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Roberto Acioli de Oliveira

Arquivos

3 de jun de 2009

O Corpo Suficiente (II)


Alguns  grupos  humanos,
como os nazistas, consideram
o   diferente   inferior.  Algumas
pessoas,    por   outro   lado,    são
tão    obcecadas     pela     imagem
 do  diferente  que  terminam por
 anular justamente suas próprias
características   originais,   que
 as   tornam  diferentes


Espelho, Espelho Meu...

Faz alguns anos que assistimos à disseminação de mais uma bizarria contra o corpo humano. Especialmente na China, um país onde a estatura das pessoas é menor do que no Ocidente, faz sucesso uma cirurgia ortopédica para aumentar a altura das pessoas. E adivinhem em que grupo essa prática faz mais sucesso? Os jovens. Esta cirurgia já existe a uns cinqüenta anos, sendo indicada basicamente para correção de deformações físicas. Mas o caso Chinês tem uma motivação bem diferente. Com a dominância do modelo de beleza ocidental, os chineses começam a discriminar suas próprias características físicas. Não querem mais ser baixos, como a natureza os fez e com isso deu-lhes características próprias.


Resultado, para ganhar alguns centímetros a mais, as mulheres chinesas submetem-se a sofrimentos talvez ainda maiores do que aqueles decorrentes do comportamento anoréxico e bulímico que se alastra no mundo em proporções epidêmicas. A cirurgia consiste em quebrar as pernas em vários lugares, mas apenas a camada externa do osso, deixando a medula intacta. Fios de aço ligam os ossos a uma estrutura metálica que envolve a perna. Essa estrutura é reajustada quatro vezes por dia, esticando o osso. A cada ajuste, o corte feito no osso se abre e o espaço é preenchido com tecido ósseo no processo de regeneração. Detalhe, o processo não é indolor. (imagem no início do artigo, Ministro do Tempo, 1976. Roberto Magalhães)

Originalmente, o chamado Método Ilizarov é utilizado no tratamento de fraturas graves, nanismo e vítimas de poliomielite. Portanto, mais um procedimento corretivo que passa a ser utilizado com objetivos estéticos e cosméticos. A média é de um ganho de 10 centímetros de altura em seis a sete meses. Existe risco de infecção e o procedimento deixa cicatrizes, os ossos podem ficar fragilizados e fraturas podem ocorrer ao caminhar. Mas a advogada Zhang Xiaoli acha que vale a pena o sacrifício, vejamos seus argumentos: “Não me preocupo com os riscos nem com os custos. Para mim esse é um investimento a longo prazo, já que terei um emprego melhor, um namorado melhor e finalmente um marido melhor” (...) “Sendo baixa, eu não tinha trunfo nenhum para conquistar isso tudo” (1).

Os chineses não são especialmente baixos, mas numa sociedade chinesa que se torna cada vez mais competitiva, seja no mercado de trabalho seja no amor, a estatura passou a ser um critério importante – tanto para conseguir emprego quanto um bom casamento. Curiosamente, o Ministério do Interior e o Exército Chinês incentivam a prática ao exigir uma altura mínima de 1,70 para homens e 1,60 para mulheres. No Brasil, em 2002 havia o registro de uma média de 30 casos por ano, sempre acompanhados de um laudo psicológico do paciente. Na Austrália, recentemente, uma mulher se submeteu à mesma cirurgia alegando que suas chances de ser eleita na política local. Segundo ela, “muitas mulheres são inseguras em relação a seu peso ou seu nariz; a minha é meu tamanho” (2). (imagem ao lado, Caligrafias [coloração invertida]. Acima, à direita, detalhe de 08.07.2000. Ambos de Gianguido Bonfanti)

A tirania do espelho é uma arma bastante utilizada pela indústria do rejuvenescimento ou da beleza, e geralmente contra nós. Quando olhamos para o espelho, não vemos com nossos olhos, mas através das compulsões induzidas pelo mercado de consumo (imagem ao lado, Reflexos do Passeio, 1998. Gil Vicente). Não vemos mais com nossos próprios olhos... Talvez por isso nosso corpo nunca nos satisfaça... Porque já não nos satisfazemos com nós mesmos... Porque já não sabemos o que realmente desejamos. Falta-nos tudo, inclusive nós mesmos... Talvez a pergunta (“quando seu corpo será suficiente?”) não faça mais sentido porque não há (ou ainda não há) o suficiente de nós dentro de nós. Tudo é falta. Tudo é dor. Como poderíamos então chegar a conceber a pergunta “quando seu corpo será suficiente?”

