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Roberto Acioli de Oliveira

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25 de fev. de 2011

Freud Explica Alien?



Os invasor
es
espaciais
, os índios
nos filmes de faroeste e
as personagens femininas
, evidenciam a dificuldade
do
Ocidente pensar a alteridade, o Outro,
o não-eu
(1)




Histeria Anti-Sexual Masculina

De acordo com Alexandre Hougron, o universo da ficção científica é o lugar perfeito para entender como se dá a reedição de fobias sexuais misóginas e machistas no cinema de entretenimento. A ficção científica, afirma Hougron, é fascinada pela sexualidade não natural – focada no oral e no anal e não voltada para a reprodução. Ele vê uma relação entre essa hipótese e o fato de que em algumas regiões dos Estados Unidos, maior fabricante e também maior consumidor de ficção científica, sodomia e sexo oral sejam passíveis de prisão. A natureza dos monstros estaria em relação direta com a representação desta “sexualidade maldita”. A criatura de Alien, o Oitavo Passageiro (Alien, direção Ridley Scott, 1979) é uma perfeita combinação de sadismo oral e anal. Engendrada a partir da oralidade, ela foi ejaculada dentro da boca da vítima por um tentáculo. Eventração: a criatura sai pelos intestinos de um homem (explodindo a barriga dele, antes de chegar ao ânus), que não tem útero e vagina. Possuindo boca telescópica que sai da mandíbula cheia de baba, Alien é a encarnação de uma “oralidade sádica”. Como seu metabolismo é à base de silicone, o corpo humano (a base de carbono) não serve de alimento. Logo, Alien é um produto de nossas fobias, uma cristalização do puritanismo anti-sexual. Não tem olhos e sua cabeça alongada lembra um grande pênis devorador (2).

Quando Alien
sai da barriga do
astronauta
, nos punimos
por olhar (olhando para o

outro lado). Não agüentamos
ver a desintegração da fase
em que o recém nascido

imagina seu corpo como extensão da mãe (3)



A criatura de Alien lembra um demônio saído direto da iconografia cristã. Dentuço, cauda, garras e atributos dos dois sexos (pênis e seios) às vezes em lugares insólitos (como os tubos fálicos nas costas) (imagem acima). Até mesmo as torturas que os diabos medievais aplicam a suas vitimas estão presentes. As mesmas fobias insuportáveis de esmigalhamento ou de possessão já estão lá. Uma transformação simbólica dos prazeres orais e anais em atos de crueldade só se poderiam interpretar em termos religiosos cristãos. A gratuidade dessas “perversões” também é estigmatizada porque na ótica puritana os prazeres orais e anais são inúteis, já que não servem à reprodução. A criatura é uma espécie de mensageiro do sofrimento e da punição – como os demônios medievais. A criatura de Alien não está sozinha nessa fixação da ficção científica a um estado oral ou anal. Muitos monstros e/ou extraterrestres devoram, esmigalham, engolem, penetram, perfuram ou parasitam – um verdadeiro delírio oral-anal (4).

Com relação ao “pecado da felação”, temos o exemplo de A Experiência 2 – A Mutação (Species II, 1998). Comandante volta de missão em Marte infectado por DNA alienígena, sua única missão é procriar com uma humana. No final do filme, pretendendo copular com uma humana já transformada em alien-zumbi, a cabeça dele se abre e um grande tentáculo entra pela boca da mulher – ela é morta ao mesmo tempo em que é fecundada. Conclusão: a felação é a morte. O elemento escatológico também está presente nesse universo religioso de recusa neurótica do sexo - o fecal substitui o sexual e lhe serve de metáfora. Como quando para não falar diretamente sobre a mulher e seu erotismo, os garotos fazem piadas escatológicas, remetendo ao oral e anal. Em termos freudianos, essa sexualidade imatura está na fronteira da sexualidade adulta e assumida (genital). Ao mesmo tempo em que os filmes denunciam o puritanismo também o reforçam (5).



Ao mesmo tempo
em que denuncia o
puritanismo
, a FC
também o reforça




Mulheres normais não estão presentes, elas amedrontam bem mais do que as mulheres-monstro. Como o insecto-fêmea gigante em Alien 2 (1986), que produz larvas e parasita o homem. Essa fêmea é a encarnação da “mulher má” do universo cristão. Segundo a psicanalista americana Ednita Bernabeu, a mulher-mãe amedronta mais do que a mulher-objeto sexual. A ficção científica evidencia uma sexualidade pré-adolescente (anal e oral), mais do que adulta (genital). A fobia misógina encontra uma representação em Alien 2, onde uma fêmea-mãe gera larvas sem a intervenção de machos. Essas larvas vão em seguida infectar os homens. Personificação dos medos masculinos em relação à mulher? Medo da castração, medo de ser penetrado por seu “dardo”, por onde ela irá injetar suas larvas. Ambivalência sexual, um dardo que penetra suas vítimas e que também injeta crias. A personagem de Ripley em Aliens 2 é a mulher guerreira casta, a Joana d’Arc, antítese da mulher-monstro. Como os homens estão fora da briga entre ela e a criatura, estão salvos em sua pureza. Ripley só tem dois interlocutores, um gato e um robô – este, assexuado, puro por definição. O homem-robô, “homem do futuro” aponta para o não compromisso com o Outro. Sexualidade, punição e monstros estão ligados em nossa imaginação (6).



A sexualidad
e, na
ficção científica
, é
sempre pervertida




A mulher está fora! Na verdade Ripley, a astronauta que protagoniza toda a série Alien, não é outra coisa senão um alienígena. Em Guerra nas Estrelas (Star Wars), também não há lugar para uma mulher de verdade (sexuada), apenas para uma irmã ou uma guerreira (alguém cuja sexualidade não ameace). A mulher jamais é uma companheira, e raramente é mãe. O monstro é a encarnação dos medos sexuais do homem ocidental puritano (castração/penetração/medo da “vagina dentada”/medo do pênis). As criaturas presentes na ficção científica podem ser classificadas em monstros da oralidade (a criatura de Alien, as formigas gigantes de O Mundo em Perigo [Then, 1954] e os dinossauros de Jurassic Park [1993]), ou da analidade (A Bolha [The Blob, 1958] e os alienígenas moluscos com tentáculos-pênis). Alguns, como a criatura de Aliens, estão nas duas categorias. Isto quer dizer que os monstros se encaixam numa fixação no momento pré-genital (pré-sexual). O puritanismo só permite a sexualidade no estágio infantil e perverso (sádico), onde ela não desabroche e não incomode. Não há erotismo: sexo na ficção científica só com perversão!(7) (todas as imagens deste artigo são de Alien, o Oitavo Passageiro)

A Carne e a Sexualidade 



A maternidade
da
mulher e, portanto,
sua sexualidade
, constitui
uma das importantes
fontes de imagens
horripilantes
(8)



A falta de carne talvez advenha do caráter pouco verossímil das estórias da ficção científica, assumindo uma postura evasiva: fugindo da materialidade, ela escapa da sexualidade, uma de nossas mais importantes âncoras no mundo real. A fobia em relação à penetração presente em muitos alienígenas cheios de tentáculos lembra sintomas de vaginismo, frigidez, impotência ou histeria sexual. Segundo Hougron, esses sintomas raramente implicam um problema fisiológico. Implicam uma representação problemática de si e de seu próprio corpo. Essa representação conduziria a uma imagem terrificante ou repugnante do Outro. Desta forma, a questão da sexualidade segue ignorada pela ficção científica – a não ser por uma abordagem indireta. Exceção a Philip José Farmer em Open to Me, My Sister, um homem reluta em aceitar a sexualidade extraterrestre porque ela o feminilizaria, já que ele deveria receber uma pequena serpente (falo) pela boca - ainda que isso fosse de uma sedutora mulher alienígena. Categorias ético-sexuais cristãs: uma questão em torno da idéia de felação-sodomia que remete à abominação de Sodoma e Gomorra.


