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Roberto Acioli de Oliveira

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23 de ago. de 2010

As Tentações do Rosto-Paisagem




“O
quanto se
é tentado
a se
deixar prender aí
,
a se embalar aí,
a se agarrar a
um rosto...

Gilles Deleuze e Felix Guattari

Mil Platôs, vol.3, p. 56






Mas, afinal, por que o rosto é tão importante quando procuramos o sentido, a significação, em alguém? De onde vem a certeza de alguns quanto ao fato de que umas bochechas e uns lábios, ou olhos desse ou daquele formato, sejam expressão do interior de alguém? Por que os traços fisionômicos “falam” mais (ou mais rapidamente) do que uma coxa ou um cotovelo? Estas são algumas das perguntas que José Gil se fez a respeito do rosto (1). E ele constata: um corpo sem rosto é completamente diferente de outro que tenha um rosto. Ou, melhor ainda: “é porque se reconheceu primeiro um rosto que se interpretam imediatamente os traços que nele surgem e se inscrevem. Tal olhar ou curva do nariz toma sentido porque pertence a um rosto” (2). Para o senso comum, o rosto parece ser o ponto central que funda e permite a crença na hipótese de que por ali poderemos captar o interior de alguém a partir de seu exterior – salvo, sem dúvida, para certas especialidades médicas como os ortopedistas, por exemplo!


Quando

um rosto é
tudo que resta
,
alguma coisa
está errada...






Segundo este ponto de vista, os traços fisionômicos só significam porque existe um rosto. O próprio corpo... Os gestos corporais, só adquiririam significado, só significariam alguma coisa, porque o próprio corpo forma um rosto! Gil sugere que os movimentos e traços corporais são como imagens de um rosto que a eles doa sentido. Tudo isto não é idéia de Gil, mas dos franceses Gilles Deleuze e Felix Guattari, a partir dos escritos de Antonin Artaud sobre corpo e rosto (3). Antes do rosto, existe uma “maquina abstrata de rosticidade” (ou rostoidade) que agencia dois dispositivos. Um deles foi chamado de muro branco, são como os grandes planos do rosto no cinema. O outro dispositivo foi chamado buraco negro, que são como os olhos, o olhar, desse rosto em close no cinema. O muro branco é uma superfície de inscrição, enquanto o buraco negro reenvia para um processo de subjetivação. A tal máquina abstrata de rosticidade alimenta os dois processos: o muro branco (os closes de rostos) produz signos; o buraco negro (os olhos e olhares) produz subjetividade.




No Ocidente,
o r
osto se tornou
uma máquina abstrata
q
ue engole e nos
afasta da vida






É essa máquina abstrata que esquematiza qualquer parte do corpo, ou qualquer superfície natural não humana: produz-se então uma “rostificação” do corpo inteiro. Eis porque encontramos rostos um pouco em todo lugar, de uma barriga a uma casa. Entretanto, isso não acontece porque haja uma semelhança entre formas, mas porque se inicia um processo paranóico de subjetivação que une o rosto ao significante barriga, casa, etc. O recurso da rosticidade ao rosto através de uma máquina de significância ocorre porque as significações verbais não seriam inteligíveis, perceptíveis, sem um rosto que as “diga”. A polissemia e indeterminação próprias da linguagem não seriam possíveis não seriam nada sem uma subjetividade que as ancore: é a subjetivação do sujeito da enunciação que vai articular signo e significado. Nesse contexto, sugere José Gil, nos dirigirmos a uma cabeça sem rosto equivale e dirigir-se a ninguém! (4)



Não vemos nosso
próprio rosto
, isso deveria
se
r uma vantagem...






Geralmente, quando falamos com alguém em sua presença nos dirigimos a seu rosto. Parece evidente, mas Gil nos lembra que isso acontece também porque o rosto possui uma profundidade própria. O rosto é, definitivamente, uma região de passagem do exterior para o interior. Meu rosto visto por mim mesmo, do interior, gera a estranha sensação de que ele não está em parte alguma. Nós não vemos nosso próprio rosto, tem-se a impressão, conclui Gil, que o “eu” se situa no interior, por detrás do rosto. Não a vemos, mas podemos sentir parte desse rosto. De acordo com Gil, “de certa forma habitamos de modo permanente a interface entre o exterior (a que pertencem essas percepções fugazes e fragmentárias da cara) e o interior” (5). Um “sujeito da percepção” habita essa fronteira entre interior e exterior. Só consigo ver meu rosto através das imagens, seja no rosto do outro, seja no espelho, seja na paisagem que estou olhando agora. Meu rosto, José Gil enfatiza, como que circunscreve a paisagem: sinto como se todo o meu rosto fosse um imenso par de olhos ou uma espécie de superfície visual que se prolonga na paisagem que visualiza. Eu não vejo meu rosto, mas eu sei que estou aqui!



