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Roberto Acioli de Oliveira

Arquivos

30 de mar de 2008

Rostos: Fisiognomonia (III)

Johan Kaspar Lavater


“Decifrar a
lingu
agem
original da
natureza
,
escrita
sobre o
rosto do
homem e
sobre todo
seu exterior
..."



Entre 1775 e 1875 os escritos de Lavater alcançaram grande notoriedade. Pastor protestante na Suiça, a religiosidade perpassa todo o seu texto. Procurou provar os desígnios divinos a partir de um ponto de vista que misturava misticismo e empirismo. O nome de sua obra mais famosa: Ensaio Sobre a Fisiognomonia, Destinado a Conhecer e Amar o Homem. Dentre os colaboradores, que chegaram a escrever ensaios embora não fossem devidamente citados, encontramos Goethe. Certa feita, surpresos com os elementos de zoologia presentes no trabalho de Lavater, e sendo ele um teólogo, perguntaram a Goethe se Lavater tinha em suas pesquisas uma orientação voltada para a natureza. Ao que o escritor respondeu: “Certamente não, sua direção conduzia apenas para os costumes e aspectos religiosos. O que está na Fisiognomonia de Lavater, sobre os crânios de animais, é meu” (1) (imagem acima, semanário France Dimanche, nº189, ca1950)

Em Face Value. Physiognomonical though and the legible body in Marivaux, Lavater, Balzac, Gauthier, and Zola. (2), Christopher Rivers nos mostra o que está por trás do ponto de vista lavateriano. O pastor desejava chegar a um manual definitivo sobre como determinar o caráter humano a partir de características físicas exteriores. Pretendia fazê-lo cientificamente, mas para afirmar Deus. Assim, o objetivo de Lavater não era o saber pelo saber, mas afirmar o conhecimento, a ciência e a Verdade para melhor amar o homem. O objetivo de seu trabalho é teológico.

Rivers sugere que o trabalho de Lavater também poderia ser considerado crítica de arte, dada a quantidade de reproduções que apresentava, como Da Vinci, Rembrandt, Raphael, Rubens, Van Dyke, Poussin, Le Brun e Hoggarth. Em sua opinião, o trabalho de Lavater foi a mais extensiva tentativa de sistematização de uma ciência que pretendia determinar o caráter a partir da aparência física.

Quanto ao objetivo de contribuir para o amor entre os homens, Rivers observa um detalhe jocoso que teria passado despercebido por Lavater. Rivers ainda admite que possa ser apenas uma questão de cinismo de alguém do século XX, mas como poderíamos melhor amar nosso vizinho se reconhecemos nele os sinais físicos da estupidez?

Na opinião de Lavater a mulher sente, enquanto o homem pensa. Outro problema encontrado por Rivers diz respeito à misoginia no texto lavateriano. Como pastor protestante, sua caracterização da mulher segue a tradição misógina judaico-cristã. Nos 4 volumes de sua obra em questão, dedica apenas um capítulo às mulheres e parece admitir com orgulho que seu conhecimento sobre elas é limitado. Segundo Lavater, o mal é uma parte essencial da mulher, mesmo da mais virtuosa dentre elas. São feitas do homem e para servi-lo. Além do que, segue Lavater, fazendo uma alusão à cena do Pecado Original, não é o homem que será seduzido primeiro, mas ela - que em seguida o seduziu. Rivers conclui que esta articulação entre fisiognomonia e tradição teológica teria sido a única “contribuição” de Lavater ao discurso da fisiognomonia misógina (3).

Ciência Religiosa?

Apesar da falta de objetividade de suas descrições, Lavater pretendia incluir a fisiognomonia entre as ciências aceitas. Chega a introduzir um método geométrico, buscando respostas nas medidas do rosto. Rivers defende a hipótese de que a fisiognomonia de Lavater só tem interesse como um constructo retórico. (imagem da esquerda, de Juan Valverde de Amusco, ca1525-88)

Lavater acreditava que os signos corpóreos, isto é... naturais... isto é, dados por Deus, deveriam ser interpretados de um forma a suplantar os signos verbais produzidos pelo homem. A linguagem seria manipulável, já a fisionomia refletiria uma verdade essencial que ninguém poderia manipular ou distorcer. Rivers mostra que Lavater acreditava que a própria natureza nos haveria provido com estes sinais por ter antevisto quão escorregadios eram os signos lingüísticos criados pelo homem. Rivers aponta também a ironia de que, no texto de Lavater, a afirmação mais clara deste princípio fisiognomônico fundamental não está em sua palavra e sim na de um fisiognomonista do século XVII, Cureau de La Chambre...


