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Roberto Acioli de Oliveira

Arquivos

2 de jan de 2010

Arte do Corpo: Shigeko Kubota e a Vagina-Pincel


“Sinto-me amarrada à minha herança artística e quero destruí-la: ela me define enquanto uma artista
e me exclui enquanto mulher
,
tudo ao mesmo tempo”


Janine Antoni
artista plástica


Em 4 de julho de 1965, durante o Perpetual Fluxfest em Nova York, Shigeko Kubota colocou uma folha de papel no chão. Agachando-se sobre ele, começou a pintar com um pincel que anteriormente havia prendido em sua calcinha. Movendo-se sobre o papel, ela mergulhou o pincel em tinta vermelha para produzir uma eloqüente imagem gestual que amplificava os atributos sexuais femininos e funções corporais, redefinindo a action painting em função dos códigos da anatomia feminina. Chamou-a Vagina Painting, Pintura Vaginal (imagem acima).

Entre outros temas, o Movimento Fluxus também estava preocupado com questões de gênero e as figuras da sexualidade. A performance de kubota foi a manifestação mais agressivamente feminista ligada ao Fluxus, embora a própria artista não tenha pensado as coisas desta forma na época (1). Vagina Painting também procurava rejeitar a idéia da mulher como musa. Na cultura ocidental, a posição de musa manteria a mulher enquanto um ser passivo que só serve para ativar inspiração criativa no homem. Dessa obsessão, nem o movimento surrealista escapou. Questionando o papel da musa, Kubota desejava afirmar a mulher enquanto sua própria inspiração artística, preenchendo a lacuna entre arte e vida (2). Sua performance foi considerada ‘animalesca’, por seus próprios colegas (homens) do Fluxus. Rebecca Schneider comenta o incidente, evidenciando a misoginia implícita no comportamento dos homens que participaram de um movimento que tomava a si mesmo enquanto algo para além dos preconceitos burgueses que aprisionam a cultura ocidental:



Seus colegas homens odiaram
a peça, apesar de celebrarem [...]
a utilização que Yves Klein fez de
mulheres nuas enquanto ‘pincéis
vivos’ em 1959. Mulheres enquanto
 pincéis de artistas, mulheres
 fetichizadas enquanto pênis foi
 aceitável, até mesmo chique. Mas
 mulher com pincéis era de alguma
 forma mulher com pênis [...] -
 certamente não artístico” (3)



De fato, utilizando seu corpo – especificamente seu sexo -, Kubota produz uma paródia da utilização que Yves Klein fez do corpo feminino (imagem acima, onde os próprios corpos das mulheres eram os pincéis). Por tabela, questiona o papel da pintura ejaculatória de Jackson Pollock, herói da action painting (no centro, à direita). Sua performance também ativa a vagina como uma fonte de inscrição e linguagem, invertendo a classificação cultural ocidental da genitália feminina como um ponto de falta (falta do pênis) e o lugar onde a linguagem não é possível (4).

Notas:

1. STILES, Kristine. Between Water and Stone – Fluxus Performance: A Metaphysics of Acts IN WARR, Tracey; JONES, Amelia. The Artists Body. London: Phaidon, 2000. P. 211.
2. Ibidem.
3. SCHNEIDER, Rebecca. The Explicit Body in Performance. New York: Routledge, 1997. P. 38.
4. WARR, Tracey: JONES, Amelia. Op. Cit., p. 63.

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