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Roberto Acioli de Oliveira

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14 de out. de 2010

O Monstro Brasileiro de Hollywood




Afinal de contas
,
por que será que
a
mai
oria dos monstros
nunca  nasceu  nos
Estados Unidos?



 

O Monstro da Lagoa Negra (The Creature From the Black Lagoon, direção Jack Arnold, 1954) apresenta a Amazônia como uma terra inóspita e pré-histórica, onde a evolução parou e os animais se parecem com dinossauros. Nos confins desta floresta amazônica, um grupo de cientistas norte-americanos se depara com uma criatura aquática que parece um elo perdido entre o homem e o peixe. Enquanto se dividem entre o interesse científico e a vontade de levar o monstro para civilização para ganhar dinheiro e notoriedade com a descoberta, o homem-peixe parte para o ataque. A fera concentra seus esforços em raptar a mulher que está com o grupo de cientistas e chega a impedir a fuga do barco bloqueando a saída da lagoa. Quando o monstro consegue seu objetivo, será implacavelmente perseguido pelos sobreviventes e destruído.




No mundo dos clichês
de Hollywood
, monstros
são sempre  os  outros







Quando o cineasta dinamarquês Lars von Trier dirigiu Dogville (2003), primeira parte de uma trilogia sobre os Estados Unidos, o então presidente George Bush filho reclamou afirmando que seu país não era assim. No filme de Trier, as pessoas são cínicas e muito facilmente se entregam à maldade. Entretanto, quando analisamos os filmes produzidos em Hollywood, grande parte se entrega muito facilmente a clichês preconceituosos em relação a outros povos do mundo. É só escolher, poderíamos começar por O Nascimento de Uma Nação (The Birth of a Nation, 1915), famoso filme mudo dirigido por D. W. Griffith (1875-1948). Libelo racista contando a história da formação dos Estados Unidos na época da Guerra Civil, os negros foram retratados como um bando de arruaceiros e estupradores que se beneficiaram da vitória do exército do norte industrial sobre as tropas do sul escravocrata. A Ku Klux Klan era retratada como um grupo de homens corretos lutando contra a tirania. Famosa é a seqüência em que uma jovem branca prefere se suicidar a ser estuprada por um negro, mas o detalhe verdadeiramente bizarro é que o negro era um ator branco pintado de negro. Como foi muito criticado, no ano seguinte Griffith dirigiu Intolerância (Intolerance: Love's Struggle Throughout the Ages, 1916), mostrando a luta contra a opressão através dos séculos.




Eles estão sempre
atacando cidadãos norte

-americanos  indefesos e
bem intencionados





Em King Kong (1933), a tribo indígena que cultua o gorila gigante é composta apenas por negros. Retratados como um bando de gente estúpida e idólatra, os negros destoam completamente em relação aos brancos civilizados. O arrogante cineasta e empresário branco que só pensa ganhar dinheiro com o monstro e demonstra desdém pelos indígenas parece estar de acordo com a visão hollywoodiana do mundo, sem falar no cozinheiro chinês do barco, uma espécie de idiota servil e inocente como uma criança. Naquela época, chineses ainda eram representados como gente incapaz ou super vilões como Ming, imperador do universo, o déspota oriental do planeta Mongo combatido por Flash Gordon. Aliás, Griffith também havia mostrado um chinês em Lírio Partido (Broken Blossoms or The Yellow Man and the Girl, 1919), que necessariamente irá se arrepender de ter se aproximado de uma mulher branca.



Até algum tempo
,
alguns desses monstros
falavam chinês
e tinham
os olhos puxados







Os árabes em geral, e os muçulmanos em particular, são um caso a parte. Jack G. Shaheen mostrou com muitos exemplos, novecentos até agora, como Hollywood sempre desprezou este grupo étnico e religioso – embora o livro de Shaheen cite alguns exemplos de filmes produzidos na Europa, a maioria avassaladora é norte-americana(1). A coisa piorou bastante após os atentados de 11 de setembro de 2001 ao World Trade Center em Nova York, quando o então presidente George Bush filho lançou uma espécie de cruzada contra o mundo muçulmano, sem a menor preocupação em demonizar todos os árabes e muçulmanos do mundo. De qualquer forma, Shaheen mostrou que o preconceito e as burrices cenográficas hollywoodianas já estavam presentes desde o cinema mudo, cobrindo os árabes em geral com uma espécie de manto que ao mesmo tempo os tornava exóticos e os neutralizava como seres humanos de uma escala inferior. Não é preciso ir muito longe para compreender onde isso levaria, depois dos atentados terroristas comandados por Osama Bin Laden, os filmes retratando os muçulmanos como um bando de lunáticos se multiplicou consideravelmente. Até que finalmente em 2010 o presidente Barack Obama, o famoso primeiro presidente negro norte-americano, disse para quem quisesse ouvir que a luta dos Estados Unidos é contra o terrorismo e não contra os muçulmanos. Na mesma época, um pastor norte-americano anunciou que pretendia queimar o Alcorão (livro sagrado dos muçulmanos) durante as comemorações dos nove anos do atentado.


