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Roberto Acioli de Oliveira

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18 de ago. de 2008

Imagem Corporal e Satisfação





“Apenas pessoas superficiais 
 não     julgam     pela     aparência. 
O verdadeiro mistério do mundo
é o visível,  não  o  invisível"

Oscar Wilde (1854–1900)



Imagem corporal, aspecto da satisfação existencial que na cultura contemporânea ocidental está sendo afetado negativamente: não mais se vê o corpo como o exterior de um interior – o fora de um dentro, uma dobra. Atualmente, o corpo é cada vez mais só o exterior do exterior – o fora do fora. Onde exatamente foi parar a satisfação existencial com nosso corpo? O corpo, considerado como objeto exterior, poderia mesmo nos auxiliar quando tentamos compreender o que é ser feliz?

Mary Del Priori conta que, na época dos descobrimentos, nudez era sinal de pobreza. Daí considerar os índios inferiores. Na Europa, erótico era esconder o corpo. A superexposição do corpo no Brasil contemporâneo representa uma classe social e não a mulher: loira, corpo de academia. Esta mulher é minoria.

Corpo Monstruoso

No cinema norte-americano o nu feminino se instaura em 1933. Hedy Lamarr aparece nua em Êxtase (direção Gustav Machatý), deixando para trás o anonimato (acima, à esquerda). Nascem as ligas da decência e centrais católicas. O nu especificamente pornográfico já havia surgido no cinema em 1910 (1). O “problema” do cinema é a possibilidade do close-up. No teatro se pode desviar o olhar, já o enquadramento cinematográfico é incontornável. Entretanto, a possibilidade de corrigir uma imagem resolve os medos que havia no teatro, onde um vento ou outro acidente pode revelar as partes íntimas de um ator ou atriz. Temos o depoimento de um jornalista em 1896, a propósito de um beijo no filme A Viúva Jones:

“Em tamanho natural, é já animalesco, mas não é nada comparado com o efeito produzido por este ato aumentado para proporções gargantuescas e repetido três vezes seguidas. É absolutamente nojento. Fatos destes apelam à intervenção da polícia” (2).

Em 1912 uma lei regulamentava a duração do beijo na tela de cinema. Nos Estados Unidos, após a primeira guerra mundial, o umbigo era o mais indecente. Até 1965 o problema era mostrar os pêlos do corpo – o próprio Tarzan só aconteceu depois de depilar o torso. De fato, o cinema, que finalmente podia mostrar o real de forma realista (quando desejasse), foi impedido de fazê-lo (3). No cinema brasileiro, Norma Bengell no filme Os Cafajestes (1962, direção de Ruy Guerra) marca o ponto de partida do nu aqui por nossas telas, corpo acompanhado pelo riso sádico do personagem de Daniel Filho, que, aliás, filmava a cena.

No cinema de ficção científica norte-americano, a imagem da mulher tem dificuldade em se desvencilhar de preconceitos. Em A Invasão das Garotas Abelha (Invasion of the Bee Girls, 1973), de Dennis Sanders, mulheres estéreis por conta de experiências científicas matam homens a golpes de orgasmo (acima, à direita). Erotismo é uma raridade na ficção científica. Uma das poucas vezes em que isso ocorreu foi com os originais do livro, Os Amantes (1951), de Philip José Farmer. A história descreve relações sexuais entre um homem e um inseto extraterrestre capaz de trejeitos femininos sedutores. Um editor recusou os originais, classificando-os de nojentos (4).

Também encontramos a misoginia no gigantismo: mulheres, aranhas gigantes e extraterrestres concorrem quanto a maior monstruosidade. Vale lembrar O Ataque da Mulher de Dez Metros (Attack of the 50-foot Woman, 1957), de Natan Hertz (ao lado). Uma esposa traída encontra um extraterrestre verde gigante que passava por aqui, é transformada num enorme monstro vingador que estripa o marido infiel com as próprias mãos. Barbara Creed mostra como, a partir do universo dos filmes de ficção científica norte-americanos, verifica-se a satanização do feminino (5).

