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Roberto Acioli de Oliveira

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28 de mai. de 2015

Máscaras: Carnaval de Veneza


As festas  com máscaras  nos carnavais de Veneza e Viareggio
contêm elementos da cultura popular,  fruto de uma formalização
do  “folclore”  enquanto  gênero  de  política cultural  nacionalista
originada no século XIX mais do que questão de continuidade (1)

Dizem que tradição local foi a responsável por trazer máscaras do estrangeiro, na sequência da expansão da República de Veneza (dita A Sereníssima) em direção ao oriente. De acordo com Yvonne de Syke, as informações mais antigas se referem à utilização de “cobre rostos” remontando a 1094, durante do reinado do Doge Vitale Faliero Dodoni. No século seguinte, a vitória veneziana de 1162 sobre o patriarcado de Aquiléia (ao norte, no atual Friuli). Para comemorar o feito, prolongou-se um carnaval já existente. Rapidamente, folias com máscaras se instalam noutros meses do ano em Veneza. Elas começam em outubro com a abertura dos teatros, são interrompidas durante o período do Advento (Sensa), sendo retomadas em 26 de dezembro até a Ascensão, após uma pausa durante a Quaresma e a Semana Santa. As máscaras logo adquiriram um caráter de licenciosidade, transgressão e igualdade entre as classes sociais em Veneza, embora sua utilização tenha sido o mais das vezes imposta pelo governo por ocasião de acontecimentos políticos, neste caso em nada podendo ser considerada como sinônimo de carnaval. A passagem das máscaras pela Praça São Marcos acontece após a missa celebrada na Basílica da ilha de São Jorge Maior (San Giorgio Maggiore) em honra de São Estevão, cujo corpo está abrigado ali, trazido de Constantinopla em 1009. As máscaras seguem na direção do Palácio Ducal e fazem festa durante toda a noite, atravessando a ponte Rialto no final da festa pouco antes do amanhecer (2).


No século XVIII, era um servo humilde quem dava início oficial
ao  carnaval  de máscaras  em Veneza,  vestido com uma imitação
da   chamada   máscara    nobre     bauta   torta,   uma   máscara
branca   de   cera   furada  e  um  tabarro  cheio  de  remendos (3)

Mascarar-se para fazer mímica era privilégio exclusivo dos atores, que gesticulavam representando os mouros (a expulsão dos muçulmanos da Península Ibérica), em memória de eventos históricos, e dançavam a mourisca. Tudo era apresentado na Praça de São Marcos, enquanto certas pantomimas despejando sátiras da vida política tinham lugar no interior dos palácios, com atores e plateia igualmente protegidos por máscaras. Os salões dos conventos também recebiam apresentações teatrais quando, ao cair da noite, jovens monjas de origem aristocrática deixavam o isolamento escondidas atrás de máscaras e se misturavam com o povo nas festas pela cidade. Foi neste ambiente de deboche, de subversão e de diversão generalizada que nasceram, durante o século XVI, os personagens da commedia dell’arte, herdeiros de uma tradição bem enraizada na península itálica. Surge então a larva (ou Volto), a famosa máscara veneziana fabricada com oleado preto ou branco; rematada pela bauta, véu que cobre a cabeça e os ombros; o tabarro, capa grande, e o típico chapéu de três pontas. Tal configuração do carnaval histórico parecia ser suficiente para garantir a igualdade entre os sexos e suplantar as diferenças de classe e de fé, até que surgiu o traje de seda composto de um dominó de losangos multicoloridos, permitindo um anonimato ainda mais completo, por excelência o efeito buscado pelos disfarces venezianos.


Foi justamente durante as proibições que o uso de máscaras
e   disfarces   alcançou  maior  desenvolvimento  em  Veneza

Como em toda a Itália, também em Veneza as precursoras do carnaval são as antigas festas de máscaras como a Saturnália, que durante todo o Império Romano desenvolveram as possibilidades da orgia dos disfarces. Apesar da oposição da Igreja Católica, os venezianos celebravam o carnaval desde os primeiros tempos da cidade. Como é o caso do Jogo dos Ovos, quando homens disfarçados de pequenos diabos apareciam diante das casas daquelas moças que lhes interessavam e, ao comando de um cavaleiro (Mattaccino) vestido de branco e vermelho, jogavam ovos perfumados (imagem acima, ilustração F. Bertelli, Veneza, 1569). Em 1268 o Grande Conselho proíbe tal coisa no “bairro do governo” (a região em torno de São Marcos), apesar disso o costume continuaria popular até o século XVII. Tem início uma época de proibições. Supondo que tal medida inibiria o roubo e a fraude, foi proibido o uso de máscaras na cidade em 1339. Muitas reedições e complementações das leis foram realizadas ao longo de séculos sem que fossem respeitadas - um século mais tarde ainda se ouvia falar de homens que disfarçados de mulher cometeram obscenidades no interior de conventos. Contudo, Rolf Schwarz afirmou que tal interesse em proibir tinha mais relação com o estabelecimento de mecanismos de controle por parte das instâncias de poder político, e o carnaval representava uma reserva de liberdade com a qual o Estado veneziano não sabia lidar (4). (imagem abaixo, Il Caffè Florian, Francesco Guardi, 17??)


(...) A máscara faz parte da vestimenta (...)

Descrição do carnaval de Veneza por um turista em 1739

Aparentemente, tal situação levaria ao aprofundamento do interesse nos disfarces, atingindo estágio culminante durante o Renascimento, com a mitologia da Antiguidade e a fantasia poética da modernidade – sem esquecer o arsenal de elementos trazidos dos povos colonizados por Veneza, assim como daqueles com quem estabelecera laços comerciais. Em 1608 cairia a proibição de visitas aos conventos e outros edifícios eclesiásticos de pessoas portando máscaras, a partir de agora se passariam a permitir os disfarces apenas durante o carnaval – ainda que a festa já estivesse ocorrendo em diversas partes do ano, incluindo as festividades anuais mais variadas e até as cerimônias políticas. Ainda de acordo com Schwarz, essa mudança de atitude do Estado em relação às máscaras e aos disfarces teria relação com o declínio político e econômico de Veneza em relação às mudanças que estavam acontecendo na Europa – era mais fácil se esconder por trás de máscaras e o carnaval acalmava os ânimos.  No século XVIII, essa infiltração da sociedade pelas máscaras estava consolidada (tanto que para dirigir-se a alguém bastava a fórmula “senhor máscara”), convertendo Veneza numa grande atração turística na era pré-industrial – indústria que compensaria as perdas crescentes na economia da cidade. Um destes turistas foi o presidente do parlamento da cidade francesa de Dijon, o escritor Charles de Brosses, que em uma de suas cartas à família em 1739 descreve o papel das máscaras na sociedade veneziana do settecento:

“O carnaval tem início em 5 de outubro, e logo acontece outro menor na época da Ascensão. A partir de então pode contar-se com algo em torno de seis meses nos quais todo mundo aqui utiliza máscaras, sacerdotes e leigos, inclusive o núncio e o porteiro dos capuchinhos. Não pense que estou brincando. A máscara faz parte da vestimenta. Os padres se zangam com seus paroquianos, e o arcebispo com seus clérigos, se estes não levam a máscara na mão ou acima do nariz” (5)

Leia também:
Notas:

1. POPPI, Cesare. The Other Within: Masks and Masquerades in Europe. In: MACK, John (Ed.). Masks. The Art of Expression. London: The British Museum Press, 1996. P. 215.
2. SIKE, Yvonne de. Les Masques. Rites et Symboles en Europe. Paris: Éditions de La Martinière, 1998. Pp. 71, 74.
3. SCHWARZ, Rolf D. Carnaval en Venecia. Espanha: Salvat Editores, S. A., 1991. Pp. 130, 134.
4. Idem, pp. 125, 126-32.
5. Ibidem, pp. 129.

