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Roberto Acioli de Oliveira

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9 de jan. de 2010

Arte do Corpo: Jan Saudek e o Tempo




“Nossa vida é uma

jorna
da, uma jornada
até o fim da noite
...





Autobiográfico, o trabalho de Jan Saudek é único, foge a todas as classificações – ou, na sua classificação possível, ele está sozinho. Ele sempre esteve à frente de seu tempo: criava encenações para suas fotografias antes dessa onda aparecer, manipulava as imagens antes de isso virar moda, fotografava a si mesmo antes que os existencialistas começassem a fazer isso. A questão da identidade centraliza nossa atenção nas imagens criadas pelo fotógrafo Tcheco Jan Saudek, apresentando a condição humana em todas as suas contradições inerentes (1). Até o final dos anos 70 do século 20, seu trabalho era uma celebração da “Família Humana”, a apoteose da feminilidade, masculinidade, maternidade, paternidade, infância, amor... as questões do nascimento e da morte. Nos anos 80, a dualidade das emoções começa a aparecer em seu trabalho. A relação entre amor e ódio, sinceridade e dissimulação, beleza e feiúra, juventude e velhice. Elementos contraditórios que se complementam, criando uma tensão dramática. Nos anos 90 temos as questões concernentes ao sentido da vida. Focando na corporeidade, brutalidade, quase perversão e algum masoquismo, a obsessão de Saudek pelo corpo (qualquer corpo, seja velho, gordo ou deformado) não é guiada pela moderna estética do repugnante, mas por um hedonismo erótico.

Um fotógrafo que não acredita no acaso, Saudek não se aproveita daquilo que aparece no caminho. Ele busca infatigavelmente retratar o que tem no coração (imagem acima à esquerda, Hands, 1971; acima à direita, Card nº 358, 1988; à esquerda, ?, 1997; abaixo, Goodbye, Jan (I), 1994). Muitos são seus imitadores, mas falta em suas fotografias uma coisa que para Saudek é a diferença de seu trabalho: “Eu fotografo meus amados através do prisma do amor...” Qual é o tema de Saudek, futilidade cômica? Kitsch? Contos de fada obscenos de um exibicionista? Pornografia? Quando lhe perguntam o que essa ou aquela imagem significa, ele diz não saber:

“O artista também não compreende. Ele é um idiota, criando em função de um tipo de necessidade” (...)”É claro, todo esse esforço aflito, essa desesperada e obstinada tentativa de capturar aquelas poucas pessoas que eu amei, para gravar sua aparência de uma vez por todas, não é nada senão o antigo desejo sem sentido de parar o tempo. Minha câmera em minha mão e minha vida na minha frente – e ao comando, na moda militar: Alto!” (2)



O erotismo está presente
nas fotografias de Saudek
. Eróticas,
mas não vulgares
. A pornografia aponta
para o apetite sexual
, nas imagens de Saudek o erótico é apresentado
como parte da vida




Corpos nus, posições eróticas, algum sadismo, lesbianismo, hermafroditismo, vulgaridade. Saudek já foi acusado de fazer pura pornografia. Não se questiona que ele utilize alguns componentes pornográficos. Entretanto, sugere Daniela Mrázková, como um escritor que utiliza certo vocabulário que não ocorre na linguagem diária, Saudek lança mão de alguns artifícios que constituem tabu para a maioria das pessoas (seja porque suas imagens são muito intimistas ou simplesmente indecentes). (imagem ao lado, Mother and her Children, 2003; acima, à esquerda, The End of the Film, 1997)

Saudek faz uso sistemático de tudo que influenciou nossa cultura por milênios e não apenas sexo e o erotismo. A respeito disso, é curioso notar que a utilização de armas, ou cigarros, ou suicídios em suas fotografias, não parece causar o mesmo rebuliço! A distinção que ele faz entre arte e pornografia é bastante singela: “Para mim, a diferença entre pornografia e arte é simples – você pode olhar para a arte por uma eternidade, enquanto com a pornografia você dá uma olhada e coloca de lado porque tudo é explícito, não há mistério, a fantasia não tem lugar ali”. (3) (ao lado, The Dancer, 2003)


Foi através da publicidade que Saudek acompanhou a popularização de seus trabalhos mais ousados, quando então se abriram as portas das coleções públicas e privadas para sua obra. Paradoxalmente, as visões eróticas de Saudek parecem não caber no mundo de hoje: são eróticas, mas não são vulgares - e muitos confundem as duas coisas. O objetivo da pornografia é despertar o apetite sexual, Saudek trabalha com o exagero humorístico, apresentando expressões do erótico como parte da vida. Com isso, ele evita o banal e o kitsch, tudo que poderia (pela incompreensão e a preguiça) ser chamado de pornografia. (ao lado, The Disobedient Daughter, 2001)

Notas:

1. MRÁZKOVÁ, Daniela. Jan Saudek. Köln: Taschen, 2006. P. 48.
2. Idem, p. 42 e 44.
3. Ibidem, p. 44.

10 de dez. de 2009

Estética da Destruição




O maior
princípio
de beleza
é a saúde”

Adolf Hitler






Arquitetura da Destruição
(1992) (1), documentário de Peter Cohen, mostra a articulação entre o ideal estético nazista e a perseguição aos judeus. Vejamos alguns elementos desse ideal estético. A tomada do poder por Hitler incluía uma ampla “limpeza estética” das impurezas que supostamente degeneravam o espírito ariano. A meta do Nacional Socialismo era a verdadeira Pureza. Afirmavam conhecer a origem de uma grande ameaça a essa pureza que, quando erradicada, permitiria o surgimento de uma nova Alemanha.

Na música, Richard Wagner era o ídolo de Hitler, que admirava o que considerava a melhor mistura de um artista criativo e um político em um só homem. Hitler absorveu as propostas de Wagner: anti-semitismo, culto ao legado nórdico e o mito do sangue puro, arte para uma nova civilização. Um artista-príncipe nascido do povo, unindo a vida e a arte, anunciando o Estado Novo. Em certo momento, Hitler teria dito que aquele que não compreender Richard Wagner não compreenderá o Nazismo.

A escultura gozou de popularidade na lógica da estética de Hitler, pois era pública, ao contrário da pintura. O gigantismo era um elemento básico nas esculturas encomendadas pelo Partido Nazista – o que fazia delas habitantes do espaço público. Deveriam ser vistas mesmo à distância. Ninguém estaria com seus olhos longe de uma, assim que se levanta a cabeça. Ainda assim, a escultura deveria se adequar à arquitetura. Ela deveria ser pensada em função dos prédios e estádios que iria decorar. Gigantismo também em relação aos encontros da massa do povo. Nos comícios, as massas que ocupariam esses grandes espaços arquitetônicos, eram de grande importância para os nazistas – elas encarnavam o mito do Corpo do Povo alemão. A massa vista como um corpo e seu sistema circulatório, deveria buscar uma pureza racial. Pode-se dizer que Hitler foi um grande coreógrafo das massas. Ele deu forma ao nazismo, criando os uniformes, as bandeiras e os estandartes. A tristemente famosa insígnia do Partido Nazista foi criada em 1923. (imagem acima, cena de Olímpia, filme dirigido por Leni Riefenstahl, registra as olimpíadas de 1936 em Berlim, sob os olhos atentos de Hitler. A cena, muito difundida, do atleta negro norte-americano Jesse Owens vencendo os alemães é enganadora, já que nos Estados Unidos o racismo era praticamente institucionalizado)


A arte tinha grande importância dentro do ideal nazista de pureza. A degeneração cultural era considerada uma ameaça. Identificavam um “bolchevismo cultural” que estaria sendo engendrado pelos judeus. Para os nazistas, a vanguarda artística era evidência de depravação cultural e intelectual. A oposição em relação a todas as manifestações da arte moderna era considerada uma “necessidade higiênica” desse Corpo do Povo. Em 1928, fundada a primeira organização cultural nazista, tendo o comandante da SS Heindrich Himmler como um de seus patronos, é deixada sob o comando de Rosemberg. Inicialmente a Sociedade Nacional Socialista da Cultura Alemã muda seu nome para Defesa da Cultura Alemã. (imagem acima, escultura de Arno Brecker)

O Partido defenderia o Corpo do Povo, afastando de seus olhos os artistas modernos cujas obras mostrariam sinais de doença mental. A partir de 1931, o professor Paul Schultze-Naumburg faz comparações entre obras de arte moderna e fotos de pessoas com problemas físicos e mentais. A idéia era ligar degeneração com perversão artística, uma vez que em sua opinião somente se poderia encontrar os modelos dessa arte nos manicômios - nos quais, completa o professor, “se reúne a degeneração de nossa espécie”. Para Schultze-Naumburg, arte é espelho de saúde mental. Como Hitler, o professor via saúde apenas nas obras da Antiguidade greco-romana e no Renascimento. O embelezamento do mundo é um dos princípios do nazismo. Segundo a ideologia nazista, a miscigenação degenerou a beleza original do mundo; por isso a defesa de uma volta aos antigos ideais. (imagem abaixo, à direita, cena de O Triunfo da Vontade, 1935, também dirigido por Leni Riefenstahl)

O médico torna-se
um elo importante entr
e saúde e beleza - um perito em estética. Não porque agora todo mundo vai fazer plástica, mas porque vai purificar a raça: é a idéia dos assassinatos
em massa


Nenhuma outra profissão
tinha tantos membros do Partido
-
com 45% dos médicos alemães
em seus quadros



Nas palavras de Cohen: “O assassinato em massa foi a conseqüência final da ambição de Hitler em criar o novo homem. A maquiagem do culto nazista à beleza encontrou seu caminho na câmara de gás. A matança era uma missão biológica, um tributo sagrado ao sangue puro. As fábricas da morte faziam saneamento antropológico. Eram o instrumento de embelezamento”.

