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Roberto Acioli de Oliveira

Arquivos

2 de jun de 2009

O Corpo Suficiente (I)





“O tédio mortal
da imortalidade”

Jean Cocteau
O Sangue de um Poeta







Me Dêem Um Corpo

Asas do Desejo (Himmel Über Berlin, direção de Win Wenders, 1987) (imagem abaixo) conta a história de um anjo que caminha entre as pessoas, ouvindo seus pensamentos eternamente. Seu mundo é preto e branco, o mundo dos humanos é colorido. Acompanha crises em família, dúvidas existenciais, avalia o que os humanos fazem de sua materialidade, seus corpos. Em certo ponto, ele se apaixona por uma trapezista de circo. O anjo começa então a perceber a distância que os separa: ele não tem corpo e é invisível. A única maneira de efetivar seu amor é tornar-se humano. Só que isso implica abdicar de sua imortalidade. Tornar-se corpo vivo, significa tornar-se mortal. Portanto, só poderá assumir seu amor por ela se admitir a idéia de que isso faz dele um ser finito. Para amar, ele vai ter que morrer um dia, como qualquer mortal. (imagem acima, Auto-Retrato no Futuro, 1975. Roberto Magalhães)


Um rosto esticado
por plástica ou botox
é realmente capaz de
trad
uzir a felicidade
interior?




Mas essa é sua decisão, não há sentido em sua vida infinita se não existe a possibilidade de amar. E o corpo físico é uma necessidade para efetivar esse amor: fazer parte do mundo físico é saber que se vai abandoná-lo em breve. Vale dizer, um corpo físico finito, que envelhece e que acaba. Mas será um corpo que vive e que tem coragem de viver sua finitude. Um corpo cuja finitude torna o amor mais urgente – a vida é tão curta... Um corpo cuja finitude se traduz em amor, em afeto por alguém. Tornar-se verdadeiro, orgulhar-se de seu corpo, passa por orgulhar-se de suas marcas de finitude. As marcas do envelhecimento do corpo que vão fazer lembrar a cada momento os instantes de amor, por si, pelos outros, pela vida – como um diário afetivo. Uma poética da finitude.(imagem abaixo, Escritório em Nova York. Edward Hopper, 1962)



“[Edward] Hopper
des
creve, aqui, o que o
sociólogo norte-americano,
Richard Sennett, chama o ‘paradoxo do isolamento na transparência’. Apesar de transparente, o vidro
do escritório estabelece
uma barreira”
(1)




Trapezista… Sim, essa é uma boa metáfora para começarmos a compreender a questão. Como uma trapezista que está no céu (dos produtos de beleza e do corpo belo), mas não olha para baixo, somente para cima. Caso olhasse para baixo poderia perceber que o trapézio (a indústria do rejuvenescimento) não é o chão. Suspensa no ar por algumas cordas, a mulher parece não perceber os perigos físicos e emocionais que corre. Porém, sejamos otimistas, quando (ou se) ela “cair na real”, espero que não tenha sido trocada por “duas de vinte anos”. Oscilando entre a cruz e a espada, a mulher ocidental contemporânea parece seguir alegremente para a fogueira (a mesa do cirurgião plástico, o cabeleireiro, a aplicação de botox, etc).

Quando seu corpo será suficiente?

Corpos em Exibição, Vitrines da Alma?

Lá vão eles, para cima e para baixo, manequins de porcelana ambulantes. Rotas de fuga em relação à necessidade de construir subjetividades capazes de dialogar consigo mesmas. Além de ser uma atitude melhor acolhida pela sociedade, para quê construir um interior (uma substância), se remodelar o exterior (sua imagem) é mais fácil? O problema é saber a hora de parar. Na verdade, nunca deverão saber, pois nunca será suficiente. De qualquer forma, é uma opção aprovada socialmente, o que permite uma sensação de aceitação muito necessária justamente às pessoas que delegaram aos outros a tarefa de reformulá-las. O problema com esta opção inicia com a constatação de que ninguém está interessado em aumentar a auto-estima de ninguém. Só querem vender produtos. Que melhor estratégia de marketing? Caçar pessoas com baixa auto-estima e fazê-las acreditar que não é necessário descobrir as causas, mas apenas maquiar a situação. (imagem ao lado, Nu Feminino Reclinado. Lasar Segall, 1943)

É perfeito, porque as vítimas não percebem que o remédio escolhido para reconstruir o interior é justamente o veneno que desvia o foco de atenção para longe dos parâmetros de julgamento necessários para cuidar desta mesma beleza interior. Com relação a este ponto, podemos apenas especular quanto ao destino das adolescentes brasileiras. Segundo pesquisa recente (2), elas gastam em produtos de maquiagem mais que uma mulher adulta – a indústria agradece. O que é mais assustador, não podemos nem elogiar a maquiagem, elas querem que acreditemos que já se levantaram da cama daquele jeito! Querem que acreditemos que o rosto delas é assim! Quanto tempo levará para se tornarem inseguras quanto à própria beleza exterior? – sim, porque a mesma pergunta, que poderia ser direcionada para a beleza interior, já não faz mais sentido!