“Ela [a natureza] não tem apenas dado ao Homem a voz e a língua para ser o interprete de seus pensamentos; mas na desconfiança que ela teria tido de que podia enganar-se, fez falar também sua testa e seus olhos, para demiti-los quando não fossem fiéis. Numa palavra, derramou toda sua alma para fora, e de modo algum há necessidade de janela para ver seus movimentos, suas inclinações e seus hábitos, visto que aparecem no rosto, e que são descritas em caracteres tão visíveis e tão manifestos”. (4)

Tomando Saussure como modelo, Rivers mostra como a semiótica de Lavater substituiu o significado (um conceito) por um traço imutável, essencial, alegórico e psicológico. O significante (“imagem acústica” do significado) é substituído por “material corpóreo” (orelhas grandes, etc...). Enquanto para Saussure o significante é imotivado, arbitrário em relação ao significado, Lavater havia defendido a hipótese de que a relação não é de modo algum arbitrária. Na visão de Lavater, de um lado temos um sistema semiótico original que é natural e, de outro, um reflexo inferior, a linguagem humana. A relação se estabelece entre protótipo e imitação. Rivers mostra que, na mente de Lavater, “é precisamente porque a linguagem humana não é confiável que a fisiognomonia tem que existir” (5).

Porém, na época de Lavater, existiam já teorias da linguagem. Rivers cita pelo menos duas. No século XVIII, com Condillac, em seu Ensaio Sobre a Origem dos Conhecimentos Humanos (1746), e Rousseau, em seu Ensaio Sobre a Origem das Línguas (1755). Condillac fala da arbitrariedade da linguagem humana. Rousseau distingue a linguagem humana em relação a animal (ou de certos animais), assumindo que no último caso a linguagem dos sinais deve ser a mais utilizada. Entretanto, a considera incapaz de atingir a complexidade da natureza arbitrária da linguagem humana. O que não fica muito claro no livro de Rivers é que, logo após desvalorizar uma linguagem não verbal animal em função de uma linguagem verbal humana, o autor mostra que Rousseau acreditava (e Lavater sabia disso) na existência de um sistema de comunicação de sinais que suplanta a linguagem humana. Vale a pena ver o que escreveu Rousseau a respeito...

“Abra a história antiga; a encontrará plena dessas maneiras de argumentar com os olhos, e nunca elas deixam de produzir um efeito mais seguro que todos os discursos que poderíamos ter colocado em seu lugar... A linguagem mais enérgica é aquela onde o signo diz tudo antes que falemos... [Assim] falamos aos olhos bem melhor que às orelhas. Não há ninguém que não sinta a verdade do julgamento de Horácio a esse respeito. Vemos que os discursos mais eloqüentes são aqueles em que inserimos mais imagens” (6).

Na opinião de Lavater, o problema da linguagem é até menor que o da má fé. A necessidade de um sistema de significação cujos signos sejam inquestionáveis torna-se premente devido à capacidade que o homem tem para mentir e dissimular. A fisiognomonia pretende neutralizar o mau uso da linguagem, assim como todo elemento lingüístico, necessariamente arbitrário.

Com seu modelo de comunicação não verbal, Lavater consegue criticar Platão (e por extensão Parmênides) ao defender tanto a existência quanto a necessidade de mapear o mundo sensível. Consegue também criticar Heráclito ao demonstrar sua aversão ao arbitrário da multiplicidade. Poderíamos dizer que seu ponto de vista é basicamente aristotélico. Pois, a linguagem é considerada ao mesmo tempo um problema, mas também a saída. Além disso, sua defesa de uma postura objetiva e sistemática diante do mundo e diante de um método que parte da afirmação de que tudo (ou quase) depende de uma capacidade do observador em descrever aquilo que vê utilizando uma linguagem clara, faz dele um empirista.

Entretanto, Lavater fará um elogio à necessidade que deve possuir o fisiognomonista para utilizar sua emoção na hora de analisar um rosto. De fato, Lavater tem uma aposta, mas do ponto de vista prático sua hipótese se torna um tanto (senão completamente) inviável enquanto discurso científico formal.

