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Roberto Acioli de Oliveira

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24 de abr. de 2012

Pornografia e Imagem



"O mais
profundo
é a pele"

Paul Valéry (1871-1945)




No que diz respeito ao mundo Ocidental, o século XX mostrou tudo em matéria de arte erótica. Esta é a opinião de Paul Ardenne, para quem as razões podem ser encontradas no impudor da própria arte do século XIX. De A Origem do Mundo (1866), de Gustave Courbet, até Made in Heaven (1990), onde Jeff Koons se mostra com sua então esposa (a atriz pornô Cicciolina) numa cena de sexo, um longo caminho foi percorrido – de fato, as artes pré-cristãs grega e romana talvez fossem até mais explícitas. Forma dissimulada do desejo em ação, a arte cultiva o obsceno que a moral (burguesa) reprova. No âmbito da arte, ou fora dele, a figura erótica se arrisca a banalizar sua exibição (especialmente em tempos de internet) - algo talvez impensável em outros tempos de repressão sexual. A superexposição nos levará ao dia quando o sexo deixará de ser desejável? (que o consumidor desvie o olhar, este seria o pior pesadelo das agências de propaganda!). Se a exibição excita, o exibicionismo pode levar ao efeito inverso (1). Em 1966, Niki de Saint Phalle apresentou Figure Hon (= ela) em Estocolmo. Uma boneca gigante deitada de barriga para cima com uma abertura na vagina, por onde o visitante pode penetrar. Questões simbólicas remetendo ao ventre maternal (e à heterossexualidade) enquanto espaço protetor parecem evidentes. Por outro lado, como sugeriu Gilles Neret a respeito de Figure Hon, o desejo pode ser lúdico (2). (as imagens pertencem ao calendário da empresa de imagem EIZO)






A distância entre arte
erótica e pornografia tem
mais relação com o estilo
do  que  com  o  tema





A imagem do “sexo”, mostrar o sexo, não se restringe apenas a imagens de corpos evocando certas situações. Se admitíssemos juntamente com Freud uma dimensão libidinosa da criação artística, toda a arte estaria ligada à sexualidade – a psicanálise faz da arte um efeito da sexualidade. Seja como for, Freud acaba por dessacralizar a criação artística ao torná-la um efeito de outra coisa. O que representa então uma imagem do corpo num sentido estritamente “erótico”? Considerando o sugerido acima, tal questão deixa de ter sentido. Uma natureza morta? Uma paisagem? Um retrato de família? Uma vaca pastando? O pornográfico então acaba sendo apenas uma questão “geométrica”, uma estética purista, uma arrumação sem desejo entre corpo e objetos. De acordo com Ardenne, as fotografias de um Robert Mapplethorpe teriam de “sexual” apenas sua temática. De fato, afirma Ardennes, a imagem “sexual” é uma imagem construída. Ela se torna sexual caso se organize de forma a ativar o desejo: a dimensão espetacular, o potencial atrativo e excitante, a possibilidade de identificação por parte do espectador oferece uma articulação possível com a obra/fotografia/escultura/etc. Atualmente, mais do que nunca, sacrificamos o corpo através do sacrifício à imagem. Consumir a perdição da figura, até que a ausência da materialidade daquilo que ela representa se torne evidente (e nos massacre). Com uma função criminal tanto quanto sacrificial e estética, seria a relação humana com as imagens uma pulsão de morte? (3)




Leia também:

Roma de Antonioni
As Marionetes dos Mistérios de Antonioni
O Expressionista Desconhecido
Fausto e Mefistófeles Segundo Murnau
Arte do Corpo: Natacha Merritt, Veruschka, Cindy Sherman, Carolee Schneemann, Shigeko Kubota, Yoko Ono, Jan Saudek, HR Giger, Leigh Bowery, A Dança das Trevas, As Cabeças de Gerhard Lang

Notas:

1. ARDENNE, Paul. L'Image Corps. Figures de l'Humain dans l'Art do XX Siécle. Paris: Éditions du Regard, 2001. Pp. 291-2.
2. NÉRET, Gilles. Arte Erótica. Köln: Benedikt Taschen, 1994. P. 68.
3. ARDENNE, Paul. Op. Cit., pp. 251-3, 444.

18 de mar. de 2011

A Mulher Futurista!?


“É preciso fazer da luxúria
uma obra de arte”


Os Futuristas rejeitavam a mulher casta e fonte de prazer apresentada ao público italiano pelo poeta Gabriele D’Annunzio (ao lado, Auto-Retrato, Wanda Wulz, 1932). Quando Marinetti proclamou “o desprezo pela mulher”, ele se referia a essa mulher fabricada pela cultura romântica. O programa político futurista exigia a paridade de salários, a igualdade jurídica e o direito ao voto para as mulheres – no caso dos salários, talvez o caminho ainda seja longo e sinuoso... A posição generalizada entre os futuristas era de recusa da visão redutora e tradicional em relação à mulher. Dentre as primeiras telas dos pintores futuristas encontram-se tanto prostitutas (As Novas Sacerdotisas, Carlo D. Carrá, 1910) quanto refinamento e sensibilidade na mulher moderna (A Mulher Futurista, Umberto Boccioni, 1910). Valentine de Saint-Point (1875-1953) aderiu: “Minha vida e minha obra em perfeito acordo tendem sem cessar às virtudes eternas e modernas que preconiza o Futurismo”.

Valentine era escritora, poeta, pintura, dramaturga, crítica de arte, coreógrafa, conferencista e jornalista, e lançaria em 1912 o Manifesto da Mulher Futurista – onde questiona inclusive algumas posturas misóginas contidas no Manifesto Futurista. Valentine propõe um modelo de mulher moderna enquanto “criatura em quem o instinto está pleno de lucidez”. Em 1913, ela lança o Manifesto Futurista da Luxúria. Contestando o feminismo tradicional, Valentine reivindica a libertação erótica da mulher em nome da força vital e da criação: “É preciso fazer da luxúria uma obra de arte”. O inconformismo de sua ideologia feminista reside na luta por uma total emancipação do desejo. Nos anos que se seguem, o Futurismo é o movimento que conta com o maior número de mulheres: escritoras, poetas, fotógrafas, dançarinas, esportistas, aviadoras, pintoras e escultoras, filósofas e atrizes. Elas elaboram uma interpretação feminista do futurismo, fazendo de suas próprias vidas pouco convencionais o modelo da mulher moderna: livre e ativa, capaz de questionar a instituição da família e de participar sem complexos o advento da sociedade futura (1).

