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Roberto Acioli de Oliveira

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24 de fev. de 2011

Este Corpo Não Te Pertence: A Mulher Fascista


Organizar Para Controlar

Benito Mussolini tinha fama de mulherengo, de homem macho. É parte do folclore dizer que muitas mulheres deixavam suas calcinhas nas praças, depois dos discursos dele - seria Berlusconi, o atual Primeiro Ministro/mulherengo italiano, a reencarnação de Benito? Entretanto, a conversa mudava quando o assunto eram os direitos das mulheres italianas enquanto cidadãs. No início do governo de Mussolini houve uma contribuição feminista. Entretanto, em 1922, a participação feminina não passava de 2%, e não havia mulheres na liderança (1) - embora isso ocorresse também noutros partidos políticos, já que as italianas não tinham direito a voto. O fascismo recrutou muitas descontentes com o feminismo, e organizações de mulheres fascistas rivalizavam com as similares católicas. De acordo com Michael Mann, o fascismo precisava organizar as mulheres para controlá-las. O controle se deu de forma não-coercitiva, através de atividades sociais e ritualizadas. O fascismo às homenageava como “reprodutoras da nação”, os “anjos do coração”. Embora discursassem com textos escritos basicamente pelos homens, pela primeira vez as mulheres foram projetadas no cenário nacional. O que o poder queria das mulheres do povo, era o bom e velho apoio passivo.



.
Em Um Dia
Muito Especial,
Scola  mostrou  que
tipo   de   função   era
reservada à mulher/
mãe italiana na

  era fascista




Em 26 de maio de 1927, naquele que ficou conhecido como Discurso da Ascensão, Benito Mussolini mostra sua obsessão em relação às taxas de natalidade. Naquela época a política imperialista de Mussolini (e de muitos outros), mas também a política industrial em geral, era muito dependente de uma alta taxa de natalidade – uma preocupação nacionalista desde 1923. O casamento, dizia o nacionalista Alfredo Rocco, não se dá em benefício dos cônjuges, mas como ato de dedicação e sacrifício, pois a família é o núcleo de fundação da sociedade. O Futurismo de Marinetti também deu sua contribuição com a introdução do conceito de mulher-raiz. Em 1926, nasce uma discussão entre cientistas e assistentes sociais sobre a necessidade de exames pré-matrimoniais visando garantir a compatibilidade genética dos cônjuges e a “saúde da raiz itálica” (2). Seja para dispor de gente para colonizar áreas conquistadas, ou dispor dos soldados que conquistarão novas áreas, o contingente populacional era um fator crucial. Portanto, naquele dia de maio, o famoso discurso de Mussolini selou o futuro da condição feminina no regime fascista.





Em     Amarcord,
Fellini   nos   mostrou
a  mentalidade  do  povo
italiano durante o fascismo
.
Gradisca
,   por   exemplo,
adorava os homens em
 
uniformes militares





A demografia e a raça eram as duas preocupações principais do governo. Considerada questão de saúde pública, o aumento da taxa de natalidade fez da demografia o maior inimigo dos donos de bar - assim como das camisinhas, do aborto e do trabalho feminino fora de casa. Sob a bandeira da luta contra o alcoolismo, Mussolini chegou a fechar 25 mil bares. A lógica machista por trás foi fazer com que os homens largassem o vinho e o carteado, indo procurar outro passatempo debaixo dos lençóis. Mussolini também questionava o que considerava incompetência do governo liberal por não dar devida importância à questão demográfica como base da força econômica de uma nação. Todos os métodos contraceptivos foram condenados, o que agradou ao Vaticano. Mas como fazer com que as mulheres largarem os empregos, voltarem para casa e assumirem os velhos papeis de mãe-esposa-arrumadeira? Em Um Dia Muito Especial (Una Giornata Particolare, direção Ettore Scola, 1977), acompanhamos o dia de uma dessas criaturas. O fetiche de Gradisca por uniformes militares em Amarcord (direção Federico Fellini, 1973) deveria facilitar bastante o trabalho dos fascistas. (no vídeo abaixo, Amarcord. A seqüência mostra a visita de um oficial fascista, Gradisca é a morena de roupa e boné vermelhos. Pode-se notar que eles estão trotando ao invés de marchar. Aqui Fellini fez alusão ao costume do fascista Achille Starace, que achava que assim seria identificado como um homem enérgico. A certa altura, um deles faz alusão ao fato de que Mussolini tem “colhões”)