O Monstro da Lagoa Negra não poderia ser uma exceção neste padrão de ignorância e desprezo de Hollywood em relação às diferenças culturais. A Amazônia é caracterizada como um lugar pré-histórico onde o tempo parou e os animais seriam maiores do que no resto do mundo porque na escala da evolução continuavam como eram a milhões de anos atrás. Esse padrão já havia sido lançado na literatura por Arthur Conan Doyle (1859-1930), cujo livro virou filme, O Mundo Perdido (The Lost World, direção Harry O. Hoyt, 1925). Um clássico do cinema mudo e precursor de King Kong, já apresentava a Amazônia como um depósito de criaturas pré-históricas – incluído um homem-macaco assustador. Portanto, só lá mesmo os cientistas brancos poderiam se deparar com uma criatura que era uma espécie de elo perdido entre o homem e o peixe. O Monstro da Lagoa Negra até mostra um peixe, que de fato existe na natureza, que respira através de pulmões, mas curiosamente ele não é gigantesco, não tem mandíbulas enormes e não sai por aí raptando mulheres brancas norte-americanas.



Os  cientistas  norte-
a
mericanos do filme não
seriam os primeiros nem
os últimos que entraram
na Amazônia para fazer
o que bem entendem





O monstro da lagoa negra amazônica não tem mandíbulas, mas convenientemente parece se apaixonar pelo espécime feminino citado. Outra coisa que salta aos olhos é a maneira como os brasileiros são retratados ou, deveria dizer, os latino-americanos. Os funcionários do cientista seriam brasileiros, se chamam Tomás e Luís, nomes até prováveis para brasileiros. Mas eles mais se parecem com mexicanos, ou melhor, com clichês da imagem de lavradores mexicanos, do que com brasileiros. Além disso, esse é o ponto, se comportam com o mesmo padrão dos chineses hollywoodianos ou, mexicanos, em geral: criaturas simplórias como crianças, incapazes de compreender a complexidade do mundo, um conhecimento a que só teriam acesso os brancos civilizados - geralmente norte-americanos ou europeus do norte da Europa. David J. Skal afirmou que para aqueles que cresceram na década de 50 do século passado o mostro da lagoa negra foi realmente o primeiro monstro dos estúdios Universal (2). E pensando bem Frankenstein (e a esposa dele), o lobisomem, Drácula e o homem invisível eram todos humanos de alguma forma. Portanto, o primeiro monstro de verdade só poderia morar no Brasil! Ainda que, na verdade, a lagoa negra mostrada no filme fosse localizada na Flórida...

Leia também:

O Cinema de Fassbinder e o Medo da Solidão
O Cinema Político de Valerio Zurlini
Algumas Mulheres de Fellini em A Doce Vida e Amarcord
Do Samurai ao Kamikaze
Pênis e Racismo
O Passado Nazista do Cinema de Entretenimento
Isto é Hollywood!
A Fabricação do Herói (I), (final)

Notas:

1. SHAHEEN, Jack G. Reel Bad Arabs. How Hollywood Vilifies a People. Massachusetts: Olive Branch Press, 2º ed., 2009.
2. De Volta à Lagoa Negra. Uma Crônica do Monstro. Extra de O Monstro da Lagoa Negra, lançado em dvd no Brasil ela Universal, 2004. 


25 de mai. de 2010

Entre o Terrorismo e o Martírio




“É mais que uma
religi
ão, é uma filosofia
de vida
. Uma filosofia de
vida não-individualista
,
diferente da do Ocidente
.
É uma ação individual

que tem um claro
objetivo coletivo”


Nissar Messari (1)




Desin
formação Já

Há quem diga que a prática de atentados suicidas começou na década de 80 do século passado quando o aiatolá Khomeini, então em guerra com o Iraque, baixou uma lei nesse sentido. A prática chegou então ao Líbano através do Hisbolá, que em 1983 explodiu a embaixada norte-americana em Beirute. Então a técnica teria passado para o Hamas, que passou a mandar gente se explodir em Israel (2). Alguns citam os Kamikazes japoneses durante a Segunda Guerra Mundial algumas décadas antes. Até aqui, parece que a auto-imolação é coisa de oriental – o velho clichê do Déspota Oriental. Mas o batido clichê que desvaloriza o mundo oriental cai quando outros citam Sansão. O personagem bíblico destruiu um templo Filisteu com as próprias mãos, morrendo no ato (3). (todas as imagens deste artigo mostram o ataque terrorista ao World Trade Center, com excessão das duas últimas; a penúltima mostra a explosão atômica em Hiroshima; a seguinte mostra uma das sobreviventes)

(...) [Os Estados Unidos]
são o único país que já
foi condenado pela Corte
Mundial
por terrorismo
internacional
(...)