Houve uma
transferência do
antigo simbolismo
dos
demônios e da mulher
para os monstros da
ficção científica?



De acordo com Alexandre Hougron, existe um componente puritano histérico que perpassa toda a construção simbólica das estórias e da constituição física dos monstros alienígenas. Embora pareça que ele está chamando todos os fãs de doentes mentais, na verdade isso não seria de forma alguma exclusivo da ficção científica. Não são apenas esses fãs que podem apresentar distúrbios de personalidade... A fobia anti-sexual encontrou campo fértil na concepção cristã, embora não tenha sido sua fonte original. Na opinião de Hougron, o puritanismo talvez seja resultado da incapacidade de todo um grupo de homens (o clero), de toda uma sociedade, em resolver seu complexo de Édipo. O que aconteceu foi uma transferência da antiga simbólica dos demônios e da mulher para os monstros da ficção científica. Não foi tanto o cristianismo em si o criador de toda a interdição sexual. Foram os puritanos sintetizaram uma mensagem de exclusão de elementos considerados impuros (9). É um problema dos norte-americanos, grandes produtores e consumidores de ficção científica. Hougron afirma que europeus, e franceses (para quem ele parece escrever em especial), não têm essas visões puritanas neuróticas!

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Herzog, o Conquistador do Inútil
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Arcaísmo e Cinema no Evangelho de Pasolini
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As Mulheres de Andrei Tarkovski (I)
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Notas:

1. HOUGRON, Alexandre. Science-Fiction et Société. Paris: PUF. 2000. P. 12.
2. Idem, pp. 145-6.
3. CREED, Barbara. The Monstrous-Feminine. Film, Feminism, Psychoanalysis. New York: Routledge, 1997. P 29.
4. HOUGRON, Alexandre. Op. Cit., pp. 146-7.
5. Idem, p. 148.
6. Ibidem, pp. 149, 150-2.
7. Ibidem, pp. 152-3.
8. CREED, Barbara. Op. Cit., p. 50.
9. HOUGRON, Alexandre. Op. Cit., pp. 155-8. 


26 de set. de 2010

Yasuzo Masumura e os Olhos nos Dedos



“O mais
profundo
é a pele”


Paul Valéry
(1871-1945) 






A Cega Obsessão da Arte do Toque


Michio é um escultor cego de nascença, obcecado pelas formas femininas ele seqüestra uma jovem modelo. Depois de analisar com seus dedos uma escultura que representava o corpo dela, Michio decide fazer ele mesmo uma escultura da mulher que considera possuir a forma perfeita. Ele se aproxima de Aki, a bela modelo, através de um ardil – finge-se de massagista e seqüestra a mulher. Com a conivência e auxílio da mãe, Michio mantém Aki em seu ateliê. O estúdio é uma espécie de fortaleza disfarçada de casebre. Aki se apavora com a bizarria do local, nas paredes estão centenas de esculturas de partes do corpo humano: olhos, bocas, narizes, braços, pernas, vaginas e, no meio da grande sala, dois corpos gigantes de mulher. Michio diz que os esculpiu de memória, lembrando-se das formas de suas clientes quando ele trabalhava de massagista. O escultor diz que deseja apenas fazer uma escultura do corpo da modelo, mas que a seqüestrou por acreditar que ela não aceitaria posar para ele. Michio fala de uma nova forma de arte, de e para cegos: uma arte do toque. (todas as imagens são de Cega Obsessão)





Michio é virgem, o que
ele  idolatra   em   Aki  é
a sensação da pele dela






Após várias tentativas de fuga, Aki acaba provocando o ciúme da mãe de Michio ao fingir estar apaixonada por ele. A velha senhora tenta libertar Aki para se livrar da competição. Segue-se uma briga onde fica clara a vontade da mãe em monopolizar a atenção do filho. No final, ao tentar impedir que enforque Aki, Michio acaba matando a mãe. Enfurecido, Michio avança sobre Aki e tira a virgindade dela. Fazem sexo muitas vezes mais, enquanto ele termina a escultura. Com o tempo, Aki começa a se apaixonar por Michio. Enterram a mãe dele no chão do estúdio e se matem isolados. Aki também começou a ficar cega como Michio, passando a desenvolver a mesma sensibilidade do toque como ele. Os dois mergulham numa espécie de frenesi físico sado-masoquista em busca de sensações. Até que chegam ao ponto de ferir um ao outro e beber o sangue. É quando Aki pede a Michio que arranque os braços e pernas dela, para que possa experimentar mais sensações de dor, êxtase e agonia. Enquanto ele corta a carne dela, os braços e pernas da escultura que ele fez de sua musa desprendem-se e caem no chão. A seguir, Michio comete suicídio.

Aki é a Personagem Principal



Masumura   critica
uma  tendência   do
 cinema  japonês  de
 
criar   personagens
submissos ao social





Em Cega Obsessão (Môjû, 1969), o cineasta japonês Yasuzo Masumura (1924-1986) adaptou o livro homônimo do escritor também japonês Rampo Endogawa (1894-1965). Um dos expoentes da Nouvelle Vague japonesa, a carreira de Masumura tem início em 1957 após retornar da Itália, onde estudou entre 1952-5 com a nata do cinema italiano no Centro Experimental de Cinematografia de Roma – antes de dirigir ainda passou um período na assistência de direção para Kenji Mizoguchi (1898-1956) e Kon Ichikawa (1915-2008). Masumura integrou uma geração que resolveu contestar certos valores estabelecidos da cultura japonesa que se faziam sentir também no cinema. Ele foi muito criticado por dar mais importância a descrição de personagens, dizia-se que isso acabava tornando seus filmes áridos e frios. Por sua vez, Masumura respondeu afirmando que de fato rejeitava a tendência do cinema japonês em colocar os sentimentos muito fortemente condicionados pelo ambiente social.





Yasuzo Masumura
estava entre os cineastas
que procuravam fugir da
estética domesticada





Disse ainda que isso demonstrasse como seus conterrâneos não eram capazes de dar voz a seus próprios e sinceros desejos e emoções. Como resultado, o binômio “verdade” e “atmosfera” servira apenas par dar muito mais corpo ao ambiente do que ao homens que o animavam. Isso significa, conclui Maria Roberta Novielli, a negação do lirismo dos grandes mestres e de uma série de convenções retóricas que o cinema vinha utilizando cada vez mais e o fim da “resignação” como tampão para uma existência vivida pela metade. “Eu odeio o sentimento”, disse Masumura, “e isso é devido ao fato de que no cinema japonês ele é representado de maneira controlada, harmoniosa, resignada, triste, derrotada e fugaz”. Novielli explica que o cineasta também rejeitava as duas tendências cinematográficas então em voga em seu país: a naturalista, animada pela “gente pobre sem esperança”, e aquela baseada em princípios realistas ideológicos que “descreviam idealmente os defeitos da sociedade” (1).





A mulher é um
personagem   central
 
no cinema de Yasuzo
Masumura





Masumura se interessava por personagens de ego forte e desejos incontroláveis. Concentrou-se no universo feminino, pois acreditava que a mulher afirmava sua individualidade com mais liberdade. É o que fica evidente, nos mostra Novielli, nas figuras femininas que são os personagens centrais de alguns de seus melhores filmes, a enfermeira Sakura em Anjo Vermelho (Akai tenshi, 1966), a jovem amante do triangulo erótico em Tudo em Desordem (Manji, 1964), a mulher fatal tatuada em A Tatuagem (Irezumi, 1966). O que explica o papel ativo que Aki passa a ter na busca de seu próprio prazer tátil e da exploração de um mundo (o sexual) proibido às japonesas, sugerindo que a experiência com Michio abriu-lhe as portas da percepção – ao invés da conclusão de que ela passou a agir daquele modo porque enlouqueceu. Na primeira vez que o encontramos, Michio está tateando a estátua de Aki colocada no centro da sala onde estão expostas as fotografias dela tiradas por um famoso fotógrafo.




