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Roberto Acioli de Oliveira

24 de fev de 2016

Máscaras: Oeste dos Estados Unidos





“Os humanos 
têm dançado em
festas com máscaras
por pelo menos  30,000
 anos, (...)  uma indicação 
da importância delas 
para  tornar-se 
humano” (1)




Mundo Animal

Pinturas rupestres datadas entre os anos de 1650 e 1800 da Era Cristã, encontradas na região do Estado de Wyoming, nos Estados Unidos, apresentam três criaturas aladas e várias figuras antropomórficas de dimensões variadas (imagem abaixo). É possível que tais imagens estejam retratando xamãs representados por (ou vestidos como) pássaros ou criaturas com chifres durante danças rituais – exemplos similares também podem ser encontrados por todo mundo. Por mais especulativa que seja esta interpretação, sabemos que as culturas indígenas norte-americanas desde há muito tempo até hoje utilizam máscaras de búfalo, alce e veado, tanto nas danças que antecedem caçadas destes animais pelos caçadores da tribo (a captura começa com uma abordagem ao espírito do animal) quanto em danças cerimoniais (para as colheitas ou para aplacar ou invocar forças da natureza). Um registro anterior de festa com máscaras vem do sudoeste do país, mas especificamente dos povos Mimbres, que habitaram a região sul do Estado do Novo México entre 200 e 1150. (imagem ao lado, detalhe de uma das muitas fotografias realizadas por Edward S. Curtis no início do século XX, nas quais retratou extensivamente a cultura e os índios, ambos em rápido processo de extinção, desde as planícies até a costa oeste dos Estados Unidos. Na fotografia, tirada em 1908, índio Arikara veste a pele de urso utilizada em cerimônia que precede a caça do animal)

 
Presentes no vale do rio Mimbres a pelo menos 10,000 anos, suas tradições de máscaras provavelmente não surgiram antes do ano 900 da era cristã. Muitos petroglifos (desenhos gravados na rocha) apresentam o que parecem ser figuras com máscaras, mas é em suas peças de cerâmica (tradição que floresceu entre os anos 1000 e 1170) que se pode detalhar o mundo das máscaras Mimbres. O interior das tigelas geralmente inclui uma pintura com temática do dia a dia ou mitológica. Colocada sobre a cabeça do defunto, um buraco no centro permite que o espírito dele atravesse para o outro mundo. (imagem acima, pinturas rupestres do Wyoming representando animais alados e com chifres, possivelmente xamãs com máscaras, fotografia Minneapolis Institute of Arts)

 
Portanto a tigela funciona, conclui John W. Nunley, como uma máscara mortuária nesse último rito de passagem podendo incluir figuras antropomórficas ostentando ou não  chifres. A cultura Mimbres se fragmenta e desaparece no século XIII, grupos remanescentes se misturaram às culturas da vizinhança, como Casa Grande e Anasazi. Os descendentes destes últimos, incluindo os povos Hopi, Zuni e Pueblo, preservaram e adaptaram essas festas de máscaras às influências da cultura ocidental que os dominou (2). (fotografias acima, à esquerda, Brian Forrest; à direita, John Bigelow Taylor; imagens abaixo, George Catlin)


O pintor
George Catlin (1796-1872)   foi
o primeiro homem
branco   a   retratar
os    indígenas    das
planícies e do  oeste
dos Estados Unidos
 sem  clichê exótico, 
produzindo sobre
eles informações
até   bastante
fiéis (3)

A relação dos humanos com os animais predadores sempre foi ambivalente, eles podem ser temidos por sua força, assim como podem ser admirados por sua força e capacidade mental. Contudo, tirar a vida de um animal é considerado um ato sagrado entre as sociedades tradicionais: seu espírito deve ser acalmado, amado e respeitado. Em 1994, Nunley visitou o Pueblo Acoma, no Novo México, durante um festival de renovação, onde teve oportunidade de assistir a uma dança com mascarados coroados com chifres em forma de galhadas de veado e hastes que seguravam como bengalas para simular as pernas dianteiras do animal. Como parte integrante do ritual, essa dança com máscaras objetiva garantir o retorno das manadas no ano seguinte. Outra hipótese muito difundida sugere que as máscaras de animais teriam também como função permitir que o caçador se aproxime da presa sem ser percebido. Os índios Apaches do sudoeste dos Estados Unidos se disfarçavam de alce e veado, enquanto as culturas que viviam nas planícies se cobriam com a pele e a cabeça do búfalo – nas áreas de floresta densa, a folhagem local é mais utilizada do que as peles de animais. Da mesma forma que no Novo México, durante os rituais de renovação O-kee-pa do povo Mandan do alto rio Missouri, os homens dançam utilizando máscaras de búfalo para garantir a volta dos animais no ano seguinte (4). O caráter mágico e holístico de suas crenças conectava todos os elementos do mundo físico ao mundo espiritual.

“(...) Danças, músicas, objetos físicos, decoração e pintura eram ‘magia’: os meios para conseguir os favores dos espíritos protetores. Eles eram percebidos por muitos índios como a propriedade de uma pessoa ou grupo, coisas de valor prático que eram vistas como presentes para a humanidade. Para a caça, em particular, a ‘magia’ foi essencial, porque o sucesso dependia disso. Adornados com uma cabeça de bisão ou pele de urso e imitando os movimentos característicos do animal, os dançarinos procuravam alcançar uma empatia maior com o mundo animal, de forma a estabelecer contato com os espíritos protetores. Todavia, por razões de prestígio, eles se certificavam de que sua pintura corporal os identifica-se como caçadores” (5) (imagem abaixo, dançarinos Tewa, descendentes dos Anasazi e Mogollon San Ildefonso Pueblo, Novo México, fotografia, Art Wolfe)


As máscaras representando animais selvagens, especialmente búfalos e ursos, constituem apenas parte dos temas das máscaras (e da pintura corporal) em muitos outros ciclos de rituais existentes entre os povos nativos daquilo que hoje constitui os Estados Unidos. Contudo, salta aos olhos o elo primitivo com as forças da natureza, tanto nas culturas nativas do sudoeste norte-americano, quanto nas tradições de máscaras de animais selvagens na Europa - o continente cuja “evolução cultural” levaria suas sociedades a se contraporem à natureza no sentido mais radical que se possa imaginar. 

Leia Também:

  
Notas:

1. NUNLEY, John W. Prehistory and Origins. In: NUNLEY, John W.; McCARTY, Cara. MASKS. Faces of Culture. New York: Harry Abrams Incorporated. 1999. Catálogo de exposição. P. 21.
2. Idem pp. 27-8, 33-4.
3. GRÖNING, Karl. Decorated Skin. A World Survey of Body Art. London: Thames and Hudson, 1997. P. 38.
4. NUNLEY, John W. Festivals of Renewal. In: NUNLEY, John W.; McCARTY, Cara. Op. Cit., p. 127.
5. GRÖNING, Karl. Op. Cit., p. 40.

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