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Roberto Acioli de Oliveira

Arquivos

1 de fev de 2009

Os Biblioclastas (I)


“Aqueles que
ignoram o seu
passado   estão
condenados a
 repeti-lo”
George Santayana


Uma Religião Para se Orgulhar 


Em matéria de perseguição religiosa e extermínio do pensamento discordante, nada suplanta o terror da Inquisição. Tortura institucionalizada, condenações sem direito de defesa, censura e destruição de livros (e as idéias neles contidas), eis a herança que a Igreja Católica legou para o mundo Ocidental. Após a queda do Império Romano e a cristianização de suas cinzas, a consolidação do “império cristão” começa a esbarrar na pluralidade do pensamento e das vontades. Ou melhor, incisivamente ou apenas com sua simples presença, os livres pesadores, religiosos e/ou ateus, os movimentos religiosos de vários matizes nascentes ou remanescentes de formas arcaicas, começam a questionar a “força cristã”.

A Inquisição tinha como objetivo mapear esses movimentos de idéias contrárias aos seus dogmas e dissuadi-los por meio da excomunhão, tortura, ordálio (ou prova de Deus), queima de hereges (alcunha negativa que denomina todos que atacam a Igreja ou, simplesmente, discordam), chegando ao ataque a populações inteiras. Com o surgimento da Reforma Protestante de Martinho Lutero (que por sua vez teria pregado também o anti-semitismo) no século XVI, a bestialidade da Inquisição se institucionaliza. Muito já se falou a respeito das torturas e fogueiras de gente.

Em seu livro, História Universal da Destruição dos Livros. Das Tábuas Sumérias à Guerra do Iraque (1), Fernando Báez mostra como ao lado de todas as formas autoritárias de governo, e das mortes de seres humanos que eles patrocinam, existe um outro crime contra a humanidade do qual pouco se fala. Báez mostra como a queima de livros sempre foi um empreendimento levado muito a sério pelos donos do poder em cada época da história. Não tanto pela destruição física do livro, pergaminho ou folheto, mas pela tentativa de destruir as idéias neles contidas. Um capítulo convenientemente pouco divulgado da Inquisição passa por essa forma de destruição da cultura humana. Muitas foram as listas de livros proibidos e de bibliotecas particulares destruídas, juntamente com seus donos.


Situação que lembra muito outro livro, Fahrenheit 451 (1953) (imagens acima), de Ray Bradbury, que ganhou uma versão para cinema em 1966, pelas mãos do cineasta francês François Truffaut. A história se passa num tempo futuro, onde as pessoas são perseguidas por possuírem livros. Os bombeiros, que hoje apagam incêndios, têm como função juntar os livros descobertos e queimá-los – fahrenheit 451 é a temperatura que deve ser atingida pelo fogo para queimar os livros com mais eficiência.

Para o Estado Totalitário que vigiava a todos, o perigo da disseminação de idéias novas (que poderiam levar ao questionamento de seus dogmas políticos) tornava a busca, apreensão e destruição (tanto dos livros quanto de seus donos) uma tarefa imprescindível. E assim era para uma Igreja Católica desvairada ao longo de alguns séculos, influência nefasta que chegou até o século 19 em alguns lugares onde ela ainda mostrava suas garras. Seja no livro, no filme, ou na Inquisição real, a desqualificação do discurso e das idéias de alguém (pelo fato de ter sido questionado por essas forças do obscurantismo) já funciona como uma mordaça.

O Santo Ofício e a Censura aos Livros 

O controle pelo medo é a arma da intolerância religiosa, que durante alguns séculos foi pregada por uma Inquisição cujo objetivo parecia ser instalar uma indigência do pensamento em sua área de influência. O questionamento de todas as visões de mundo que, direta ou indiretamente, contradiziam os dogmas da Santa Igreja gerou grandes listas negras. Em 1542, o Papa Paulo III constituiu o Santo Ofício. De modo geral, a Inquisição perseguia a todos que pudessem causar problemas políticos para a Igreja. O Santo Ofício, que fora criado em função da proliferação do protestantismo, se concentrava nos teólogos e sacerdotes, que eram rastreados por espiões e mercenários (2).

Em 1520, uma bula do Papa Leão X excomungou Martinho Lutero e publicamente proibiu a difusão, leitura ou citação de qualquer de seus escritos. A população, a maior vítima, passou a queimar os livros e efígies de Lutero (por medo de ser questionada ou por uma fé genuína que respeitava a autoridade da Igreja), que por sua vez mandou destruir a bula numa fogueira (3). Em 1529, foi proibida a impressão de livro não autorizado por um órgão sacerdotal. Em 1220 uma lei que autoriza o confisco dos bens dos hereges, facilitando a queima dos “teimosos”.


Em 1252, Inocêncio IX nomeou duas ordens eclesiásticas encarregadas do cumprimento das penas contra os hereges: dominicanos e franciscanos. Foi um dominicano fanático, Bernardo Guidonis, que em 1323 escreveu o primeiro manual de instruções para o combate as heresias. (imagem acima, à direita, Librorum Prohibitorum, 1559-1964, uma lista de livros proibidos publicada pelo Vaticano)

Espanha, o Inferno na Terra

A Inquisição na Espanha constitui um capítulo à parte, a perseguição contra toda opinião contrária era frenética! Em 1478, o rei Fernando II e a rainha Isabel I se destacaram na formulação de uma monarquia inquisitorial. Felipe II, em seguida, instaurou a censura católica. Judeus e Árabes foram perseguidos, aquele que não se convertia ao catolicismo era executado. Autores de livros e seus editores foram enforcados. Em 1570, criou-se um catálogo espanhol próprio de obras proibidas, o que permitiu o confisco e destruição de milhares de livros em toda a Europa. Em 1583, a Universidade de Salamanca elaborou um índice que especificava tanto obras quanto trechos proibidos. Assim, poderiam se suprimir frases, parágrafos e partes de um livro, como condição para permitir sua circulação. Esse índice circulou até 1790.

Em 1558 foi expressamente proibida a importação de livros e o contrabando deles era punido com penas elevadas. Os livros de Lutero e Calvino, o Talmude, o Corão, livros de adivinhação, superstições, alusões sexuais ou necromancia, foram todos proibidos. Na França, já a partir de 1563, a intimidação a impressores, vendedores e autores de livros era franca e aberta – imagine-se o quanto se poderia intimidá-los caso naquela época já existisse a televisão!


Como observou Turberville, não bastava proibir, era necessário comprovar que não se liam livros proibidos. A Inquisição utilizava agentes para fiscalizar as livrarias e as bibliotecas particulares (4).

Na América espanhola era a mesma coisa, Peru, México, Colômbia, Venezuela, de norte a sul a Inquisição se fez presente através do Santo Ofício, queimando homens e livros até a primeira década do século XIX. Havia até visitas domiciliares para interrogatório dos proprietários de livros. Equipes de busca fuçavam as cidades atrás de livros proibidos ou considerados questionáveis segundo o ponto de vista distorcido da Inquisição. “Um país se faz com homens e livros”, já disse Monteiro Lobato a respeito do Brasil. Não precisamos somente de livros, mas de leitores, livreiros, editores e autores livres. Como podemos ler naquela gravura do espanhol Francisco Goya (acima à esquerda): “o sono da razão produz monstros”.

Notas:

1. BÁEZ, Fernando. História Universal da Destruição dos Livros. Das Tábuas Sumérias à Guerra do Iraque. Tradução Léo Schlafman. Rio de Janeiro: Ediouro, 2006.
2. Idem, p. 160.
3. Ibidem, p. 159.
4. Ibidem, p. 162.


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