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Roberto Acioli de Oliveira

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23 de set de 2010

A Bela, a Fera e o Cinema Puritano




A  primitiva 
selva
da   ilha  perdida   de
King   Kong   e   a   selva
fálica    que    é   Nova
York  se  equivalem






Na concepção cristã, a mulher e o homem puritanos norte-americanos brancos devem nascer mãe e pai: reproduzindo outros homens e mulheres, puritanos e perfeitos. O sexo deve ser dominado em proveito da reprodução. “Trata-se menos de defender a ‘liberdade do indivíduo’ do que sua obediência a uma moral identitária”. As grandes estrelas do cinema americano poderiam ser divididas entre o ideal estado maternal e as pinups da década de 50. Fay Wray só será aceita pelo espectador quando se tornar uma mãe em potencial, logo que se livre de seu amante gigante e muito sexual: King Kong (1). A pinup assumirá a sexualidade proibida ao homem puritano e ao soldado. Tanto prostitutas quanto a masturbação são consideradas elementos avessos a uma castidade global entendida como o ideal das relações entre homens e mulheres. O fenômeno da pinup dos anos 50 do século 20, no qual Marilyn Monroe se destacou, permite aos homens puritanos e aos soldados possuir a imagem dela, mas ao mesmo tempo pendurá-la na parede (to “pin up”), para que possam se preservar daquela sexualidade que a eles é interditada (2).




Os seres humanos
são piores do que
os tiranossauros?







Faz tempo que King Kong, filme de 1933 (fonte das três imagens deste artigo), é analisado em seus elementos simbólicos e freudianos. Quando vemos o grande gorila subir naquele arranha-céu gigante, vemos uma sexualidade sem freios escalar o grande falo orgulhoso da sociedade norte-americana. Quando o vemos cair, ferido mortalmente pelas balas dos aviões, assistimos a uma grande purificação sexual, uma castração. A contradição do puritanismo aqui está no fato de que, ao mesmo tempo em que se elimina a sexualidade selvagem, preserva-se uma sexualidade canalizada, domesticada, civilizada – encarnada na cidade e seus falos-arranha-céus. Os Estados Unidos matam o monstro e acredita sair puro do combate. Entretanto, isso não constitui mais do que uma pseudo-catarse. Alexandre Hougron sugere que o filme de 1933 é a melhor versão dessa obra, pois denuncia o mito puritano: a selva de King Kong e a selva da cidade se equivalem. Em sua selva, King Kong mata o tiranossauro, mas na cidade ele é vencido. Os homens são piores do que os tiranossauros? O filme chega a ser explícito no desmantelamento do mito puritano: no final, a bela pode casar-se com o herói-norte-americano de plantão, vestindo terno, limpo, castrado pela moral puritana... Um civilizado - como os super-heróis das estórias em quadrinho norte-americanas (3).



Por algum tempo
,
pelo  menos  King  Kong
teve  sua  pinup  nas  mãos

 o que é mais do que a maioria
dos homens consegue. Mas
essa foi para ele a mulher
mais cara de todas

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