A Tirania Cronológica: A Vida Como Tic-Tac 

O velho ou, homem da Terceira Idade, compra o viagra para ter o desempenho sexual de um adolescente – aparentemente sugere-se que é essa a sabedoria a se adquirir com a Terceira Idade... o que já implica uma desvalorização de sua faixa etária por ele mesmo. Homens e mulheres em idade madura se preparam para pintar os cabelos brancos assim que aparecerem. A adolescente se pinta como uma psicótica para esconder uma velhice que ainda não existe - e aos poucos vai aprendendo que o importante é pescar alguém com dinheiro para seu futuro e para o futuro dos seus tratamentos psicóticos de beleza (imagem ao lado, Tempo Ordena a Velhice que Destrua Beleza, 1746. Pompeu Bartoli). Projetando essas vidas para o futuro, o aumento da expectativa de vida propiciado pelos avanços da medicina chega a ser uma perspectiva torturante. A propósito, mais tempo de vida é sinônimo de felicidade? Acabamos aceitando o pior da juventude, sua falta de compromisso com as conseqüências de seus atos. A indústria do rejuvenescimento precisa apostar numa infantilização de sua clientela, caso contrário os consumidores começam a refletir sobre seus atos.

O problema não é que eles pensem o que quiserem pensar, mas que acabem decidindo não comprar os produtos oferecidos. Já pensou se alguém ganha mais quarenta anos de vida e a indústria descobre que essa pessoa nunca vai consumir seus produtos? Seria o caos mercadológico! Desta forma, as pessoas que consomem esses produtos se adaptam à idéia de que “remoçar” é regredir no tempo. E também aceitam que “regredir” é uma coisa boa.

Explodir o tempo não é isso! Se querem tomar viagra para voltar no tempo, então vão em frente. Se desejam se maquiar de manhã cedo, ou fazer uma maquiagem permanente, ou fazer uma plástica, para voltar ao que um dia foi, então vão em frente. Mas o tempo somente será recuperado na medida em que não negamos que sua natureza é fluida: ele não anda só para trás ou para frente, ele anda para trás E para frente. Se velho é aquilo que já passou, então as mulheres maduras e idosas deviam entender que o comportamento adolescente deve ficar no passado. Mas não é o que acontece, e elas acabam revivendo sua adolescência como passado – o lado infantil da adolescência. (ao lado, Eu, 1994. Abaixo, A Ilha. Ambos de Roberto Magalhães)


A juventude não está lá (no passado representado pelo visual exterior, ou por um comportamento “jovem” vivenciado como regressão). Ela está aqui mesmo, no presente. A natureza fluida do tempo sugere que passado, presente e futuro são simultâneos – e não fases sucessivas. O presente só acontece porque passado e futuro estão inseridos nele. A expressão, “voltar no tempo”, deveria ser banida, pois está envenenada por um ponto de vista cronológico. Tomar viagra ou fazer plástica não é a questão, ou pelo menos não toca na questão do tempo em sua complexidade. O ponto de vista cronológico simplifica tanto a questão do tempo da vida que acaba deixando a impressão de que o tempo é só isso – começo, meio ou fim.

O “comportamento jovial” de alguém que física e cronologicamente não é mais um jovem não deveria indicar uma tendência regressiva, mas é justamente a isso que induz o ponto de vista cronológico. Assim, primeiramente a ênfase no ponto de vista cronológico nos faz sentir inferiores (atacando nossa auto-estima), já que nosso exterior não é mais jovem. Em seguida, o próprio ponto de vista cronológico vende para nós a solução – e “vender” é o verbo correto para ser empregado aqui. Qual é a solução? Reverta a cronologia de seu exterior, fique mais jovem por fora, disfarce a maturação de seu corpo físico, disfarce sua velhice!

