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Roberto Acioli de Oliveira

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23 de abr de 2009

Purgatorium: A História de Uma Palavra (I)




Nas inflamadas
discussões entre católicos
e protestantes
no século XVI,
os últimos reprovavam a crença
católica no Purgatório
- para eles
não passava de um além
“inventado”
que
não estava nas Escrituras.
Lutero
o chamava de
“o terceiro lugar”
(1)



O Segundo Andar

A palavra Purgatorium não existe como substantivo, que surge ao lado do adjetivo purgatorius somente a partir da segunda metade do século XII. Antes disso, O Purgatório não existe. A iconografia do Purgatório só teria se expandido no final do século XIV, embora alguma coisa também se possa encontrar no século anterior. Os momentos mais fervorosos do Purgatório estendem-se do século XV ao XIX. O sistema da solidariedade entre vivos e mortos através do Purgatório tornou-se uma cadeia circular sem fim, uma corrente de reciprocidade perfeita (2). No século XIII, o Purgatório havia modificado a atitude dos cristãos perante os últimos momentos da vida. (imagem acima, parte do tríptico Os Bem Aventurados e os Condenados [?], de Hieronymus Bosch, 1500)

“(...)O Purgatório dramatizou essa última parte da existência terrena, carregando-a de intensidade misturada de temor e esperança. O essencial, a escolha do Inferno ou do Paraíso, visto que o Purgatório era a antecâmara certa do Paraíso, podia ainda jogar-se no momento derradeiro. Os últimos instantes eram também os da última oportunidade (...)” (3)

Jacques Le Goff se pergunta, “(...) não teria sido a preocupação principal da Igreja manter o Inferno eterno? O fogo purgatório temporário não teria sido a exaltação do fogo inextinguível? (...) O Purgatório não teria sido o preço pago pela Igreja para conservar a arma absoluta, a condenação eterna? (...)” (4)

Quantos Andares Têm Essa Casa, Afinal?


“Organizar o espaço do
seu além foi uma operação
de grande alcance para a
sociedade cristã”

Jacques Le Goff (5)



De acordo com a perspectiva de Jacques Le Goff, a construção secular da crença no Purgatório modifica profundamente o imaginário cristão. Segundo o historiador, numa sociedade impregnada de religião como a cristandade da longa Idade Média que se prolongou da Antiguidade tardia até a revolução industrial, mudar a geografia do além, modificar o tempo após a vida, significa mudar a vida das pessoas literalmente.

“É evidente que o aparecimento de tal crença esta ligado a alterações profundas da sociedade em que se produz. Que relações mantêm esse novo imaginário do além com as mudanças sociais, quais as suas funções ideológicas? O controle estrito que a Igreja exerce sobre ele, chegando mesmo a uma partilha do poder sobre o além entre ela e Deus, prova que o que estava em jogo era importante. Por que não deixar os mortos vagar ou dormir?” (6) (acima, parte do tríptico O Último Julgamento, também de Bosch, entre 1450 e 1516)

O “terceiro lugar” irrompe num modelo dualista que o cristianismo herdara das religiões e civilizações anteriores e contemporâneas a ele. Entre um além judaico e outro Romano, o cristianismo privilegiou um modelo que situa o “descanso dos justos” no Céu e o Paraíso na superfície da terra mesmo. Nos mapas medievais, esse espaço terrestre da Idade do Ouro se localiza no Extremo Oriente, com o seu rio de quatro braços criado por Yahvé para “regar o jardim” (Gênesis II, 10). A oposição Inferno-Paraíso era baseada na oposição Terra-Céu. Apesar de subterrâneo, o Inferno era a Terra, que se opunha ao mundo celestial. A sociedade humana deveria ser elevada na direção do Céu. “O próprio Jesus dera o exemplo: depois de ter descido aos Infernos subira ao Céu” (7).

No sistema de orientação do espaço simbólico, lá onde a Antiguidade greco-romana privilegiava a oposição direita-esquerda, o cristianismo privilegia a oposição alto-baixo. Os valores cristãos na Idade Média giraram em torno disso. “Subir, elevar-se, ir mais alto, eis o aguilhão da vida espiritual e moral, enquanto a norma social é ficar no seu lugar, lá onde Deus nos pôs na terra, sem ambicionar escapar à nossa condição, tendo o cuidado de não nos diminuirmos, de não descermos” (8).

Entre o segundo e o quarto séculos, o cristianismo refletiu sobre a situação das almas entre a morte individual e o Julgamento final. Imaginaram que as almas de certos pecadores poderiam, sofrendo talvez uma provação, ser salvas durante esse lapso de tempo. Esse questionamento culminaria com a criação do Purgatório no século XII. Segundo Le Goff, esse nascimento foi negligenciado pelos historiadores, e antes disso pelos historiadores da teologia e da espiritualidade.

Notas:

1. LE GOFF, Jacques. O Nascimento do Purgatório. Lisboa: Editorial Estampa, 2ªed., 1995. P. 15.
2. Idem, pp. 17, 425, 433 e 439.
3. Ibidem, p. 427.
4. Ibidem, p. 428.
5. Ibidem, p. 18.
6. Ibidem, p. 16.
7. Ibidem, p. 17.
8. Ibidem.

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