Notas

1. No Brasil, foi distribuído em vídeo por Cult Filmes, 1992. Em dvd por Versátil Home Vídeo, 2006.

4 de jun. de 2009

O Corpo Suficiente (final)


“Agrade a todos e não
agradará a ninguém”

Esopo (1)

Virgindade Madura e Infantilidade Imatura

Somos compostos de carne e dúvidas. Não dá para esconder as últimas debaixo de maquiagens ou plástica ou botox, ou etc. Também não é possível eliminar as dúvidas para sempre, pois elas se sucedem a cada novo passo. As dúvidas, na verdade, são elementos essenciais, nos empurrando para buscas.

São elas que fazem o rio fluir em todas as direções – rompendo a maldição cronológica. A dúvida sobre aquilo que queremos ser (criança, maduro, velho) pode nos empurrar para várias respostas. Mas se é assim, como podemos ser criança, adolescente virgem e ao mesmo tempo um(a) velho(a) com vários filhos criados? Conceber uma personalidade tripla (que aqui não têm nada a ver com psicose), ao mesmo tempo criança-maduro(a)-idoso(a) não impede a constatação de nossa virgindade - que não está nos orgãos sexuais, mas no coração. Ela também é um sentimento. Só chegamos à velhice madura se resgatamos a inocência da virgindade da criança que temos dentro de nós. Sem essa virgindade, qualquer tentativa de rejuvenescer através de produtos artificiais não gera outra coisa senão pessoas regredidas e infantilizadas. (imagem acima, Interior no Verão. Edward Hopper, 1909)

Criando Um Monstro Maquiado

Então como fazem as mulheres pobres, para quem produtos de beleza ou plásticas estão fora do orçamento? Como faz quem não têm poder aquisitivo para se autoconhecer e ser feliz? Quem é pobre não pode “se cuidar”, portanto não há beleza sem dinheiro (imagem ao lado, 26.06.2002 Auto-Retrato. Gianguido Bonfanti). Isso faz sentido? O que pode um corpo sem a “indústria do rejuvenescimento da burguesia”? Temos então mais um dos tantos mecanismos de segregação social e racial. Até a sacola da padaria têm que ser de grife, senão ficamos parecidos demais com pobres carregando marmita! Mas afinal, de onde surgem fenômenos como a indústria do rejuvenescimento? De onde surge a motivação que torna natural a opção pela plástica facial, pelo botox, pela lipoaspiração, por produtos de beleza e mascaramento da idade cronológica? Quando e por que mascarar a idade passa a ser uma opção?

Como e por que esse valor (rejuvenescimento) se grudou ao exterior de nossos corpos e adquiriu relevância na afirmação de mudança interior? Por que modificar o exterior do corpo passou a ser sinônimo de mudança exterior (ou interior)? Quando um creme para controle de celulite passou a ser um elemento importante para a auto-estima? Um creme anti-rugas, antiestrias ou anticelulite é mais importante que o autoconhecimento? Cremes como estes ajudam mesmo o autoconhecimento?

Em Literatura de Auto-Ajuda e Individualismo, Francisco Rüdiger mostra como os manuais de auto-ajuda surgem no vácuo de uma mutação na Modernidade. Se antes o indivíduo recebia da tradição valores nos quais acreditar e justificar suas ações, agora é ele que deve administrar sua identidade. O problema começa, não é tão simples estabelecer parâmetros numa sociedade como a nossa, onde tudo vira mercadoria, onde há uma cisão entre pensamento e ação. Onde as práticas de conhecimento de si são engolidas pela cultura de massa. Rüdiger distingue a auto-racionalização (daquele que, percebendo-se cidadão de uma sociedade racionalizada, racionaliza seus hábitos, adequando-se ao sistema), teorizada por Max Weber, do conceito de reflexividade (capacidade de auto-observação, quando medito sobre meu modo de ser) sugerido por Karl Manheim: “Normalmente, o homem não se volta para si mesmo, dirige-se apenas às coisas que maneja, troca ou deseja fazer. Seu próprio agir permanece sem observação. A experiência imediata é onde se vive, de onde se parte, sem que se capte seu próprio sujeito” (2). (imagem ao lado, 12.07.2002 Auto-Retrato. Gianguido Bonfanti)

A literatura de auto-ajuda entra como elemento de compensação em relação à desintegração dos referenciais coletivos, uma característica das sociedades industriais do século 20. A libertação em relação às representações coletivas, que outrora engessavam a identidade, bate de frente com uma sociedade cada vez mais complexa, que tende a desintegrar a personalidade. Há uma precarização da subjetividade que, exposta à possibilidade constante de perda da unidade, mantém como pode os elementos de algo que possa chamar de identidade. A individualidade depende agora de reciclagem permanente, única forma de o indivíduo preservar sua condição de agente social. A liberdade desse indivíduo torna-se profundamente problemática no contexto de uma sociedade degradada, a literatura de auto-ajuda entra aí como uma das mediações a partir das quais as pessoas procuram construir um eu. Mas esse talvez seja um remédio que limita mais do que liberta, pois a literatura de auto-ajuda tende a reintroduzir valores tão clichês quanto aqueles da cultura de massa. (imagem ao lado, 13.03.2002 Auto-Retrato. Gianguido Bonfati)

Trocar um clichê por outro, ou seis por meia dúzia, talvez não baste para aqueles que buscam mais o auto-conhecimento de seus labirintos do que palavras açucaradas. Portanto, talvez a busca caótica pelo eu de cada um seja mais proveitosa do que a compra de mais um manual para nos dizer o que fazer (e, portanto, nos dando ordens, exatamente como a tradição fazia antes, nos obrigando a obedecer regras sem questionar, como condição para atingir a felicidade). A indústria do rejuvenescimento seria mais um desses mediadores que entra no vácuo identitário, ou reflexivo, da despersonalização. Daí essa tendência a aderir às novas tentativas de matar a charada do ser (feliz): cremes, plásticas, lipoaspiração, etc… A questão é que nesses processos o corpo pode não agüentar. O problema é a capacidade ou não do indivíduo escapar das armadilhas da indústria cultural e de massa – onde tanto indústria do rejuvenescimento quanto mercado editorial, do qual fazem parte os livros de auto-ajuda, estão inseridos. (imagem ao lado, 09.08.2002 Auto-Retrato. Gianguido Bonfanti)

Quando seu corpo será suficiente?

Eu Só Queria um Corpo Mais Corajoso

Uma vez ouvi na televisão uma tese bizarra. Alguém dizia que essa ditadura da magreza imposta às modelos das passarelas não têm nenhuma relação com a hipótese de que as mulheres precisam ser magras para poder vestir qualquer roupa que se lhes apresente o estilista. Ao contrário, afirmavam, não haveria nenhuma necessidade dessa imposição de um corpo esquelético, anoréxico e bulímico. Tudo não passaria de um complô dos homossexuais (que geralmente são os estilistas) contra as mulheres. Eu realmente não me lembro quando nem quem disse isso na televisão. Uma coisa se pode constatar, quase sempre somente AS modelos são bulímicas, OS modelos não.

Os homens que desfilam, geralmente estão bem nutridos e muito bem tratados. Não têm nenhum esquelético. Eu só não consigo explicar, seguindo essa lógica bizarra, por que AS modelos que trabalham para estilistas mulheres também são esqueléticas (imagem acima, Cinema em nova York, 1939; abaixo, Interior [Modelo a Ler], 1925. Edward Hopper). Será que essas mulheres (estilistas) não perceberam que seu gosto (sexual) por mulheres esqueléticas talvez obedeça à imposição misógina de seus colegas (estilistas)?