Corpo Feliz e Próteses

Quem sabe o biquíni e o implante de silicone sejam a mesma coisa? Uma mulher, adepta do nudismo, faz uma cirurgia para implante de silicone nos seios e nádegas. Ainda podemos dizer que ela está nua, já que partes do seu corpo estão cobertas? O biquíni seria mais erótico que a pele? Uma prótese de pele é mais erótica que a pele real? Nudez é não estar vestindo próteses ou roupas? Roupas são próteses? Qual é a diferença entre uniforme e fantasia? Qual é a diferença entre uniforme e máscara? Cobrir o corpo é criar uma imagem ou representação ordenada da natureza, tomando as roupas como complementação do organismo? Até que ponto o que vestimos afirma ou nega o que acreditamos ser por dentro?

E quando o que vestimos não é mais nosso próprio corpo? A ex-paquita [para quem não sabe, é o título de “antigas” adolescentes, dançarinas no programa infantil de Xuxa] Monique Alfradique malha até quatro horas em academias de ginástica. Afirma que seus músculos não eram bem definidos e ela foi “atrás de desenhar” seu corpo. Qual seria a recompensa de Monique? Bem, ela ganhou a capa da revista Boa Forma (6). Tudo bem, diriam, pelo menos não é uma revista masculina de mulher pelada!!! Tudo bem talvez, de uma maneira ou de outra, “boa forma” é “corpo malhado”… e não necessariamente um corpo feliz!

Corpos em Exposição, Conquista do Feminismo?

Participar do Big Brother Brasil (Rede Globo) é uma espécie de passaporte para ser convidada a aparecer nua nas revistas masculinas. A disputa parece girar entre as revistas Sexy e Playboy. É curioso como o dinheiro e a fama desinibem algumas pessoas, contanto que se tenha o corpo certo… Manuela Saadeh, segunda colocada no BBB2, que posou nua em setembro de 2002, declarou:

"No primeiro dia eu estava bem envergonhada. O ensaio começou com roupa e fui tirando... até que o Duran [o fotógrafo] falou: 'Vai dançando e levanta a blusa'. Aí eu travei e não conseguia levantar a blusa. Pedi, então, que algumas pessoas saíssem do estúdio. Tive de tomar champanhe, que me deixou mais alegrinha e desinibida". (7)

Thaís Ventura, também do BBB2, se “lançou” na edição de janeiro de 2003. Em seus 19 anos, a revista explorou o fetiche masculino de Lolita, com direito a aparelhos nos dentes e bichinhos de pelúcia. Para quem não conhece, Lolita é uma estória escrita por Vladimir Nabokov. O tema gira em torno de uma relação erótica entre uma menina adolescente e um homem mais velho, bem mais velho. Thaís declarou:

"Foi muito difícil. A gente pensa que é fácil porque muitas mulheres lindas já fizeram. Mas quando é com você é difícil! Eu passei por um processo de insônia, nervosismo à flor da pele". (8)

"Enquanto  isso,  lá  bem  no  início  de  tudo...  'E,  como  Deus  me  permitiu
denominar  todas  as  coisas,  eu  vou  chamar  você  de  vaca,  você  de  burro,
 
 você de toupeira e você de idiota' ". (Millôr Fernades, revista Veja, 11/1982)

A recordista de vendas foi a paulista Sabrina Sato, que participou do BBB3, posando para a revista Playboy. Desta vez, o ensaio fotográfico foi acompanhado por impressões dos outros participantes [masculinos] do jogo que contracenaram com ela. Um deles, Harry, disparou: "Sabrina, uma mulher oriental que desorienta qualquer homem". O Big Brother já serviu de "palco" para uma nudez "alternativa". No paredão que eliminou Harry do BBB3, uma mulher invadiu o estúdio e tirou o vestido diante das câmeras e de um Pedro Bial [o apresentador] atônito. O nome da então anônima era Maria Eliane Lima Araújo, e ela tinha 18 anos.

Algumas outras mulheres, desta vez atrizes renomadas, também não vêem problema em posar nua. Cláudia Raia é bem objetiva, da última vez o problema foi o dinheiro oferecido: “gostaria de ser fotografada nua de uma maneira que nunca apareci antes. Meu corpo está mais bonito do que nunca e não encontraria problemas em casa por ser casada”. E completa, “em ensaio nu a gente se expõe de tal maneira que tenho de estar apaixonada pela mulher que vou representar. Sinceramente, depende mais da revista do que de mim” (9).