Noam Chomsky (4)

É curioso que não se comente sobre o terrorismo praticado por Menahem Begin, ex-Primeiro-Ministro de Israel (de 1977 a 1983), durante os primeiros anos do pós-guerra, quando a Palestina ainda era um protetorado Britânico. Em 1947, ele foi responsável pelo atentado à bomba no hotel King David, em Jerusalém, então sede administrativa dos ingleses: 91 mortos. Muito embora o exemplo de Begin não envolta o suicídio do atacante, como no caso dos terroristas que se atiraram no World Trade Center em 2001, é inegável que envolveu a morte de pessoas inocentes que porventura estivessem naquele local na hora do ataque. O terrorismo de Estado praticado pelos Estados Unidos e por muitas das potências ocidentais em suas ex-colônias também não costumam ser lembradas. Até hoje, apenas um país usou a bomba atômica, os Estados Unidos. Além disso, não se dá a devida atenção e publicidade ao fato de que em Hiroshima e Nagasaki, as cidades japonesas bombardeadas, o alvo era, não há como negar, a população civil – não há documentário sobre a Segunda Guerra que diga que essas cidades eram alvos militares incontornáveis. Mudando um pouco de cenário, durante o governo do ex-Presidente Ronald Reagan, os Estados Unidos apoiou atos terroristas de Estado da então ainda racista África do Sul em que um milhão e meio de mortos e 60 bilhões em prejuízos materiais foram contabilizados (5).

A Posse do Próprio Corpo, Pelo Menos...



É no Ocidente que
a indústria
de armas
dá mais dinheiro
, mas
os terr
oristas suicidas
é que são loucos
...




O Xeque Ali Abdouni esclareceu que o suicídio é proibido pelo Alcorão, há não ser que alguém o pratique com o intuito de defender a liberdade e a justiça – sempre como último recurso, depois que todas as possibilidades de resolver os problemas se esgotaram. Abdouni percebe também que, no fundo, o que muda são as formas de luta – pois as guerras sempre existiram. Nestes termos, no Islamismo, o suicídio se transforma em martírio. O paraíso só é alcançado por aqueles com intenções puras e busca de justiça para os inocentes e oprimidos. Apenas Deus sabe se uma criatura é mártir ou não, explica Abdouni, pois somente Ele conhece o que se passa no íntimo de cada um de nós (6).



“Há vários
bin Ladens

de ambos os
lados
, como
sempre”

Noam
Chomsky (7)



Os mártires, ou Shahids, explicou Nissar Messari, não são pessoas desiludidas e desesperadas que buscam a morte. Os Shahids, ao contrário, devem ter amor à vida. Ao morrerem, eles passam a uma dimensão divina. Além das 72 virgens, elemento tão enfatizado pelos detratores, os mártires conquistam o direito de ver o rosto de Alá (o rosto de Deus). A família do mártir ganha status social e recebem dinheiro de organizações como o Hamas e o Jihad – que também possui escolas, creches, universidades e jornais. Os Shahids geralmente são jovens entre 18 e 27 anos, estudantes dedicados ao fundamentalismo islâmico. Eles não são voluntários, são escolhidos pelo mentor religioso da escola ou mesquita que freqüentam (8). Osama Bin Laden foi produzido pelos Estados Unidos para se por à invasão do Afeganistão pela ex-União soviética na década de 90 do século passado. Entretanto, quando o feitiço se vira contra o feiticeiro... Nas palavras de Noam Chomsky:

“O ódio é a maneira
de se expressar dos islâmicos
ra
dicais mobilizados pela CIA (...).
Os EUA se dispuseram a apoiar
,
com satisfação
, o ódio e a violência deles quando era dirigida contra
os inimigos dos EUA
; e ficaram contrariados quando o ódio que ajudaram a gerar foi dirigido contra eles próprios e seus aliados, como
tem acontecido
, repetidamente,
há vinte an
os (...) (9)

O Rabino Henry Sobel disse que o judaísmo proíbe o suicídio. Entretanto, explicou que é permitida a violação de qualquer lei judaica para salvar uma vida, incluindo a própria – a morte deve ser o último recurso. Sobel lembrou que o suicídio em massa ocorrido no ano 73 na fortaleza de Massada, sitiada pelos romanos, fez do local o mais conhecido símbolo do martírio judaico. Durante as Cruzadas, na Idade Média, também houve judeus que preferiram o suicídio a ter que se converter (10). Embora o primeiro preceito budista seja “não matar”, durante a Guerra do Vietnã alguns monges atearam fogo ao próprio corpo em sinal de protesto. A Monja Coen explicou que Isso não foi considerado uma quebra do preceito, mas uma oferta a Buda – o maior presente que se pode dar a Buda. Mas Coen esclareceu que não se deve fazer uma leitura literal dos textos sagrados. De acordo com Coen, os Kamikazes japoneses que durante a Segunda Guerra se atiravam sobre o inimigo, teriam feito uma leitura equivocada tanto do budismo quanto do xintoísmo (11).

Como sugeriu Fassbinder
certa vez
, o terrorismo foi
inventado pelo capitalismo
para justificar o aumento

da segurança dele mesmo



No fundo, toda essa discussão tem apenas uma origem: o terrorismo muçulmano. Porém, num contexto diferente daquele que o clichê impõe, poderíamos nos perguntar como o fez o cineasta alemão Rainer Werner Fassbinder, a quem realmente serve os homens-bomba? Se Fassbinder estava certo, então eles não passam de inocentes úteis que ajudam a aumentar o poder dos Estados policiais e os lucros da indústria armamentista que anda de braços dados com eles – da mesma forma que à indústria de armas e equipamentos de segurança interessa a manutenção dos índices de criminalidade e a continuação do conflito entre traficantes e policiais nos morros cariocas.

