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Roberto Acioli de Oliveira

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24 de jul de 2009

O Rosto que Temos e Aquele que Vemos (I)


“A beleza é assimetria
sutil
, não pureza” (1)

Hans-Leo Nathrath
cirurgião plástico

Arrumando o Mundo

Apesar do nome que damos às coisas, dependendo do nosso ponto de vista elas poderiam ter vários outros. Cada nome remete a dimensões diversas de uma mesma realidade. Algo que chamamos de lago poderia chamar-se mar se fossemos insetos. Um simples parque para nós, seria algo parecido com o paraíso para alguns outros minúsculos insetos. Dada a fluidez do real, as palavras nos são indispensáveis, pois o mundo não pára de escorrer entre por entre os dedos. Afinal de contas, precisamos que alguma coisa nos assegure que alguém ou algum objeto existe, mesmo quando não podemos vê-lo ou estamos de costas para ele.

E quando aquilo que vemos não é real, ainda que veja a única forma de comprovar uma existência? A imagem no espelho não somos nós, no entanto ela nos representa fielmente. O espelho, um objeto de vidro, assim como nosso corpo físico, existe, mas aquilo que reflete não passa de uma imagem. Um duplo de nós que frequentemente nos satisfaz (porque acreditamos que reflete a realidade), a ponto de prestarmos mais atenção nessa imagem do que em nós. Seja lá por que motivo for, é fato que nosso eu, nossa subjetividade, nosso eu para nós mesmos, está quase sempre projetado em nossos rostos. Entretanto, só conseguimos olhar para eles com a ajuda do espelho: para olhar em nossos olhos, precisamos de algo fora de nós, mas que só nos pode devolver uma cópia sem substância. (imagem acima, O Grande Paranóico, Salvador Dali, 1936)

Somente as outras pessoas podem nos olhar nos olhos, nós não temos essa capacidade. Nossa experiência de nosso rosto é vaga e ambígua, se não mexemos os músculos do rosto, sentimos um buraco em seu lugar. Mesmo assim, não conseguimos “sentir nosso eu” se não nos fixamos em nossos rostos. Nós tendemos a nos fixar mais nos rostos dos outros do em nosso pensamento sobre nosso rosto. Nós e os outros estamos em seus rostos, quando deveríamos estar em outro lugar. Quando nós mesmos estamos diante do espelho raramente nos encaramos de verdade, olhamos para todo o nosso corpo, menos para nossos rostos – e muito menos ainda para nossos olhos. Encarar os outros é fácil.

Se o espelho nos dá apenas uma cópia, então não estamos olhando para nós mesmos quando nos miramos neles (nem mesmo quando nos encaramos). Onde está nosso eu se não podemos transformá-lo em imagem? Se não podemos nos ver, como é sentir o que somos? Qual é a sensação de si quando não é engendrada por uma imagem? Se acreditarmos que ser é estar no mundo, então nosso corpo, sua carne, teria um papel importante em nossa percepção de nós mesmos. Entretanto, como experimentar nosso eu corporeamente sem cair na tentação de cultivar sua imagem? Experienciar o próprio corpo implica olhar para ele? Então quando nosso corpo será suficiente para nos dar uma imagem fiel daquilo que acreditamos que somos? Na sociedade contemporânea, onde a imagem vale cada vez mais do que o referente que ela está a refletir, talvez tenhamos poucas chances de chegar a nos conhecer.

Com palavras “arrumamos” o real para “entendê-lo”, talvez a imagem possua também alguma função positiva. Contanto que não percamos de vista que estamos “arrumando” o real. Quando vemos uma fotografia de algo em movimento, podemos até encontrar alguma beleza na imagem. Mas não podemos perder de vista que aquela “realidade da imagem” é uma ficção! Na realidade, aquela fotografia corresponde a milionésimos de segundo na vida daquilo que foi fotografado. Quando “arrumamos” o real ou olhamos para uma fotografia de alguma coisa em movimento, devemos saber que aquilo é uma ficção. Uma imagem não respira, somos nós que respiramos. A vida é ao vivo! Isso deveria fazer alguma diferença ou algum... sentido?

Notas:

1. TASCHEN, Angelika (ed). Cirurgia Estética. Köln: Taschen, 2005. P. 196.

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