Luma de Oliveira concorda com Raia, posar nua não tem problema. Só não concorda com a estratégia, para ela não se trata de representar uma personagem: “no ensaio nu, não vivo um personagem. Sou eu ali, é meu corpo ali. Faço o trabalho com muita naturalidade”. Luma não só não vê problema em posar nua, como acredita que seus filhos achariam muito mais estranho se a vissem numa cena de amor em que ela estivesse apenas seminua. Curiosa é a diferenciação que ela faz em relação a revistas e televisão: acredita que o nu da revista é mais natural que cenas de amor na tevê.

“Em 2000, a atriz Vera Fischer escandalizou ao mostrar as virilhas não depiladas nas páginas da Playboy, aos 48 anos de idade. ‘Há artistas que posam porque querem ser vistas e desejadas. Trata-se de um narcisismo velado e me parece ser o caso da Vera’, diz o especialista em sexualidade Esdras Vasconcellos, da Universidade de São Paulo”. (10)

Hoje em dia, no que diz respeito a jovens artistas, a coisa é diferente. Existe (pelo menos por enquanto) certa resistência a fazer concessões à nudez gratuita, seja para alavancar a carreira, seja pelo dinheiro (11). Mas talvez exista um equívoco aí também, pois algumas acreditam que ensaios fotográficos sensuais na internet permitem que elas ganhem dinheiro sem precisar se expor muito. Como não se expõem? Com a popularização da internet… Sem mencionar que, caso as fotos delas não sejam muito acessadas pelos internautas, certamente não serão mais nem contratadas para fazer outros “ensaios”, nem serão pagas.

The Girl abre portas internacionais, carreira na TV e projeção nacional para vencedoras” (12). A manchete se refere a um concurso de “modelos”, promovido por um provedor de internet, ostenta como elemento que justifica sua importância, o fato de abrir portas para a carreira das participantes. A questão não é uma cruzada contra o erótico e/ou nudez na mídia. O problema é o fato de se viver numa sociedade na qual para entrar no mercado de trabalho e perseguir a oportunidade de um trabalho digno, a “projeção nacional” tem primeiro que vir a nudez dos corpos!

Alice Matkins, artista norte-americana, pinta quadros de mulheres cujo
corpo  está  totalmente  fora  do
padrão de beleza.  Ela procura resgatar o
corpo da mulher como ele de fato é.  À  esquerda, Rose, 87 anos; à direita,
Jonsey,  64  anos;   no  final  do  artigo,  à  esquerda,  Phillis,  68  anos.

Mesmo fora do ambiente artístico, a possibilidade de posar nua é uma espécie de “prêmio” das pessoas que por algum motivo (qualquer motivo) tornam-se visíveis na mídia – e, portanto, tornam-se vendáveis. Exemplo (torpe) disto se refere a certas mulheres que depuseram no Congresso Nacional recentemente em função dos escândalos relacionados ao Partido dos Trabalhadores. A secretária do publicitário e escroque Marcos Valério, que testemunhou contra ele, tirou as fotos na própria sala onde depôs – ou então foi um cenário que reproduzia o lugar onde se pretende fazer Justiça em nome do povo. A esposa (e também a irmã dela) do dono do restaurante do mesmo Congresso que foi o responsável pela queda de Severino Cavalcanti (presidente da Câmara de Deputados) também já foi sondada sobre a possibilidade de tirar fotos para uma revista masculina.

Corpo e Imagem

“Como começamos a cobiçar? Cobiçamos aquilo
que vemos... todos os dias!“

A frase vem do filme O Silêncio dos Inocentes (Silent of the Lambs, 1991). Uma agente do FBI insistentemente pergunta a um famoso ex-psiquiatra e atual canibal sobre o paradeiro de um assassino de mulheres. Procurando mostrar em forma de enigma qual é o objetivo desse assassino, o canibal enuncia esta frase. O assassino não matava por ódio, gostava tanto das mulheres que queria ser uma delas. Para alcançar seu objetivo, raptava algumas, contanto que estivessem meio gordas. No cativeiro, às engordava mais e mais. Então as matava, retirava partes de suas peles e costurava. Pretendia fazer uma roupa.

