Este sítio é melhor visualizado com Mozilla Firefox (resolução 1024x768/fonte Times New Roman 16)

Roberto Acioli de Oliveira

Arquivos

3 de dez de 2010

O Mundo Infantil de Picasso (II)





Guernica
marcará a primeira vez
na obra de Pablo Pica
sso onde
ele mostra uma
mãe que chora,
tendo seu filho morto
nos braços




 

Cubismo: a Busca por Um Mundo Sem Infância

Entre o Período Rosa e o cubismo, a obra de Picasso passou por uma fase de transição na qual ele executou alguns retratos de crianças. Na opinião de Werner Spies, dentre os melhores exemplos dessa mudança estão as duas versões de Os Dois Irmãos (1906). As roupas dos quadros de acrobatas foram abandonadas. O nu, um gênero raro no trabalho inicial de Picasso, agora o fascina cada vez mais. Mas a nudez não constitui apenas isso, ela foi o presságio de toda uma nova orientação. As poses tornam-se mais naturais e as figuras estão livres do lastro psicológico e literário. Essa mudança de paradigma será retomada 15 anos depois, quando Picasso abandonar o idioma cubista, servindo de base para sua mudança para o classicismo. Por hora, a presença simples das figuras que o artista agora pinta estabelecem o quadro para a emergência do Cubismo. Os quadros se parecem cada vez menos com retratos tradicionais, as expressões faciais dos períodos Azul e Rosa (máscaras convencionais de sofrimento, proteção ou melancolia) desapareceram. De fato, ressalta Spies, Picasso parece eliminar mesmo a menor referência às emoções refletidas na face humana (1).(imagem acima, Mãe com Criança Morta, estudo para Guernica, 1937)

Nessa altura, as crianças desapareceram do trabalho de Picasso por muitos anos. Ao mesmo tempo, sua busca por uma imagem pura, livre de todo acidente, chegou a um estágio crucial. Fascinado pelo exemplo de Cézanne, Picasso procurava um “agora que está ainda” (Nunc stans), algo no que ele possa se agarrar num mundo de vertiginosas mudanças. A meta do Cubismo era encontrar uma forma de agarrar a realidade, o mundo dos objetos, em termos intemporais. Não havia mais lugar para formas “jovens”, para o estágio de transição simbolizado pela infância. Nas palavras de Spies, a idéia de crescimento biológico e psicológico deixou de interessar. Entretanto, se Picasso abandonou a infância como tema, ela passou a ser um norte para a busca de sua arte: a atitude profundamente infantil conhecida como “primitivismo”. Acontece também uma virada na direção da arte não-européia. Mas o desinteresse em relação à criança corresponde à fase do inicial do Cubismo, os temas começaram a se multiplicar novamente. Então a criança volta a ser um motivo de pintura (2). (o vídeo acima é uma animação, não corresponde ao painel original)

As Crianças Mortas


Picasso teve 2
mulher
es "ofic iais",
mais 7 clandestinas
, além de muitas amantes
e 4 filhos


Pode-se procurar por toda a obra de Picasso sem encontrar um auto-retrato dele junto com seus filhos. A única exceção são desenhos com nanquim feitos na década de 50 do século passado. Mesmo assim, eles mostram silhuetas de Picasso, Françoise (uma de suas esposas), Paloma, e Claude como se fossem fantasmas. Paolo desapareceu da arte do pai pouco depois do desenho ter sido feito. Por algum tempo, crianças só apareciam em grupos mitológicos no contexto de cenas de praia, retratos não reapareceram até o final dos anos 30. Maya aparece em vários desenhos e pinturas, representada através de um estilo bem distinto daquele com o qual Picasso pintou Paolo. O pintor não deixou traços da vida em família. Certa vez, uma crise entre o artista e Olga (uma de suas esposas) explodiu. Picasso deixou escritos comentários que fazem alusão à segurança pré-natal, um desejo de retornar ao útero. E desta forma ele se identificava com Maya, sua próxima filha, que Marie-Thérèse Walter (amante com quem Picasso teve dois filhos; ignorada pelo mestre, suicidou-se) ainda estava carregando na barriga. Como disse Spies, “os textos que [Picasso] escreveu na época indicam que a infância aparecia como um paraíso tentador, do qual ele próprio sempre fora excluído (3). (imagem abaixo, à direita, Garoto com Lagosta, 1941)

As crianças que Picasso pintou e desenhou em Royan estão entre corpos e rostos mais distorcidos (4)


No final da década de 30, Picasso continuava a empregar o idioma que havia desenvolvido em Guernica (1937). A presença de uma criança neste painel sublinha o fato de que a infância em sua obra não estava restrita a fases idílicas e retratos tradicionais. Guernica transmite uma impressão global de ameaça e pânico, embora tenha sido realizada como uma mensagem contra a guerra. Um dos elementos dessa mensagem é a mãe chorando com a criança morta, uma imagem que aparece pela primeira vez na obra de Picasso (5). Spies observou que, desse ponto em diante, crianças aparecerão em cada uma de suas pinturas “históricas”. Além de Guernica, The Charnel House (1945), Massacre na Coréia (1951) (imagem acima, à esquerda), Guerra e Paz (1952) e Estupro da Sabina (1963), todas incluem crianças mortas ou em perigo iminente.


Apesar de sua função nessas telas históricas, Spies insiste que algumas crianças parecem fechadas em seu próprio mundo seguro. Isso seria válido inclusive para o tempo que Picasso ficou em Paris durante a ocupação nazista. Em 1939, quando a guerra estourou, ele escapou para Royan, na costa francesa do atlântico. Uma serie de cabeças mortas e naturezas mortas, com crânios de animais mostrando um grau de deformação física sem precedentes, datam de sua estada ali. Entretanto, Spies sustenta que os rostos deformados não carregam uma mensagem psicológica negativa. A opinião muito comum (na época como agora) de que a obra de Picasso nada mais é do que um monte de máscaras distorcidas demonstra apenas como as pessoas são tentadas a confundir o estilo com o conteúdo (6).