Se os
outros não
me olhassem
eu não teria
um rosto








Sendo assim, meu rosto, para mim mesmo, depende daquilo que aparece no rosto dos outros. Como na primeira relação intersubjetiva de um bebê, que é com sua mãe, o interior de um se prolonga no exterior do outro (o rosto da mãe como uma entrada, um buraco negro) (6). Gil se refere a forças que projetamos (e que os outros também projetam em nós) – o tom da voz, os olhares, etc. A imitação entre aquelas pessoas que adotam os tiques faciais e gestuais de seu interlocutor dependerá justamente do tipo de força que cada um joga na interação. Os signos que meu rosto emite me são significados indiretamente através dos rostos dos outros. Desta forma, o que vejo no rosto dos outros é a relação de forças (e relação afetiva) que estabeleço com eles. Meu rosto está marcado no deles, marca que ao mesmo tempo depende do que o rosto deles provoca em mim. Não tenho a imagem direta do meu rosto, mas espalho traços dele fora de mim – no rosto dos outros e na paisagem. Eis porque, explica Gil, é uma “geografia das forças e dos afetos” que se exprime em traços de paisagem que são traços de rosto (7).




Mas como
não rostificar
o mundo vivendo
numa cultura
de massas?







José Gil nos lembra que, de acordo com a tese de Deleuze e Guattari, o único rosto que existe é o do homem branco. O rosto, tendo o de Cristo como modelo (e talvez não seja por acaso que o tal processo de subjetivação é necessário aos sistemas de poder), constitui uma invenção do Ocidente. Africanos, asiáticos e índios, teriam cabeças, mas sem rosto. Vale dizer, sem o sistema de rosticidade muro branco-buraco negro. E, talvez, não tenham mesmo! Isso não é um problema, aquilo que seria entendido como um demérito dos não-ocidentais talvez seja uma saída do problema. Gil conclui dizendo que a cultura de massa atual tem como característica uma produção de faces sem rosto. Talvez realizando o desejo expresso nas palavras de Michel Foucault: “escrevo para deixar de ter um rosto?” Quer dizer, deixar de ter uma identidade social, um lugar marcado. Deixando de ter um rosto, podemos nos entregar ao devir, devir-imperceptível, devir-outro (pois possuo múltiplos rostos). Entretanto, Gil deixa claro, as faces sem rosto de hoje (ou de um só rosto) são estranhamente rígidas, significantes. Nenhum devir-outro as atravessa, nenhum desejo de desaparecer. Por outro lado, se poderia considerar como uma reação a esse estado de coisas as máscaras-rostos que aqui e ali se sobrepõem ao rosto-suporte de subjetivação: tatuagens faciais que pervertem a significância dos signos do homem-rosto massificado, os mais variados tipos de piercings afastando da pele a possibilidade de recair no jogo muro-branco-buraco negro e destruindo a subjetivação (8). Resta saber até quando piercings e tatuagens conseguirão não se render ao canto de sereia da massificação. Seja como for, José Gil não parece capaz de sugerir outras formas de escapar da subjetivação senão por esses exemplos, que podem muito facilmente recair na tentação do culto ao corpo – processo intersubjetivo que é totalmente dependente, e talvez mesmo suplique, o olhar do outro.



Nós
somos
viciados
no olhar
do outro
sobre
nós!





Notas:

Todas as pinturas são de Kasimir Malevich (1878-1935):

Presentimento Complexo: Meia Figura com Camisa Amarela (1928-32)
Duas figuras numa Paisagem (1931-2)
Desportistas (1928-30)
Dois Camponeses (1928-32)
Dois Homens (1930-32?)
Banhistas (1928-32)
As Banhistas (1908?)