Nota:

Leia também:

1. LISTA, Giovanni. Le Futurisme. Paris: Éditions Pierre Terrail, 2001. P. 32.

25 de fev. de 2011

Freud Explica Alien?



Os invasor
es
espaciais
, os índios
nos filmes de faroeste e
as personagens femininas
, evidenciam a dificuldade
do
Ocidente pensar a alteridade, o Outro,
o não-eu
(1)




Histeria Anti-Sexual Masculina

De acordo com Alexandre Hougron, o universo da ficção científica é o lugar perfeito para entender como se dá a reedição de fobias sexuais misóginas e machistas no cinema de entretenimento. A ficção científica, afirma Hougron, é fascinada pela sexualidade não natural – focada no oral e no anal e não voltada para a reprodução. Ele vê uma relação entre essa hipótese e o fato de que em algumas regiões dos Estados Unidos, maior fabricante e também maior consumidor de ficção científica, sodomia e sexo oral sejam passíveis de prisão. A natureza dos monstros estaria em relação direta com a representação desta “sexualidade maldita”. A criatura de Alien, o Oitavo Passageiro (Alien, direção Ridley Scott, 1979) é uma perfeita combinação de sadismo oral e anal. Engendrada a partir da oralidade, ela foi ejaculada dentro da boca da vítima por um tentáculo. Eventração: a criatura sai pelos intestinos de um homem (explodindo a barriga dele, antes de chegar ao ânus), que não tem útero e vagina. Possuindo boca telescópica que sai da mandíbula cheia de baba, Alien é a encarnação de uma “oralidade sádica”. Como seu metabolismo é à base de silicone, o corpo humano (a base de carbono) não serve de alimento. Logo, Alien é um produto de nossas fobias, uma cristalização do puritanismo anti-sexual. Não tem olhos e sua cabeça alongada lembra um grande pênis devorador (2).

Quando Alien
sai da barriga do
astronauta
, nos punimos
por olhar (olhando para o

outro lado). Não agüentamos
ver a desintegração da fase
em que o recém nascido

imagina seu corpo como extensão da mãe (3)



A criatura de Alien lembra um demônio saído direto da iconografia cristã. Dentuço, cauda, garras e atributos dos dois sexos (pênis e seios) às vezes em lugares insólitos (como os tubos fálicos nas costas) (imagem acima). Até mesmo as torturas que os diabos medievais aplicam a suas vitimas estão presentes. As mesmas fobias insuportáveis de esmigalhamento ou de possessão já estão lá. Uma transformação simbólica dos prazeres orais e anais em atos de crueldade só se poderiam interpretar em termos religiosos cristãos. A gratuidade dessas “perversões” também é estigmatizada porque na ótica puritana os prazeres orais e anais são inúteis, já que não servem à reprodução. A criatura é uma espécie de mensageiro do sofrimento e da punição – como os demônios medievais. A criatura de Alien não está sozinha nessa fixação da ficção científica a um estado oral ou anal. Muitos monstros e/ou extraterrestres devoram, esmigalham, engolem, penetram, perfuram ou parasitam – um verdadeiro delírio oral-anal (4).

Com relação ao “pecado da felação”, temos o exemplo de A Experiência 2 – A Mutação (Species II, 1998). Comandante volta de missão em Marte infectado por DNA alienígena, sua única missão é procriar com uma humana. No final do filme, pretendendo copular com uma humana já transformada em alien-zumbi, a cabeça dele se abre e um grande tentáculo entra pela boca da mulher – ela é morta ao mesmo tempo em que é fecundada. Conclusão: a felação é a morte. O elemento escatológico também está presente nesse universo religioso de recusa neurótica do sexo - o fecal substitui o sexual e lhe serve de metáfora. Como quando para não falar diretamente sobre a mulher e seu erotismo, os garotos fazem piadas escatológicas, remetendo ao oral e anal. Em termos freudianos, essa sexualidade imatura está na fronteira da sexualidade adulta e assumida (genital). Ao mesmo tempo em que os filmes denunciam o puritanismo também o reforçam (5).



Ao mesmo tempo
em que denuncia o
puritanismo
, a FC
também o reforça




Mulheres normais não estão presentes, elas amedrontam bem mais do que as mulheres-monstro. Como o insecto-fêmea gigante em Alien 2 (1986), que produz larvas e parasita o homem. Essa fêmea é a encarnação da “mulher má” do universo cristão. Segundo a psicanalista americana Ednita Bernabeu, a mulher-mãe amedronta mais do que a mulher-objeto sexual. A ficção científica evidencia uma sexualidade pré-adolescente (anal e oral), mais do que adulta (genital). A fobia misógina encontra uma representação em Alien 2, onde uma fêmea-mãe gera larvas sem a intervenção de machos. Essas larvas vão em seguida infectar os homens. Personificação dos medos masculinos em relação à mulher? Medo da castração, medo de ser penetrado por seu “dardo”, por onde ela irá injetar suas larvas. Ambivalência sexual, um dardo que penetra suas vítimas e que também injeta crias. A personagem de Ripley em Aliens 2 é a mulher guerreira casta, a Joana d’Arc, antítese da mulher-monstro. Como os homens estão fora da briga entre ela e a criatura, estão salvos em sua pureza. Ripley só tem dois interlocutores, um gato e um robô – este, assexuado, puro por definição. O homem-robô, “homem do futuro” aponta para o não compromisso com o Outro. Sexualidade, punição e monstros estão ligados em nossa imaginação (6).



A sexualidad
e, na
ficção científica
, é
sempre pervertida




A mulher está fora! Na verdade Ripley, a astronauta que protagoniza toda a série Alien, não é outra coisa senão um alienígena. Em Guerra nas Estrelas (Star Wars), também não há lugar para uma mulher de verdade (sexuada), apenas para uma irmã ou uma guerreira (alguém cuja sexualidade não ameace). A mulher jamais é uma companheira, e raramente é mãe. O monstro é a encarnação dos medos sexuais do homem ocidental puritano (castração/penetração/medo da “vagina dentada”/medo do pênis). As criaturas presentes na ficção científica podem ser classificadas em monstros da oralidade (a criatura de Alien, as formigas gigantes de O Mundo em Perigo [Then, 1954] e os dinossauros de Jurassic Park [1993]), ou da analidade (A Bolha [The Blob, 1958] e os alienígenas moluscos com tentáculos-pênis). Alguns, como a criatura de Aliens, estão nas duas categorias. Isto quer dizer que os monstros se encaixam numa fixação no momento pré-genital (pré-sexual). O puritanismo só permite a sexualidade no estágio infantil e perverso (sádico), onde ela não desabroche e não incomode. Não há erotismo: sexo na ficção científica só com perversão!(7) (todas as imagens deste artigo são de Alien, o Oitavo Passageiro)