“Extremistas radicais islâmicos,
freqüentemente chamados ‘fundamentalistas’
,
eram os preferidos dos EUA
, nos anos 1980, por
se tratar dos melhores assassinos que se
poderiam encontrar à disposição


Noam
Chomsky (12)

Notas:

Leia também:

Isto é Hollywood!
Suicídio é Pecado Mesmo?
O Diferente (do Oriente) Como Bode Expiatório

1. ITUASSU, Arthur. O Martírio como Arma. Terrorismo Suicida se Firma Como Estratégia Palestina Indomável para Israel. Jornal do Brasil, sábado, 18/07/2001.
2. Idem.
3. Homem-Bomba. Santo ou Demônio?. Revista Carta Capital, ano IX, nº. 235, 09/04/2003. P. 38.
4. CHOMSKY, Noam. 11 de Setembro. Tradução Luiz Antonio Aguiar. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2002. Pp. 27, 78 e 97.
5. Idem, p. 78.
6. Ver nota 3, pp. 39-40.
7. CHOMSKY, Noam. Op. Cit., p. 37.
8. ITUASSU, Arthur. Op. Cit.
9. CHOMSKY, Noam. Op. Cit., pp. 92-3.
10. Ver nota 3, p. 41.
11. Idem, pp. 42-3.
12. CHOMSKY, Noam. Op. Cit., p. 24.

23 de mai. de 2010

Do Samurai ao Kamikaze





“O ato característico dos homens na guerra
não é mo
rrer, é matar”

Joana
Bourke (1)





Tudo Começa Com Honra (2)

O Hagakure, uma obra didática destinada aos samurais do século XVIII, diz que não se pode encontrar um homem belo cuja aparência não esteja respirando serenidade, dignidade calma. Para obter tal controle de si, é necessário ser reservado, austero mesmo, sério, mas sempre devotado, justo e respeitoso com os outros. Tais virtudes marciais de simplicidade e lealdade foram formuladas, posteriormente, no que chamamos de Bushido, o “caminho dos guerreiros”. Este famoso código de honra dos samurais japoneses, forjado pelo budismo zen e pelo confucionismo, determina deveres recíprocos entre senhores e servos. Ensina não apenas como desenvolver a coragem e as qualidades físicas, mas também como comportar-se diante de seus superiores. Recomenda a honestidade, a magnanimidade, o desinteresse e o desprezo em relação à morte.


Para uma
sociedade que vende

armas de brinquedo para
crianças, condenamos o
espírito Kamikaze
rápido demais




O espírito do Bushido sobrevive hoje de forma atenuada na prática de artes marciais. Mas foi ele que acompanhou os jovens pilotos Kamikazes no final da Segunda Guerra Mundial contra as forças norte-americanas. De acordo com Dominique Buisson, quando o homem de hoje se identifica com o mito do samurai, o faz, sobretudo, a nível social: a força e a superioridade do guerreiro que reivindica como um patrimônio antigo, pés firmemente colados no chão, confiança, barriga para frente, coluna reta e cabeça erguida. Uma grande concisão verbal está a serviço da entonação grave de sua voz.(primeira imagem, seguindo a tradição: piloto japonês leva consigo uma espada samurai; acima, à direita, e abaixo, Kamikazes momentos antes de decolar para sua única missão)


“Se colocamos tão alto a dignidade da vida, como
não colocar igualmente
alta a dignidade da morte?
A morte não pode jamais
ser qualificada de fútil”


Yukio
Mishima


Cristãos Deveriam Saber Morrer

“Falamos muito
de lutar até o último
homem e
até o último
cartucho
, mas o soldado
japonês
é o único
que faz isso”

Marechal Slim, Comandante do 14º
Exército Britânico na Birmânia (3)


De acordo com Barbara Ehrenreich, durante a Segunda Guerra o Japão era alicerçado num nacionalismo leigo. A escola pública incluía treinamento militar para os meninos e para ambos os sexos uma doutrinação militarista e adoração ao imperador. As aulas de ciências e matemática eram repletas de exemplos tirados do campo de batalha. O imperialismo japonês abraçou o xintoísmo tradicional. Até o período Meiji, no final do século XIX, o xintoísmo tendia a ser apolítico e não muito “religioso”. Ocupava-se mais dos festivais religiosos e pregar a obediência aos rituais domésticos e de casamentos. Por esta razão, os samurais preferiam o budismo, sua austeridade e indiferença em relação à morte. Mas os samurais eram uma elite reduzida, e seu zen-budismo nunca atraiu muitos adeptos (4). (imagem acima, à esquerda, Kamikaze prestes a errar o alvo; abaixo, Kamikaze prestes a certar o alvo)


Não adianta taxar
guerreiros suicidas de
dementes. A fronteira entre
o heroísmo e o fanatismo
é sempre determinada
pelo vencedor




