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Roberto Acioli de Oliveira

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25 de fev de 2011

Freud Explica Alien?



Os invasor
es
espaciais
, os índios
nos filmes de faroeste e
as personagens femininas
, evidenciam a dificuldade
do
Ocidente pensar a alteridade, o Outro,
o não-eu
(1)



Histeria Anti-Sexual Masculina

De acordo com Alexandre Hougron, o universo da ficção científica é o lugar perfeito para entender como se dá a reedição de fobias sexuais misóginas e machistas no cinema de entretenimento. A ficção científica, afirma Hougron, é fascinada pela sexualidade não natural – focada no oral e no anal e não voltada para a reprodução. Ele vê uma relação entre essa hipótese e o fato de que em algumas regiões dos Estados Unidos, maior fabricante e também maior consumidor de ficção científica, sodomia e sexo oral sejam passíveis de prisão. A natureza dos monstros estaria em relação direta com a representação desta “sexualidade maldita”. A criatura de Alien, o Oitavo Passageiro (Alien, direção Ridley Scott, 1979) é uma perfeita combinação de sadismo oral e anal. Engendrada a partir da oralidade, ela foi ejaculada dentro da boca da vítima por um tentáculo. Eventração: a criatura sai pelos intestinos de um homem (explodindo a barriga dele, antes de chegar ao ânus), que não tem útero e vagina. Possuindo boca telescópica que sai da mandíbula cheia de baba, Alien é a encarnação de uma “oralidade sádica”. Como seu metabolismo é à base de silicone, o corpo humano (a base de carbono) não serve de alimento. Logo, Alien é um produto de nossas fobias, uma cristalização do puritanismo anti-sexual. Não tem olhos e sua cabeça alongada lembra um grande pênis devorador (2).

Quando Alien
sai da barriga do
astronauta
, nos punimos
por olhar (olhando para o

outro lado). Não agüentamos
ver a desintegração da fase
em que o recém nascido

imagina seu corpo como extensão da mãe (3)


A criatura de Alien lembra um demônio saído direto da iconografia cristã. Dentuço, cauda, garras e atributos dos dois sexos (pênis e seios) às vezes em lugares insólitos (como os tubos fálicos nas costas) (imagem acima). Até mesmo as torturas que os diabos medievais aplicam a suas vitimas estão presentes. As mesmas fobias insuportáveis de esmigalhamento ou de possessão já estão lá. Uma transformação simbólica dos prazeres orais e anais em atos de crueldade só se poderiam interpretar em termos religiosos cristãos. A gratuidade dessas “perversões” também é estigmatizada porque na ótica puritana os prazeres orais e anais são inúteis, já que não servem à reprodução. A criatura é uma espécie de mensageiro do sofrimento e da punição – como os demônios medievais. A criatura de Alien não está sozinha nessa fixação da ficção científica a um estado oral ou anal. Muitos monstros e/ou extraterrestres devoram, esmigalham, engolem, penetram, perfuram ou parasitam – um verdadeiro delírio oral-anal (4).

Com relação ao “pecado da felação”, temos o exemplo de A Experiência 2 – A Mutação (Species II, 1998). Comandante volta de missão em Marte infectado por DNA alienígena, sua única missão é procriar com uma humana. No final do filme, pretendendo copular com uma humana já transformada em alien-zumbi, a cabeça dele se abre e um grande tentáculo entra pela boca da mulher – ela é morta ao mesmo tempo em que é fecundada. Conclusão: a felação é a morte. O elemento escatológico também está presente nesse universo religioso de recusa neurótica do sexo - o fecal substitui o sexual e lhe serve de metáfora. Como quando para não falar diretamente sobre a mulher e seu erotismo, os garotos fazem piadas escatológicas, remetendo ao oral e anal. Em termos freudianos, essa sexualidade imatura está na fronteira da sexualidade adulta e assumida (genital). Ao mesmo tempo em que os filmes denunciam o puritanismo também o reforçam (5).