A Carne e a Sexualidade 



A maternidade
da
mulher e, portanto,
sua sexualidade
, constitui
uma das importantes
fontes de imagens
horripilantes
(8)



A falta de carne talvez advenha do caráter pouco verossímil das estórias da ficção científica, assumindo uma postura evasiva: fugindo da materialidade, ela escapa da sexualidade, uma de nossas mais importantes âncoras no mundo real. A fobia em relação à penetração presente em muitos alienígenas cheios de tentáculos lembra sintomas de vaginismo, frigidez, impotência ou histeria sexual. Segundo Hougron, esses sintomas raramente implicam um problema fisiológico. Implicam uma representação problemática de si e de seu próprio corpo. Essa representação conduziria a uma imagem terrificante ou repugnante do Outro. Desta forma, a questão da sexualidade segue ignorada pela ficção científica – a não ser por uma abordagem indireta. Exceção a Philip José Farmer em Open to Me, My Sister, um homem reluta em aceitar a sexualidade extraterrestre porque ela o feminilizaria, já que ele deveria receber uma pequena serpente (falo) pela boca - ainda que isso fosse de uma sedutora mulher alienígena. Categorias ético-sexuais cristãs: uma questão em torno da idéia de felação-sodomia que remete à abominação de Sodoma e Gomorra.


Houve uma
transferência do
antigo simbolismo
dos
demônios e da mulher
para os monstros da
ficção científica?



De acordo com Alexandre Hougron, existe um componente puritano histérico que perpassa toda a construção simbólica das estórias e da constituição física dos monstros alienígenas. Embora pareça que ele está chamando todos os fãs de doentes mentais, na verdade isso não seria de forma alguma exclusivo da ficção científica. Não são apenas esses fãs que podem apresentar distúrbios de personalidade... A fobia anti-sexual encontrou campo fértil na concepção cristã, embora não tenha sido sua fonte original. Na opinião de Hougron, o puritanismo talvez seja resultado da incapacidade de todo um grupo de homens (o clero), de toda uma sociedade, em resolver seu complexo de Édipo. O que aconteceu foi uma transferência da antiga simbólica dos demônios e da mulher para os monstros da ficção científica. Não foi tanto o cristianismo em si o criador de toda a interdição sexual. Foram os puritanos sintetizaram uma mensagem de exclusão de elementos considerados impuros (9). É um problema dos norte-americanos, grandes produtores e consumidores de ficção científica. Hougron afirma que europeus, e franceses (para quem ele parece escrever em especial), não têm essas visões puritanas neuróticas!

Leia também:

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Luis Buñuel, Incurável Indiscreto
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Herzog, o Conquistador do Inútil
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Arcaísmo e Cinema no Evangelho de Pasolini
Kieslowski e o Outro Mundo
As Mulheres de Andrei Tarkovski (I)
Arte do Corpo: Veruschka e a Pele Nua

Notas:

1. HOUGRON, Alexandre. Science-Fiction et Société. Paris: PUF. 2000. P. 12.
2. Idem, pp. 145-6.
3. CREED, Barbara. The Monstrous-Feminine. Film, Feminism, Psychoanalysis. New York: Routledge, 1997. P 29.
4. HOUGRON, Alexandre. Op. Cit., pp. 146-7.
5. Idem, p. 148.
6. Ibidem, pp. 149, 150-2.
7. Ibidem, pp. 152-3.
8. CREED, Barbara. Op. Cit., p. 50.
9. HOUGRON, Alexandre. Op. Cit., pp. 155-8. 


3 de jul. de 2010

O Olho e o Corpo: Erotismo em Pablo Picasso


“O olhar
é a
ereção
do olho”

Jean Clair (1)


Da minhoca com seu corpo anelado ao homem com suas vértebras, a simetria se torna mais e mais obrigatória à medida que a variedade dos seres vivos enriquece. Picasso ataca a simetria, ataca a harmonia das formas, desorganiza as articulações naturais do corpo. A anatomia explode (2). Bem antes disso, o erotismo já estava presente na pintura de Picasso desde a infância (3). Não é para menos, ele era espanhol! O “pecado da carne” tem um lugar na tradição literária daquele país. Evidentemente, esse “mau amor” está em oposição direta ao “bom amor”, fundado sob o espírito cristão do amor de Deus – e de uma Igreja que queimava quem não concordava. (imagem acima, Femme Nue Allogée [Les Voyeurs], também conhecida como Grand Nu Alogé, ou ainda, como Suzanne et les Vieillards, 1955; tudoisso para enfatizar as figuras escondidas na janela, olhando para o corpo nu da mulher)

Robert Rosenblum sugere que por alguns momentos deixemos nossa imaginação se soltar em Les Demoiselles d’Avignon (1907). Sem levar em consideração toda a questão por trás das máscaras africanas que Picasso usou como modelos para os rostos, poderíamos pensar numa cena de palco de teatro com mulheres nuas (imagem ao lado). Em Salomé (1905) (imagem acima, à direita), Picasso já nos havia dado sua interpretação da “mulher fatal”. Ele inventou um espetáculo erótico que escapa em parte ao espectador da obra. Ao contrário das Demoiselles, vemos apenas as costas dela enquanto se mostra integralmente a Herodes. Apenas ao rei Salomé expõe seu sexo sem pudores. De acordo com Robert Rosenblum, esse tipo de voyeurismo era muito comum no Picasso dessa época. Entre 1905-7, ele desenhava muitas mulheres com as coxas bem abertas. Sua obra será marcada por uma “franqueza ginecológica”. Sabemos agora que Les Demoiselles d’Avignon retrata na verdade o salão de uma casa onde se expunham as prostitutas a um cliente eventual (4).

Les Demoiselles d’Avignon sintetiza um grande número de convenções da diversão erótica e integra também os dispositivos cênicos que os pintores utilizavam no tempo da juventude de Pablo Picasso para representar a vida nos bordéis. Enfim, não era incomum a exposição das mulheres aos olhos dos compradores. Muito tempo depois, em 1968, Picasso cria um desenho blasfematório - especialmente do ponto de vista de um espanhol. Em Raphaël et la fournarina. III: Avec le Pape em Voyeur Caché (imagem ao lado), o pintor representa o próprio Papa como um voyeur dos prazeres da carne - os prazeres do "mau amor". Chamando atenção para este pequeno desenho, Rosenblum nos lembra que mesmo velho, e ainda mais do que em sua juventude, Picasso continuava a colocar em cena o teatro sexual que formigava em sua imaginação.