Todo o peso da política demográfica recairá sobre os ombros das mulheres, fascistas ou não. Em 1929, o programa demográfico fascista é lançado: 1) desestímulo às migrações para o exterior e as cidades; 2) estímulo à natalidade; 3) proteção da maternidade e da infância. Mussolini propagou a idéia de que a baixa taxa de natalidade colocaria em risco a civilização italiana. Os médicos foram induzidos a “demonstrar” que as mulheres que tinham filhos eram mais belas e saudáveis. A Universidade de Roma realizou uma pesquisou e concluiu que a elegância no vestir tem reflexos negativos na fecundidade. Além do mais, como a maioria dos frutos da natalidade deveria tornar-se soldado, era melhor que elas tivessem filhos homens. A mulher passa a ser considerada a depositária da pureza racial italiana, função articulada à de “mãe responsável”. Quer dizer, ela deve estar em casa criando marmanjos saudáveis para entregar ao Duce. A eugenia está por traz dessa busca de “incremento qualitativo e quantitativo da raça”. Apesar disso, ressaltou Bosworth, o racismo fascista tinha um sentido mais espiritual e subjetivo do que no caso dos nazistas. As medidas legislativas que se apresentaram como protetoras, na verdade ajudaram a construir a gaiola que isolou a mulher, subordinando-a ao homem.

O Dia das Mães Italianas




A ditadura fascista
se proclamava um Estad
o
do bem-estar social

R. J. B.
Bosworth (3)





Instituída em 1925, a Agência Nacional para Mães e Crianças (Opera Nazionale Maternità e Infanzia, ONMI) (4), pensada pelos liberais e Católicos, era ligada ao Partido Fascista e seu objetivo era prestar assistência às mães necessitadas e à infância abandonada. Fornecia-se auxílio também as mães de filhos ilegítimos. Entretanto, sustenta Vicini, o objetivo seria mais ligado às idéias eugênicas do que a qualquer outra coisa: acreditava-se que o aleitamento no seio materno (impossível num orfanato) reforça a saúde do filho. Portanto, mesmo as mães com filhos ilegítimos devem fornecer à pátria homens fortes. As mulheres desempenhavam também o papel de propagandistas da ONMI, pois entravam nas casas para difundir as idéias de Mussolini sobre os deveres da maternidade, sobre a eugenia, sobre a hierarquia entre os sexos. Pelo menos durante a época de Mussolini, a instituição jamais chegou a ser efetiva fora do papel.




A política

de Mussolini para
as mulheres não passava 
de uma tentativa de melhor administrar a dominação dos
homens sobre elas. Nisso ele
não   fez   diferente   de
nenhum Estado no
Ocidente





Em 1933 foi instituída a Giornata della Madre e del Fanciullo. Em 1934 a revista Almanacco Della Donna Italiana relembrou o evento como um momento de festejo e glorificação das mães e a maternidade. Uma exaltação do que constitui o maior “mérito da ração”: a fecundidade. A revista lembrou ainda a distribuição de presentes às famílias numerosas e as informações sobre aleitamento e higiene. Contou-se ainda com exibição de filmes de educação demográfica e recreação, para a mãe e o filho. Mussolini em pessoa daria um prêmio em dinheiro para os 92 casais mais férteis! A Giornata aconteceu durante o Natal, o objetivo era aproximar-se da festa cristã e capturar sua aura sacra. De acordo com Bosworth, apesar de realizações como a Agência Nacional para Mães e Crianças, o que poderia parecer um Estado do bem-estar social fascista não passava de uma preocupação indireta da liderança patriarcal. No discurso do Dia da Ascensão, Mussolini explicitou o papel crucial da demografia em seu projeto político. Os italianos bebem demais, ele dizia – embora tenha feito o mesmo na juventude (5). Mussolini chegou a dizer que a industrialização e rápida urbanização estavam esterilizando os italianos. Apesar de haver criticado a vida no campo, ele passou a defender a ruralização como fonte da vida demograficamente produtiva (6).