Ao mesmo tempo
em que denuncia o
puritanismo
, a FC
também o reforça




Mulheres normais não estão presentes, elas amedrontam bem mais do que as mulheres-monstro. Como o insecto-fêmea gigante em Alien 2 (1986), que produz larvas e parasita o homem. Essa fêmea é a encarnação da “mulher má” do universo cristão. Segundo a psicanalista americana Ednita Bernabeu, a mulher-mãe amedronta mais do que a mulher-objeto sexual. A ficção científica evidencia uma sexualidade pré-adolescente (anal e oral), mais do que adulta (genital). A fobia misógina encontra uma representação em Alien 2, onde uma fêmea-mãe gera larvas sem a intervenção de machos. Essas larvas vão em seguida infectar os homens. Personificação dos medos masculinos em relação à mulher? Medo da castração, medo de ser penetrado por seu “dardo”, por onde ela irá injetar suas larvas. Ambivalência sexual, um dardo que penetra suas vítimas e que também injeta crias. A personagem de Ripley em Aliens 2 é a mulher guerreira casta, a Joana d’Arc, antítese da mulher-monstro. Como os homens estão fora da briga entre ela e a criatura, estão salvos em sua pureza. Ripley só tem dois interlocutores, um gato e um robô – este, assexuado, puro por definição. O homem-robô, “homem do futuro” aponta para o não compromisso com o Outro. Sexualidade, punição e monstros estão ligados em nossa imaginação (6).



A sexualidad
e, na
ficção científica
, é
sempre pervertida




A mulher está fora! Na verdade Ripley, a astronauta que protagoniza toda a série Alien, não é outra coisa senão um alienígena. Em Guerra nas Estrelas (Star Wars), também não há lugar para uma mulher de verdade (sexuada), apenas para uma irmã ou uma guerreira (alguém cuja sexualidade não ameace). A mulher jamais é uma companheira, e raramente é mãe. O monstro é a encarnação dos medos sexuais do homem ocidental puritano (castração/penetração/medo da “vagina dentada”/medo do pênis). As criaturas presentes na ficção científica podem ser classificadas em monstros da oralidade (a criatura de Alien, as formigas gigantes de O Mundo em Perigo [Then, 1954] e os dinossauros de Jurassic Park [1993]), ou da analidade (A Bolha [The Blob, 1958] e os alienígenas moluscos com tentáculos-pênis). Alguns, como a criatura de Aliens, estão nas duas categorias. Isto quer dizer que os monstros se encaixam numa fixação no momento pré-genital (pré-sexual). O puritanismo só permite a sexualidade no estágio infantil e perverso (sádico), onde ela não desabroche e não incomode. Não há erotismo: sexo na ficção científica só com perversão!(7) (todas as imagens deste artigo são de Alien, o Oitavo Passageiro)

A Carne e a Sexualidade 



A maternidade
da
mulher e, portanto,
sua sexualidade
, constitui
uma das importantes
fontes de imagens
horripilantes
(8)



A falta de carne talvez advenha do caráter pouco verossímil das estórias da ficção científica, assumindo uma postura evasiva: fugindo da materialidade, ela escapa da sexualidade, uma de nossas mais importantes âncoras no mundo real. A fobia em relação à penetração presente em muitos alienígenas cheios de tentáculos lembra sintomas de vaginismo, frigidez, impotência ou histeria sexual. Segundo Hougron, esses sintomas raramente implicam um problema fisiológico. Implicam uma representação problemática de si e de seu próprio corpo. Essa representação conduziria a uma imagem terrificante ou repugnante do Outro. Desta forma, a questão da sexualidade segue ignorada pela ficção científica – a não ser por uma abordagem indireta. Exceção a Philip José Farmer em Open to Me, My Sister, um homem reluta em aceitar a sexualidade extraterrestre porque ela o feminilizaria, já que ele deveria receber uma pequena serpente (falo) pela boca - ainda que isso fosse de uma sedutora mulher alienígena. Categorias ético-sexuais cristãs: uma questão em torno da idéia de felação-sodomia que remete à abominação de Sodoma e Gomorra.


Houve uma
transferência do
antigo simbolismo
dos
demônios e da mulher
para os monstros da
ficção científica?



De acordo com Alexandre Hougron, existe um componente puritano histérico que perpassa toda a construção simbólica das estórias e da constituição física dos monstros alienígenas. Embora pareça que ele está chamando todos os fãs de doentes mentais, na verdade isso não seria de forma alguma exclusivo da ficção científica. Não são apenas esses fãs que podem apresentar distúrbios de personalidade... A fobia anti-sexual encontrou campo fértil na concepção cristã, embora não tenha sido sua fonte original. Na opinião de Hougron, o puritanismo talvez seja resultado da incapacidade de todo um grupo de homens (o clero), de toda uma sociedade, em resolver seu complexo de Édipo. O que aconteceu foi uma transferência da antiga simbólica dos demônios e da mulher para os monstros da ficção científica. Não foi tanto o cristianismo em si o criador de toda a interdição sexual. Foram os puritanos sintetizaram uma mensagem de exclusão de elementos considerados impuros (9). É um problema dos norte-americanos, grandes produtores e consumidores de ficção científica. Hougron afirma que europeus, e franceses (para quem ele parece escrever em especial), não têm essas visões puritanas neuróticas!