Notas:

Fonte das imagens: on-line Picasso Project

Leia também:

Arte Degenerada
Arte do Corpo: Cindy Sherman e Seus Duplos

Arte do Corpo: Yoko Ono e a Tesoura
O Mercado de Consumo e o Corpo no Discurso da Mídia

Buñuel, o Blasfemador (I), (II), (final)

1. Érotique de l’art. Paris: Taschen, 1993. P. 56. Citado em ROEGIERS, Patrick. Le Braquemart, La vulve et l ‘Oeil Exorbité du Peintre In Picasso Erotique. Paris : Éditions de la Réunion des Musées Nationaux, 2001. P. 72. Catálogo de exposição.
2. CLAIR, Jean. Leçon d’Abîme. In Op. Cit., Picasso Erotique. P. 23.
3. OCAÑA, Maria Teresa. Del “Mal Amour” In Op. Cit., Picasso Erotique. P. 86.
4. ROSENBLUM, Robert. Les Demoiselles d’Avignon et le Théâtre Érotique de Picasso In Op. Cit., Picasso Erotique. Pp. 94, 97 e 99.

9 de jan. de 2010

Arte do Corpo: Jan Saudek e o Tempo




“Nossa vida é uma

jorna
da, uma jornada
até o fim da noite
...





Autobiográfico, o trabalho de Jan Saudek é único, foge a todas as classificações – ou, na sua classificação possível, ele está sozinho. Ele sempre esteve à frente de seu tempo: criava encenações para suas fotografias antes dessa onda aparecer, manipulava as imagens antes de isso virar moda, fotografava a si mesmo antes que os existencialistas começassem a fazer isso. A questão da identidade centraliza nossa atenção nas imagens criadas pelo fotógrafo Tcheco Jan Saudek, apresentando a condição humana em todas as suas contradições inerentes (1). Até o final dos anos 70 do século 20, seu trabalho era uma celebração da “Família Humana”, a apoteose da feminilidade, masculinidade, maternidade, paternidade, infância, amor... as questões do nascimento e da morte. Nos anos 80, a dualidade das emoções começa a aparecer em seu trabalho. A relação entre amor e ódio, sinceridade e dissimulação, beleza e feiúra, juventude e velhice. Elementos contraditórios que se complementam, criando uma tensão dramática. Nos anos 90 temos as questões concernentes ao sentido da vida. Focando na corporeidade, brutalidade, quase perversão e algum masoquismo, a obsessão de Saudek pelo corpo (qualquer corpo, seja velho, gordo ou deformado) não é guiada pela moderna estética do repugnante, mas por um hedonismo erótico.

Um fotógrafo que não acredita no acaso, Saudek não se aproveita daquilo que aparece no caminho. Ele busca infatigavelmente retratar o que tem no coração (imagem acima à esquerda, Hands, 1971; acima à direita, Card nº 358, 1988; à esquerda, ?, 1997; abaixo, Goodbye, Jan (I), 1994). Muitos são seus imitadores, mas falta em suas fotografias uma coisa que para Saudek é a diferença de seu trabalho: “Eu fotografo meus amados através do prisma do amor...” Qual é o tema de Saudek, futilidade cômica? Kitsch? Contos de fada obscenos de um exibicionista? Pornografia? Quando lhe perguntam o que essa ou aquela imagem significa, ele diz não saber:

“O artista também não compreende. Ele é um idiota, criando em função de um tipo de necessidade” (...)”É claro, todo esse esforço aflito, essa desesperada e obstinada tentativa de capturar aquelas poucas pessoas que eu amei, para gravar sua aparência de uma vez por todas, não é nada senão o antigo desejo sem sentido de parar o tempo. Minha câmera em minha mão e minha vida na minha frente – e ao comando, na moda militar: Alto!” (2)



O erotismo está presente
nas fotografias de Saudek
. Eróticas,
mas não vulgares
. A pornografia aponta
para o apetite sexual
, nas imagens de Saudek o erótico é apresentado
como parte da vida




Corpos nus, posições eróticas, algum sadismo, lesbianismo, hermafroditismo, vulgaridade. Saudek já foi acusado de fazer pura pornografia. Não se questiona que ele utilize alguns componentes pornográficos. Entretanto, sugere Daniela Mrázková, como um escritor que utiliza certo vocabulário que não ocorre na linguagem diária, Saudek lança mão de alguns artifícios que constituem tabu para a maioria das pessoas (seja porque suas imagens são muito intimistas ou simplesmente indecentes). (imagem ao lado, Mother and her Children, 2003; acima, à esquerda, The End of the Film, 1997)

Saudek faz uso sistemático de tudo que influenciou nossa cultura por milênios e não apenas sexo e o erotismo. A respeito disso, é curioso notar que a utilização de armas, ou cigarros, ou suicídios em suas fotografias, não parece causar o mesmo rebuliço! A distinção que ele faz entre arte e pornografia é bastante singela: “Para mim, a diferença entre pornografia e arte é simples – você pode olhar para a arte por uma eternidade, enquanto com a pornografia você dá uma olhada e coloca de lado porque tudo é explícito, não há mistério, a fantasia não tem lugar ali”. (3) (ao lado, The Dancer, 2003)


Foi através da publicidade que Saudek acompanhou a popularização de seus trabalhos mais ousados, quando então se abriram as portas das coleções públicas e privadas para sua obra. Paradoxalmente, as visões eróticas de Saudek parecem não caber no mundo de hoje: são eróticas, mas não são vulgares - e muitos confundem as duas coisas. O objetivo da pornografia é despertar o apetite sexual, Saudek trabalha com o exagero humorístico, apresentando expressões do erótico como parte da vida. Com isso, ele evita o banal e o kitsch, tudo que poderia (pela incompreensão e a preguiça) ser chamado de pornografia. (ao lado, The Disobedient Daughter, 2001)

Notas:

1. MRÁZKOVÁ, Daniela. Jan Saudek. Köln: Taschen, 2006. P. 48.
2. Idem, p. 42 e 44.
3. Ibidem, p. 44.

18 de ago. de 2008

Imagem Corporal e Satisfação





“Apenas pessoas superficiais 
 não     julgam     pela     aparência. 
O verdadeiro mistério do mundo
é o visível,  não  o  invisível"

Oscar Wilde (1854–1900)



Imagem corporal, aspecto da satisfação existencial que na cultura contemporânea ocidental está sendo afetado negativamente: não mais se vê o corpo como o exterior de um interior – o fora de um dentro, uma dobra. Atualmente, o corpo é cada vez mais só o exterior do exterior – o fora do fora. Onde exatamente foi parar a satisfação existencial com nosso corpo? O corpo, considerado como objeto exterior, poderia mesmo nos auxiliar quando tentamos compreender o que é ser feliz?