20 de fev. de 2012

Hollywood e as Guerras Patrióticas




“Estamos
prontos  para
nos  afastar do curso
agradável e rentável do
entretenimento  para
nos  envolver  em
propaganda?” (1)

Production  Code  Administration,
memorando interno, dezembro, 1938






A Balela do Bem Contra o Mal

A Segunda Guerra Mundial começou na Europa com a invasão da Polônia pelas tropas de Hitler em 1939. Até aquele momento, havia um debate em torno da possibilidade de os Estados Unidos participarem diretamente – durante um bom tempo, o máximo que fizeram foi mandar suprimentos e equipamento para a Europa e uma esquadrilha não oficial, conhecida como Tigres Voadores, operava na China contra o avanço japonês. Mas então veio o ataque nipônico à base naval norte-americana em Pearl Harbor em dezembro de 1941 e os argumentos dos chamados Isolacionistas (políticos que eram contra o envolvimento no conflito) já não encontravam ouvidos receptivos. Até aquele momento, os grandes estúdios de Hollywood vinham produzindo filmes de guerra relativamente neutros. Entretanto, com o ataque japonês, os estúdios saíram de cima do muro, já que não havia mais a possibilidade de almejarem os mercados invadidos, seja na Europa, seja na Ásia. A adesão foi absoluta, dos mil e duzentos filmes produzidos em Hollywood entre 1942 e 1945, mais de quinhentos tratavam da guerra de uma maneira ou de outra. Por ocasião do ataque japonês, alguns prédios receberam pinturas de camuflagem. Talvez por se sentir preterido pelo fato de alguns dos estúdios da Warner Brothers na Califórnia não receberem pintura (e pelo fato de se assemelharem às fábricas de aviões militares quando vistas do alto), Jack L. Warner pintou um aviso irônico no telhado de uma delas que indicava a direção das fábricas reais. Naturalmente, logo as autoridades militares ordenaram sua retirada! (2) (imagem acima, Missão em Moscou, cartaz provavelmente direcionado à América Latina, apresentando o genocida soviético Joseph Stalin com cara de vovozinho inocente)




Filmes com
aviões  sempre
foram  populares.
Toda a contribuição da
aviaçã
o durante a Segunda
Guerra Mu
ndial apenas
tornaria o tema ainda
mais interessante
do ponto de vista
comercial (3)




Rápidos para capitalizar o espírito do momento, seis estúdios simultaneamente contataram a Motion Picture Association para garantir os direitos autorias da frase “Lembre-se de Pearl Harbor” (“Remember Pearl Harbor”). Três estúdios imediatamente correram para registrar seus direitos pelo título “Nos mandem mais japoneses” (“Send us more japs”). A frase foi dita pelo piloto norte-americano Colin Kelly, que morreu nas Filipinas nos primeiros dias da guerra. Os títulos registrados variavam entre “Tributo para Kelly”, Kelly o Terceiro” e “Kelly dos Estados Unidos da América” (“Kelly of U.S.A.). No caso dos filmes de guerra planejados para mostrar a Força Aérea (naquela época ela ainda era um componente do exército), o grande problema então passou a ser a quase total indisponibilidade de aviões modernos para as filmagens, e a utilização de seqüências reais de combate aéreo filmadas em batalhas nos anos anteriores nem sempre eram indicadas. De qualquer forma se, desde os acontecimentos de 1939, 68% do público norte-americano era contra o envolvimento do país na guerra, agora era justamente o contrário. Se até antes de Pearl Harbor Hollywood só havia produzido pouco mais de cinquenta filmes em torno de temas antinazistas, agora a situação mudou radicalmente e até Walt Disney começou a produzir desenhos animados maniqueístas caricaturando nazistas e japoneses como idiotas e/ou malucos – depois da guerra, e com o advento da Guerra Fria, o interesse dos Estados Unidos na Alemanha e no Japão fez com que esses desenhos fossem rapidamente banidos. (cartaz acima, à direita, Os Tigres Voadores)

Céu de Brigadeiro Para Hollywood


Hitler e Mussolini
conheciam a força do
cinema para conquistar
os corações e mentes do
público. Quando os dois
perderam a guerra, os
norte-americanos
dominaram a
distribuição




James Farmer relatou suas impressões ao descobrir em 1969 um terreno em Culver City (Califórnia) onde se encontravam vários aviões militares da Segunda Guerra em variados estados de apodrecimento. Eram algumas dezenas de aeronaves da chamada “Força Aérea MGM”, uma referência ao estúdio da Metro Goldwyn Mayer. Farmer chegou na hora que a MGM estava leiloando o “ferro-velho”, aviões fora de serviço que o estúdio comprou das forças armadas na década de 40 para utilizar em seus filmes. Eram bombardeiros B-17 (como os que se pode ver em Almas em Chamas, Twelve o’Clock High, direção Henry King, 1949) e B-24 e um B-29 que apareceu em dois filmes, The Beginning or the End (direção Norman Taurog, 1947) e Above and Beyond (direção Melvin Frank e Norman Panama, 1952). Longas-metragens já do pós-guerra, retratavam Paul Tibbets, o piloto do B-29 Enola Gay, que jogou a bomba atômica em Hiroshima – os atores Barry Nelson e Robert Taylor representaram o papel de Tibbets, no primeiro e segundo filmes respectivamente. Também se podiam ver aviões torpedeiros e caças como o P-38 Lightning que Irene Dunne tenta roubar em Dois no Céu (A Guy Named Joe, direção Victor Fleming, 1943); ou ainda, o F-4 U-1A Corsair que voará muito tempo depois, na segunda temporada da série Black Sheep Squadron da NBC (1976-78). Mas Hollywood tratava bem os alemães até 1941, edições inglesas de periódicos germânicos como Signal e Der Adler (revista oficial da força aérea nazista) tinham grande circulação nos Estados Unidos. (imagem acima, à esquerda, quadro retirado de um cine jornal produzido pelo Instituto Luce, 1937. A frase "O cinema é a arma mais forte", encimada pela figura de Mussolini utilizando uma câmera de filmagens, evidencia a importância dada por ele a esse meio)

O objetivo disso, de acordo com Farmer, era encorajar a neutralidade do país, simultaneamente projetando imagem de uma Luftwaffe moderna e invencível e o colapso iminente da força aérea britânica. O cinema de Hitler também chegava aos Estados Unidos já em 1939. Em Goal in the Clouds (Ziel in dem Wolken, direção Wolfgang Liebeneiner) os personagens procuram desenvolver aviões capazes de aterrorizar os países vizinhos, e D.III-88, The New German Air Force Attacks (D.III-88, direção Herbert Maisch e Hans Bertram, 1940) expandiria o tema. Filmes descritos como “propaganda” por Farmer, que cita ainda Stukas (1941) e Legion Condor (ambos com direção de Karl Ritter, 1939). Neste último, em suas palavras, “voluntários” alemães se apresentam para lutar na guerra civil espanhola. Quando os Estados Unidos entra na guerra, a falta de imagens de combates aéreos para Hollywood foi suprida em parte por estes filmes. Por conta disso, Farmer aponta a incongruência histórica de filmes como Tigres Voadores (Flying Tigers, direção David Miller, 1942). Ambientado na China, não existiam os JU-86 alemães da legião Condor que aparecem e também caças Spitfire ingleses do também inglês The Lion has Wings (direção Alexander Korda e outros, 1939) inseridos como dublês dos P-40 Warhawks norte-americanos! O futuramente famoso cineasta italiano Roberto Rossellini realizaria três filmes de propaganda das forças armadas de Mussolini, para a aeronáutica com Un Pilota Ritorna (1942), para a marinha com La Nave Bianca (1942) e para o exercito com L’uomo dalla Croce (1943).