Ehrenreich esclarece que, com a militarização da sociedade japonesa a partir da virada do século XX, o xintoísmo ligou-se ao nacionalismo. Os sacerdotes recebiam dinheiro público para preparar outros sacerdotes e cuidar dos santuários. Também gozavam de apoio do Estado em relação à rivalidade com o budismo. No início da Segunda Guerra, afirmou Ehrenreich, o xintoísmo havia se tornado a religião do Estado. Para não serem acusadas de fundamentalismo religioso, as autoridades assumiram que o xintoísmo não era uma “religião”, mas algo leigo e arraigado na vida japonesa: um “espírito nacional”. No centro disso tudo estava a idéia do Kokutai, o corpo-nação – correspondendo ao que os intelectuais ocidentais chamavam de “nação com organismo”. Era a noção de que os cidadãos formavam uma “massa”. Representado pelo imperador e pelos sacerdotes xintoístas, o Kokutai exigia fidelidade absoluta, inclusive a aceitação de morrer por ele – essa coisa toda, Ehrenreich sugeriu, não diferia muito do ideal de sacrifício presente no nacionalismo europeu. Sendo assim, o estereótipo do déspota oriental, é construído um pouco em função de nossa cegueira em relação a nós mesmos. (imagem abaixo, à direita, mais um Kamikaze prestes a atingir o alvo; no final do artigo, mais um grupo deles em sua cerimônia final antes da última missão)

“Como os
nacionalismos
europeus
, o Estado
xintoísta via na guerra
uma empreitada
sagrada”

Barbara
Ehrenreich (5)


Embora tivesse ecos no passado, o “culto Kokutai”, surge apenas na década de 30 do século passado. A idéia de nação como um corpo ou organismo místico centrado no corpo de um líder era um fenômeno da era moderna: a era dos grandes exércitos. No antigo Japão dos samurais, o Bushido representava uma ética de elite de guerra – semelhante ao dos cavaleiros europeus medievais das cruzadas. Na era dos grandes exércitos, o Bushido deveria incluir as massas, que agora poderiam morrer gloriosamente na guerra – direito que antes, lembra Ehrenreich, somente seus superiores tinham. Ainda de acordo com Ehrenreich, o nacionalismo religioso japonês suplantou seu correspondente europeu no que diz respeito à glorificação dos mortos na guerra. Se os europeus homenageiam seus mortos, os japoneses os tratam como deuses. Seis mil jovens se apresentaram para as missões suicidas na Segunda Guerra... Um escrito no bolso de um soldado japonês mortos dizia: “Vou me transformar numa divindade e sorrirei em meio à neblina espessa. Estou apenas aguardando o dia da morte”. No fundo, não se pode dizer de Ohnishi, o mentor dos Kamikazes, que agiu diferentemente da maioria dos líderes ocidentais (políticos e militares) quando se trata de dispor da vida alheia...

(...) Se formos resolutos
e estivermos preparados

para sacrificar 20 milhões
(...) num esforço Kamikaze,
a vitória será nossa”


Almirante Takajiro Ohnishi,
num último esforço delirante
de convencer seus pares (6)




Notas:

Leia também:

Suicídio é Pecado Mesmo?
Pênis Guerreiro
Yasujiro Ozu e Seu Japão
Estética da Destruição
Pênis e Racismo
A Fabricação do Herói (I), (final)

1. BOURKE, Joana. An Intimate History of Killing. Face to Face Killing in 20th Century Warfare. London (?): Basic Books, 1999. P. xiii.
2. BUISSON, Dominique. Le Corps Japonais. Paris (?): Hazan, 2001. P. 118.
3. BARKER, A. J. Kamikazes. Rio de Janeiro: Renes, 1975. P. 22.
4. EHRENREICH, Barbara. Ritos de Sangue. Um Estudo Sobre as Origens da Guerra. Tradução de Beatriz Horta. Rio de Janeiro/São Paulo: Editora Record, 2000. P. 220.
5. Idem, p. 222.
6. BARKER, A. J. Op. Cit., p. 9.

6 de set. de 2009

Desinformação Já



“Uma escola que
não ensina como
assistir à televisão
é uma escola que
não educa”


Joan Ferrés
Televisão e Educação


A
s Coisas e as Imagens das Coisas

Quase sempre, dos milhares de filmes de ação (guerras e tiroteios) vomitados por Hollywood, só chamam a atenção da maioria as belas luzes, um espetáculo para os olhos; além de um suposto heroísmo (na imagem acima, vemos uma cena real de batalha com tropas norte-americanas no Iraque; na imagem ao lado, a imagem não cinematográfica, sem glamour e sem heroísmo da mesma guerra. As duas imagens são de 2003). Lá na terra do Tio Sam (nas emissoras de tv norte-americanas), como cá (nas emissoras de tv brasileiras que cobrem as batalhas entre polícia e bandidos nos morros cariocas), não se mostra as vítimas, não se mostram seus corpos destroçados.

