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Roberto Acioli de Oliveira

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10 de jun. de 2011

Mulher de Harém




“No inicio
do século 20, com
a dissolução e queda do
Império Otomano, muitas de
suas instituições características
também faleceram. A poligamia
e o repúdio foram abandonados,
os haréns foram fechados. Toda
uma era chegou ao fim, e com
ela os sonhos, alucinações e
mitos que sustentou”
(1)




Vivendo em tribos nômades e vagando pelas estepes da Ásia, a mulher possuía uma autoridade maior. Com o novo modo de vida sedentário, conceitos islâmicos e costumes bizantinos impuseram a elas a segregação do harém. Os homens tinham a autoridade máxima, embora no harém a que tinha direito fossem as mulheres que mandavam. O Corão permite a um homem possuir quatro esposas legítimas e certo número de concubinas, mas ele deverá ser capaz de sustentá-las. Sendo assim, a maioria era monógamo, apenas os ricos e poderosos tinham a possibilidade de manter um harém. Um espaço dominado por elas, para entrar nele mesmo o dono da casa deveria observar certa etiqueta. Devido a essa herança do nomadismo, ao contrário das mulheres no restante do mundo islâmico, as turcas nunca foram completamente marginalizadas na sociedade. A situação da mulher na sociedade otomana era um pouco mais complexa do que poderia parecer a um primeiro olhar. Elas conseguiam estruturar bolsões de autonomia e, em certos momentos na história, até mesmo reverter sua posição de inferioridade social (2).


A esterilidade
feminina poderia
ser vista como uma
das razões para

a poligamia

Durante sua vida, um turco veria apenas essas cinco ou seis mulheres de sua família e não teria nenhuma outra ligação sexual a não ser com algumas mulheres gregas, armênias ou eventualmente uma européia que chegasse à Ásia Menor. O casamento era aceito por todos, embora a família imperial não o praticasse. A partir da segunda metade do século 15, os sultões não formavam uniões legais e, com raras exceções, transavam apenas com as concubinas. Por outro lado, as princesas eram as únicas mulheres do império que, casando-se com escravos, podiam impor a eles a monogamia.


Ao tornarem-se mães, as mulheres adquiriam um outro status no Império Otomano. Um muçulmano só se considera realizado quando produz um descendente (preferencialmente do sexo masculino), o que confere privilégios à maternidade. Neste sentido, a esterilidade feminina poderia ser vista como uma das razões para a poligamia. No harém de um grande chefe, ou nas casas mais humildes, as mães governam suas filhas, noras, servas e filhos homens até certa idade. A mãe escolhe a esposa do filho, o qual se tornará o chefe da família no caso da morte do pai.




A partir
do século 18
,
a
s otomanas foram
le
vadas gradualmente
pela onda de reformas
que modificaram
sua posição na
sociedade





Mas é evidente que um homem turco é privilegiado desde o nascimento, dependendo das poses da família ele pode estudar e trabalha, enquanto as meninas recebem menos educação e na quase totalidade dos casos são direcionadas apenas para se tornam mães, donas de casa e esposas: assim como na sociedade européia da época, as mulheres eram educadas tendo o casamento como única meta. Administrados pela mãe, os encontros do filho com a noiva aconteciam inicialmente nos banhos públicos, e posteriormente no interior do harém. Como de resto em muitos outros lugares, o matrimônio era também uma transação financeira. O Corão estipula o pagamento de uma soma pelo noivo que seja proporcional a suas poses, que será guardada pela noiva no caso dela ser repudiada. O repúdio, contudo, era uma prerrogativa unilateral dos homens. No caso de problemas conjugais, a única chance da esposa era apelar para um juiz que auxiliará o marido na interpretação de seu papel na relação. Mas do ponto de vista da vida no harém, foi apenas no século 18 que as mulheres das aristocracias européias puderam usufruir de um local só para elas. O tempo se passou, mas fetiche masculino do harém continua vivo. Em 1963, o cineasta italiano Federico Fellini construiu um harém em Fellini 8 ½ (Otto e Mezzo). Nos sonhos de Guido (o protagonista e alter ego do cineasta), a primeira coisa que acontece é o encontro entre sua esposa e sua amante exuberante. A seguir... todas as outras, mas a esposa de Guido é a única que lava o chão e as roupas (sem esquecer da vedete que implora para ficar no harém, mas Guido está inflexível). (vídeo abaixo).


Notas:

4 de set. de 2009

O Diferente (do Oriente) Como Bode Expiatório



Possuímos uma
consciência crítica
, pois
refletimos
, duvidamos.
Correto?






Uma Conversa das Arábias

Mohammed Abed al-Jabri, em Introdução à Crítica da Razão Árabe (1), nos propõe uma reflexão sobre os elementos que os árabes utilizam (ou deveriam utilizar) para responder as perguntas,”quem somos nós?” “Quem queremos ser no futuro?” Como o Ocidente construiu esse “outro”, o árabe? E a articulação entre o árabe e a imagem do mal? Ironia máxima, esta situação parece caminhar passo a passo com a noção do árabe como ser exótico. O árabe é sempre o culpado, seja qual for o evento (o judeu e o ateu também ocupam o posto quando é conveniente). O que o Ocidente entende por “árabe” (ou “oriental”) não passa de uma construção conceitual que pouco tem a ver com a realidade. O árabe não seria um Outro, mas uma espécie de duplo do ocidental. (imagem acima, Édipo, de Jean-Léon Gérôme, 1867-8; provavelmente retratando um soldado francês de Napoleão. Nas imagens abaixo, filmes e desenhos animados norte-americanos retratando o árabe de forma pejorativa. Se fôssemos escrever sobre o tema, teríamos muito a dizer sobre como os norte-americanos falam dos outros povos. Poderíamos começar mostrando como eles retratam os latinos)

