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Roberto Acioli de Oliveira

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27 de mar. de 2009

A Face do Mal (I)




“Em geral
podemos saber a data
de uma representação de Jesus devido a certas características
iconográficas”(...)“O Diabo, porém,
é um capetinha impotente ou
um demônio perverso com
aparências variadas em
qualquer época” (1)




Eu e o Outro

Não são poucas as vezes que escutamos frases do tipo, “com essa carinha de santo/a, quem poderia imaginar que poderia ser tão má/mau!”. Muitas são as variações da hipótese platônica de que se alguém é bela/o, só pode fazer o bem. Não que isso seja incomum nas sociedades humanas, mas nós ocidentais somos uma cultura muito dependente da visão. Especialmente em relação a personagens heróicos de nossa história. Mas também, e principalmente, quando se trata de dar uma imagem a personagens que representam conceitos tão abstratos quanto o Bem e o Mal. (imagem acima, detalhe de Os Condenados, parte da série O Juízo Final, 1503, de Luca Sigmorelli)

Do ponto de vista dos exércitos aliados durante a Segunda Guerra Mundial, os inimigos nazistas alemães, fascistas italianos e japoneses, tinham a face do demônio. E assim eram retratados em revistas, jornais, livros e desenhos animados. O mesmo acontecia com esses inimigos quando representavam os aliados para seu próprio povo. Quem estava com a razão? Do ponto de vista dos Estados Unidos, os comunistas de todo mundo eram vistos como a semente do mal, comedores de criancinhas. Por outro lado, os norte-americanos foram os únicos capazes de lançar bombas atômicas, escolhendo populações civis como alvo.

Quem sabe como realmente foi a face de Jesus Cristo? Muitas são as representações dele, a maioria de longos cabelos e barbas quase louras e olhos azuis. Ninguém parece se importar com o fato de que era judeu e pobre, vagando pela terra desértica da Palestina sem condições higiênicas ideais. Invertendo a questão, por que as personagens más geralmente são representadas com imagens praticamente ou, às vezes, totalmente animalesca? Por exemplo, a figura do diabo de chifres e rabo pontudo. De onde veio isso?

A Máscara do Mal


“Alguns dos diabos de Fra
Angelico têm chifres
, outros,
não
; uns têm rabo, outros, não;
há os alados e os não-alados
, os
peludos e os glabros
, uns com
cara de cachorro
, outros de
gato
. E o grande Satã negro
de Fra Angélico mais parece Godzilla do que qualquer
outra coisa”
(2)



Talvez Cristo e o demônio sejam realmente assim, mas isso não quer dizer que não existiu uma fantasia em torno da reprodução de suas imagens. No sentido de que ou eles não estão mais presentes ou são invisíveis. Portanto, sem provas físicas, a recriação de sua suposta imagem fica a mercê de pessoas e/ou tendências artísticas cuja real preocupação com alguma veracidade documental é infinitamente inferior à própria fé. As representações do Juízo Final só se tornaram populares depois do século XII. Se o Diabo não tinha asas de morcego antes do ano 1300, temos de nos perguntar por que (3). (imagem acima, O Juízo Final, 1431-35, de Fra Angelico; a citação à direita da imagem refere-se a ela)

Em muitas ilustrações e estórias em quadrinhos, o Diabo geralmente segura um garfo ou forcado. A quem sugira que essa peça deriva do tridente de Posêidon, o deus grego do mar, que por sua vez deriva de Adad, antigo deus babilônico do tempo. Mas esses deuses pertenciam a uma tradição que a nascente Igreja Católica chamava de infiéis, bárbaros, hereges e pagãos. Daí que se deu um arpéu (ou gancho aforquilhado) para ele. Mas por quê? Talvez porque, em função da Inquisição, o arpéu se tornou um instrumento de tortura para purificar os infiéis. Portanto, o arpéu do Diabo servia para a tortura dos condenados.

Entretanto, por longo tempo os atributos e concepções gráficas do Diabo não estavam tão definidos quanto àqueles de Maria, Judas ou Sansão. Luther Link sugere que, pelo fato “dele” não ser uma pessoa, pode ter muitas máscaras, mas sua essência é uma máscara sem rosto. Por esse motivo o rosto do Diabo era mais difícil de representar do que o de Jesus. Conhecemos muitas representações do diabo monstruoso, mas antes do século XVI encontra-las não era tão fácil assim. Do século IX ao XVI as pinturas que retratavam satã eram ruins. Ou porque se tratava de um ser mal, ou, na verdade, porque não se sabia como retratá-lo.