O conceito de nudez
foi introduzido no Japão pelo Ocidente, mas só se
faria   sentir  no   cinema
japonês a partir do final
da  década  de 50
(2)




Em silêncio ela observa, e com certa repulsa tenta entender aquele homem. De repente Aki sente a mão dele deslizando por seu corpo enquanto de fato ele não tirou as mãos da estátua. O curioso é que em nenhuma parte do filme se sugere que as fotografias que ela tirou nua e amarrada por correntes, motivo da exposição onde se encontra a estátua, constituíssem uma bizarria (como Aki classifica o trabalho do escultor). Michio vive num universo totalmente tátil, mas desvaloriza todos os outros sentidos, colocando a visão como elemento central do estar no mundo. Nessa luta entre os cinco sentidos humanos, Michio se contrapõe ao filósofo francês Maurice Merleau-Ponty (1908-1961), para quem, “(...) sua voz me desenha sua boca, seus olhos, sua figura, me faz seu retrato inteiro, exterior e interior, melhor que se estivesse diante de mim” (3). No final, é Aki quem irá mais longe no “drama tátil” de Cega Obsessão, desde que ela admite que começa a se apaixonar por Michio, ele vai aos pontos passando a uma posição secundária no desenrolar da estória.

Cinema Erótico Japonês 


Masumura foi
um  dos  primeiros
da  nova  geração  a
questionar    velhos
mestres
japoneses
do   cinema
(4)



Masumura ocupa um lugar de destaque no cinema japonês, está entre os mestres do cinema erótico de um Japão onde o nu integral nunca foi uma constante e a censura sempre se fez presente – tanto a autocensura dos estúdios cinematográficos quanto a censura exercida pelo Estado (5). Segundo Novielli, Masumura tem de fato o mérito de ter aberto o caminho para o cinema erótico japonês (6). Do mundo da nudez nas telas de cinema estão excluídos nomes famosos do cinema nipônico como Yasujiro Ozu, Akira Kurosawa, Kenji Mizoguchi e Mikio Naruse. Apesar de um cinema erótico japonês florescer nas décadas de 60 e 70 do século passado, a proibição da exposição dos pelos púbicos manteve-se inabalável. Poderíamos dizer que, apesar do elemento erótico presente em Cega Obsessão, o fato de a atriz que interpreta Aki mostrar os seios, mas estar sempre de calcinha seria um reflexo dessa situação. Por outro lado, também é uma tradição japonesa que o verdadeiro erotismo é aquele que deixa aparecer apenas a pele. Nesse sentido, a dependência de Michio em relação ao toque da pele humana estaria perfeitamente de acordo com a libido japonesa.



A única
nudez tolerada
no   cinema   era

a  do  banho de
ofurô
(7)





De acordo com Max Tessier, os mais belos nus do cinema erótico japonês são aqueles onde se sugere mais do que se mostra. Seja como for, filmes como Império dos Sentidos (Ai no korida, 1976), onde o cineasta Nagisa Oshima mostra uma nudez masculina e feminina explícita custou-lhe muitos problemas em sua carreira. Poucos sabem, mas o filme que se viu no Ocidente não foi o mesmo que a censura japonesa permitiu que fosse projetado nos cinemas do país. De acordo com Tessier, foi a impossibilidade de representação da sexualidade nas telas que levou o erotismo japonês no cinema a recorrer a “substitutos incontornáveis” como a violência, a perversidade e o sado-masoquismo. Talvez seja esse o conteúdo da mensagem final de Aki, de quem vemos o corpo morto e apenas ouvimos sua voz dizendo: “O mundo do toque. O mundo dos insetos. As vidas mais simples como as águas-vivas. Aquelas que se aventuram no limite de tais mundos, só podem esperar uma morte escura e úmida as envolvendo”.

Zurlini e o Deserto de Nossas Vidas
Rostos: Fisiognomonia (I), (II), (III), (IV), (V), (Epílogo)
Masculinidade e Violência
Geografia das Ausências em Yasujiro Ozu

Notas:

1. NOVIELLI, Maria Roberta. História do Cinema Japonês. Tradução Lavínia Porciúncula. Brasília: UNB, 2007. P. 214.
2. TESSIER, Max. Japonais. in BERGALA, Alain; DÉNIEL, Jacques; LEBOUTTE, Patrick (orgs) Une Encyclopédie du Nu au Cinéma. Éditions Yellow Now/Studio 43 – MJC/Terre Neuve Dunkerque. P. 210.
3. AUMONT, Jacques. Du Visage au Cinema. Paris: Editions de l’Etoile/Cahiers du Cinema, 1992. P 125.
4. NOVIELLI, Maria Roberta. Op. Cit., p. 213.
5. TESSIER, Max. Op. Cit., p. 210.
6. NOVIELLI, Maria Roberta. Op. Cit., p. 215.
7. TESSIER, Max. Op. Cit., p. 211. 


18 de ago. de 2008

Imagem Corporal e Satisfação





“Apenas pessoas superficiais 
 não     julgam     pela     aparência. 
O verdadeiro mistério do mundo
é o visível,  não  o  invisível"

Oscar Wilde (1854–1900)



Imagem corporal, aspecto da satisfação existencial que na cultura contemporânea ocidental está sendo afetado negativamente: não mais se vê o corpo como o exterior de um interior – o fora de um dentro, uma dobra. Atualmente, o corpo é cada vez mais só o exterior do exterior – o fora do fora. Onde exatamente foi parar a satisfação existencial com nosso corpo? O corpo, considerado como objeto exterior, poderia mesmo nos auxiliar quando tentamos compreender o que é ser feliz?

Mary Del Priori conta que, na época dos descobrimentos, nudez era sinal de pobreza. Daí considerar os índios inferiores. Na Europa, erótico era esconder o corpo. A superexposição do corpo no Brasil contemporâneo representa uma classe social e não a mulher: loira, corpo de academia. Esta mulher é minoria.

Corpo Monstruoso

No cinema norte-americano o nu feminino se instaura em 1933. Hedy Lamarr aparece nua em Êxtase (direção Gustav Machatý), deixando para trás o anonimato (acima, à esquerda). Nascem as ligas da decência e centrais católicas. O nu especificamente pornográfico já havia surgido no cinema em 1910 (1). O “problema” do cinema é a possibilidade do close-up. No teatro se pode desviar o olhar, já o enquadramento cinematográfico é incontornável. Entretanto, a possibilidade de corrigir uma imagem resolve os medos que havia no teatro, onde um vento ou outro acidente pode revelar as partes íntimas de um ator ou atriz. Temos o depoimento de um jornalista em 1896, a propósito de um beijo no filme A Viúva Jones:

“Em tamanho natural, é já animalesco, mas não é nada comparado com o efeito produzido por este ato aumentado para proporções gargantuescas e repetido três vezes seguidas. É absolutamente nojento. Fatos destes apelam à intervenção da polícia” (2).