Para tentar romper com o ponto de vista cronológico, talvez “comportamento jovial” não tenha que entrar em contradição com o corpo físico. Jovial é aquele que aprende a viver a soma da juventude, da maturidade e da velhice (passado, presente e futuro) como simultaneidades. Cair de cabeça na indústria do rejuvenescimento, pensar cronologicamente a vida, é instrumentalizar demais coisas que não são materiais. A jovialidade é um sentimento e, como tal, não poderia ser fruto de uma plástica ou de um produto químico. Tomar viagra ou fazer plástica não é a questão. A questão é reforçar o sentimento de juventude-maturidade-velhice enquanto simultaneidade que está dentro de nós o tempo todo – sim, inclusive no bebê e na criança. Ser jovem, maduro e idoso, são sentimentos concomitantes em nosso presente e afloram o tempo todo de acordo com os humores de cada momento. Enfatizar apenas um em detrimento dos outros é como tentar andar com apenas uma perna. É esquecer que nosso andar depende não só da outra perna, mas também da coluna, da bacia, dos braços, da cabeça, dos músculos e do sangue. Nesse sentido, passado, presente e futuro se intercambiam para formar o sentimento do viver.

Quando seu corpo será suficiente?

Esculpir o Tempo, Fluir a Vida


O tempo deveria
ser   entendido   como
um aliado de nossos corpos
.
A passagem do tempo deveria

ser um alívio  e  não uma fonte
de   desnorteio
.  Mas  este  tipo
de  raciocínio  não  é  lucrativo

para o mercado de consumo
(que   nos   consome)





O tempo não está aí para ser esquartejado e transformado em produto para vender. O tempo está aí para ser esculpido. Deveríamos nos preocupar em esculpir não nossos corpos, mas nossas vidas. Naturalmente, eu percebo que o tempo se esculpe em nossos corpos. Mas, quem sabe, talvez sejamos nós que o esculpimos em nossos corpos, mesmo que não tenhamos preocupações quanto ao rejuvenescimento. Ou talvez não, quem sabe é ele mesmo se esculpindo em nossos corpos. Talvez ele esteja tentando dialogar conosco. Talvez o tempo esteja procurando uma forma de nos dizer que ele não é um problema, mas parte da solução. Mas não ouvimos. Preferimos não ouvir! Preferimos acreditar que ele lança sobre nós uma maldição cronológica. E alguém nos fez preferir lutar com as mesmas armas cronológicas. (imagem acima, Mulher do Futuro, 1975. Roberto Magalhães)

Mas o tempo não para, não para não! O tempo cronológico não, mas esta é apenas uma das facetas do tempo. Ele flui também, em todas as direções simultaneamente. O fluir de um rio, por exemplo, não é apenas cronológico. Sim, ele segue sempre uma direção, mas enquanto isso ele se bate em todas as direções possíveis. A questão é que essas direções possíveis no interior de sua correnteza deveriam importar mais do que o fato inexorável de que ele sempre terminará no mar. Sim, o rio passa sim! Mas é o seu fluir que importa. A passagem do rio (tempo) esculpi as margens e a paisagem (nossos corpos físicos?), o turbilhão da correnteza esculpe seu interior! O rio esculpe as margens enquanto esculpe a si mesmo. Mas essa escultura interior que o rio faz de si mesmo depende da firmeza com que as margens são marcadas solidamente na terra e na rocha. Portanto existe uma interação entre o interior e o exterior, entre o tempo que flui e o tempo cronológico. Um não existe sem o outro, o rio só seguirá em frente se tiver um turbilhão – se tiver vida interior. Só terá um turbilhão interior seguindo em frente, para o mar que o dominará fisicamente.

Quando seu corpo será suficiente?

Notas:

1. Os Chineses querem Crescer. Cirurgia Ortopédica Para Aumentar a Estatura Vira Obsessão na China. Natasha Madov. Revista Veja, 22 de maio de 2002.
2. Australian councillor, Hajnal Ban, has legs broken to become taller. Sophie Tedmanson. Times online, 01/05/2009. Disponível em:
http://women.timesonline.co.uk/tol/life_and_style/women/article6196646.ece Acessado em: 28/05/2009. 

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