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Roberto Acioli de Oliveira

Arquivos

12 de mai de 2009

Abismo Labiríntico


“Oh face estranha aí
no espelho! Companheiro
libertino,
sagrado anfitrião,
oh meu bufão varrido pela dor, 
que responder? Oh vós miríade 
que labutais, brincais, passais,
zombais,   desafiais,   vos
contrapondo!  Eu?
Eu? Eu? E vós?”

Sobre sua própria face num espelho

Ezra Pound



Embora nossa racionalidade negue, somos seres do abismo. Ao percebermos o abismo, nosso lado racional nos faz perder o controle e o tomamos por um delírio, desequilíbrio, desastre, doença. Não é que não seja exatamente assim. O ponto é percebermos que a questão é aprender a entrar e sair de si mesmo, entrar e sair do abismo. Exatamente para percebê-lo como tal e reconhecer o fato de que só sabemos dele quando saímos. Porém, fora dele, sempre o reencontramos – como se nunca o deixássemos.

Saímos dele a cada descoberta, a cada ultrapassagem de barreiras que impomos a nós mesmos e que não percebíamos como nossos verdadeiros algozes. Mas nunca terminamos de sair. Nunca terminamos de nos descobrir em nossos limites e na potência de superá-los.

Hora de sofrimento. Como um renascimento doloroso a cada instante que não reencontramos a saída. Na falta de um mapa, nos guiamos pelos ruídos que roçam nossas lembranças, nossas esperanças, nossos delírios. Ruídos do ser. Ruídos do ser do abismo. Delírios de esperanças, de lembranças, de poder e dominação, de amor e ódio. Ambições.

A posse de si mesmo, de sua alma (1). Ambição de quem pensa que os fantasmas dos quais tenta resgatar a si não são ele mesmo – ou parte dele mesmo, o que seria outra coisa, como uma roupa que se veste e tira, mas sem a qual não nos sentimos confortáveis. Como uma máscara, que se veste e tira, mas sem a qual... Às vezes para sentirmos dó de nossos fantasmas e solidão quando pensamos em abandoná-los. Como se sem nossos fantasmas não houvesse ninguém em casa. Ou, talvez pior, é como perceber que ninguém veio nos ver. (imagem acima, cena de O Carteiro e o Poeta, Il Postimo, 1994, direção de Michael Radford)

Purgados sempre novamente, os fantasmas não param de voltar – pois nunca saíram. Como as bordas do próximo abismo, que sucedem uma à outra. Presença na ausência, nossos próprios fantasmas se misturam àquelas pessoas que odiamos, que amamos, que não sabemos que amamos – sem esquecer os amores impossíveis. (imagem abaixo, autor Luis Fernando Veríssimo, JB, Revista de Domingo, 20/08/89)

Talvez não seja uma questão de encontrar a última saída do abismo – ou o último fantasma. Somos seres da andança. Nômades, apenas vamos. Navegantes sem mapa e sem sextante. A direção, devemos arrancar de nós mesmos, de nossas experiências em nossos abismos, nossas perdições, nossas perguntas sem resposta.

“Temos a arte
para que a verdade
não nos destrua”


Friedrich Nietzsche



Se for a respeito disso ou daquilo que ainda não nos testamos, então é isto que há a fazer. Não fugir da dor, por mais que doa! A recompensa? A posse de si na superação do medo do desconhecido, reconhecendo em nós mesmos o mais desconhecido – portanto o mais imprevisível, mas também e por isso mesmo a maior novidade. (imagem abaixo, um homem, abordado pela Morte, propõe uma partida de xadrez com o objetivo de ganhar tempo nesse mundo; mas ele tem um problema, está perdendo a fé. Cena de O Sétimo Selo, Det Sjunde Inseglet, 1956, direção de Ingmar Bergman)

Ruído mais ensurdecedor do ser, a imprevisibilidade quanto à quando saberemos mais de nós mesmos atordoa nossos sentidos – é a navegação sem rumo certo. O medo da dor nos afasta da imprevisibilidade, confundimos segurança e fim da busca. Sentidos atordoados em nossa sensibilidade e falta de sentido em nossa razão. Haverá sentido a buscar ?

Mas só a aceitação da imprevisibilidade (o imponderável, a novidade) nos leva às respostas. A segurança vem quando se percebe que respostas têm como função nos levar a novas perguntas. Como a saída do abismo não nos leva para fora dele, senão para outras de suas bifurcações. Como um labirinto sem fim. Busca sem fim, mostrará o melhor e o pior em nós. No final, não importa quantas mãos nos foram estendidas pelo caminho, será sempre apenas por nossas próprias que agiremos em direção a nós mesmos!

Uma arte do fazer-se. Como fazer um auto-retrato. Pelas próprias mãos modelar-se e remodelar-se. Um quadro sempre em tinta fresca, um desenho sempre a completar, uma escultura com o barro sempre molhado. Que não se enganem, esculturas em pedra ou ferro de nós mesmos não seriam como auto-retratos mais sólidos, muito pelo contrário. Nossa fluidez não está na tinta fresca ou no ferro duro, mas na força que os materiais têm para intensificar a sensação de si para nós mesmos.

É como jogar consigo mesmo. Ou, reaprender a jogar, reencontrar o caminho das sensações perdidas. Reencontrar o sentido das ações ou, o sentido que há (ou não) em fazer sentido. Uma tensão consigo mesmo e uma atenção aos sinais espalhados e disfarçados no labirinto. Jogar um jogo de dados, onde a certeza não existe. Mas é só quando a certeza não existe que podemos (se não temos medo da incerteza, da novidade) apostar no acaso. Apenas correndo o risco do acaso encontramos por nós mesmos aquilo que nos é próprio. “Lá onde nasce o perigo, cresce também o que salva” (Hölderlin). Ou, como diz Fernando Pessoa...

“O meu olhar é nítido como um girassol. Tenho o costume de andar pelas estradas olhando para a direita e para a esquerda, e de vez em quando olhando para trás... e o que vejo a cada momento é aquilo que nunca antes eu tinha visto, e eu sei dar por isso muito bem... sei ter o pasmo essencial que tem uma criança se, ao nascer, reparasse que nascera deveras... sinto-me nascido a cada momento para
a eterna novidade do Mundo..."

Notas:

1. Na cena final do filme Platoon. “Agora, olhando para trás, eu acho que não lutamos contra nossos inimigos, lutamos contra nós mesmos. O inimigo estava em nós. Para mim a guerra acabou agora, mas sempre estará presente pelo resto da minha vida. Assim como Elias também estará lutando contra Barnes, como Rá falou, pela posse de minha alma. Desde então eu me sinto como uma criança que nasceu desses dois pais. Mas, seja como for, nós que sobrevivemos temos a obrigação de recomeçar. Ensinar aos outros o que aprendemos e... e tentar, com o que restou de nossas vidas, encontrar a bondade e o sentido desta vida”. 

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