Nem só de fundamentalismo
islâmico é feita a misoginia







Augusto Turati, secretário do Partido Fascista e racista de carteirinha, dizia que a raiz da raça tinha de ser protegida. A família, a educação da mulher e o “problema da raça” eram as questões fundamentais de litígio dos Fascistas. Em relação à crítica de Mussolini à metrópole, talvez seus projetos de cidade espalhados pela Itália fossem uma resposta. A reurbanização de Roma levada a cabo por ele, abrindo avenidas e botando abaixo bairros medievais para permitir seus desfiles militares, seria uma solução? Mães Italianíssimas, assim foram chamadas as italianas residentes no exterior - que o Partido chamou para terem seus filhos na Itália. Mas a estrutura do projeto era precária, italianas pobres em outros continentes dificilmente encontravam ajuda. Outro problema foram as trabalhadoras. Como trazê-las de volta para dentro de casa? O problema de mandá-las de volta para os afazeres domésticos é que os industriais precisavam delas. De qualquer forma, elas eram mais maleáveis porque menos sindicalizadas. Elaboraram-se dois princípios para a política fascista do trabalho: 1) o Estado deve tutelar as mulheres enquanto mães ou futuras mães; 2) as mulheres devem trabalhar, mas seria melhor se o fizessem em casa.




Leia também: 

Fellini: Infantilismo e Fascismo na Sociedade Italiana
As Mulheres de Federico Fellini (I), (II), (III), (IV), (V), (VI), (VII), (VIII)
Fellini e a Orquestra Itália
Mussolini e a Sombra de Auschwitz

Notas:

1. MANN, Michael. Fascistas. Tradução de Clóvis Marques. RJ/SP: Record, 2008. Pp. 141-2.
2. VICINI, Sergio. Fasciste. La Vita Delle Donne nel Ventennio Mussoliniano. Milano: Hobby & Work, 2009. Pp. 23-4, 27-8, 29, 31, 35.
3. BOSWORTH, R. J. B. Mussolini's Italy. Life Under the Fascist Dictatorship, 1915-1945. New York: Penguim Books, 2006.  P. 442.
4. VICINI, Sergio. Op. Cit., pp. 36, 40-1.
5. BOSWORTH, R. J. B. Op. Cit., pp. 245.
6. VICINI, Sergio. Op. Cit., pp. 25, 42, 44. 


2 de jan. de 2010

Arte do Corpo: Shigeko Kubota e a Vagina-Pincel


“Sinto-me amarrada à minha herança artística e quero destruí-la: ela me define enquanto uma artista
e me exclui enquanto mulher
,
tudo ao mesmo tempo”


Janine Antoni
artista plástica


Em 4 de julho de 1965, durante o Perpetual Fluxfest em Nova York, Shigeko Kubota colocou uma folha de papel no chão. Agachando-se sobre ele, começou a pintar com um pincel que anteriormente havia prendido em sua calcinha. Movendo-se sobre o papel, ela mergulhou o pincel em tinta vermelha para produzir uma eloqüente imagem gestual que amplificava os atributos sexuais femininos e funções corporais, redefinindo a action painting em função dos códigos da anatomia feminina. Chamou-a Vagina Painting, Pintura Vaginal (imagem acima).

Entre outros temas, o Movimento Fluxus também estava preocupado com questões de gênero e as figuras da sexualidade. A performance de kubota foi a manifestação mais agressivamente feminista ligada ao Fluxus, embora a própria artista não tenha pensado as coisas desta forma na época (1). Vagina Painting também procurava rejeitar a idéia da mulher como musa. Na cultura ocidental, a posição de musa manteria a mulher enquanto um ser passivo que só serve para ativar inspiração criativa no homem. Dessa obsessão, nem o movimento surrealista escapou. Questionando o papel da musa, Kubota desejava afirmar a mulher enquanto sua própria inspiração artística, preenchendo a lacuna entre arte e vida (2). Sua performance foi considerada ‘animalesca’, por seus próprios colegas (homens) do Fluxus. Rebecca Schneider comenta o incidente, evidenciando a misoginia implícita no comportamento dos homens que participaram de um movimento que tomava a si mesmo enquanto algo para além dos preconceitos burgueses que aprisionam a cultura ocidental:



Seus colegas homens odiaram
a peça, apesar de celebrarem [...]
a utilização que Yves Klein fez de
mulheres nuas enquanto ‘pincéis
vivos’ em 1959. Mulheres enquanto
 pincéis de artistas, mulheres
 fetichizadas enquanto pênis foi
 aceitável, até mesmo chique. Mas
 mulher com pincéis era de alguma
 forma mulher com pênis [...] -
 certamente não artístico” (3)



