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Roberto Acioli de Oliveira

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22 de jun de 2008

Seios na Cabeça: Conexão Seios (I)





“Às vezes,
um seio
é apenas
um seio”


História do Seio, p.192
Marilyn Yalom






A Coisa

Seios grandes são uma preferência nacional norte-americana. Como tudo mais que a cultura deles produz, procuram a todo custo exportar esta preferência para o mundo. Seguindo os cânones da crítica à cultura de massas, supõe-se que o objetivo é uma padronização dos gostos e da própria libido. E parece que está dando certo, pois a moda dos seios grandes, turbinados e empinados, está grassando por nossas praias. Como os seios devem ser/estar empinados, porque seio caído é sinal de degenerescência temporal, convenientemente a cirurgia de implante de silicone cria essa possibilidade copiar os outros. O fato de que “a coisa” fique totalmente artificial não parece incomodar às candidatas, que nem mesmo sabem (ou sequer se interessariam em saber) que este procedimento cirúrgico foi criado originalmente com o objetivo de reconstrução de partes do corpo explodidas nos campos de batalha.

Na programação da tv, os enlatados (norte-)americanos fervilham com seios artificiais. Todavia, algumas exceções, que devem ser consideradas bizarras por muitos (as), existem. No filme Tudo que Você Sempre Quis Saber Sobre Sexo, mas Tinha Medo de Perguntar, o diretor e humorista Woody Allen (1972), armado com um crucifixo, derrota o seio gigante que fugiu do laboratório de um cientista maluco. Outro exemplo é O Seio, novela de Philip Roth, onde o protagonista se transforma em enorme seio e medita tentando compreender o sentido de sua desgraça. “A transformação de um homem adulto num enorme seio é apresentada sob a forma de realização de um desejo parodiando a obsessão de uma geração inteira” (1). Pelos menos parece ser melhor que o destino de Gregor Samsa, personagem que se transforma num inseto, no livro de Franz Kafka que se chama Metamorfose. Mudanças são bem vindas, contanto que continuemos fazendo parte do gênero humano. Mas será que as mulheres siliconadas ainda são elas mesmas? Essa “coisa” muda alguém para melhor? Em que sentido?

“A quem pertence o seio? Pertence ao bebê, cuja vida depende do leite da mãe ou de uma ama de leite? Ao homem ou mulher que o acaricia? Ao artista que representa a forma feminina, ou ao estilista que escolhe seios pequenos ou grandes de acordo com a procura contínua de um novo estilo de mercado? Pertence à indústria têxtil, que produz o ‘soutien para adolescentes’, o ‘soutien de suporte’ para mulheres mais velhas, e o wonderbra para mulheres que pretendam obter decotes mais pronunciados? Pertence aos juízes religiosos e morais que insistem que os seios devem ser castamente cobertos? Pertence à lei, que pode ordenar a prisão de mulheres que façam topless? Pertence ao médico, que decide quantas mamografias, biópsias ou remoções devem ser feitas? Pertence ao cirurgião plástico, que o reestrutura por razões meramente cosméticas? Pertence ao pornógrafo, que compra os direitos de expor alguns seios de mulheres, frequentemente em cenários aviltantes e injuriosos para todas as mulheres? Ou pertence à mulher, para quem os seios constituem uma parte do seu próprio corpo? Essas questões sugerem alguns dos diversos esforços dos homens e das instituições para se apropriarem dos seios femininos ao longo da história”. (2)

An(seio)líticos: Sonhando com Objetos Esféricos 

Você já sonhou com objetos esféricos, como maças ou pêras? Será mesmo que o seio, assim como o pênis, está em todos os lugares? Nós vivemos num planeta que se situa num ponto do espaço chamado Via Láctea. De acordo com a lenda originada na Grécia (dos bons tempos), a Via Láctea nasce de um jato de leite espirrado dos seios da deusa Hera. A lenda é a seguinte, acreditava-se que os mortais poderiam se tornar imortais se fossem amamentados no seio da rainha das deusas. Quando Zeus desejou que seu filho Hércules (filho dele com a mortal Alomena) se tornasse imortal, colocou-o sobre os seios de Hera enquanto esta dormia. Porém Hércules sugou com muito vigor, o que fez com que Hera acordasse. Ela o retirou com tanta força de seu seio que o leite jorrou para o céu criando a Via Láctea. Se a lenda é verdadeira, vivemos na trilha do leite derramado de um seio divino que é nosso céu.

Poderíamos “tocar alguns pontos altos” na história ocidental onde os seios estavam visíveis. Quando a Nossa Senhora do Leite apareceu no século XIV, quando o seio assumiu um papel dominante no século XVI, e quando o seio político (que no Brasil se conhece como as tetas da República, onde mamam os corruptos) emergiu no século XVIII, na entrada do século XX com a obra de Sigmund Freud.

Do ponto de vista da psicanálise, o seio é fonte das emoções mais profundas do ser. Durante seu primeiro século de existência, a psicanálise estabeleceu o seio e o pênis como seus principais pontos de referência. Mas o seio sempre perdeu projeção em relação ao pênis, apesar de Freud admitir que o seio fosse a primeira “zona erógena” para a criança. Apenas recentemente, freudianos como Melanie Klein questionaram esta hierarquia (3). É possível que Freud fosse prisioneiro de sua própria masculinidade. Se tivesse nascido mulher, talvez falasse de “inveja do seio” em lugar de “inveja do pênis”. (acima, A Origem da Via Lactea, Tintoretto, 1580; ao lado, o mesmo tema, agora por Rubens)

De fato, comenta Marilyn Yalom, ele “nunca avaliou totalmente o significado do seio do ponto de vista da pessoa que começa por mamar no seio de outra mulher e vem posteriormente a amamentar os filhos na idade adulta” (4).

Mas o seio possuiria outro campo simbólico que não estivesse associado ao aleitamento e ao sexo? Na década de 70 algumas feministas criticaram a explicação que a psicanálise propunha para a anorexia nervosa. À hipótese de que a anorexia resultava de uma “fuga da feminilidade”, as feministas argumentaram que não se podia esquecer dos imperativos culturais como a “tirania da magreza” e o machismo de nossa sociedade que privilegia o masculino. O receio de que a gordura nos seios e nas ancas fizesse as mulheres parecerem estúpidas e vulneráveis apontava para a anorexia nervosa como uma forma de rejeição da inferioridade social, econômica e intelectual. Seja como for, e sem querer sugerir que as modas não possuem uma relevância, pelo menos hoje em dia o tratamento psicológico leva mais em consideração os significados culturais em torno das formas femininas (5).

Um seio é apenas um seio?

 Leia também:

As Mulheres de Luis Buñuel
Luis Buñuel, Incurável Indiscreto
A Guerra dos Seios: Conexão Seios (II)
Fetiches Digitais: Conexão Seios (III)
Os Seios da República: Conexão Seios (epílogo)

Notas:

1. YALOM, Marilyn. História do Seio. Tradução Maria Augusta Júdice. Lisboa: Teorema, 1998. P. 191.
2. Idem, p. 14.
3. Ibidem, p. 180.
4. Ibidem, p. 185.
5. Ibidem, pp. 190-1. 

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