Leia também:


Rosto Sem Rosto: Prosopagnosia
A Cegueira da Visão (I), (II), (final)
O Rosto no Cinema (I), (III), (VI), (VII), (VIII), (IX)
O Corpo Expressionista
O Melhor Efeito Especial é a Alma Humana
O Rosto que Temos e Aquele que Vemos (I), (II), (final)

1. GIL, José. Metamorfoses do Corpo. Lisboa: Relógio D’Água Editores, 2ª ed., 1997. P. 163.
2. Idem, p. 164.
3. DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Felix. MILLE PLATEAUX. Capitalisme et Schizophénie. Paris: Les Éditions de Minuit, 1980, p. 230. Edição brasileira, Mil Platôs. Rio de Janeiro: Editora 34, vol. 3.
4. GIL, José. Op. Cit., p. 166.
5. Idem, p. 167.
6. Ibidem, p. 171.
7. Ibidem, p, 170.
8. Ibidem, p. 172.

4 de abr. de 2008

Rostos: Fisiognomonia (V)

Cesare Lombroso


Falar de Cesare Lombroso neste trabalho obedece a uma dupla função. Além de um lugar de destaque nas tentativas de cientificização do discurso sobre a aparência e os movimentos expressivos, suas idéias tiveram muita influência no Brasil entre criminologistas e juristas. Entre seus livros estão O Delinqüente (L’Uomo Delinqüente, 1876) (imagem ao lado), e O Crime, Causas e Remédios (1899). Lombroso morreu em 1909 (1).


Criminologista e professor universitário italiano torna-se famoso por suas teorias no campo da caracteriologia, como a craniologia e a fisionomia, buscando uma relação entre características físicas e mentais. Procurava-se relacionar, por exemplo, o tamanho da mandíbula e a psicopatologia criminal, a tendência inata de alguns indivíduos para a sociopatia e o crime. O ponto de vista lombrosiano foi tributário direto da frenologia, criada no princípio do século 19 pelo alemão Franz Joseph Gall. Cientificamente, sua teoria foi desacreditada, entretanto produziu um impulso decisivo para a antropologia criminal - o estudo científico da mente criminosa.

Inspirado nos modelos evolucionistas do final do século XIX propunha que alguns criminosos carregam uma evidência física de caráter atávico ou hereditário, remanescente de um comportamento adquirido nos mais primitivos estágios da evolução humana. Anormalidades nas dimensões do crânio e mandíbula, assimetrias no rosto e outras partes do corpo, eram chamadas Stigmata: os criminosos mostrariam em seus rostos assim como em seus corpos aquilo que Lombroso gostava de chamar “estigmata de degenerescência” (2). Suas especulações foram substituídas mais tarde por teorias baseadas em causas ambientais.

Entre 1750 e 1850 os fisionomistas e os frenologistas tentaram provar que existe uma ligação entre a propensão ao comportamento criminoso e uma aparência pouco usual (basicamente rosto, ouvidos e olhos) e a forma do crânio (inchaços ou galos sendo um indicador das áreas dominantes do cérebro). Os fisionomistas estudavam a aparência do rosto e os frenologistas estudavam os galos na cabeça. São as bases da antropologia criminal. Segundo os frenologistas, o “exercício mental” poderia regenerar um criminoso. No século 20, chamou-se Constitucionalismo ao estudo da constituição física do corpo. A busca pelo criminoso constitucionalmente determinado se estendeu até 1950.

O trabalho de Ernest Hooton, um antropólogo de Harvard, populariza o Constitucionalismo nos Estados Unidos a partir da década de 30. Concluiu que os criminosos são inferiores aos cidadãos comuns em todos os aspectos físicos. Seu racismo ficou patente quando afirmou que a testa negróide era um perfeito exemplo de testa criminosa. Na década de 40, William Sheldon chamou atenção para as características físicas dos delinqüentes jovens. Produziu um Índice de Delinqüência baseado em fotografias, que determinariam quais deveriam ser institucionalizados. Sua abordagem às vezes é referida como Teoria Somatotípica. Seus procedimentos foram apoiados por Eleanor Glueck nos anos 50. Suas pesquisas sugeriam que rosto estreito, peito estufado, cintura mais larga e maiores antebraços estão associados com 60% dos delinqüentes e 30% dos não delinqüentes.