De fato, utilizando seu corpo – especificamente seu sexo -, Kubota produz uma paródia da utilização que Yves Klein fez do corpo feminino (imagem acima, onde os próprios corpos das mulheres eram os pincéis). Por tabela, questiona o papel da pintura ejaculatória de Jackson Pollock, herói da action painting (no centro, à direita). Sua performance também ativa a vagina como uma fonte de inscrição e linguagem, invertendo a classificação cultural ocidental da genitália feminina como um ponto de falta (falta do pênis) e o lugar onde a linguagem não é possível (4).

Notas:

1. STILES, Kristine. Between Water and Stone – Fluxus Performance: A Metaphysics of Acts IN WARR, Tracey; JONES, Amelia. The Artists Body. London: Phaidon, 2000. P. 211.
2. Ibidem.
3. SCHNEIDER, Rebecca. The Explicit Body in Performance. New York: Routledge, 1997. P. 38.
4. WARR, Tracey: JONES, Amelia. Op. Cit., p. 63.

4 de jun. de 2009

O Corpo Suficiente (final)


“Agrade a todos e não
agradará a ninguém”

Esopo (1)

Virgindade Madura e Infantilidade Imatura

Somos compostos de carne e dúvidas. Não dá para esconder as últimas debaixo de maquiagens ou plástica ou botox, ou etc. Também não é possível eliminar as dúvidas para sempre, pois elas se sucedem a cada novo passo. As dúvidas, na verdade, são elementos essenciais, nos empurrando para buscas.

São elas que fazem o rio fluir em todas as direções – rompendo a maldição cronológica. A dúvida sobre aquilo que queremos ser (criança, maduro, velho) pode nos empurrar para várias respostas. Mas se é assim, como podemos ser criança, adolescente virgem e ao mesmo tempo um(a) velho(a) com vários filhos criados? Conceber uma personalidade tripla (que aqui não têm nada a ver com psicose), ao mesmo tempo criança-maduro(a)-idoso(a) não impede a constatação de nossa virgindade - que não está nos orgãos sexuais, mas no coração. Ela também é um sentimento. Só chegamos à velhice madura se resgatamos a inocência da virgindade da criança que temos dentro de nós. Sem essa virgindade, qualquer tentativa de rejuvenescer através de produtos artificiais não gera outra coisa senão pessoas regredidas e infantilizadas. (imagem acima, Interior no Verão. Edward Hopper, 1909)

Criando Um Monstro Maquiado

Então como fazem as mulheres pobres, para quem produtos de beleza ou plásticas estão fora do orçamento? Como faz quem não têm poder aquisitivo para se autoconhecer e ser feliz? Quem é pobre não pode “se cuidar”, portanto não há beleza sem dinheiro (imagem ao lado, 26.06.2002 Auto-Retrato. Gianguido Bonfanti). Isso faz sentido? O que pode um corpo sem a “indústria do rejuvenescimento da burguesia”? Temos então mais um dos tantos mecanismos de segregação social e racial. Até a sacola da padaria têm que ser de grife, senão ficamos parecidos demais com pobres carregando marmita! Mas afinal, de onde surgem fenômenos como a indústria do rejuvenescimento? De onde surge a motivação que torna natural a opção pela plástica facial, pelo botox, pela lipoaspiração, por produtos de beleza e mascaramento da idade cronológica? Quando e por que mascarar a idade passa a ser uma opção?

Como e por que esse valor (rejuvenescimento) se grudou ao exterior de nossos corpos e adquiriu relevância na afirmação de mudança interior? Por que modificar o exterior do corpo passou a ser sinônimo de mudança exterior (ou interior)? Quando um creme para controle de celulite passou a ser um elemento importante para a auto-estima? Um creme anti-rugas, antiestrias ou anticelulite é mais importante que o autoconhecimento? Cremes como estes ajudam mesmo o autoconhecimento?