Em 1912 uma lei regulamentava a duração do beijo na tela de cinema. Nos Estados Unidos, após a primeira guerra mundial, o umbigo era o mais indecente. Até 1965 o problema era mostrar os pêlos do corpo – o próprio Tarzan só aconteceu depois de depilar o torso. De fato, o cinema, que finalmente podia mostrar o real de forma realista (quando desejasse), foi impedido de fazê-lo (3). No cinema brasileiro, Norma Bengell no filme Os Cafajestes (1962, direção de Ruy Guerra) marca o ponto de partida do nu aqui por nossas telas, corpo acompanhado pelo riso sádico do personagem de Daniel Filho, que, aliás, filmava a cena.

No cinema de ficção científica norte-americano, a imagem da mulher tem dificuldade em se desvencilhar de preconceitos. Em A Invasão das Garotas Abelha (Invasion of the Bee Girls, 1973), de Dennis Sanders, mulheres estéreis por conta de experiências científicas matam homens a golpes de orgasmo (acima, à direita). Erotismo é uma raridade na ficção científica. Uma das poucas vezes em que isso ocorreu foi com os originais do livro, Os Amantes (1951), de Philip José Farmer. A história descreve relações sexuais entre um homem e um inseto extraterrestre capaz de trejeitos femininos sedutores. Um editor recusou os originais, classificando-os de nojentos (4).

Também encontramos a misoginia no gigantismo: mulheres, aranhas gigantes e extraterrestres concorrem quanto a maior monstruosidade. Vale lembrar O Ataque da Mulher de Dez Metros (Attack of the 50-foot Woman, 1957), de Natan Hertz (ao lado). Uma esposa traída encontra um extraterrestre verde gigante que passava por aqui, é transformada num enorme monstro vingador que estripa o marido infiel com as próprias mãos. Barbara Creed mostra como, a partir do universo dos filmes de ficção científica norte-americanos, verifica-se a satanização do feminino (5).

Corpo Feliz e Próteses

Quem sabe o biquíni e o implante de silicone sejam a mesma coisa? Uma mulher, adepta do nudismo, faz uma cirurgia para implante de silicone nos seios e nádegas. Ainda podemos dizer que ela está nua, já que partes do seu corpo estão cobertas? O biquíni seria mais erótico que a pele? Uma prótese de pele é mais erótica que a pele real? Nudez é não estar vestindo próteses ou roupas? Roupas são próteses? Qual é a diferença entre uniforme e fantasia? Qual é a diferença entre uniforme e máscara? Cobrir o corpo é criar uma imagem ou representação ordenada da natureza, tomando as roupas como complementação do organismo? Até que ponto o que vestimos afirma ou nega o que acreditamos ser por dentro?

E quando o que vestimos não é mais nosso próprio corpo? A ex-paquita [para quem não sabe, é o título de “antigas” adolescentes, dançarinas no programa infantil de Xuxa] Monique Alfradique malha até quatro horas em academias de ginástica. Afirma que seus músculos não eram bem definidos e ela foi “atrás de desenhar” seu corpo. Qual seria a recompensa de Monique? Bem, ela ganhou a capa da revista Boa Forma (6). Tudo bem, diriam, pelo menos não é uma revista masculina de mulher pelada!!! Tudo bem talvez, de uma maneira ou de outra, “boa forma” é “corpo malhado”… e não necessariamente um corpo feliz!

Corpos em Exposição, Conquista do Feminismo?

Participar do Big Brother Brasil (Rede Globo) é uma espécie de passaporte para ser convidada a aparecer nua nas revistas masculinas. A disputa parece girar entre as revistas Sexy e Playboy. É curioso como o dinheiro e a fama desinibem algumas pessoas, contanto que se tenha o corpo certo… Manuela Saadeh, segunda colocada no BBB2, que posou nua em setembro de 2002, declarou:

"No primeiro dia eu estava bem envergonhada. O ensaio começou com roupa e fui tirando... até que o Duran [o fotógrafo] falou: 'Vai dançando e levanta a blusa'. Aí eu travei e não conseguia levantar a blusa. Pedi, então, que algumas pessoas saíssem do estúdio. Tive de tomar champanhe, que me deixou mais alegrinha e desinibida". (7)

Thaís Ventura, também do BBB2, se “lançou” na edição de janeiro de 2003. Em seus 19 anos, a revista explorou o fetiche masculino de Lolita, com direito a aparelhos nos dentes e bichinhos de pelúcia. Para quem não conhece, Lolita é uma estória escrita por Vladimir Nabokov. O tema gira em torno de uma relação erótica entre uma menina adolescente e um homem mais velho, bem mais velho. Thaís declarou:

"Foi muito difícil. A gente pensa que é fácil porque muitas mulheres lindas já fizeram. Mas quando é com você é difícil! Eu passei por um processo de insônia, nervosismo à flor da pele". (8)

"Enquanto  isso,  lá  bem  no  início  de  tudo...  'E,  como  Deus  me  permitiu
denominar  todas  as  coisas,  eu  vou  chamar  você  de  vaca,  você  de  burro,
 
 você de toupeira e você de idiota' ". (Millôr Fernades, revista Veja, 11/1982)

A recordista de vendas foi a paulista Sabrina Sato, que participou do BBB3, posando para a revista Playboy. Desta vez, o ensaio fotográfico foi acompanhado por impressões dos outros participantes [masculinos] do jogo que contracenaram com ela. Um deles, Harry, disparou: "Sabrina, uma mulher oriental que desorienta qualquer homem". O Big Brother já serviu de "palco" para uma nudez "alternativa". No paredão que eliminou Harry do BBB3, uma mulher invadiu o estúdio e tirou o vestido diante das câmeras e de um Pedro Bial [o apresentador] atônito. O nome da então anônima era Maria Eliane Lima Araújo, e ela tinha 18 anos.

Algumas outras mulheres, desta vez atrizes renomadas, também não vêem problema em posar nua. Cláudia Raia é bem objetiva, da última vez o problema foi o dinheiro oferecido: “gostaria de ser fotografada nua de uma maneira que nunca apareci antes. Meu corpo está mais bonito do que nunca e não encontraria problemas em casa por ser casada”. E completa, “em ensaio nu a gente se expõe de tal maneira que tenho de estar apaixonada pela mulher que vou representar. Sinceramente, depende mais da revista do que de mim” (9).

Luma de Oliveira concorda com Raia, posar nua não tem problema. Só não concorda com a estratégia, para ela não se trata de representar uma personagem: “no ensaio nu, não vivo um personagem. Sou eu ali, é meu corpo ali. Faço o trabalho com muita naturalidade”. Luma não só não vê problema em posar nua, como acredita que seus filhos achariam muito mais estranho se a vissem numa cena de amor em que ela estivesse apenas seminua. Curiosa é a diferenciação que ela faz em relação a revistas e televisão: acredita que o nu da revista é mais natural que cenas de amor na tevê.

“Em 2000, a atriz Vera Fischer escandalizou ao mostrar as virilhas não depiladas nas páginas da Playboy, aos 48 anos de idade. ‘Há artistas que posam porque querem ser vistas e desejadas. Trata-se de um narcisismo velado e me parece ser o caso da Vera’, diz o especialista em sexualidade Esdras Vasconcellos, da Universidade de São Paulo”. (10)

Hoje em dia, no que diz respeito a jovens artistas, a coisa é diferente. Existe (pelo menos por enquanto) certa resistência a fazer concessões à nudez gratuita, seja para alavancar a carreira, seja pelo dinheiro (11). Mas talvez exista um equívoco aí também, pois algumas acreditam que ensaios fotográficos sensuais na internet permitem que elas ganhem dinheiro sem precisar se expor muito. Como não se expõem? Com a popularização da internet… Sem mencionar que, caso as fotos delas não sejam muito acessadas pelos internautas, certamente não serão mais nem contratadas para fazer outros “ensaios”, nem serão pagas.