Francis Galton (1822-1911), cientista britânico e parente de Charles Darwin, tornou-se famoso por seu trabalho em antropologia e hereditariedade. Tido como o fundador da ciência da eugenia, seus escritos sobre hereditariedade muito influenciaram Lombroso. Segundo Galton, considerando a população como um todo, através de sucessivas gerações, o caráter e o talento reverteriam a uma média, vista por ele como medida de mediocridade física e intelectual. Galton procurou entender os processos hereditários, acreditava que ao conseguir compreender seus mecanismos, poderia aumentar a freqüência de traços desejáveis. (imagem ao lado, Alpholse Bertillon, Tableau Synoptique des Traits Physiognomiques, 1901-16).

As qualidades indesejáveis que Galton pretendia erradicar intrigavam Lombroso. Baseando-se na teoria da seleção natural de Darwin, Lombroso concluiu que em qualquer população, um pequeno número de indivíduos poderia exibir instintos extremamente primitivos. Constituiriam retrocessos evolucionários – estes são os casos de atavismo.

Sua hipótese afirmava que, nas sociedades primitivas, indivíduos com esses traços estariam mais equipados para sobreviver. Forte desejo de matar os teria transformado em ótimos caçadores e parceiros sexuais disputados. Nas sociedades “civilizadas e urbanas” da Europa, esse atavismo provavelmente seria a causa do comportamento criminoso. Entretanto, argumentou Lombroso, tais indivíduos não teriam muitas possibilidades de sobreviver nas sociedades industriais, posto apresentar baixa fertilidade. Ainda assim, Lombroso mostrou que nos campos europeus e nas áreas industriais (onde havia muitas favelas) esses indivíduos com características primitivas estariam apresentando um grau de fertilidade maior. Concluiu então pelo aumento de qualidades sociais indesejáveis nas pessoas destas classes sociais.(Imagem abaixo, tipos criminosos segundo Lombroso).

Desejava demonstrar, por exemplo, que a tatuagem entre criminosos indicava a sobrevivência de instintos primitivos. Sabemos que existem códigos entre os detentos que passam por tatuagens. Remoção das tatuagens, assim como a cirurgia plástica, foram algumas das práticas que encontraram seu caminho nos programas de reabilitação nos Estados Unidos no passado. Lombroso também escreveu sobre uma articulação entre mulher e crime.


Lombroso conclui que o criminoso não é uma vítima de circunstâncias sociais desfavoráveis. Contudo, era um defensor dos bons tratos aos detentos, já que seria imoral não adotar uma atitude humanitária com aqueles biologicamente incapazes de neutralizar o próprio comportamento anti-social. Apostou, assim como Galton, que a prevenção do crime demandava uma ciência da eugenia que permitiria aos governos implementar programas de melhoramento social e moral através da procriação. Temos aqui as bases científicas de uma tendência muito disseminada no princípio do século 20 (inclusive implementadas por políticas públicas em diversos países), e que também está na base da limpeza étnico-estética de Hitler (3).


No mundo anglófono, a teoria da criminalidade atávica conquistou muitos nomes influentes na ciência de seu tempo, contudo tornou-se de fato mais conhecida por artigos como o de J. Holt Schooling, na revista Harmsworth, que em 1898 escreveu Sinais de Perigo da Natureza. Tais artigos colocaram Lombroso no mapa das classes e grupos sociais xenófobos e racistas. Ainda assim, havia um ceticismo em relação a suas idéias. No Congresso Internacional de Antropologia Criminal, em 1889 na França, os especialistas o criticaram. Defendiam a hipótese de que as origens do crime seriam encontradas nas condições sociais e não em tendências inatas. De fato, mesmo que o holocausto de Hitler ainda demorasse mais 40 anos para chegar, já começa um movimento nas nascentes ciências sociais em direção oposta às teorias de cunho biológico.


Notas:

1. SABBATINI, Renato M. E. Phrenology: the history of brain localization. Salvo quando referenciado, estas observações são retiradas do site onde reproduziu parte de seu texto. http://www.cerebromente.org.br/n01/frenolog/frenologia.htm
2. LIGGETT, John. The Human Face. London: Constable, 1974. P. 244.
3. O documentário de Peter Cohen, Homo Sapiens 1900 (1998), apresenta farto material sobre o tema. Lançado em dvd no Brasil pela Versátil Home Vídeo (2007). 


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