O assassino de mulheres parecia fixar a identidade delas no elemento mais visível. Para ele, ser mulher não teria nenhuma relação com a busca de uma alma feminina. Travestido com pele humana morta, baseava-se apenas na aparência: Ser mulher passava por parecer mulher. Platão já havia chamado atenção para a inutilidade do mundo sensível (13). (acima, imagem de Shrek, desenho animado norte-americano)

Beleza (ou a nova identidade) pode ser comprada? Num ponto pelo menos Jean Baudrillard tem razão, os fluxos simbólicos dos quais dependemos para dar sentido ao mundo e a nós mesmos estão cada vez mais longe de uma real satisfação dos desejos íntimos. Como uma tentativa de questionar o pessimismo de Baudrillard, lembre-se que no desenho animado Shrek (parte 2) nós temos um final inusitado, praticamente contraditório em relação ao mundo em que vivemos atualmente. Em certo ponto da estória, Shrek tinha tomado uma poção mágica que o transformara num ser “normal” – quer dizer, ele ficou bonito. A princesa, que tinha sido transformada em “anormal” (o que significa que ela ficou feia) e também voltou a ser uma mulher bonita por conta da mesma poção, em certo momento recusa o beijo de Shrek. É que no final da estória Shrek avisa a ela que, caso beijem-se, poderão ficar permanentemente com “aquela forma” – quer dizer, bonitos. Ela então recusa e dá a entender que aquele (o bonitão) não seria o homem com quem ela escolhera se casar! Ou seja, ela está preocupada com o sentimento que a aproximou dele, e não precisa que ele “conserte” seu exterior!

Resta o Corpo, Resta uma Questão… 

Sabemos, portanto, como resolver isso. Temos que mergulhar em nós mesmos. Ainda assim, resta uma questão. Quantas vezes você mudou de canal e as mensagens eram as mesmas? O problema é que a sociedade está comprometida com o mercado. Lembro neste ponto do filme O Show de Truman (1998), quando o personagem principal começa a se questionar sobre a incongruência do sistema.

Temos que admitir estarmos tão intoxicados com a avalanche da representação do mesmo ideal de beleza, que nos tornamos insensíveis ao fato de que se trata de modelos e não da realidade viva dos corpos. Na crença de que o ideal está à venda, não cogitamos mais na hipótese de que beleza talvez seja um estado de espírito. Estamos narcotizados com a hipótese de que a beleza pode ser comprada!

Collete resume com uma frase a querela em torno do nu no teatro francês em 1907: “soltem um seio!”. Pesquisas da época levaram à constatação de nudez no teatro desde a Antiguidade (14). Atualmente, decretou-se o fim da privacidade corporal no mundo ocidental [cristão…]. Esconder o corpo passou a ser muito explorado como aspecto selvagem dos muçulmanos. Opõe-se cobrir e descobrir o corpo, dando sinal negativo ao hábito cultural de cobri-lo. Poucos e poucas se perguntam se a pressão social para desnudar o corpo acaba se tornando tão opressiva quanto cobri-lo completamente. Até que ponto nudez pública significa libertação?

Curioso é que na busca desenfreada de uma beleza exterior desarticulada de outra beleza que é interior, muitas mulheres não percebem a abóbora que se tornaram! Bem, quem sabe o caminho para o interior seja esse, destruir o exterior ao tentar reconstruí-lo. No final a sensação de indefinição permanece e a questão volta: onde e como entra o corpo na busca da resposta à pergunta, ‘o que é ser feliz?’

Notas:

Leia também:

As Deusas de François Truffaut

1. BOLOGNE, Jean-Claude. Tradução Telma Costa. História do Pudor. Rio de Janeiro: Elfos Editora. Pp. 286-7.
2. Idem, p. 285.
3. Ibidem, p.288.
4. SODRÉ, Muniz. A ficção do tempo. Análise da narrativa de Science Fiction. Petrópolis: Vozes, 1973. Pp. 49-50.
5. CREED, Barbara. The monstrous-feminine. Film, feminism, psychoanalysis. London: Routledge, 1993.
6. WURM, Sabrina; DIAS, Leo. Em Busca do Corpo Perfeito In Jornal Extra, coluna Retratos da Vida, 08/07/2005. P. 12.
7. BBB’s saem da casa para as revistas masculinas In TERRA. Seção Gente & TV. 06/05/2004. Disponível em: http://diversao.terra.com.br/gente/noticias/0,,OI3527042-EI13419,00-BBBs+saem+da+casa+para+as+revistas+masculinas.html
Acesso em: 29/10/2013.
8. idem.
9. CARDOSO, Rodrigo. Elas posam porque gostam In Isto É GENTE, 21/01/2002. Disponível em: http://www.terra.com.br/istoegente/129/reportagem/capa_nu_04.htm Acesso em: 18/08/2008.
10. idem.
11. Reportagem de Rodrigo Cardozo. ISTO É, GENTE. 21/01/2002. Edição 129. Disponível em: http://www.terra.com.br/istoegente/129/reportagem/capa_nu_01.htm Acesso em: 18/08/2008.
12. Reportagem de Silvia Marconato. Disponível em: http://www.terra.com.br/thegirl/verao2003/materias/vencedoras_passadas.htm Acesso em:18/08/2008.
13. A fisiognomonia sempre baseou seus estudos na articulação entre a afirmação da necessidade de um mundo sensível e a crença na existência de outro inteligível. A verdade última seria encontrada apenas no inteligível.
14. BOLOUGNE, Jean-Claude. Op. Cit., p. 259.  


29 de jun. de 2008

Os Seios da República: Conexão Seios (Epílogo)



“Meus seios não são muito
grandes
. Por isso, não se trata
de um assunto importante”


Nicole Kidman,
atriz norte-americana,
comenta que adora
fazer topless


Seio + Silicone = ETesão 

Cada cultura gira em torno de seus próprios fetiches em relação ao corpo humano. As mulheres americanas, e todas aquelas dos países cuja cultura é colonizada pelos valores do “grande irmão do norte”, que o digam. Ou talvez nem saibam disso, já que uma das características mais enraizadas dessa cultura ocidental/mercadológica é a alienação. Até que ponto as mudanças de comportamento em relação ao seio são fruto na verdade de interesses comerciais? Até que ponto a mídia, com suas representações daquilo que seja uma mulher desejável, funciona como potencializador desse consumismo desfigurador? Ao final e ao cabo, os padrões de aparência são formados não por costumes sociais, mas por imagens criadas em função de interesses comerciais. É o capitalismo (as)segurando o seio como objeto de lucro! Um estudo sueco envolvendo 39 mulheres que optaram por implantes de silicone mostrou que a maior parte associava seios grandes e aumento da feminilidade. Na América do Norte, lá pela década de ’90, o aumento dos seios era a segunda operação cosmética mais freqüente, perdendo apenas para a lipoaspiração. As mulheres americanas gastam milhões em cirurgias cosméticas visando diminuir a parte inferior do corpo (a bunda) e aumentar a superior (os seios) (1). 

O surto das mulheres americanas em relação ao aumento de mamas começa em 1940. Lá pela década de ’50, ter seios pequenos passou a ser considerado uma espécie de doença, um problema médico. Várias foram as tentativas na busca do elemento ideal para aumentar o seio, e muitos os problemas clínicos posteriores às cirurgias até que em 1970 o silicone fosse utilizado. Apesar dos efeitos colaterais ainda não poderem ser considerados completamente sanados, as mulheres acreditam que os benefícios superam os riscos (2). Phyllis Porter, com 80 anos de idade em 2002, que ficara famosa por pagar 25,000 dólares por um tratamento com botox, é também a mulher de mais idade a aumentar os seios (3). Ao que parece, para os americanos (do norte) a imagem dos seios desnudos tem mais relação com dinheiro/silicone do que com simbolismo de liberdade. O que talvez explique porque este país gasta tanto com operações de aumento de mamas e ao mesmo tempo proíbe sua exposição pública. 

A nova República Francesa era frequentemente representada como uma
mulher “a abrir os seios a todos os cidadãos”. Na gravura da esquerda, A França
Republicana Oferecendo o Seio a todos os Cidadãos, cerca de 1790. Podemos ver uma
plaina de carpinteiro presa no decote, simbolizando a igualdade de acesso a todos. Gravura
da direita, A Natureza como Mãe Igualitária, cerca de 1790. Durante a campanha para
libertar os escravos das Índias Ocidentais, a Nação Francesa era retratada como uma
mãe generosa amamentando tanto uma criança branca quanto uma negra 


Onde Estão as Tetas da Senhora Liberdade? 