The Girl abre portas internacionais, carreira na TV e projeção nacional para vencedoras” (12). A manchete se refere a um concurso de “modelos”, promovido por um provedor de internet, ostenta como elemento que justifica sua importância, o fato de abrir portas para a carreira das participantes. A questão não é uma cruzada contra o erótico e/ou nudez na mídia. O problema é o fato de se viver numa sociedade na qual para entrar no mercado de trabalho e perseguir a oportunidade de um trabalho digno, a “projeção nacional” tem primeiro que vir a nudez dos corpos!

Alice Matkins, artista norte-americana, pinta quadros de mulheres cujo
corpo  está  totalmente  fora  do
padrão de beleza.  Ela procura resgatar o
corpo da mulher como ele de fato é.  À  esquerda, Rose, 87 anos; à direita,
Jonsey,  64  anos;   no  final  do  artigo,  à  esquerda,  Phillis,  68  anos.

Mesmo fora do ambiente artístico, a possibilidade de posar nua é uma espécie de “prêmio” das pessoas que por algum motivo (qualquer motivo) tornam-se visíveis na mídia – e, portanto, tornam-se vendáveis. Exemplo (torpe) disto se refere a certas mulheres que depuseram no Congresso Nacional recentemente em função dos escândalos relacionados ao Partido dos Trabalhadores. A secretária do publicitário e escroque Marcos Valério, que testemunhou contra ele, tirou as fotos na própria sala onde depôs – ou então foi um cenário que reproduzia o lugar onde se pretende fazer Justiça em nome do povo. A esposa (e também a irmã dela) do dono do restaurante do mesmo Congresso que foi o responsável pela queda de Severino Cavalcanti (presidente da Câmara de Deputados) também já foi sondada sobre a possibilidade de tirar fotos para uma revista masculina.

Corpo e Imagem

“Como começamos a cobiçar? Cobiçamos aquilo
que vemos... todos os dias!“

A frase vem do filme O Silêncio dos Inocentes (Silent of the Lambs, 1991). Uma agente do FBI insistentemente pergunta a um famoso ex-psiquiatra e atual canibal sobre o paradeiro de um assassino de mulheres. Procurando mostrar em forma de enigma qual é o objetivo desse assassino, o canibal enuncia esta frase. O assassino não matava por ódio, gostava tanto das mulheres que queria ser uma delas. Para alcançar seu objetivo, raptava algumas, contanto que estivessem meio gordas. No cativeiro, às engordava mais e mais. Então as matava, retirava partes de suas peles e costurava. Pretendia fazer uma roupa.

O assassino de mulheres parecia fixar a identidade delas no elemento mais visível. Para ele, ser mulher não teria nenhuma relação com a busca de uma alma feminina. Travestido com pele humana morta, baseava-se apenas na aparência: Ser mulher passava por parecer mulher. Platão já havia chamado atenção para a inutilidade do mundo sensível (13). (acima, imagem de Shrek, desenho animado norte-americano)

Beleza (ou a nova identidade) pode ser comprada? Num ponto pelo menos Jean Baudrillard tem razão, os fluxos simbólicos dos quais dependemos para dar sentido ao mundo e a nós mesmos estão cada vez mais longe de uma real satisfação dos desejos íntimos. Como uma tentativa de questionar o pessimismo de Baudrillard, lembre-se que no desenho animado Shrek (parte 2) nós temos um final inusitado, praticamente contraditório em relação ao mundo em que vivemos atualmente. Em certo ponto da estória, Shrek tinha tomado uma poção mágica que o transformara num ser “normal” – quer dizer, ele ficou bonito. A princesa, que tinha sido transformada em “anormal” (o que significa que ela ficou feia) e também voltou a ser uma mulher bonita por conta da mesma poção, em certo momento recusa o beijo de Shrek. É que no final da estória Shrek avisa a ela que, caso beijem-se, poderão ficar permanentemente com “aquela forma” – quer dizer, bonitos. Ela então recusa e dá a entender que aquele (o bonitão) não seria o homem com quem ela escolhera se casar! Ou seja, ela está preocupada com o sentimento que a aproximou dele, e não precisa que ele “conserte” seu exterior!

Resta o Corpo, Resta uma Questão… 

Sabemos, portanto, como resolver isso. Temos que mergulhar em nós mesmos. Ainda assim, resta uma questão. Quantas vezes você mudou de canal e as mensagens eram as mesmas? O problema é que a sociedade está comprometida com o mercado. Lembro neste ponto do filme O Show de Truman (1998), quando o personagem principal começa a se questionar sobre a incongruência do sistema.

Temos que admitir estarmos tão intoxicados com a avalanche da representação do mesmo ideal de beleza, que nos tornamos insensíveis ao fato de que se trata de modelos e não da realidade viva dos corpos. Na crença de que o ideal está à venda, não cogitamos mais na hipótese de que beleza talvez seja um estado de espírito. Estamos narcotizados com a hipótese de que a beleza pode ser comprada!

Collete resume com uma frase a querela em torno do nu no teatro francês em 1907: “soltem um seio!”. Pesquisas da época levaram à constatação de nudez no teatro desde a Antiguidade (14). Atualmente, decretou-se o fim da privacidade corporal no mundo ocidental [cristão…]. Esconder o corpo passou a ser muito explorado como aspecto selvagem dos muçulmanos. Opõe-se cobrir e descobrir o corpo, dando sinal negativo ao hábito cultural de cobri-lo. Poucos e poucas se perguntam se a pressão social para desnudar o corpo acaba se tornando tão opressiva quanto cobri-lo completamente. Até que ponto nudez pública significa libertação?

Curioso é que na busca desenfreada de uma beleza exterior desarticulada de outra beleza que é interior, muitas mulheres não percebem a abóbora que se tornaram! Bem, quem sabe o caminho para o interior seja esse, destruir o exterior ao tentar reconstruí-lo. No final a sensação de indefinição permanece e a questão volta: onde e como entra o corpo na busca da resposta à pergunta, ‘o que é ser feliz?’

Notas:

Leia também:

As Deusas de François Truffaut

1. BOLOGNE, Jean-Claude. Tradução Telma Costa. História do Pudor. Rio de Janeiro: Elfos Editora. Pp. 286-7.
2. Idem, p. 285.
3. Ibidem, p.288.
4. SODRÉ, Muniz. A ficção do tempo. Análise da narrativa de Science Fiction. Petrópolis: Vozes, 1973. Pp. 49-50.
5. CREED, Barbara. The monstrous-feminine. Film, feminism, psychoanalysis. London: Routledge, 1993.
6. WURM, Sabrina; DIAS, Leo. Em Busca do Corpo Perfeito In Jornal Extra, coluna Retratos da Vida, 08/07/2005. P. 12.
7. BBB’s saem da casa para as revistas masculinas In TERRA. Seção Gente & TV. 06/05/2004. Disponível em: http://diversao.terra.com.br/gente/noticias/0,,OI3527042-EI13419,00-BBBs+saem+da+casa+para+as+revistas+masculinas.html
Acesso em: 29/10/2013.
8. idem.
9. CARDOSO, Rodrigo. Elas posam porque gostam In Isto É GENTE, 21/01/2002. Disponível em: http://www.terra.com.br/istoegente/129/reportagem/capa_nu_04.htm Acesso em: 18/08/2008.
10. idem.
11. Reportagem de Rodrigo Cardozo. ISTO É, GENTE. 21/01/2002. Edição 129. Disponível em: http://www.terra.com.br/istoegente/129/reportagem/capa_nu_01.htm Acesso em: 18/08/2008.
12. Reportagem de Silvia Marconato. Disponível em: http://www.terra.com.br/thegirl/verao2003/materias/vencedoras_passadas.htm Acesso em:18/08/2008.
13. A fisiognomonia sempre baseou seus estudos na articulação entre a afirmação da necessidade de um mundo sensível e a crença na existência de outro inteligível. A verdade última seria encontrada apenas no inteligível.
14. BOLOUGNE, Jean-Claude. Op. Cit., p. 259.  