Mary Del Priori conta que, na época dos descobrimentos, nudez era sinal de pobreza. Daí considerar os índios inferiores. Na Europa, erótico era esconder o corpo. A superexposição do corpo no Brasil contemporâneo representa uma classe social e não a mulher: loira, corpo de academia. Esta mulher é minoria.

Corpo Monstruoso

No cinema norte-americano o nu feminino se instaura em 1933. Hedy Lamarr aparece nua em Êxtase (direção Gustav Machatý), deixando para trás o anonimato (acima, à esquerda). Nascem as ligas da decência e centrais católicas. O nu especificamente pornográfico já havia surgido no cinema em 1910 (1). O “problema” do cinema é a possibilidade do close-up. No teatro se pode desviar o olhar, já o enquadramento cinematográfico é incontornável. Entretanto, a possibilidade de corrigir uma imagem resolve os medos que havia no teatro, onde um vento ou outro acidente pode revelar as partes íntimas de um ator ou atriz. Temos o depoimento de um jornalista em 1896, a propósito de um beijo no filme A Viúva Jones:

“Em tamanho natural, é já animalesco, mas não é nada comparado com o efeito produzido por este ato aumentado para proporções gargantuescas e repetido três vezes seguidas. É absolutamente nojento. Fatos destes apelam à intervenção da polícia” (2).

Em 1912 uma lei regulamentava a duração do beijo na tela de cinema. Nos Estados Unidos, após a primeira guerra mundial, o umbigo era o mais indecente. Até 1965 o problema era mostrar os pêlos do corpo – o próprio Tarzan só aconteceu depois de depilar o torso. De fato, o cinema, que finalmente podia mostrar o real de forma realista (quando desejasse), foi impedido de fazê-lo (3). No cinema brasileiro, Norma Bengell no filme Os Cafajestes (1962, direção de Ruy Guerra) marca o ponto de partida do nu aqui por nossas telas, corpo acompanhado pelo riso sádico do personagem de Daniel Filho, que, aliás, filmava a cena.

No cinema de ficção científica norte-americano, a imagem da mulher tem dificuldade em se desvencilhar de preconceitos. Em A Invasão das Garotas Abelha (Invasion of the Bee Girls, 1973), de Dennis Sanders, mulheres estéreis por conta de experiências científicas matam homens a golpes de orgasmo (acima, à direita). Erotismo é uma raridade na ficção científica. Uma das poucas vezes em que isso ocorreu foi com os originais do livro, Os Amantes (1951), de Philip José Farmer. A história descreve relações sexuais entre um homem e um inseto extraterrestre capaz de trejeitos femininos sedutores. Um editor recusou os originais, classificando-os de nojentos (4).

Também encontramos a misoginia no gigantismo: mulheres, aranhas gigantes e extraterrestres concorrem quanto a maior monstruosidade. Vale lembrar O Ataque da Mulher de Dez Metros (Attack of the 50-foot Woman, 1957), de Natan Hertz (ao lado). Uma esposa traída encontra um extraterrestre verde gigante que passava por aqui, é transformada num enorme monstro vingador que estripa o marido infiel com as próprias mãos. Barbara Creed mostra como, a partir do universo dos filmes de ficção científica norte-americanos, verifica-se a satanização do feminino (5).

Corpo Feliz e Próteses

Quem sabe o biquíni e o implante de silicone sejam a mesma coisa? Uma mulher, adepta do nudismo, faz uma cirurgia para implante de silicone nos seios e nádegas. Ainda podemos dizer que ela está nua, já que partes do seu corpo estão cobertas? O biquíni seria mais erótico que a pele? Uma prótese de pele é mais erótica que a pele real? Nudez é não estar vestindo próteses ou roupas? Roupas são próteses? Qual é a diferença entre uniforme e fantasia? Qual é a diferença entre uniforme e máscara? Cobrir o corpo é criar uma imagem ou representação ordenada da natureza, tomando as roupas como complementação do organismo? Até que ponto o que vestimos afirma ou nega o que acreditamos ser por dentro?

E quando o que vestimos não é mais nosso próprio corpo? A ex-paquita [para quem não sabe, é o título de “antigas” adolescentes, dançarinas no programa infantil de Xuxa] Monique Alfradique malha até quatro horas em academias de ginástica. Afirma que seus músculos não eram bem definidos e ela foi “atrás de desenhar” seu corpo. Qual seria a recompensa de Monique? Bem, ela ganhou a capa da revista Boa Forma (6). Tudo bem, diriam, pelo menos não é uma revista masculina de mulher pelada!!! Tudo bem talvez, de uma maneira ou de outra, “boa forma” é “corpo malhado”… e não necessariamente um corpo feliz!

Corpos em Exposição, Conquista do Feminismo?

Participar do Big Brother Brasil (Rede Globo) é uma espécie de passaporte para ser convidada a aparecer nua nas revistas masculinas. A disputa parece girar entre as revistas Sexy e Playboy. É curioso como o dinheiro e a fama desinibem algumas pessoas, contanto que se tenha o corpo certo… Manuela Saadeh, segunda colocada no BBB2, que posou nua em setembro de 2002, declarou:

"No primeiro dia eu estava bem envergonhada. O ensaio começou com roupa e fui tirando... até que o Duran [o fotógrafo] falou: 'Vai dançando e levanta a blusa'. Aí eu travei e não conseguia levantar a blusa. Pedi, então, que algumas pessoas saíssem do estúdio. Tive de tomar champanhe, que me deixou mais alegrinha e desinibida". (7)

Thaís Ventura, também do BBB2, se “lançou” na edição de janeiro de 2003. Em seus 19 anos, a revista explorou o fetiche masculino de Lolita, com direito a aparelhos nos dentes e bichinhos de pelúcia. Para quem não conhece, Lolita é uma estória escrita por Vladimir Nabokov. O tema gira em torno de uma relação erótica entre uma menina adolescente e um homem mais velho, bem mais velho. Thaís declarou:

"Foi muito difícil. A gente pensa que é fácil porque muitas mulheres lindas já fizeram. Mas quando é com você é difícil! Eu passei por um processo de insônia, nervosismo à flor da pele". (8)

"Enquanto  isso,  lá  bem  no  início  de  tudo...  'E,  como  Deus  me  permitiu
denominar  todas  as  coisas,  eu  vou  chamar  você  de  vaca,  você  de  burro,
 
 você de toupeira e você de idiota' ". (Millôr Fernades, revista Veja, 11/1982)

A recordista de vendas foi a paulista Sabrina Sato, que participou do BBB3, posando para a revista Playboy. Desta vez, o ensaio fotográfico foi acompanhado por impressões dos outros participantes [masculinos] do jogo que contracenaram com ela. Um deles, Harry, disparou: "Sabrina, uma mulher oriental que desorienta qualquer homem". O Big Brother já serviu de "palco" para uma nudez "alternativa". No paredão que eliminou Harry do BBB3, uma mulher invadiu o estúdio e tirou o vestido diante das câmeras e de um Pedro Bial [o apresentador] atônito. O nome da então anônima era Maria Eliane Lima Araújo, e ela tinha 18 anos.