Quando o presidente norte-americano George W. Bush criticou a França por não ter aderido à invasão do Iraque, sugeriu que aquele país europeu estaria do lado errado. Também disse que tinham muito que aprender com os americanos e sua história. O que Bush parecia não ter aprendido na escola é que um dos símbolos de seu país (a Estátua da Liberdade, ao lado) foi presente do governo francês em 1865, em homenagem àquela que, ainda uma jovem nação, tinha a reputação de terra da liberdade. Muito antes disso, a ajuda material da França foi crucial para a independência norte-americana. A estátua surgiu de uma conversa entre franceses, que na ocasião viviam sob a opressão de Napoleão III, elogiando a capacidade dos americanos de estabelecer um governo democrático. Desejavam copiar esse modelo em seu próprio país. Dando um pequeno salto para 1987, alguns devem se lembrar da posição em que a atriz pornô Cicciolina se deixou fotografar durante a campanha em que concorreu ao parlamento italiano. Ela posou como a estátua da liberdade. Entretanto, Cicciolina mostrava os seios (imagem do lado esquerdo). Se lembrarmos das representações da república entre os franceses, iremos encontrar mulheres de seios desnudos. A idéia era sugerir que a República é como uma mãe, que acolhe e alimenta seus filhos, sem favorecimentos individuais. Por outro lado, quando os franceses desejaram homenagear a defesa da liberdade que caracterizava os norte-americanos, presentearam-lhes com uma mulher de seios cobertos.

Para sermos otimistas, talvez os americanos já fossem contra a exposição pública de seios, e os franceses não pretendessem questionar a representação da liberdade que aqueles pudessem ter. De fato, segundo Marilym Yalom, atualmente as leis americanas são rígidas, as mulheres são proibidas de expor os mamilos e/ou a zona abaixo deles. Por outro lado, lá na América (do norte) seio grande é mania nacional, embora aparentemente esse hábito nada tenha para oferecer além de um simbolismo erótico aliado à mercantilização de acessórios de sustentação – incluindo implantes de silicone. Na verdade, acho que os franceses só estavam seguindo modelos das estátuas gregas da Antiguidade Clássica. (abaixo, à esquerda, a Estátua da Liberdade beija a representação grega da justiça - de olhos vendados. Charge de autoria de Mirko)


Há muito que a idéia de Nação está ligada a imagem de seios nus. Como já foi apontado, na construção da noção de República, a representação escolhida pelos franceses foi uma mulher de seios nus. Bem antes já havia sido produzida uma diferenciação entre o “seio bom” e o “seio mau”. Lady Macbeth, a figura criada por Shakespeare, era uma dessas que tinha “seios maus”. O “seio bom” é aquele que vai prover alimento para seus filhos. “Foi o que aconteceu a quinhentos anos nas pinturas italianas da Virgem amamentando, e há duzentos anos nas imagens de seios desnudos da Liberdade, da Igualdade e da nova República Francesa” (4).


Não é por acaso que aqui no Brasil é muito comum o comentário de que alguém está “mamando nas tetas do governo”. Sim, porque de mãe provedora o Estado brasileiro nunca teve nada, desde sua fundação. Se “aprofundamos” essas associações simbólicas, talvez outros sejam os caminhos que constituíram as nádegas como a preferência nacional do brasileiro: o Estado para os brasileiros é mais um estuprador do que uma mãe com seios cheios de leite. Podemos até desejar que os seios da República do Brasil sejam empinados, mas deveríamos procurar ter certeza de que pelo menos não sejam falsos!

Os Seios Turbinados e Suas Personas (Ingratas)