29 de jun. de 2008

Os Seios da República: Conexão Seios (Epílogo)



“Meus seios não são muito
grandes
. Por isso, não se trata
de um assunto importante”


Nicole Kidman,
atriz norte-americana,
comenta que adora
fazer topless


Seio + Silicone = ETesão 

Cada cultura gira em torno de seus próprios fetiches em relação ao corpo humano. As mulheres americanas, e todas aquelas dos países cuja cultura é colonizada pelos valores do “grande irmão do norte”, que o digam. Ou talvez nem saibam disso, já que uma das características mais enraizadas dessa cultura ocidental/mercadológica é a alienação. Até que ponto as mudanças de comportamento em relação ao seio são fruto na verdade de interesses comerciais? Até que ponto a mídia, com suas representações daquilo que seja uma mulher desejável, funciona como potencializador desse consumismo desfigurador? Ao final e ao cabo, os padrões de aparência são formados não por costumes sociais, mas por imagens criadas em função de interesses comerciais. É o capitalismo (as)segurando o seio como objeto de lucro! Um estudo sueco envolvendo 39 mulheres que optaram por implantes de silicone mostrou que a maior parte associava seios grandes e aumento da feminilidade. Na América do Norte, lá pela década de ’90, o aumento dos seios era a segunda operação cosmética mais freqüente, perdendo apenas para a lipoaspiração. As mulheres americanas gastam milhões em cirurgias cosméticas visando diminuir a parte inferior do corpo (a bunda) e aumentar a superior (os seios) (1). 

O surto das mulheres americanas em relação ao aumento de mamas começa em 1940. Lá pela década de ’50, ter seios pequenos passou a ser considerado uma espécie de doença, um problema médico. Várias foram as tentativas na busca do elemento ideal para aumentar o seio, e muitos os problemas clínicos posteriores às cirurgias até que em 1970 o silicone fosse utilizado. Apesar dos efeitos colaterais ainda não poderem ser considerados completamente sanados, as mulheres acreditam que os benefícios superam os riscos (2). Phyllis Porter, com 80 anos de idade em 2002, que ficara famosa por pagar 25,000 dólares por um tratamento com botox, é também a mulher de mais idade a aumentar os seios (3). Ao que parece, para os americanos (do norte) a imagem dos seios desnudos tem mais relação com dinheiro/silicone do que com simbolismo de liberdade. O que talvez explique porque este país gasta tanto com operações de aumento de mamas e ao mesmo tempo proíbe sua exposição pública. 

A nova República Francesa era frequentemente representada como uma
mulher “a abrir os seios a todos os cidadãos”. Na gravura da esquerda, A França
Republicana Oferecendo o Seio a todos os Cidadãos, cerca de 1790. Podemos ver uma
plaina de carpinteiro presa no decote, simbolizando a igualdade de acesso a todos. Gravura
da direita, A Natureza como Mãe Igualitária, cerca de 1790. Durante a campanha para
libertar os escravos das Índias Ocidentais, a Nação Francesa era retratada como uma
mãe generosa amamentando tanto uma criança branca quanto uma negra 


Onde Estão as Tetas da Senhora Liberdade? 

Quando o presidente norte-americano George W. Bush criticou a França por não ter aderido à invasão do Iraque, sugeriu que aquele país europeu estaria do lado errado. Também disse que tinham muito que aprender com os americanos e sua história. O que Bush parecia não ter aprendido na escola é que um dos símbolos de seu país (a Estátua da Liberdade, ao lado) foi presente do governo francês em 1865, em homenagem àquela que, ainda uma jovem nação, tinha a reputação de terra da liberdade. Muito antes disso, a ajuda material da França foi crucial para a independência norte-americana. A estátua surgiu de uma conversa entre franceses, que na ocasião viviam sob a opressão de Napoleão III, elogiando a capacidade dos americanos de estabelecer um governo democrático. Desejavam copiar esse modelo em seu próprio país. Dando um pequeno salto para 1987, alguns devem se lembrar da posição em que a atriz pornô Cicciolina se deixou fotografar durante a campanha em que concorreu ao parlamento italiano. Ela posou como a estátua da liberdade. Entretanto, Cicciolina mostrava os seios (imagem do lado esquerdo). Se lembrarmos das representações da república entre os franceses, iremos encontrar mulheres de seios desnudos. A idéia era sugerir que a República é como uma mãe, que acolhe e alimenta seus filhos, sem favorecimentos individuais. Por outro lado, quando os franceses desejaram homenagear a defesa da liberdade que caracterizava os norte-americanos, presentearam-lhes com uma mulher de seios cobertos.

Para sermos otimistas, talvez os americanos já fossem contra a exposição pública de seios, e os franceses não pretendessem questionar a representação da liberdade que aqueles pudessem ter. De fato, segundo Marilym Yalom, atualmente as leis americanas são rígidas, as mulheres são proibidas de expor os mamilos e/ou a zona abaixo deles. Por outro lado, lá na América (do norte) seio grande é mania nacional, embora aparentemente esse hábito nada tenha para oferecer além de um simbolismo erótico aliado à mercantilização de acessórios de sustentação – incluindo implantes de silicone. Na verdade, acho que os franceses só estavam seguindo modelos das estátuas gregas da Antiguidade Clássica. (abaixo, à esquerda, a Estátua da Liberdade beija a representação grega da justiça - de olhos vendados. Charge de autoria de Mirko)


Há muito que a idéia de Nação está ligada a imagem de seios nus. Como já foi apontado, na construção da noção de República, a representação escolhida pelos franceses foi uma mulher de seios nus. Bem antes já havia sido produzida uma diferenciação entre o “seio bom” e o “seio mau”. Lady Macbeth, a figura criada por Shakespeare, era uma dessas que tinha “seios maus”. O “seio bom” é aquele que vai prover alimento para seus filhos. “Foi o que aconteceu a quinhentos anos nas pinturas italianas da Virgem amamentando, e há duzentos anos nas imagens de seios desnudos da Liberdade, da Igualdade e da nova República Francesa” (4).


Não é por acaso que aqui no Brasil é muito comum o comentário de que alguém está “mamando nas tetas do governo”. Sim, porque de mãe provedora o Estado brasileiro nunca teve nada, desde sua fundação. Se “aprofundamos” essas associações simbólicas, talvez outros sejam os caminhos que constituíram as nádegas como a preferência nacional do brasileiro: o Estado para os brasileiros é mais um estuprador do que uma mãe com seios cheios de leite. Podemos até desejar que os seios da República do Brasil sejam empinados, mas deveríamos procurar ter certeza de que pelo menos não sejam falsos!

Os Seios Turbinados e Suas Personas (Ingratas)

Neste admirável mundo novo do artificial, somente as mulheres podem dizer se esta corrida para turbinar os seios é um comportamento histérico induzido pelos modelos de beleza impostos pela cultura de massas/americana ou se, ao contrário, é um brado de libertação (imagem ao lado, A Liberdade Guiando o Povo, Delacroix, detalhe). Não se trata aqui de uma cruzada contra os seios grandes. A questão é pensar a real motivação para (que as mulheres brasileiras desejem) inflá-los artificialmente (turbiná-los). Não serei eu que vou decidir por elas quem elas são, ou querem ser, ou acreditam que são. Não serei eu quem dirá que a sociedade de consumo manipula os desejos e interesses das mulheres que não suportam a pressão de ser como realmente gostariam de ser. Resta saber se elas percebem no que estão se tornando. Afinal, como disse Zelig/Woody Allen em outro lugar (5), é mais seguro ser como todos os outros. Não sou eu quem afirmará que tornar-se cópia dos outros é como adotar personas ingratas – duplos de si invertidos, que nos devolvem um mundo de ponta cabeça, justo o oposto daquilo que desejávamos. Não sou eu quem dirá que talvez seja aí a rachadura na prótese de silicone, por onde se infiltram e se reproduzem os modelos manipulatórios, subjacentes à cultura de massas.