Seu ponto de vista pretende ser científico sem abandonar os preceitos do protestantismo. Por isso, insiste na distinção entre o essencial e o arbitrário. Lavater busca a essência do ser humano. A linguagem divina que descortina a absoluta verdade se reflete no significante mais visível: o corpo humano (7).

Dêem-Me Um Cadáver

Lavater faz uma distinção entre fisiognomonia e patognomia. A última é o estudo das expressões faciais a partir de feições móveis: olhos, boca, rubor, etc. Devido ao fato de que são funções que conseguimos impor controle relativo, estão sujeitas à má fé das pessoas que as controlarem bem. Já na fisiognomonia, trata-se da análise das feições fixas. Não temos nenhum controle sobre elas, portanto estariam “escritas” com a “linguagem original” do ser essencial. Desta forma, é no momento de descanso, adormecido ou, preferivelmente, morto, a melhor oportunidade para interpretação. Lavater aconselhava a análise da testa (8). O “ato de significação” em Lavater passa pela hipótese de uma linguagem original da natureza.

Lavater insiste em que o trabalho do fisionomista é perseguir uma técnica de descrição eficaz. Rivers afirma que nesta época era comum a idéia da linguagem como uma ferramenta de análise. Os Românticos pensavam assim. O próprio Condillac afirmou que o tratamento de questões metafísicas e morais necessitam de uma utilização menos leviana das palavras. Diria Lavater que “a maior parte de nossos erros se originam na imperfeição da linguagem” (9). Seu discurso lembra muito Aristóteles, pois em ambos a busca da verdade não passa apenas por um novo sistema de significação, depende também de uma expansão do vocabulário. A preocupação de Lavater, e de Aristóteles, é que somente através de cada vez mais profundas descrições do físico poderemos conhecer o metafísico. A velha questão do particular e do geral. Segundo Lavater, a linguagem possui uma inevitável generalidade, ela não define objetos, ela os classifica. Assim, uma mulher que dizem ser bonita não foi nem descrita, nem definida. Apenas fora colocada na categoria de pessoas que o observador considerada como tal. Para Lavater, a fisiognomonia tomaria para si uma tarefa impossível, a expressão do particular através do geral (10).

Rivers aborda outro ponto polêmico no pensamento de Lavater. Ele valoriza a sensação sobre a percepção. Segundo Lavater, devemos seguir nossas primeiras impressões. O verdadeiro fisiognomonista tem suas primeiras impressões dadas por Deus (natureza). O verdadeiro fisiognomonista não utiliza a indução humana, pois que induz ao erro. Para captar as impressões, ele tem que possuir um “talento” dado por Deus. Privilegiando a intuição sobre a observação sistemática, Lavater mostra mais uma vez que realmente a meta da fisiognomonia é teológica e não científica. Rivers nos lembra, entretanto, que no século XVIII, distinções entre ciência e sentimento ainda não estavam claramente definidas (11). Lembremos também que, em sua retórica misógina, Lavater considera que o que desvaloriza a mulher é exatamente a incapacidade de ser objetiva.

Quando nos abandonamos aos sentimentos, não somos seduzidos pelas aparências?

Rivers argumenta que quando o corpo humano é o objeto de estudo, o julgamento necessariamente passa pelas aparências. Lavater havia tentado escapar deste impasse reafirmando que a proposta é buscar uma “realidade” que está por trás destas aparências, utilizando-as apenas como veículo. O problema está no nível metodológico, pois Lavater não indica como é esta realidade, portanto ela não pode ser verificada. Neste ponto, volta a crítica de Aristóteles a Platão - assim como o problema que Aristóteles não conseguiu resolver. Rivers parece não perceber a semelhança na problemática metodológica entre Lavater e Aristóteles (12). Rivers mostra como Lavater pensa que resolve o problema: somente uma pessoa (fisicamente) bela pode julgar a beleza de outras...

O campo de estudos de Rivers é a literatura. Ele quer mostrar que os escritos de Lavater devem ser entendidos como texto literário. A análise do fio narrativo adotado por Lavater é mais frutífero do que procurar uma objetividade em seu discurso apenas porque ele afirmou que ela existe. Em Face Value, Rivers problematiza não a cientificidade da fisiognomonia, mas como ela se inscreve nas novelas dos séculos XVIII e XIX. A fisiognomonia de Lavater é muito sugestiva em relação à caracterização verbal de caracteres físicos dos personagens fictícios. Antes de mais nada, afirma Rivers, a própria fisiognomonia é uma forma narrativa. A eficácia referencial não é de interesse das narrativas literárias, mesmo quando o texto explicitamente a propõe, com em Lavater. Completa Rivers...