Esse tipo de coisa não dá ibope e, além do mais, pode gerar movimentos da sociedade contra a violência. E mesmo que mostrasse, será que a sociedade brasileira DESEJA saber? Na estratégia de dessensibilização generalizada e no faroeste televisual onde quase já não se distinguem mocinhos de bandidos, tudo é "ação". No comportamento belicista patético que se procura transformar em heroísmo, esconde-se a herança da “sociedade da informação”: desinformar é preciso.

Imagine que você vive num país onde a distância entre tv aberta e tv a cabo é um pouco maior do que se supõe. Especificamente no caso dos noticiários. Imagine que na primeira as notícias sejam rápidas, ralas (talvez porque o interesse seja segurar a audiência para assistir a propaganda, que ocupa mais espaço nos noticiários do que as notícias). Na tv a cabo, os assuntos (ou certos assuntos), são discutidos a exaustão por especialistas. Imagine agora que os públicos das duas são diferentes (ou melhor, pertencem a classes sociais distintas). Sendo a tv a cabo mais cara, naturalmente são as classes baixas que ficam restritas ao “noticiário ralo”. (todas as imagens deste artigo mostram situações reais, não se trata cena cenas de filmes; abaixo, soldado norte-americano cobre Saddam)

Você poderia concluir que, com a generalização do roubo do sinal de tv a cabo naquele país, a informação seria democratizada finalmente! Agora você só tem que descobrir quais são os canais de tv a cabo que a população que rouba o sinal DESEJA assistir. Você poderia ainda concluir que “noticiários profundos” deveriam ser os mesmos (dar a mesma informação) na tv aberta ou no cabo, mas que isso seria naturalmente impossível porque imagens, entrevistas e textos são editados (cortados). O problema não parece ser apenas o fato de que a tv (qualquer uma delas) reconstrói o real ao editar e montar as imagens para que possam caber na programação (entre os intervalos, que contém as propagandas - que é o que importa às emissoras). O problema é que as pessoas parecem não perceber isto que ocorre diante delas. Daí a perplexidade ante as imagens do atentado terrorista em 11 de setembro de 2001 ao World Trade Center. Parecia um filme! Difícil agora compreender que não eram imagens e sim um acontecimento.

Não se duvida que a tv recrie o real. O que alarma é a falta de censo crítico em relação à programação/recriação do real e/ou a forma como são veiculados. A discussão quanto à possibilidade ou não de censura aos programas apelativos é típica. Põe-se a perder a possibilidade da população responsabilizar-se pela programação a partir da hipótese de que isso constituiria censura aos meios de comunicação. Sim, como não, censuram tudo aquilo que não lhes interessa. Por que só nós não podemos decidir o que queremos?


Como se não fosse ato de
censura quando as emisso
ras
de tv decidem só mostrar
o que quiserem...




Alguns retrucariam que pensar assim
é dar importância demais à televisão, quando ela é apenas um eletrodoméstico. Se ela fosse tão irrelevante, o preço do minuto de propaganda não seria tão exorbitante. Se fosse tão irrelevante, as eleições não seriam decididas em debates no horário nobre e a verba de propaganda de empresas e governo não seria maior que os investimentos em seu público e/ou eleitores.

Estereótipos Onde Não Deveriam Estar

Um dos temas preferidos da mídia quando quer criar um factóide internacional para dar ibope é a re-formatação de guerras no horário nobre. Como no caso de Saddam Hussein, ex-ditador do Iraque. Segundo o então presidente (pai do ex-presidente norte-americano) George Bush, Saddam era o império do mal em pessoa. A mídia se apressou em reproduzir mais um estereótipo do déspota oriental. Naturalmente, e infelizmente, o que ninguém vai dizer é que o Saddam real havia sido uma criação do próprio governo norte-americano. Eles precisavam de alguém para servir de bucha de canhão e fazer uma guerra contra o vizinho do Iraque em 1979.

O vilão de então era o Irã do Aiatolá Kolmeini, que tirou seu país das garras dos norte-americanos e de seu fantoche o Shah Reza Palevi. Das atrocidades patrocinadas pelos norte-americanos, e cometidas por Saddam contra os iranianos ninguém sabe, ninguém viu. (imagem acima, mais um banho de sangue no Iraque)

Aliás, essa arrogância é típica de países que constroem seus impérios sobre as cinzas das liberdades dos povos. No filme Mauá, o Imperador e o Rei (1999), ocorre um diálogo entre o futuro Barão de Mauá (ainda bem jovem) e um negociante inglês bem sucedido. Dizia o britânico que a escravatura tinha que acabar porque não interessava aos ingleses. Afirmou também que o mundo está mudando porque a Grã-Bretanha assim deseja. Deu alguns livros de economia para o jovem Mauá e disparou: “a língua é o inglês”.