Mas não podemos nos enganar, para as pessoas daquela época, o Diabo era uma presença real. Portanto, o que parece ruim aos nossos olhos atuais demonstra como é difícil por as mãos na verdade dos fatos. Ao diabo são entregues os hereges, portanto ele é uma espécie de colaborador usado por Deus, ele trabalha para Deus! “Assim, não surpreende que a Igreja não tenha dado contornos nítidos à iconografia do Diabo. O mal do Diabo requer evasivas” (...) “O Diabo constitui um problema teológico e moral: ele é o intruso que a Igreja tem o dever de não definir exatamente” (4).

Notas:

1. LINK, Luther. O Diabo. A Máscara sem Rosto. Tradução Laura Teixeira Motta. São Paulo: Companhia das Letras, 1998. P. 46.
2. Idem, p. 47.
3. Ibidem, p.18.
4. Ibidem, p. 21.

3 de fev. de 2009

Os Biblioclastas (final)


Um Mundo Bizarro 

Na opinião de Fernando Báez, geralmente todo esse ódio totalitário e apocalíptico contra o livro parte de pessoas com tendências muito específicas: são porta-vozes de tentações coletivistas ou de utopias milenaristas, podem ter também preconceito de classe e/ou um comportamento despótico, burocrático e servil. Esses biblioclastas, os destruidores de livros, curiosamente possuem um livro que seguem e que julgam eterno. Sendo eterno, seu conteúdo adquire uma condição categórica que legitima sua procedência divina (seja Corão, Bíblia, ou o programa de um movimento religioso, social, artístico ou político) (1). Nem só de ignorantes são formadas as fileiras da Inquisição biblioclasta. Báez confessa que, após 12 anos de estudo, concluiu que quanto mais culto é um povo, um homem ou uma mulher, mas disposto se mostra a eliminar livros e se deixar dominar por mitos apocalípticos.

Foram biblioclastas René Descartes, David Hume, o Movimento Futurista, os poetas nadaístas colombianos, Vladimir Nabokov e Martin Heidegger. Além disso, parece que em alguns países é costume os alunos queimarem seus livros e textos de estudo como cerimônia não oficial de conclusão do ensino médio. Mas isso supostamente acontece também num ritual secreto na famosa Universidade de Harvard – lá onde estudou Barack Obama, o atual presidente do mundo.

Em 1982, na cidade de Monticello, no Estado Norte-Americano de Minnesota, três líderes fundamentalistas organizaram uma queima. Em 30 de dezembro de 2001, numa cidade do sudoeste dos Estados Unidos, uma comunidade religiosa queimou centenas de exemplares de Harry Potter. Jack Brock, o pastor, advertia que esses livros eram ruins para jovens, porque estimulavam a feitiçaria. Segundo Brock, Harry Potter é o diabo. Lançaram ao fogo também romances de Stephen King (2). Em 2001, membros da Assembléia de Deus na Pensilvânia cantavam enquanto queimavam livros, cd’s e vídeos que julgavam ofensivos a seu Deus. (imagem ao lado)

O Mundo da Internet

Desde que a internet se disseminou pelo mundo, podemos cada vez mais escrever nossos livros e textos e opiniões na rede mundial de computadores (World Wide Web: www). Se por um lado a virtualização do texto escrito facilita a difusão de informações e de conhecimento, por outro facilita também a vida dos inquisidores. Uma vez que possuam em suas fileiras ovelhas que entendam de navegação na rede, podem invadir e destruir os sítios particulares, ou de grupos e empresas. Portanto, a perseguição continua! A mesma sensação de pavor que causa a invasão do domicílio de alguém pode voltar quando se vê todo seu trabalho ir por água abaixo por obra de um invasor eletrônico. (imagem abaixo, durante o golpe do general Pinochet no Chile em 1973, soldados queimam livros proibidospelo novo Senhor)

Num certo sentido, a intolerância pode se disseminar através da rede com muito mais velocidade do que pelos meios normais. Alguém no Brasil pode destruir um sítio no Egito ou Paris. Além disso, como são países diferentes, o destruidor, se e quando for descoberto, poderá ficar impune caso esteja protegido pela legislação de seu país de origem. Neste ponto, o comentário de Báez está desatualizado quando ele afirma que “não está longe o dia em que no lugar do fogo os biblioclastas utilizarão programas informáticos destrutivos, limpos e devastadores” (3). De fato, constitui grande desafio para alguns espíritos dogmáticos compreender o que significa a afirmação de que todo cidadão tem direitos e deveres, e que ninguém poderá ser privado de amplo direito de defesa (de si mesmo e de suas idéias) (4).