O Cinema e o Mundo... Livre




É curioso constatar
como apenas os filmes
do perdedor são vistos
como propaganda
de mau gosto






É muito comum encontrar críticas e estudos a respeito da manipulação promovida no cinema pelos órgãos de propaganda de Hitler. É assim, por exemplo, que um filme como Mocidade Heróica (Hitlerjunge Quex: Ein Film vom Opfergeist der deutschen Jugend, direção Hans Steinhoff, 1993) será considerado propaganda barata, enquanto Os Carrascos Também Morrem (Hangmen Also Die!, 1943) apresenta um personagem principal nazista caricato, da fase de Fritz Lang nos Estados Unidos, contando ainda com um roteiro escrito por Bertold Brecht (ambos fugidos da Alemanha de Hitler e precisavam “se fazer úteis” aos Estados Unidos) (imagem acima, à esquerda). O fato de que os clichês neste filme sejam menos sutis do que no primeiro é mero detalhe. Em Mocidade Heróica, os personagens comunistas são retratados como bêbados e bandidos, enquanto Hollywood lançava Missão em Moscou, um filme pró-soviético (primeira imagem do artigo). Fala-se muito sobre a maneira horrível como os judeus foram retratados em filmes nazistas como O Judeu Eterno (Der Ewige Jude, direção Fritz Hippler, 1940), mas quantos ouviram falar de Know your Enemy – Japan, documentário dirigido por Frank Capra em 1945 onde os japoneses eram mostrados a partir de estereótipos racistas? (4) (Imagem abaixo, à direita, 30 Segundos Sobre Tóquio {30 Seconds Over Tokio, 1944}; filme baseado em fatos reais que reconstitui um irrelevante ataque norte-americano ao Japão logo após o triunfante ataque japonês a Pearl Harbor. O objetivo explícito era levantar o moral dos norte-americanos)





De 1934 até a década de
50
,   ao  cinema nos Estados
Unidos não era garantida a

liberdade de expressão (5)






Mas pouco se fala a respeito da postura do governo de Franklin Delano Roosevelt (1882-1945) durante a guerra em relação ao cinema. Durante a Segunda Guerra, o governo norte-americano estava convencido de que filmes poderiam mobilizar a opinião pública a favor da entrada no conflito. Clayton Koppes e Gregory Black mostram até que ponto chegou o envolvimento do governo em Hollywood. Integrantes do Office of War Information (OWI), agência do governo para a propaganda, cumpriam as seguintes tarefas: Publicaram um manual instruindo os estúdios em como ajudar no esforço de guerra; assistiam a reuniões da cúpula de Hollywood; analisavam os roteiros de cada grande estúdio (exceto com a Paramount), pressionavam para modificações e destruíam filmes considerados questionáveis; e, às vezes, chegaram mesmo a escrever os diálogos (6). É curioso que até hoje se fale dos filmes realizados durante o nazismo como pura propaganda, enquanto os filmes de propaganda realizados pelos norte-americanos continuam a passar na televisão e/ou estar disponíveis em dvd’s. Poderíamos citar Missão em Moscou (Mission to Moscow, direção Michael Curtiz, 1943), produzido para gerar um ambiente pró-soviético nos Estados Unidos (eles eram os únicos capazes de enfrentar Hitler naquele momento), está repleto de mal entendidos e incongruências do ponto de vista histórico. Contudo, terminada a guerra, o governo norte-americano trata de encomendar filmes que fizessem o público odiar/temer os russos... Era a Guerra Fria (7).

Puro Entretenimento Puro




(...) Os filmes da capital
do cinema ocupavam 80 %
da
s telas do mundo na década
de 30
, e os tablóides e revistas de
fotografias de Paris a Pequim
, de
Roma ao Rio
, davam grande
atenção a Hollywood” (8)






A OWI tinha considerável influência com o Escritório de Censura, que expedia licenças de exportação e controlava a exibição de filmes norte-americanos nas áreas libertadas. Uma vez que a exibição no estrangeiro muitas vezes determinava a diferença entre lucro e prejuízo para um filme, os executivos dos estúdios consideravam muito conveniente seguir os conselhos do OWI. Desta forma, o governo acabou conseguindo exercer considerável influência em relação ao conteúdo dos filmes de Hollywood em tempo de guerra. Contudo, Koppes e Black consideram enganoso focar apenas na influência do governo. Essa experiência durante a guerra só poderia ser compreendida no contexto mais amplo da censura imposta pela própria indústria. Se a intromissão do governo era algo novo, a censura surgiu praticamente junto com Hollywood. Em sua forma mais acabada, era exercida pela Production Code Administration (PCA), uma ramificação do Motion Picture Producer and Distributors of America – mais conhecido como Escritório Hays, em função de seu chefe de longa data, William Harrison (Will) Hays. Um dos paradoxos da história do cinema norte-americano afirma Koppes e Black, é que quando Hollywood era mais popular ela era também firmemente controlada por uma oligarquia empresarial e um rígido código de censura. (acima, à esquerda, John Wayne em Os Tigres Voadores; abaixo, à direita, Dois no Céu)






Hollywood só
assumiu  a  auto
-censura
por uma razão pura
mente
mercadológica





Desde 1915 a indústria norte-americana do cinema tinha problemas, pois a Suprema Corte decretou que o cinema não era nada além de um “puro e simples” negócio, sendo assim não estariam incluídos na garantia de liberdade de expressão promulgada na Primeira Emenda da Constituição. Foi justamente por iniciativa de Hays que Hollywood estabeleceu sua auto-censura em 1934. Naquela época, a sociedade norte-americana ainda estava sendo duramente afetada pela Grande Depressão. Hays percebeu que a profusão de filmes de gangster, apelos cada vez maiores à nudez (feminina) nas telas e roteiros que se aprofundavam em questões sociais, poderiam incitar o governo federal a agir, com possíveis desastrosas conseqüências para o “negócio”. Em 1934, a cúpula da Igreja Católica nos Estados Unidos lançou uma campanha nacional para “purificar” Hollywood. Desde 1930 já havia um código de conduta, os bispos forçaram Hays a acatá-lo em troca do fim do boicote. O código era um misto de moralidade católica e postura burguesa, a transgressão da lei seria sempre punida, não haveria exposição da carne, não haveria homens e mulheres na cama juntos (mesmo se casados), falar de aborto estava fora de questão, assim como a homossexualidade e o controle de natalidade. O crime e a corrupção deveriam ser mostrados como aberrações individuais, nunca como problemas sistêmicos.

“(...) Na maior parte dos círculos literários e intelectuais, contudo, o código era regularmente denunciado como o pior tipo de censura – aquela dos ‘fanáticos sexuais’. Eles condenavam especialmente as restrições relativas a temas sociais e políticos do código Hays.