No fundo, pouco importa se a culpa é dos homossexuais. Até porque nós, elas e eles, todos somos vítimas do mercado de consumo – a falta de consciência disso talvez explique a pouca solidariedade entre nós, uns pisando nos outros, enquanto o mercado manipula a todos impunemente. Mas por que será que as mulheres não percebem essas manipulações (no fundo misóginas) de seu ego e seus corpos? Não dá para desconfiar nem um pouquinho de certas imposições feitas ao corpo feminino? Não dá para lembrar o exemplo (da mercantilização) da erotização da criança na televisão brasileira? De qualquer forma, a mulher sempre foi a “criança” preferida do mercado. (abaixo, 13.07.2001. Gianguido Bonfanti)


Mercantilização da libido infantil, meninas adolescentes mais preocupadas em se maquiar do que em viver a vida, mulheres infantilizadas mais preocupadas com a imagem do que com a substância interior, será esse o panorama do feminino no século 21? Será este o legado do feminismo? Não é que as mulheres não devem se cuidar ou se arrumar – fazer plástica, lipoaspiração ou injetar botox. Também não se defende que os homens devem largar o viagra, não se trata de negar um aumento de potência sexual fora de época. Não se trata de negar à mulher idosa ou às adolescentes o direito de se maquiarem até sufocarem todos os poros da pele. O que é importante é perceber o limite do exagero. O que é sábio é perceber até que ponto desejamos fazer isto ou aquilo ou se estamos sendo induzidos por pressões sociais preconceituosas e/ou mercadológicas. Usar a indústria do rejuvenescimento não é o problema, mas ser usada por ela sim.


Se a mulher não percebe essa fronteira, não me parece justo afirmar que com quilos desse ou daquele produto a vida vai parecer melhor. As mulheres acabam perdendo de vista que não existe corpo suficiente para suprir essa falta nutrida pela indústria do embelezamento (do seu exterior). Não há corpo suficiente porque sempre haverá um produto novo no mercado. Nunca haverá corpo suficiente porque o corpo humano não é isso, ele não foi pensado (por Deus?) como algo congelado no tempo, algo que não muda – a mulher não pode se comparar à comida congelada. A vantagem do corpo humano é exatamente o fato de que ele está sujeito à mudança. Essa é a qualidade do exterior do corpo que pode mudar o interior: a mudança física no corpo sugere que o interior (espiritual ou o que for) não só pode como deve mudar. Nesse sentido, as marcas do envelhecimento do corpo não são parte do problema, são parte da solução.

Em O Céu Que Nos Protege (The Sheltering Sky, direção de Bernardo Bertolucci, 1990) (imagem abaixo), temos um casal no deserto em busca daquilo que se perdeu em seu amor. Logo no início faz-se uma distinção entre turista e viajante. O primeiro quer logo voltar para casa, enquanto o segundo pode nunca mais voltar – como um rio, ele simplesmente vai. Em certo ponto, o marido morre. Kit, a viúva, parte então pelos caminhos do deserto com uma caravana. Lá pelas tantas, é resgatada no hospital com um olhar perdido. A pergunta é, onde está a vida afinal, para onde devemos olhar? Como olhar para o interior sem confundi-lo com o exterior? Cadê meu corpo? Cadê minha vida? Kit volta ao bar onde estivera no início de sua busca com seu marido. De repente ela vê um velho, que parece falar com ela telepaticamente.

Velho: Você está perdida?
Kit: Sim.
Velho: Porque a gente não sabe quando vai morrer. A gente pensa na vida como um bem inesgotável (3). As coisas acontecem certo número de vezes. Um pequeno número, na verdade. Por quantas vezes você se lembrou de uma tarde de sua infância, uma tarde tão comum, mas que você não poderia viver sem ela? Talvez umas quatro ou cinco vezes, talvez nem isso. Quantas vezes você vai admirar a lua? Talvez vinte. E ainda assim parece sem limites.


Cadê sua vida? Cadê o corpo que você tinha? Você tinha vida quando tinha aquele corpo? Quantas vezes você percebeu o mundo lá fora? Quando vamos entender que nossos corpos são frágeis sutilezas da vida relegadas a segundo plano em nossas próprias lembranças? Por que colocar no corpo mais esse fardo de carregar a culpa por nossa incapacidade em buscar a felicidade?

Quando seu corpo será suficiente?

Notas:

1. Conhecido como o primeiro fabulista da história. Grécia, séc. VI a.C.
2. RÜDIGER, Francisco. Literatura de Auto-Ajuda e Individualismo. Rio Grande do Sul: Editora da Universidade. 1996. P. 12.
3. Na edição lançada em 2006, na versão dublada em português a palavra ‘inexhaustible’ foi traduzida por ‘incansável’.

3 de jun. de 2009

O Corpo Suficiente (II)


Alguns  grupos  humanos,
como os nazistas, consideram
o   diferente   inferior.  Algumas
pessoas,    por   outro   lado,    são
tão    obcecadas     pela     imagem
 do  diferente  que  terminam por
 anular justamente suas próprias
características   originais,   que
 as   tornam  diferentes


Espelho, Espelho Meu...

Faz alguns anos que assistimos à disseminação de mais uma bizarria contra o corpo humano. Especialmente na China, um país onde a estatura das pessoas é menor do que no Ocidente, faz sucesso uma cirurgia ortopédica para aumentar a altura das pessoas. E adivinhem em que grupo essa prática faz mais sucesso? Os jovens. Esta cirurgia já existe a uns cinqüenta anos, sendo indicada basicamente para correção de deformações físicas. Mas o caso Chinês tem uma motivação bem diferente. Com a dominância do modelo de beleza ocidental, os chineses começam a discriminar suas próprias características físicas. Não querem mais ser baixos, como a natureza os fez e com isso deu-lhes características próprias.


Resultado, para ganhar alguns centímetros a mais, as mulheres chinesas submetem-se a sofrimentos talvez ainda maiores do que aqueles decorrentes do comportamento anoréxico e bulímico que se alastra no mundo em proporções epidêmicas. A cirurgia consiste em quebrar as pernas em vários lugares, mas apenas a camada externa do osso, deixando a medula intacta. Fios de aço ligam os ossos a uma estrutura metálica que envolve a perna. Essa estrutura é reajustada quatro vezes por dia, esticando o osso. A cada ajuste, o corte feito no osso se abre e o espaço é preenchido com tecido ósseo no processo de regeneração. Detalhe, o processo não é indolor. (imagem no início do artigo, Ministro do Tempo, 1976. Roberto Magalhães)

Originalmente, o chamado Método Ilizarov é utilizado no tratamento de fraturas graves, nanismo e vítimas de poliomielite. Portanto, mais um procedimento corretivo que passa a ser utilizado com objetivos estéticos e cosméticos. A média é de um ganho de 10 centímetros de altura em seis a sete meses. Existe risco de infecção e o procedimento deixa cicatrizes, os ossos podem ficar fragilizados e fraturas podem ocorrer ao caminhar. Mas a advogada Zhang Xiaoli acha que vale a pena o sacrifício, vejamos seus argumentos: “Não me preocupo com os riscos nem com os custos. Para mim esse é um investimento a longo prazo, já que terei um emprego melhor, um namorado melhor e finalmente um marido melhor” (...) “Sendo baixa, eu não tinha trunfo nenhum para conquistar isso tudo” (1).

Os chineses não são especialmente baixos, mas numa sociedade chinesa que se torna cada vez mais competitiva, seja no mercado de trabalho seja no amor, a estatura passou a ser um critério importante – tanto para conseguir emprego quanto um bom casamento. Curiosamente, o Ministério do Interior e o Exército Chinês incentivam a prática ao exigir uma altura mínima de 1,70 para homens e 1,60 para mulheres. No Brasil, em 2002 havia o registro de uma média de 30 casos por ano, sempre acompanhados de um laudo psicológico do paciente. Na Austrália, recentemente, uma mulher se submeteu à mesma cirurgia alegando que suas chances de ser eleita na política local. Segundo ela, “muitas mulheres são inseguras em relação a seu peso ou seu nariz; a minha é meu tamanho” (2). (imagem ao lado, Caligrafias [coloração invertida]. Acima, à direita, detalhe de 08.07.2000. Ambos de Gianguido Bonfanti)

A tirania do espelho é uma arma bastante utilizada pela indústria do rejuvenescimento ou da beleza, e geralmente contra nós. Quando olhamos para o espelho, não vemos com nossos olhos, mas através das compulsões induzidas pelo mercado de consumo (imagem ao lado, Reflexos do Passeio, 1998. Gil Vicente). Não vemos mais com nossos próprios olhos... Talvez por isso nosso corpo nunca nos satisfaça... Porque já não nos satisfazemos com nós mesmos... Porque já não sabemos o que realmente desejamos. Falta-nos tudo, inclusive nós mesmos... Talvez a pergunta (“quando seu corpo será suficiente?”) não faça mais sentido porque não há (ou ainda não há) o suficiente de nós dentro de nós. Tudo é falta. Tudo é dor. Como poderíamos então chegar a conceber a pergunta “quando seu corpo será suficiente?”