Em Literatura de Auto-Ajuda e Individualismo, Francisco Rüdiger mostra como os manuais de auto-ajuda surgem no vácuo de uma mutação na Modernidade. Se antes o indivíduo recebia da tradição valores nos quais acreditar e justificar suas ações, agora é ele que deve administrar sua identidade. O problema começa, não é tão simples estabelecer parâmetros numa sociedade como a nossa, onde tudo vira mercadoria, onde há uma cisão entre pensamento e ação. Onde as práticas de conhecimento de si são engolidas pela cultura de massa. Rüdiger distingue a auto-racionalização (daquele que, percebendo-se cidadão de uma sociedade racionalizada, racionaliza seus hábitos, adequando-se ao sistema), teorizada por Max Weber, do conceito de reflexividade (capacidade de auto-observação, quando medito sobre meu modo de ser) sugerido por Karl Manheim: “Normalmente, o homem não se volta para si mesmo, dirige-se apenas às coisas que maneja, troca ou deseja fazer. Seu próprio agir permanece sem observação. A experiência imediata é onde se vive, de onde se parte, sem que se capte seu próprio sujeito” (2). (imagem ao lado, 12.07.2002 Auto-Retrato. Gianguido Bonfanti)

A literatura de auto-ajuda entra como elemento de compensação em relação à desintegração dos referenciais coletivos, uma característica das sociedades industriais do século 20. A libertação em relação às representações coletivas, que outrora engessavam a identidade, bate de frente com uma sociedade cada vez mais complexa, que tende a desintegrar a personalidade. Há uma precarização da subjetividade que, exposta à possibilidade constante de perda da unidade, mantém como pode os elementos de algo que possa chamar de identidade. A individualidade depende agora de reciclagem permanente, única forma de o indivíduo preservar sua condição de agente social. A liberdade desse indivíduo torna-se profundamente problemática no contexto de uma sociedade degradada, a literatura de auto-ajuda entra aí como uma das mediações a partir das quais as pessoas procuram construir um eu. Mas esse talvez seja um remédio que limita mais do que liberta, pois a literatura de auto-ajuda tende a reintroduzir valores tão clichês quanto aqueles da cultura de massa. (imagem ao lado, 13.03.2002 Auto-Retrato. Gianguido Bonfati)

Trocar um clichê por outro, ou seis por meia dúzia, talvez não baste para aqueles que buscam mais o auto-conhecimento de seus labirintos do que palavras açucaradas. Portanto, talvez a busca caótica pelo eu de cada um seja mais proveitosa do que a compra de mais um manual para nos dizer o que fazer (e, portanto, nos dando ordens, exatamente como a tradição fazia antes, nos obrigando a obedecer regras sem questionar, como condição para atingir a felicidade). A indústria do rejuvenescimento seria mais um desses mediadores que entra no vácuo identitário, ou reflexivo, da despersonalização. Daí essa tendência a aderir às novas tentativas de matar a charada do ser (feliz): cremes, plásticas, lipoaspiração, etc… A questão é que nesses processos o corpo pode não agüentar. O problema é a capacidade ou não do indivíduo escapar das armadilhas da indústria cultural e de massa – onde tanto indústria do rejuvenescimento quanto mercado editorial, do qual fazem parte os livros de auto-ajuda, estão inseridos. (imagem ao lado, 09.08.2002 Auto-Retrato. Gianguido Bonfanti)

Quando seu corpo será suficiente?

Eu Só Queria um Corpo Mais Corajoso

Uma vez ouvi na televisão uma tese bizarra. Alguém dizia que essa ditadura da magreza imposta às modelos das passarelas não têm nenhuma relação com a hipótese de que as mulheres precisam ser magras para poder vestir qualquer roupa que se lhes apresente o estilista. Ao contrário, afirmavam, não haveria nenhuma necessidade dessa imposição de um corpo esquelético, anoréxico e bulímico. Tudo não passaria de um complô dos homossexuais (que geralmente são os estilistas) contra as mulheres. Eu realmente não me lembro quando nem quem disse isso na televisão. Uma coisa se pode constatar, quase sempre somente AS modelos são bulímicas, OS modelos não.

Os homens que desfilam, geralmente estão bem nutridos e muito bem tratados. Não têm nenhum esquelético. Eu só não consigo explicar, seguindo essa lógica bizarra, por que AS modelos que trabalham para estilistas mulheres também são esqueléticas (imagem acima, Cinema em nova York, 1939; abaixo, Interior [Modelo a Ler], 1925. Edward Hopper). Será que essas mulheres (estilistas) não perceberam que seu gosto (sexual) por mulheres esqueléticas talvez obedeça à imposição misógina de seus colegas (estilistas)?