Algumas outras mulheres, desta vez atrizes renomadas, também não vêem problema em posar nua. Cláudia Raia é bem objetiva, da última vez o problema foi o dinheiro oferecido: “gostaria de ser fotografada nua de uma maneira que nunca apareci antes. Meu corpo está mais bonito do que nunca e não encontraria problemas em casa por ser casada”. E completa, “em ensaio nu a gente se expõe de tal maneira que tenho de estar apaixonada pela mulher que vou representar. Sinceramente, depende mais da revista do que de mim” (9).

Luma de Oliveira concorda com Raia, posar nua não tem problema. Só não concorda com a estratégia, para ela não se trata de representar uma personagem: “no ensaio nu, não vivo um personagem. Sou eu ali, é meu corpo ali. Faço o trabalho com muita naturalidade”. Luma não só não vê problema em posar nua, como acredita que seus filhos achariam muito mais estranho se a vissem numa cena de amor em que ela estivesse apenas seminua. Curiosa é a diferenciação que ela faz em relação a revistas e televisão: acredita que o nu da revista é mais natural que cenas de amor na tevê.

“Em 2000, a atriz Vera Fischer escandalizou ao mostrar as virilhas não depiladas nas páginas da Playboy, aos 48 anos de idade. ‘Há artistas que posam porque querem ser vistas e desejadas. Trata-se de um narcisismo velado e me parece ser o caso da Vera’, diz o especialista em sexualidade Esdras Vasconcellos, da Universidade de São Paulo”. (10)

Hoje em dia, no que diz respeito a jovens artistas, a coisa é diferente. Existe (pelo menos por enquanto) certa resistência a fazer concessões à nudez gratuita, seja para alavancar a carreira, seja pelo dinheiro (11). Mas talvez exista um equívoco aí também, pois algumas acreditam que ensaios fotográficos sensuais na internet permitem que elas ganhem dinheiro sem precisar se expor muito. Como não se expõem? Com a popularização da internet… Sem mencionar que, caso as fotos delas não sejam muito acessadas pelos internautas, certamente não serão mais nem contratadas para fazer outros “ensaios”, nem serão pagas.

The Girl abre portas internacionais, carreira na TV e projeção nacional para vencedoras” (12). A manchete se refere a um concurso de “modelos”, promovido por um provedor de internet, ostenta como elemento que justifica sua importância, o fato de abrir portas para a carreira das participantes. A questão não é uma cruzada contra o erótico e/ou nudez na mídia. O problema é o fato de se viver numa sociedade na qual para entrar no mercado de trabalho e perseguir a oportunidade de um trabalho digno, a “projeção nacional” tem primeiro que vir a nudez dos corpos!

Alice Matkins, artista norte-americana, pinta quadros de mulheres cujo
corpo  está  totalmente  fora  do
padrão de beleza.  Ela procura resgatar o
corpo da mulher como ele de fato é.  À  esquerda, Rose, 87 anos; à direita,
Jonsey,  64  anos;   no  final  do  artigo,  à  esquerda,  Phillis,  68  anos.

Mesmo fora do ambiente artístico, a possibilidade de posar nua é uma espécie de “prêmio” das pessoas que por algum motivo (qualquer motivo) tornam-se visíveis na mídia – e, portanto, tornam-se vendáveis. Exemplo (torpe) disto se refere a certas mulheres que depuseram no Congresso Nacional recentemente em função dos escândalos relacionados ao Partido dos Trabalhadores. A secretária do publicitário e escroque Marcos Valério, que testemunhou contra ele, tirou as fotos na própria sala onde depôs – ou então foi um cenário que reproduzia o lugar onde se pretende fazer Justiça em nome do povo. A esposa (e também a irmã dela) do dono do restaurante do mesmo Congresso que foi o responsável pela queda de Severino Cavalcanti (presidente da Câmara de Deputados) também já foi sondada sobre a possibilidade de tirar fotos para uma revista masculina.

Corpo e Imagem

“Como começamos a cobiçar? Cobiçamos aquilo
que vemos... todos os dias!“

A frase vem do filme O Silêncio dos Inocentes (Silent of the Lambs, 1991). Uma agente do FBI insistentemente pergunta a um famoso ex-psiquiatra e atual canibal sobre o paradeiro de um assassino de mulheres. Procurando mostrar em forma de enigma qual é o objetivo desse assassino, o canibal enuncia esta frase. O assassino não matava por ódio, gostava tanto das mulheres que queria ser uma delas. Para alcançar seu objetivo, raptava algumas, contanto que estivessem meio gordas. No cativeiro, às engordava mais e mais. Então as matava, retirava partes de suas peles e costurava. Pretendia fazer uma roupa.

O assassino de mulheres parecia fixar a identidade delas no elemento mais visível. Para ele, ser mulher não teria nenhuma relação com a busca de uma alma feminina. Travestido com pele humana morta, baseava-se apenas na aparência: Ser mulher passava por parecer mulher. Platão já havia chamado atenção para a inutilidade do mundo sensível (13). (acima, imagem de Shrek, desenho animado norte-americano)

Beleza (ou a nova identidade) pode ser comprada? Num ponto pelo menos Jean Baudrillard tem razão, os fluxos simbólicos dos quais dependemos para dar sentido ao mundo e a nós mesmos estão cada vez mais longe de uma real satisfação dos desejos íntimos. Como uma tentativa de questionar o pessimismo de Baudrillard, lembre-se que no desenho animado Shrek (parte 2) nós temos um final inusitado, praticamente contraditório em relação ao mundo em que vivemos atualmente. Em certo ponto da estória, Shrek tinha tomado uma poção mágica que o transformara num ser “normal” – quer dizer, ele ficou bonito. A princesa, que tinha sido transformada em “anormal” (o que significa que ela ficou feia) e também voltou a ser uma mulher bonita por conta da mesma poção, em certo momento recusa o beijo de Shrek. É que no final da estória Shrek avisa a ela que, caso beijem-se, poderão ficar permanentemente com “aquela forma” – quer dizer, bonitos. Ela então recusa e dá a entender que aquele (o bonitão) não seria o homem com quem ela escolhera se casar! Ou seja, ela está preocupada com o sentimento que a aproximou dele, e não precisa que ele “conserte” seu exterior!