“Sempre controversas, as mensagens nos filmes [norte-]americanos ganharam uma nova urgência quando o mundo mergulhou na guerra em 1939. A guerra foi um tema irresistível para Hollywood, mas isso também ameaçava as confortáveis e lucrativas pretensões do código e a doutrina do ‘puro entretenimento’. Esta foi uma ‘guerra total’, como os políticos e especialistas entoaram incessantemente. Como as nação foi orientada para a guerra até ao mais íntimo detalhe da vida diária (...), os filmes se tornaram um instrumento privilegiado para persuasão pública. A guerra trouxe o envolvimento mais contínuo e íntimo jamais visto na América [do Norte] entre o governo e uma mídia de cultura de massa, já que a administração Roosevelt fez pressão sobre Hollywood para realizar longas-metragens que eram veículos de propaganda. O conflito entre os estúdios e o governo, e a eventual cooperação entre eles, ajudou a formar a opinião pública durante e depois da guerra. O relacionamento entre os propagandistas do governo e uma mídia de cultura de massa colocou em destaque questões cruciais a respeito de como o público é mobilizado para a guerra e o controle de uma mídia popular, mas empresarial. Hollywood 1939: o palco estava pronto para uma luta na mídia de cultura popular dominante, a respeito de demandas conflitantes de política, lucros e propaganda” (9)

Uma Coisa é Uma Coisa... Outra Coisa é Outra Coisa 



“O espetáculo
que começou em 9 de
setembro
, 1941, exigiu os
melhores talentos de Hollywood
e do Senado dos Estados
Unidos
duas instituições [norte
-]americanas
que
, sejam quais fossem suas
intenções sérias
, não eram
estranhos à ilusão ou
ao melodrama” (10)




Havia um grupo de políticos nos Estados Unidos que defendia a neutralidade dos Estados Unidos em relação às questões européias. Chamados de isolacionistas, eles afirmavam na época que a indústria do cinema de Hollywood estaria paulatinamente inserindo elementos de propaganda política em seus filmes, cujo objetivo primário deveria ser o puro entretenimento. Alegaram que possuindo o monopólio da produção e distribuição de filmes, os presidentes dos grandes estúdios utilizariam seu poder para incentivar a participação dos Estados Unidos na guerra ao alardear a perseguição a que estavam sendo submetidos os judeus na Europa – os isolacionistas chegaram a mencionar que seria natural por parte desses presidentes, já quem em grande parte eram judeus também (11). Mas tudo isso mudou quando o Japão atacou o país em 1941 – a guerra na Europa havia começado em 1939. Até então, os estúdios em Hollywood vinham se adaptando à situação. Quando Hitler, bem antes de 1939, exigiu que os empregos na Alemanha fossem ocupados apenas por arianos, os grandes estúdios norte-americanos rapidamente demitiram seus funcionários judeus que trabalhavam na terra do Führer – ainda que, como sabemos, os próprios donos fossem judeus. (imagem acima, à esquerda, Almas em Chamas; abaixo, à direita, Nossos Mortos Serão Vingados {Wake Island, direção John Farrow, 1942})






Aparentemente,
caso os Estados Unidos
não  entrassem  na guerra
,
Hollywood teria continuado
a agradar Hitler para não
perder o mercado
alemão






Acontece que a indústria norte-americana do cinema era muito dependente de suas exportações, assumindo uma postura conivente com os desmandos de Hitler. Contudo, além de já estar perdendo o mercado alemão desde 1937, depois de 1941 Hollywood começará a produzir filmes antinazistas, o que faz com que o líder alemão proíba a importação de filmes norte-americanos – o que não significa que Josef Goebbels, Ministro da Propaganda nazista deixasse de admirar a maneira como Hollywood conseguia produzir entretenimento anestesiante. Foi então que Hollywood se voltou para os interesses propagandistas (rentáveis para eles) do governo Roosevelt. Em 1938, a United Artists produz Bloqueio (Blockade, direção William Dieterle), um filme que comenta a Guerra Civil Espanhola que estava então ocorrendo – na qual Hitler e Mussolini tiveram papel ativo ao lado do futuro ditador Francisco Franco, cuja ditadura, aliás, sobreviveria a ambos. No ano seguinte, Confissões de Um Espião Nazista (Confessions of a Nazi Spy, direção Anatole Litvak) foi baseado em caso verídico, espiões nazistas foram presos nos Estados Unidos.

Glorificação da Guerra?



Com Sargento 
York,   o  cinema
hollywoodiano deixa d
e
recear temas políticos e passa
a assumir uma postura
intervencionista

agressiva (12)




Com o acirramento das batalhas, Hollywood multiplicou seus temas. Da marinha de guerra à infantaria, da força aérea à marinha mercante, todas as armas do teatro de operações receberam uma “roupagem moral”. A Casa Branca estava agradecida, como Roosevelt deixaria claro no Oscar em 1941. Agradeceu a “esplêndida cooperação com todos que estão dirigindo a expansão de nossas forças de defesa”, e apelou por suporte continuado. Lowell Mellett, que fazia a ligação entre a presidência e a mídia afirmou em 1941: “Praticamente tudo sendo mostrado na tela, de cine jornal à ficção que toca nossos objetivos nacionais, é do tipo correto”. O patriotismo é um dos ingredientes, mas Mellett também atribuiu o apoio ao “fato de que a indústria do cinema está consciente do Departamento de Justiça”. Na época Fritz Hippler, que comandava o cinema de Hitler, afirmou que se os filmes de Hollywood carregam os “ideais de uma nação livre” através do mundo, então “os ideais [norte-americanos] devem ser diversão leve” (13) – Goebbels detestava filmes políticos, substituindo propaganda por entretenimento (14). Ao contrário de outros veículos de comunicação norte-americanos, o cinema custou para falar da guerra. Por outro lado, sua estrutura oligopolista engendrava um produto político monolítico. Isolacionistas como o Senador Gerald P. Nye, contrário à entrada dos Estados Unidos no conflito, dizia que Hollywood glorificava a guerra ao invés de entreter, drogando a razão do povo com a febre da guerra (15). (imagem acima, à esquerda, A Yank in the R.A.F.; abaixo, à direita, Comboio Para o Leste)




Com frases de
Roosevelt ditas pelo
próprio, Comboio Para o
Leste
(16), um filme sobre
os heróis sem glamour
da marinha mercante,
agradou muito aos
envolvidos na
propaganda
de guerra




Em meados de 1941, contam Koppes e Black, os filmes ultrapassaram outro limiar. Sem fazer julgamentos políticos explícitos, alguns deles estabeleciam proposições intervencionistas por analogia. Em pelo menos dois filmes os norte-americanos estavam tão ligados no perigo que corria a Inglaterra que se alistaram na Força Aérea Real para tomar parte ativa na batalha contra o Nazismo. A presença de pilotos norte-americanos na força aérea britânica (R.A.F.) durante a Batalha da Inglaterra será apontada em A Yank in the R.A.F. (direção Henry King). Ronald Reagan, futuro presidente republicano dos Estados Unidos na década de 80, atuou em International Squadron (direção Lothar Mendes e Lewis Seiler) (imagem abaixo, à esqurda) como um piloto norte-americano na R.A.F., ele morre no final devido a suas “falhas morais”. No primeiro filme, protagonizado por Tyrone Power, originalmente seu personagem morria no fim. Contudo, temendo que os norte-americanos concluíssem que eventualmente poderiam morrer na guerra, os ingleses solicitaram uma mudança e Power sobrevive (17). O crítico do New Herald Tribune Howard Barnes defendeu o filme com essas palavras:



“Os Isolacionistas
sem  dúvida  ficarão
horrorizados  com  o  novo
filme no Roxy.
A Yank in the R.A.F.
não apenas admite que haja uma guerra
sendo travada,
mas de forma muito
franca fica do
lado dos galantes pilotos 
britânicos que salvaram um fragmento
da Europa para a democracia há
um ano...
A Yank in the R.A.F.
talvez seja a comercialização
da guerra. É isso que faz
dele um entretenimento

de valor na tela” (18)




O tipo de abordagem de A Yank in the R.A.F. atingiria seu ápice com Sargento York (Sergeant York, 1941), que pretendia mostrar a história de Alvin York, um pacifista que acabou se tornando um herói na Primeira Guerra Mundial quando matou uns vinte soldados alemães e capturou 132 no campo de batalha. Depois que ele foi recebido com uma parada na 5ª Avenida em 1919, tentou-se sem sucesso fazer um filme sobre o evento. Em 1940, Alvin foi procurado novamente para contar sua história nas telas e ajudar outros soldados que estivessem passando por uma crise de consciência. Ele concordou em vender o roteiro em troca de cinqüenta mil dólares – supostamente para a construção de uma escola religiosa. E foi Alvin que sugeriu Gary Cooper para o papel principal. Depois de um dia e uma noite questionando as demandas conflitantes entre a Bíblia e a guerra por uma suposta democracia, York optar pela guerra ao concluir: “a César o que é de César, a Deus o que é de Deus”.

