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Roberto Acioli de Oliveira

28 de jul de 2012

O Homem-Crocodilo e a Carne dos Machos


Etnias que habitam as margens do rio Sepik na Papua-Nova Guiné acreditam que o crocodilo é seu ancestral, fato que rememoram através de um ritual de iniciação particularmente doloroso. Cerimônias de iniciação acontecem a aproximadamente cada quatro a sete anos, envolvendo toda a comunidade com uma tremenda quantidade de trabalho. Um grande recinto é construído em torno da Casa dos homens, onde os iniciados ficarão isolados de algumas semanas a um ano inteiro. A iniciação compreende uma sucessão de rituais planejados para testar a força física e fibra moral daquele prestes a se tornar homem, assim como para afastá-lo da influência da mãe. Os rituais também têm como função ensinar ao iniciado a tradição da comunidade. A escarificação é certamente o ritual mais doloroso e difícil de suportar – ao contrário da moda de escarificação que invadiu o Ocidente, a eventual utilização de anestésicos naturais não tem exatamente a função de eliminar a dor, já que esta é parte do processo de iniciação. Na noite que precede ao acontecimento, o iniciado irá percorrer a aldeia numa longa fila representando o wagen, o retorno do crocodilo ancestral. Na manhã seguinte, os iniciados são levados para o recinto esse deitam de cabeça para baixo sob canoas viradas. Acompanhados por seus tios maternos, aqueles que estão prestes a se tornarem homens recebem ajuda quanto à melhor forma de passar pela provação. (ao lado, um exemplo de representação do crocodilo ancestral, máscara da etnia Iatmul)

 Nessa hora homens adultos começam a cortar com lâminas afiadas as costas, ombros, tórax e pernas dos próximos futuros homens adultos. Acredita-se que o sangue que escorre das feridas está ligado ao sangue menstrual, naquela cultura isso significa que ele deve ser eliminado daqueles corpos para prevenir o envelhecimento precoce daqueles novatos. Grandes flautas e apitos ressoam durante toda a cerimônia de corte da pele. Esses sons são a voz do crocodilo ancestral, que devorou os noviços e deixou as marcas de seus entes na pele deles. Então os meninos são lavados no rio e suas feridas untadas com um óleo especial. Aplicações diárias com certas plantas são feitas com o objetivo de aumentar o inchaço dos cortes. Após vários dias as cascas são retiradas e os noviços devem observar uma série de tabus alimentares durante todo o período de cicatrização (por exemplo, não comer enguias). Em seguida a um forma de confissão de suas faltas passadas aos anciãos da aldeia, os noviços serão informados sobre seu povo, as leis da comunidade, a história do clã e certos mitos ancestrais, assim como seu futuro comportamento e responsabilidades dentro do casamento. A cerimônia de iniciação termina com um banho ritual no qual o iniciado é esfregado com folhas especiais. A iniciação é um segundo nascimento simbólico e integra os homens jovens no clã de seus pais, além de criar um elo entre as gerações. O homem jovem iniciado pode agora entrar na Casa dos Homens, casar-se e ter filhos. Eles ostentam orgulhosamente as cicatrizes deixadas pelo grande crocodilo ancestral. Marcas que os identificam para sempre como homens-crocodilo (1).


Nota:

Leia também:

1. Mayer, Anthony JP. Art Océanien. Paris: Librairie Gründ, Volume 1, 1995. Pp. 232-3.

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