Neste admirável mundo novo do artificial, somente as mulheres podem dizer se esta corrida para turbinar os seios é um comportamento histérico induzido pelos modelos de beleza impostos pela cultura de massas/americana ou se, ao contrário, é um brado de libertação (imagem ao lado, A Liberdade Guiando o Povo, Delacroix, detalhe). Não se trata aqui de uma cruzada contra os seios grandes. A questão é pensar a real motivação para (que as mulheres brasileiras desejem) inflá-los artificialmente (turbiná-los). Não serei eu que vou decidir por elas quem elas são, ou querem ser, ou acreditam que são. Não serei eu quem dirá que a sociedade de consumo manipula os desejos e interesses das mulheres que não suportam a pressão de ser como realmente gostariam de ser. Resta saber se elas percebem no que estão se tornando. Afinal, como disse Zelig/Woody Allen em outro lugar (5), é mais seguro ser como todos os outros. Não sou eu quem afirmará que tornar-se cópia dos outros é como adotar personas ingratas – duplos de si invertidos, que nos devolvem um mundo de ponta cabeça, justo o oposto daquilo que desejávamos. Não sou eu quem dirá que talvez seja aí a rachadura na prótese de silicone, por onde se infiltram e se reproduzem os modelos manipulatórios, subjacentes à cultura de massas.

Um seio é apenas um seio?

Leia também:

As Deusas de François Truffaut

Notas:

1. YALOM, Marilyn..História do Seio. Tradução Maria Augusta Júdice. Lisboa: Teorema, 1998. Pp. 18, 282 e 292.
2. GILMAN, Sander L. La sorprendente historia de la cirurgía estética In Cirurgia Estética. TASCHEN, Angelika (ed.). Köln: Taschen, 2005. Pp. 101-102.
3. Idem, pp. 97-101.
4. YALOM, Marilyn. Op. cit., p. 14.
5. Me refiro a Zelig (1983), filme dirigido pelo norte-americano Woody Allen.

22 de jun. de 2008

Seios na Cabeça: Conexão Seios (I)





“Às vezes,
um seio
é apenas
um seio”


História do Seio, p.192
Marilyn Yalom






A Coisa

Seios grandes são uma preferência nacional norte-americana. Como tudo mais que a cultura deles produz, procuram a todo custo exportar esta preferência para o mundo. Seguindo os cânones da crítica à cultura de massas, supõe-se que o objetivo é uma padronização dos gostos e da própria libido. E parece que está dando certo, pois a moda dos seios grandes, turbinados e empinados, está grassando por nossas praias. Como os seios devem ser/estar empinados, porque seio caído é sinal de degenerescência temporal, convenientemente a cirurgia de implante de silicone cria essa possibilidade copiar os outros. O fato de que “a coisa” fique totalmente artificial não parece incomodar às candidatas, que nem mesmo sabem (ou sequer se interessariam em saber) que este procedimento cirúrgico foi criado originalmente com o objetivo de reconstrução de partes do corpo explodidas nos campos de batalha.

Na programação da tv, os enlatados (norte-)americanos fervilham com seios artificiais. Todavia, algumas exceções, que devem ser consideradas bizarras por muitos (as), existem. No filme Tudo que Você Sempre Quis Saber Sobre Sexo, mas Tinha Medo de Perguntar, o diretor e humorista Woody Allen (1972), armado com um crucifixo, derrota o seio gigante que fugiu do laboratório de um cientista maluco. Outro exemplo é O Seio, novela de Philip Roth, onde o protagonista se transforma em enorme seio e medita tentando compreender o sentido de sua desgraça. “A transformação de um homem adulto num enorme seio é apresentada sob a forma de realização de um desejo parodiando a obsessão de uma geração inteira” (1). Pelos menos parece ser melhor que o destino de Gregor Samsa, personagem que se transforma num inseto, no livro de Franz Kafka que se chama Metamorfose. Mudanças são bem vindas, contanto que continuemos fazendo parte do gênero humano. Mas será que as mulheres siliconadas ainda são elas mesmas? Essa “coisa” muda alguém para melhor? Em que sentido?

“A quem pertence o seio? Pertence ao bebê, cuja vida depende do leite da mãe ou de uma ama de leite? Ao homem ou mulher que o acaricia? Ao artista que representa a forma feminina, ou ao estilista que escolhe seios pequenos ou grandes de acordo com a procura contínua de um novo estilo de mercado? Pertence à indústria têxtil, que produz o ‘soutien para adolescentes’, o ‘soutien de suporte’ para mulheres mais velhas, e o wonderbra para mulheres que pretendam obter decotes mais pronunciados? Pertence aos juízes religiosos e morais que insistem que os seios devem ser castamente cobertos? Pertence à lei, que pode ordenar a prisão de mulheres que façam topless? Pertence ao médico, que decide quantas mamografias, biópsias ou remoções devem ser feitas? Pertence ao cirurgião plástico, que o reestrutura por razões meramente cosméticas? Pertence ao pornógrafo, que compra os direitos de expor alguns seios de mulheres, frequentemente em cenários aviltantes e injuriosos para todas as mulheres? Ou pertence à mulher, para quem os seios constituem uma parte do seu próprio corpo? Essas questões sugerem alguns dos diversos esforços dos homens e das instituições para se apropriarem dos seios femininos ao longo da história”. (2)