Em seu livro, Orientalismo. O Oriente como Invenção do Ocidente, Edward Said, palestino de origem, nos mostra como a visão que temos do não-ocidental é completamente equivocada, não passando de nossa própria imagem refletida (2). Analisa também a medida em que os próprios orientais vêem a si mesmos através da fantasia do Ocidente em relação os povos não europeus. De acordo com Said, o conhecimento moderno sobre o Oriente surgiu de uma postura de força ocidental. O Ocidente olhou para o mundo como algo a ser conquistado. Alexandre o Grande, César, Marco Antônio... Nomes que alimentaram esta tradição no Ocidente. Napoleão Bonaparte apenas segue esta tendência quando parte para o Egito, levando consigo uma equipe de intelectuais cuja função seria assimilar a lógica daqueles a quem se pretendia conquistar. Ao mesmo tempo, não existia entre os árabes um discurso equivalente que pudesse frear esse ímpeto internacionalista. Said segue dizendo que o mundo árabe tem algo de ingênuo, pois em sua curiosidade quanto ao diferente infiltra-se uma falta de vigilância - acabam entrando o amigo e o conquistador.

Sobre o processo de construção de seu livro, é obra de alguém que passou pela desorientação da distância. Ele deveria se colocar entre Oriente e Ocidente. Enquanto palestino ou ocidental, estaria dentro de uma cultura, condicionado pelo ponto de vista que ela impunha. Procurava inventariar e reconquistar a parte de sua identidade árabe que fora construída, manipulada e possuída pelo Ocidente. Do Orientalismo critica uma postura científica, que vê o Oriente como um objeto inerte prostrado em seu laboratório para ser manipulado sem reação. Elogia no Orientalismo a colaboração entre homens e culturas visando uma descoberta coletiva, no sentido de conhecimento que não esteja a serviço da dominação de um pelo outro.

Analisando o discurso dos renascentistas, Said considera bastante evidente a tentativa de sugerir que modernizar o mundo árabe-islâmico significava estar de acordo com as leis ocidentais. Desta forma esperava-se que o Islã fosse percebido numa relação de igualdade. Entretanto, continua Said, hoje o Islã reage ao Ocidente e este teme o Islã militante (3).

Amin Maalouf, em seu As Cruzadas Vistas pelos Árabes, nos mostra como os muçulmanos viam os europeus cristãos das cruzadas. Invasores, atrasados, cruéis, selvagens, ignorantes e culturalmente despreparados. Estes são os adjetivos que em geral os sectários ocidentais sempre utilizam para designar... os muçulmanos. Certamente, mas, e notem a estranha coincidência, são os mesmos que os muçulmanos utilizavam naquela época para classificar os ocidentais cristãos.

Maalouf conta que em 1099 o cádi de Damasco Abu-Saad al-Harawi (que teria feito a primeira chamada ao jihad), ao acolher os refugiados vindos da Palestina de onde foram expulsos pelos europeus, disse a eles que o muçulmano não deve se envergonhar de ter tido que fugir de sua casa. Maomé fora o primeiro refugiado do Islã, quando foi forçado a deixar Meca, buscando santuário em Medina. Nas palavras de Maalouf...

“E não fora a partir de seu exílio que lançara a Guerra Santa, o jihad, para libertar a pátria da idolatria? Os refugiados devem considerar-se os combatentes da Guerra Santa, os mujahidins por excelência, tão honrados no Islã que a imigração do Profeta [Maomé], a Hégira, foi escolhida como ponto de partida da era muçulmana” (4). O exílio chega ou chegava a ser visto como um imperativo, enquanto para alguns causava escândalo ver muçulmanos aceitarem viver em território ocupado. Segundo William Stoddart, o tão pouco discutido e muito mal compreendido conceito de Jihad, longe de ser a ferramenta preferida de fanáticos e animalizados muçulmanos, constitui uma peça que vai além do puro e simples combate ou tentativa de destruição...

“Outro conceito islâmico muito conhecido é o de ‘guerra santa’ (Jihād). Esta se refere exteriormente à defesa da comunidade islâmica. Interior ou espiritualmente, refere-se à guerra oculta contra o eu. O profeta mostrou a relação destes dois aspectos da guerra santa quando, depois de uma batalha, observou aos seus companheiros: ‘Regressamos da guerra santa menor (contra os nossos inimigos externos) para a guerra santa maior (contra nós mesmos) ‘“ (5)

Notas:

1. Al-JABRI, Mohammed Abed. Introdução à Crítica da Razão Árabe. Roberto Leal Ferreira. São Paulo: Editora UNESP, 1997[1994].
2. SAID, Edward. Orientalismo. O Oriente Como Invenção do Ocidente. Tradução Tomás Rosa Bueno. São Paulo: Companhia das Letras, 1996[1978].
3. SAID, Edward (et alii). Entrevistas do Le Monde. Civilizações. Tradução Sergio Flaksman. São Paulo: Editora Ática, 1989. Pp. 184-189.
4. MAALOUF, Amin. As Cruzadas Vistas pelos Árabes. Tradução Pauline Alphene e Rogério Muoio. São Paulo: Editora Brasiliense, 2001[1983]. P. 13.
5. STODDART, William. O Sufismo. Doutrina Metafísica e Via Espiritual no Islão. Tradução Iva Vicente Flores. Edições 70, coleção Esfinge, 1976. P. 30.

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