A Tirania Cronológica: A Vida Como Tic-Tac 

O velho ou, homem da Terceira Idade, compra o viagra para ter o desempenho sexual de um adolescente – aparentemente sugere-se que é essa a sabedoria a se adquirir com a Terceira Idade... o que já implica uma desvalorização de sua faixa etária por ele mesmo. Homens e mulheres em idade madura se preparam para pintar os cabelos brancos assim que aparecerem. A adolescente se pinta como uma psicótica para esconder uma velhice que ainda não existe - e aos poucos vai aprendendo que o importante é pescar alguém com dinheiro para seu futuro e para o futuro dos seus tratamentos psicóticos de beleza (imagem ao lado, Tempo Ordena a Velhice que Destrua Beleza, 1746. Pompeu Bartoli). Projetando essas vidas para o futuro, o aumento da expectativa de vida propiciado pelos avanços da medicina chega a ser uma perspectiva torturante. A propósito, mais tempo de vida é sinônimo de felicidade? Acabamos aceitando o pior da juventude, sua falta de compromisso com as conseqüências de seus atos. A indústria do rejuvenescimento precisa apostar numa infantilização de sua clientela, caso contrário os consumidores começam a refletir sobre seus atos.

O problema não é que eles pensem o que quiserem pensar, mas que acabem decidindo não comprar os produtos oferecidos. Já pensou se alguém ganha mais quarenta anos de vida e a indústria descobre que essa pessoa nunca vai consumir seus produtos? Seria o caos mercadológico! Desta forma, as pessoas que consomem esses produtos se adaptam à idéia de que “remoçar” é regredir no tempo. E também aceitam que “regredir” é uma coisa boa.

Explodir o tempo não é isso! Se querem tomar viagra para voltar no tempo, então vão em frente. Se desejam se maquiar de manhã cedo, ou fazer uma maquiagem permanente, ou fazer uma plástica, para voltar ao que um dia foi, então vão em frente. Mas o tempo somente será recuperado na medida em que não negamos que sua natureza é fluida: ele não anda só para trás ou para frente, ele anda para trás E para frente. Se velho é aquilo que já passou, então as mulheres maduras e idosas deviam entender que o comportamento adolescente deve ficar no passado. Mas não é o que acontece, e elas acabam revivendo sua adolescência como passado – o lado infantil da adolescência. (ao lado, Eu, 1994. Abaixo, A Ilha. Ambos de Roberto Magalhães)


A juventude não está lá (no passado representado pelo visual exterior, ou por um comportamento “jovem” vivenciado como regressão). Ela está aqui mesmo, no presente. A natureza fluida do tempo sugere que passado, presente e futuro são simultâneos – e não fases sucessivas. O presente só acontece porque passado e futuro estão inseridos nele. A expressão, “voltar no tempo”, deveria ser banida, pois está envenenada por um ponto de vista cronológico. Tomar viagra ou fazer plástica não é a questão, ou pelo menos não toca na questão do tempo em sua complexidade. O ponto de vista cronológico simplifica tanto a questão do tempo da vida que acaba deixando a impressão de que o tempo é só isso – começo, meio ou fim.

O “comportamento jovial” de alguém que física e cronologicamente não é mais um jovem não deveria indicar uma tendência regressiva, mas é justamente a isso que induz o ponto de vista cronológico. Assim, primeiramente a ênfase no ponto de vista cronológico nos faz sentir inferiores (atacando nossa auto-estima), já que nosso exterior não é mais jovem. Em seguida, o próprio ponto de vista cronológico vende para nós a solução – e “vender” é o verbo correto para ser empregado aqui. Qual é a solução? Reverta a cronologia de seu exterior, fique mais jovem por fora, disfarce a maturação de seu corpo físico, disfarce sua velhice!

Para tentar romper com o ponto de vista cronológico, talvez “comportamento jovial” não tenha que entrar em contradição com o corpo físico. Jovial é aquele que aprende a viver a soma da juventude, da maturidade e da velhice (passado, presente e futuro) como simultaneidades. Cair de cabeça na indústria do rejuvenescimento, pensar cronologicamente a vida, é instrumentalizar demais coisas que não são materiais. A jovialidade é um sentimento e, como tal, não poderia ser fruto de uma plástica ou de um produto químico. Tomar viagra ou fazer plástica não é a questão. A questão é reforçar o sentimento de juventude-maturidade-velhice enquanto simultaneidade que está dentro de nós o tempo todo – sim, inclusive no bebê e na criança. Ser jovem, maduro e idoso, são sentimentos concomitantes em nosso presente e afloram o tempo todo de acordo com os humores de cada momento. Enfatizar apenas um em detrimento dos outros é como tentar andar com apenas uma perna. É esquecer que nosso andar depende não só da outra perna, mas também da coluna, da bacia, dos braços, da cabeça, dos músculos e do sangue. Nesse sentido, passado, presente e futuro se intercambiam para formar o sentimento do viver.

Quando seu corpo será suficiente?

Esculpir o Tempo, Fluir a Vida


O tempo deveria
ser   entendido   como
um aliado de nossos corpos
.
A passagem do tempo deveria

ser um alívio  e  não uma fonte
de   desnorteio
.  Mas  este  tipo
de  raciocínio  não  é  lucrativo

para o mercado de consumo
(que   nos   consome)





O tempo não está aí para ser esquartejado e transformado em produto para vender. O tempo está aí para ser esculpido. Deveríamos nos preocupar em esculpir não nossos corpos, mas nossas vidas. Naturalmente, eu percebo que o tempo se esculpe em nossos corpos. Mas, quem sabe, talvez sejamos nós que o esculpimos em nossos corpos, mesmo que não tenhamos preocupações quanto ao rejuvenescimento. Ou talvez não, quem sabe é ele mesmo se esculpindo em nossos corpos. Talvez ele esteja tentando dialogar conosco. Talvez o tempo esteja procurando uma forma de nos dizer que ele não é um problema, mas parte da solução. Mas não ouvimos. Preferimos não ouvir! Preferimos acreditar que ele lança sobre nós uma maldição cronológica. E alguém nos fez preferir lutar com as mesmas armas cronológicas. (imagem acima, Mulher do Futuro, 1975. Roberto Magalhães)

Mas o tempo não para, não para não! O tempo cronológico não, mas esta é apenas uma das facetas do tempo. Ele flui também, em todas as direções simultaneamente. O fluir de um rio, por exemplo, não é apenas cronológico. Sim, ele segue sempre uma direção, mas enquanto isso ele se bate em todas as direções possíveis. A questão é que essas direções possíveis no interior de sua correnteza deveriam importar mais do que o fato inexorável de que ele sempre terminará no mar. Sim, o rio passa sim! Mas é o seu fluir que importa. A passagem do rio (tempo) esculpi as margens e a paisagem (nossos corpos físicos?), o turbilhão da correnteza esculpe seu interior! O rio esculpe as margens enquanto esculpe a si mesmo. Mas essa escultura interior que o rio faz de si mesmo depende da firmeza com que as margens são marcadas solidamente na terra e na rocha. Portanto existe uma interação entre o interior e o exterior, entre o tempo que flui e o tempo cronológico. Um não existe sem o outro, o rio só seguirá em frente se tiver um turbilhão – se tiver vida interior. Só terá um turbilhão interior seguindo em frente, para o mar que o dominará fisicamente.

Quando seu corpo será suficiente?

Notas:

1. Os Chineses querem Crescer. Cirurgia Ortopédica Para Aumentar a Estatura Vira Obsessão na China. Natasha Madov. Revista Veja, 22 de maio de 2002.
2. Australian councillor, Hajnal Ban, has legs broken to become taller. Sophie Tedmanson. Times online, 01/05/2009. Disponível em:
http://women.timesonline.co.uk/tol/life_and_style/women/article6196646.ece Acessado em: 28/05/2009. 

