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Roberto Acioli de Oliveira

Arquivos

29 de jun de 2008

Os Seios da República: Conexão Seios (Epílogo)



“Meus seios não são muito
grandes
. Por isso, não se trata
de um assunto importante”


Nicole Kidman,
atriz norte-americana,
comenta que adora
fazer topless


Seio + Silicone = ETesão 

Cada cultura gira em torno de seus próprios fetiches em relação ao corpo humano. As mulheres americanas, e todas aquelas dos países cuja cultura é colonizada pelos valores do “grande irmão do norte”, que o digam. Ou talvez nem saibam disso, já que uma das características mais enraizadas dessa cultura ocidental/mercadológica é a alienação. Até que ponto as mudanças de comportamento em relação ao seio são fruto na verdade de interesses comerciais? Até que ponto a mídia, com suas representações daquilo que seja uma mulher desejável, funciona como potencializador desse consumismo desfigurador? Ao final e ao cabo, os padrões de aparência são formados não por costumes sociais, mas por imagens criadas em função de interesses comerciais. É o capitalismo (as)segurando o seio como objeto de lucro! Um estudo sueco envolvendo 39 mulheres que optaram por implantes de silicone mostrou que a maior parte associava seios grandes e aumento da feminilidade. Na América do Norte, lá pela década de ’90, o aumento dos seios era a segunda operação cosmética mais freqüente, perdendo apenas para a lipoaspiração. As mulheres americanas gastam milhões em cirurgias cosméticas visando diminuir a parte inferior do corpo (a bunda) e aumentar a superior (os seios) (1). 

O surto das mulheres americanas em relação ao aumento de mamas começa em 1940. Lá pela década de ’50, ter seios pequenos passou a ser considerado uma espécie de doença, um problema médico. Várias foram as tentativas na busca do elemento ideal para aumentar o seio, e muitos os problemas clínicos posteriores às cirurgias até que em 1970 o silicone fosse utilizado. Apesar dos efeitos colaterais ainda não poderem ser considerados completamente sanados, as mulheres acreditam que os benefícios superam os riscos (2). Phyllis Porter, com 80 anos de idade em 2002, que ficara famosa por pagar 25,000 dólares por um tratamento com botox, é também a mulher de mais idade a aumentar os seios (3). Ao que parece, para os americanos (do norte) a imagem dos seios desnudos tem mais relação com dinheiro/silicone do que com simbolismo de liberdade. O que talvez explique porque este país gasta tanto com operações de aumento de mamas e ao mesmo tempo proíbe sua exposição pública. 

A nova República Francesa era frequentemente representada como uma
mulher “a abrir os seios a todos os cidadãos”. Na gravura da esquerda, A França
Republicana Oferecendo o Seio a todos os Cidadãos, cerca de 1790. Podemos ver uma
plaina de carpinteiro presa no decote, simbolizando a igualdade de acesso a todos. Gravura
da direita, A Natureza como Mãe Igualitária, cerca de 1790. Durante a campanha para
libertar os escravos das Índias Ocidentais, a Nação Francesa era retratada como uma
mãe generosa amamentando tanto uma criança branca quanto uma negra 


Onde Estão as Tetas da Senhora Liberdade? 

Quando o presidente norte-americano George W. Bush criticou a França por não ter aderido à invasão do Iraque, sugeriu que aquele país europeu estaria do lado errado. Também disse que tinham muito que aprender com os americanos e sua história. O que Bush parecia não ter aprendido na escola é que um dos símbolos de seu país (a Estátua da Liberdade, ao lado) foi presente do governo francês em 1865, em homenagem àquela que, ainda uma jovem nação, tinha a reputação de terra da liberdade. Muito antes disso, a ajuda material da França foi crucial para a independência norte-americana. A estátua surgiu de uma conversa entre franceses, que na ocasião viviam sob a opressão de Napoleão III, elogiando a capacidade dos americanos de estabelecer um governo democrático. Desejavam copiar esse modelo em seu próprio país. Dando um pequeno salto para 1987, alguns devem se lembrar da posição em que a atriz pornô Cicciolina se deixou fotografar durante a campanha em que concorreu ao parlamento italiano. Ela posou como a estátua da liberdade. Entretanto, Cicciolina mostrava os seios (imagem do lado esquerdo). Se lembrarmos das representações da república entre os franceses, iremos encontrar mulheres de seios desnudos. A idéia era sugerir que a República é como uma mãe, que acolhe e alimenta seus filhos, sem favorecimentos individuais. Por outro lado, quando os franceses desejaram homenagear a defesa da liberdade que caracterizava os norte-americanos, presentearam-lhes com uma mulher de seios cobertos.