No fundo, pouco importa se a culpa é dos homossexuais. Até porque nós, elas e eles, todos somos vítimas do mercado de consumo – a falta de consciência disso talvez explique a pouca solidariedade entre nós, uns pisando nos outros, enquanto o mercado manipula a todos impunemente. Mas por que será que as mulheres não percebem essas manipulações (no fundo misóginas) de seu ego e seus corpos? Não dá para desconfiar nem um pouquinho de certas imposições feitas ao corpo feminino? Não dá para lembrar o exemplo (da mercantilização) da erotização da criança na televisão brasileira? De qualquer forma, a mulher sempre foi a “criança” preferida do mercado. (abaixo, 13.07.2001. Gianguido Bonfanti)


Mercantilização da libido infantil, meninas adolescentes mais preocupadas em se maquiar do que em viver a vida, mulheres infantilizadas mais preocupadas com a imagem do que com a substância interior, será esse o panorama do feminino no século 21? Será este o legado do feminismo? Não é que as mulheres não devem se cuidar ou se arrumar – fazer plástica, lipoaspiração ou injetar botox. Também não se defende que os homens devem largar o viagra, não se trata de negar um aumento de potência sexual fora de época. Não se trata de negar à mulher idosa ou às adolescentes o direito de se maquiarem até sufocarem todos os poros da pele. O que é importante é perceber o limite do exagero. O que é sábio é perceber até que ponto desejamos fazer isto ou aquilo ou se estamos sendo induzidos por pressões sociais preconceituosas e/ou mercadológicas. Usar a indústria do rejuvenescimento não é o problema, mas ser usada por ela sim.


Se a mulher não percebe essa fronteira, não me parece justo afirmar que com quilos desse ou daquele produto a vida vai parecer melhor. As mulheres acabam perdendo de vista que não existe corpo suficiente para suprir essa falta nutrida pela indústria do embelezamento (do seu exterior). Não há corpo suficiente porque sempre haverá um produto novo no mercado. Nunca haverá corpo suficiente porque o corpo humano não é isso, ele não foi pensado (por Deus?) como algo congelado no tempo, algo que não muda – a mulher não pode se comparar à comida congelada. A vantagem do corpo humano é exatamente o fato de que ele está sujeito à mudança. Essa é a qualidade do exterior do corpo que pode mudar o interior: a mudança física no corpo sugere que o interior (espiritual ou o que for) não só pode como deve mudar. Nesse sentido, as marcas do envelhecimento do corpo não são parte do problema, são parte da solução.

Em O Céu Que Nos Protege (The Sheltering Sky, direção de Bernardo Bertolucci, 1990) (imagem abaixo), temos um casal no deserto em busca daquilo que se perdeu em seu amor. Logo no início faz-se uma distinção entre turista e viajante. O primeiro quer logo voltar para casa, enquanto o segundo pode nunca mais voltar – como um rio, ele simplesmente vai. Em certo ponto, o marido morre. Kit, a viúva, parte então pelos caminhos do deserto com uma caravana. Lá pelas tantas, é resgatada no hospital com um olhar perdido. A pergunta é, onde está a vida afinal, para onde devemos olhar? Como olhar para o interior sem confundi-lo com o exterior? Cadê meu corpo? Cadê minha vida? Kit volta ao bar onde estivera no início de sua busca com seu marido. De repente ela vê um velho, que parece falar com ela telepaticamente.

Velho: Você está perdida?
Kit: Sim.
Velho: Porque a gente não sabe quando vai morrer. A gente pensa na vida como um bem inesgotável (3). As coisas acontecem certo número de vezes. Um pequeno número, na verdade. Por quantas vezes você se lembrou de uma tarde de sua infância, uma tarde tão comum, mas que você não poderia viver sem ela? Talvez umas quatro ou cinco vezes, talvez nem isso. Quantas vezes você vai admirar a lua? Talvez vinte. E ainda assim parece sem limites.


Cadê sua vida? Cadê o corpo que você tinha? Você tinha vida quando tinha aquele corpo? Quantas vezes você percebeu o mundo lá fora? Quando vamos entender que nossos corpos são frágeis sutilezas da vida relegadas a segundo plano em nossas próprias lembranças? Por que colocar no corpo mais esse fardo de carregar a culpa por nossa incapacidade em buscar a felicidade?