2 de jun. de 2009

O Corpo Suficiente (I)





“O tédio mortal
da imortalidade”

Jean Cocteau
O Sangue de um Poeta







Me Dêem Um Corpo

Asas do Desejo (Himmel Über Berlin, direção de Win Wenders, 1987) (imagem abaixo) conta a história de um anjo que caminha entre as pessoas, ouvindo seus pensamentos eternamente. Seu mundo é preto e branco, o mundo dos humanos é colorido. Acompanha crises em família, dúvidas existenciais, avalia o que os humanos fazem de sua materialidade, seus corpos. Em certo ponto, ele se apaixona por uma trapezista de circo. O anjo começa então a perceber a distância que os separa: ele não tem corpo e é invisível. A única maneira de efetivar seu amor é tornar-se humano. Só que isso implica abdicar de sua imortalidade. Tornar-se corpo vivo, significa tornar-se mortal. Portanto, só poderá assumir seu amor por ela se admitir a idéia de que isso faz dele um ser finito. Para amar, ele vai ter que morrer um dia, como qualquer mortal. (imagem acima, Auto-Retrato no Futuro, 1975. Roberto Magalhães)


Um rosto esticado
por plástica ou botox
é realmente capaz de
trad
uzir a felicidade
interior?




Mas essa é sua decisão, não há sentido em sua vida infinita se não existe a possibilidade de amar. E o corpo físico é uma necessidade para efetivar esse amor: fazer parte do mundo físico é saber que se vai abandoná-lo em breve. Vale dizer, um corpo físico finito, que envelhece e que acaba. Mas será um corpo que vive e que tem coragem de viver sua finitude. Um corpo cuja finitude torna o amor mais urgente – a vida é tão curta... Um corpo cuja finitude se traduz em amor, em afeto por alguém. Tornar-se verdadeiro, orgulhar-se de seu corpo, passa por orgulhar-se de suas marcas de finitude. As marcas do envelhecimento do corpo que vão fazer lembrar a cada momento os instantes de amor, por si, pelos outros, pela vida – como um diário afetivo. Uma poética da finitude.(imagem abaixo, Escritório em Nova York. Edward Hopper, 1962)



“[Edward] Hopper
des
creve, aqui, o que o
sociólogo norte-americano,
Richard Sennett, chama o ‘paradoxo do isolamento na transparência’. Apesar de transparente, o vidro
do escritório estabelece
uma barreira”
(1)




Trapezista… Sim, essa é uma boa metáfora para começarmos a compreender a questão. Como uma trapezista que está no céu (dos produtos de beleza e do corpo belo), mas não olha para baixo, somente para cima. Caso olhasse para baixo poderia perceber que o trapézio (a indústria do rejuvenescimento) não é o chão. Suspensa no ar por algumas cordas, a mulher parece não perceber os perigos físicos e emocionais que corre. Porém, sejamos otimistas, quando (ou se) ela “cair na real”, espero que não tenha sido trocada por “duas de vinte anos”. Oscilando entre a cruz e a espada, a mulher ocidental contemporânea parece seguir alegremente para a fogueira (a mesa do cirurgião plástico, o cabeleireiro, a aplicação de botox, etc).

Quando seu corpo será suficiente?

Corpos em Exibição, Vitrines da Alma?

Lá vão eles, para cima e para baixo, manequins de porcelana ambulantes. Rotas de fuga em relação à necessidade de construir subjetividades capazes de dialogar consigo mesmas. Além de ser uma atitude melhor acolhida pela sociedade, para quê construir um interior (uma substância), se remodelar o exterior (sua imagem) é mais fácil? O problema é saber a hora de parar. Na verdade, nunca deverão saber, pois nunca será suficiente. De qualquer forma, é uma opção aprovada socialmente, o que permite uma sensação de aceitação muito necessária justamente às pessoas que delegaram aos outros a tarefa de reformulá-las. O problema com esta opção inicia com a constatação de que ninguém está interessado em aumentar a auto-estima de ninguém. Só querem vender produtos. Que melhor estratégia de marketing? Caçar pessoas com baixa auto-estima e fazê-las acreditar que não é necessário descobrir as causas, mas apenas maquiar a situação. (imagem ao lado, Nu Feminino Reclinado. Lasar Segall, 1943)

É perfeito, porque as vítimas não percebem que o remédio escolhido para reconstruir o interior é justamente o veneno que desvia o foco de atenção para longe dos parâmetros de julgamento necessários para cuidar desta mesma beleza interior. Com relação a este ponto, podemos apenas especular quanto ao destino das adolescentes brasileiras. Segundo pesquisa recente (2), elas gastam em produtos de maquiagem mais que uma mulher adulta – a indústria agradece. O que é mais assustador, não podemos nem elogiar a maquiagem, elas querem que acreditemos que já se levantaram da cama daquele jeito! Querem que acreditemos que o rosto delas é assim! Quanto tempo levará para se tornarem inseguras quanto à própria beleza exterior? – sim, porque a mesma pergunta, que poderia ser direcionada para a beleza interior, já não faz mais sentido!



“A felicidade
é um anjo com

um rosto sério”

Amadeo Modigliani






Ou então, vamos acreditar que a precocidade com que essas meninas se preocupam em não envelhecer fará delas pessoas mais tolerantes com os mais velhos e com os velhos mesmo… Vamos acreditar? Bem, uma das soluções implementadas pela indústria é, com o aumento da população de velhos no mundo todo, reinserí-los... na vida? No mercado de consumo? Os tratamentos de rejuvenescimento (aqui incluindo, além da mulher, também o homem idoso) e os cosméticos para a Terceira Idade talvez acabem mesmo reunindo jovens e velhos - já que ambos não param de se reunir nas salas de espera das clínicas estéticas. Unidos pelo mesmo lema, vão todos seguindo o flautista até o precipício: mude apenas por fora, pode não ser mais barato, mas é mais fácil, mais rápido e, principalmente, mais visível!


Sempre
foi
um grande
problema para
a arte tornar
sentimentos
visíveis



Esse corpo perfeito, e sem gozo afetivo, que só serve para mostrar para os outros, mostra também a falta que faz um ego. Este personagem, o ego, é que deveria ser o verdadeiro juiz das necessidades de mudança externa. Sem uma vida interna (sem uma substância emocional) que interaja com o mundo exterior, nos tornamos escravos desse mesmo mundo exterior - e de processos que não visam necessariamente nosso crescimento interno. Pelo contrário, nutrem nossa fraqueza com o veneno da descrença em si mesmo. (imagem acima, à direita, Nu Reclinado com Braço Esquerdo Sobre a Fronte, 1917; à esquerda, Nu Reclinado, 19??. Imagem abaixo, à direita, Nu Sentado, 1917; à esquerda, Nu Reclinado, 1917. Os quatro de Amedeo Modigliani, 1884-1920)

Quando seu corpo será suficiente?

Introduza Uma Moeda!

A indústria do rejuvenescimento (ou da alienação?) é uma grande armadilha para aquelas pessoas que não conseguem estimular a si mesmas, necessitando de estímulos externos constantes. Para essas pessoas, infelizmente, momentos de introspecção constituem uma verdadeira dor de cabeça. Ficar sozinha (por algumas horas que seja), para elas, é sinônimo de depressão. Ligam a tv, o computador, o rádio, falam ao telefone e se maquiam – tudo ao mesmo tempo. Não pode sobrar um segundo, pois não podem correr o risco de ouvir seu caos interno. Isso serve também para as pessoas com quem elas se relacionam; aliás, não há relacionamento, pois elas não conseguem ficar um minuto (ou um segundo) distantes de uma fonte de estímulo (no caso, outra pessoa qualquer). Não estou ironizando, acho tudo isso um problema muito sério, uma verdadeira epidemia. Um distúrbio de comportamento convenientemente estimulado pela indústria do rejuvenescimento, que naturalmente vai agregar a indústria farmacêutica também – pois esta fornecerá os calmantes e outros bichos. As pessoas acabam sentindo-se confortáveis com a ênfase no exterior do corpo. Afinal, todos os detalhes (de uma maquiagem, uma plástica e etc), bem visuais, distraem o olhar sem demandar maiores questionamentos existenciais. É o mundo perfeito, tudo é só para olhar, não temos que pensar ou nos relacionar – até porque os relacionamentos seguem o mesmo modelo de superficialidade.

É o mundo da distração infinita. E é nisso que as mulheres acabam se tornando, uma distração! O que parece ser um alívio para elas, já que não conseguem mais prender a atenção em nada (por mais de 5 minutos). Assim, o admirável mundo novo da indústria do rejuvenescimento nos presenteia com um mundo divertido, que propõe hiper-estimulação corporal eterna – excluindo estimulação intelectual e sentimental. Como tudo isso é conveniente para a desvalorização dos sentimentos e aprovação dos comportamentos neuróticos em torno da distorção do conceito de beleza! E o dinheiro continua fluindo.