O Grande Ditador




(...) Hitler tinha de
ser ridicularizado”

Charles
Chaplin





De acordo com Koppes e Black, talvez o filme antifascista mais significativo do período tenha sido uma produção independente (em relação a Hollywood). Charles Chaplin produziu, escreveu e atuou em O Grande Ditador (The Great Dictator, 1940). Ele foi pressionado a cancelar o projeto – sugeriram que poderia prejudicar os judeus que ainda estavam na Alemanha... Chaplin contou que autoridades na United Artists (que ele fundou com Douglas Fairbanks, Mary Pickford e D.W. Griffith), a realizadora do projeto, lhe disseram ter sido avisados pelo Escritório Hays que poderiam ser censurados. Mas Chaplin respondeu que “(...) estava determinado a ir em frente, porque Hitler tinha de ser ridicularizado” (19). Já em 1938 o Cônsul alemão em Los Angeles manifestará oposição ao projeto. No ano seguinte, a censura inglesa avisou que nenhum personagem vivo podia ser representado na tela sem consentimento por escrito - com o início da guerra isso não é mais problema. Joseph Breen, diretor do PCA, saúda o filme como “entretenimento soberbo” - mas solicita o corte da palavra proibida lousy (nojento, sujo), na cena em que Hannah experimenta chapéus. Breen suspeitava que, através de Hollywood, judeus estariam usando o tratamento dispensado pelos nazistas aos judeus na Alemanha para fazer filmes de propaganda – chegou a identificar o epicentro dessa “conspiração” na Hollywood Anti-Nazi League. Dois anos depois, em Hollywood, Ernst Lubitsch também procurou rir de Hitler em Ser ou Não Ser (To Be or Not To Be, 1942)

O Grande Ditador não pode ser classificado como um “filme de ódio”, porque sugere que nem todos os alemães odiavam judeus. Essa abordagem era uma fórmula hollywoodiana, mas também uma diretiva do PCA. Alemães maus deveriam ser contrabalançados por alemães bonzinhos. O PCA utilizava essa fórmula para evitar controvérsias – os políticos podiam ser corruptos, mas nem todos; os advogados podiam ser charlatões, mas nem todos –, aplicando-a inclusive aos alemães. Embora isso nem sempre ocorresse, vide um filme maniqueísta onde todos os nazistas são maus como Man Hunt (direção Fritz Lang, 1941), o PCA exigiu que Hollywood continuasse a reforçar uma doutrina de imparcialidade, pouco importa o quão maléfico fosse o regime político. Os Carrascos Também Morrem seguira o mesmo padrão, os nazistas são brutais (ou ridículos como Heinrich Heidrich, o nazista assassinado na vida real e que inspirou o filme) enquanto os tchecos da resistência são íntegros. No entanto, concluem Koppes e Black, a sátira em O Grande Ditador se mostrou mais efetiva do que filmes sobre a resistência. Mas também não se trata apenas de uma questão de risada, em Ser ou Não Ser, que mostra um sósia de Hitler caminhando na rua em Varsóvia, nem todo mundo estaria disposto a rir, uma vez que a Polônia já havia sido invadida pelos nazistas desde 1939 (20).




Chaplin
parou de rir

de Hitler quando
ele finalmente
invadiu a

Europa




 Saudado por alguns na época como “o melhor filme de propaganda desde o início da guerra”, O Grande Ditador teria o mérito de atacar o ditador alemão através de um humor inteligente. De acordo com Ray Bradbury, “quando se está diante de regimes totalitários, da loucura que impõem ao mundo, não basta ter coragem. Precisa-se rir na cara deles. Gargalhar e dizer: ‘vocês não valem nada. Eu os descarto assim, dando uma gargalhada eterna, a gargalhada da aceitação que os dissolve” (21). É possível que a referência a César em Sargento York seja uma resposta/provocação às palavras que Chaplin coloca na boca do grande ditador. No início da famosa cena da dança com o globo terrestre, Hynkel recita em latim “Ou César ou nada!” (a frase “aut Caesar aut nullus” é uma citação incorreta de “aut Caesar aut nihil”) (22). As filmagens de O Grande Ditador estavam quase terminadas quando Hitler se lançou na conquista da Europa. Chaplin ficou tão chocado que pensou em suspender o lançamento do filme, afirmando que Hitler “(...) é uma ameaça horrível para a civilização ao invés de alguém de quem se possa rir”.






Talvez O Grande Ditador representasse um enorme
contraponto em relação às
“tentati
vas” de Hollywood





Quando Hitler invadiu a França, Chaplin ainda estava ocupado com o discurso na cena final, o que o fez reescrevê-lo como um apelo pela paz e pela razão. No dia em que Chaplin estava gravando a cena, o próprio Hitler chega à Paris para saborear a vitória. Com o fim da Segunda Guerra Mundial e a derrota do ditador, o clima de caça às bruxas do macarthismo (que inauguraria uma nova fase do cinema de propaganda Hollywoodiano) atingiu Chaplin. Apenas muitos anos depois Chaplin voltaria ao país para receber um Oscar pelo conjunto da obra, oferecido pela indústria cinematográfica de Hollywood. Mas por hora, durante a década de cinqüenta, foi considerado um inimigo da democracia norte-americana. Chaplin, que era um imigrante inglês (e nasceu no mesmo ano e na mesma semana que Hitler), seria forçado a exilar-se fora dos Estados Unidos. Enquanto isso, aqueles que levaram para as telas do cinema um filme patético como Missão em Moscou, assim como seus colegas, colhiam os frutos da recompensa por serviços prestados à desinformação patrocinada pelo governo norte-americano.




Leia também:

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Luis Buñuel, Incurável Indiscreto
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Chaplin e o Macarthismo
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Isto é Hollywood!
A Primeira Onda do Cinema Francês
A Múmia Hollywoodiana e a Islamofobia

Notas:

1. KOPPES, Clayton R.; BLACK, Gregory D. Hollywood Goes to War. How Politics, Profits & Propaganda Shaped World War II Movies. London: I.B. Tauris, 1987. P. 17.
2. FARMER, James H. Celluloid Wings. The Impact of Movies on Aviation. Pensilvânia/ EUA: Tab Books Inc., 1984. Pp. vii, viii, xiii, ix, 133, 135, 141-2, 159-61.
3. Idem, p. 161.
4. KOPPES, Clayton R.; BLACK, Gregory D. Op. Cit., p. 250.
5. Idem, p. 14.
6. Ibidem, pp. vii-viii, 13-26, 31-2, 35.
7. Ibidem, p. 185-6.
8. Ibidem, p. 2.
9. Ibidem, p. 16.
10. Ibidem, p. 17.
11. Ibidem, p. 41.
12. Ibidem, p. 39.
13. Ibidem, pp. 37-9, 333n43.
14. Goebbels, Mestre da Propaganda In 4º Poder, série O Poder e a Mídia, TVE, canal 2, RJ. 05/09/1996. BBC.
15. KOPPES, Clayton R.; BLACK, Gregory D. Op. Cit., p. 39, 40.
16. Idem, p. 114, 119. Action in the North Atlantic, direção Lloyd Bacon, não creditados: Byron Haskin e Raoul Wash, 1943.
17. FARMER, James H. Op. Cit., pp. 156, 316.
18. Idem, p. 156.
19. Ibidem, p. 31.
20. Ibidem, p. 297.
21. O Vagabundo e o Ditador, documentário de Kevin Brownlow e Michael Kloft. Nos extras do DVD de O Grande Ditador, lançado no Brasil pela Warner Brothers, 2001.
22. IMDB. http://www.imdb.com/title/tt0032553/faq 