Notas:

Leia também:

As Mulheres de Luis Buñuel
Luis Buñuel, Incurável Indiscreto
As Crianças de Theo Angelopoulos
Herzog, o Conquistador do Inútil
Roma de Pasolini
O Avô Alemão do Faroeste Espaguete
Arcaísmo e Cinema no Evangelho de Pasolini
Kieslowski e o Outro Mundo
As Mulheres de Andrei Tarkovski (I)
Arte do Corpo: Veruschka e a Pele Nua

1. HOUGRON, Alexandre. Science-Fiction et Société. Paris: PUF. 2000. P. 12.
2. Idem, pp. 145-6.
3. CREED, Barbara. The Monstrous-Feminine. Film, Feminism, Psychoanalysis. New York: Routledge, 1997. P 29.
4. HOUGRON, Alexandre. Op. Cit., pp. 146-7.
5. Idem, p. 148.
6. Ibidem, pp. 149, 150-2.
7. Ibidem, pp. 152-3.
8. CREED, Barbara. Op. Cit., p. 50.
9. HOUGRON, Alexandre. Op. Cit., pp. 155-8. 


24 de fev de 2011

Este Corpo Não Te Pertence: A Mulher Fascista


Organizar Para Controlar

Benito Mussolini tinha fama de mulherengo, de homem macho. É parte do folclore dizer que muitas mulheres deixavam suas calcinhas nas praças, depois dos discursos dele - seria Berlusconi, o atual Primeiro Ministro/mulherengo italiano, a reencarnação de Benito? Entretanto, a conversa mudava quando o assunto eram os direitos das mulheres italianas enquanto cidadãs. No início do governo de Mussolini houve uma contribuição feminista. Entretanto, em 1922, a participação feminina não passava de 2%, e não havia mulheres na liderança (1) - embora isso ocorresse também noutros partidos políticos, já que as italianas não tinham direito a voto. O fascismo recrutou muitas descontentes com o feminismo, e organizações de mulheres fascistas rivalizavam com as similares católicas. De acordo com Michael Mann, o fascismo precisava organizar as mulheres para controlá-las. O controle se deu de forma não-coercitiva, através de atividades sociais e ritualizadas. O fascismo às homenageava como “reprodutoras da nação”, os “anjos do coração”. Embora discursassem com textos escritos basicamente pelos homens, pela primeira vez as mulheres foram projetadas no cenário nacional. O que o poder queria das mulheres do povo, era o bom e velho apoio passivo.

.
Em Um Dia
Muito Especial,
Scola  mostrou  que
tipo   de   função   era
reservada à mulher/
mãe italiana na

  era fascista


Em 26 de maio de 1927, naquele que ficou conhecido como Discurso da Ascensão, Benito Mussolini mostra sua obsessão em relação às taxas de natalidade. Naquela época a política imperialista de Mussolini (e de muitos outros), mas também a política industrial em geral, era muito dependente de uma alta taxa de natalidade – uma preocupação nacionalista desde 1923. O casamento, dizia o nacionalista Alfredo Rocco, não se dá em benefício dos cônjuges, mas como ato de dedicação e sacrifício, pois a família é o núcleo de fundação da sociedade. O Futurismo de Marinetti também deu sua contribuição com a introdução do conceito de mulher-raiz. Em 1926, nasce uma discussão entre cientistas e assistentes sociais sobre a necessidade de exames pré-matrimoniais visando garantir a compatibilidade genética dos cônjuges e a “saúde da raiz itálica” (2). Seja para dispor de gente para colonizar áreas conquistadas, ou dispor dos soldados que conquistarão novas áreas, o contingente populacional era um fator crucial. Portanto, naquele dia de maio, o famoso discurso de Mussolini selou o futuro da condição feminina no regime fascista.