“A felicidade
é um anjo com

um rosto sério”

Amadeo Modigliani






Ou então, vamos acreditar que a precocidade com que essas meninas se preocupam em não envelhecer fará delas pessoas mais tolerantes com os mais velhos e com os velhos mesmo… Vamos acreditar? Bem, uma das soluções implementadas pela indústria é, com o aumento da população de velhos no mundo todo, reinserí-los... na vida? No mercado de consumo? Os tratamentos de rejuvenescimento (aqui incluindo, além da mulher, também o homem idoso) e os cosméticos para a Terceira Idade talvez acabem mesmo reunindo jovens e velhos - já que ambos não param de se reunir nas salas de espera das clínicas estéticas. Unidos pelo mesmo lema, vão todos seguindo o flautista até o precipício: mude apenas por fora, pode não ser mais barato, mas é mais fácil, mais rápido e, principalmente, mais visível!


Sempre
foi
um grande
problema para
a arte tornar
sentimentos
visíveis



Esse corpo perfeito, e sem gozo afetivo, que só serve para mostrar para os outros, mostra também a falta que faz um ego. Este personagem, o ego, é que deveria ser o verdadeiro juiz das necessidades de mudança externa. Sem uma vida interna (sem uma substância emocional) que interaja com o mundo exterior, nos tornamos escravos desse mesmo mundo exterior - e de processos que não visam necessariamente nosso crescimento interno. Pelo contrário, nutrem nossa fraqueza com o veneno da descrença em si mesmo. (imagem acima, à direita, Nu Reclinado com Braço Esquerdo Sobre a Fronte, 1917; à esquerda, Nu Reclinado, 19??. Imagem abaixo, à direita, Nu Sentado, 1917; à esquerda, Nu Reclinado, 1917. Os quatro de Amedeo Modigliani, 1884-1920)

Quando seu corpo será suficiente?

Introduza Uma Moeda!

A indústria do rejuvenescimento (ou da alienação?) é uma grande armadilha para aquelas pessoas que não conseguem estimular a si mesmas, necessitando de estímulos externos constantes. Para essas pessoas, infelizmente, momentos de introspecção constituem uma verdadeira dor de cabeça. Ficar sozinha (por algumas horas que seja), para elas, é sinônimo de depressão. Ligam a tv, o computador, o rádio, falam ao telefone e se maquiam – tudo ao mesmo tempo. Não pode sobrar um segundo, pois não podem correr o risco de ouvir seu caos interno. Isso serve também para as pessoas com quem elas se relacionam; aliás, não há relacionamento, pois elas não conseguem ficar um minuto (ou um segundo) distantes de uma fonte de estímulo (no caso, outra pessoa qualquer). Não estou ironizando, acho tudo isso um problema muito sério, uma verdadeira epidemia. Um distúrbio de comportamento convenientemente estimulado pela indústria do rejuvenescimento, que naturalmente vai agregar a indústria farmacêutica também – pois esta fornecerá os calmantes e outros bichos. As pessoas acabam sentindo-se confortáveis com a ênfase no exterior do corpo. Afinal, todos os detalhes (de uma maquiagem, uma plástica e etc), bem visuais, distraem o olhar sem demandar maiores questionamentos existenciais. É o mundo perfeito, tudo é só para olhar, não temos que pensar ou nos relacionar – até porque os relacionamentos seguem o mesmo modelo de superficialidade.

É o mundo da distração infinita. E é nisso que as mulheres acabam se tornando, uma distração! O que parece ser um alívio para elas, já que não conseguem mais prender a atenção em nada (por mais de 5 minutos). Assim, o admirável mundo novo da indústria do rejuvenescimento nos presenteia com um mundo divertido, que propõe hiper-estimulação corporal eterna – excluindo estimulação intelectual e sentimental. Como tudo isso é conveniente para a desvalorização dos sentimentos e aprovação dos comportamentos neuróticos em torno da distorção do conceito de beleza! E o dinheiro continua fluindo.

Essa mercantilização da felicidade (e de certo conceito de beleza) naturalmente exclui o mais fraco – o mais pobre. Exclui também, procurando estigmatizar e segregar socialmente, aqueles (as) que conseguem encontrar formas de comunicação interna com seu próprio caos – o que os torna imunes ao excesso de estímulos externos; não porque eles evitem esses estímulos, mas porque conseguem interagir com eles, e, portanto, julgá-los. Sempre que passo por uma farmácia me lembro disso. Especialmente quando tem alguém querendo se pesar. Refiro-me àquela balança eletrônica (?) que invadiu as farmácias. Subimos nessas coisas para obter um diagnóstico sobre nós (que influenciará muito nossas vidas e auto-estima), e o que escutamos? A voz de uma mulher robótica ordenando: “Introduza uma moeda!”

Quando seu corpo será suficiente?

Notas:

1. KRANZFELDER, Ivo. Edward Hopper. Visão da Realidade. Kohl: Taschen, 2003. P. 159.
2. Reportagem veiculada no Jornal Hoje, Rede Globo, 30/03/2006.

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