An(seio)líticos: Sonhando com Objetos Esféricos 

Você já sonhou com objetos esféricos, como maças ou pêras? Será mesmo que o seio, assim como o pênis, está em todos os lugares? Nós vivemos num planeta que se situa num ponto do espaço chamado Via Láctea. De acordo com a lenda originada na Grécia (dos bons tempos), a Via Láctea nasce de um jato de leite espirrado dos seios da deusa Hera. A lenda é a seguinte, acreditava-se que os mortais poderiam se tornar imortais se fossem amamentados no seio da rainha das deusas. Quando Zeus desejou que seu filho Hércules (filho dele com a mortal Alomena) se tornasse imortal, colocou-o sobre os seios de Hera enquanto esta dormia. Porém Hércules sugou com muito vigor, o que fez com que Hera acordasse. Ela o retirou com tanta força de seu seio que o leite jorrou para o céu criando a Via Láctea. Se a lenda é verdadeira, vivemos na trilha do leite derramado de um seio divino que é nosso céu.

Poderíamos “tocar alguns pontos altos” na história ocidental onde os seios estavam visíveis. Quando a Nossa Senhora do Leite apareceu no século XIV, quando o seio assumiu um papel dominante no século XVI, e quando o seio político (que no Brasil se conhece como as tetas da República, onde mamam os corruptos) emergiu no século XVIII, na entrada do século XX com a obra de Sigmund Freud.

Do ponto de vista da psicanálise, o seio é fonte das emoções mais profundas do ser. Durante seu primeiro século de existência, a psicanálise estabeleceu o seio e o pênis como seus principais pontos de referência. Mas o seio sempre perdeu projeção em relação ao pênis, apesar de Freud admitir que o seio fosse a primeira “zona erógena” para a criança. Apenas recentemente, freudianos como Melanie Klein questionaram esta hierarquia (3). É possível que Freud fosse prisioneiro de sua própria masculinidade. Se tivesse nascido mulher, talvez falasse de “inveja do seio” em lugar de “inveja do pênis”. (acima, A Origem da Via Lactea, Tintoretto, 1580; ao lado, o mesmo tema, agora por Rubens)

De fato, comenta Marilyn Yalom, ele “nunca avaliou totalmente o significado do seio do ponto de vista da pessoa que começa por mamar no seio de outra mulher e vem posteriormente a amamentar os filhos na idade adulta” (4).

Mas o seio possuiria outro campo simbólico que não estivesse associado ao aleitamento e ao sexo? Na década de 70 algumas feministas criticaram a explicação que a psicanálise propunha para a anorexia nervosa. À hipótese de que a anorexia resultava de uma “fuga da feminilidade”, as feministas argumentaram que não se podia esquecer dos imperativos culturais como a “tirania da magreza” e o machismo de nossa sociedade que privilegia o masculino. O receio de que a gordura nos seios e nas ancas fizesse as mulheres parecerem estúpidas e vulneráveis apontava para a anorexia nervosa como uma forma de rejeição da inferioridade social, econômica e intelectual. Seja como for, e sem querer sugerir que as modas não possuem uma relevância, pelo menos hoje em dia o tratamento psicológico leva mais em consideração os significados culturais em torno das formas femininas (5).

Um seio é apenas um seio?

 Leia também:

As Mulheres de Luis Buñuel
Luis Buñuel, Incurável Indiscreto
A Guerra dos Seios: Conexão Seios (II)
Fetiches Digitais: Conexão Seios (III)
Os Seios da República: Conexão Seios (epílogo)

Notas:

1. YALOM, Marilyn. História do Seio. Tradução Maria Augusta Júdice. Lisboa: Teorema, 1998. P. 191.
2. Idem, p. 14.
3. Ibidem, p. 180.
4. Ibidem, p. 185.
5. Ibidem, pp. 190-1. 

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