Essa mercantilização da felicidade (e de certo conceito de beleza) naturalmente exclui o mais fraco – o mais pobre. Exclui também, procurando estigmatizar e segregar socialmente, aqueles (as) que conseguem encontrar formas de comunicação interna com seu próprio caos – o que os torna imunes ao excesso de estímulos externos; não porque eles evitem esses estímulos, mas porque conseguem interagir com eles, e, portanto, julgá-los. Sempre que passo por uma farmácia me lembro disso. Especialmente quando tem alguém querendo se pesar. Refiro-me àquela balança eletrônica (?) que invadiu as farmácias. Subimos nessas coisas para obter um diagnóstico sobre nós (que influenciará muito nossas vidas e auto-estima), e o que escutamos? A voz de uma mulher robótica ordenando: “Introduza uma moeda!”

Quando seu corpo será suficiente?

Notas:

1. KRANZFELDER, Ivo. Edward Hopper. Visão da Realidade. Kohl: Taschen, 2003. P. 159.
2. Reportagem veiculada no Jornal Hoje, Rede Globo, 30/03/2006.

31 de ago. de 2008

Marketing e Ética? (final)


“Um sistema democrático de educação (…) é um
dos meios mais seguros de criar e ampliar enormemente
os mercados para bens de todos os tipos e especialmente aqueles bens em que a moda
tem importância.

ex-publicitário James Rorty
Our Master’s Voice, 1934



Culture Jamming

Em seu livro, Sem Logo. A Tirania das Marcas em um Planeta Vendido, Naomi Klein nos fala de uma prática crescente nos Estados Unidos, Canadá e Europa, mas certamente está longe (bem longe) de ocorrer aqui no Brasil.

Culture Jamming é o nome que se dá à prática de parodiar peças publicitárias e utilizar os outdoors adulterando e alterando suas mensagens de forma drástica. Considerado um dos maiores expoentes nessa prática, o americano Rodriguez de Gerada prefere a expressão “arte do cidadão”, e não “arte de guerrilha”. Ao contrário dos publicitários, afirma Rodriguez, esse trabalho implica uma discussão quanto às políticas de espaço público na comunidade em que for colocado. (todas as imagens deste artigo são exemplos de jamming)

Os adbursters (ou subverting, subversão da publicidade, como são chamados em Londres) acreditam que o público tem o direito de responder às imagens que nunca pediram para ver. O termo culture jamming foi cunhado em 1984 pela banda americana de audiocolagem Negativeland. Mas a questão vai muito mais longe, “tentar apontar as raízes da culture jamming é quase impossível, em grande parte porque a prática é em si mesma uma mistura de grafite, arte moderna, filosofia punk faça-você-mesmo e molecagem antiqüíssima” (1).

Robin-hoodismo semiótico, é disso que parece se tratar aqui, sugere Naomi. Seus militantes não acreditam mais que o espaço livre de propaganda pode ser conseguido pacificamente. “A culture jamming rejeita frontalmente a idéia de que o marketing – porque compra sua entrada em nossos espaços públicos – deve ser aceito passivamente como um fluxo de informação unilateral” (2).

Radicalizar a verdade na publicidade, produzir contra mensagens que interferem com a comunicação do anunciante para revelar a verdade mais profunda oculta nos eufemismos publicitários. Seus trabalhos vão de paródias de propagandas à interseções no outdoor original. (imagem acima, intervenção em outdoor da marca de equipamento eletrônico Sony que diz: não há nada real na televisão)

(...)A única ideologia que une o espectro de culture jamming é
a crença de que a livre expressão

não tem sentido se a cacofonia comercial aumentou ao ponto de ninguém mais lhe ouvir (...)

Naomi Klein (3)


Pensemos aqui na questão central deste livro. Lembrem-se da patética superexposição do nu feminino na propaganda, nos filmes, nas novelas… Não se trata de menosprezar a nudez. Também não se trata de pura e nefasta tentativa de diminuir as mulheres que acreditam numa busca da beleza ideal. Entretanto, temos que admitir que fomos tão intoxicados com a avalanche da mesma representação do mesmo ideal de beleza, que estamos nos tornando insensíveis ao fato de que se tratam de representações e não da realidade viva dos corpos. Na crença de que este ideal é um produto à venda no mercado, nem cogitamos mais na hipótese de que beleza talvez seja um estado de espírito. Estamos narcotizados com esta “cacofonia comercial” que diz que a beleza pode ser comprada!

A reação a essa cacofonia comercial levou a culture jamming a se espalhar em redes de organizações coletivistas de mídia. Descentralizadas e anárquicas, combinam a subversão da publicidade com a publicação de zines, rádios piratas, vídeos ativistas, desenvolvimentos na internet (o que inclui hackers ou crackers invadindo sites de grandes corporações) e militância comunitária (4). Vejamos um exemplo. Trata-se da questão do cigarro, mas imaginem quanto resta a ser feito em relação ao machismo presente na propaganda que utiliza o nu feminino? (imagem ao lado, o tenista norte-americano Tiger Woods, patrocionado pela marca Nike, tem sua boca deformada para se assemelhar ao logotipo e sugerir que ele não pode ter opinião própria; na imagem acima, ilustração de uma opinião mais radical a respeito da influência da Nike no cenário esportivo)

“Uma culture jam bem divulgada surgiu no outono americano de 1997 quando o lobby anti-tabaco de Nova York comprou centenas de placas publicitárias de táxis para apregoar as marcas de cigarro ‘Lodo da Virgínia’ (Virginia Slime) e ‘País do Câncer’. Em toda Manhattan, quando os táxis amarelos ficavam presos nos engarrafamentos, as propagandas jammed se acotovelavam com as das empresas de cigarros”. (5)

Agora os correligionários dessa prática dividem-se entre aqueles que dão boas vindas aos avanços tecnológicos em informática (que permitem uma interferência sem mudança do padrão de cores utilizado pelos publicitários que criaram o original, fazendo com que pareça ter sido feita por estes) e os apreciadores das tecnologias já existentes. No primeiro grupo, encontramos gente como Rodriguez de Gerada. No segundo, temos um exemplo que vem do Canadá e deveria interessar às mulheres, por atacar a questão da indústria da moda.

“O artista performático de Toronto Jubal Brown espalhou o vírus visual na maior blitz de adulteração de outdoors do Canadá com nada mais que um marcador. Ele ensinou aos amigos como distorcer as já encovadas faces de modelos de moda usando um marcador para escurecer seus olhos e desenhar um zíper em suas bocas – pronto! Caveira instantânea. Para as mulheres jammers em particular, o ‘encaveiramento’ se ajusta muito bem com a teoria da ‘verdade na publicidade’: se a emancipação é o ideal de beleza, porque não ir até o fim com o zumbi chique – dar aos publicitários algumas modelos do além-túmulo? Para Brown, mais niilista que feminista, o encaveiramento era simplesmente um detournement para acentuar a pobreza cultural da vida patrocinada. (‘Compre, compre, compre! Morra, morra, morra! ‘, diz a declaração de Brown exposta em uma galeria de Toronto). No 1º de abril de 1997, dezenas de pessoas partiram em missões de encaveiramento, atacando centenas de outdooors nas ruas movimentadas de Toronto. Seu trabalho foi impresso em Adburters [o autodenominado boletim da cultura jamming; editado pela Media Foudation de Vancouver, entre outras coisas veicula anticomerciais em televisão acusando a indústria de beleza de causar distúrbios alimentares], ajudando a espalhar o encaveiramento a cidades por toda a América do Norte”. (6)

Resta a todos nós a esperança da ética – conceito empobrecido e desgastado nos dias atuais. A questão é ter a coragem de NÃO mentir. Mentir, isso sim, é apostar na alienação – o que é uma pena, pois o marketing deveria apostar em seus produtos. (imagem do lado esquerdo, adulteração de um outdoor de produto da rede de lanchonetes McDonalds pergunta porque alguém pode se tornar uma pessoa obesa)


O marketing é realmente uma peça importante na engrenagem da interação social e econômica, mas o consumidor também! O bom marketing… nunca deveria esquecer-se disso.

Notas:

1. KLEIN, Naomi. Sem Logo. A tirania das marcas em um planeta vendido. Tradução Ryta Vinagre. Rio de Janeiro: Record, 2002. P. 310.
2. Idem, p. 309.
3. Ibidem, p. 312.
4. Ibidem.
5. Ibidem, p. 313. Virgínia é um dos estados americanos.
6. Ibidem, p. 314.

18 de ago. de 2008

Imagem Corporal e Satisfação





“Apenas pessoas superficiais 
 não     julgam     pela     aparência. 
O verdadeiro mistério do mundo
é o visível,  não  o  invisível"

Oscar Wilde (1854–1900)



Imagem corporal, aspecto da satisfação existencial que na cultura contemporânea ocidental está sendo afetado negativamente: não mais se vê o corpo como o exterior de um interior – o fora de um dentro, uma dobra. Atualmente, o corpo é cada vez mais só o exterior do exterior – o fora do fora. Onde exatamente foi parar a satisfação existencial com nosso corpo? O corpo, considerado como objeto exterior, poderia mesmo nos auxiliar quando tentamos compreender o que é ser feliz?

