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Roberto Acioli de Oliveira

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3 de set de 2009

Medo do Diferente ou Conveniência Política?



O discurso da igreja cristã
era (?) particularmente
xenófobo e escatológico

Em História do Medo no Ocidente (1), Jean Delumeau nos dá uma visão da concepção que se fazia do islã na Europa dos séculos XVI à XVIII. De Acordo com o historiador, nem de longe se podia falar de uma unanimidade do europeu em torno da satanização do muçulmano – naquela época, o império otomano era a força que havia produzido uma unidade, sendo os turcos seu centro. (todas as imagens deste artigo são de O Rei e Eu, com Yul Brynner no papel título. Con exceção da última, um desenho animado do filme. Filme exemplar quando se trata do discurso preconceituoso ocidental)

Consta que as populações que não estavam na iminência de uma invasão dos otomanos não se preocupavam muito com eles (2). Mesmo nas regiões ameaçadas, como as penínsulas ibérica, itálica e balcânica, não só não havia medo dos turcos como na verdade verifica-se certo desejo dos autóctones por serem invadidos – na Hungria havia hostilidade em relação aos Habsburgos (3). O motivo era a opressão por parte de seus senhores. Entre os séculos XV e XVI, os camponeses chegaram a emigrar para os territórios controlados pelos turcos (4). Delumeau mostra, com um lamento composto à época, como reagiam por volta de 1570 certas camadas da população de Veneza em relação aos turcos. Dois pescadores se queixam do governo...

“Marino: Mas como Deus não quer que o reino do Tirano [o Senado] pese demasiadamente sobre o mundo, ele preparou para fazer justiça o turco e o grande sultão. Vettore: Este toma o que eles tomaram e lhes prepara guerras e sofrimentos para lhes pespegar um bom golpe na cabeça. Marino: Então seremos seus irmãos muito queridos e eles virão conosco, de traseiro nu, pegar caranguejos moles, lagostas, douradas. Vettore: Eles não chamarão mais os pobres de cornudos, de imbecis, de ladrões nem de cachorros e não lhes lavarão mais os olhos com suas cusparadas” (5)

Portanto, além daquelas populações diretamente em contato com a violência de um exército invasor, no plano geral era a Igreja cristã que estava realmente preocupada. Na Alemanha, Áustria e Hungria, o inimigo estava fora, chegando. Entretanto, na Espanha, o inimigo estava dentro e fora. Ainda que os mouros de Aragão (1526), Castela e Granada houvessem sido convertidos em 1499, esses muçulmanos conservaram sua língua e costumes, celebrando clandestinamente seu culto – segregando-se inclusive dos casamentos com cristãos. De fato, esta população mourisca acolhia os piratas muçulmanos de braços abertos. A situação chega ao ponto de segregarem-se as populações mouriscas aos arredores das cidades ou às terras ruins do planalto. O governo obriga inclusive a que os trajes típicos e o idioma dos espanhóis sejam a partir de então adotados pela população mourisca. Essa incapacidade de assimilar o muçulmano autóctone leva a grande expulsão de 1609-1614, quando ¾ da população de 8 milhões de habitantes foi empurrado para fora da Espanha.

Em várias partes da Europa, católicos e protestantes ouviam sinos sempre ao meio dia lembrando “o perigo iminente”. Pio V, em 1571, pediu preces públicas pela proteção da frota que iria combater o sultão. A vitória foi saldada com a celebração de uma Festa de Nossa Senhora das Vitórias e a instituição da festa do Rosário, no primeiro domingo de outubro. Em missas contra turcos, orações são compostas para salvar a cristandade da invasão pagã. O avanço otomano é comparado às pragas, epidemias e inundações. “Com base em Daniel e em Ezequiel, anuncia-se o fim próximo do mundo pelas mãos dos turcos” (6).

Era uma leitura tanto católica quanto protestante que as vitórias dos turcos eram um castigo de Deus. Duas vozes eram as de Lutero e Erasmo. Lutero apresentava uma visão escatológica, que associava os turcos, o papa, o diabo e o “mundo da carne”...

“E se vós vos puserdes em campanha, agora, contra o turco, estejai absolutamente certos, e não duvideis, de que não lutais contra seres de carne e osso, em outras palavras homens [...]. Ao contrário, estejai certos de que lutais contra um grande exército de diabos [...]. Assim, não confieis em vossa lança, em vossa espada, em vosso arcabuz, em vossa força ou em vosso número, pois os diabos não se importam com isso [...]. Contra os diabos, é preciso que tenhamos anjos junto de nós; é o que advirá se nos humilharmos, se suplicarmos a Deus e se tivermos confiança em sua Palavra” (7)

“Se a cidade cristã é atacada por Satã, só Deus pode defendê-la” (8). Erasmo, ainda que sem a visão escatológica de Lutero, abandona seu pacifismo. O círculo de Carlos V lhe pedira que adotasse uma posição menos pessimista que o derrotismo de Lutero. Escreve Erasmo que...“Se desejamos ter êxito em nossa empresa de livrar nossa garganta do aperto turco, ser-nos-á necessário, antes de expulsar a raça execrável dos turcos, extirpar de nossos corações a avareza, a ambição, o amor da dominação, a boa consciência, o espírito de deboche, o amor da volúpia, a fraude, a cólera, o ódio, a inveja [...]”(9)