Resta o Corpo, Resta uma Questão… 

Sabemos, portanto, como resolver isso. Temos que mergulhar em nós mesmos. Ainda assim, resta uma questão. Quantas vezes você mudou de canal e as mensagens eram as mesmas? O problema é que a sociedade está comprometida com o mercado. Lembro neste ponto do filme O Show de Truman (1998), quando o personagem principal começa a se questionar sobre a incongruência do sistema.

Temos que admitir estarmos tão intoxicados com a avalanche da representação do mesmo ideal de beleza, que nos tornamos insensíveis ao fato de que se trata de modelos e não da realidade viva dos corpos. Na crença de que o ideal está à venda, não cogitamos mais na hipótese de que beleza talvez seja um estado de espírito. Estamos narcotizados com a hipótese de que a beleza pode ser comprada!

Collete resume com uma frase a querela em torno do nu no teatro francês em 1907: “soltem um seio!”. Pesquisas da época levaram à constatação de nudez no teatro desde a Antiguidade (14). Atualmente, decretou-se o fim da privacidade corporal no mundo ocidental [cristão…]. Esconder o corpo passou a ser muito explorado como aspecto selvagem dos muçulmanos. Opõe-se cobrir e descobrir o corpo, dando sinal negativo ao hábito cultural de cobri-lo. Poucos e poucas se perguntam se a pressão social para desnudar o corpo acaba se tornando tão opressiva quanto cobri-lo completamente. Até que ponto nudez pública significa libertação?

Curioso é que na busca desenfreada de uma beleza exterior desarticulada de outra beleza que é interior, muitas mulheres não percebem a abóbora que se tornaram! Bem, quem sabe o caminho para o interior seja esse, destruir o exterior ao tentar reconstruí-lo. No final a sensação de indefinição permanece e a questão volta: onde e como entra o corpo na busca da resposta à pergunta, ‘o que é ser feliz?’

Notas:

Leia também:

As Deusas de François Truffaut

1. BOLOGNE, Jean-Claude. Tradução Telma Costa. História do Pudor. Rio de Janeiro: Elfos Editora. Pp. 286-7.
2. Idem, p. 285.
3. Ibidem, p.288.
4. SODRÉ, Muniz. A ficção do tempo. Análise da narrativa de Science Fiction. Petrópolis: Vozes, 1973. Pp. 49-50.
5. CREED, Barbara. The monstrous-feminine. Film, feminism, psychoanalysis. London: Routledge, 1993.
6. WURM, Sabrina; DIAS, Leo. Em Busca do Corpo Perfeito In Jornal Extra, coluna Retratos da Vida, 08/07/2005. P. 12.
7. BBB’s saem da casa para as revistas masculinas In TERRA. Seção Gente & TV. 06/05/2004. Disponível em: http://diversao.terra.com.br/gente/noticias/0,,OI3527042-EI13419,00-BBBs+saem+da+casa+para+as+revistas+masculinas.html
Acesso em: 29/10/2013.
8. idem.
9. CARDOSO, Rodrigo. Elas posam porque gostam In Isto É GENTE, 21/01/2002. Disponível em: http://www.terra.com.br/istoegente/129/reportagem/capa_nu_04.htm Acesso em: 18/08/2008.
10. idem.
11. Reportagem de Rodrigo Cardozo. ISTO É, GENTE. 21/01/2002. Edição 129. Disponível em: http://www.terra.com.br/istoegente/129/reportagem/capa_nu_01.htm Acesso em: 18/08/2008.
12. Reportagem de Silvia Marconato. Disponível em: http://www.terra.com.br/thegirl/verao2003/materias/vencedoras_passadas.htm Acesso em:18/08/2008.
13. A fisiognomonia sempre baseou seus estudos na articulação entre a afirmação da necessidade de um mundo sensível e a crença na existência de outro inteligível. A verdade última seria encontrada apenas no inteligível.
14. BOLOUGNE, Jean-Claude. Op. Cit., p. 259.  


29 de jun. de 2008

Os Seios da República: Conexão Seios (Epílogo)



“Meus seios não são muito
grandes
. Por isso, não se trata
de um assunto importante”


Nicole Kidman,
atriz norte-americana,
comenta que adora
fazer topless


Seio + Silicone = ETesão 

Cada cultura gira em torno de seus próprios fetiches em relação ao corpo humano. As mulheres americanas, e todas aquelas dos países cuja cultura é colonizada pelos valores do “grande irmão do norte”, que o digam. Ou talvez nem saibam disso, já que uma das características mais enraizadas dessa cultura ocidental/mercadológica é a alienação. Até que ponto as mudanças de comportamento em relação ao seio são fruto na verdade de interesses comerciais? Até que ponto a mídia, com suas representações daquilo que seja uma mulher desejável, funciona como potencializador desse consumismo desfigurador? Ao final e ao cabo, os padrões de aparência são formados não por costumes sociais, mas por imagens criadas em função de interesses comerciais. É o capitalismo (as)segurando o seio como objeto de lucro! Um estudo sueco envolvendo 39 mulheres que optaram por implantes de silicone mostrou que a maior parte associava seios grandes e aumento da feminilidade. Na América do Norte, lá pela década de ’90, o aumento dos seios era a segunda operação cosmética mais freqüente, perdendo apenas para a lipoaspiração. As mulheres americanas gastam milhões em cirurgias cosméticas visando diminuir a parte inferior do corpo (a bunda) e aumentar a superior (os seios) (1). 

O surto das mulheres americanas em relação ao aumento de mamas começa em 1940. Lá pela década de ’50, ter seios pequenos passou a ser considerado uma espécie de doença, um problema médico. Várias foram as tentativas na busca do elemento ideal para aumentar o seio, e muitos os problemas clínicos posteriores às cirurgias até que em 1970 o silicone fosse utilizado. Apesar dos efeitos colaterais ainda não poderem ser considerados completamente sanados, as mulheres acreditam que os benefícios superam os riscos (2). Phyllis Porter, com 80 anos de idade em 2002, que ficara famosa por pagar 25,000 dólares por um tratamento com botox, é também a mulher de mais idade a aumentar os seios (3). Ao que parece, para os americanos (do norte) a imagem dos seios desnudos tem mais relação com dinheiro/silicone do que com simbolismo de liberdade. O que talvez explique porque este país gasta tanto com operações de aumento de mamas e ao mesmo tempo proíbe sua exposição pública. 