Mary Del Priori conta que, na época dos descobrimentos, nudez era sinal de pobreza. Daí considerar os índios inferiores. Na Europa, erótico era esconder o corpo. A superexposição do corpo no Brasil contemporâneo representa uma classe social e não a mulher: loira, corpo de academia. Esta mulher é minoria.

Corpo Monstruoso

No cinema norte-americano o nu feminino se instaura em 1933. Hedy Lamarr aparece nua em Êxtase (direção Gustav Machatý), deixando para trás o anonimato (acima, à esquerda). Nascem as ligas da decência e centrais católicas. O nu especificamente pornográfico já havia surgido no cinema em 1910 (1). O “problema” do cinema é a possibilidade do close-up. No teatro se pode desviar o olhar, já o enquadramento cinematográfico é incontornável. Entretanto, a possibilidade de corrigir uma imagem resolve os medos que havia no teatro, onde um vento ou outro acidente pode revelar as partes íntimas de um ator ou atriz. Temos o depoimento de um jornalista em 1896, a propósito de um beijo no filme A Viúva Jones:

“Em tamanho natural, é já animalesco, mas não é nada comparado com o efeito produzido por este ato aumentado para proporções gargantuescas e repetido três vezes seguidas. É absolutamente nojento. Fatos destes apelam à intervenção da polícia” (2).

Em 1912 uma lei regulamentava a duração do beijo na tela de cinema. Nos Estados Unidos, após a primeira guerra mundial, o umbigo era o mais indecente. Até 1965 o problema era mostrar os pêlos do corpo – o próprio Tarzan só aconteceu depois de depilar o torso. De fato, o cinema, que finalmente podia mostrar o real de forma realista (quando desejasse), foi impedido de fazê-lo (3). No cinema brasileiro, Norma Bengell no filme Os Cafajestes (1962, direção de Ruy Guerra) marca o ponto de partida do nu aqui por nossas telas, corpo acompanhado pelo riso sádico do personagem de Daniel Filho, que, aliás, filmava a cena.

No cinema de ficção científica norte-americano, a imagem da mulher tem dificuldade em se desvencilhar de preconceitos. Em A Invasão das Garotas Abelha (Invasion of the Bee Girls, 1973), de Dennis Sanders, mulheres estéreis por conta de experiências científicas matam homens a golpes de orgasmo (acima, à direita). Erotismo é uma raridade na ficção científica. Uma das poucas vezes em que isso ocorreu foi com os originais do livro, Os Amantes (1951), de Philip José Farmer. A história descreve relações sexuais entre um homem e um inseto extraterrestre capaz de trejeitos femininos sedutores. Um editor recusou os originais, classificando-os de nojentos (4).

Também encontramos a misoginia no gigantismo: mulheres, aranhas gigantes e extraterrestres concorrem quanto a maior monstruosidade. Vale lembrar O Ataque da Mulher de Dez Metros (Attack of the 50-foot Woman, 1957), de Natan Hertz (ao lado). Uma esposa traída encontra um extraterrestre verde gigante que passava por aqui, é transformada num enorme monstro vingador que estripa o marido infiel com as próprias mãos. Barbara Creed mostra como, a partir do universo dos filmes de ficção científica norte-americanos, verifica-se a satanização do feminino (5).

Corpo Feliz e Próteses

Quem sabe o biquíni e o implante de silicone sejam a mesma coisa? Uma mulher, adepta do nudismo, faz uma cirurgia para implante de silicone nos seios e nádegas. Ainda podemos dizer que ela está nua, já que partes do seu corpo estão cobertas? O biquíni seria mais erótico que a pele? Uma prótese de pele é mais erótica que a pele real? Nudez é não estar vestindo próteses ou roupas? Roupas são próteses? Qual é a diferença entre uniforme e fantasia? Qual é a diferença entre uniforme e máscara? Cobrir o corpo é criar uma imagem ou representação ordenada da natureza, tomando as roupas como complementação do organismo? Até que ponto o que vestimos afirma ou nega o que acreditamos ser por dentro?

E quando o que vestimos não é mais nosso próprio corpo? A ex-paquita [para quem não sabe, é o título de “antigas” adolescentes, dançarinas no programa infantil de Xuxa] Monique Alfradique malha até quatro horas em academias de ginástica. Afirma que seus músculos não eram bem definidos e ela foi “atrás de desenhar” seu corpo. Qual seria a recompensa de Monique? Bem, ela ganhou a capa da revista Boa Forma (6). Tudo bem, diriam, pelo menos não é uma revista masculina de mulher pelada!!! Tudo bem talvez, de uma maneira ou de outra, “boa forma” é “corpo malhado”… e não necessariamente um corpo feliz!

Corpos em Exposição, Conquista do Feminismo?

Participar do Big Brother Brasil (Rede Globo) é uma espécie de passaporte para ser convidada a aparecer nua nas revistas masculinas. A disputa parece girar entre as revistas Sexy e Playboy. É curioso como o dinheiro e a fama desinibem algumas pessoas, contanto que se tenha o corpo certo… Manuela Saadeh, segunda colocada no BBB2, que posou nua em setembro de 2002, declarou:

"No primeiro dia eu estava bem envergonhada. O ensaio começou com roupa e fui tirando... até que o Duran [o fotógrafo] falou: 'Vai dançando e levanta a blusa'. Aí eu travei e não conseguia levantar a blusa. Pedi, então, que algumas pessoas saíssem do estúdio. Tive de tomar champanhe, que me deixou mais alegrinha e desinibida". (7)

Thaís Ventura, também do BBB2, se “lançou” na edição de janeiro de 2003. Em seus 19 anos, a revista explorou o fetiche masculino de Lolita, com direito a aparelhos nos dentes e bichinhos de pelúcia. Para quem não conhece, Lolita é uma estória escrita por Vladimir Nabokov. O tema gira em torno de uma relação erótica entre uma menina adolescente e um homem mais velho, bem mais velho. Thaís declarou:

"Foi muito difícil. A gente pensa que é fácil porque muitas mulheres lindas já fizeram. Mas quando é com você é difícil! Eu passei por um processo de insônia, nervosismo à flor da pele". (8)

"Enquanto  isso,  lá  bem  no  início  de  tudo...  'E,  como  Deus  me  permitiu
denominar  todas  as  coisas,  eu  vou  chamar  você  de  vaca,  você  de  burro,
 
 você de toupeira e você de idiota' ". (Millôr Fernades, revista Veja, 11/1982)

A recordista de vendas foi a paulista Sabrina Sato, que participou do BBB3, posando para a revista Playboy. Desta vez, o ensaio fotográfico foi acompanhado por impressões dos outros participantes [masculinos] do jogo que contracenaram com ela. Um deles, Harry, disparou: "Sabrina, uma mulher oriental que desorienta qualquer homem". O Big Brother já serviu de "palco" para uma nudez "alternativa". No paredão que eliminou Harry do BBB3, uma mulher invadiu o estúdio e tirou o vestido diante das câmeras e de um Pedro Bial [o apresentador] atônito. O nome da então anônima era Maria Eliane Lima Araújo, e ela tinha 18 anos.

Algumas outras mulheres, desta vez atrizes renomadas, também não vêem problema em posar nua. Cláudia Raia é bem objetiva, da última vez o problema foi o dinheiro oferecido: “gostaria de ser fotografada nua de uma maneira que nunca apareci antes. Meu corpo está mais bonito do que nunca e não encontraria problemas em casa por ser casada”. E completa, “em ensaio nu a gente se expõe de tal maneira que tenho de estar apaixonada pela mulher que vou representar. Sinceramente, depende mais da revista do que de mim” (9).

Luma de Oliveira concorda com Raia, posar nua não tem problema. Só não concorda com a estratégia, para ela não se trata de representar uma personagem: “no ensaio nu, não vivo um personagem. Sou eu ali, é meu corpo ali. Faço o trabalho com muita naturalidade”. Luma não só não vê problema em posar nua, como acredita que seus filhos achariam muito mais estranho se a vissem numa cena de amor em que ela estivesse apenas seminua. Curiosa é a diferenciação que ela faz em relação a revistas e televisão: acredita que o nu da revista é mais natural que cenas de amor na tevê.