Em     Amarcord,
Fellini   nos   mostrou
a  mentalidade  do  povo
italiano durante o fascismo
.
Gradisca
,   por   exemplo,
adorava os homens em
 
uniformes militares





A demografia e a raça eram as duas preocupações principais do governo. Considerada questão de saúde pública, o aumento da taxa de natalidade fez da demografia o maior inimigo dos donos de bar - assim como das camisinhas, do aborto e do trabalho feminino fora de casa. Sob a bandeira da luta contra o alcoolismo, Mussolini chegou a fechar 25 mil bares. A lógica machista por trás foi fazer com que os homens largassem o vinho e o carteado, indo procurar outro passatempo debaixo dos lençóis. Mussolini também questionava o que considerava incompetência do governo liberal por não dar devida importância à questão demográfica como base da força econômica de uma nação. Todos os métodos contraceptivos foram condenados, o que agradou ao Vaticano. Mas como fazer com que as mulheres largarem os empregos, voltarem para casa e assumirem os velhos papeis de mãe-esposa-arrumadeira? Em Um Dia Muito Especial (Una Giornata Particolare, direção Ettore Scola, 1977), acompanhamos o dia de uma dessas criaturas. O fetiche de Gradisca por uniformes militares em Amarcord (direção Federico Fellini, 1973) deveria facilitar bastante o trabalho dos fascistas. (no vídeo abaixo, Amarcord. A seqüência mostra a visita de um oficial fascista, Gradisca é a morena de roupa e boné vermelhos. Pode-se notar que eles estão trotando ao invés de marchar. Aqui Fellini fez alusão ao costume do fascista Achille Starace, que achava que assim seria identificado como um homem enérgico. A certa altura, um deles faz alusão ao fato de que Mussolini tem “colhões”)


Todo o peso da política demográfica recairá sobre os ombros das mulheres, fascistas ou não. Em 1929, o programa demográfico fascista é lançado: 1) desestímulo às migrações para o exterior e as cidades; 2) estímulo à natalidade; 3) proteção da maternidade e da infância. Mussolini propagou a idéia de que a baixa taxa de natalidade colocaria em risco a civilização italiana. Os médicos foram induzidos a “demonstrar” que as mulheres que tinham filhos eram mais belas e saudáveis. A Universidade de Roma realizou uma pesquisou e concluiu que a elegância no vestir tem reflexos negativos na fecundidade. Além do mais, como a maioria dos frutos da natalidade deveria tornar-se soldado, era melhor que elas tivessem filhos homens. A mulher passa a ser considerada a depositária da pureza racial italiana, função articulada à de “mãe responsável”. Quer dizer, ela deve estar em casa criando marmanjos saudáveis para entregar ao Duce. A eugenia está por traz dessa busca de “incremento qualitativo e quantitativo da raça”. Apesar disso, ressaltou Bosworth, o racismo fascista tinha um sentido mais espiritual e subjetivo do que no caso dos nazistas. As medidas legislativas que se apresentaram como protetoras, na verdade ajudaram a construir a gaiola que isolou a mulher, subordinando-a ao homem.

O Dia das Mães Italianas




A ditadura fascista
se proclamava um Estad
o
do bem-estar social

R. J. B.
Bosworth (3)




Instituída em 1925, a Agência Nacional para Mães e Crianças (Opera Nazionale Maternità e Infanzia, ONMI) (4), pensada pelos liberais e Católicos, era ligada ao Partido Fascista e seu objetivo era prestar assistência às mães necessitadas e à infância abandonada. Fornecia-se auxílio também as mães de filhos ilegítimos. Entretanto, sustenta Vicini, o objetivo seria mais ligado às idéias eugênicas do que a qualquer outra coisa: acreditava-se que o aleitamento no seio materno (impossível num orfanato) reforça a saúde do filho. Portanto, mesmo as mães com filhos ilegítimos devem fornecer à pátria homens fortes. As mulheres desempenhavam também o papel de propagandistas da ONMI, pois entravam nas casas para difundir as idéias de Mussolini sobre os deveres da maternidade, sobre a eugenia, sobre a hierarquia entre os sexos. Pelo menos durante a época de Mussolini, a instituição jamais chegou a ser efetiva fora do papel.