Quando seu corpo será suficiente?

Notas:

1. Conhecido como o primeiro fabulista da história. Grécia, séc. VI a.C.
2. RÜDIGER, Francisco. Literatura de Auto-Ajuda e Individualismo. Rio Grande do Sul: Editora da Universidade. 1996. P. 12.
3. Na edição lançada em 2006, na versão dublada em português a palavra ‘inexhaustible’ foi traduzida por ‘incansável’.

6 de mai. de 2009

As Mulheres, Entre Ocidente e Oriente (final)


Nós Tratamos Bem Nossas Mulheres!

“Por que as mulheres
fecham os
olhos durante
o sexo? Elas não suportam
ver homem se divertindo”



Em seu livro, O Monstruoso Feminino, (1) Bárbara Creed nos mostra como, a partir do universo dos filmes de ficção científica, se dá a satanização da figura feminina no Ocidente. A misoginia também encontra seus elementos no gigantismo. Neste particular, mulheres, aranhas gigantes e extraterrestres concorrem quanto a maior monstruosidade. Vale lembrar também O Ataque da Mulher de 10 Metros (Attack of the 50-foot Woman, 1957), de Natan Hertz (imagem ao lado). Neste filme, uma esposa traída encontra um extraterrestre verde gigante que passava pelo nosso planeta em um disco voador, é transformada num enorme monstro vingador que estripa o marido infiel com as próprias mãos.


Que a mulher esteja associada a algo negativo não seria novidade no ocidente cristão. É como se na guerra tivéssemos a atualização de um rito de sacrifício masculino frente a alteridade feminina. E a ditadura da beleza (física)? Espartilhos, cremes anti-rugas e anti-celulite, plástica... Esticar é preciso? Por quê? Ah! Para realçar a juventude da alma... Por que pintar os cabelos brancos, que deveriam ao contrário ser motivo de orgulho, cada um deles. Ah! Para realçar a juventude da alma... Lipoaspiração... Lembremos da modelo Claudia Liz, que entrou em coma durante uma dessas invasões. Afinal, qual é a diferença entre a burka e o espartilho? A artista americana Alice Matkin pinta quadros de mulheres velhas nuas como forma de chamar atenção contra essa ditadura da “jovem, magra, beleza exterior”.

“Por que não se pode
confiar nas mulheres?
Como alguém pode
confiar em algo que
sangra p
or cinco dias
e não morre?”


Felix Guattari descreve a experiência das Mirabelles (grupo de teatro musical), que buscam incitar a exploração do movimento de transformação. Trata-se de um movimento de devir outro que pretende fugir daquilo que o corpo social repressivo nos impôs. O que significa buscar uma relação verdadeira com o desejo. É a idéia de viver essa relação ao nível dos corpos. (imagem acima, A Mulher Vespa, 1960; imagem abaixo, à esquerda, A Monstra, 1957. Juntamente com O Ataque da Mulher de 10 Metros, A Mulher Demônio de Marte, e tantos outros títulos, o cinema de ficção científica disseminava uma representação de mulher bem ao gosto do puritanismo norte-americano; na imagem ao lado, Jonsey, uma senhora de 64 anos pintada pela artista norte-americana Alice Matkins; imagem abaixo, detalhe de O Nascimento da Vênus, de Botticelli, 1485)


"O que é a mulher? O motor da vassoura"


“A questão não é mais a de saber se vamos desempenhar o papel feminino contra o masculino, ou o contrário, e sim fazer com que os corpos, todos os corpos, consigam livrar-se das representações e dos constrangimentos do ‘corpo social’, bem como das posturas, atitudes e comportamentos estereotipados, da ‘couraça’ de que falava Wilheim Reich. A alienação sexual, que é um dos fundamentos do capitalismo, implica na polarização do corpo social na masculinidade, enquanto que o corpo feminino se transforma em objeto de cobiça, em mercadoria, um território ao qual só se poderá ter acesso na culpabilidade e submetendo-se a todas as engrenagens do sistema (casamento, família, trabalho, etc...)” (2)

“Se mulher fosse bom,
Deus tinha uma”