“Lendo as narrativas de rostos que Lavater dá em seus trabalhos, se é frequentemente lembrado do popular passatempo que consiste em criar biografias imaginárias para os passantes, baseados somente em poucos indícios que se pode acumular de suas aparências. As narrativas criadas por Lavater são destituídas de veracidade como as criadas neste jogo. Elas têm, contudo, ao contrário daquelas do jogo, um propósito: são tentativas (embora abandonadas) de explicar e ordenar o ser humano”. (13) (imagens ao lado e acima, produzidas por Gerald Bybee).

Na opinião de Rivers, a narrativa é a forma que a fisiognomonia encontra para atingir seu objetivo de ordenar o arbitrário. Citando Peter Books, Rivers afirma que a narrativa é uma forma de compreensão e explanação que possui uma dinâmica - que Brooks chama “enredo”. O qual faz da narrativa ordenada e ordenadora. Todas as disciplinas, sejam as ciências sociais, naturais ou na ficção, respondem à necessidade de uma narrativa explanatória que busca autoridade num retorno as origens traçando uma história coerente da origem ao presente. Citando Voltaire, a “história substitui a teologia como o discurso chave e imaginação central”.

A fisiognomonia é, a partir deste ponto de vista, uma indagação das formas narrativas da ciência e da teologia. Na opinião de Rivers, a fisiognomonia se torna um sugestivo espaço de questionamento da narrativa como ordenamento. “As leituras fisiognômicas de Lavater são ao mesmo tempo descrição e narração, e, portanto anulam a noção tradicional em estudos literários de que estas duas categorias são mutuamente excludentes”. O discurso ficcional seria persuasivo não por possuir método e dados verificáveis, mais porque satisfaria uma necessidade humana básica de ordenar e explicar a vida. Os personagens e suas vidas são ordenados e adquirem inteligibilidade a partir de sua caracterização fisionômica. Enfim, a sobrevivência da fisiognomonia teria sido perpetuada a partir da literatura ficcional e narrativa.

Notas:

Leia também:

Rostos: Fisiognomonia (IV)


1. BALTRUSAITIS, Jurgis. Aberrações. Ensaio sobre a lenda das formas. Tradução de Vera de Azambuja Harvey. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 1999. P. 57.
2. RIVERS, Christopher. Face Value. Physiognomonical though and the legible body in Marivaux, Lavater, Balzac, Gauthier, and Zola. USA: The University of Wisconsin Press, 1994.
3. Idem, p. 70.
4. Ibidem, p. 80.
5. Ibidem, p. 80-81.
6. Ibidem, p. 82.
7. Ibidem, p. 82-83.
8. Ibidem, p. 83.
9. Ibidem, pp. 88-90.
10. Ibidem, pp. 91-92.
11. Ibidem, pp. 96-97.
12. Ibidem, pp. 98-99.
13. Ibidem, p.101.

29 de mar de 2008

Rostos: Fisiognomonia (II)

Aristóteles


“Acima de tudo
é melhor basear seus
argumentos a partir de asserções
sobre espécie e não sobre gêneros,
posto que a espécie mais de perto
se assemelhe ao indivíduo, e é com
indivíduos que a fisiognomonia está
preocupada; porque em fisiognomonia
tentamos inferir a partir de sinais
corporais o caráter deste ou desta
pessoa particular, e não o caráter
de toda a raça humana"

Fisiognomonia
Aristóteles


O Rosto e o Corpo

A problemática metodológica básica na fisiognomonia está exposta: a relação entre o particular e o geral. A forma de um animal estará articulada sempre a certo caráter mental, o corpo e a alma sempre estão juntos se são do mesmo tipo. Isto explica porque certos corpos possuem um caráter específico e não outro qualquer. Assim, caráter e corpo afetam-se reciprocamente. Se tudo isto for possível, então a fisiognomonia é praticável (1). Aristóteles mostra os três métodos até então utilizados.


1) Os gêneros animais são utilizados nas inferências. Assim, quando um homem lembrar o corpo de um gênero, sua alma será idêntica a esse corpo. Alguém que se assemelha a um cavalo, terá o caráter de um cavalo;


2) Utilizam o mesmo método, apenas excluem os animais. Assim, distinguem várias raças, e o caráter de um indivíduo a partir daí;


3) Partindo das expressões faciais características, observam-se as condições mentais que as acompanham: raiva, medo, excitação erótica, etc.