Notas:

Leia também:

François Truffaut e Seus Livros

1. BÁEZ, Fernando. História Universal da Destruição dos Livros. Das Tábuas Sumérias à Guerra do Iraque. Tradução Léo Schlafman. Rio de Janeiro: Ediouro, 2006. P. 25.
2. Idem, p. 305.
3. Ibidem, p. 321.
4. 
Intellectual Freedom? Yes! Censorship? No!

1 de fev. de 2009

Os Biblioclastas (I)


“Aqueles que
ignoram o seu
passado   estão
condenados a
 repeti-lo”
George Santayana


Uma Religião Para se Orgulhar 


Em matéria de perseguição religiosa e extermínio do pensamento discordante, nada suplanta o terror da Inquisição. Tortura institucionalizada, condenações sem direito de defesa, censura e destruição de livros (e as idéias neles contidas), eis a herança que a Igreja Católica legou para o mundo Ocidental. Após a queda do Império Romano e a cristianização de suas cinzas, a consolidação do “império cristão” começa a esbarrar na pluralidade do pensamento e das vontades. Ou melhor, incisivamente ou apenas com sua simples presença, os livres pesadores, religiosos e/ou ateus, os movimentos religiosos de vários matizes nascentes ou remanescentes de formas arcaicas, começam a questionar a “força cristã”.

A Inquisição tinha como objetivo mapear esses movimentos de idéias contrárias aos seus dogmas e dissuadi-los por meio da excomunhão, tortura, ordálio (ou prova de Deus), queima de hereges (alcunha negativa que denomina todos que atacam a Igreja ou, simplesmente, discordam), chegando ao ataque a populações inteiras. Com o surgimento da Reforma Protestante de Martinho Lutero (que por sua vez teria pregado também o anti-semitismo) no século XVI, a bestialidade da Inquisição se institucionaliza. Muito já se falou a respeito das torturas e fogueiras de gente.

Em seu livro, História Universal da Destruição dos Livros. Das Tábuas Sumérias à Guerra do Iraque (1), Fernando Báez mostra como ao lado de todas as formas autoritárias de governo, e das mortes de seres humanos que eles patrocinam, existe um outro crime contra a humanidade do qual pouco se fala. Báez mostra como a queima de livros sempre foi um empreendimento levado muito a sério pelos donos do poder em cada época da história. Não tanto pela destruição física do livro, pergaminho ou folheto, mas pela tentativa de destruir as idéias neles contidas. Um capítulo convenientemente pouco divulgado da Inquisição passa por essa forma de destruição da cultura humana. Muitas foram as listas de livros proibidos e de bibliotecas particulares destruídas, juntamente com seus donos.


Situação que lembra muito outro livro, Fahrenheit 451 (1953) (imagens acima), de Ray Bradbury, que ganhou uma versão para cinema em 1966, pelas mãos do cineasta francês François Truffaut. A história se passa num tempo futuro, onde as pessoas são perseguidas por possuírem livros. Os bombeiros, que hoje apagam incêndios, têm como função juntar os livros descobertos e queimá-los – fahrenheit 451 é a temperatura que deve ser atingida pelo fogo para queimar os livros com mais eficiência.

Para o Estado Totalitário que vigiava a todos, o perigo da disseminação de idéias novas (que poderiam levar ao questionamento de seus dogmas políticos) tornava a busca, apreensão e destruição (tanto dos livros quanto de seus donos) uma tarefa imprescindível. E assim era para uma Igreja Católica desvairada ao longo de alguns séculos, influência nefasta que chegou até o século 19 em alguns lugares onde ela ainda mostrava suas garras. Seja no livro, no filme, ou na Inquisição real, a desqualificação do discurso e das idéias de alguém (pelo fato de ter sido questionado por essas forças do obscurantismo) já funciona como uma mordaça.