A política

de Mussolini para
as mulheres não passava 
de uma tentativa de melhor administrar a dominação dos
homens sobre elas. Nisso ele
não   fez   diferente   de
nenhum Estado no
Ocidente




Em 1933 foi instituída a Giornata della Madre e del Fanciullo. Em 1934 a revista Almanacco Della Donna Italiana relembrou o evento como um momento de festejo e glorificação das mães e a maternidade. Uma exaltação do que constitui o maior “mérito da ração”: a fecundidade. A revista lembrou ainda a distribuição de presentes às famílias numerosas e as informações sobre aleitamento e higiene. Contou-se ainda com exibição de filmes de educação demográfica e recreação, para a mãe e o filho. Mussolini em pessoa daria um prêmio em dinheiro para os 92 casais mais férteis! A Giornata aconteceu durante o Natal, o objetivo era aproximar-se da festa cristã e capturar sua aura sacra. De acordo com Bosworth, apesar de realizações como a Agência Nacional para Mães e Crianças, o que poderia parecer um Estado do bem-estar social fascista não passava de uma preocupação indireta da liderança patriarcal. No discurso do Dia da Ascensão, Mussolini explicitou o papel crucial da demografia em seu projeto político. Os italianos bebem demais, ele dizia – embora tenha feito o mesmo na juventude (5). Mussolini chegou a dizer que a industrialização e rápida urbanização estavam esterilizando os italianos. Apesar de haver criticado a vida no campo, ele passou a defender a ruralização como fonte da vida demograficamente produtiva (6).



Nem só de fundamentalismo
islâmico é feita a misoginia






Augusto Turati, secretário do Partido Fascista e racista de carteirinha, dizia que a raiz da raça tinha de ser protegida. A família, a educação da mulher e o “problema da raça” eram as questões fundamentais de litígio dos Fascistas. Em relação à crítica de Mussolini à metrópole, talvez seus projetos de cidade espalhados pela Itália fossem uma resposta. A reurbanização de Roma levada a cabo por ele, abrindo avenidas e botando abaixo bairros medievais para permitir seus desfiles militares, seria uma solução? Mães Italianíssimas, assim foram chamadas as italianas residentes no exterior - que o Partido chamou para terem seus filhos na Itália. Mas a estrutura do projeto era precária, italianas pobres em outros continentes dificilmente encontravam ajuda. Outro problema foram as trabalhadoras. Como trazê-las de volta para dentro de casa? O problema de mandá-las de volta para os afazeres domésticos é que os industriais precisavam delas. De qualquer forma, elas eram mais maleáveis porque menos sindicalizadas. Elaboraram-se dois princípios para a política fascista do trabalho: 1) o Estado deve tutelar as mulheres enquanto mães ou futuras mães; 2) as mulheres devem trabalhar, mas seria melhor se o fizessem em casa.



Notas:

Leia também:

Fellini: Infantilismo e Fascismo na Sociedade Italiana

As Mulheres de Federico Fellini (I), (II), (III), (IV), (V), (VI), (VII), (VIII)
Fellini e a Orquestra Itália
Mussolini e a Sombra de Auschwitz

1. MANN, Michael. Fascistas. Tradução de Clóvis Marques. RJ/SP: Record, 2008. Pp. 141-2.
2. VICINI, Sergio. Fasciste. La Vita Delle Donne nel Ventennio Mussoliniano. Milano: Hobby & Work, 2009. Pp. 23-4, 27-8, 29, 31, 35.
3. BOSWORTH, R. J. B. Mussolini's Italy. Life Under the Fascist Dictatorship, 1915-1945. New York: Penguim Books, 2006.  P. 442.
4. VICINI, Sergio. Op. Cit., pp. 36, 40-1.
5. BOSWORTH, R. J. B. Op. Cit., pp. 245.
6. VICINI, Sergio. Op. Cit., pp. 25, 42, 44. 


23 de fev de 2011

A Mulher Molusco e a Moralidade Ilusória



Algumas pessoas
 acreditam que para
c
onhecer o espírito
norte-americano
temos que assistir
filmes de faroeste
...
.

Quando Dois Mais Dois é Igual a Cinco

Algumas pessoas acreditam que, indiretamente, monstros, répteis e aliens nas telas da televisão e do cinema seriam projeções da sexualidade humana. São estes monstros que o puritanismo pretende manter fora dos corpos. A sexualidade feminina dos monstros não estaria num erotismo vulgar, mas na figura de um negativo. Na opinião de Alexandre Hougron, eliminar monstros e alienígenas dos filmes de ficção científica e horror equivalem a uma castração. O protestante puritano norte-americano só poderá deixar ver o monstro (da sexualidade) em função da maternidade. Desta forma, sua mulher jovem e loura continuará casta – a concepção a purificará. A loura constitui um arquétipo de “pureza puritana” e de virgindade (1). Mas em Alien, o Oitavo Passageiro (Alien, 1979), nossa heroína é morena! O que isso poderia significar? Bem, talvez a opção pela morena se possa explicar pelos filmes da seqüência: ela acaba virando a mãe de um dos monstros-moluscos-gosmentos. Não esqueçamos que no primeiro filme temos uma loura. É a astronauta Lambert, que tem um temperamento passivo e hesitante. Medrosa, ela corresponde ao estereótipo puritano da loura: não serve para agir, somente para reproduzir. Morrerá, sugestivamente, com a penetração do tentáculo do monstro entre as pernas – sendo punida com a morte por permitir uma penetração cujo objetivo não é reprodução. (imagem acima, o monstro faz mais uma vítima na tubulação de ar, um lugar que se assemelha a um canal vaginal; abaixo, à direita, as entradas na vane alienígena lembram vaginas)