Segundo Aristóteles, este terceiro método pode ser considerado falho, já que alguém pode ser visto expressando uma emoção que não lhe é peculiar, apenas episódica. Ele chega a concluir que isso reduz drasticamente o número de inferências que se pode tirar a partir da expressão facial. Argumenta que não se pode inferir nada a partir de sinais comuns.

Buscar aquelas características que são peculiares àquele gênero animal também é infrutífero. Se pudéssemos captá-las, ao contrário não conseguiríamos captar características mentais peculiares aos diferentes tipos de animais. Cada animal pode ter características que também são encontráveis em outros animais – a coragem do leão é perfeitamente encontrável em outros animais.

É uma afecção mental em comum que devemos procurar. Tratar-se-ia de procurar em que animais ela se repete. Esse animal deve ser numeroso e não possuir nenhuma outra afecção mental em comum, exceto aquela estudada. Aristóteles se pergunta então quanto às qualidades mentais que vão e voltam - que não são permanentes. Não terão muito valor, já que não serão constantes. Sem falar nas afecções da alma que não produzem marcas visíveis no corpo (2).

Aristóteles reconhece a capacidade das expressões faciais comunicarem disposições internas, mas considera fonte de imprecisão nos fixar apenas no rosto. Deveríamos atentar para um conjunto de elementos: expressão facial, movimentos do corpo, gestos.

Sugere um método para a fisiognomonia que não havia sido tentado. Quanto aos animais, devemos nos referir à espécie e não a gêneros inteiros, assim como devemos nos referir aos sinais corporais e caráter desta ou daquela pessoa em particular e não ao caráter de toda a raça humana (3). Vemos aqui uma tentativa de Aristóteles para dar conta do devir no mundo da experiência sensível. Ele busca uma Verdade, mas admite que ela se expressa de diferentes formas. Na verdade, este é o sentido de sua crítica a seu mestre, Platão.

O elemento importante a se reter do ponto de vista aristotélico é que corpo e alma se afetam mutuamente, a alteração de um leva a alteração do outro. Assim, quando nossa alma está com raiva, o corpo exibe os traços correspondentes. Da mesma forma, quando o corpo humano perde um braço, modificações da alma devem ser previstas. Em sua opinião, é esta crença que explica que os médicos em parte receitem purgantes e dietas para o tratamento de uma alma que sofre de problemas emocionais. De fato, Aristóteles insistia que deveríamos aplicar sempre o método dedutivo. Assim, mesmo sem conhecer seu futuro ofício, poderíamos inferir certas hipóteses baseando-nos no conjunto de seus traços (4).

Bichos Masculinos e Femininos

Aristóteles considerou necessário dividir o reino animal entre machos e fêmeas. O leão (à direita) exibiria o tipo macho em sua forma ideal...

“Boca bem proporcionada: seu rosto é quadrado e não muito ossudo, a mandíbula superior encaixa na inferior e não se projeta para frente: seu nariz pode-se considerar grosso: seus olhos brilhantes são fundos, nem totalmente redondos nem inadequadamente muito esticados, e de tamanho moderado: sua sobrancelha é do tamanho certo, sua testa quadrada e levemente côncava no centro, e sobre sua parte inferior em direção às sobrancelhas e nariz, há uma espécie de nuvem, e do topo da testa até o nariz desce um sulco de cabelos se inclinando para fora: sua cabeça é de tamanho moderado: seu pescoço de tamanho adequado e largo em proporção com uma juba castanho-amarelada sobre ele, que não é nem dura e eriçada e nem muito encrespada. Quase nas clavículas ele é flexível e não muito firmemente articulado: seus ombros são robustos, o peito é poderoso, seu tronco extenso, complementado pelos flancos e dorso: não há carne supérflua em seu lombo ou coxas: suas pernas são poderosas e musculosas, seu andar vigoroso, sua constituição bem articulada e vigorosa, nem muito rijo nem muito mole: ele se move vagarosamente a passos largos, ondulando seus ombros enquanto vai. Tal é sua aparência corporal e em sua alma ele é generoso e liberal, orgulhoso e ambicioso, ainda assim gentil e justo e terno com seus companheiros.