Como se pode dizer que é um horror o tratamento que os muçulmanos dispensam às mulheres quando vulgarizamos as nossas, quando vendemos sua nudez, quando as chamamos de cachorras? Qual é exatamente a diferença entre obrigar mulheres a cobrir (Islã) ou descobrir (Ocidente) totalmente o corpo? A mistura entre sexo e violência parece ter se tornado uma ética/estética banal. Qual seria a motivação por trás desse excesso de visibilidade do corpo feminino no Ocidente? A pornografia, em seus vários graus, faz das mulheres objeto ou sujeito nas relações homem-mulher? Numa sociedade machista, com grandes doses de donjuanismo, poderíamos concluir que a mulher é objeto. E se provocássemos o falocentrismo sugerindo que esse desejo obcecado deriva do desejo de ser mulher, mais do que possuí-la?

“O que têm cerca de 20
centímetros de
comprimento,
mais ou menos cinco de
largura e deixa as mulheres
malucas? Dinheiro”

Temos também o futebol, bastião da masculinidade brasileira. Já repararam na maioria das comemorações de vitória em campo? Beijos, abraços, corpos sobre corpos, beijos, beijos, homens suados se tocando... Por outro lado, e para falar de Brasil, temos o turismo sexual e a cada vez mais descendente faixa etária das meninas que começam a carreira de modelo e manequim – por agora, 12 anos de idade. Nem vou questionar o fato de que a sociedade deveria preferir que nesta idade essas crianças utilizassem seu tempo para a escola e os estudos. (ao lado, A Mulher Demônio de Marte, 1954)

“Por que as mulheres
esfr
egam os olhos de manhã
quando acordam? Elas não
têm um saco para coçar”


Afinal, qual é a chave para compreender o papel da superexposição da mulher no seio de uma sociedade machista como a ocidental, e na brasileira em particular? Alguém pode dizer que a mulher tira a roupa e posa nua porque quer, ela não é obrigada. Havendo machismo lá como cá, a questão não parece ser mais quem mostra o que quiser. A questão parece ser quem manda, impõe, obriga a mostrar ou não! Coberta por uma burka ou pelada, a mulher sempre foi objeto. Tanto faz tirar-lhe ou não toda roupa. A liberdade delas foi sufocada muito antes. (na imagem ao lado, a burka)

“O que uma mulher de 75
anos tem entre os seios que uma de 25 não tem? O umbigo”

Heloneida Studart, comentou sobre o hábito machista de chamar uma mulher de cachorra. Aos 15 anos escreveu 3 artigos contra a frase “a mulher é um corpo lindo”. No colégio de freiras em que estudava as madres aprovaram. Porém, ela não via pelo prisma religioso, para o qual a mulher nem devia ter corpo, só espírito. Seu ponto de vista ia além, a mulher seria também caráter, emoção, intelecto e inteligência... (ao lado, deformações causadas pelo espartilho)


“Qual é
a melhor
parte do
sexo
oral?
10 minutos
de silêncio”



Entretanto, eleita ao posto de cachorra, a mulher passaria a ser literalmente (posto que indiretamente sempre fora) identificada com um animal que lambe a mão do dono mesmo depois de espancada, e que no cio aceita 10, 15 ou 20 cães ao mesmo tempo. Heloneida chama atenção para os anos de luta pela valorização feminina que estariam sendo renegados pelas próprias mulheres ao permitirem ser apelidadas de cachorras. Termina dizendo que “ter convicções é urgente. Antes que, depois de sermos chamadas de cachorras, passemos a ser tratadas como baratas” (3). Por que os homens não se questionam a respeito das piadas que fazem sobre mulheres... no Ocidente? Talvez porque alguns homens não são suficientemente machos para deixar de tomar atitudes misóginas e preconceituosas!

Notas:

Leia também:

As Deusas de François Truffaut

1. CREED, Barbara. The Monstrous-Feminine. Film, Feminism, Psychoanalysis. London: Routledge, 1993.
2. GUATTARI, Felix. Revolução Molecular: Pulsões Políticas do Desejo. Tradução Suely Belinda Rolnik. São Paulo: Ed. Brasiliense S A, 3a ed. 1987. P.43.
3. STUDART, Heloneida. Mulher não é cachorra. Rio de Janeiro: LÚMEN – Boletim Cultural do Colégio Rio de Janeiro. Ano LXIII – Abril-Maio-Junho/2001.

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