O Santo Ofício e a Censura aos Livros 

O controle pelo medo é a arma da intolerância religiosa, que durante alguns séculos foi pregada por uma Inquisição cujo objetivo parecia ser instalar uma indigência do pensamento em sua área de influência. O questionamento de todas as visões de mundo que, direta ou indiretamente, contradiziam os dogmas da Santa Igreja gerou grandes listas negras. Em 1542, o Papa Paulo III constituiu o Santo Ofício. De modo geral, a Inquisição perseguia a todos que pudessem causar problemas políticos para a Igreja. O Santo Ofício, que fora criado em função da proliferação do protestantismo, se concentrava nos teólogos e sacerdotes, que eram rastreados por espiões e mercenários (2).

Em 1520, uma bula do Papa Leão X excomungou Martinho Lutero e publicamente proibiu a difusão, leitura ou citação de qualquer de seus escritos. A população, a maior vítima, passou a queimar os livros e efígies de Lutero (por medo de ser questionada ou por uma fé genuína que respeitava a autoridade da Igreja), que por sua vez mandou destruir a bula numa fogueira (3). Em 1529, foi proibida a impressão de livro não autorizado por um órgão sacerdotal. Em 1220 uma lei que autoriza o confisco dos bens dos hereges, facilitando a queima dos “teimosos”.


Em 1252, Inocêncio IX nomeou duas ordens eclesiásticas encarregadas do cumprimento das penas contra os hereges: dominicanos e franciscanos. Foi um dominicano fanático, Bernardo Guidonis, que em 1323 escreveu o primeiro manual de instruções para o combate as heresias. (imagem acima, à direita, Librorum Prohibitorum, 1559-1964, uma lista de livros proibidos publicada pelo Vaticano)

Espanha, o Inferno na Terra

A Inquisição na Espanha constitui um capítulo à parte, a perseguição contra toda opinião contrária era frenética! Em 1478, o rei Fernando II e a rainha Isabel I se destacaram na formulação de uma monarquia inquisitorial. Felipe II, em seguida, instaurou a censura católica. Judeus e Árabes foram perseguidos, aquele que não se convertia ao catolicismo era executado. Autores de livros e seus editores foram enforcados. Em 1570, criou-se um catálogo espanhol próprio de obras proibidas, o que permitiu o confisco e destruição de milhares de livros em toda a Europa. Em 1583, a Universidade de Salamanca elaborou um índice que especificava tanto obras quanto trechos proibidos. Assim, poderiam se suprimir frases, parágrafos e partes de um livro, como condição para permitir sua circulação. Esse índice circulou até 1790.

Em 1558 foi expressamente proibida a importação de livros e o contrabando deles era punido com penas elevadas. Os livros de Lutero e Calvino, o Talmude, o Corão, livros de adivinhação, superstições, alusões sexuais ou necromancia, foram todos proibidos. Na França, já a partir de 1563, a intimidação a impressores, vendedores e autores de livros era franca e aberta – imagine-se o quanto se poderia intimidá-los caso naquela época já existisse a televisão!


Como observou Turberville, não bastava proibir, era necessário comprovar que não se liam livros proibidos. A Inquisição utilizava agentes para fiscalizar as livrarias e as bibliotecas particulares (4).

Na América espanhola era a mesma coisa, Peru, México, Colômbia, Venezuela, de norte a sul a Inquisição se fez presente através do Santo Ofício, queimando homens e livros até a primeira década do século XIX. Havia até visitas domiciliares para interrogatório dos proprietários de livros. Equipes de busca fuçavam as cidades atrás de livros proibidos ou considerados questionáveis segundo o ponto de vista distorcido da Inquisição. “Um país se faz com homens e livros”, já disse Monteiro Lobato a respeito do Brasil. Não precisamos somente de livros, mas de leitores, livreiros, editores e autores livres. Como podemos ler naquela gravura do espanhol Francisco Goya (acima à esquerda): “o sono da razão produz monstros”.

Notas:

1. BÁEZ, Fernando. História Universal da Destruição dos Livros. Das Tábuas Sumérias à Guerra do Iraque. Tradução Léo Schlafman. Rio de Janeiro: Ediouro, 2006.
2. Idem, p. 160.
3. Ibidem, p. 159.
4. Ibidem, p. 162.


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