O leopardo(à direita), por outro lado, de todos os animais considerados bravos, aproxima-se mais do tipo feminino, salvo em suas pernas, que usa para executar toda proeza de força. Seu rosto é pequeno, sua boca grande, seus olhos pequenos e brancos, colocados num buraco, mas planos em si mesmos: sua testa é muito longa e tende a ser curva mais do que reta perto dos ouvidos: seu pescoço muito longo e fino: seu peito estreito e seu dorso longo: lombos e coxas gordos: flancos e abdômen retos: sua cor malhada: e seu corpo todo mal articulado e mal proporcionado. Tal é o aspecto corporal, e na alma é medíocre e ladrão, em uma palavra, uma fera de pouca astúcia”.(5)


Nota-se, é claro, a pouca objetividade das conclusões misturadas com a altamente objetiva e clara descrição anatômica. Nos termos do próprio Aristóteles, não seria aconselhável utilizar leões e leopardos para falar de tigres. Vimos que o estagirita prefere trabalhar com indivíduos e não com gêneros. Desta forma, se os leopardos podem variar entre si, os tigres então poderiam ser completamente diferentes deles, pouco importando que ambos sejam felinos.

Um Rosto Sozinho Não Significa Nada?

Segundo Aristóteles, os elementos do rosto (olhos, testa, nariz, lábios, cabeça, e o próprio rosto) são apenas mais um dos elementos a serem considerados quando se deseja chegar a uma dedução lógica sobre o caráter de alguém. Vejamos uma descrição do significado que Aristóteles dá a suas partes:

Um nariz grosso significa preguiça, como gado. Entretanto, se o nariz é grosso desde a ponta, marca uma idiotia, como nos porcos. Caso a ponta seja fina, trata-se de alguém irascível, como um cão. Um nariz redondo e de ponta grossa indica o orgulho dos leões. Homens com narizes finos na ponta têm as características dos pássaros. Narizes virados para a direita indicam impudência, como um corvo. O nariz aquilino denota uma alma orgulhosa, como na águia. Lascívia pode ser encontrada em duas formas. Arrebitado, como no cervo e curvo e para cima como nos galos. Narinas abertas são a marca de temperamento violento (7).


Um rosto gordo indica preguiça, como no gado. Quando esquálido, significa assiduidade. Ossudo, covardia, como nos asnos e veados. Um rosto pequeno é sinônimo de alma pequena, como no gato e no macaco. Rosto grande, letargia na certa, como em asnos e gado. Aristóteles conclui que o rosto não deveria ser nem muito grande nem muito pequeno, o tamanho intermediário seria melhor. “Um rosto medíocre significa um espírito intolerante” (8). Olhos pequenos, alma pequena, como nos macacos. Olhos grandes, letargia, como no gado. Num homem saudável, os olhos não serão nem pequenos e nem grandes. Olhos fundos, a vilania do macaco. Olhos pronunciados, a imbecilidade do asno. Portanto, também para os olhos vale a regra do meio termo, nem fundos nem pronunciados (9).

Uma testa pequena, a estupidez do porco. Uma testa grande, a letargia do gado. Uma testa redonda, a idiotia do asno. Uma testa longa e reta, a rapidez dos sentidos, como no cão (10). Cabeça grande, rapidez, cabeça pequena, idiotia – cão e asno, respectivamente. Orelhas pequenas, a disposição dos macacos, orelhas grandes, a disposição dos asnos.


Notas:

1. ARISTÓTELES. Physiognomonics. Traduction Loveday and E. S. Forster IN BARNES, Jonathan (editor). The complete works of Aristotle. USA: Princeton University Press Books, 1985, Vol. 1. P. 1240 (1, 807b, 25-30).
2. Idem, p.1238 (1, 805b, 10 à 806a, 5).
3. Ibidem, p.1240 (2, 807a, 30).
4. Ibidem, p.1243 (4, 809a, 20).
5. Ibidem, p.1244 (5, 809b, 15-35 e 810a, 5).
6. Ibidem, p. 1246 (6, 811a, 20-25).
7. Ibidem, (6, 811a, 30-35).
8. Ibidem, (6, 811b, 10).
9. Ibidem, p. 1247 (6, 811b, 20-25).
10. Ibidem, (6, 811b, 30-35).

Rostos: Fisiognomonia (I)


“Como começamos
a cobiçar”?
Cobiçamos aquilo que
vemos
... todos os dias !



