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Roberto Acioli de Oliveira

Arquivos

18 de jan de 2009

A Fabricação do Herói (I)


Heróis Convenientes

Joaquim José da Silva Xavier poderia ter sido esquecido para sempre, não fosse a mudança da forma de governo em seu país, que passou da Monarquia para República. Mas quem é Joaquim? A República fez dele um mito, o que sempre acontece quando se instaura um novo governo, que geralmente cria seus próprios mitos de legitimação. Joaquim insurgiu-se contra a Monarquia, insurgiu-se contra o Poder constituído de sua época. Ele foi apanhado, juntamente com seus companheiros de insurgência.

A República, o poder constituído que veio a seguir, mas muito tempo depois disso, fez dele seu herói. Curiosamente, pelo menos para aqueles que não estão acostumados a ler nas entrelinhas da História, todos aqueles que eventualmente, a partir dos mesmos ideais de Joaquim, se insurgem contra a República e são considerados insurgentes, são punidos com infâmia, prisão, a covardia da tortura e a morte. Paradoxalmente, Joaquim se tornou o símbolo de liberdade e justiça que, teoricamente, está nas bases dessa República.

Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, intitulado Mártir da Liberdade e Patrono da Nação Brasileira, ganha comemoração anual, estátua, efígie, e um lugar nos livros escolares. Todos conhecem (ou já ouviram falar), desde criança, aquela figura de camisolão branco e corda no pescoço, invocando uma indisfarçável semelhança com Cristo. Maria Alice Milliet se pergunta (com alguns de nós): por que o vestiram como santo? (1)

Imagem é Tudo

Qual a relação entre o que é e o que parece que é, entre o real e a representação? Falando especificamente em relação à Inconfidência Mineira, quanto de verdade pode existir nos depoimentos dos conspiradores presos se foram tomados sob “constrangimento”? (2) Resta apenas a documentação oficial, nada existe sobre o plano de ação dos conspiradores. Curiosamente, em 1792, quando foi dada a sentença, apenas um dos conspiradores foi condenado. Joaquim José da Silva Xavier, que ainda não era Tiradentes, foi enforcado, esquartejado, as partes do corpo expostas a execração pública, os bens confiscados (parece que o Estado brasileiro continua gostando muito de fazer isso, ainda que com procedimentos mais sutis e hipócritas), os descendentes desmoralizados. Um cenário de terror sempre montado quando um poder dominante entra em crise e precisa manter seu domínio sobre a população-refém. (na imagem acima, a estátua de Tirandentes na frente da Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro; ao lado, podemos ver a mesma estátua, agora do ponto de vista da Assembléia. Ou seja, de costas para os legisladores. Abaixo, um protesto durante as comemorações da Inconfidência Mineira, em 21 de abril de 2008)

Um século depois, a Inconfidência Mineira perde o sentido negativo que tinha durante o Império e adquire um valor positivo durante a República. Tiradentes agora é saldado (e divinizado) como um herói. A dificuldade de se reconstituir a verdadeira história de Joaquim acaba permitindo a criação do herói em função de interesses e conveniências políticas. Maria Alice Milliet adverte sobre a importância de se revelar o que existe por trás do mito e sua aparente naturalidade (“isso aconteceu assim”).

“Isto porque a perversidade do mito não está em deformar o objeto a que se refere, mas em fazer com que a deformação pareça coisa natural. Tão natural e verdadeira que a invenção pode parecer mais real do que o real”(...)”Uma pintura pode ser tão relevante quanto um artigo de jornal, uma estátua tão ou mais reveladora que um poema, porque o mito, em sua ânsia de comunicação, não discrimina os meios, usando tanto a palavra quanto a imagem em diferentes suportes. Com habilidade perversa o mito descola-se da história” (3)

Cada Época Escolhe Seu Passado (4)

“Minta, minta que alguma coisa fica”

Josef Goebbels,
Ministro da Propaganda
de Adolf Hitler


Para justificar o presente, recorre-se ao passado. A Inconfidência Mineira entra para a história oficial do Brasil Republicano. A República deveria contar sua história (mesmo que tivesse que inventá-la). Bandeiras, hinos, estátuas, quadros, monumentos, cerimônias oficiais, tudo deve tornar visível e dar lastro histórico para a nova ordem política. Disso fazem parte os heróis da pátria (mesmo que tenham que ser inventados ou, reconstruídos à imagem e semelhança daquilo que a ordem política que ele representa enxergar como sendo ela mesma). Eric Hobsbawn chamou de invenção das tradições a esse procedimento, ao constatar sua freqüência na Europa, de 1870 a 1914, como também no continente Americano.

“Nesse período, os Estados criam deliberadamente mitos, símbolos e práticas sociais com o objetivo de mobilizar a sociedade em torno da idéia de nação. Das operações de caráter institucional, as artes visuais participam inseridas num amplo sistema de representações voltado para a sensibilização coletiva. Também no Brasil, o nacionalismo é o grande gerador de mitos, convocando uma variedade de significantes (textos, quadros, estátuas, monumentos, cerimônias públicas etc), frequentemente subsidiando encomendas oficiais. Sob essa diversidade aparente é possível reconhecer as constantes, revelar certas fórmulas, certos padrões de funcionamento, identificar significados recorrentes” (5)

O Culto aos Heróis, como é o caso de Tiradentes, é parte de uma política de reforço da coesão sociopolítica da nação. Hobsbawn mostrou que, durante o século XIX, os Estados Nacionais empenham-se no estreitamento dos laços com a nação (os habitantes e seus territórios, considerados povo, ou seja, cidadãos com deveres e direitos). A massa começa a tornar-se visível para os governos. Depois de 1880, começa a fazer diferença como os homens e mulheres que compõem a nação sentem-se em relação à nacionalidade. Como bem lembra Hobsbawn, já não se poderia mais dizer como o coronel Pilsudiski, libertador da Polônia: “É o Estado que faz a nação e não a nação que faz o Estado” (6).

O patriotismo surge como uma pedagogia cujo objetivo é inculcar o sentimento de lealdade cívica nos cidadãos (neutralizando a vontade de mudar de opinião a respeito do Estado a qualquer momento), além de legitimar o Estado (ou, mais especificamente, o governo que estiver no poder). Os poderes instituídos (os governos) percebem que, se utilizado a seu favor, o nacionalismo (que pode irromper com força contra eles) pode se tornar um instrumento poderoso.

“Nesse sentido, procuram manipular por todos os meios o imaginário social, fazendo recair sobre si os benefícios de uma crença comum. Utilizam vários dispositivos de comunicação, especialmente bandeiras, hinos, cerimônias e obras públicas, o ensino para difundir datas, heróis, feitos militares: em suma, toda uma herança cultural que funciona como matéria de aglutinação do sentimento nacional” (7)

Notas:

1. MILLIET, Maria Alice. Tiradentes: O Corpo do Herói. São Paulo: Martins fontes, 2001. P. 11.
2. Idem, p. 13.
3. Ibidem, pp. 16 e 17.
4. Frase de Marguerite Youcenar, lembrada por Milliet.
5. MILLIET, Maria Alice. Op. Cit., p. 19.
6. HOBSBAWN, Eric. A Invenção das Tradições, p. 271 e Nações e Nacionalismo Desde 1780, p. 56. In MILLIET, Maria Alice. Idem.
7. MILLIET, Maria Alice. Op. Cit., p. 20.

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