado básico é a hipótese de que poderíamos julgar o caráter de um homem ou animal a partir de sua estrutura corporal. Tal avaliação seria possível por conta de outra hipótese, as inclinações naturais transformariam simultaneamente alma e corpo. Portanto, os traços do rosto deveriam remeter a características internas (éticas e morais) (ao lado, prisioneiro de campo de concentração nazista).

Eco nos conta que, com Charles Darwin e Cesare Lombroso, o século XIX confere a ela um status científico. Procurava-se desta forma distinguir entre uma fisiognomonia natural (associações frágeis e ambíguas) e outra fisiognomonia, dita científica (baseada em estudos anatômicos) (2). A frenologia postula que tudo encontra representação na superfície do cérebro: faculdades mentais, tendências, instintos, sentimentos. Por exemplo, aqueles com acentuadas qualidades mnemônicas tem o crânio redondo, olhos salientes e distantes um do outro. Combatida por todos, pretendia que, mesmo que um indivíduo seja honesto, sua honestidade é mentirosa porque sua conformação craniana mostra quem ele de fato é.


Lombroso acaba ligando esta tradição às práticas racistas que, além do mais, revestem de caráter científico a visualização da figura do criminoso. Eco faz uma interessante referência ao caráter lombrosiano-lavateriano da fotografia 3x4, que todos nós carregamos na carteira de identidade. Em sua opinião, a própria fotografia nos deforma, tornando-nos “pessoas ruins” por nossa feiura. Eco também faz referência à revista em quadrinhos... “Chegamos à revista em quadrinhos. E, de fato, a revista em quadrinhos e a caricatura são os lugares onde a fisiognomonia adquire valor fotográfico de estenografia e esboça, com poucos traços enfatizados, toda uma história psicológica e moral. Baseando-se exatamente nos preconceitos (e em parte na sabedoria antiga) de uma fisiognomonia natural:usando-os e reforçando-os”. (3) (Ao lado, George Bush filho, presidente dos Estados Unidos da América e atual dono do mundo).


Aberrações

Em seu livro, Aberrações (4), Jurgis Baltrusaitis mostra como o pensamento fisiognomônico atravessou a Antiguidade, Idade Média, Renascimento e Modernidade. De pensadores como Aristóteles e Descartes, passando por artistas como Miguel Ângelo, Leonardo Da Vinci, Rubens, e escritores como Goethe, Zola, Marivaux e Balzac, a fisiognomonia foi motivo de intensa pesquisa.


Em 1586 Giambattista Della Porta mostra imagens de homens-animais como deformações. Rubens, por sua vez, as mostra como a revelação de um mistério.


Em 1776 Rubens publica um tratado que corrobora as tradições esotéricas do século XVI. Segundo Baltrusaitis, Rubens representa a última eclosão das cosmogonias fantásticas na história da ciência das formas humanas (5).


Uma revisão da fisiognomonia, que já se anunciava desde a Antiguidade, eclode no século XV. Lomazzo deu o chute inicial ainda em 1584, depois por um teólogo, Coeffeteau (1620), um médico, Cureau de La Chambre (1640-1662), e um filósofo, Descartes (1649). Trata-se dos estudos das paixões, sentimentos passageiros, que afrontavam os caracteres permanentes propostos na fisiognomonia. (acima, um dos muitos jatos de combate norte-americanos que durante a guerra do Vietnã eram pintados com rostos de animais ferozes)

Em sua teoria da fisiologia, Descartes propõe que as paixões se localizam na glândula pineal do cérebro e não no coração, como se acreditava. A questão é que poderiam ser percebidas a partir de sinais exteriores. Baltrusaitis mostra o comentário de Charles Le Brun, contemporâneo de Descartes, quanto às conseqüências para os artistas... “E como dissemos que a glândula que está no meio de cérebro é o lugar em que a alma recebe as imagens das paixões, as sobrancelhas são a parte do rosto em que as paixões se dão a conhecer melhor” (6).

Em 1678, Le Brun apresenta sua criação na Academia de Pintura. Elabora 41 máscaras de paixões simples e derivações, onde as sobrancelhas comandam os movimentos. Ainda assim, completa Baltrusaitis, “a sombra do animal permanece ao fundo”. Le Brun segue em sua caracteriologia dividindo os homens em 3 classes:

1) de paixões suaves que não alteram seus traços;
2) de paixões generosas que imprimem neles uma marca particular;
3) de paixões condenáveis e atrozes que degradam seu rosto.


Ele procura resolver o impasse propondo uma geometria da face humana. O gênio do homem e a natureza de um animal seriam captáveis a partir do ângulo constituído pelas linhas retas que passam no eixo dos olhos. A aplicação de tal expediente provaria que o leão possui paixões nobres, enquanto o burro tem impulsos vergonhosos. Importância muito grande adquire o nariz na análise de Le Brun. Aponta o fato de que os narizes dos homens ilustres, da Antiguidade à Modernidade, eram mais ou menos aquilinos – resta o problema de ter certeza que as esculturas e os bustos que retratam estes homens correspondem a sua forma real. Um herói deve possuir também testa alta e larga com sobrancelhas grossas.


Interessante notar que a forma considerada mais negativa parece muito com o nariz do judeu típico... “Mas o cúmulo da desgraça está reservado a quem junta esses sinais funestos um nariz que termina em bico de corvo: ele deve então, irremediavelmente, ser presa das paixões as mais condenáveis” (7). Nota-se como os escorregões no preconceito são perfeitamente possíveis. Tempos mais tarde, no século 20, Adolf Hitler patrocinaria uma perseguição sem precedentes aos judeus, onde a fisiognomonia seria retomada com o objetivo de marcar a diferença (e a suposta superioridade) dos arianos em relação aos judeus.

Tudo isso acaba por dar à cabeça um valor maior frente ao restante do corpo. Le Brun partia do princípio de que se o homem é uma cópia reduzida do universo, sua cabeça resume seu corpo. Por conta da glândula pineal, a cabeça se torna também sede da alma, além de conter um mundo animal. Ainda que se admita que os animais difiram tanto quanto os humanos em suas afeições, o alfabeto de sinais mais seguros seria fornecido pelos animais (8)(imagem abaixo, Lula, presidente do Brasil). Como disseram Gilles Deleuze e Félix Guattari no século 20: separaram a cabeça do corpo...




Leia também:

Rostos: Fisiognomonia (II)
As Mulheres de Luis Buñuel
Luis Buñuel, Incurável Indiscreto

Notas:

1. ECO, Umberto. A linguagem do rosto IN Sobre os espelhos e outros ensaios. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1989.
2. Idem, p.48.
3. Ibidem, p. 52.
4. BALTRUSAITIS, Jurgis. Aberrações. Ensaio sobre a lenda das formas. Tradução de Vera de Azambuja Harvey. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 1999.
5. Idem, p. 33.
6. Ibidem, p. 34.
7. Ibidem, p. 38.
8. Ibidem, p. 35. 


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