A frase de O Silêncio dos Inocentes (Silent of the Lambs, 1991) dá o tom de nossa busca. Uma agente do FBI insistentemente pergunta a um famoso ex-psiquiatra comedor de carne humana sobre o paradeiro de um assassino de mulheres que teria sido seu cliente. Procurando mostrar em forma de enigma qual é o objetivo desse assassino, o canibal enuncia esta frase. Pois bem, o assassino não matava por ódio. Na verdade, gostava tanto das mulheres que queria ser uma delas. Entretanto, para alcançar seu objetivo, ele raptava mulheres meio gordas. Mantendo-as em cativeiro, as engordava mais e mais. Então as matava e retirava partes de suas peles. Então as costurava. Pretendia fazer uma roupa com a pele das mulheres.


Paul Valery tem uma frase, “o mais profundo é a pele”. Seja como for, o assassino de mulheres parecia fixar a identidade delas no elemento mais material e mais visível. Ser mulher passava por parecer com uma mulher. Desta forma, para ele ser mulher não teria nenhuma relação com a busca de uma possível alma feminina. Travestido com pele humana morta, o assassino parece curto-circutar a lógica da linguagem não-verbal da aparência. Platão já havia chamado atenção para a inutilidade do mundo sensível. Ou melhor, sua única utilidade seria servir de degrau para ultrapassá-lo.

A fisiognomonia sempre baseou seus estudos na articulação entre a afirmação da necessidade de um mundo sensível articulada à crença na existência de outro, desta vez inteligível. Sendo que é deste que podemos inferir a verdade última. Trata-se, na verdade, da velha questão da engenharia dos métodos de previsão.


A Linguagem do Rosto, de Umberto Eco, nos dá uma resumida introdução ao tema (1). Mostra-nos que Aristóteles já havia tocado no assunto. O dado básico é a hipótese de que poderíamos julgar o caráter de um homem ou animal a partir de sua estrutura corporal. Tal avaliação seria possível por conta de outra hipótese, as inclinações naturais transformariam simultaneamente alma e corpo. Portanto, os traços do rosto deveriam remeter a características internas (éticas e morais) (ao lado, prisioneiro de campo de concentração nazista).


Eco nos conta que, com Charles Darwin e Cesare Lombroso, o século XIX confere a ela um status científico. Procurava-se desta forma distinguir entre uma fisiognomonia natural (associações frágeis e ambíguas) e outra fisiognomonia, dita científica (baseada em estudos anatômicos) (2). A frenologia postula que tudo encontra representação na superfície do cérebro: faculdades mentais, tendências, instintos, sentimentos. Por exemplo, aqueles com acentuadas qualidades mnemônicas tem o crânio redondo, olhos salientes e distantes um do outro. Combatida por todos, pretendia que, mesmo que um indivíduo seja honesto, sua honestidade é mentirosa porque sua conformação craniana mostra quem ele de fato é.

Lombroso acaba ligando esta tradição às práticas racistas que, além do mais, revestem de caráter científico a visualização da figura do criminoso. Eco faz uma interessante referência ao caráter lombrosiano-lavateriano da fotografia 3x4, que todos nós carregamos na carteira de identidade. Em sua opinião, a própria fotografia nos deforma, tornando-nos “pessoas ruins” por nossa feiúra. Eco também faz referência à revista em quadrinhos... “Chegamos à revista em quadrinhos. E, de fato, a revista em quadrinhos e a caricatura são os lugares onde a fisiognomonia adquire valor fotográfico de estenografia e esboça, com poucos traços enfatizados, toda uma história psicológica e moral. Baseando-se exatamente nos preconceitos (e em parte na sabedoria antiga) de uma fisiognomonia natural:usando-os e reforçando-os”. (3) (Ao lado, George Bush filho, presidente dos Estados Unidos da América e atual dono do mundo).

Aberrações

Em seu livro, Aberrações (4), Jurgis Baltrusaitis mostra como o pensamento fisiognomônico atravessou a Antiguidade, Idade Média, Renascimento e Modernidade. De pensadores como Aristóteles e Descartes, passando por artistas como Miguel Ângelo, Leonardo Da Vinci, Rubens, e escritores como Goethe, Zola, Marivaux e Balzac, a fisiognomonia foi motivo de intensa pesquisa.