A nova República Francesa era frequentemente representada como uma
mulher “a abrir os seios a todos os cidadãos”. Na gravura da esquerda, A França
Republicana Oferecendo o Seio a todos os Cidadãos, cerca de 1790. Podemos ver uma
plaina de carpinteiro presa no decote, simbolizando a igualdade de acesso a todos. Gravura
da direita, A Natureza como Mãe Igualitária, cerca de 1790. Durante a campanha para
libertar os escravos das Índias Ocidentais, a Nação Francesa era retratada como uma
mãe generosa amamentando tanto uma criança branca quanto uma negra 


Onde Estão as Tetas da Senhora Liberdade? 

Quando o presidente norte-americano George W. Bush criticou a França por não ter aderido à invasão do Iraque, sugeriu que aquele país europeu estaria do lado errado. Também disse que tinham muito que aprender com os americanos e sua história. O que Bush parecia não ter aprendido na escola é que um dos símbolos de seu país (a Estátua da Liberdade, ao lado) foi presente do governo francês em 1865, em homenagem àquela que, ainda uma jovem nação, tinha a reputação de terra da liberdade. Muito antes disso, a ajuda material da França foi crucial para a independência norte-americana. A estátua surgiu de uma conversa entre franceses, que na ocasião viviam sob a opressão de Napoleão III, elogiando a capacidade dos americanos de estabelecer um governo democrático. Desejavam copiar esse modelo em seu próprio país. Dando um pequeno salto para 1987, alguns devem se lembrar da posição em que a atriz pornô Cicciolina se deixou fotografar durante a campanha em que concorreu ao parlamento italiano. Ela posou como a estátua da liberdade. Entretanto, Cicciolina mostrava os seios (imagem do lado esquerdo). Se lembrarmos das representações da república entre os franceses, iremos encontrar mulheres de seios desnudos. A idéia era sugerir que a República é como uma mãe, que acolhe e alimenta seus filhos, sem favorecimentos individuais. Por outro lado, quando os franceses desejaram homenagear a defesa da liberdade que caracterizava os norte-americanos, presentearam-lhes com uma mulher de seios cobertos.

Para sermos otimistas, talvez os americanos já fossem contra a exposição pública de seios, e os franceses não pretendessem questionar a representação da liberdade que aqueles pudessem ter. De fato, segundo Marilym Yalom, atualmente as leis americanas são rígidas, as mulheres são proibidas de expor os mamilos e/ou a zona abaixo deles. Por outro lado, lá na América (do norte) seio grande é mania nacional, embora aparentemente esse hábito nada tenha para oferecer além de um simbolismo erótico aliado à mercantilização de acessórios de sustentação – incluindo implantes de silicone. Na verdade, acho que os franceses só estavam seguindo modelos das estátuas gregas da Antiguidade Clássica. (abaixo, à esquerda, a Estátua da Liberdade beija a representação grega da justiça - de olhos vendados. Charge de autoria de Mirko)


Há muito que a idéia de Nação está ligada a imagem de seios nus. Como já foi apontado, na construção da noção de República, a representação escolhida pelos franceses foi uma mulher de seios nus. Bem antes já havia sido produzida uma diferenciação entre o “seio bom” e o “seio mau”. Lady Macbeth, a figura criada por Shakespeare, era uma dessas que tinha “seios maus”. O “seio bom” é aquele que vai prover alimento para seus filhos. “Foi o que aconteceu a quinhentos anos nas pinturas italianas da Virgem amamentando, e há duzentos anos nas imagens de seios desnudos da Liberdade, da Igualdade e da nova República Francesa” (4).


Não é por acaso que aqui no Brasil é muito comum o comentário de que alguém está “mamando nas tetas do governo”. Sim, porque de mãe provedora o Estado brasileiro nunca teve nada, desde sua fundação. Se “aprofundamos” essas associações simbólicas, talvez outros sejam os caminhos que constituíram as nádegas como a preferência nacional do brasileiro: o Estado para os brasileiros é mais um estuprador do que uma mãe com seios cheios de leite. Podemos até desejar que os seios da República do Brasil sejam empinados, mas deveríamos procurar ter certeza de que pelo menos não sejam falsos!

Os Seios Turbinados e Suas Personas (Ingratas)

Neste admirável mundo novo do artificial, somente as mulheres podem dizer se esta corrida para turbinar os seios é um comportamento histérico induzido pelos modelos de beleza impostos pela cultura de massas/americana ou se, ao contrário, é um brado de libertação (imagem ao lado, A Liberdade Guiando o Povo, Delacroix, detalhe). Não se trata aqui de uma cruzada contra os seios grandes. A questão é pensar a real motivação para (que as mulheres brasileiras desejem) inflá-los artificialmente (turbiná-los). Não serei eu que vou decidir por elas quem elas são, ou querem ser, ou acreditam que são. Não serei eu quem dirá que a sociedade de consumo manipula os desejos e interesses das mulheres que não suportam a pressão de ser como realmente gostariam de ser. Resta saber se elas percebem no que estão se tornando. Afinal, como disse Zelig/Woody Allen em outro lugar (5), é mais seguro ser como todos os outros. Não sou eu quem afirmará que tornar-se cópia dos outros é como adotar personas ingratas – duplos de si invertidos, que nos devolvem um mundo de ponta cabeça, justo o oposto daquilo que desejávamos. Não sou eu quem dirá que talvez seja aí a rachadura na prótese de silicone, por onde se infiltram e se reproduzem os modelos manipulatórios, subjacentes à cultura de massas.

Um seio é apenas um seio?

Leia também:

As Deusas de François Truffaut

Notas:

1. YALOM, Marilyn..História do Seio. Tradução Maria Augusta Júdice. Lisboa: Teorema, 1998. Pp. 18, 282 e 292.
2. GILMAN, Sander L. La sorprendente historia de la cirurgía estética In Cirurgia Estética. TASCHEN, Angelika (ed.). Köln: Taschen, 2005. Pp. 101-102.
3. Idem, pp. 97-101.
4. YALOM, Marilyn. Op. cit., p. 14.
5. Me refiro a Zelig (1983), filme dirigido pelo norte-americano Woody Allen.

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