Porque não se fala dos Judeus? Creio que já é hora de os Judeus procurarem mostrar, como os muçulmanos estão sendo forçados a fazê-lo, que sua religião não é a favor da guerra indiscriminada – seja contra exércitos ou populações civis. Palestinos que Israel espremeu em grandes guetos (Cisjordânia e faixa de Gaza). Os judeus não resistiram até o último homem (e criança) no gueto de Varsóvia durante a Segunda Guerra Mundial? Por que com os palestinos deveria ser diferente?

Alguém ainda se lembra do episódio de Sabra e Shatila em 1982? São vilas no sul do Líbano invadidas por milícias cristãs apoiadas por Israel. Massacraram, torturaram, estupraram e estriparam 2.750 homens, mulheres, crianças e velhos. Ariel Sharon comandava as tropas israelenses na época e existem indícios que apontam para sua cumplicidade. Na verdade, existem muitas acusações sobre Sharon na rubrica “crimes contra a humanidade” – mas a imprensa só fala sobre esse tema citando muçulmanos e africanos.


A quem beneficia
esse belicismo desenfr
eado?
À indústr
ia armamentista?
À geopolítica das grandes potências?




Um filme chama atenção pelo interminável desfile de clichês do mundo oriental. Em Ana e o Rei do Sião (Anna and the King of Siam, direção John Cromwell, 1946) a história gira em torno da relação entre uma viúva inglesa que segue com seu pequeno filho para o Sião (atual Tailândia) contratada pelo rei como professora de seus 67 filhos. Desde o início, os siameses são criticados. Ela considera totalmente inaceitáveis os procedimentos do protocolo real, que entre outras coisas manda que todos se prostrem ao chão na presença do rei. Então, Ana “ensina” ao rei como seria o procedimento “correto” perante uma pessoa da realeza. Só para lembrar, na época retratada pelo filme, a Inglaterra era um império extenso e poderoso. Bem perto do Sião está a Índia, colônia britânica (na época) infinitamente maior em termos territoriais.

Irônica era outra crítica do o filho da professora. Ele chamava atenção para a nudez. As pessoas andavam com cangas e chinelos, os homens com peito nu, as mulheres com um bustiê bem colado ao corpo, delineando os seios. Só o Rei andava “vestido”. A professora não fazia comentários a respeito. Não falava nada, mas se vestia de uma forma que deixava a mostra apenas mão e rosto. A ironia está em que nós criticamos o Talibã justamente por obrigar as mulheres a utilizarem a burka, escondendo tudo. Neste filme, por outro lado, uma das mensagens coloca ocidentais sugerindo que a nudez dos corpos dos siameses é prova de sua selvageria.

Em O Rei e Eu (The King and I, direção Walter Lang, 1956), uma refilmagem, com Yul Brynner no papel de rei do Sião, tem lugar uma das cenas mais odiosas. Ocorre na aula de geografia, quando o rei abre seu mapa do mundo. Nele o Sião é enorme e ocupa praticamente tudo. A professorinha retruca que ele está enganado. Abre seu próprio mapa do mundo, feito no Ocidente, onde o Sião é minúsculo. Bem menor que a Índia, que não passava então de mera colônia britânica. Esse mapa mostrava também outras colônias britânicas pelo mundo, as francesas, as holandesas, etc... A Inglaterra não tem seu tamanho superdimensionado, como o Sião no outro mapa. Entretanto, onde estava localizado este país? Todos podem abrir o atlas e verificar, a Grã-Bretanha está no centro geográfico do mapa. Ou seja, ela é representada como se fosse o centro do mundo. Ela, é claro, está no centro geográfico em termos do eixo leste-oeste (ou direita-esquerda). No eixo norte-sul ela não poderia estar, já que se situa bem ao norte do equador.

Alguns diriam que esta interpretação de “centro do mundo” é um equívoco, pois a questão da posição deste país no centro do mapa se dá porque é por lá que passa o meridiano de Greenwich, que divide o planeta em duas partes iguais. Muito conveniente que o planeta seja dividido em duas partes iguais bem ali. Porque os geógrafos ingleses não escolheram, por exemplo, o Chuí, no extremo sul do Brasil, para dividir o planeta em dois, ou a capital do Paraguai, ou Bagdá no Iraque, ou Moscou, ou uma vila perdida no interior do Mali, na África ocidental?

Notas:

1. DELUMEAU, Jean. História do medo no ocidente 1300-1800. Tradução Maria Lúcia Machado, tradução das notas Heloísa Jahn. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.
2. Idem, pp. 271 e 274.
3. Ibidem, p. 274.
4. Ibidem, p. 269.
5. Ibidem, p. 270.
6. Ibidem, p. 275.
7. Ibidem, p. 277.
8. Ibidem.
9. Ibidem.

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