Em 1586 Giambattista Della Porta mostra imagens de homens-animais como deformações. Rubens, por sua vez, as mostra como a revelação de um mistério. Em 1776 Rubens publica um tratado que corrobora as tradições esotéricas do século XVI. Segundo Baltrusaitis, Rubens representa a última eclosão das cosmogonias fantásticas na história da ciência das formas humanas (5).(Ao lado, jato de combate norte-americano durante a guerra do Vietnã).


Uma revisão da fisiognomonia, que já se anunciava desde a Antiguidade, eclode no século XV. Lomazzo deu o chute inicial ainda em 1584, depois por um teólogo, Coeffeteau (1620), um médico, Cureau de La Chambre (1640-1662), e um filósofo, Descartes (1649). Trata-se dos estudos das paixões, sentimentos passageiros, que afrontavam os caracteres permanentes propostos na fisiognomonia.

Em sua teoria da fisiologia, Descartes propõe que as paixões se localizam na glândula pineal do cérebro e não no coração, como se acreditava. A questão é que poderiam ser percebidas a partir de sinais exteriores. Baltrusaitis mostra o comentário de Charles Le Brun, contemporâneo de Descartes, quanto às conseqüências para os artistas... “E como dissemos que a glândula que está no meio de cérebro é o lugar em que a alma recebe as imagens das paixões, as sobrancelhas são a parte do rosto em que as paixões se dão a conhecer melhor” (6).

Em 1678, Le Brun apresenta sua criação na Academia de Pintura. Elabora 41 máscaras de paixões simples e derivações, onde as sobrancelhas comandam os movimentos. Ainda assim, completa Baltrusaitis, “a sombra do animal permanece ao fundo”. Le Brun segue em sua caracteriologia dividindo os homens em 3 classes:

1) de paixões suaves que não alteram seus traços;
2) de paixões generosas que imprimem neles uma marca particular;
3) de paixões condenáveis e atrozes que degradam seu rosto.

Ele procura resolver o impasse propondo uma geometria da face humana. O gênio do homem e a natureza de um animal seriam captáveis a partir do ângulo constituído pelas linhas retas que passam no eixo dos olhos. A aplicação de tal expediente provaria que o leão possui paixões nobres, enquanto o burro tem impulsos vergonhosos. Importância muito grande adquire o nariz na análise de Le Brun. Aponta o fato de que os narizes dos homens ilustres, da Antiguidade à Modernidade, eram mais ou menos aquilinos – resta o problema de ter certeza que as esculturas e os bustos que retratam estes homens correspondem a sua forma real. Um herói deve possuir também testa alta e larga com sobrancelhas grossas.


Interessante notar que a forma considerada mais negativa parece muito com o nariz do judeu típico... “Mas o cúmulo da desgraça está reservado a quem junta esses sinais funestos um nariz que termina em bico de corvo: ele deve então, irremediavelmente, ser presa das paixões as mais condenáveis” (7). Nota-se como os escorregões no preconceito são perfeitamente possíveis. Tempos mais tarde, no século 20, Adolf Hitler patrocinaria uma perseguição sem precedentes aos judeus, onde a fisiognomonia seria retomada com o objetivo de marcar a diferença (e a suposta superioridade) dos arianos em relação aos judeus.

Tudo isso acaba por dar à cabeça um valor maior frente ao restante do corpo. Le Brun partia do princípio de que se o homem é uma cópia reduzida do universo, sua cabeça resume seu corpo. Por conta da glândula pineal, a cabeça se torna também sede da alma, além de conter um mundo animal. Ainda que se admita que os animais difiram tanto quanto os humanos em suas afeições, o alfabeto de sinais mais seguros seria fornecido pelos animais (8)(imagem abaixo, Lula, presidente do Brasil). Como disseram Gilles Deleuze e Félix Guattari no século 20: separaram a cabeça do corpo...


Notas:

Leia também:

Rostos: Fisiognomonia (II)

As Mulheres de Luis Buñuel
Luis Buñuel, Incurável Indiscreto

1. ECO, Umberto. A linguagem do rosto IN Sobre os espelhos e outros ensaios. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1989.
2. Idem, p.48.
3. Ibidem, p. 52.
4. BALTRUSAITIS, Jurgis. Aberrações. Ensaio sobre a lenda das formas. Tradução de Vera de Azambuja Harvey. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 1999.
5. Idem, p. 33.
6. Ibidem, p. 34.
7. Ibidem, p. 38.
8. Ibidem, p. 35.

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