“Em 2000, a atriz Vera Fischer escandalizou ao mostrar as virilhas não depiladas nas páginas da Playboy, aos 48 anos de idade. ‘Há artistas que posam porque querem ser vistas e desejadas. Trata-se de um narcisismo velado e me parece ser o caso da Vera’, diz o especialista em sexualidade Esdras Vasconcellos, da Universidade de São Paulo”. (10)

Hoje em dia, no que diz respeito a jovens artistas, a coisa é diferente. Existe (pelo menos por enquanto) certa resistência a fazer concessões à nudez gratuita, seja para alavancar a carreira, seja pelo dinheiro (11). Mas talvez exista um equívoco aí também, pois algumas acreditam que ensaios fotográficos sensuais na internet permitem que elas ganhem dinheiro sem precisar se expor muito. Como não se expõem? Com a popularização da internet… Sem mencionar que, caso as fotos delas não sejam muito acessadas pelos internautas, certamente não serão mais nem contratadas para fazer outros “ensaios”, nem serão pagas.

The Girl abre portas internacionais, carreira na TV e projeção nacional para vencedoras” (12). A manchete se refere a um concurso de “modelos”, promovido por um provedor de internet, ostenta como elemento que justifica sua importância, o fato de abrir portas para a carreira das participantes. A questão não é uma cruzada contra o erótico e/ou nudez na mídia. O problema é o fato de se viver numa sociedade na qual para entrar no mercado de trabalho e perseguir a oportunidade de um trabalho digno, a “projeção nacional” tem primeiro que vir a nudez dos corpos!

Alice Matkins, artista norte-americana, pinta quadros de mulheres cujo
corpo  está  totalmente  fora  do
padrão de beleza.  Ela procura resgatar o
corpo da mulher como ele de fato é.  À  esquerda, Rose, 87 anos; à direita,
Jonsey,  64  anos;   no  final  do  artigo,  à  esquerda,  Phillis,  68  anos.

Mesmo fora do ambiente artístico, a possibilidade de posar nua é uma espécie de “prêmio” das pessoas que por algum motivo (qualquer motivo) tornam-se visíveis na mídia – e, portanto, tornam-se vendáveis. Exemplo (torpe) disto se refere a certas mulheres que depuseram no Congresso Nacional recentemente em função dos escândalos relacionados ao Partido dos Trabalhadores. A secretária do publicitário e escroque Marcos Valério, que testemunhou contra ele, tirou as fotos na própria sala onde depôs – ou então foi um cenário que reproduzia o lugar onde se pretende fazer Justiça em nome do povo. A esposa (e também a irmã dela) do dono do restaurante do mesmo Congresso que foi o responsável pela queda de Severino Cavalcanti (presidente da Câmara de Deputados) também já foi sondada sobre a possibilidade de tirar fotos para uma revista masculina.

Corpo e Imagem

“Como começamos a cobiçar? Cobiçamos aquilo
que vemos... todos os dias!“

A frase vem do filme O Silêncio dos Inocentes (Silent of the Lambs, 1991). Uma agente do FBI insistentemente pergunta a um famoso ex-psiquiatra e atual canibal sobre o paradeiro de um assassino de mulheres. Procurando mostrar em forma de enigma qual é o objetivo desse assassino, o canibal enuncia esta frase. O assassino não matava por ódio, gostava tanto das mulheres que queria ser uma delas. Para alcançar seu objetivo, raptava algumas, contanto que estivessem meio gordas. No cativeiro, às engordava mais e mais. Então as matava, retirava partes de suas peles e costurava. Pretendia fazer uma roupa.

O assassino de mulheres parecia fixar a identidade delas no elemento mais visível. Para ele, ser mulher não teria nenhuma relação com a busca de uma alma feminina. Travestido com pele humana morta, baseava-se apenas na aparência: Ser mulher passava por parecer mulher. Platão já havia chamado atenção para a inutilidade do mundo sensível (13). (acima, imagem de Shrek, desenho animado norte-americano)

Beleza (ou a nova identidade) pode ser comprada? Num ponto pelo menos Jean Baudrillard tem razão, os fluxos simbólicos dos quais dependemos para dar sentido ao mundo e a nós mesmos estão cada vez mais longe de uma real satisfação dos desejos íntimos. Como uma tentativa de questionar o pessimismo de Baudrillard, lembre-se que no desenho animado Shrek (parte 2) nós temos um final inusitado, praticamente contraditório em relação ao mundo em que vivemos atualmente. Em certo ponto da estória, Shrek tinha tomado uma poção mágica que o transformara num ser “normal” – quer dizer, ele ficou bonito. A princesa, que tinha sido transformada em “anormal” (o que significa que ela ficou feia) e também voltou a ser uma mulher bonita por conta da mesma poção, em certo momento recusa o beijo de Shrek. É que no final da estória Shrek avisa a ela que, caso beijem-se, poderão ficar permanentemente com “aquela forma” – quer dizer, bonitos. Ela então recusa e dá a entender que aquele (o bonitão) não seria o homem com quem ela escolhera se casar! Ou seja, ela está preocupada com o sentimento que a aproximou dele, e não precisa que ele “conserte” seu exterior!

Resta o Corpo, Resta uma Questão… 

Sabemos, portanto, como resolver isso. Temos que mergulhar em nós mesmos. Ainda assim, resta uma questão. Quantas vezes você mudou de canal e as mensagens eram as mesmas? O problema é que a sociedade está comprometida com o mercado. Lembro neste ponto do filme O Show de Truman (1998), quando o personagem principal começa a se questionar sobre a incongruência do sistema.

Temos que admitir estarmos tão intoxicados com a avalanche da representação do mesmo ideal de beleza, que nos tornamos insensíveis ao fato de que se trata de modelos e não da realidade viva dos corpos. Na crença de que o ideal está à venda, não cogitamos mais na hipótese de que beleza talvez seja um estado de espírito. Estamos narcotizados com a hipótese de que a beleza pode ser comprada!

Collete resume com uma frase a querela em torno do nu no teatro francês em 1907: “soltem um seio!”. Pesquisas da época levaram à constatação de nudez no teatro desde a Antiguidade (14). Atualmente, decretou-se o fim da privacidade corporal no mundo ocidental [cristão…]. Esconder o corpo passou a ser muito explorado como aspecto selvagem dos muçulmanos. Opõe-se cobrir e descobrir o corpo, dando sinal negativo ao hábito cultural de cobri-lo. Poucos e poucas se perguntam se a pressão social para desnudar o corpo acaba se tornando tão opressiva quanto cobri-lo completamente. Até que ponto nudez pública significa libertação?

Curioso é que na busca desenfreada de uma beleza exterior desarticulada de outra beleza que é interior, muitas mulheres não percebem a abóbora que se tornaram! Bem, quem sabe o caminho para o interior seja esse, destruir o exterior ao tentar reconstruí-lo. No final a sensação de indefinição permanece e a questão volta: onde e como entra o corpo na busca da resposta à pergunta, ‘o que é ser feliz?’

Notas:

Leia também:

As Deusas de François Truffaut

1. BOLOGNE, Jean-Claude. Tradução Telma Costa. História do Pudor. Rio de Janeiro: Elfos Editora. Pp. 286-7.
2. Idem, p. 285.
3. Ibidem, p.288.
4. SODRÉ, Muniz. A ficção do tempo. Análise da narrativa de Science Fiction. Petrópolis: Vozes, 1973. Pp. 49-50.
5. CREED, Barbara. The monstrous-feminine. Film, feminism, psychoanalysis. London: Routledge, 1993.
6. WURM, Sabrina; DIAS, Leo. Em Busca do Corpo Perfeito In Jornal Extra, coluna Retratos da Vida, 08/07/2005. P. 12.
7. BBB’s saem da casa para as revistas masculinas In TERRA. Seção Gente & TV. 06/05/2004. Disponível em: http://diversao.terra.com.br/gente/noticias/0,,OI3527042-EI13419,00-BBBs+saem+da+casa+para+as+revistas+masculinas.html
Acesso em: 29/10/2013.
8. idem.
9. CARDOSO, Rodrigo. Elas posam porque gostam In Isto É GENTE, 21/01/2002. Disponível em: http://www.terra.com.br/istoegente/129/reportagem/capa_nu_04.htm Acesso em: 18/08/2008.
10. idem.
11. Reportagem de Rodrigo Cardozo. ISTO É, GENTE. 21/01/2002. Edição 129. Disponível em: http://www.terra.com.br/istoegente/129/reportagem/capa_nu_01.htm Acesso em: 18/08/2008.
12. Reportagem de Silvia Marconato. Disponível em: http://www.terra.com.br/thegirl/verao2003/materias/vencedoras_passadas.htm Acesso em:18/08/2008.
13. A fisiognomonia sempre baseou seus estudos na articulação entre a afirmação da necessidade de um mundo sensível e a crença na existência de outro inteligível. A verdade última seria encontrada apenas no inteligível.
14. BOLOUGNE, Jean-Claude. Op. Cit., p. 259.  


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