Inimigos Construídos

Com Osama bin Laden a história se repete. Criação norte-americana para insuflar os guerrilheiros contra as tropas russas que haviam invadido o Afeganistão (1979-89). Agora que a coisa fugiu ao controle, o que George Bush filho disse na época que resolveu invadir o mesmo Afeganistão? “É a luta do Bem contra o Mal...” Novamente o discurso fundamentalista. Mas o fundamentalismo que aparece é o do Talibã, sempre seguindo aquela receita de bolo do estereótipo do déspota oriental. (imagem ao lado, Osama, uma figura que deve ser mantida viva a qualquer custo para justificar a militarização do discurso norte-americano)

Por que imagens do ataque dos terroristas puderam ser mostradas ad nauseum, mas as imagens dos ataques ao Afeganistão são sistematicamente censuradas? Como pode ser que as transmissões da guerra do golfo nunca mostraram destruição ou mortos de ambos os lados? Mas... A mídia ocidental não é um exemplo de idoneidade para o mundo? O direito à informação não foi sempre uma bandeira do assim chamado “mundo livre” (como o Ocidente gosta de se auto-proclamar)?

E, por falar em impérios, segundo Walt Disney, o império feudal e absolutista da Rússia do Czar Nicolau era melhor ou mais legítimo que o regime comunista. Esta distorção da realidade deve dar calafrios em qualquer professor de história. E aqui não vai nenhuma defesa da ditadura na qual degringolou o regime comunista soviético. É só dar uma olhada no desenho animado Anastácia. A mensagem é que o regime pusilânime da casa dos Romanov era democrático, doce, limpo e angelical como na estória da gata borralheira!

Emissoras que Não se Vedem? Existe Isso?

Como lembrou Silio Boccanera, na guerra a primeira vítima é a verdade. O governo dos Estados Unidos reclamou, dizendo que a rede de tv do Qatar, Al Jazeera, fazia propaganda anti-norte-americana ao transmitir pronunciamentos de Osama direto do Afeganistão. Fato: grandes redes de tv norte-americanas perderam muito, cerca de 350 milhões de dólares, ao não transmitirem propagandas na cobertura do ataque terrorista ao World Trade Center. A CNN passou seis dias sem propagandas – por motivos... humanitários. Como se o Pentágono não manipulasse as informações ao enfatizar as imagens dos pacotes de ajuda humanitária lançados aos refugiados afegãos (1).

Quem vê os combates? Não se trata de morbidez, a questão é quem é que vai dizer quem venceu? Notícias de baixas? Só do lado do Talibã. Helicóptero norte-americano abatido? Foi pane, problemas técnicos... O governo norte-americano considera que a Al-Jazeera está servindo como suporte para as idéias de bin Laden. O então Secretário de Estado, Collin Powell, disse... “somos a favor de liberdade de imprensa, mas pensamos que ela não pode servir como suporte para disseminar idéias terroristas. Osama bin Laden não pode usar a mídia para difundir suas idéias” (2).

A Al-Jazeera transmitiu uma gravação do porta-voz da Al-Qaeda, Suleiman Abou-Gheith, na qual repete as palavras do líder bin Laden dizendo que a América não terá paz enquanto os muçulmanos não tiverem. O irônico é que Powell e o então Primeiro Ministro britânico Tony Blair concederam entrevistas à Al-Jazeera, e outros líderes norte-americanos também tentaram o mesmo. O que está parecendo é que a emissora árabe está sendo porta voz de todo mundo e o governo norte-americano está querendo c e n s u r a r, em nome de seus próprios interesses. Mas... não era a América (do norte) o bastião da liberdade de imprensa?

Jornalismo?

Richard Reeves considerou ruim o comportamento da imprensa no que diz respeito à cobertura do conflito no Afeganistão, após os atentados de 11 de setembro de 2001. Segundo ele, o jornalismo televisivo acabou. Portanto, a polêmica em torno da autocensura das emissoras norte-americanas quanto a manter uma superficialidade em torno das notícias da guerra não fez a menor diferença. Aqueles que operam as câmeras são mais importantes que os jornalistas, já que cada vez mais a imagem é tudo. Segundo Reeves, o número de bons profissionais na tv norte-americana vem diminuindo gradativamente. Afirmou que jamais confiaria numa informação passada pela tv sem checar. Segue dizendo que a imprensa norte-americana é responsável pela onda de desinformação, já que nos últimos dez anos os jornais norte-americanos removeram 80% dos correspondentes no Oriente Médio. As empresas alegam que é muito caro manter jornalista num outro país até que compreenda a cultura.

Conclui-se, portanto, que ninguém ligava se o Paquistão (ditadura/país vizinho do Afeganistão e que os Estados Unidos buscaram como aliado) estava desenvolvendo armas nucleares nesses mesmos últimos dez anos. Ironiza a visão narcisista dos norte-americanos, como quem diz: “não ligamos, somos uma superpotência e ninguém vai nos atacar”. O que significa dizer que os norte-americanos não sabem nada sobre as ameaças que pairam sobre si. Segundo Reeves, o próprio ex-presidente Bill Clinton é culpado pela disseminação dessa postura narcisista. Por outro lado Reeves, para quem Bush é simplesmente alguém muito ignorante, não acredita que este presidente norte-americano tenha discernimento para saber das coisas o suficiente a ponto de conseguir mentir sobre elas para a imprensa (3). (imagens acima e abaixo, quando se trata da verdade dos fatos, onde fica a fronteira com o sensacionalismo?)