25 de abr. de 2009

Purgatorium: A História de Uma Palavra (final)


“O fogo porá à prova
a obra de cada um”


São Paulo,
Corintios, III, 13

Fogo e Gelo

O cristianismo medieval se apoiou nesta citação das Escrituras para construir o Purgatório. Quente e frio são dois elementos muito presentes no Purgatório. O fogo, em particular, desempenha um papel central. No Purgatório medieval, e mesmo antes, o fogo surge de muitas formas: círculos de fogo, lagos e mares de fogo, anéis de chamas, muralhas e fossos de fogo, monstros cuspidores de fogo, carvão em brasa, almas em forma de labareda, rios, vales e montanhas de fogo. O papel do “fogo sagrado” é apagar o período da existência já vivida e tornar o próximo possível (1).


O Purgatório se manifesta no ressurgimento da base indo-européia da qual a cristandade dos séculos XII e XIII parece ter sido palco. Neste sentido, a presença de um fogo divino (Ignis Divinus) já pode ser notada bem antes, em contos, lendas e espetáculos populares desde a Antiguidade, entre os Romanos, os Gregos, os Iranianos e os Indianos. Ao lado do fogo do forno, do fogo da forja e do fogo da pira, agora também deve ser colocado o fogo do Purgatório. Este fogo rejuvenesce e imortaliza. O cristianismo se apropriou da lenda da Fênix, que se tornou um símbolo da humanidade chamada para a ressurreição.

De acordo com Jacques Le Goff, essa herança esclarece características importantes do “fogo expurgador”, que tiveram um papel primordial na construção do Purgatório na Idade Média. Devemos passar por um fogo que rejuvenesce. Compreende-se porque os vulcões atraíram a atenção quando se procurou localizar o Purgatório na terra. O fogo fazia par com a água fria ou gelo. Os corpos dos ascetas se deixavam expor igualmente ao gelo e ao fogo. O “batismo de fogo”, evidentemente metafórico, tinha como objetivo batizar pela água e pelo espírito, para que quando o crente chegasse ao rio de fogo, mostre que conservou os recipientes de água e espírito e que merece receber o batismo de fogo em Jesus Cristo (Lucas, III, 16, Lucam, homilia XXIV) (2). (imagem acima, detalhe do tríptico Os Bem Aventurados e os Condenados [?], Hieronymus Bosch, 1500) Le Goff acredita que o fato de a concepção do Purgatório ser construída a partir de elementos herdados de tradições mais antigas facilitou o êxito dessa rearticulação do espaço divino cristão. O cristianismo...

“(...) Recolheu o fogo divino que rejuvenesce e imortaliza, mas fez dele não uma crença ligada a um ritual, mas um atributo de Deus, cujo uso é determinado por uma dupla responsabilidade humana: a dos mortos, que devem, segundo o seu comportamento na terra, ser-lhe ou não submetido; a dos vivos, cujo maior ou menor zelo pode alterar-lhe a duração de atividade. O fogo do Purgatório, continuando a ser um símbolo portador de sentido, o da salvação pela purificação, tornou-se um instrumento ao serviço de um sistema de justiça complexo, ligado a uma sociedade completamente diferente daquelas que acreditavam no fogo regenerador” (3)

Santo Dinheirinho

Aparentemente, teria sido pela crença dos primeiros cristãos na eficácia de suas preces pelos mortos que se chegou à concepção do Purgatório (pois o caminho do morto, pois o caminho ainda não estava completo). Mas levou tempo até que essa crença se articulasse à outra, a crença na existência de uma purificação depois da morte. Além disso, pelo menos para os vivos havia claramente o estabelecimento de um grande leque de vantagens terrenas (incluindo as financeiras, como mostra a questão da cobrança de indulgências, e dá o que pensar se suas atitudes sugerem não se importar que isso os leve para o Inferno – supondo que realmente acreditem nessa possibilidade). (imagem ao lado, A Gula, detalhe de Os Sete Pecados Capitais e as Quatro Últimas Coisas, de Hieronymus Bosch, c. 1490; abaixo, à direita, o Orgulho, outro detalhe da mesma obra; não foi possível determinar o título e a autoria da imagem acima, à direita)


“Que acréscimo de poder para os vivos, este domínio sobre a morte! Mas também, aqui em baixo, que reforço da coerência das comunidades – famílias carnais, famílias artificiais, religiosas ou confraternais – que extensão, após a morte, que solidariedades eficazes! E para a Igreja, que instrumento de poder! Ela afirma o seu direito (parcial) sobre as almas do Purgatório como membros da Igreja militante, pondo à frente o foro eclesiástico em detrimento do foro de Deus, o detentor da justiça no além. Poder espiritual, mas também, muito simplesmente, [...] lucro financeiro de que se beneficiarão, mais do que os outros, os irmãos das ordens mendicantes, propagandistas ardentes da nova crença. O ‘infernal’ sistema das indulgências encontrará nelas finalmente um alimento revigorante” (4)

Um Lugar nas Palavras

Para a teologia católica moderna, o Purgatório não é um lugar, mas um estado. Le Goff defende, entretanto, que a concepção do Purgatório como lugar e as imagens ligadas a ele desempenharam um papel importante no fortalecimento desse novo espaço divino.

A cultura folclórica, afirma Le Goff, também foi importante para o nascimento do Purgatório. Muitos elementos são provenientes dos contos populares ou aparentados. Além disso, nessa fase a Igreja está mais aberta às tradições populares que ela mesma havia tentado destruir anteriormente (5).

Buscando explicar a falta de interesse dos historiadores, Le Goff afirma que o problema é que eles não dão a devida atenção às palavras. O aparecimento da palavra purgatorium em textos perdidos no tempo exprime a tomada de consciência do Purgatório.

“(...) Fossem realistas ou nominalistas, os clérigos da Idade Média sabiam bem que entre as palavras e as coisas existe uma união tão estreita como entre corpo e alma. Para os historiadores das idéias e das mentalidades, as palavras – certas palavras -, fenômenos a longo prazo vindos lentamente das profundezas, tem a vantagem de aparecer, de nascer e de trazer assim elementos cronológicos sem os quais não há verdadeira história. É verdade que não se data uma crença como um acontecimento, mas devemos afastar a idéia de que a história a longo prazo é uma história sem datas. Um fenômeno lento como a crença no Purgatório estagna, palpita durante séculos, repousa nos ângulos motos da corrente da história e depois, repentinamente ou quase, é arrastado na massa da onda não para nela se perder, mas, ao contrário, para emergir e dar testemunho. Quem fala do purgatório – nem que seja de forma erudita – desde o Império Romano até à cristandade do século XIII, de Santo Agostinho a São Tomás de Aquino, e assim situa o aparecimento do substantivo entre 1150 e 1200, deixa escapar aspectos capitais dessa história, se não o essencial. Deixa escapar, ao mesmo tempo que a possibilidade de esclarecer uma época decisiva e uma profunda mutação da sociedade, a oportunidade de descobrir, a propósito de crença no Purgatório, um fenômeno de grande importância na história das idéias e das mentalidades: o processo de espacialização do pensamento” (6)

Notas:

1. LE GOFF, Jacques. O Nascimento do Purgatório. Lisboa: Editorial Estampa, 2ªed., 1995. P. 22-3.
2. Idem, p. 24.
3. Ibidem, p. 25.
4. Ibidem, p. 26.
5. Ibidem, p. 27.
6. Ibidem, pp. 17-8.