.
Feministas
norte-americanas
id
entificam a criatura de
Alien com a mulher-ogro
castradora dos mitos
arcaicos
(2)



Outra categoria sexual da ficção científica são os aliens moluscos. São bissexuais ou tem um sexo indistinto, encarnando pulsões ambivalentes. Feministas americanas identificam a criatura de Alien com a mulher – castradora dos mitos arcaicos. Todas essas leituras nos levam a uma construção de natureza histérica, fruto de um simbolismo cristão (3). Hougron tem uma opinião negativa inclusive em relação ao próprio H.R. Giger. Criador do monstro, Giger estaria demonstrando com seus desenhos de pesadelo e penetrações monstruosas como somos marcados pelos códigos morais dos quais queremos supostamente nos libertar: o sexo em suas ilustrações é simultaneamente infernal, patológico e insalubre. Ou melhor, Giger reintroduz o universo puritano ainda que pareça romper com ele ao desenhar o interdito. A questão é que o interdito não é o oposto, mas parte integrante da histeria puritana. Aliens-moluscos geralmente estão aparelhados com tentáculos. Às vezes esses tentáculos são inseridos entre as pernas (no ânus?) de suas vítimas humanas, outras vezes vão direto perfurar o estômago delas. Muitas vezes os tentáculos extraem substâncias do corpo da vítima, outras vezes injetam. Analogia entre tentáculo-falo, esperma-implante ou esperma-substância alienígena, são recorrentes na ficção científica.




A ficção científica
acaba fazendo o
serviço
da moral puritana






Em Alien, um astronauta aproxima o rosto de um ovo alienígena. O ovo se abre como uma vagina e “ejacula” uma criatura que lembra um caranguejo, ela se prende ao rosto do astronauta enfiando um tentáculo fálico por sua boca – daí a criatura injeta um filhote no corpo do hospedeiro (acima, à esquerda). Esta “injeção nojenta” faz lembrar uma felação - prática sexual que é punida pela lei em alguns estados americanos, mesmo quando praticada por casal legítimo. Mais tarde, esse falo que entrou pela boca sai pela barriga. Como uma simulação de parto, onde o astronauta perde a vida, vemos pular um pequeno monstro em forma de lagarto-cobra, que será ejetado do ventre quente e sangrado do homem como um pênis em ereção. Já adulto, o monstro segue matando todos os astronautas. Em certo momento, a astronauta Lambert encara o monstro. Nós, espectadores, vemos apenas um tentáculo se encaminhar por entre as pernas dela e subir. Ouvimos então seus gritos (de dor ou de prazer?). Na seqüência final, a heroína morena enfrentará o monstro (4). Quando finalmente se descobre que tudo foi um complô (usar a nave espacial para trazer a criatura para a Terra), já é tarde demais. Descobre-se também que o cientista da tripulação era um robô e sua missão era justamente essa. Os três astronautas restantes conseguem dominar e destruir o robô. Então perguntam a ele como destruir o monstro, e o robô afirma que isso é impossível. E completa:

Robô - “Ainda não entende com o que está lidando. Um organismo perfeito. A perfeição de sua
estrutura só é igualada por sua hostilidade”.
Lambert – “Você o admira”.
Robô – “Admiro a sua pureza. Um sobrevivente desprovido de consciência, remorso ou ilusões
de moralidade”.

Notas:

Leia também:

As Mulheres de Luis Buñuel
Luis Buñuel, Incurável Indiscreto
Tarkovski e o Planeta Água
Puritanismo e Ficção Científica (I), (II), (final)

1. HOUGRON, Alexandre. Science-Fiction et Société. Paris: PUF. 2000. Pp. 130-2.
2. Idem, p. 138.
3. Ibidem, p. 137.
4. Ibidem, pp. 136-7. 


Postagens populares (última semana)

Quadro de Avisos

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