Quando a Verdade Não Dá Ibope

A mídia, com sua miopia, enfatizava os números de vítimas no atentado, deixando de lado uma infinidade de massacres que ocorrem a muito tempo. Muitas guerras são desconhecidas porque simplesmente estão fora do noticiário. Quando acontece de algum desses países “desconhecidos” revidarem agressões das grandes potências em seu próprio território, como foi o caso dos atentados no World Trade Center, as pessoas incrédulas começam a engrossar o coro daqueles que vão classificá-los de loucos, que atacaram sem motivos... Alguns dados: Desde 1975, e durante os 26 anos seguintes, acontecia uma guerra civil em Angola. O país está todo destruído, economicamente falido e entupido de minas terrestres, mutilando milhares a cada ano. Mais de um milhão de pessoas morreram. Outro conflito se deu entre duas ex-repúblicas soviéticas, Azerbaijão e Armênia. Matou mais de 30 mil, com dezenas de milhares de refugiados. O Sri Lanka, antigo Ceilão, está numa guerra civil que se arrasta e mais de 64 mil já morreram desde 1983 (4). Temos que admitir, nós brasileiros, que sabemos sim dos nossos milhões de excluídos, a quem é negada cidadania.

Temos que admitir saber que morrem de fome. Deveremos admitir nossa omissão, quando finalmente se voltarem contra nós. Temos de admitir que não vai dar para chamá-los de fanáticos ou radicais quando... Numa sociedade de consumo, onde a cidadania é medida pela possibilidade que temos de fazer compras, a tv é um agente do consumo. Como disse Joan Ferrés...

“A televisão nega a realidade quando a reduz a estereótipos. Os estereótipos falsificam a realidade porque a simplificam ou a deformam, com base em condicionamentos culturais derivados sempre de um jogo de interesses explícitos ou implícitos”(...)”O jornal USA Today demonstrou a visão falsificada da realidade que é oferecida pela televisão americana por meio da análise exaustiva de 94 shows exibidos durante uma semana em 1993, na faixa horária de máxima audiência, pelas quatro grandes redes do país, ABC, CBS, NBC e FOX”.(...)” O protótipo do americano mostrado pela televisão nunca assiste à televisão, faz as refeições sempre fora de casa, nunca lê, não entra em supermercados e explica uma piada sobre sexo a cada quatro minutos” (...) “Dentro desse contexto não pode surpreender a expressão de Umberto Eco: ‘Símbolo é tudo aquilo que serve para mentir’. A linguagem como sistema para mascarar a realidade e não para revelá-la”(...)”A imagem não demonstra ser não uma janela aberta para o mundo, mas uma tela entre o espectador e o mundo, um filtro para o mascaramento da realidade, um obstáculo para uma comunicação transparente. Usando uma expressão de Jean Baudrillard, quando aparentemente mais nos aproximamos da realidade - por intermédio de uma imagem em movimento, a cores, sonora e instantânea – mas nos afastamos dela. E ocorre que ‘atualmente o escândalo já não está mais no atentado aos valores morais e sim no atentado contra o princípio de realidade” (5)

Mas talvez não exista motivo para preocupação. Afinal... A televisão é só um eletrodoméstico! (ao lado, o ex-presidente norte-americano George W. Bush em visita a centro de reabilitação para seus soldados vitimados no campo de batalha, 2007)

“Nenhum vento sopra
a favor de quem
não sabe para onde ir”

Sêneca




Notas:

Leia também:

A Cultura da Arma na América do Norte (I), (II), (III), (IV), (V), (final)

Isto é Holyywood!

O Cinema e o Passado: O Caso do III Reich (I), (II), (final)

1. BOCCANERA, Silio. Tv’s amargam perdas e danos da guerra. Globo News. 09/10/2001. Disponível em: http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos/asp1710200199.htm Acessado em: 05/09/2009.
2. EUA acusam al-Jazeera de colaborar com o Talibã. 10/10/2001 - 20h43m - GloboNews.com Fonte: Reuters. Disponível em:
http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos/asp1710200198.htm Acessado em: 05/09/2009.
3. FOLHA DE SÃO PAULO, folha online, da sucursal Nova York. Jornalismo na tv acabou, diz especialista. 11/10/2001. Disponível em:
http://www1.folha.uol.com.br/folha/mundo/ult94u31096.shtml Acessado em: 05/09/2009.
4. CIMENTI, Carolina. Guerras do terceiro mundo não têm audiência. Redação Terra, informações da Reuters. 02/10/2001. Disponível em:
http://br.groups.yahoo.com/group/ciencialist/message/11575 Acessado em: 05/09/2009.
5. FERRÉS, Joan. Televisão e Educação. Tradução de Beatriz Affonso Neves. Porto Alegre: Artes Médicas, 1996. Pp. 50-51. Citação de Baudrillard em, La guerra del Golfo no há tenido lugar. Barcelona: Anagrama, 1991. Pp. 48 e 86-87.

Fontes das imagens:

Viral Politics
David Leeson
Yraceme
Pasta abu-graib/ (imagem 32e)
Encyclopedia Britanica Blog
Propaganda Matrix
Poor Mojo Newswire

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