24 de abr. de 2009

Purgatorium: A História de Uma Palavra (II)



Perdidos no Espaço

A antropologia mostrou a importância da noção de espaço, não só no urbanismo ou na geografia, mas especialmente no campo simbólico. Desdobramento disso, a noção de território não se restringe aos animais, pois o homem (não fosse ele mesmo um animal) pode ser muito mais facilmente compreendido se levamos em consideração seu comportamento em relação ao mundo que o cerca (incluindo o mundo que ele cria para cercá-lo). (imagens, O Último Julgamento, Hans Memling, 1433-1494; na imagem ao lado vemos o momento da morte, quando as almas eternas deixam os corpos)

Em A Dimensão Oculta, Edward T. Hall mostrou que o território é um prolongamento do organismo animal e humano, que depende do ponto de vista da cultura que o imagina e que é também uma interiorização do espaço organizada pelo pensamento. O espaço guarda uma dimensão fundamental dos indivíduos e das sociedades. Nesse contexto, organizar o espaço do além foi uma operação de grande alcance para a sociedade cristã.

“Quando se aguarda a ressurreição dos mortos, a geografia do outro mundo não é uma questão secundária. E pode esperar-se que exista uma relação entre a maneira como essa sociedade organiza o seu espaço aqui em baixo e o seu espaço no além, pois os dois espaços estão ligados através das relações que unem a sociedade dos mortos e a sociedade dos vivos. Entre 1150 e 1300, a cristandade entrega-se a uma grande remodelação cartográfica, sobre a terra e no além. Para uma sociedade cristã como a do Ocidente medieval, as coisas vivem e movem-se ao mesmo tempo – ou quase – sobre a terra como no céu, aqui em baixo como no além” (1)

O Lugar das Punições

O Purgatório se instala na crença cristã entre 1150 e 1250. Trata-se da hipótese da existência de um além intermediário entre céu e terra, onde certos mortos passam por uma provação que poderia ser abreviada pela ajuda espiritual dos vivos. A meio caminho entre a morte e a ressurreição, algo de novo pode acontecer a um ser humano. Uma parada onde são oferecidos suplementos para que certas pessoas alcancem a vida eterna. O julgamento dos mortos também é uma noção que permeia a idéia de Purgatório. Na verdade, um julgamento duplo, o primeiro no momento da morte, o segundo no fim dos tempos.

Uma espécie de processo judicial de abrandamento das penas em função de fatores diversos. A responsabilidade individual e o livre arbítrio do homem (culpado por natureza, devido ao pecado original) também entram nessa conta: seremos julgados pelos pecados pelos quais somos responsáveis. Existe uma ligação entre o Purgatório e o tipo de pecado “quotidiano”, “habitual”, que levará a concepção de pecado venial (perdoável). De fato, essa foi uma das condições para o surgimento do Purgatório, que será o lugar de purgação dos pecados veniais. (na imagem ao lado vemos o Purgatório, lugar do Julgamento dos pecados pelo tribunal divino, e o Céu)

O Terceiro Lugar Está Mais ou Menos no Centro

O Purgatório é um espaço situado entre o Paraíso e o Inferno, embora por muito tempo se confunda com este. Em seguida, enquanto lugar de purificação completa para os futuros eleitos, ele passa a se inclinar para o Paraíso, o que mostra que o Purgatório não constitui um verdadeiro ponto intermediário.

Ponto intermediário deslocado, não se situará no centro, mas num intervalo, apontando para o alto. Portanto, o Purgatório não está a meio caminho (não é equidistante) entre Céu e Inferno. Apesar dessa indefinição ou, talvez por conta dela, na Idade Média o Purgatório passa a fazer parte de um imaginário que se chamará de “maravilhoso”.

Seja como for, o Purgatório entra como um dos lugares do além e não faz sentido senão em relação aos outros lugares (Céu e Inferno). Foi aquele dentre os três que mais tempo levou para se definir e consolidar. (na imagem ao lado vemos o lado direito do tríptico de Memling, o Inferno)

“Estrutura lógica, matemática, o conceito de ponto intermediário está ligado a mutações profundas das realidades sociais e mentais da Idade Média. Não deixar mais sozinhos, cara a cara, os poderosos e os pobres, os religiosos e os laicos, mas antes procurar uma categoria mediana, classes médias ou ordem terceira, é tudo a mesma tentativa e reporta-se a uma sociedade transformada. Passar de esquemas binários [Céu x Inferno] para esquemas ternários é dar aquele passo na organização do pensamento da sociedade, cuja importância Claude Lévi-Strauss sublinhou” (2)

Notas:

1. LE GOFF, Jacques. O Nascimento do Purgatório. Lisboa: Editorial Estampa, 2ªed., 1995. P. 18.
2. Idem, p. 21. Na referência a Lévi-Strauss, Le Goff se refere ao estudo do antropólogo francês em relação às sociedades dualistas, “As Organizações Dualistas Existem?”, em Antropologia Estrutural.

23 de abr. de 2009

Purgatorium: A História de Uma Palavra (I)




Nas inflamadas
discussões entre católicos
e protestantes
no século XVI,
os últimos reprovavam a crença
católica no Purgatório
- para eles
não passava de um além
“inventado”
que
não estava nas Escrituras.
Lutero
o chamava de
“o terceiro lugar”
(1)



O Segundo Andar

A palavra Purgatorium não existe como substantivo, que surge ao lado do adjetivo purgatorius somente a partir da segunda metade do século XII. Antes disso, O Purgatório não existe. A iconografia do Purgatório só teria se expandido no final do século XIV, embora alguma coisa também se possa encontrar no século anterior. Os momentos mais fervorosos do Purgatório estendem-se do século XV ao XIX. O sistema da solidariedade entre vivos e mortos através do Purgatório tornou-se uma cadeia circular sem fim, uma corrente de reciprocidade perfeita (2). No século XIII, o Purgatório havia modificado a atitude dos cristãos perante os últimos momentos da vida. (imagem acima, parte do tríptico Os Bem Aventurados e os Condenados [?], de Hieronymus Bosch, 1500)

“(...)O Purgatório dramatizou essa última parte da existência terrena, carregando-a de intensidade misturada de temor e esperança. O essencial, a escolha do Inferno ou do Paraíso, visto que o Purgatório era a antecâmara certa do Paraíso, podia ainda jogar-se no momento derradeiro. Os últimos instantes eram também os da última oportunidade (...)” (3)

Jacques Le Goff se pergunta, “(...) não teria sido a preocupação principal da Igreja manter o Inferno eterno? O fogo purgatório temporário não teria sido a exaltação do fogo inextinguível? (...) O Purgatório não teria sido o preço pago pela Igreja para conservar a arma absoluta, a condenação eterna? (...)” (4)

Quantos Andares Têm Essa Casa, Afinal?


“Organizar o espaço do
seu além foi uma operação
de grande alcance para a
sociedade cristã”

Jacques Le Goff (5)



De acordo com a perspectiva de Jacques Le Goff, a construção secular da crença no Purgatório modifica profundamente o imaginário cristão. Segundo o historiador, numa sociedade impregnada de religião como a cristandade da longa Idade Média que se prolongou da Antiguidade tardia até a revolução industrial, mudar a geografia do além, modificar o tempo após a vida, significa mudar a vida das pessoas literalmente.