Notas:

Leia também:

Os Auto-Retratos de Francis Bacon
Retrato e Auto-Retrato
Arte do Corpo: Carolee Schneemann e o Olho/Corpo
A Face do Mal (I), (II), (final)
Purgatorium: a História de Uma Palavra (I), (II), (final)
A Fabricação do Herói (I), (final)
As Mulheres de Andrzej Wajda (I)
, (II), (III), (IV)
Fellini e a Psicanálise (I), (final)

1. SPIES, Werner. Picasso’s World of Children. New York/Munich: Prestel-Verlag, 1994. P. 41.
2. Idem, pp. 43, 44 e 46.
3. Ibidem, pp. 64-5.
4. Ibidem, p. 73.
5. Ibidem, p. 65.
6. Ibidem, p. 66 e 74.


Postagens populares (última semana)

Quadro de Avisos

Salvo quando indicado em algum ponto da página ou do perfil, este blog jamais foi patrocinado por ninguém e não patrocina nada (cursos, palestras, etc.), e jamais "doou" artigos para sites de "ajuda" a estudantes - seja no passado, presente ou futuro. Cuidado, não sejam enganados por ladrões da identidade alheia.

e-mail (no perfil do blog).
....

COMO CITAR ESTE BLOG: clique no título do artigo, verifique o link no alto da tela e escreva depois do nome do autor e do título: DISPONÍVEL EM: http://digite o link da página em questão ACESSO EM: dia/mês/ano

Marcadores

Action Painting Androginia Anorexia Antigo Egito Antonioni Antropologia Antropologia Criminal Aristóteles Armas Arquitetura da Destruição Artaud Arte Arte Degenerada Arte do Corpo Auto-Retrato Balthus Bat Girl Batman Baudrillard Bauhaus Beckmann Beleza Biblioclasta Body Art botox Bulimia Bullying Buñuel Burguesia Butô Cabelo Carl Jung Carnaval de Veneza Carolee Schneemann Castração Censura Cesare Lombroso Cézanne Chaplin Charles Darwin Charles Le Brun Chicago Cicciolina Ciência Ciência do Concreto Cindy Sherman Cinema Claude Lévi-Strauss Claus Oldenburg Clifford Geertz Clitoridectomia Close up Comunismo Corpo Criança Cristianismo Cubismo Cultura Da Vinci Dadaísmo David Le Breton Descartes Desinformação Déspota Oriental Deus Diabo Distopia Erotismo Eugenia Europa Evgen Bavcar Expressionismo Fahrenheit 451 Falocentrismo Família Fascismo Fellini Feminilidade Feminismo Ficção Científica Filme de Horror Fisiognomonia Fluxus Fotografia Francis Bacon Francisco Goya Frankenstein Franz Boas Freud Frida Kahlo Fritz Lang Frobenius Futurismo Games Gaudí Gauguin George Lucas George Maciunas Giacometti Giambattista Della Porta Gilles Deleuze Giuseppe Arcimboldo Goebbels Grécia Griffith Guerra nas Estrelas H.G. Wells Herói Hieronymus Bosch História Hitchcock Hitler Hollywood Holocausto Homossexual HR Giger Idade Média Igreja Imagem Império Romano imprensa Índio Infibulação Informação Inquisição Ioruba Islamismo Jackson Pollock Jan Saudek Janine Antoni Johan Kaspar Lavater Judeu Judeu Süss Kadiwéu kamikaze Konrad Lorenz Koons Ku Klux Klan Kurosawa Le Goff Leni Riefenstahl Livro Loucura Loura Lutero Madonna Magritte Manifesto Antropofágico Maquiagem Marilyn Monroe Marketing Máscaras Masculinidade Masumura Maternidade Matisse Max Ernst Merleau-Ponty Michel Foucault Mídia Militares Minorias Misoginia Mitologia Mizoguchi Morte Muçulmanos Mulher Mulher Gato Mulher Maravilha Mussolini Nascimento de Uma Nação Nazismo Nova Objetividade Nudez O Judeu Eterno O Planeta Proibido O Retrato de Dorian Gray O Show de Truman Olho Orientalismo Orson Welles Orwell Oshima Ozu Palestinos Panóptico Papeis Sexuais Papua Paul Virílio Pênis Perdidos no Espaço Performance Picasso Piercing Pin-Ups plástica Platão Pornografia Primitivismo Privacidade Propaganda Prosopagnosia Protestantismo Psicanálise Publicidade Purgatório Puritanismo Racismo Razão Religião Retrato Richard Wagner Rita Haywood Robert Mapplethorpe Rosto Sadomasoquismo Salvador Dali Sartre Seio Semiótica Sexo Sexualidade Shigeko Kubota Silicone Simone de Beauvoir Sociedade Sociedade de Controle Sociedade Disciplinar Sociedades Primitivas Sprinkle Stanley Kubrick Suicídio Super-Herói Super-Homem Surrealismo Tatuagem Televisão Terrorismo Umberto Eco Vagina van Gogh Viagem a Tóquio Violência Walt Disney Woody Allen Xenofobia Yoko Ono Yves Klein

Minha lista de blogs

Visitantes

Flag Counter
Creative Commons License
This work is licensed under a Creative Commons Atribuição-Uso não-comercial-No Derivative Works 3.0 Brasil License.