Um seio é apenas um seio?

Leia também:

As Deusas de François Truffaut

Notas:

1. YALOM, Marilyn..História do Seio. Tradução Maria Augusta Júdice. Lisboa: Teorema, 1998. Pp. 18, 282 e 292.
2. GILMAN, Sander L. La sorprendente historia de la cirurgía estética In Cirurgia Estética. TASCHEN, Angelika (ed.). Köln: Taschen, 2005. Pp. 101-102.
3. Idem, pp. 97-101.
4. YALOM, Marilyn. Op. cit., p. 14.
5. Me refiro a Zelig (1983), filme dirigido pelo norte-americano Woody Allen.

28 de jun. de 2008

Fetiches Digitais: Conexão Seios (III)


"Os  homens  se  deitam
eufóricos com Gilda e acordam decepcionados com Rita"


Rita Hayword, atriz norte-americana,
comentando o constrangimento que já
lhe trouxe a constatação pelos homens
de que ela não é Gilda, personagem que
um dia representou nas telas de cinema


Seios Virtuais, Violência e Morte

O mundo digital da realidade virtual também já foi invadido pelo fetiche (norte-)americano. As heroínas dos jogos de computador (também chamados no idioma colonizado brasileiro de games – leia-se “gueimes”) são peitudas e magras. Além disso, são totalmente masculinas (viris e violentas). Tiro pra cá, tiro pra lá. Tudo muito educativo é claro! Mais uma dessas modas que veio “do norte”, seios grandes nunca foi uma preferência nacional brasileira – leia-se culturalmente produzida no “seio” da sociedade brasileira. Do jeito que somos macacos de imitação, vai chegar o dia que mutilaremos a nossa preferência nacional (a bunda) só para que possamos dizer que estamos na moda – lá nos “esteites” o ideal é muito busto e pouca bunda.

Noventa por cento dos jogos de computador são vendidos para pessoas acima dos dezoito anos (1). Com isso quero sugerir que os jogos de computador não são mais feitos somente para crianças. Mas isso significa que os temas se diversificaram? Política, história, ecologia, literatura, poesia, teatro, romance, filosofia, cinema, medicina, direitos civis, mensagens contra a violência em relação à mulher/filhos/negros/pobres, esportes? Bem, não exatamente. Esportes até existem nos jogos de computador, mas o forte gira em torno de violência e morte. Jogos em que mulheres são heroínas invariavelmente não exaltam personalidades humanitárias. Vejamos alguns exemplos nos jogos, Dead or Alive, Druuna (imagem acima, lado esquerdo), Fear Effect, No One Lives Forever, Perfect Dark, Tomb Raider e Urban Chaos. As mulheres são aí representadas como meros objetos sexuais, suas armas seriam talvez símbolos fálicos que matam principalmente homens. Sendo assim, elas são gostosas e peitudas, mas ao mesmo tempo destruidoras de homens. Como os criadores destes jogos são principalmente homens, talvez Freud explique. “E como poderá um homem alguma vez ter esperança de encarnar uma mulher, mesmo sendo ela virtual?” (2)

Quem São as Peitudas Virtuais 


Joan “Perfect” Dark, a personagem de Perfect Dark e Cate Archer, a heroína sexy de No One Lives Forever, não passam de clones de James Bond em corpo de mulher; ou Lara Croft, personagem de Tomb Raider, versão feminina de Indiana Jones (ao lado). Lara Croft é uma arqueóloga, entretanto as únicas qualidades que parecem interessar aos homens/consumidores seriam uma capacidade de agir violentamente e o belo corpo. Hitomi a karateca, Tina a lutadora, Lei Fanf mestre em t’ai chi e Ayana a ninja, estas são as personagens de Dead or Alive. Morto ou vivo, como diz o título, apresenta meninas/mulheres com roupas sensuais participando de um torneio de artes marciais onde nada é ilegal. Ah, temos a opção de escolher as roupas delas! A alma de Druuna é prisioneira de um mundo dominado por um vírus que provoca a busca por sexo e sangue. O jogador deverá libertá-la. O jogo foi baseado em estória em quadrinhos do mesmo nome, apenas foram cortadas ou suavizadas as práticas sexuais violentas e a brutalidade sanguinária. Ainda assim pergunta-se, mulheres gordas e de peito caído não tem direito a estar possuídas por um vírus pornográfico?


Em Fear Effect duas mulheres (uma delas é classificada como euro-asiática) e máquinas de matar atacam o crime organizado, sem a preocupação em seguir as regras. O jogo “joga” também com o fetiche masculino de um homossexualismo feminino insinuado. D’Arcy Stern é uma policial negra armada até os dentes em Urban Chaos. Curiosamente, mesmo que as várias mulheres tenham as mais variadas origens (euro-asiática, afro-americana), isso somente fica um pouco marcado no rosto, pois no restante o corpo parece basicamente o mesmo – e os seios grandes e empinados também. (3)

Um seio é apenas um seio?

Notas:

1. CHOQUET, David (ed.).1000 Game Heroes. Köln: Taschen, 2002. P. 517.
2. Idem, p. 505.
3. Ibidem, pp. 506-41. 


24 de jun. de 2008

A Guerra dos Seios: Conexão Seios (II)


A Guerra dos Seios nas Histórias em Quadrinhos



Existe um ponto onde se encontram “peitões de silicone”, “peitões de papel” e os “tigres de papel”. Chamo de peitões de papel aos mamilos das heroínas de histórias em quadrinhos que, principalmente a partir das vésperas da Segunda Guerra Mundial, começam a povoar os olhos, corações e mentes dos garotos e garotas (na América do Norte) e os soldados (norte-)americanos nos campos de batalha. Tigres de papel era como os chineses se referiam aos (norte-)americanos. (ao lado esquerdo, a Bat Girl na versão para tv na década de 60 do século 20; do lado direito, sua rival, a Mulher Gato também na da década de 60 na versão para tv)


Entre dezembro de 1941 e janeiro de 1942, poucas semanas antes da América (do Note) entrar oficialmente na Segunda Guerra Mundial, a indústria dos quadrinhos apresenta a Mulher Maravilha aos garotos americanos; e também para as garotas e mulheres, que tiveram que assumir a casa e o trabalho nas fábricas. Ela vivia numa ilha perdida com um monte de amazonas com poderes mágicos e imortais – o que significa que elas não precisavam de homens para se reproduzir. Então um piloto americano cai ali e a rainha manda a própria filha com ele para o mundo exterior para “lutar pela América, a última cidadela da democracia, e dos direitos iguais para mulheres” (1). A própria rainha desenha a roupinha da filha, que vem a ser um biquíni (da época) com as cores e estrelas da bandeira (norte) Americana. Tempos depois, lá pela década de ’70, a heroína ressurge na televisão. Em 1976, “a mulher” aparece tentando reabilitar sua inimiga, uma espiã nazista (2).