“É evidente que o aparecimento de tal crença esta ligado a alterações profundas da sociedade em que se produz. Que relações mantêm esse novo imaginário do além com as mudanças sociais, quais as suas funções ideológicas? O controle estrito que a Igreja exerce sobre ele, chegando mesmo a uma partilha do poder sobre o além entre ela e Deus, prova que o que estava em jogo era importante. Por que não deixar os mortos vagar ou dormir?” (6) (acima, parte do tríptico O Último Julgamento, também de Bosch, entre 1450 e 1516)

O “terceiro lugar” irrompe num modelo dualista que o cristianismo herdara das religiões e civilizações anteriores e contemporâneas a ele. Entre um além judaico e outro Romano, o cristianismo privilegiou um modelo que situa o “descanso dos justos” no Céu e o Paraíso na superfície da terra mesmo. Nos mapas medievais, esse espaço terrestre da Idade do Ouro se localiza no Extremo Oriente, com o seu rio de quatro braços criado por Yahvé para “regar o jardim” (Gênesis II, 10). A oposição Inferno-Paraíso era baseada na oposição Terra-Céu. Apesar de subterrâneo, o Inferno era a Terra, que se opunha ao mundo celestial. A sociedade humana deveria ser elevada na direção do Céu. “O próprio Jesus dera o exemplo: depois de ter descido aos Infernos subira ao Céu” (7).

No sistema de orientação do espaço simbólico, lá onde a Antiguidade greco-romana privilegiava a oposição direita-esquerda, o cristianismo privilegia a oposição alto-baixo. Os valores cristãos na Idade Média giraram em torno disso. “Subir, elevar-se, ir mais alto, eis o aguilhão da vida espiritual e moral, enquanto a norma social é ficar no seu lugar, lá onde Deus nos pôs na terra, sem ambicionar escapar à nossa condição, tendo o cuidado de não nos diminuirmos, de não descermos” (8).

Entre o segundo e o quarto séculos, o cristianismo refletiu sobre a situação das almas entre a morte individual e o Julgamento final. Imaginaram que as almas de certos pecadores poderiam, sofrendo talvez uma provação, ser salvas durante esse lapso de tempo. Esse questionamento culminaria com a criação do Purgatório no século XII. Segundo Le Goff, esse nascimento foi negligenciado pelos historiadores, e antes disso pelos historiadores da teologia e da espiritualidade.

Notas:

1. LE GOFF, Jacques. O Nascimento do Purgatório. Lisboa: Editorial Estampa, 2ªed., 1995. P. 15.
2. Idem, pp. 17, 425, 433 e 439.
3. Ibidem, p. 427.
4. Ibidem, p. 428.
5. Ibidem, p. 18.
6. Ibidem, p. 16.
7. Ibidem, p. 17.
8. Ibidem.

29 de mar. de 2009

A Face do Mal (final)


Afinal, Com Quem ele Deveria se Parecer?

Embora a relação da nudez com a desordem do mundo esteja articulada com a nudez do Diabo, geralmente ele está usando uma saia ou tanga que cobre a genitália - e sabemos que ele tem uma genitália, já que o exercício da sexualidade que fez dele um anjo caído. Não se sabe muito bem de onde vem essa saia, mas é considerada sinal de selvageria. O Diabo fica parecendo um homem das cavernas. Portanto, a “nudez” do Diabo aparece em três formas: completamente nu, com saia de homem das cavernas ou totalmente coberto de pêlos (1).

Luther Link sugere que, em função da dificuldade em se encontrar modelos da figura do Diabo, a arte medieval achou o que copiar não na realidade ou em sonhos, mas nos palcos: encenações dos mistérios da Bíblia, ora elogiados ora criticados pelos clérigos entre os séculos X e XIII. O rosto e a forma do Diabo teriam essa como sua fonte mais importante, embora não se possa descartar que também o drama medieval possa ter sido influenciado pela pintura. Sabe-se lá por que, somente a partir do Século XIII é que as asas de morcego substituem as asas de anjo com as quais o Diabo era às vezes representado (2).

O Dilema de Giotto

Uma explicação comum para a diversidade de aparências do Diabo seria sua natureza: ele assume muitas formas. Poucos se dão conta de que as torturas do Inferno que aparecem em pinturas medievais constituem representações exatas das práticas da Inquisição com suas “torturas judiciais” (3). Donatello foi o maior escultor do diabo durante a Renascença, e Giotto foi seu correlato contemporâneo na pintura. Mas os diabos de Giotto eram coisas peludas, barbudos, com garras, possivelmente também derivados das roupas e fantasias utilizadas nas encenações de mistérios. Para Giotto, o mal era real, mas o Diabo não. A definição que Santo Agostinho havia dado para o mal como algo que é a ausência do bom, criaria um problema incontornável para os artistas, especialmente para Giotto. Como representar algo que é ausente? Giotto conseguia situar o mal num ator humano, mas não fora dele.

“Em suas pinturas, é uma forma humana que encarna o mal, mas esta percepção não se limita a Giotto. Essa é a razão subjacente de existirem, antes do século XIX, tão poucas imagens do Diabo feitas por artistas ocidentais que permanecem em nossa memória. ‘Estudar a natureza e não copiar outros pintores é o que faz um verdadeiro pintor’, opinou Leonardo. Mas não se pode pintar o Diabo estudando a natureza” (4)

(imagem acima, à esquerda, São Miguel e o Dragão, Rafael, 1505; imagem acima, à direita, A Traição de Judas, Giotto, 1304-6; ao lado e abaixo, dois detalhes de O Juízo Final, Giotto, 1306)

A transformação de um anjo num animal negro com patas é um das características que definem o tem dos anjos rebeldes, essa idéia fixa regada à falta de imaginação é mais comum até o século XV. Mas então aparecem os Livros de Horas. Destinados aos aristocratas e comerciantes, produzidos por artistas contratados, tinham mais a ver com a transmissão do status de seus donos do que com a palavra divina. Embora girassem em torno dos mistérios da fé, muitos foram perdendo essa característica inicial. De acordo com Link, foi a partir do livro de horas do duque de Berry, produzido pelos irmãos Limbourg, que ocorre uma transformação decisiva na figura de Satã, assim como a mais notável queda de Lúcifer (5).

A Máscara dos Homens

Se o Diabo podia ser tanto um micróbio quanto um anjo caído, qual seria seu rosto? Não poderia ter um rosto, pois não passava de uma abstração! Deveria ser mostrado como uma “pessoa” para poder ser entendido como força maligna. “Era um homem com apenas uma máscara (e nisso nem mesmo era um homem)”. Essa condição facilita descrever o inimigo, pois o Diabo tem o “rosto” do oponente. Na falta de clareza, o Diabo poderia ser tudo. A Igreja (seja qual for) sempre soube disso. “O Diabo sem rosto é um modo eficaz de evitar levar em consideração a oposição e automaticamente colocar Deus do próprio lado” (6).

“Nenhuma outra criatura
nas artes com uma história
tão longa é assim tão vazia
de significado intrínseco
(...)
E se a aparência do Diabo
quase sempre foi determinada
[pela roupa usada] para
personificá-lo
, isto é adequado:
o Diabo é apenas [uma roupa],
mesmo que se tenha tornado
inseparável da pele daqueles
que [a] usam”
(7)

Notas:

1. LINK, Luther. O Diabo. A Máscara sem Rosto. Tradução Laura Teixeira Motta. São Paulo: Companhia das Letras, 1998. P. 72.
2. Idem, p. 82 e 86.
3. Ibidem, p. 137 e 148.
4. Ibidem, p. 151.
5. Ibidem, p. 174 e 179.
6. Ibidem, p. 193.
7. Ibidem, p. 205. Link, ou a tradutora, utiliza a palavra “costume” onde me referi a “roupa”.

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