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Roberto Acioli de Oliveira

Arquivos

2 de out de 2009

Puritanismo e Ficção Científica (II)


O Planeta Proibido



Mobius,
quando você vai
encarar a verdade?
Essa coisa lá fora
é você...”

Comandante Adam para Mobius



O Planeta Proibido
(Forbiden Planet. Direção Fred McLeod Wilcox, 1956) é o primeiro filme de ficção científica onde o inimigo não se parece com um monstro babão e cheio de dentes. Agora o monstro está dentro de nós. Neste épico, o inimigo são nossas mentes e almas. Com a proposta de criar uma ficção científica classe A, a Metro Goldwyn-Mayer inovou com esta produção – ela inovaria novamente doze anos mais tarde com 2001, Uma Odisséia no Espaço, dirigido por Stanley Kubrick. A estória era baseada em A Tempestade, de William Shakespeare. A ilha é agora um planeta proibido, onde um cientista vive isolado, como o mágico Prospero, em companhia de sua filha e seu “Ariel”, um devotado robô (1). (Imagem acima, a criatura que vem do interior de um pai: o Monstro do Id)

Desta vez são os humanos que chegam de disco voador. Eles se dirigem para um planeta em missão de salvamento, buscando notícias dos cientistas que para lá viajaram lá se vão vinte anos. O filme trabalha também o conflito entre a ciência e os militares. Neste filme, os tripulantes da nave espacial dos humanos são receptivos a forma como a ciência da década de 50 do século passado entendia o mundo. Chegando ao planeta, serão recebidos pelo Dr. Mobius, o cientista. Ele procura de todas as formas fazê-los dar meia volta e sumir dali. O cientista construiu um robô que entra em curto-circuito quando lhe mandam agredir um ser humano – elemento que posteriormente permitira ao comandante do disco voador concluir pela culpa de Mobius em relação ao evento principal do filme.

Dr. Mobius se recusa a abandonar o planeta, ainda que a estória que tem para contar seja terrível. Disse que, um a um, todos os cientistas sucumbiram a uma força incompreensível presente no planeta. Sobram apenas Mobius e sua esposa, que morre tempos depois por causas naturais. Eles tiveram uma filha, que Mobius esconde dos forasteiros. Mas ela aparece curiosa para ver outros seres humanos. Altaira: Branca, loura e jovem. Tudo que uma mente puritana norte-americana poderia querer. E os homens do disco voador também querem. Após uma breve disputa, o comandante fica com o prêmio. O primeiro elemento de discórdia é o fato de que, ao contrário d o pai, a filha deseja voltar para o planeta Terra. Em seguida, o próximo problema do pai é o romance que se estabelece entre sua filha e o comandante Adams. Antes disso, Mobius já havia ficado furioso quando pegou o cientista do disco voador dando aulas de beijo para sua filha. Nessa mesma noite, um monstro invisível faz sua primeira aparição. Mobius mostra sua descoberta de uma civilização super-desenvolvida materialmente que habitou aquele planeta há muito tempo, mas que desapareceu subitamente. Essa raça havia abolido toda doença, injustiça e crime. Queriam também abandonar o mundo material. Mais um componente puritano. Entretanto, esse projeto os aniquilou.

Nessa outra noite o monstro faz sua segunda aparição. A partir de então a nave espacial é cercada de armamento. O monstro faz sua terceira aparição. Enquanto isso, o cientista do disco voador entra no laboratório do povo extinto que Mobius conservara tão meticulosamente e faz uma descoberta. O efeito colateral do abandono do plano físico foi a criação de monstros. Monstr os do Id. O problema é que esse povo extinto, os Krel, esquecera de sua luxúria (desejos ard entes, sensuais) e seu ódio subconsciente. Outro elemento puritano. Mas como pode um monstro do Id estar vivo se os Krel desapareceram há 20 mil séculos atrás? (imagens acima, molde da garra do monstro e, quando Mobius morre, o monstro desaparece)

Quando o robô de Mobius recebe uma ordem para matar o monstro e entra e m curto circuito, o velho pai conclui que o comandante estava certo quando disse: “Mobius, quando você vai encarar a verdade, aque la coisa lá fora é você...” (2) O velho tinha matado a todos, desde os cientistas com os quais chegou ao planeta e que desejavam voltar, até os tripulantes do disco voador que veio fazer o resgate. Tendo atingido o desenvolvimento mental dos Krel, Mobius também foi dominado pelo monstro do Id. Encurralados pela criatura, Mobius, sua filha e o comandante, não tem mais para onde correr. De repente, como se Mobius entrasse em curto circuito, ele morre e, consequentemente o monstro desaparece (3). O Planeta Proibido utiliza uma estratégia de proibição do incesto para atacar o Id (ça) e seus monstros (imagem acima, o casal feliz assiste a destruição do "Planeta Proibido do monstro do pai incestuoso dela"). Nesse planeta vivem um pai velho e sua jovem, bela e loira filha. Aparece um monstro invisível chamado Id que ataca os astronautas que lá chegam. O herói conclui que o monstro é uma projeção do ciúme do pai em relação a sua filha, cortejada por vários astronautas. Então, esse norte-americano civilizado destrói o monstro e leva a mulher para procriar na Terra – pois um “macho civilizado” domina seus instintos e utiliza o sexo apenas para reprodução. É o ideal puritano do homem norte-americano. Nesse caso, matar o monstro significa mostrar ao pai sua perversão – o incesto. Quando o monstro do Id morre, o pai morre também. Uma forma de redenção através da morte; a qual já havia ocorrido desde que o pai se deixou dominar por seu inconsciente pulsional e libidinoso (4). (imagem abaixo, na cena excluída da versão final, após a morte do monstro/pai, a filha/viúva casa-se com o comandante/patrão/macho/branco/reprodutor. )

Na ficção científica, um monstro encarna ao mesmo tempo uma monstruosidade no exterior (o nada, o caos, o mal) e outra no interior (o mal, o pecado, o vício, o sexo) do ser humano. Esses monstros desempenham uma dupla função. De acordo com o cristianismo, eles seriam tanto uma encarnação do diabo-caos-nada quanto aquela parte de caos que o homem carrega dentro de si. Neste contexto, somente a “graça de Deus” e a fé permitirão encontrar uma saída. Este é exatamente o contexto do estereótipo da luta do Bem contra o Mal onde o pensamento puritano encontra campo fértil para suas idéias.



Notas:

1. STEINBRUNNER, Chris; GOLDBLATT, Burt. Cinema of the Fantastic. New York: Galahad Books, 1972. P.270.
2. Idem, p. 279.
3. Ibidem, pp. 269-81.
4. HOUGRON, Alexandre. Science-Fiction et Société. Paris: Puf, 2000. P.
141.

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