Para sermos otimistas, talvez os americanos já fossem contra a exposição pública de seios, e os franceses não pretendessem questionar a representação da liberdade que aqueles pudessem ter. De fato, segundo Marilym Yalom, atualmente as leis americanas são rígidas, as mulheres são proibidas de expor os mamilos e/ou a zona abaixo deles. Por outro lado, lá na América (do norte) seio grande é mania nacional, embora aparentemente esse hábito nada tenha para oferecer além de um simbolismo erótico aliado à mercantilização de acessórios de sustentação – incluindo implantes de silicone. Na verdade, acho que os franceses só estavam seguindo modelos das estátuas gregas da Antiguidade Clássica. (abaixo, à esquerda, a Estátua da Liberdade beija a representação grega da justiça - de olhos vendados. Charge de autoria de Mirko)


Há muito que a idéia de Nação está ligada a imagem de seios nus. Como já foi apontado, na construção da noção de República, a representação escolhida pelos franceses foi uma mulher de seios nus. Bem antes já havia sido produzida uma diferenciação entre o “seio bom” e o “seio mau”. Lady Macbeth, a figura criada por Shakespeare, era uma dessas que tinha “seios maus”. O “seio bom” é aquele que vai prover alimento para seus filhos. “Foi o que aconteceu a quinhentos anos nas pinturas italianas da Virgem amamentando, e há duzentos anos nas imagens de seios desnudos da Liberdade, da Igualdade e da nova República Francesa” (4).


Não é por acaso que aqui no Brasil é muito comum o comentário de que alguém está “mamando nas tetas do governo”. Sim, porque de mãe provedora o Estado brasileiro nunca teve nada, desde sua fundação. Se “aprofundamos” essas associações simbólicas, talvez outros sejam os caminhos que constituíram as nádegas como a preferência nacional do brasileiro: o Estado para os brasileiros é mais um estuprador do que uma mãe com seios cheios de leite. Podemos até desejar que os seios da República do Brasil sejam empinados, mas deveríamos procurar ter certeza de que pelo menos não sejam falsos!

Os Seios Turbinados e Suas Personas (Ingratas)

Neste admirável mundo novo do artificial, somente as mulheres podem dizer se esta corrida para turbinar os seios é um comportamento histérico induzido pelos modelos de beleza impostos pela cultura de massas/americana ou se, ao contrário, é um brado de libertação (imagem ao lado, A Liberdade Guiando o Povo, Delacroix, detalhe). Não se trata aqui de uma cruzada contra os seios grandes. A questão é pensar a real motivação para (que as mulheres brasileiras desejem) inflá-los artificialmente (turbiná-los). Não serei eu que vou decidir por elas quem elas são, ou querem ser, ou acreditam que são. Não serei eu quem dirá que a sociedade de consumo manipula os desejos e interesses das mulheres que não suportam a pressão de ser como realmente gostariam de ser. Resta saber se elas percebem no que estão se tornando. Afinal, como disse Zelig/Woody Allen em outro lugar (5), é mais seguro ser como todos os outros. Não sou eu quem afirmará que tornar-se cópia dos outros é como adotar personas ingratas – duplos de si invertidos, que nos devolvem um mundo de ponta cabeça, justo o oposto daquilo que desejávamos. Não sou eu quem dirá que talvez seja aí a rachadura na prótese de silicone, por onde se infiltram e se reproduzem os modelos manipulatórios, subjacentes à cultura de massas.

Um seio é apenas um seio?

Leia também:

As Deusas de François Truffaut

Notas:

1. YALOM, Marilyn..História do Seio. Tradução Maria Augusta Júdice. Lisboa: Teorema, 1998. Pp. 18, 282 e 292.
2. GILMAN, Sander L. La sorprendente historia de la cirurgía estética In Cirurgia Estética. TASCHEN, Angelika (ed.). Köln: Taschen, 2005. Pp. 101-102.
3. Idem, pp. 97-101.
4. YALOM, Marilyn. Op. cit., p. 14.
5. Me refiro a Zelig (1983), filme dirigido pelo norte-americano Woody Allen.

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