A Mulher Maravilha compartilha com Batman e Super-Homem a distinção de manter uma publicação por mais de 50 anos. Ela foi a primeira mulher e objeto da cultura de massas que batia e subjugava os homens além de ser mais honesta que eles. Com o fim da guerra as vendas caíram, pois com a volta dos seus homens e maridos, as mulheres foram forçadas a voltar para a cozinha. Curiosamente (ou não), seu criador foi um psicólogo, um crítico das histórias em quadrinhos e inventor do detector de mentiras, que acabou sendo menos efetivo nos americanos do que o personagem que criou – seu precursor parece ter surtido mais efeito, a Mulher Maravilha (imagem do lado esquerdo, na versão da década de 90 do século 20; ao lado direito, a versão para televisão na década de 60) possuía uma corda mágica que fazia qualquer um dizer a verdade quando estava envolto em seu laço. Além disso, também escrevia livros de auto-ajuda como “A Arte do Casamento”. Depois de ler o artigo do psicólogo contra os quadrinhos, um dos executivos dessas revistas consegue contratá-lo, com o suposto objetivo de tornar as estórias mais benéficas do ponto de vista psicológico. William Moulton Marston, o psicólogo, afirmou “parecia a mim, de um ponto de vista psicológico, que a pior ofensa dos quadrinhos era sua masculinidade aterrorizante. Um herói homem, na melhor das hipóteses, não possui as qualidades de amor maternal e ternura que são tão essenciais para a criança como o sopro da vida”.

Ele pretendia desenvolver uma personagem que fosse “terna, submissa, amante da paz como são as boas mulheres”, uma que tivesse “a força de um Super-Homem além de toda a sedução de uma boa e maravilhosa mulher”. Marston acreditava que o fato dos consumidores de quadrinhos serem predominantemente de homens não seria problema. Como ele disse, “apresente uma mulher sedutora mais forte que eles e ficarão orgulhosos em tornarem-se seus escravos!” (3). Além de misturar feminismo e patriotismo, a Mulher Maravilha tinha o principal: peitões e um decote bem pronunciado. E isso parece mesmo fazer diferença, tanto é que tentaram modernizar o visual da heroína em 1968, mas as vendas despencaram e a coisa não durou mais que 25 números da revista. Outra super-heroína e boazinha que não durou muito foi a Bat Girl que, apesar de peitos empinados, era muito menos interessante que a vilã e também peituda Mulher Gato. Ao contrário daquela do seriado de tv da década de 60, uma nova versão com Michelle Pfeiffer (acima, do lado esquerdo) já não tinha seios fartos. Depois veio a versão com a afro-americana e meio branca Halle Berry (acima, do lado direito), com cabelos curtos, mas peituda novamente. Nos primórdios, a Mulher Gato praticava atos ilícitos apenas por diversão, na versão com Michelle ficou implícito que foi o chauvinismo masculino que a empurrou para uma vida fora da lei. Outro traço de personalidade que não costuma ser questionado em seus desdobramentos psicológicos (ou psicóticos) é o fato de que, como tantos outros super-heróis, estas heroínas têm dupla personalidade, pois se fantasiam de “gente normal” enquanto não estão em ação; o que não acontecem com vilãs como a Mulher Gato, que é ela mesma o tempo todo.

O Seio Empinado e o Soldado (Norte-)Americano


Uma curiosa associação entre seio (o doador do leite da vida) e morte foi inaugurada por nossos irmãos do berço da democracia no Novo Mundo. Durante a Segunda Guerra Mundial, os bombardeiros americanos pintavam mascotes em sua fuselagem para dar sorte. Na verdade, enquanto os nazistas estavam vencendo, só era permitido que se escrevessem frases (já que desenhos poderiam facilitar a visualização dos aviões), que podiam variar desde mensagens afetuosas (dirigidas a mulheres e não ao inimigo) até libelos do politicamente incorreto. Os tais desenhos também variavam em função de temas, de personagens de desenho animado, passando por charges depreciativas ao inimigo e… mulheres sedutoras. E os seios estavam lá, bem visíveis, para que os inimigos pudessem ver, com seus próprios olhos e antes de morrer, a ilibada e elevada moral do combatente (norte-)americano. Como paredes de borracharias voadoras, os aviadores copiavam os desenhos e fotos de pin-ups da época, para tornar as viagens mais agradáveis e garantir aos outros pilotos que ali naquele avião só tinha macho.

Nuas por inteiro ou até a cintura, essas figuras seriam um eco daquelas nas proas dos veleiros de outros tempos. Revistas de mulheres nuas eram mandadas sem despesa ao campo de batalha para “levantar o moral” do soldado americano. Entre 1942 e 1945, foram enviados seis milhões de cópias da revista Esquire, com as pin-ups criadas pelo mítico desenhista (de mulheres-objeto em poses sensuais) Alberto Vargas (4). Vargas girl: pouca roupa, seios empinados, pernas longas. Criada em 1942, a revista Yank não era de graça, custava uns cinco centavos aos soldados. Nessa revista, as mulheres eram mais parecidas com uma vizinha comum, mas também havia as maliciosas de seios grandes quase pulando das blusas que estavam quase caindo dos ombros. Muitas atrizes de Hollywood também eram eleitas como “bonecas de papel” pelos soldados, Jane Russel e Linda Darnell tiveram um grande impulso em suas carreiras seguindo este caminho. Muitos daqueles seios de Hollywood que iam para a guerra eram falsos, preenchidos com espuma no sutiã. Acho que a moda pegou aqui em nossas praias.

E por falar em praia, imaginem a cena, milhões de soldados desembarcam nas praias da Normandia, “arrombando” a Europa dominada pelos nazistas. Em suas mãos armas, em suas mochilas honradez, justiça, alimentos para os famintos, enfim, liberdade. Vamos tentar novamente, em suas mãos armas, em suas mochilas revistas de mulher pelada! Naquele filme famoso, O Resgate do Soldado Ryan (1998) (do famoso bom moço e diretor de cinema Steven Spielberg), faltou esse detalhe. Imagine aquela cena do desembarque, famosa por seu realismo: soldados sendo explodidos e pedaços de corpos por todo lado, a água vermelha de sangue e, espalhadas nesse cenário muitas, muitas revistas de mulher pelada. Será que se os soldados não tivessem as revistas de mulher pelada poderiam perder a guerra? É a moral deles que era levantada com essas revistas? O que talvez os soldados preferissem não lembrar é que suas esposas em casa poderiam também ter dificuldades em manter a abstinência sexual (ou o moral baixo, como os militares americanos preferiam referir-se em relação à “seus homens”). Então, mesmo que estivéssemos do lado do mundo livre (como os americanos gostam de se auto-intitular), tudo ia depender da quantidade de pornografia (leve é verdade) disponível para que eles concordassem em continuar morrendo em nome de um sistema financeiro? Bem, aqui no Brasil já temos a pornografia, só está faltando entender como ela se articula com a moral…

“O que viria a ser chamado o seio fetiche americano dos anos da guerra e do pós-guerra correspondia aos mais baixos [ou básicos] desejos psicológicos. Ao nível mais simples, os seios são sinais biológicos de diferença sexual que podem ser realçados de acordo com o momento histórico. A Segunda Grande Guerra foi um desses momentos. Os homens em combate no ultramar viam o peito feminino como uma lembrança dos valores que a guerra destrói: amor, intimidade, alimento. As funções maternal e erótica do seio ganharam um sentido acrescentado para uma geração inteira de soldados durante a guerra e muito depois dela, quando eles regressaram à ‘normalidade’”. (5)

Um seio é apenas um seio?

Notas:

1. DANIEL, Les. DC Comics: sixty years of the world´s favorite comic book heroes. New York: Bullfinch Press. 1995. P. 60.
2. Idem, p. 170.
3. Ibidem, p. 58
4. YALOM, Marilyn. História do Seio. Tradução Maria Augusta Júdice. Lisboa: Teorema, 1998. p. 167.
5. Idem, p. 169.

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